domingo, abril 01, 2007

The End


Sem ilusões não há desilusões. Sem metas traçadas não há caminhos fracassados. Sem ilusões e sem metas o Coriscos chegou ao fim. Ao fim de quase 500 posts e mais de 15 mil visitantes - a maior parte por engano, obviamente. Houve dias que superaram as cem visitas - preciosas para massajar a fragilidade do ego - e nunca dias de visita nenhuma. Mesmo quando a vida estava em pause. E o que existia era tão inócuo que não merecia sequer a abertura da janela. Os números, apesar de tudo, revelam pouco, quase nada deste ano e meio.
Os blogues são como as histórias de amor - quase sempre acabam, quase sempre quando há juras de eternidade. E como no amor, é bom enquanto dura. No início, a dependência intelectual encontra prazer no corpo inteiro. Depois, vai esmorecendo, obedecendo a intermitências. Por fim, a liberdade que antes se sentira transforma-se numa prisão. A liberdade de tudo poder dizer, sem condições e sem condicionantes, a vida que se sabe ou que julga saber-se, as opiniões que dispensam sustentabilidade, que podem só atirar-se para uma plataforma sem juíz como quem atira o coração do topo de um precipício. A liberdade de ceder à tentação, que só se percebe irresistível quando se experimenta, de escrever sobre o que antes se criticara: as declarações de amor, de amizade, os episódios que não interessam a ninguém senão a quem os protagoniza, os momentos de fraqueza, os nossos, os dos outros, a vampirização da vida alheia que se reconstrói com bacoco pretensiosismo literário, as saudades do passado e de quase tudo, os medos, os fracassos, as paixões efémeras, as obsessões, as dúvidas, as inquiteções, as férias, as boas, as menos boas. As viagens, o país. O mundo. A política da paróquia; a política da nação. As embirrações. A efervescência. E a partilha do que se , do que se ouve, em casa, em concertos memoráveis, em festivais, do que se no cinema, no teatro - os dramaturgos que nos enchem, os encenadores que nos desarmam -, nas galerias de arte, na rua, do que nos rende, dói, comove, exalta, exaspera, desespera, prende, o que achamos que podemos antecipar ou salvar, sempre com a secreta de esperança de inspirar alguém ou alguma coisa que não se sabe muito bem quem ou o que é. Nem sequer se sabe se o motor da motivação é o outro ou simplesmente o umbigo.
O Coriscos foi essa plataforma alternativa, livre, apaixonada para uma dessas muitas criaturas que não imagina a vida sem escrever. Foi laboratório de escrita, espécie de work in progress numa tentativa desesperada de escrever mais, de escrever melhor, de testar registos, de acelerar a escrita. De perpetuar o momento que não volta. Mas sempre ao sabor do vento. Um espaço de anarquia. Onde era possível nascer e morrer todos os dias. Até ser tão alternativo e livre e apaixonado que o prazer do corpo deixou de acompanhar o desejo intelectual. Transformou-se num espaço irreal, autista, num repositório de verdades dúbias, de vida que não existia senão para ser debitada. E da liberdade ficou só essa dependência vagamente insana. Como se fosse possível cumprir aqui o que não se cumpre, e devia, noutras paragens.
"Somos todos pretensiosos porque todos fingimos ser aquilo que tentamos cumprir". Não é axioma, mas vale a pensar nisto. O Coriscos nasceu em segredo e cresceu à vista de toda a gente. Ganhou amigos, insuspeitos e improváveis. E foi bom enquanto durou. Mas agora o vento sopra para parte incerta. E exige silêncio. Obrigada pela viagem.

13 comentários:

  1. Eu não visitava o "Coriscos" por engano. Cheguei aqui via "Delírios de um comboio Amarelo" e fui parando porque gostava do que lia. E nem sou grande fã de blogues. É uma pena ter terminado!

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  2. Retracta-te imediatamente. Não acabes com isto. Venho cá todos os dias para a minha dose diária de coriscos e temo seriamente que, sem eles, entre em overload de raios. Vá lá, continua a bem da sanidade dos teus amigos.

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  3. :(

    Gostava muito destes Coriscos.
    Saúde,

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  4. Go real slow
    You like it more and more
    Take it as it comes
    Specialize in havin' fun.

    Boa sorte, ate à proxima

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  5. Eu era um leitor assíduo dos textos e espero continuar a ser!

    Gosta do teu saudosismo, da forma implacável como enfrentas políticos (nem sempre concordei!), da forma simples como escreves.

    Continuação de boas escritas, aqui ou noutro sitio...

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  6. As decisões são sempre assim. Fortes, Seguras, Tristes, Saudosas. Perco, também AQUI, um pouco de MIM.
    Deixo-te Eugénio, para (re)pensares em TI:

    Levar-te à boca,
    beber a água
    mais funda do teu ser -

    se a luz é tanta,
    como se pode morrer?

    Gosto de te conhecer, também e muito, aqui.

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  7. A ressaca já dura a demasiado tempo. Espero nova dose, aqui ou noutro sítio. Avisa (não é pedido, é intimição, que os leitores também têm direitos)

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  8. Fechado?, curioso ... cheguei cá hoje. Demasiado tarde. Mas ainda tenho tempo para descobrir alguns textos.

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  9. Eu visito o Coriscos e não é por engano é mesmo assertivamente!

    Até breve!
    Aldina

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