sexta-feira, dezembro 28, 2007

Passagem-de-ano no Gato Vadio


Preste atenção. Bem vistas as coisas é um milagre estarmos por cá. Ou um sacrilégio. Tanto faz. O que é certo é que a tragicomédia desta aventura do Gato Vadio está cada vez mais trágica e menos cómica. Ainda assim queremos partilhar a nossa loucura até ao fim. Passagem de ano 2007/2008. Algarve? Madeira? Ryan Air? Tudo Planos B. Olhem-me só pró cardápio: Gostávamos de ter circo, malabaristas, trapezistas, striptease literário, bailarinas da Sibéria com sotaque da Beira, caviar d' aeroporto, os fatos-de-treino da Ikea para os convidados darem uma mão quando a festa acabar, ainda pensámos trazer a mesa que o Woody Allen reserva no casino de Espinho vai para nove anos, falou-se ao Vasco Pulido Valente para animar a malta com as previsões hiper-óptimistas a que nos habituou para 2008, népias, vai passar o reveillon a repor whiskys na Makro de Alfragide, às duas por três ainda nos impingiam com o The Famous Grouse Vadio, a nossa história até já vem no jornal, ao fim ao cabo isto é só paleio por que não temos nada para lhe oferecer, como de costume aliás, quem sabe umas filhozes mal-amanhadas, torresmos gourmet à la garder, rabanadas de vento é fadado como'ó destino, meia-dúzia de passitas vá que não vá, (também temos sultanas e corintos), mas meu amigo para além da nossa grácil miséria temos só o sonho e uma contagem decrescente pela frente!
Entre a Loucura e a Depressão
Passagem de ano 2007/2008
5$ (estes gajos estão loucos ou deprimidos?)
As reservas devem ser feitas na livraria do Gato Vadio,
Rua do Rosário 281, Porto.

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Benazir Bhutto 1953-2007


Todos sabiamos que acabaria por morrer assassinada: só não sabiamos quando...

terça-feira, dezembro 11, 2007

Manoel de Oliveira: 99 anos

Foto: Inês Gonçalves


"Cada um tem a sua sina e o seu destino. A idade é um capricho. Fazer cinema é uma paixão, algo interior. Bem ou mal feitos, os filmes são uma vocação."
Jornal de Notícias

Crónica de um triste espectáculo

Ao fim dos primeiros vinte minutos, estou ao despique com Rui Rio. O desafio é ver quem boceja mais vezes. Não sei quem ganhou - às tantas, empatámos, mas pelo menos não adormecemos. Nem todos os deputados socialistas poderão dizer o mesmo. Rectifico: devo ter ganho eu, que fiquei até ao fim. Sempre me deu a vantagem de uns bocejos extra.
A Oposição da Câmara Municipal do Porto pediu uma sessão extraordinária da Assembleia Municipal - ocorrida ontem à noite - para debater a situação do Rivoli depois de o Tribunal ter-se pronunciado sobre a ilegalidade que terá estado na origem da concessão daquele Teatro a Filipe La Féria. O PSD estava lá todo, inclusivamente munido de directores municipais, não fosse dar-se o caso de ser confrontado com alguma pergunta cuja resposta poderia não estar na ponta da língua. Estranhamente, o PS esqueceu-se de mandar os vereadores, mesmo aquele que assinou a Providência Cautelar à qual a decisão judicial foi favorável. Apareceu apenas Ana Maria Pereira, quase invisível, mais tarde. A CDU, idem aspas. Apareceu Rui Sá, mudo, já o espectáculo ia avançado. A sessão estava marcada para as 21 horas. Começou atrasada. E às 21.30 horas, confrontado com a ausência de inscrições, já o presidente da mesa, José Pedro Aguiar-Branco, ameaçava encerrar o serão.

Feridos no seu orgulho - oco orgulho partidário, e não das convicções firmes - os deputados começaram a pedir a palavra. Não porque tivessem realmente alguma coisa a acrescentar. Queriam só fazer de conta que estavam realmente a debater o assunto. Pior: queriam fazer de conta, embora não tenham conseguido, que sabiam o que estavam a dizer e que sabiam para onde queriam ir. Não sabiam. Nem uma coisa nem outra. Mesmo como espectáculo, não poderia ter sido mais desolador. Se a entrada fosse paga, eu teria pedido devolução do dinheiro no fim.
Artur Ribeiro (CDU) já tinha inaugurado a sessão, roçando muito ao de leve o assunto que motivara a Assembleia. José Castro (BE) seguiu-se-lhe, enunciando o que considera ser uma "desconsideração" pela própria Assembleia, pela Justiça e pela cidade. Divagações, portanto. São os dois incontornáveis naquele palco. E Justino Santos (PS) limitou-se a ler um texto sobre o historial do Rivoli para justificar a posição socialista. Ao primeiro round, o vazio completo. Nada de novo. Pior, nem uma pergunta dirigida a quem quer que fosse.

Segundo round, o tal para o qual eram necessárias inscrições. No caso, feitas a saca rolhas. Gustavo Pimenta (PS) vai dizer o que já havia sido dito. E acrescenta que o problema não é bem La Féria, nem bem os espectáculos dele, nem bem.... hmmm, bem o problema é.... Sérgio Teixeira (CDU) vai ao púlpito dizer apenas que o silêncio da sala afecta a dignidade do órgão e regressa mais tarde, consolado por acreditar que foi o seu desabafo a motivar a súbita, embora paupérrima, participação dos deputados. José Castro (BE) regressa também para - pasme-se! - ler um texto assinado por Marcelo Mendes Pinto (CDS), ex-vereador da Cultura no primeiro mandato de Rui Rio, tecendo-lhe os maiores elogios. (Em nenhuma outra área que não a da política se passa assim de besta a bestial!) E para acrescentar que o problema não é bem La Féria, nem bem os espectáculos dele, nem bem.... hmmm, bem o problema é.... Justino Santos (PS) regressa também para partilhar com a audiência a sua pessoal agenda cultural e para atestar o quanto gostou - pede perdão a Deus para proferir o pecado - do musical laferiano "Jesus Cristo Superstar", para dizer que até vai com os filhos, na próxima quinta-feira, ver a "Música no Coração" e bem, para acrescentar que o problema não é bem La Féria, nem bem os espectáculos dele, nem bem.... hmmm, bem o problema é....

A cereja não coube ao PSD, porque é difícil eleger uma cereja numa cerejeira repleta de frutos. Ainda assim, Gabriela Queirós (PSD) pediu a palavra para, resumidamente, dizer isto: "Ok, a decisão da Câmara é ilegal. E depois? Ajudem-nos a encontrar uma forma para tornar isto legal". Seria desastroso se tivesse sido apenas isto. Mas a deputada, bem ou mal, populista ou não, atirou números para cima da mesa: 2400 pessoas frequentam hoje diariamente o Rivoli, sendo a previsão anual de frequência de 392 mil pessoas contra as 132 mil verificadas no passado.

Como ninguém havia feito o trabalho de casa, não havia como contestar. E como ninguém sabia o que estava ali a dizer, a fazer, a defender, agarraram-se todos aos números e, eis que, de repente, a Oposição esqueceu-se que o motivo da Assembleia não era nem o serviço público, nem a estratégia cultural da Câmara, nem a formação de públicos. Ontem, não era isso. Porque isso já havia sido vastamente discutido. Mas como eles não sabiam o que era, qualquer casca de banana era boa para escorregar. Escorregaram todos.
Rui Rio, estóico, aguentou-se calado. Com toda a justa propriedade. No lugar dele, também não teria aberto a boca. Abriu apenas uma breve excepção para voltar a explicar a teoria dos 5% das receitas líquidas do Rivoli que La Féria temporariamente não terá que pagar à Câmara. E abalou.

Na assistência, estavam os resistentes que se barricaram no Rivoli. Sozinhos, como se não passassem afinal de um bando de loucos que cismou que o Teatro tem outras obrigações. Os únicos que sabiam o que estavam realmente ali a fazer e a dizer; os únicos que fizeram as perguntas certas. Tarde demais. Já não havia quem lhes pudesse responder. E estava também o povo da cidade. Gente que não tem nada a ver com nada, mas que vai ali como quem ia, em tempos idos, ao Coliseu de Roma. Ver um espectáculo selvagem. Não lhes importa o assunto; importa o quanto se divertem com aquele circo. É um circo.

quinta-feira, dezembro 06, 2007

O património são as pessoas... presentes



Facto: há um Porto que se importa. O Porto de sempre, que dá cara e corpo aos manifestos: seja o Coliseu, o Rivoli, os Aliados, o que há-de vir. Não é o Porto antipoder; é o Porto que deseja um poder dinâmico, construtivo. O Porto que até pode ver o Mundo, mas prefere ver o Mundo no Porto. O Porto que anteontem, apesar do frio, do jantar, do futebol, do dia de trabalho, marcou presença no 11.º aniversário do Património Mundial.
Facto: há um Porto que não se importa. Que se cala, que se abstém, que se acomoda. O Porto que porventura não saberá o que significa ser Porto, segunda cidade do país com Centro Histórico inscrito numa parca lista de riquezas mundiais. O Porto que ignora o dever de ter mais e melhor do que já tem. O Porto que anteontem falhou à chamada. Se o Património são, também, as pessoas, a cidade conta as que às 20 horas se ergueram diante do Palácio da Bolsa. Não importa o que vale a música; importa o que vale a cidade. E a forma, literal, como o Bando dos Gambozinos a abraçou. Conta com as que às 22 horas inundaram o Salão Árabe do mesmo Palácio - os porteiros travaram entradas por, pouco depois, já não caber lá dentro "um grão de areia" - para ouvir uma conferência e duas intervenções musicais. Conta com as que, já depois da meia-noite, andavam à deriva pela cidade à espera que a cidade tivesse alguma coisa para lhes dar. E para receber. Mas a cidade, como antecipou Pedro Burmester, não estava toda lá.
O pianista, a quem coube o momento simbólico da noite, executou 4'33 de John Cage, compositor que citou antes de sentar-se ao piano. "Não quero dizer nada e, no entanto, estou a dizê-lo". Para mim, acrescentou, "isto é poesia". Burmester declamou-a assim em silêncio. E para esse silêncio é preciso coragem. Ao lado da partitura, um cronómetro laranja. Talvez os quatro minutos e 33 segundos mais longos de uma actuação. Ajeita a pauta. Pausadamente. Não tira os olhos do piano, mãos no colo, postura hirta. Ouve-se o flash da câmara fotográfica. Pouco mais. Nem sequer a tosse costumeira. Silêncio há-de convidar ao silêncio. Aí, disse tudo. Alguém ouviu?

terça-feira, dezembro 04, 2007

Porto Património Mundial

Pedro Abrunhosa cantará hoje, não por acaso, a "Balada de Gisberta", música que na história trágica de um transexual assassinado há cerca de um ano nas ruas do Porto por crianças que não deveriam sequer saber o que é matar, conta a vida de uma cidade "de pobreza, de prostituição, de miséria, de abandono, de violência, de desintegração social". O Porto também é isto.

Perdi-me do nome,
Hoje podes chamar-me de tua,
Dancei em palácios,
Hoje danço na rua.
Vesti-me de sonhos,
Hoje visto as bermas da estrada,
De que serve voltar
Quando se volta p’ró nada.
Eu não sei se um Anjo me chama,
Eu não sei dos mil homens na cama
E o céu não pode esperar.
Eu não sei se a noite me leva,
Eu não ouço o meu grito na treva,
E o fim vem-me buscar.
Sambei na avenida,
No escuro fui porta-estandarte,
Apagaram-se as luzes,
É o futuro que parte.
Escrevi o desejo,
Corações que já esqueci,
Com sedas matei
E com ferros morri.
Eu não sei se um Anjo me chama,
Eu não sei dos mil homens na cama
E o céu não pode esperar.
Eu não sei se a noite me leva,
Eu não ouço o meu grito na treva,
E o fim vem-me buscar.
Trouxe pouco,
Levo menos,
E a distância até ao fundo é tão pequena,
No fundo, é tão pequena,
A queda.
E o amor é tão longe,
O amor é tão longe… (…)
E a dor é tão perto.

A provocação de Burmester

Aparentemente, qualquer um poderá executar a partitura de John Cage e tocar a sua faixa 4'33. Mas se for Pedro Burmester a tocá-la, soará diferente. Porventura, soará hoje, no Palácio da Bolsa, no Porto, às 22 horas, como deverá soar. Simplesmente, porque não há música contida nessa partitura. Há apenas silêncio. Literalmente, quatro minutos e trinta e três segundos de silêncio.
A peça "composta" em 1952, consiste numa única instrução destinada ao executante: cumpri-la é não a tocar. Tocando-a. Porque, defendeu o pioneiro da "indeterminação", "tudo o que fazemos é música". E se aí reside a genialidade do compositor americano do século XX, falecido em 1992, semelhante genialidade caberá ao pianista Pedro Burmester. Não porque seja capaz de manter-se inerte diante do piano. Mas porque tendo prometido, no rescaldo de todas as controvérsias que envolveram a Casa da Música, de que é actualmente director artístico, não voltar a tocar no Porto enquanto Rui Rio fosse presidente de Câmara, será capaz de o cumprir, não o cumprindo.
Burmester associa-se à cidade, à celebração do Porto Património Mundial, ao evento apartidário, mas não retira veracidade à afirmação proferida em 2004. No entanto, em 4'33 – gesto criativo considerado absolutamente inovador –, não há só silêncio. Originalmente, a peça pretendeu questionar a própria música enquanto conceito, dirigindo a nossa atenção para o contexto em que a música existe e para a forma como a ouvimos. O pianista – num gesto que há-de ser recordado como provocação – não deverá querer questionar a música. Sobra o contexto em que será ouvida. Ouça quem quiser. O que souber.

Eu imPORTOme


sábado, dezembro 01, 2007

Ginginhas de Lisboa

Lisboa - fim de tarde. Lisboa - Hotel do Chiado. Lisboa - poesia. Lisboa - Inverno. Lisboa - conto de fadas. Lisboa - amor. Lisboa - perdida. Lisboa - mãos dadas. Lisboa - Bairro Alto. Lisboa - nostálgica. Lisboa - início de tarde. Lisboa - amigos. Lisboa - outra vez. Lisboa - teatro. Lisboa -restaurante nepalês. Lisboa - Verão. Lisboa - Berardo. Lisboa - beijos roubados. Lisboa - conversas para sempre. Lisboa - Aldina Duarte. Lisboa - lágrimas na estação. Lisboa - vinho tinto. Lisboa - Jardim da Estrela. Lisboa - guardas-me?. Lisboa - Largo da Graça. Lisboa - ceú estrelado. Lisboa - a correr. Lisboa - só por uma vez. Lisboa - só mais esta vez. E de todas as vezes Lisboa - Lisboa com ginginha.
A ASAE fechou a Casa das ginginhas sem saber que estava a fechar a via verde das minhas passagens por Lisboa. Não é justo.

sexta-feira, novembro 30, 2007

RAP no Y

Ele é sexy. Ele é sexy, repete Kathleen Gomes, o máximo de vezes que consegue, hoje, num longo perfil pergunta-resposta no Ípsilon. Ele tem piada, tem pinta, é um caso de estudo. Tem família e tudo; é benfiquista, o que só o humaniza. De tal forma, que as marcas o escolhem para vivificar coisas inanimadas. Ele é produto que as empresas de consultadoria de imagem - LPM's e Cunhas Vazes- não ousariam trabalhar por ser perfeito assim, tal e qual como está. Ele é invejado pelos pares. E não é bem só por ter piada. É mais por ser inteligente, culto, civilizado. Ele ganha milhares de euros, mas não nos atira com isso à cara. É o neto que as avós gostavam de ter. O rapaz que não se deixa deslumbrar com a televisão, embora a televisão esteja deslumbrada com ele. O guionista que sabe dizer não, mesmo que o apelo venha de Luísa Costa Gomes. Ele tem sentido de gratidão, de humildade, de relativização. Ele é sexy. Porque sabe o que diz. Tem 33 anos. Chama-se Ricardo Araújo Pereira. Sou fã.

quinta-feira, novembro 29, 2007

O mau exemplo do Público

Era a peça que faltava para o puzzle ficar completo. A revista Sábado mostra hoje o que, de certa forma, já se sabia. Nas últimas semanas nunca estiveram em questão os profissionais (goste-se mais ou menos deles) Miguel Sousa Tavares (MST) e Vasco Pulido Valente (VPV) - cada um na sua área -, mas os indivíduos na sua esfera mais íntima (que é também a dos ódios) e à qual, insisto, nunca deveríamos ter tido acesso. Esteve sobretudo em destaque o ódio não exactamente - ou não apenas - de um pelo outro, mas de José Manuel Fernandes, director do Público, por MST. É ele quem, no meio desta vergonhosa feira de vaidades e vacuidades, ganha o prémio da prestação mais indigente.
Pessoalmente, já não achei bonito que o Público tivesse dado quatro páginas a VPV para destilar veneno sobre MST. Não acharia nunca, fossem quais fossem os personagens, porque nunca gostei de circo - nem mesmo quando era pequenina. Nem de palhaços, nem nada. Mesmo. Também não achei particularmente bonito que o Público, de todas as opiniões que a blogosfera dedicou ao assunto, tenha, de forma extraordinariamente enviesada, escolhido os excertos que pareciam aniquilar MST. E agora, na Sábado, eis a cereja, nada bonita.
José Manuel Fernandes revela, sem qualquer pudor, o teor de telefonemas pessoais, desce ao pormenor das expressões (imagino-lhe a expressão e sinto náuseas), e revela, orgulhoso, como há tantos anos perseguia VPV, como estava disposto a fazer tudo para o recuperar enquanto cronista, como estava farto dos caprichos de MST, como nunca lhe perdoou ter que ter levado com ele, como encomendou a VPV a crítica com a liberdade sanguinária dos lambe-botas: escreve o que quiseres, quando e quanto te apetecer. Que vampiro recusaria semelhante proposta? E como, no fim, lhe moldou o título com espadas.
O Público foi um jornal de referência. Passado distante. A partir deste episódio, obviamente pouco ou nada importante, será fácil, ou pelo menos será tentador extrapolar para outros. Para aqueles que importam realmente. E a partir daí deduzir a curva descendente daquele que já foi o melhor jornal do país. VPV e MST podem continuar a insultar-se. Por mim, até podem comer-se vivos no Gambrinus em salvas de prata. O que me custa é que José Manuel Fernandes ainda não tenha percebido que já devia ter abandonado há muito tempo a poltrona de director.

quarta-feira, novembro 28, 2007

Migala - The guilt

If I could for a minute,
succumb to the disaster of everyday,
to let me go, let of cling to...
I guess it would be possible
to crash with one of the strangers
that I cross by the street
and have a premonition of happiness.
But now,
it's sure that I can't,
and probably that's why one ghost comes every night
to rock my stupid guilt,
and why its way's a ring of fire.
And when I finally sleep it's always the same dream,
sand falling fast in a glass bell.
The sand very clean,
the glass so weak.

http://www.youtube.com/watch?v=wUwoVScV1QM&NR=1

terça-feira, novembro 27, 2007

MST responde a VPV na Sic Notícias

Já se sabia que Miguel Sousa Tavares (MST) haveria de responder publicamente a Vasco Pulido Valente (VPV). Só não se sabia onde. Nem quando. Respondeu hoje, na Sic Notícias. E mal. Muito mal. Nos três dias que demorou a reagir, teve certamente tempo para pensar em alguma coisa melhor para dizer - senão por respeito a VPV, pelo menos, por respeito a quem o lê. Alguma coisa que não fosse, apenas, continuar a disparar tiros como se estivesse na caça. No caso, uma caça de recreio infatilóide.
Afirmações como: "Eu nem sabia que ele era jornalista."; "Ele quer ter protagonismo à minha custa."; ou "Não reconheço competência para fazer crítica literária a um romacista falhado." colocam MST ao nível vagamente arruaceiro de VPV. Assim sendo, se um não merece desculpa, o outro não merece condescendência. Até porque havia coisas para explicar. E MST não as explicou. Porque não quis ou porque não soube?
VPV pode ser, em determinadas situações, um tonto. Um desbocado que sente genuíno prazer em dizer mal, às vezes, só porque sim. Prazer em contrariar. E neste caso até pode estar unicamente movido por uma birra pessoal que nos ultrapassa. Mas isso não pode servir para que se lhe questione a qualidade intelectual, porque é intelectualmente desonesto fazê-lo. E também não me parece que alguma vez ele tenha desejado ser romancista. É um historiador, sempre foi. E como historiador, as coisas que diz, filtrando naturalmente o veneno, não podem ser ignoradas.
As quatro páginas que escreveu no Público no passado sábado são, obviamente, questionáveis. Por tudo. Para mim, sobretudo pelo que a opção editorial do jornal diz do próprio jornal. Mas levantou questões, mais de conteúdo do que de forma, a que era importante dar resposta. Até porque se em o "Equador" MST afirmou não ter a intenção de ser, do ponto de vista histórico, rigoroso (e mesmo assim emendou os erros), em o "Rio das Flores" assegurou exactamente o contrário. Que não tenha aproveitado a boleia da entrevista para esclarecer os leitores (onde me incluo), é uma tremenda desilusão.
Em meia hora de conversa [a entrevista foi às 23 horas] não tinha tempo para responder a tudo. Talvez nem tivesse resposta para tudo. Mas à frente de Ana Lourenço, jornalista doce, incapaz de o encostar à parede, podia ter escolhido três ou quatro intems em que se sentisse mais confortável para tentar desmontar a teoria de VPV. Não o tendo feito, para quem não sabe de cor e salteado a História de Portugal (como eu) é mais fácil acreditar no historiador. Como pode MST acreditar que isso não o fará perder potenciais leitores?

segunda-feira, novembro 26, 2007

Jornalismo pop

Gosto mais de Rodrigo Guedes de Carvalho escritor do que de Rodrigo Guedes de Carvalho pivot de televisão. Como gosto mais do ar sério, e nem por isso menos bonito de Ana Lourenço, do que do ar "vejam que sexy que eu estou" de Clara de Sousa. Como gosto mais dos jornais a preto-e-branco com reportagens longas e bem escritas (onde estão?) do que dos jornais com artigos light cheios de caixas de números e fichas de rewind que proliferam agora por aí. Gosto sobretudo mais do jornalismo-jornalismo, sério e objectivo, do que do jornalismo conversa-de-mesa-de-café. E estou farta desta mania de ninguém querer cansar os leitores ou os telespectadores. Por isso, tenho dúvidas, mesmo muitas dúvidas em relação a este Jornal da Noite pop que a Sic colocou agora no ar. Aliás, não tenho dúvidas: não gosto.

domingo, novembro 25, 2007

Antes do fim do Bolhão

Dona Amélia tem dedos gretados do frio. Mãos de trabalho, 65 anos a carregar flores e hortaliças. Logo de manhã cedo. Cinquenta quilos à cabeça, desde que era menina e vinha a pé de Serzedelo, em Gaia, para o Bolhão, no Porto. Pagava dez tostões para poder entrar no mercado. Faziam fila os comerciantes. E fila os clientes. Cinco filhos criados ali, numa caixa de papelão, numa alcofa guardada por baixo da balança da padaria, na madeira dos beirais das janelas. Sempre sozinha, destemida. O marido, emigrado em França, como tantos outros, trabalhava para construir a casa.

Hoje, quando lhe perguntam para onde irá quando fecharem para obras o mercado onde se fez mulher, dona Amélia, olhos doces, húmidos da saudade de um tempo em que “o povo era bom”, não sabe dizer. Só sabe que olhar para os filhos, já formados e casados, os filhos todos unidos, que todos os dias telefonam para saber dela e do pai, é mais importante do que “já não apurar para a despesa”. Ou não saber do que irá viver daqui para a frente. Porque não sabe fazer mais nada e porque, para mais, nem sequer tem reforma. “Ou havia de pagar os estudos aos meninos, ou havia de descontar. As duas coisas não conseguia fazer”. Para onde vai agora? Não sabe. E também ninguém lhe diz. Mas sabe que “se não houver alegria e saúdinha o dinheiro não serve para nada”.

Em dia soalheiro, como o atípico Novembro de agora, o Bolhão quase parece um mercado parisiense. Música francesa mistura-se com pregões de venda, pássaros em bando voam em loop sem abandonar o recinto, perfume de flores e peixe fresco, frutas e leguminosas, cheiro a pão quente, turistas, menos. A comprar, ninguém. “Até me arrepio”, desabafa dona Argentina, 68 anos a cuidar das suas plantas de plástico como se tivessem vida. “O que isto era nestes dias, menina! Não se podia aqui entrar com gente. Agora, morreu. Mataram o Bolhão”.
O Bolhão que quase parece um mercado parisiense. Quase. Porque a quem vende falta o incentivo político para continuar e a segurança de que fazem mais falta elas ali, mulheres de avental e língua afiada, meias de lã em cima de meias de vidro, xaile pelas costas a desafiar os fios gelados da brisa, braços cruzados à espera de quem já não vem, do que um qualquer concentrado de lojas topo de gama, incapaz de distinguir o Bolhão de um qualquer centro comercial.
“Obras sim, centro comercial, não”, sublinha dona Mariazinha, que já foi “remediada e hoje, aos 66 anos, é pobre”. Os clientes desapareceram-lhe com as notícias de insegurança da estrutura, a maioria dos restaurantes chineses que lhe compravam “as verduras lá para as comidas saudáveis que eles fazem” fecharam. Os estrangeiros tiram fotografias com ela que depois lhe enviam com dedicatórias numa língua que ela não entende, mas compram, no máximo, apenas, dois tomates.
Mariazinha havia de ter sido actriz. Não fosse a mãe, na altura, dizer que “as actrizes eram umas curtas”. “A menina desculpe, mas entende o que quero dizer. Outros tempos...”Não foi actriz, mas não perdeu o jeito. É rainha no Bolhão. O marido de uma vida sorri-lhe, amparalha-lhe as brincadeiras. Ela troca as voltas ao infortúnio, à má sorte e nunca pára de sorrir. Não há ali quem não goste dela. “A vida é para a frente, minha querida. Há-de correr tudo bem”.

sábado, novembro 24, 2007

O lodo do Público

A zanga de rapazes entre Vasco Pulido Valente (VPV) e Miguel Sousa Tavares (MST), que ambos fazem questão de exibir na praça pública, já não é muito edificante. Agora, que um jornal faça questão de lhes disponibilizar um ringue do combate - ainda por cima, um suposto jornal de referência - não é só deprimente - é deplorável!
VPV já tinha avisado, em entrevista ao Expresso, na semana passada, que ainda não queria comentar o novo romance de MST, "Rio das Flores" e que todos, brevemente, perceberiamos porquê. A resposta chegou hoje, através do Público que, não fosse dar-se o caso de alguém estar mais distraído, destaca o assunto em grandes parangonas na capa. VPV não faz uma crítica ao livro na sua crónica de última página. Usa quatro (quatro!!!!) páginas do suplemento P2 para discorrer sobre todas as falhas e gaffes, não só da obra, mas também do carácter do autor. Terá o jornal noção do precedente que acaba de abrir?
MST não se dá só mal com VPV; dá-de também mal com o Público - ou o Público com ele, desde que deixou de escrever para lá. Por isso, a maior vingança não vem de VPV; vem justamente do jornal que MST passou dez anos a elogiar com total devoção e cegueira. A VPV, o comportamento já não fica muito bem. Ao Público não poderia ficar pior. Para os leitores é, no mínimo, um insulto.

sexta-feira, novembro 23, 2007

Libração, Cunillé

De que se fala quando não há nada para falar? Tanto faz. Encolhe os ombros no escuro e no cachecol. Tanto faz se a mulher que conheceu no parque onde passeia os cães dos outros volta na noite seguinte. Tanto faz se a estranha que de vez em quando a visita ali no meio dos carrosséis de ferro velho quer realmente ler o livro que lhe oferecera ou se realmente roubara o anel para lhe retribuir o livro. Tanto faz se está frio ou vai chover. Tanto faz se essa mulher deseja mesmo a partilha do seu segredo. O que é? Tanto faz. Tanto faz?

"Libração" é uma texto para duas mulheres (Carla Miranda e Maria do Céu Ribeiro). Sobre duas mulheres. Que precisam falar. Que precisam que as ouçam. Dois corpos quase inertes, com as vidas suspensas não se sabe porquê, à procura de qualquer coisa que também não se sabe bem o que é. A felicidade? É irremediavelmente sobre a solidão. Ou sobre a solidão irremediável. Ou será só a mesma mulher ao espelho? É a mesma coisa. "Libração" é a vida toda em três dias que só existem à noite dentro de uma caixa onde quase não se respira. É a necessidade de alguém entregar-se a alguém, temendo (sabendo?) que antes de dar sequer metade de tudo o que tem para dar, já a outra pessoa está cheia. E estando cheia, como poderá voltar?

É quase um jogo de meninas. Não há outra coisa senão a expectativa de voltarem ali, outra vez, noites-após-noite, àquele parque, que parece de repente ser o único local onde tudo é ainda possível. Onde elas, as duas meninas-mulheres-de-ninguém, podem renascer, reiventar-se, passar talvez a pertencer a alguém. Ou não. Se é um jogo, é terrivelmente desarmante. Comovente.

Na encenação de Cristina Carvalhal, a peça de Lluisa Cunillé parece um doce filme francês. Duas actrizes embrulhadas na fazenda dos casacos, a debelarem-se contra o frio de uma qualquer cidade (Paris?) que há-de imitar-lhes o frio que têm dentro. Carla Miranda, a menina-mulher curiosa, deslumbrada, pueril (Amélie Poulan?), a falar mais por silêncios, silêncios que são socos, do que por palavras; Maria do Céu Ribeiro, a menina-mulher-quase-maria-rapaz, que tem tanto medo como a outra, que precisa tanto de alguém como a outra, que é tão insegura e tão frágil como a outra, mas faz de conta que não. Não queres vir amanhã? Tanto faz. Tanto faz?

Às vezes é preciso tão pouco para fazer uma peça boa....


Libração
Teatro da Trindade, Lisboa
De hoje até 2 de Dezembro
TEXTO: Lluïsa Cunillé; ENCENAÇÃO: Cristina Carvalhal

ELENCO: Carla Miranda e Maria do Céu Ribeiro; PRODUÇÃO: As Boas Raparigas

quinta-feira, novembro 22, 2007

Control

Tenho mesmo muita dificuldade em entender por que se transformam em mito todos os rocker-boys que se matam com menos de 30 anos. Seja o imbecil dos Doors, o Kurt Cobain ou o Ian Curtis. No caso do vocalista da Joy Division tenho ainda mais dificuldade em entender todas as teorias que tentam explicar o suicídio, em Maio de 1980. Peso de consciência por alimentar uma bigamia banal? Dificuldade em lidar com a epilepsia? Com a fama? Um final minuciosamente pensado para ganhar a imortalidade?

Acabo de ver o "Control", perspectiva altamente inquinada de mulher despeitada [Deborah Curtis] - não tão inquinada, apesar de tudo, como o livro "Carícias Distantes": medíocre - e não consigo abstrair-me da idade do rapaz: 23 anos!! Um mito?! Mas por que raio?!

Não quer dizer que o filme não seja quase bonito. É. E há sempre a música...

quarta-feira, novembro 21, 2007

Voa comigo esta noite

Coelho mágico salta da toca de veludo esquecida. Voa comigo esta noite. Coelho mágico, quem sabe quando voltarás? Depois de voltares a dançar à luz da lua, a afinar os fios doces da brisa, a encher de risos graves a rua, antes ou depois de voltares a partir o coração do piano? Voa comigo esta noite. Libelinha presa numa teia de aranha húmida a pedir para ser salva. Só para deixar de ter frio. Com o bater das asas a gritar que não haverá castigo. Que desta vez, não haverá. Nuvens negras como garrotes de aço. Libelinha, há caminho de regresso da chuva? Voa comigo esta noite. Voa comigo mesmo que já tenhas voado outras noites e te tenhas perdido. E que isso te tenha doído. Não tenhas medo de te lançar outra vez contra o vento e de rir. Vá lá, voa comigo esta noite. Ninguém vê. Cavalo alado de quem nunca ninguém sabe. De quem é impossível saber a verdade. De quem se conhece de cor o cheiro. E a distância. Cavalo belo e monstruoso. Belo. E monstruoso. Voa comigo esta noite. Estrela cadente antes de apagar. Estrela efervescente à beira da estrada. A tropeçar em todos os pedaços de vida salvos ao acaso. Para o caso de um dia voltares. Voa comigo esta noite. Antes do próximo Inverno. Antes da próxima derrapagem. Antes que te esqueças de nós. Bom gigante, cavaleiro andante. Abre a mão. Deixa cair o sal. A vida não pode ficar mais estranha do que já é. Ou pode? Voa comigo esta noite. Flutua no espaço. Salta as faixas do tempo. Não importa para onde. Voa comigo esta noite. Antes que acorde do sono errante e peça desculpa. Voa comigo esta noite. Mas eu não quero voar esta noite. Contigo.

terça-feira, novembro 20, 2007

Evening


Éramos sete pessoas à meia-noite. Uma desistiu logo no genérico. Sobraram três casais. Um, meia idade, fila da frente, cabeças encostadas em pirâmide; outro, idade mental das pipocas, escolheu sentar-se ao nosso lado quando havia pelo menos 300 lugares livres na sala; e nós: eu e um crítico. A companhia colocava-me imediatamente em clara desvantagem. Ao lado de um crítico até é possível rir sem motivo aparente, mas é estritamente proibido chorar. E eu passei três quartos da sessão a chorar. Copiosamente.

Como sempre, escapam-me as elaboradas considerações sobre interpretação, fotografia ou consistência do argumento. Não sei se "Evening" - do mesmo autor de "As Horas", o escritor norte-americano Michael Cunningham - é bom ou mau; mas sei que não consegui não deixar-me levar na torrente da memória de Ann Grant: no leito alvo da morte interpretada pela divinal Vanessa Redgrave; corpo cobiçado de Claire Danes na juventude.

Evening é uma viagem, quase de redenção, pelo que Ann desejou e não cumpriu: o reconhecimento como cantora, a relação com as duas filhas, a morte do amigo que não evitou e, claro, o amor que se quer para sempre. Mas que só é para sempre quando a imagem que dele se guarda não envelhece. E que só não envelhece se não se ficar com ele, com o amor. "O primeiro erro é como o primeiro beijo: nunca se esquece". Onde é que ela errou? Errou?

The good & the bad guy

Sometimes when I tell the story of you
I make you out to be the bad guy
& though it's true
Sometimes you're the bad guy
You're still mine

Sometimes when I paint the picture
It's easier just to remember
The awful things you said
& what you chose to do with legitimate need
You made like a fool but you're still mine

And I want you
I want you
I do

Why does it hurt more to recall
Your good side
I always went to you for advice
You were a wise one then
When I think about you in that time
It's harder to hate you then

But sometimes I want to hate you as the bad guy
But I want you the good & the bad guy
[The brightest diamond]

segunda-feira, novembro 19, 2007

Vasco Pulido Valente vs Maria Filomena Mónica vs Miguel Sousa Tavares vs Constança Cunha e Sá vs Clara Ferreira Alves

Todos se têm em demasiada boa conta. Estrela douradas num Portugal que obviamente não os merece. Nenhum deles quer a vida nos jornais. Nenhum deles quer o ego na rua à mercê do juízo de um qualquer. Qualquer um deles acha que está acima dos outros e, mais ainda, acima de todos nós. E, no entanto, nenhum resiste a colocar a vida nas páginas a que tem acesso. E a torturar-nos com isso, como se isso realmente nos interessasse. A nós, o país que obviamente não está à altura deles.
O circuito é delicioso. Ei-lo:
Vasco Pulido Valente (VPV) foi casado com Maria Filomena Mónica, Mena Mónica para ele (MM). Depois trocou-a por Constança Cunha e Sá (CCS) com quem está agora "bem casado". Está bem de ver, elas, as mulheres, MM e CCS odeiam-se. E já o escreveram nos jornais.
VPV, a convite de Miguel Esteves Cardoso, escreveu um livro de memórias nos anos 90 ["Retratos e auto-retratos"] . Quando MM decidiu, ela própria, escrever o seu BI [Autobiografia, 2005], ele, homem do seu passado, não achou mal. Até ler a coisa. Não gostou nada de se ver ali retratado e lá se foi uma amizade de 35 anos! Ela contou isto em várias entrevistas. Ele, este sábado, no Expresso, também. Foi-se a amizade, mas não os interesses comuns. Ela publicou um livro sobre a vida de Eça de Queirós [2001]. Ele prepara-se agora, também, para escrever a biografia do autor de "Os Maias". Além disso, ambos, juntamente com o actual marido de MM, António Barreto, partilham um gabinete de investigação na Universidade Nova de Lisboa.
VPV e Miguel Sousa Tavares (MST) não se podem ver, só eles saberão porquê. VPV escreveu que o best-seller "Equador" [2003] era literatura de aeroporto na sua crónica dominical do Público. MST escreveu na sua crónica do Expresso (e também numa entrevista) que VPV só conhecia Oxford e o Gambrinus. Apesar de lavarem roupa suja nos jornais, VPV ficou surpreendido quando MST não o cumprimentou num restaurante (o Gambrinus?!) e apesar de catalogar a escrita de MST como descartável e egocêntrica, garante que já leu o recém publicado "Rio das Flores". Não quer ainda opinar sobre o livro, mas assegura que brevemente iremos perceber porquê.
MST e Clara Ferreira Alves (CFA) são, diz VPV, as únicas pessoas que algum dia ficaram zangadas com ele. Com as suas opiniões demolidoras. MST há-de vingar-se um destes dias; CFA, ofendida por VPV ter insinuado, entre outros mimos, no defunto blogue "Espectro", que ela não seria licenciada, moveu-lhe um processo judicial.
Não é fácil perceber o que os distingue da menoridade do país. Mas a novela há-de continuar e, talvez, um dia, consigamos perceber...
P.S.: Gosto muito do Miguel Sousa Tavares: do personagem, dos livros todos, das crónicas. E das crónicas da Clara Ferreira Alves. Li o BI da Mena Mónica e também não desgostei. Nem da vida dela, nem da do Eça contada por ela. E acho piada ao Vasco Pulido Valente. Talvez seja o que tem maior obra publicada, mas aquele que conheço menos.

domingo, novembro 18, 2007

After party


Sabes uma coisa? És uma menina! E nunca te vi tão feliz! O recado chega-me de viva voz. Por mensagem de telemóvel. Por mail. Por telefone. Com flores. Quase com surpresa. Sou uma menina e não me lembrava de estar tão feliz. As amizades não se recuperam porque nunca se perdem. Recuperam-se as distâncias que às vezes a vida nos impõe. E quando numa noite se encurtam as geografias todas e se percebe que nada falha, ninguém falta, ninguém se perdeu no caminho e ainda houve no coração lugar para sorrisos recentes, é porque afinal valeu (valemos) mesmo a pena. Desde o primeiro dia. É motivo suficiente para falar alto.

sábado, novembro 17, 2007

José Luís Peixoto

“Um dia, quando a ternura for a única regra da manhã, acordarei entre os teus braços, a tua pele será talvez demasiado bela, e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor. Um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada de um velho, estarei contigo e cantarão os pássaros no parapeito da nossa janela. haverá flores, mas nada disso será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi nem uma palavra, para não estragar a perfeição da felicidade”.

sexta-feira, novembro 16, 2007

Lula Pena


“Lula Pena ouve sons e quer expressá-los através do seu corpo, tendo como instrumento uma voz; como som do rio a tremer, da terra a respirar, do céu a crescer. Uma voz, um apelo da memória de alguém que ouve com os sentidos todos e quer revelar, naturalmente, as conversas secretas com o seu próprio coração; esse músculo vermelho e esponjoso, que sobrevive de irrigações constantes e vive de ritmos ora mais lentos ora mais rápidos.
Ela sente a idade da terra e o peso de tão grande dimensão, quer cantar as suas memórias mais antigas, quer cantar as raízes do mundo com a fatalidade de quem sabe que a vida é curta para tão longa viagem. Dar a voz ao canto da fatalidade. Da lonjura. Do destino. Da tragédia. In www.attambur.com
Concerto de Lula Pena
Passos Manuel, Porto
23 horas
10 euros

quarta-feira, novembro 14, 2007

Sete anos depois...

Lembro-me do primeiro dia que fui lá. Atrasada. Fim de tarde escura e chuvosa numa cidade tão próxima, que me era, apesar de tudo, tão estranha. Levava o ego infinitamente menos cheio do que julgou depois a maioria. E umas calças de ganga rasgadas, ingenuamente convencida de que isso bastaria para me proteger dos estereotipos do mundo. Esperei quase meia hora numa sala de óleos apagados. Depois, lá apareceu alguém, folhas brancas na mão e ar de quem luta contra o tempo. Ideias, muitas; projectos, mais; futuro. Conversa boa. Quase bajuladora. Lembro-me perfeitamente de ter pensado nela assim, nesses termos. E de ter pensado que não entendia por que razão me tinham chamado, se eu era apenas mais uma (longe de ser das melhores), como tantos outros, a enviar currículos no fim do curso. Não era suposto sofrer pelo menos uns meses no desemprego? Equacionar alternativas ou gastar o dinheiro que não tinha numa viagem qualquer? Matriculei-me num segundo curso ainda antes de começar a procurar emprego. Fá-lo-ia de qualquer maneira.
Eu queria mudar o mundo. Cresci a ouvir as pessoas dizerem-me que eu ia mesmo mudar o mundo. Mas não poderiam estar a contratar-me por isso. A menos que também quisessem mudar o mundo. Quereriam? Nas grandes empresas não deve raciocinar-se nesses termos, reconsiderei. Por isso, à saída da minha primeira entrevista de emprego, determinada a recusar a proposta caso a minha hipótese se confirmasse, perguntei se alguém tinha metido uma cunha por mim. “Se me conhecesse, não teria feito a pergunta”, responderam-me. Seja.

Lá estava eu, 23 anos acabadíssimos de fazer. Os sonhos todos no peito. E à minha frente uma equipa inteira, com a qual nunca tinha sonhado, à espera que me espatifasse na primeira curva sem que eu percebesse muito bem porquê. Ainda nem sabia o nome deles. Saberiam eles o meu? E como poderia haver logo tantos rótulos e tão má vontade para com alguém que ainda mal tinha chegado? (Deviam ensinar-nos na escola que a timidez é facilmente confundida com arrogância e a arrogância não é bom cartão de visita para ninguém.)
Houve um senhor que se apresentou logo no primeiro dia, não exactamente pelo nome: “Aqui, menina, as pessoas não se sentam em cima das secretárias!” Ops! Levantei-me, vermelhíssima, engasgada com os insultos que, isso sabia, não podia disparar. Lembro-me perfeitamente de um trio masculino, sentado ao lado da janela. Absolutamente sinistra a forma como se impunha pela pose, pelos fatos, pela altivez do olhar, pelo cheiro das cigarrilhas. Sempre tive dificuldade em respeitar hierarquias só porque sim. E percebi que ali o desafio seria esse: aprender a respeitar sem questionar. Seria capaz? Havia ali uma espécie de código de comportamento que me atirava completamente para fora do que até então tinha aprendido a reconhecer como certo. Era demasiado nova para entender. Demasiado nova para quase tudo. Por muito que achasse que não. Era sobretudo demasiado nova para saber jogar. Uma "inábil social" haveria de dizer alguém. E também há preço para isso. Sobretudo quando nunca se aprende.

Aceitei o horário da manhã, consciente de que nunca o haveria de cumprir, porque era aquele em que via menos gente. Não devem ver-se pessoas que não estão dispostas a aceitar os outros. De cada vez que chegava, com uma hora de atraso, lá tinha o recado de sempre: “Quando chegar, ligue-me. Tem isto e isto e isto para fazer”. E depois, os discursos oscilavam entre uma hospitalidade que me soava estranha ("Eu mostro-te como é...; "Eu digo-te como se faz.."; "Ah, filha, se eu tivesse a tua idade!..."), algumas abordagens de comparação académica ("No meu tempo era assim..."; "Agora é assado...") e as clássicas tentativas de sedução sexista. Rezava sempre para que não me convidassem para almoçar. Às vezes, convidavam. Nesses dias só me apetecia fugir! Culpa dos outros? Mais minha, seguramente.

Saía às seis da tarde a jurar que não voltaria no dia seguinte. Recebia telefonemas repetidos. Amigos me queriam brindar-me com uma palavra de consolo. Que nunca consolava... Sentia que me tinha enganado (mas assim, tão depressa? Seria possível?): que me tinha achado melhor do que realmente era. E que era aquele local onde, por mil e um motivos, nunca pensei trabalhar, que mo estava a demonstrar. Não era só o despenhamento do ego. Era também o despenhamento de um futuro que, pela primeira vez, não estava a conseguir controlar. No meu imaginário, aquilo deveria ser uma fábrica de operários transformadores de mundos. E nunca de alpinistas profissionais. Se era isso, como poderia ser feliz ali?

E, no entanto, quando pouco depois surgiu o convite para Lisboa, não tive coragem de ir. Ainda hoje não sei bem porquê. Era o ano da Capital Europeia da Cultura e não queria sair da cidade nesse ano. Deslumbrada por conhecer o Seamus Heaney, o Lobo Antunes (mesmo que ele não tenha achado o mesmo), o Sepúlveda; febril e infantilmente entusiasmada com tudo o que estava a acontecer, achava mesmo que naquele ano não poderia sair. Era um ano fundamental para compensar a minha gritante falta de bagagem cultural e de quase tudo. Havia demasiados nomes (do teatro, da dança, das artes plásticas...) que só conhecia dos livros e dos jornais a fazer escala ali, como poderia não querer ficar? Ainda por cima, diziam que era o início de um novo ciclo. E eu não sabia que não podia acreditar. Como não sabia que não era possível mudar o mundo.
O tempo é como uma picada de abelha. Vem tão depressa que nunca ninguém consegue fugir. Quando se dá conta, já o ferrão está cravado no corpo. Terá valido a pena ter ficado? Terá valido a pena ter ficado quando percebo que, afinal, as impressões que colhi aos 23 anos não são muito diferentes das que tenho agora? Traduzem-se nesta frase (do blogue da Vera): "O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons."

segunda-feira, novembro 12, 2007

To be with you in Paris if only it would never end

Talvez não haja nada mais parolo do que cumprir o trajecto de um filme.
Mas há poucas coisas mais românticas do que aquelas que são parolas.

Paris. Before sunset.

sábado, novembro 10, 2007

10 mentiras sobre a durabilidade do Amor

1. A famigerada crise dos sete anos. A maior e talvez a mais estúpida das mentiras. O amor não é uma bomba-relógio, nem um despertador com alarme sonoro que ao bater do 84º mês avisa: "Trrrim... Trrrim... Você acaba de ser abatido por um chorrilho de dúvidas e impaciências. A partir daqui só pode piorar. Abrevie caminho e separe-se já."
2. Impossibilidade de resistir quando ambos vivem e trabalham juntos. Quem disse que não é possível viver e trabalhar e cumprir o infinito resto do quotidiano todos os dias e ainda assim sentir que se houvesse mais um minuto seria para os dois, mentiu.
3. A amizade sobrepõe-se à paixão. Há amizade sem paixão, mas não há paixão sem amizade. A frase é um cliché; o amor que só sobrevive quando integra a paixão e a amizade, não.

4. A perda de efervescência do sexo. O sexo é como o amor: só não há amor como o primeiro para quem não tem paciência para esperar pelos seguintes.
5. Impossível repetir o alvo da paixão. Deve ser uma dádiva não estar apaixonado por uma pessoa, mas apaixonarmo-nos por ela de todas as rigorosas vezes que a olhamos. Sim, é uma dádiva. Talvez rara, mas possível.
6. A (in)superabilidade de uma traição sem sequelas. Não há traição sem vontade de morrer a seguir. Mas quando não se morre, recupera-se. Mesmo quando não se acredita que a ferida sare, acorda-se um dia de manhã e não há sequer uma cicatriz para testemunhar o episódio.
7. Só há traição quando já não há amor. Outra mentira pegada. A traição tem mais a ver com a tentação (quem nunca teve uma tentação que ponha o dedo no ar!) que representa o terceiro elemento do que com a falta de virtude do primeiro ou o vazio do que faz a ponte entre os dois.
9. Férias, jantares, fins-de-semana, noitadas: só em grupo. Há quem só abra uma excepção de vez em quando para deixar entrar alguém. E nunca é tão bom como quando as mãos são só quatro.
10. Dias contados para quem ainda não pensou casar e ter filhos. Mentira que resume a mentira da sociedade. Demasiado preocupada em viver de acordo com o Livro de Estilo comum esquece-se de ser realmente feliz. À sua maneira.

domingo, novembro 04, 2007

As insondáveis preocupações do PS-Porto

A cidade esboroa-se lentamente embrulhada numa estratégia política segundo a qual não haverá cultura enquanto houver pobres. Há cada vez mais pobres e cada vez menos cultura, sobretudo cívica. O Porto é um barco fantasma à deriva, onde os cidadãos parecem não poder, ou não conseguir ambicionar a mais do que sobreviver discretamente numa espécie de corredor da morte. Condenados, mesmo que sobrevivam, a nunca ser mais do que aquilo são: jogadores num campeonato da segunda divisão, que nunca ninguém há-de lembrar-se de convidar a subir de escalão.
Entretanto, como pobres criaturas desafortunadas, alegram-se com acrobacias de aviões, com árvores de natal patrocinadas pelo Millenium BCP, com musicais importados da capital, com corridas de automóveis com transmissão em directo na Sport TV, com concertos avulso e exposições de congelador. Tudo, desde que lhes prometam recordes internacionais. E invadem as ruas, não com a naturalidade de uma cidade que fervilha o apregoado (ainda que nunca provado) espírito cosmopolita, mas como quem se socorre de pretextos para existir: seja o encerramento de uma rua ou qualquer outro fugaz evento de hora e lugar marcado. Vivem a cidade como o mundo vive a noite de passagem-de-ano: momento em que, vá lá saber-se porquê, toda a gente tem necessidade de mostrar que é imensamente feliz. Sabendo que, no dia a seguir, acordarão como na noite anterior: sem nada.
A proposta apresentada pelo governo de José Sócrates para o PIDDAC de 2008 vaticina uma redução de cerca de 20% de investimento para o Porto. Os bairros sociais, prioridade de Rui Rio, estão como sempre estiveram: mal. Ou talvez pior. Os teatros estão vazios, a cultura é a que se adquire num pacote de pipocas. O desemprego aumenta, a falta de perspectivas também. Os portuenses ganham, em média, quase menos de metade do que as pessoas que vivem em Lisboa. E quando a cidade é notícia nacional, nunca o é pelos melhores motivos. Rui Rio será mau. E a Oposição?
A Oposição, esse núcleo intermitente de vereadores socialistas que nem a vitória no processo Rivoli souberam cobrar e potenciar, aparecem agora, indignados, ferozes, a contestar o quê? O facto de Rui Rio ter oferecido um camião do lixo a Moçambique e Moçambique ter recusado. Diz o PS que é "preciso manter a dignidade da Câmara".
Quase dá vontade de votar em Rui Rio!

terça-feira, outubro 30, 2007

Saliva

Eu quero casar contigo amanhã
Abre os olhos vem comigo, diz:
Parar
Vamos gastar muita saliva
Mergulhar e ver-te flutuar
Eu quero ver-te a afundar
Para depois te salvar
Eu quero lutar contigo devagar
Dá-me os braços vem comigo
Expirar
Vamos selar com a nossa saliva
Pensar que fosses tu também
Amiga
E vou usar a tua saliva
Poupá-la da má lingua da intriga
Eu quero ver-te a afundar
E vou tentar-te salvar
Vamos gastar muita saliva
Lamber as feridas e limpar o mundo
Quero levar-te a vida
Mergulhar e ver-te ir ao fundo
Vamos gastar muita saliva
Orgulhar-me de ser teu fiel defunto
Quero usar saliva
Selar a carta e mudar de assunto
Ficar a ver-te fumar
Para depois te apagar
RUI REININHO (grande, grande Reininho!)

segunda-feira, outubro 29, 2007

Quantas promessas de Cristina Kirchner poderão cumprir-se?



Promete manter o crescimento económico do país e o equilíbrio da aliança estratégica com a Venezuela de Hugo Chávez e o Brasil de Lula da Silva. Promete melhorar a relação com os Estados Unidos de George Bush e combater a inflação, a pobreza, o desemprego e todas as “tragédias” que daí advieram para os argentinos, sobretudo entre 2001 e 2002, resultado de um governo industrialista. Promete, no fundo, ser melhor e mais ambiciosa do que o marido, Néstor Kirchner, a quem agora sucede.

Cristina Fernandéz Kirchner, senadora peronista social-democrata, advogada, 54 anos, anteontem eleita primeira mulher presidente da Argentina, deverá assumir o poder a 10 de Dezembro. Ganhou, nas urnas, com larga margem de distância (46,3%) em relação à liberal-cristã Elisa Carrió, beneficiando sobretudo da inversão da crise, protagonizada pelo marido. Mas conseguirá cumprir o prometido? Conseguirá, sequer, apesar da vitória à primeira volta, convencer os argentinos de que é capaz de o fazer?

Numa incursão pelos locais de voto, os jornalistas da agência France Press afirmaram ter presenciado “um clima de apatia e desinteresse político”, o que poderá denotar que os argentinos não esperam dela senão “mais do mesmo”, uma espécie de continuidade, no feminino, do mandato de Kirchner. Por outro lado, o futuro governo deverá enfrentar uma inflação real elevada – entre 15% a 20%. E embora o Brasil se tenha apressado a garantir que tenciona aumentar o fluxo de investimentos no país vizinho, a verdade é que a Argentina deverá ser obrigada a conviver com uma queda dos investimentos.
Haverá ainda a difícil batalha com os sindicatos pela obtenção de aumentos salariais. Ela pediu “um pacto social” entre empresários, governo e sindicatos; os sindicatos responderam reclamando um aumento de 30%. Depois, há todos os outros dossiês, como o da insegurança ou da violência, por exemplo, que Cristina Kirchner – cuja campanha esteve quase toda concentrada nas relações internacionais –, consciente ou inconscientemente, nunca abordou em período eleitoral. Nunca foi clara, também, em relação a medidas concretas ou à definição de uma estratégia futura para o país. Limitou-se sempre só a assegurar a continuidade.
Eleita várias vezes deputada e senadora, Cristina Kirchner possui uma carreira política mais longa do que a do marido. E mais impetuosa. Desta vez, a candidata da Frente para a Vitória deixou para trás 13 adversários.

No entanto, a mulher que agora é levada ao colo pela imprensa mundial, que lhe compara a ambição e importância às de Hillary Clinton e a baptizou já de “a nova Evita” – senão pelas ideias, sobre as quais há quem tenha dúvidas, pelo menos, pela indumentária europeia e aparatosa –, poderá não passar de um fogo fátuo.

sábado, outubro 27, 2007

Rodrigo Guedes de Carvalho: Canário

Nunca ninguém tem coragem de matar alguém até matar alguém pela primeira vez. Nunca ninguém julga ter a motivação suficiente para ceifar uma vida até aparecer o primeiro “bacano” disposto a sugar tudo o que, bem ou mal, se construiu. “Já viste como o medo nos dá para querermos magoar? E a tentação de foder um cogumelo destes”. Geraldo está preso por homicídio e fala assim. Directamente para o leitor. ”Tu gostas de mensagens, ó leitor, aposto”. Mas ele, que atirou pela janela o amante da mãe que não parava de a espancar, não tem mensagens para dar. Só a vaga sensação de liberdade que pode sentir quem, estando preso, será mais livre do que todos os outros, porque tem já muito pouco a perder.

“Canário”, título do mais recente romance de Rodrigo Guedes de Carvalho (RGC), é uma armadilha. Não há pássaros, nem asas, nem quase nada que não seja a falta de ar experimentada na escotilha em que vivem todos os que, um dia, recebem um aviso a dizer: a vida não é um conto de fadas. Aquele que é, talvez, o melhor livro do autor, é também o mais mordaz. Sobre os demónios que nos habitam e visitam. E sobre o que eternamente se desconhece das pessoas, por muito próximas que nos sejam. “Há uma cave dentro de nós. Nunca, mas nunca mesmo, saberemos tudo acerca do outro”. É sobre a desilusão. E os estilhaços da dor.

Como em quase todas as obras de RGC é preciso algum tempo para perceber onde quer levar-nos. Aqui, a história é contada numa plataforma tripartida. Geraldo representa só um lado do triângulo. É o rapaz que um padre há-de querer salvar, porque “quer continuar a acreditar que a maldade não está em nós, que é um corvo do escuro que às vezes nos fala ao ouvido”. O padre está tão preso como o presidiário: recluso da necessidade de salvar alguém. Acompanha, na doença e na morte, a mãe de Geraldo, prostituta que ambicionava ser enfermeira, e apresenta-o ao pai, escritor célebre, de casamento sólido, que um dia caiu na cama dela, engravidando-a sem querer. Sem saber.

Alexandre, escritor “que não gosta que lhe falem da palavra competição na literatura”, mas vive – tão preso como o filho, tão preso como o padre – no pânico de esvaziar-se e ser ultrapassado pelas novas gerações de escritores, é o segundo vértice do triângulo. E talvez aquele em que RGC mais se denuncia. Por muito injusto que possa ser querer procurar as angústias de um escritor na vida de um personagem. “Numa altura em que se usava uma prosa de mera observância, Alexandre acenava-nos de dentro das personagens e dos lugares. Um vírus hospedeiro, lancinante de acutilância”. Casado com Maria Antónia, nunca viveu para ela, mas com ela ao lado. Aliás, nunca viveu – mesmo no encontro com o filho que desconhecia - senão aquilo que poderia ser reproduzido em livro. E ela, a mulher que abdicou de ser o que era – e que já nem se lembra o que é – por causa dele, ela – tão presa como o filho do marido, tão presa como o padre, tão presa como o homem que amou – percebe que nunca viveu realmente.

Nem ela, nem a filha de ambos, Camila, o último ângulo do polígono. Veterinária, “bomba-relógio que não rebenta, vai rebentando”, tão apaixonada como a mãe pelo marido, tão presa como todos os outros, vê o casamento desmoronar-se quando o homem que lhe deu um filho não aceita que o filho seja, também ele, um presidiário – recluso no seu autismo.

“Canário” é sobre coisas “que acontecem e não matam, e também não tornam ninguém mais forte”. É sobre o que sobra quando as máscaras caem.

sexta-feira, outubro 26, 2007

Gabriel Garcia Marquez: Memórias das minhas putas tristes


A única memória inequívoca no primeiro dia dos seus 90 anos confrontado no tribunal da sua consciência: nunca se havia apaixonado. O velho jornalista, limitado agora a uma crónica dominical no jornal de uma vida, nunca havia sentido no peito a opressão que provoca o amor. Tivera muitas mulheres, demasiadas, mas nunca nenhuma a quem não tivesse pago. “O sexo é o consolo de uma pessoa quando lhe falta o amor”.

Para o derradeiro consolo, deseja algo novo: uma criatura virgem. Mas o destino troca-lhe as voltas, e o homem que “sempre tinha pensado que morrer de amor não passava de uma liberdade poética”, sente, pela primeira vez, “o prazer inverosímil de contemplar o corpo de uma mulher adormecida sem as pressas do desejo”. E a vontade maior de que a vida pudesse ainda reservar-lhe outros 90 anos para sorver aquela sensação.

Gabriel Garcia Marquez está todo dentro das 114 páginas de “Memória das minhas putas tristes”. Regressou ao romance em 2005, que não publicava há dez anos, desde “Notícias de um sequestro”, e regressou, de certa forma, à autobiografia, iniciada com o primeiro de três volumes de “Viver para contá-la”. Apaixonado, sábio como sempre, nostálgico, melancólico e metafórico, o escritor columbano, Nobel da Literatura em 1992, faz um ajuste de contas público com os anos que já não voltam. A palavra “memória” é mais importante do que tudo o resto, e sobretudo mais importante do que o resto do título sugestivo, porque é dela que agora se ocupa quase em regime de exclusividade. Na ficção e na vida real.

Para cumprir o seu desejo em dia de aniversário, o velho jornalista procura Rosa Cabarcas, dona do bordel do qual foi cliente assíduo desde a adolescência, solicitando-lhe o selo de castidade de uma das suas raparigas. Delgadina será a eleita. E a responsável pela descoberta de tudo o que já não julgava provável na curva descendente da existência. “Foi algo novo para mim. Ignorava as manhas da sedução e tinha sempre escolhido ao acaso as namoradas de uma noite, mais pelo preço do que pelos encantos, e fazíamos amor sem amor, semivestidos a maior parte das vezes e sempre às escuras para nos imaginarmos melhores”. A menina que nunca resiste ao sono quando o homem chega, e o obriga a esperar noite após noite por um sinal de vigília, inicia-o na única experiência que desconhecia em absoluto: o ardor do ciúme e o desespero da nostalgia polvilhado pelo olhar incessante para o telefone como se fosse um jogo em que os pontos chegam sob forma de um toque.

O amor, mesmo que doa, ou o sexo sem obrigações? “Não teria trocado por nada do mundo as delícias do meu pesar. Tinha perdido mais de 15 anos a tentar traduzir os cantos de Leopardi, e só naquela tarde os senti a fundo: “Ai de mim, se é amor, quanto atormenta”.

quinta-feira, outubro 25, 2007

Pilhagem by blogue "Lê-me nos lábios"


Directa ao assunto: estes pés, que poderiam ser de qualquer pessoa, são, por acaso, meus. E não de uma senhora que assina Lady C. no blogue "Lê-me nos lábios" , fazendo acompanhar a imagem de um texto meu. Coloquei-os no blogue a 26 de Fevereiro, em véspera de férias. A criatura que publicou duas fotografias minhas, dizendo ser ela, é a mesma que assina vários textos retirados - alguns ipsis verbis; outros adaptados - do Coriscos.
Não sei quanto tempo permanecerá o dito blogue on-line. Descobri, por mero acaso, a pilhagem ontem à noite quando, à deriva no google, encontrei uma frase sobre a reportagem de Jordi Burch e Ana Sofia Fonseca, em Cuba, que me soou demasiado familiar. Fui confirmar: era plágio! A versão original está aqui, publicada a 29 de Julho; a cópia estava aqui. Mas já não está. Hoje, confrontada, na sua caixa de correio, pelo Ricardo e pelo próprio Jordi (por quem, aliás, também se faz passar nos comentários), a autora apressou-se a retirar o post.
Esqueceu-se, no entanto, de retirar todos os outros - dezenas - que, descaradamente, roubou. Mais descarado por, a acreditar no que sobre ela escreve, tratar-se de uma jornalista. Psicopata, mas jornalista. E esqueceu-se, também, pelo menos, por enquanto, de apagar os diálogos que ela própria depositou na sua caixa de comentários, copiados do blogue Diálogos Pueris que, por acaso, também me pertence.
Aguns exemplos gritantes: A 1 de Abril, decidi terminar o Coriscos. Escrevi este texto. Lady C. dediciu, também, acabar com o seu blogue a 20 de Julho, reproduzindo exactamente o mesmo texto. No intervalo, criei o Partículas Elementares, homenagem a um dos meus escritores de eleição, Michel Houellebeqc. A senhora deu imediatamente o título a um dos seus posts: uma foto de um umbigo, que ela diz ter sido tirada pelo Jordi. Poderia ser só uma coincidência, não fosse o caso de citar todos os autores que cito - Vergílio Ferreira, Eduardo Prado Coelho, Vinícius de Morais -, com os mesmos rigorosos excertos.
Quando retomei o blogue - ela retomou o dela a 26 de Julho; eu a 20 de Junho -, baptizei quase todas as tags com títulos de obras de arte que estão compiladas na Anamnese, manual de artistas contemporâneos com exposições entre 1993 e 2003. A criatura decidiu fazer o mesmo, com destaque para o separador "Can we live twice", de onde pilhou a maioria dos textos, e que lhe serviu de título para um post.
(este post aparece agora como "Uma segunda vida". O título foi alterado há instantes)
Alguns posts plagiados:
original publicado a 12 de Fevereiro - cópia a 1 de Maio;
original publicado a 16 de Março - cópia a 18 de Setembro;
original publicado a 28 de Maio de 2007 - cópia a 4 de Junho;
original publicado a 5 de Março de 2006 - cópia (excerto) a 17 de Maio;
original publicado a 29 de Janeiro de 2007 - cópia a 8 de Maio;
original publicado a 18 de Março - cópia a 26 de Abril;
original publicado a 19 de Novembro de 2005 - cópia a 26 de Abril;
E há muitos mais... (ou havia porque Lady C. está a fazer delete a algumas coisas...)
Não está, obviamente, em causa a qualidade dos posts. Não importa se são bons, maus ou muito maus - são meus. Está em causa a gritante falta de respeito, e de tudo, de Lady C.
[Lady C., depois da publicação deste post, apagou todos os textos e fotografias roubadas. Apagou também a fotografia que o Jordi, supostamente, lhe havia tirado.]

terça-feira, outubro 23, 2007

À noite

Os táxis passam, devagar, luz verde no néon do tejadilho, mas não param. Uma mulher assim, sozinha àquela hora da noite, sozinha em frente ao portão de uma garagem, noite escura, escura e fria, uma mulher assim ali pousada até pode ser santa, mas não é. Nunca é. Mesmo que seja, não pode ser. Mesmo que não seja santa e seja só talvez uma pessoa normal, alguém à espera de alguém ou mesmo só de um táxi. Mas não, sozinha ali, o fumo do cigarro a confundir-se com o da respiração, a sombra do corpo no chão a agigantar o perfil, não pode ser santa, não pode ser nada. Não pode ser boa coisa. Os táxis passam, abrandam, quase param acossados pela curiosidade, pela pulsão do sórdido, não param. Param os carros, os outros, os que não têm taxímetro. Silenciosos, estacionam, vários homens lá dentro. Homens ou rapazes, tanto faz. É tudo a mesma coisa. Casados, mal casados, solteiros, viúvos, divorciados. Sozinhos. Sozinhos em grupo. A maioria nem sequer sabe. Estacionam, descem o vidro da janela do carro que parecem conduzir em 15ª mão e ficam ali com aquele olhar a dizer: fico aqui o tempo que eu quiser, o tempo que me apetecer, se quiser fico aqui até amanhã de manhã e tu, pensam, tu ó minha puta, não tens nada a ver com isso. Ficam ali parados por fora, esgueirados por dentro, como quem suspende a respiração debaixo de água, a ver quanto tempo conseguem aguentar ficar ali sem ordinarizar. O verbo não existe, mas se existisse seria este o verbo a aplicar. A aplicar quando uma mulher está assim à noite sozinha esquecida na rua.

Kierkgaard

"Ousar é perder o equilíbrio momentaneamente. Não ousar é perder".

sexta-feira, outubro 19, 2007

Boneca, Ibsen


"Ninguém encena ninguém a não ser a si próprio", escreveu Nuno Cardoso a propósito de "Boneca", encenação construída a partir de "A casa das bonecas", do dramaturgo e dramático norueguês Henrik Ibsen, que estreou ontem no Centro Cultural de Vila Flor, em Guimarães. E ele não consegue, não sabe encenar-se mal. Intimista, sem as acrobacias do costume, a peça é sobre a morte da inocência. Tão violenta como todas as outras criações do encenador. (Voltarei ao assunto)

Guimarães: 18 a 21 de Outubro 2007
Lisboa: 15 e 16 de Novembro 2007
Braga: 11 2 12 de Janeiro 2008
Porto: 7 a 16 de Fevereiro 2008

quinta-feira, outubro 18, 2007

Les chansons d'amour


Não é um musical, embora seja quase todo cantado (belíssimas canções de Alex Beaupain). Não é um drama, embora doa. Não é uma comédia. Não, definitivamente, não é (quem raio cataloga os filmes?) uma comédia! Não é sobre um triângulo amoroso, embora o triângulo amoroso esteja lá. Não é sobre a morte, embora a perda não se esconda. Não é sobre o género do amor. Parecendo estar lá, não está, porque o amor não tem género. Será, quando muito, sobre a busca da felicidade. E sobre como se tropeça nessa busca e se levanta para voltar a cair. Mas nem isso basta para definir o filme de Christophe Honoré que estreia hoje em Portugal. Os críticos - nada de novo - já o mataram. Eu acho que não poderia ser mais terrivelmente belo.

sexta-feira, outubro 12, 2007

XXX Congresso do PSD IV

José Leite Pereira (director do JN) e Ricardo Jorge Pinto (jornalista do Expresso) são os comentadores convidados da RTP N para analisar o Congresso do PSD. Carlos Magno é o comentador de serviço no palco de Torres Vedras. Estão os três em directo. Escapou-me alguma coisa ou este último decidiu substituir o comentário político pela análise ao jornalismo.

XXX Congresso do PSD III

Marco António Costa, discípulo de Luís Filipe Menezes (ah, a pena que deve ter tido quando o homem anunciou que iria acumular a liderança do partido com a presidência da Câmara de Gaia!...), acaba de ser denunciado na RTP N. Ele terá afirmado em off, Daniela Santiago, a jornalista, citou-o, e ele antes de comentar, em on, o congresso, avisou-a de que não lhe voltaria a dizer mais nada. Hilariante! Eis a frase, tão ilustrativa do cenário: "A nossa função é ajudar a que o líder não se despiste".

XXX Congresso do PSD II

Menezes falou para a Esquerda e para a Direita, para dentro e para fora, para cima e para baixo. Vale tudo para cortar senão as metas todas em 2009, pelo menos uma. E para o novo líder do PSD tudo parece mostrar a vitalidade do partido: criticá-lo e solidarizar-se com ele; estar presente ou ausente, ser contra ou a favor do líder.
Se o discurso funciona e faz criar expectativa - e Manuela Ferreira Leite, apoiante de Marques Mendes, já o elogiou - ainda vamos assistir ao regresso de todas as ovelhas douradas e tresmalhadas do partido. Ah, a sede de poder...

XXX Congresso do PSD I

Enganou-se Marcelo Rebelo de Sousa e quase todos os analistas, enganaram-se militantes elitistas ou pseudo elitistas, enganaram-se os jornalistas. Enganaram-se em relação à vitória de Luís Filipe Menezes nas directas e sobretudo em relação ao surpreendentemente rápido regresso de Pedro Santana Lopes, que hoje chegou a Torres Vedras como o verdadeiro padre da paróquia.
Se um populista incomoda muita gente, dois populistas juntos...

terça-feira, outubro 09, 2007

Ritual de acasalamento das ostras

"Sinto-te a faltar por entre os dedos, sinto-te a escorrer por entre as casas, sumir pelos bueiros das ruas nas primeiras chuvas. Tem chovido muito, de facto, e tu tens-te esgueirado pelos beirais com os primeiros pingos, tenho-te confundido muito com a chuva.
Não sei se fecho a torneira ou se continuo a descrever em branco os salpicos de luz... Tenho-te perdido muito, muitas gotas de ti.
Sinto-te a escorrer pelas montras das lojas, pelas janelas das casas, pelas tocas dos bichos, pelos postes preferidos dos cães.
Sinto-te faltar quando saio à rua e vejo que as crianças continuam a deformar o nariz contra as montras, que a peixeira da esquina continua a ter má pontaria para os caloteiros. Sinto-te longe sobretudo quando o meu nariz gela.
A verdade é que estpu a sentir-te como quem pisa chamas, como quem anda sobre cinzas. Sinto a tua falta como se houvesse um corte profundo numa fímbria qualquer de um corpo por inventar.
Mas continua tudo na mesma, só as crianças parecem esborrachar ainda mais o nariz contra as montras das lojas.
Tenho de cortear as unhas, mas
continua tudo na mesma, tudo na mesma,
continuo a riscar o chão sem querer
continuo a ter dores matinais, vespertinas e nocturnas
Continuo a deixar o leite ir por fora, por puro gozo.
Comprei uma vela de framboesa,
continuo a queimar os dedos
continuo a queimar
tenho tido muito frio
tenho tido os olhos cinzentos
tenho sentido a tua distância como quem acorda
a meio da noite."
Marta Loureiro, Edições Temas, 2001

quinta-feira, setembro 27, 2007

Gota de orvalho

Acabo de trabalhar às seis da tarde em ponto. Se bem que, para ser rigorosa, não possa dizer que nos últimos dias tenha exactamente andado a trabalhar. Com a cabeça perdida em parte incerta, tenho-me limitado a cumprir as horas supostas. Nada de que possa orgulhar-me. Desafio um amigo para um Martini; está em Santo Tirso. Outro; está em Lisboa. Outro ainda; só chega à noite. Desisto da convivência. E eles não sabem que se livraram do meu humor duvidoso. Indecisa entre apanhar o metro e aterrar numa sala de cinema ou entrar num táxi que me ponha em casa, deixo-me embalar como gota de orvalho na berma da parra. Ontem disseram que estou "mais gorda". Perguntaram: "Grávida?" Não! Mas não é por isso, por aparentemente estar mais gorda, gorda ao ponto de parecer grávida, que decido ir a pé para casa. Três horas de viagem.
Caminho pela cidade para me testar. Para perceber o que me prende. Ainda. Ou já não. Há três anos era capaz de jurar que tinha encontrado o meu lugar. Hoje, tenho sérias dúvidas. Desço ruas que desço todos os dias de carro e das quais, sete anos depois de aqui ter chegado, ainda não aprendi os nomes. Encho as sapatilhas de pó nas obras do Bonjardim. Acho que é Bonjardim e continua cheio de prostitutas: gordas, feias, velhas. Quase todas. Finjo que não reparo na tristeza do cenário e elas fingem que não reparam em mim. Atravesso, ao fundo, as grades de segurança e pondero sentar-me na esplanada que alguém montou na Praça D. João I. A praça que antes era do Rivoli e agora está alugada a Jesus Cristo. O Superstar. Lembro-me das vezes, tantas, que entrei no Teatro para namorar as coreografias de Olga Roriz que só havia em VHS. Nunca as comprei porque achava que um dia seriam editadas em DVD. Arrependo-me. A livraria do 3º piso já não existe.
Viro à direita, seduzida pela música que parece vir dos Aliados. Há um grupo qualquer a fazer yoga aos pés de Almeida Garrett e outro a montar uma grua, vá lá saber-se para quê. Os dois têm aparelhagens a competir, a cuspir decibéis. Menos interessante do que parecia. Mas a avenida agora é isto: um palco que se aluga às prestações para o que der e vier. Trepo a rua do Almada. Perco-me nas montras de luz, de ferragens, de chocolates. E no olhar triste das pessoas. Como podem todas ser tão cinzentas? O pó faz-me espirrar. O da rua de Ceuta, a do túnel.
Arrisco uns caminhos de paralelo e vou ter aos Leões. Gosto dos Leões, do Piolho, da mistura de pessoas, de raças, de cultos que se cruzam ali todos os dias. E continuo a gostar dos rituais universitários que começam a florescer nesta altura do ano, embora na minha altura não tivesse tanta certeza disso. Ou coragem para isso, o que é, para todos os efeitos, diferente. O Piolho. Fosse o Porto inteiro assim. Vivo. Mas a Sociedade de Reabilitação Urbana pode renovar prédios, mas não renova espíritos.
Viro outra vez à direita. Atravesso Carlos Alberto, nome da primeira travessa onde morei (obrigada, Pedro, pelo quarto e pelas conversas) e entro em Cedofeita. Os lojistas começam a colocar nas portas cartões a dizer "encerrado". A rua, apesar de pedonal, tem mais grafitis do que gente a esta hora. Corto na primeira à esquerda, para Miguel Bombarda. Assim, a olho nu, um estrangeiro adivinharia que esta é a rua das galerias de arte? Tento vasculhar as exposições inauguradas no sábado passado, mas o horário da arte é igual ao das mercearias: está tudo a encostar a porta. Até o Centro Cultural Bombarda. Por agora, melhor assim. Da última vez, quase perdi a cabeça. Mas como é possível que não se invista na vida para lá das oito da noite? [O telemóvel interrompe-me os pensamentos. Bingo! É o Pedro. Pergunta se vou ao casamento de 20 de Outubro. Como poderia pensar não ir? Guarda-me a fila da frente na igreja e uma cadeira ao teu lado na mesa. "Vais para casa a pé? És doida?", pergunta-me para corrigir logo a seguir. "Bem, sempre é uma maneira de emagreceres". Dois comentários na mesma semana. Devo estar gorda. Ponto final. ]
Fico ali a olhar para o céu só porque sim. Só porque é fim de tarde e gosto desta rua, mesmo velhinha, mesmo feinha, mesmo com tudo a fechar. Gosto do cheiro a morangos. E de ver as pessoas a caminharem para casa, aliviadas talvez por o dia ter chegado ao fim. É possível que diferentes pontos da cidade originem rostos diferentes? Contorno a esquina e sigo para a Rua do Rosário para mergulhar de cabeça no Gatos Vadios, colo quentinho de livros escolhidos a dedo por amigo de outras vidas guardado no peito. Leio edições antigas da Águas Furtadas com um caseiro bolo de canela na mão. E, à saída, tropeço num poema de Helga Moreira que já não posso deixar ali.
Estava dito e combinado
para a manhã seguinte.
No sítio em frente ao último
quarteirão e o meio dia por limite.
Ao que ia não sabia.
Soube depois
que essa presença lhe bastava.
Foi o que senti quando fiquei presa ao senhor com a idade do meu pai. O meu pai casou com a minha mãe faz hoje exactamente 32 anos. O livro, com ilustração de Ângelo de Sousa, e a ternura serão enviados amanhã pelo correio. À moda antiga.
Ando para trás, até ao Largo da Maternidade e descaio-me até à rua Júlio Dinis. É outro território, definitivamente. Já não há casas que parecem de bonecas; só prédios iguais aos prédios de cartão que construía nas aulas de trabalhos manuais. Subo até à Boavista para ver a Casa da Música onde já não me lembro de ir? Aproveito e, mais abaixo, desencaminho o amigo comunista dos cafés que, partilhados, fazem acender luzes em Beirute? Penso nisso, tentada, mas acabo por não me desviar. Calco, pela primeira vez, os cuidados jardins da Galiza, esses onde a Câmara gosta de colocar a sua propaganda. Olho para dentro das cervejarias: a Galiza de um lado, o Gambamar do outro, ambos ainda vazios, que a clientela dali, clientela como eu antes de me habituar a cozinhar, só chega fora de horas.
Não é grande aventura viver a olhar para trás. Mas continua a ser das universidades que me sinto mais estranhamente próxima. Ali, na linha das faculdades do Campo Alegre - onde fiz a prova específica de História no longínquo ano de 1995 -, misturo-me com a catadupa de alunos, alunos com aquela sensação de que o tempo passa devagar e de que o mundo lhes (nos) pertence. Dizem-lhes todos os dias que, quando acabarem os cursos, não terão emprego. E que se o tiverem, o melhor que lhes poderá acontecer é passarem a pertencer à geração "mil euros". Eles talvez pensem nisso, talvez até se preocupem e se assustem com a possibilidade, mas enquanto esse dia não chega, estão felizes. E sabe tão bem ver pessoas felizes. Pessoas com os olhos pendurados no ar em vez de os pregarem ao chão. Entram todos no mesmo café. Tenho saudades do que era, também, o nosso café. Onde entrávamos todos sem termos combinado nada. Onde estamos agora? Onde entramos?
Espio ainda a ementa do restaurante do Campo Alegre. Continua praticamente a mesma desde que o Luís me levou lá. Luís do mar de Moel, das margaridas amarelas, das palavras de açucar, da amizade a sério. [Foi há tanto tempo, lembras-te? Foi antes de trocares o Porto por Londres.] Alguém devia ensinar-nos, em pequenos, que as cidades não podem escolher-se pelas pessoas que as habitam, porque quando chegarmos elas podem estar a partir.
Começo a aproximar-me de casa. Já suada, já com a camisola atada à cinta. Já com a chave na mão. Tenho este vício de tirar da mala a chave muito antes de ver a porta. Rio-me quando passo na escola de condução onde estou inscrita há quase quatro anos e onde não coloquei os pés sequer meia dúzia de vezes. Se os stands vendessem asas em vez de carros, já teria a carta. Ao lado, abriu uma imobiliária. A casa, que só posso ter comprado num momento de insanidade, valeria, atesta uma fotografia colada na montra, mais 75 mil euros se estivesse empoleirada num terceiro andar. Perco a vontade de rir. E não é pelo preço. É por ter achado, cedo demais, que o Porto seria a minha última paragem.
Passo pelo meio das Condominhas, onde também já morei. Um T1 com vista para o rio que não me deixou saudades. A senhora idosa da frente assusta-se com o vulto que a persegue: eu. Não lhe levo a mal. À frente dela - à frente dela e à minha frente - estão cinco junkies, sincronizados, nas escadas do prédio da curva a cozinhar um caldo. Viver nas costas do Aleixo é viver paredes-meias com escombros humanos. Com o que resta de uma vida que talvez nunca tenha chegado a ser. E que perturba, mas nem sempre comove. Tropeço do André, arrumador que mais parece porteiro do prédio. Pergunta-me o que me fez de mal. Pergunta-me sempre isto desde que deixei de lhe dar moedas. "Nada, André. Não fizeste nada."
Acciono o comando do portão. Lanço um olhar panorâmico sobre o jardim que me acolhe de flores ainda abertas e respiro fundo com esperança de que algum sabor a privilégio me diga que isto me basta. A lua está cheia e sentada em cima da minha cabeça. A Chiara Mastroiani já está, outra vez em repeat, graças a um doce presente recebido durante a tarde, a sussurrar Au parc de Alex Beaupain. A sala continua a cheirar a incenso. E o telemóvel volta a tocar. "Última quinta-feira do mês no Batô. Está lá a velha guarda toda. Vens?"
Não vou. Seria perfeito se o Porto fosse a cidade onde quero ficar. E não é. Já não é.