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terça-feira, dezembro 11, 2007

Crónica de um triste espectáculo

Ao fim dos primeiros vinte minutos, estou ao despique com Rui Rio. O desafio é ver quem boceja mais vezes. Não sei quem ganhou - às tantas, empatámos, mas pelo menos não adormecemos. Nem todos os deputados socialistas poderão dizer o mesmo. Rectifico: devo ter ganho eu, que fiquei até ao fim. Sempre me deu a vantagem de uns bocejos extra.
A Oposição da Câmara Municipal do Porto pediu uma sessão extraordinária da Assembleia Municipal - ocorrida ontem à noite - para debater a situação do Rivoli depois de o Tribunal ter-se pronunciado sobre a ilegalidade que terá estado na origem da concessão daquele Teatro a Filipe La Féria. O PSD estava lá todo, inclusivamente munido de directores municipais, não fosse dar-se o caso de ser confrontado com alguma pergunta cuja resposta poderia não estar na ponta da língua. Estranhamente, o PS esqueceu-se de mandar os vereadores, mesmo aquele que assinou a Providência Cautelar à qual a decisão judicial foi favorável. Apareceu apenas Ana Maria Pereira, quase invisível, mais tarde. A CDU, idem aspas. Apareceu Rui Sá, mudo, já o espectáculo ia avançado. A sessão estava marcada para as 21 horas. Começou atrasada. E às 21.30 horas, confrontado com a ausência de inscrições, já o presidente da mesa, José Pedro Aguiar-Branco, ameaçava encerrar o serão.

Feridos no seu orgulho - oco orgulho partidário, e não das convicções firmes - os deputados começaram a pedir a palavra. Não porque tivessem realmente alguma coisa a acrescentar. Queriam só fazer de conta que estavam realmente a debater o assunto. Pior: queriam fazer de conta, embora não tenham conseguido, que sabiam o que estavam a dizer e que sabiam para onde queriam ir. Não sabiam. Nem uma coisa nem outra. Mesmo como espectáculo, não poderia ter sido mais desolador. Se a entrada fosse paga, eu teria pedido devolução do dinheiro no fim.
Artur Ribeiro (CDU) já tinha inaugurado a sessão, roçando muito ao de leve o assunto que motivara a Assembleia. José Castro (BE) seguiu-se-lhe, enunciando o que considera ser uma "desconsideração" pela própria Assembleia, pela Justiça e pela cidade. Divagações, portanto. São os dois incontornáveis naquele palco. E Justino Santos (PS) limitou-se a ler um texto sobre o historial do Rivoli para justificar a posição socialista. Ao primeiro round, o vazio completo. Nada de novo. Pior, nem uma pergunta dirigida a quem quer que fosse.

Segundo round, o tal para o qual eram necessárias inscrições. No caso, feitas a saca rolhas. Gustavo Pimenta (PS) vai dizer o que já havia sido dito. E acrescenta que o problema não é bem La Féria, nem bem os espectáculos dele, nem bem.... hmmm, bem o problema é.... Sérgio Teixeira (CDU) vai ao púlpito dizer apenas que o silêncio da sala afecta a dignidade do órgão e regressa mais tarde, consolado por acreditar que foi o seu desabafo a motivar a súbita, embora paupérrima, participação dos deputados. José Castro (BE) regressa também para - pasme-se! - ler um texto assinado por Marcelo Mendes Pinto (CDS), ex-vereador da Cultura no primeiro mandato de Rui Rio, tecendo-lhe os maiores elogios. (Em nenhuma outra área que não a da política se passa assim de besta a bestial!) E para acrescentar que o problema não é bem La Féria, nem bem os espectáculos dele, nem bem.... hmmm, bem o problema é.... Justino Santos (PS) regressa também para partilhar com a audiência a sua pessoal agenda cultural e para atestar o quanto gostou - pede perdão a Deus para proferir o pecado - do musical laferiano "Jesus Cristo Superstar", para dizer que até vai com os filhos, na próxima quinta-feira, ver a "Música no Coração" e bem, para acrescentar que o problema não é bem La Féria, nem bem os espectáculos dele, nem bem.... hmmm, bem o problema é....

A cereja não coube ao PSD, porque é difícil eleger uma cereja numa cerejeira repleta de frutos. Ainda assim, Gabriela Queirós (PSD) pediu a palavra para, resumidamente, dizer isto: "Ok, a decisão da Câmara é ilegal. E depois? Ajudem-nos a encontrar uma forma para tornar isto legal". Seria desastroso se tivesse sido apenas isto. Mas a deputada, bem ou mal, populista ou não, atirou números para cima da mesa: 2400 pessoas frequentam hoje diariamente o Rivoli, sendo a previsão anual de frequência de 392 mil pessoas contra as 132 mil verificadas no passado.

Como ninguém havia feito o trabalho de casa, não havia como contestar. E como ninguém sabia o que estava ali a dizer, a fazer, a defender, agarraram-se todos aos números e, eis que, de repente, a Oposição esqueceu-se que o motivo da Assembleia não era nem o serviço público, nem a estratégia cultural da Câmara, nem a formação de públicos. Ontem, não era isso. Porque isso já havia sido vastamente discutido. Mas como eles não sabiam o que era, qualquer casca de banana era boa para escorregar. Escorregaram todos.
Rui Rio, estóico, aguentou-se calado. Com toda a justa propriedade. No lugar dele, também não teria aberto a boca. Abriu apenas uma breve excepção para voltar a explicar a teoria dos 5% das receitas líquidas do Rivoli que La Féria temporariamente não terá que pagar à Câmara. E abalou.

Na assistência, estavam os resistentes que se barricaram no Rivoli. Sozinhos, como se não passassem afinal de um bando de loucos que cismou que o Teatro tem outras obrigações. Os únicos que sabiam o que estavam realmente ali a fazer e a dizer; os únicos que fizeram as perguntas certas. Tarde demais. Já não havia quem lhes pudesse responder. E estava também o povo da cidade. Gente que não tem nada a ver com nada, mas que vai ali como quem ia, em tempos idos, ao Coliseu de Roma. Ver um espectáculo selvagem. Não lhes importa o assunto; importa o quanto se divertem com aquele circo. É um circo.

sexta-feira, junho 22, 2007

Fosse só o Rivoli....

Enquanto a maioria se revela e debela pela luta do Rivoli, Rui Rio sorri. Mesmo que o seu sorriso venha embrulhado em vinganças perigosamente infantis (deveria dizer canalhas?) e estratagemas de exclusão, provavelmente apreendidos no orgulho do seu colégio alemão. Sorri porque ele, mais do que qualquer outro, saberá que quanto mais as pessoas da cidade estiverem focalizadas num único assunto - a perda do Teatro Municipal com tudo o que isso significa de subtração de diversidade cultural -, mais aos olhos do país parecerá que o assunto não basta para tamanha insatisfação. O mesmo defenderá - e defende - o olhar mais distraído, ou menos exigente, dos cidadãos do Porto - seguramente os que nele votaram. E nesse arco de posições extremadas, Rio sentir-se-á salvo porque, aparentemente, vítima da obsessão de um grupo que ele considera reduzido.

Só ele sabe o jeito que este circo lhe dá.

Se o Rivoli fosse a única imagem da inércia cultural da cidade já seria suficientemente grave (por razões vastamente conhecidas e que não me apetece repetir). O problema é que a atenção mediática (mediática, mas tragicamente impotente) que o Teatro ganhou serve, apenas, para encobrir os problemas todos dos outros equipamentos que o seu Executivo impunemente delapidou.

A Casa de Cinema Manoel de Oliveira, onde está? Empatada há quatro anos, grafitada e cercada de matagal. Sem vergonha, a Câmara colocou o cineasta a pagar a renda do apartamento que ela própria arrendou para catalogar o seu acervo.

Os Ateliers da Lada, para que servem? As casas que deveriam ser, como foram em 2001, residência para artistas nacionais e internacionais criarem e projectarem o seu trabalho no Porto estão agora a servir de albergue pontual para uns quantos que foram desalojadas pela autarquia.
O Cinema Batalha, como está? Gerido por Laura Rodrigues da associação de comerciantes numa negociata que nem Deus saberá, rasteja entre a cantina de bairro e os bailes de paróquia num nível de exigência mais do que deprimente. Ela jura que teve 500 mil pessoas no ano passado. Alguém acredita?
O Teatro do Campo Alegre, que evolução sofreu? Esse espaço que iria servir, na voz de Rui Rio, para acolher as criações das companhias independentes da cidade. Todas menos uma: o Plástico ficou vedado por se ter barricado no Rivoli. Ah, a liberdade...
E o Edifício Transparente (esquizofrenia em grau terminal do PS, é certo) transformado em centro comercial? É sempre mais fácil converter tudo a tostões. Ou, pelo menos, à possibilidade de os ganhar. Haja restauração em força!

E depois, a cultura de Rui Rio não é só La Féria; não é só um lençol vazio. É, também, um improvável concerto dos Keane que a Câmara, vá lá saber-se porquê, decidiu promover em Agosto.

Viva Rui Rio! Viva!

quinta-feira, junho 21, 2007

Rui Rio, the big brother

Revelação que pode excitar Rui Rio, discípulos, apoiantes, camaramen rasteiros e similares: David Pontes, essa vil figura do jornalismo, que se arroga o direito de exercer a sua cidadania apesar de ser sub-director de um jornal (Que raio! Ninguém lhe explicou que um director para ser sério, isento e honesto tem o dever de não existir fora da plataforma onde trabalha? Que, de preferência, deverá mesmo ser casto, não vá dar-se o caso de se deixar contaminar por um qualquer matrimónio oue lhe conspurque a conduta?!), essa figura, dizia, além de se opor à concessão do Teatro Rivoli a Filipe La Féria, é adepto do Futebol Clube do Porto. Nos dias de jogo é vê-lo a caminho do Dragão, frenético, ansioso, fosforescente, animado com a ideia de ver ganhar o club de Pinto da Costa; devastado se ele perde. Como é que essas imagens, ilustração irrevogável da sua falta de parcialidade, e mesmo de dignidade, nunca apareceram no You Tube?! Os caninos de Rui Rio não trabalham ao domingo?!
As câmaras de filmar, sabemos todos, têm limitações. A que foi contratada por Rui Rio não confiscou (ou não reconheceu, talvez por não ter a dimensão mediática que o presidente da cidade diz ter David Pontes e Carla Miranda, essa mulher infame com quem partilha a vida e que, ainda por cima, é actriz) o chefe de redacção do JN. Outra revelação: José Queirós não só esteve na manifestação como não evitou aplaudir as griffes internacionais que desfilaram na carpete vermelha. As objectivas não captaram, mas Rui Rio é bem capaz de ter razão: como pode confiar-se nos critérios editoriais de um jornal que tem dois jornalistas na mesma acção de protesto? Pior, José Queirós, num acto de desafio superlativo à autoridade, ainda escreveu uma crónica sobre o que viu. Terá enlouquecido? Como pode o jornal de uma cidade manter nos seus quadros duas pessoas com este avançado estado de demência? E os outros jornalistas? Os do DN e do Público, que também lá estavam de R em punho? De facto, já não se pode confiar em ninguém...
Sem liberdade não há democracia. E a democracia de Rui Rio é o sistema encardido, com cheiro a mofo, decrépito e pautado pela máxima: "Quem não é por mim é contra mim", que "aqui quem manda sou eu e eu, só eu é que sei". Obcecado, no limiar da enfermidade crónica, perseguido e perseguidor, não lhe restaria outra saída que não a de voltar à cadeira de um tribunal. Eventualmente, para uma reguada que nunca lhe servirá de lição. Que tipo de homem acredita ter o direito de poder filmar os outros, catalogá-los, dissecar-lhes a vida pessoal e daí fazer extrapolações para o seu desempenho profissional? E quem, no seu pleno juízo, pode defender que Rui Rio é um homem saudável?

quinta-feira, maio 10, 2007

La Féria na cruz

O tema do musical que Filipe La Féria há-de estrear um destes dias no Teatro Rivoli, no Porto - Jesus Cristo Superstar - não poderia ser mais irónico. Numa cidade que cultiva uma necessidade obssessiva de ter inimigos abater, a cegueira parece começar a confundir o alvo. Crucifixa-se La Féria e iliba-se Rui Rio. Ou seja, mata-se a doença, mas deixa-se viver o que a provocou.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Preview La Féria

Peles verdadeiras, falsas, às cores - castanhas, pretas, matizadas, brancas; luvas curtas, compridas, sem dedos, de cetim, de pêlo; xailes, echarpes, estolas; tacões-agulha, tacões-régua, todos altos; carteiras e cintos da colecção; sobretudos caxemira e lencinhos-ao-tom no bolso superior direito; madeixas das modalidades todas, extensões, cabelos brancos, muitos, louros também, platinados; uma palete inteira de odores. E Carlos Castro, importado da capital. Passadeira vermelha, claro. E castiçais esguios com velas acesas nas laterais. Casa cheia!
Eis o preview Filipe La Féria exibido hoje na ante-estreia (no Porto; em Lisboa já saiu de cena) de Miss Daisy, peça encenada por Celso Cleto, no Teatro Rivoli, no Porto. Lá dentro, Eunice Muñoz é a estrela da companhia. Atrás dela, na parte que não se vê, uma equipa inteira de pessoas despedidas de fresco. Talvez alguém, no fim, as possa aplaudir. A cada uma das que ajudou a montar o espectáculo. Ou talvez não. Talvez o público seja impedido de o fazer pela dúzia de polícias disfarçada de ninguém. Sim, esses que com ar de lobo-mau e punho fechado afugentavam os arrumadores que pediam à porta do edifício.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Cultura da camioneta

No controverso processo de concessão do Teatro Rivoli a Filipe La Féria existem inúmeras perguntas às quais seria importante dar respostas. Respostas que Rui Rio não deu e ameaça nunca vir a dar. Mas hoje, no programa "O dia em análise", no Porto Canal, Agostinho Branquinho, deputado do PSD, sócio e braço direito de muitos anos do presidente da Câmara, no fundo, o seu zorro de capa-e-espada, sintetizou, com invulgar eloquência, o objectivo desta espécie de concurso público. Passo a citar, eventualmente cedendo à imprecisão formal da memória, mas sem desvirtuar o sentido. "Filipe La Féria faz com que muitas camionetas se desloquem de todo o país para assistir aos seus espectáculos. E isso, não tenhamos dúvidas, é fundamental para animar a Baixa".
Restam dúvidas sobre os critérios de selecção? É a verdadeira cultura da camioneta! Sendo que "cultura" foi termo que Branquinho nunca utilizou, substituindo-o sempre por "animação". Residirá aqui um dos principais equívocos do processo: a confusão grave entre os dois conceitos. À Câmara pouco importa se existe cultura, se ela desempenha um papel efectivo na vida das pessoas, se contribui para o real desenvolvimento de um território (físico e mental); à Câmara só importa animar a malta! Até podia ser com cãezinhos amestrados!
[Agostinho Branquinho foi um dos administradores da Casa da Música no reinado de Manuel Alves Monteiro. Por ser Natal, e só por isso, resistirei à tentação de falar sobre esse período e sobre o entendimento, já então demonstrado, que o séquito de Rui Rio tem de cultura.]

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Rui Rio e o Rivoli

Sábado. 18 horas. A Câmara Municipal do Porto emite um comunicado a dar conta do que já se supunha, pelo menos, há seis meses. Supunha-se tanto que achei que nunca fosse verificar-se. O Teatro Municipal Rivoli, restaurado e equipado há cerca de dez anos com dinheiros públicos para, supostamente, cumprir um projecto específico será gerido, a partir de Maio de 2007, e durante quatro anos, por Filipe La Féria. A peça de estreia será um musical dedicado a Carmen Miranda. O encenador e produtor de Lisboa abraçará a responsabilidade de fazer a Baixa portuense mexer.
Três dias antes do anúncio, veiculado, como habitualmente, pelo site da autarquia, Florbela Guedes, assessora de Rui Rio, jurava ao JN que o processo ainda não estava fechado. Nem poderia ser levado à reunião camarária de terça-feira, dia 19, porque os vereadores, justificou, teriam que receber a documentação correspondente até quarta-feira da semana anterior. Sem processo fechado não havia papelada para entregar. Nem nada para discutir.
Apesar disso, nesse mesmo dia, Manuel Teixeira, chefe de gabinete de Rui Rio almoçou em Lisboa com La Féria e a sua equipa. Pessoas ligadas à empresa do produtor afirmaram que a Câmara havia feito exigências técnicas que eles não tinham condições de cumprir. Ainda assim, La Féria ganhou. Já antes a Câmara havia duvidado da liquidez financeira da empresa "Bastidores". Ainda assim, La Féria ganhou. A Câmara, cuja política diz orgulhosamente pautar-se por números de audiência, já em 2005 tinha apoiado La Féria em dois espectáculos ["Rainha do ferro velho" e "A menina do mar"] apresentados no Teatro Sá da Bandeira. Um deles foi cancelado por falta de público. Ainda assim, La Féria ganhou. Rui Rio, depois de ter dado (a fundo perdido?) 100 mil euros em compra de bilhetes a La Féria para as peças referidas sugeriu-lhe ainda que ocupasse o Cinema Batalha, já sob a exploração de Luís Montez, que rejeitou por ser demasiado pequeno.
Mas à terceira foi de vez. Rio Rio conseguiu trazer La Féria para o Porto. Ele e a sua comissão independente, constituída por Álvaro Castello-Branco, Raul Matos Fernandes e o próprio Manuel Teixeira. Como se vê, independente e ligadíssima à cultura! Nada contra La Féria no Porto. Tudo contra a falta de correcção das pessoas. E sobretudo contra a falta de honestidade de pessoas como Rui Rio, que não cansa de afirmar a sua seriedade. Rui Rio não é sério. Não é honesto. Não é correcto. Não é verdadeiro. Se dúvidas ainda pudesse haver, o processo Rivoli é absolutamente revelador da sua falta de carácter. Os outros candidatos ficaram a saber pelos jornais que perderam. Nunca hão-de saber porquê.
Pela primeira vez compreendi o discurso, que sempre me incomodou, dos "braços caídos", da "derrora antecipada" proferido repetidamente há uns meses, por um vereador socialista. Perderam todos os que defendem e acreditam numa cultura da linha da frente. E perderam todos aqueles que, como eu, ingenuamente, acreditaram que vale a pena discutir, espernear, esgrimir argumentos. Mas nenhum de nós perdeu a dignidade. Isso será sempre mais importante.
No dia em que me perguntarem que livro estou a ler, saberei responder, no mesmo milésimo de segundo, os dois ou três que me acompanham sempre. No dia em que me perguntarem qual foi o último concerto ou peça de teatro a que assisti, saberei igualmente responder com rapidez. Nunca direi que a pergunta é "difamatória".
Rui Rio continuará a rir... até ao despenhamento total da cidade.

quinta-feira, novembro 16, 2006

Isabel Pires de Lima versão TGV


O problema de algumas pessoas é não saberem dizer 'não'. E não terem a mínima noção do que ganhariam se o soubessem dizer. Isabel Pires de Lima, sem surpresa, é uma dessas criaturas. Lamentou, em Outubro, aos ex-ocupas do Rivoli não poder resolver-lhes/nos o problema - evitar a concessão do Teatro Municipal do Porto a entidades privadas - mas prometeu estar disponível para tertúlias. Seguramente - percebe-se agora -, na esperança de que eles não aceitassem a sua generosidade. Mas eles - azar o dela - aceitaram.
Então, lá veio a ministra da Cultura por aí acima, sem assessores, claramente sem aprovação superior, sem estratégia, sem coragem, sem tempo, sem nada, tentar honrar a palavra, ignorando que nenhuma honra é passível de ser cumprida pela metade. No Cinema Passos Manuel, perante uma plateia de algumas dezenas de pessoas - mais ou menos as mesmas de sempre, é certo -, leu um discurso aos solavancos sobre as apostas futuras da tutela e foi embora.
Foi embora sem ouvir uma única pessoa; uma única ideia; sem responder a uma única questão. Curioso terem dito que seria ela a presidir a sessão... Quem a defenderá amanhã depois da conferência de imprensa de Rui Rio???

domingo, outubro 22, 2006

A "rivolução" de Pacheco Pereira (conclusão)

Pergunto-me, o que sabe realmente Pacheco Pereira do actual tecido cultural do Porto? Ele que acha que o protesto contra a privatização do Teatro Rivoli foi encetado pelo Bloco de Esquerda? Ele que acha que "o número escassíssimo de pessoas" que se barricou no equipamento pertence ao Teatro Plástico, desconhecendo que a companhia não tem propriamente uma família residente? Ele que parece não saber sequer que, em Portugal, salvo raras excepções, nenhuma companhia a tem? Ele que acredita que os espectáculos do Plástico têm 30 pessoas na plateia, não tendo em dez anos visto uma única peça da estrutura? Ele que não está minimamente a par do teatro e do resto que se faz na cidade, embora na crónica tenha decidido perseguir só o teatro e só o Plástico? Ele que definitivamente não sabe que Lorca, Miller, Virginia Woolf andam por aí nos palcos do Porto, provavelmente com qualidade igual ou superior àquela que ele parece ter visto quando tinha 20 anos?
Ele que considera "completamente absurdas" as "manifestações públicas de apoio inequívoco" da ministra da Cultura - se as tivesse havido e, ao contrário do que escreveu, não houve -, num "governo democrático"? Não será, justamente, liberdade de expressão de um membro eleito que se espera num governo democrático?
O que sabe realmente Pacheco Pereira do tecido social do Porto? Ele que acha que Rui Rio, o autarca "contabilista", ao contrário de Fernando Gomes "dos bons velhos tempos do binómio futebol-"cultura" anda a investir o dinheiro que sobra da sua "severa gestão" na acção social? Pergunto-me há quantos anos não virá Pacheco Pereira ao Porto ou em que ruas passeará quando cá vem.
Aliás, que sabe Pacheco Pereira de Rui Rio? Se acredita, como escreveu, que a "cultura" - e ele lá saberá por que escreve cultura sempre entre aspas -, "é o meio mais eficaz para obter propaganda", por que raio se esqueceu que o autarca do Porto, quando ganhou as últimas eleições, anunciou (mentindo, é certo) uma inflexão nas suas posições culturais prometendo compensar os cidadãos da cidade pelos últimos quatro anos em que subestimou a cultura? Seria uma tentativa de Rui Rio para obter "boa imprensa, legitimidade, figuras de cartaz e "nome"?!

Que poderá saber Pacheco Pereira de uma cidade onde não vive quando defende que antes do 25 de Abril é que era? Antes do 25 de Abril é que "o povo - O povo?! Será que é isto que chateia Pacheco e todo o sequitozinho de Direita? Que o "povo" tenha descoberto outras coisas para lá daquelas a que o queriam limitar?! Que o povo tenha invadido universidades e alcançado horizontes que antes do 25 de Abril estavam apenas à disposição de uma minoria, essa sim, de elite?- dispunha de espectáculos de teatro, quer "sério", quer de revista, com a vinda regular das companhias de teatro de Lisboa ao Rivoli e ao Sá da Bandeira. Será que Pacheco sabe que agora não vêm só de Lisboa? Que vêm do mundo todo? Antes do 25 de Abril, continua, é que havia óperas, "óperas mais "fáceis" como O Barbeiro de Sevilha, o Rigoletto ou a Cavalaria Rusticana, mas era ópera e os espectáculos conheciam enchentes". Reparem bem no desdém: eram óperas mais fáceis mas para o povinho servia e o povinho ia. "Eram espectáculos populares e baratos".
Pacheco Pereira representa o que de pior existe na Direita. Nessa Direita para quem os pobres e os menos esclarecidos fazem imensa falta para lhes recordar que eles não fazem parte desse universo. Só lhes fazem falta para isso, porque depois nem lhes dão cultura nem lhes melhoram a qualidade de vida. Por muito contabilistas e severos que se achem.
Por fim, que sabe Pacheco Pereira do "completo divórcio entre a "cultura" subsidiada e o público, que gera um establishment cultural de muito má qualidade, caro e solipsista, que existe apenas para si próprio e fora de quaisquer critérios que avaliem o uso de dinheiros públicos" quando parece desconhecer que a irmã, Beatriz Pacheco Pereira, e o cunhado, Mário Dorminsky, serão a maior esponja de subsídios da cidade, mentindo sempre, ano-após-ano, no número de espectadores, e também de convidados da imprensa estrangeira que frequenta o seu Fantasposrto? [Ninguém tem culpa da família que tem. E ninguém tem que responder pelos pecadilhos dos outros. Mas o decoro deve obrigar-nos ao silêncio].
"Não não é isso a rivolução dos nossos dias?"

sexta-feira, outubro 20, 2006

Reposição da justiça

Anteontem escrevi que lamentava a ausência de solidariedade de algumas respeitáveis figuras do Porto para com aqueles que incessantemente, mesmo que de forma discutível, têm defendido a continuidade do serviço público no Teatro Rivoli. Mas fui injusta com algumas das pessoas que referi. Ou porque desconhecia o estado de saúde de Isabel Alves Costa, que soube entretanto estar de baixa; ou porque não estava devidamente a par das acções de João Fernandes, de Serralves, que manifestou publicamente o seu apoio ao movimento, acabando inclusivamente por pedir demissão do Conselho Geral da Culturporto; ou porque não soube simplesmente esperar pelo despertar de declarações como a de Pedro Burmester da Casa da Música ou pelos esforços investidos por alguns vereadores da Oposição, no sentido de estancar a crise. Isto é um pedido de desculpa. A todos.

A "rivolução" de Pacheco Pereira

José Pacheco Pereira tem de inteligência, às vezes, o que tem de burrice profunda, outras vezes. É como o tempo. E ontem, no Público, a propósito da ocupação do Rivoli, o rosto do autor da crónica, irmão daquela que é, muito provavelmente, a senhora mais subsidiada da cidade e que mais descaradamente mente em relação à média de espectadores dos seus "não-objectos" - ou ainda ninguém reparou que não passam realmente 500 mil pessoas em 15 dias no Fantasporto? -, deveria cobrir-se de vergonha. Mesmo.
Hoje estou cansada, mas amanhã voltarei, definitivamente, ao assunto.

quinta-feira, outubro 19, 2006

Teatro Rivoli IV

Não será ainda caso para pedir a demissão do vereador da Cultura? E, de preferência, não o substituir? Era uma boa maneira de poupar dinheiro...

quarta-feira, outubro 18, 2006

Teatro Rivoli III

Já passa da meia-noite. Passo no Teatro Rivoli uma vez, duas, três. E de todas as vezes sou atropelada pelas mesmas questões: por que é que só alunos de teatro e pessoas que, de uma forma ou de outra, estão ligadas às artes, sobretudo cénicas, estão a manifestar solidariedade com a minoria que se barricou no edifício para defender os interesses da maioria? Onde estão aqueles amantes da cidade e da cultura que há uns anos se amarraram ao Coliseu para o defender? Ou não seria um grito a reclamar o direito à cultura mas antes e só um protesto mesquinho contra a IURD - Igreja Universal do Reino de Deus? Onde estão os responsáveis pelas outras respeitáveis estruturas da cidade? Ricardo Pais do Teatro Nacional S. João, Nuno Cardoso do Teatro Carlos Alberto, Pedro Burmester da Casa da Música, João Fernandes do Museu de Serralves... onde estão? Não têm nada a ver com isto?! E a própria Isabel Alves Costa, alguém viu? E os políticos, os que prometiam uma oposição inédita na história da cidade?
Inicialmente comecei por estranhar que a indignação do caso tivesse ficado circunscrita ao Porto; que não tivesse havido manifestões e mensagens cúmplices dos directores de outros teatros municipais, de outras entidades de Lisboa e do resto país. Depois entendi: se nem a cidade se mobiliza por que haveriam os outros de o fazer? Para esses seremos sempre, provavelmente, apenas, a cidade em que os polícias matam um condutor quando ele não pára.

terça-feira, outubro 17, 2006

Teatro Rivoli II

O presidente da Câmara do Porto tem há quase 72 horas várias dezenas de ocupantes no interior de uma casa que é, ainda, da autarquia. Podia seguir um de dois caminhos: expulsá-los, o que seria eticamente discutível, mas legal; ou enviar alguém capaz de entender as razões pelas quais decidiram barricar-se. Mas Rui Rio não foi por aí. Rui Rio decidiu brincar com as pessoas (não só com as que estão dentro do Teatro Rivoli) como uma criança brinca com uma mosca enfiada dentro de um copo: primeiro arranca-lhe uma pata, depois outra e outra até ter-lhe subtraído as quatro. Depois passa para as asas, que amputa. Não satisfeito com o sofrimento, quando a mosca já não pode caminhar ou voar, Rui Rio tapa o copo com a mão e fica ali a vê-la, lentamente, morrer asfixiada. E sorri cá fora, orgulhoso por ter assassinado o insecto. O comportamento, bizarro, demonstra bem o carácter do homem que o Porto tem à frente da cidade.

segunda-feira, outubro 16, 2006

Teatro Rivoli I

Rui Rio está para os artistas que continuam a protestar contra a sua decisão de privatizar o Rivoli como os deuses para Sísifo (do mito de Albert Camus): os deuses condenaram Sísifo a incessantemente rolar uma rocha até o topo de uma montanha, de onde a pedra voltaria a cair devido ao seu próprio peso. Eles pensaram que não há punição mais terrível do que "o trabalho inútil e sem esperança".

sábado, julho 22, 2006

Todos pelo Rivoli

Ainda alguém se lembra deste anúncio publicado "por engano" no Jornal de Notícias no dia 27 de Março, Dia Mundial do Teatro? E lembram-se que Rui Rio ameaçou processar o director do jornal?

TEATRO
Excelente localização, no centro do Porto, auditório com capacidade para 800 pessoas, mais pequeno auditório, restaurante/bar, sala de ensaios, zona administrativa, amplas áreas para congressos, conferências, casamentos, baptizados e eventos promocionais. Vende-se ou cede-se exploração a privados.
URGENTE
Contacto: Câmara Municipal do Porto - 222 097 000

quarta-feira, março 29, 2006

Vende-se Rivoli

O delay prova que evitei tocar no assunto, mas o assunto é demasiado bom (ou sexy, como diria Pires de Lima) para não ser tocado. Anteontem, Dia Mundial do Teatro, saiu no caderno de classificados do JN o seguinte anúncio, emoldurado - e não terá sido por acaso - a cor de laranja:
TEATRO
Excelente localização, no centro do Porto, auditório com capacidade para 800 pessoas, mais pequeno auditório, restaurante/bar, sala de ensaios, zona administrativa, amplas áreas para congressos, conferências, casamentos, baptizados e eventos promocionais. Vende-se ou cede-se exploração a privados. URGENTE.
Contacto: Câmara Municipal do Porto - 222 097 000

O anúncio, como se depreende, é uma piada - e nem sequer se pode dizer que seja de mau gosto. Eu, pelo menos, ri-me bastante. (Claro que não descarto a possibilidade de o defeito poder ser do meu mau gosto...) E o teatro, como se depreenderá também, é o Teatro Rivoli, alvo de esvaziamento gradual por parte da Câmara Municipal do Porto e, por isso mesmo, centro de polémica na última reunião camarária.

A meio da tarde, Rui Rio, que entretanto terá sido apanhado de surpresa com o sucedido, destilou no seu meio de eleição privado - o site autárquico -, toda a sua fúria em cima do dito jornal. Um jornal que, "mais uma vez contribuiu para a publicação de uma mentira, enganando os seus leitores"; um jornal que "publicou um anúncio que não é politicamente inócuo"; um jornal que ousou "dar amplo espaço noticioso ao debate sobre o Rivoli que teve lugar na última reunião do executivo".

Por tudo isto, Rui Rio decidiu fazer descer a sua sábia e justa mão sobre o jornal como um pai sobre um filho que falta a escola para ficar a brincar no recreio. O castigo vem anunciado no site: "A Câmara Municipal do Porto decidiu mover uma acção judicial contra o jornal e apresentar uma participação-crime contra o seu director, Leite Pereira, enquanto responsável máximo pela publicação em causa."

Ora, a reacção quase-quase fez com que, por uma vez, tivesse que vergar-me, rendida, diante da inteligência do senhor presidente da Câmara. E isto não é ironia. Ele que andava cheio de vontade de processar o JN; ele que passou meses a publicar diariamente a sua desilusão com as notícias publicadas no jornal e que infelizmente (para ele) nunca conseguiu desmentir; ele que acha que o jornal não o entende e descontextualiza as suas sempre doseadas afirmações; ele que até impôs um travão aos desbocados dos seus vereadores (o 25 de Abril não é como o sol, não nasce para todos) encontrou finalmente um não-assunto para se colocar na poltrona onde se sente melhor: a de vítima. Uff! Estava a ver que não!

Só é pena que Rui Rio, que já provou não perceber nada de jornalismo (valor-notícia; fontes, regras deontológicas, etc e tal) venha agora provar também que não percebe nada do complexo funcionamento de uma máquina como é a de um jornal. Seja a de que jornal for. E a manifestação pública da sua ignorância (por cortesia, não falarei do seu bom-senso) retira imediatamente esse apreço que quase-quase ganhei por ele. Convenhamos, um homem que consegue sempre moldar as histórias por forma a ganharem o formato que mais lhe convém merece sempre algum respeito. Nem que seja o simples respeito pela ginástica mental. Mas quando um autarca chega ao ponto de induzir os munícipes a pensar que o anúncio foi de autoria do jornal, quem é que engana quem, afinal?

A verdade é que mal estariam os jornais deste país se cada director tivesse que verificar cada anúncio do caderno de classificados. E no JN são algumas centenas. Quando muito, Rui Rio poderia lamentar a negligência do departamento comercial por não ter verificado a autoria do anúncio (a quem poderia agora imputar responsabilidades) e exigir um desmentido no dia seguinte. Se, por hipótese, um funcionário da autarquia, sei lá, um cantoneiro (nem sei se ainda existem, mas é um exemplo) me insultar na rua deverei processar o presidente da Câmara? Em última instância, seguindo a sua linha de raciocínio, é ele o responsável, não é?

No meio disto tudo fiquei com uma dúvida. Será que nesses múltiplos telefonemas de "pessoas iludidas" e interessadas em comprar o Teatro Rivoli estaria alguma instituição espanhola? Se sim, é bem provável que tudo isto não tenha passado de uma jogada do Governo de José Sócrates.

P.S.: Para que conste, o JN publicou uma nota, digna, no dia seguinte à publicação do anúncio, ou seja, ontem.


Nota da Direcção Comercial

Foi publicado ontem, no caderno de Classificados, um anúncio com o título "Teatro" que poderá ter levado os leitores a pensar que um qualquer teatro municipal da cidade se encontrava à venda, uma vez que tinha como contacto a Câmara Municipal do Porto. Este anúncio foi recebido no balcão-sede, no dia 24 de março, tendo sido pago em numerário, e sem que tivessem sido tomadas as devidas precauções na identificação do anunciante. A Direcção Comercial do JN lamenta o sucedido.