terça-feira, agosto 31, 2010
segunda-feira, agosto 30, 2010
Quanto de ti, amor...
Quanto de ti, amor, me possuiu no abraço
em que de penetrar-te me senti perdido
no ter-te para sempre -
Quanto de ter-te me possui em tudo
o que eu deseje ou veja não pensando em ti
no abraço a que me entrego -
Quanto de entrega é como um rosto aberto,
sem olhos e sem boca, só expressão dorida
de quem é como a morte -
Quanto de morte recebi de ti,
na pura perda de possuir-te em vão
de amor que nos traiu -
Quanta traição existe em possuir-se a gente
sem conhecer que o corpo não conhece
mais que o sentir-se noutro -
Quanto sentir-te e me sentires não foi
senão o encontro eterno que nenhuma imagem
jamais separará -
Quanto de separados viveremos noutros
esse momento que nos mata para
quem não nos seja e só -
Quanto de solidão é este estar-se em tudo
como na ausência indestrutível que
nos faz ser um no outro -
Quanto de ser-se ou se não ser o outro
é para sempre a única certeza
que nos confina em vida -
Quanto de vida consumimos pura
no horror e na miséria de, possuindo, sermos
a terra que outros pisam -
Oh meu amor, de ti, por ti, e para ti,
recebo gratamente como se recebe
não a morte ou a vida, mas a descoberta
não a morte ou a vida, mas a descoberta
de nada haver onde um de nós não esteja.
Jorge de Sena (1919-1978)
[in Visão Perpétua, Agosto, 1967]
domingo, agosto 29, 2010
Os cronistas do burgo I
Gostamos do João Pereira Coutinho. Acontece-nos isto com frequência, gostarmos mais de cronistas de direita, conservadores iluminados apenas pelas convicções da sua hermética quinta mental, do que dos da esquerda que tendemos a subscrever. A primeira vez que lemos JPC, já aqui o dissemos, teria ele pouco mais de 20 anos, um ilustre desconhecido que escrevia ainda para o Jornal de Matosinhos. Desde então, cheirando aquela escrita, picante e arrojada, a futuro promissor, nunca mais deixámos de seguir o rapaz. Gostamos de rapazes que nos divertem, a quem volta e meia podemos chamar "Palhaço", rapazes que são tão exagerados nas posições que defendem, nas analogias que se lhes atravessam no cérebro, que lhes concedemos o benefício de estarem só a cumprir um número que um dia funcionou, vendeu e que agora têm de alimentar sob pena de perderem o seu público. Gente como nós, que lhes acha graça - e gente como eles, que por certo lhes seguirá, fora do papel de jornal, as convicções. E se esse exercício nos prende e espicaça, então a função deles é cumprida com distinção.
Mas do João Pereira Coutinho gostamos mesmo, genuína e independentemente de o levarmos mais ou menos a sério e de acharmos que às vezes as suas ideias vivem ali paredes-meias com o stand-up. Temos a impressão de que na vida real, o rapaz será tão razoável como nós. E que, tal como nós, entende que as crónicas podem ser um bocadinho encenadas para provocar reacções efervescentes em quem as lê.
Vem isto a propósito do texto publicado no Diário Transladado Ouriquense, em que se analisa o exterior do rapaz - as mãos, a pose, a inclinação da cabeça - para tirar conclusões sobre as suas motivações interiores. JPC escreveu, ontem, no Correio da Manhã, um daqueles textos que, sem o recurso à hipérbole que é a sua impressão digital, não teria graça nenhuma. No caso, sobre a lapidação de uma mulher no Irão e consequente manifestação de repudio em Lisboa. Há sempre quem se ofenda. O rapaz volta a passar com distinção.
sábado, agosto 28, 2010
Imprensa a criar excêntricos todas as semanas
"O mundo tem com certeza muitos defeitos, mas o maior é esta mania dos sonhos. Porque quem sonha julga-se automaticamente especial. Como é especial, o seu sonho será real mais tarde ou mais cedo. Esta teima de que toda a gente é especial é um enorme aborrecimento. Alguém que se julga muito especial dificilmente percebe que é tão especial como um grão de areia na praia."
Pedro Boucherie Mendes, Index, i
"Eternos perdedores, expulsos vezes sem conta dos seus próprios países, os romas tiveram direito ao mesmo tratamento dado aos judeus nos campos de concentração nazis. Mas nem a História recorda o seu meio milhão de mortos durante o Holocausto. Párias de sempre, foram sendo, como os judeus, bode expiatório de todos os males. Como todos os povos sem terra, foi o isolamento que os salvou. (...) Hostilizados por todos os regimes, aprenderam a desconfiar dos estranhos e a recusar qualquer contrato social. Mas eles são, desde a Idade Média, tão europeus como qualquer europeu.
"Eternos perdedores, expulsos vezes sem conta dos seus próprios países, os romas tiveram direito ao mesmo tratamento dado aos judeus nos campos de concentração nazis. Mas nem a História recorda o seu meio milhão de mortos durante o Holocausto. Párias de sempre, foram sendo, como os judeus, bode expiatório de todos os males. Como todos os povos sem terra, foi o isolamento que os salvou. (...) Hostilizados por todos os regimes, aprenderam a desconfiar dos estranhos e a recusar qualquer contrato social. Mas eles são, desde a Idade Média, tão europeus como qualquer europeu.
Daniel Oliveira, Expresso
"O que Nicolas Sarkozy está a fazer em relação aos ciganos é uma vergonha para quem conhece a história da Europa."
Editorial, Expresso
"Quando um chefe de Estado ou de governo está em dificuldades por causa dos efeitos das medidas de austeridade, nada melhor do que a exploração de preconceitos através de uma expulsão de ciganos mediatizada, como fez Sarkosy. Por cá, em matéria de imigração, há ainda um consenso importante entre PS e PSD. Mas quando a situação se complica, aperta-se o cerco aos «malandros dos beneficiários do rendimento mínimo» e faz-se disso bandeira de contenção da despesa. É, de facto, o caminho mais fácil. Afinal, muita gente ganha pouco mais do que eles e tem de trabalhar. Essas pessoas e esses sentimentos existem."
Pedro Adão e Silva, i
"Os portugueses não confiam pura e simplesmente no regime: nos políticos do regime e nos partidos do regime. Ora, estando num sarilho sem ajuda, deviam em princípio andar aflitíssimos. Mas não andam. Porquê? Porque pensam (47%) que, se for preciso, a Europa lhes deitará a mão ou que, em geral resolverá a crise (28%). Por outras palavras, de «sopa do convento» a Europa ascendeu à categoria mais seráfica de um novo D. Sebastião."
Vasco Pulido Valente, Público
"O primeiro-ministro pede confiança a um país que não encontra motivos para confiar nem nos responsáveis pela condução dos seus destinos nem daqueles que se propõem substituí-los. Ou porque as prioridades que apresentam, como a revisão constitucional ou os apelos indirectos a novas eleições, no caso de Passos Coelho, não correspondem às urgências a que é preciso acudir, ou porque os seus discursos não colam à realidade, como sucede com um primeiro-ministro apostado em mostrar apenas o lado menos sombrio da realidade."
Fernando Madrinha, Expresso
[Pedro Passos Coelho] "ouve-me quando quer. E, às vezes, quando não quer."
Ângelo Correia, Expresso
"A tarefa de Teixeira dos Santos é difícil. Ter um primeiro-ministro que ao mais ténue sinal de crescimento resolve fazer um festejo itinerante não ajuda muito. Ter um governo que olha para o calendário com a firme ideia de que melhores tempos virão ainda ajuda menos. Curiosamente, o principal aliado político de Teixeira dos Santos é o Presidente da República. Cavaco Silva reconhece competência técnica e firmeza política no ex-professor de Economia da Universidade do Porto."
Ricardo Costa, Expresso
"Raros são os políticos que entendem o exercício de um cargo de poder como serviço à comunidade é uma função transitória e que não se deixam transformar pelas mordomias, as excelências e as louvaminhices. O passo, o olhar, o modo de falar, as vestimentas - tudo se lhes põe a rutilar como cauda de pavão. E nunca mais regressam ao normal."
Inês Pedrosa, Única
"A ganância não é um mal próprio de um regime, de um estilo, do capitalismo ou do neoliberalismo, É, com raras excepções que confirmam a regra, inerentes à condição humana. Acene-se com muito dinheiro e lá está ela. Por vezes, até com crimes à mistura."
Henrique Monteiro, Expresso
"O boom de plataformas de media social, diversas em temas e localização geográfica, são a prova viva de como o cidadão-consumidor assumiu o poder e passou, ele mesmo, a ser um media."
Alberto Rui, caderno de Economia, Expresso
"Emocionei-me recentemente quando o New York Times publicou um artigo a três colunas na primeira página dizendo que a política de energia em Portugal devia servir de exemplo a Obama."
Manuel Pinho, ex-ministro da Economia, DN
"Há nomes de pessoas no processo Casa Pia, que não são ligadas ao PS e ligadas a outros partidos. Se recuarmos até 2002 e analisarmos a situação política na altura, há que ver a ligação entre as pessoas proeminentes desta situação, desde a dra. Teresa Costa Macedo, ao dr. Bagão Félix... Ver que ligações e que tipo de actuação política estava em jogo, e que tipo de negociação - política e não só. E por que é que o artigo da revista Le Point, que acusa dois ministros da altura de serem pedófilos, não teve continuação."
Carlos Cruz, i
[Obrigatória a crónica de Inês Nadais, "Os livros", na rúbrica "Porque é Verão", no Público]
sexta-feira, agosto 27, 2010
Ser cigano é isto...
Vamos chamar-lhe Carlos, embora seja outro o nome dele. E admitir que vive em Lisboa, embora não viva. E que tem 40 anos, embora não tenha. Carlos é engenheiro, trabalha numa empresa conceituada e repleta de quadros superiores. Aparentemente, é como eles: licenciatura cumprida com sucesso no devido tempo, carreira profissional em linha ascendente, salário condizente. Conduz um carro topo de gama, telemóvel de última geração, indumentária trendy. É alto, musculado e moreno - e cigano.
Ser cigano é o seu segredo. Esconde a identidade como quem encobre um crime que não prescreve. E todos os dias acorda com medo de ser descoberto. Às vezes engole em seco, mas nunca escorrega. "Sei o que pensam, ouço os comentários. Não posso arriscar perder tudo só porque as pessoas nos metem a todos no mesmo saco". Não pode arriscar perder o respeito dos pares e, mais ainda, de quem lhe deve obediência. "Não posso sobretudo ser considerado culpado se alguma coisa falhar. Porque eu sei que se existe um cigano, a culpa é do cigano".
A frase soa a queixume, mas não é uma queixa. O discurso é de uma calma quase dormente, território onde por certo habitarão as consciências sem peso. Carlos não tem vergonha de ser cigano; tem apenas a consciência de que não vive num mundo perfeito. "Num mundo perfeito, as pessoas não achariam que os ciganos são todos ladrões ou preguiçosos ou criminosos. Tentariam saber mais sobre a nossa cultura e se não conseguissem entendê-la, no mínimo respeitá-la-iam. A parte nunca seria tomada pelo todo". Ele não teria de fazer de conta.
Carlos não tem a etnia que tem. E a única pessoa a saber é a namorada de muitos anos. "Contei logo no início, não podia trair um pilar fundamental de uma relação, que é a confiança". Correu bem. Mas na faculdade nunca ousou a confissão. "Era estranho ver os colegas a defenderem as minorias nas aulas e depois a condená-las cá fora". Hipocrisia que se habituou a assimilar.
Em Portugal existem 50 mil ciganos. Mas como a Constituição não permite a identificação da etnia no Bilhete de Identidade, quantos existirão camuflados no medo do cutelo do preconceito?
No Bairro do Iraque
Em Carrazeda de Ansiães, concelho transmontano do distrito de Bragança, há um bairro, no topo de um monte, chamado Iraque. É um condomínio de casas amolgadas, paredes que são chapas de zinco, portas de lona, janelas de vento, telhados sustentados por pneus velhos. No Bairro do Iraque, assim baptizado por ter sido, em tempos, zona de exploração mineira, a vida é como a canta Jorge Palma, "um carrossel onde há sempre lugar para mais alguém". Vivem ali 78 ciganos, 19 famílias.
À entrada, a alguns metros de distância dessa cidade pré-fabricada, uma camião anuncia a letras vermelhas: "Fazemos transportes internacionais". O anúncio é o papel de parede da casa de férias do casal Esteves. José e Palmira, primos direitos, casados com amor e nove filhos, já lá vão quase 20 anos, fazem de anfitriões sem fazer perguntas sobre quem chega. "Desde que venha por bem...". Não vivem ali, estão ali de férias. Como quem sai de casa para o campismo. No caso deles, de um acampamento para outro. O que conta é o espírito.
Palmira, 35 anos, olhos azuis e cabelo claro, é mulher alegre, despachada, viva. Fala sem parar enquanto corta cenoura, batata e feijão verde para a sopa. Ainda não são dez da manhã, mas o dia começa cedo, que ali há muitas bocas para alimentar. Oferece o que tem. "Café? Chá?" Rodopia a saia na direcção das crianças. "Quem ainda não tomou leite?" Pede à filha mais velha para ver se é preciso mudar a fralda ao mais novo. E continua a tagarelar, a sorrir.
De olhos fechados, aquele esmero seria o de um lar comum. De olhos abertos, quando um oleado verde faz de tecto de sala e a terra de carpete, pergunta-se porquê. Porquê ali? Porquê assim? José Esteves, o marido, cabelo desenhado em onda para trás, recostado numa cadeira de plástico a fumar um cigarro, veste a camisa para a explicação. Uma espécie de preâmbulo à incursão que se seguia no Iraque. "Estamos aqui para fazermos um bocadinho de negócio nas feiras, temos uma barraca de tiro. Esta comunidade é pacífica, ninguém mexe no que não lhe pertence, não rouba, não trafica, nunca aqui houve zangas ou rusgas", garantiu. E, mais tarde, a assistente social da Câmara, Alzira Lima, confirmou. "Vivem do Rendimento Social de Inserção, às vezes são chamados para o trabalho no campo. Os homens tiram sempre o chapéu" depois de receberem permissão para lhe entrarem no gabinete.
O bom comportamento, no entanto, ainda não deu direito à integração que ambicionam, conceito difícil de definir, mas que se confere quando abrem as portas do coração. "Estávamos lá em baixo na vila, mas há sete anos fomos atirados para aqui. A GNR entrou-nos pelas barracas adentro e mandou-nos sair, uma afronta", indigna-se dona Beatriz, 44 anos, já o almoço havia sido digerido e a cozinha arrumada. A ela até lhe deram uma casa, mas desde que a filha lá morreu, queimada, perdeu a coragem de lá voltar. "Agora estou aqui, de Inverno não se aguenta o frio, de Verão não se pode com o calor. E é tudo tão longe." É outra vez como o Bairro do Amor de Palma, "uma zona marginal onde não há prisões nem hospitais, onde cada um tem de tratar das suas nódoas negras."
Longe dali, em Paredes, distrito do Porto, está edificada a comunidade onde José Esteves, quando não está de férias em Trás-os-Montes, vive, trabalha e é feliz. "Mudei muito no último ano", confessa. "Percebi que, para sermos aceites, também podemos ceder um bocadinho nas nossas tradições, sem que isso implique negar aquilo que somos".
O senhor Esteves, como o tratam, é funcionário da Câmara e tem um papel determinante na integração da comunidade, no âmbito do "Projecto Piloto Mediadores Municipais" lançado em 2009 pelo Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural (ACIDI). "O projecto terá três anos de duração e o meu papel - é o mediador - é fazer a ponte entre a comunidade cigana e a sociedade, tanto nas iniciativas culturais como na resolução dos problemas", conta com orgulho. E com razão. Está tão entusiasmado que até decidiu escrever um livro. "Estou a fazer pesquisa, quero mostrar que existem muitas tradições e culturas diferentes dentro da mesma etnia. E que a nossa cultura é muito rica".
Hermínia Moreira, vereadora da Acção Social da Câmara, afirma que "ele é um exemplo notável". Rosário Farmhouse, do ACIDI, sublinha: "É uma inspiração". Os elogios ajudam a justificar os números: dos 15 municípios seleccionados para o projecto, Paredes, onde vivem 91 ciganos, é o que regista melhor desempenho: muitas parcerias com instituições, dezenas de actividades, centenas de pessoas a aderir às formações. O projecto culminará em 2012 com a construção de um novo empreendimento habitacional para a comunidade, que "não deixará de respeitar as características da etnia", explica a vereadora.
Este é o lado bom. O outro, mais discutível, é quando se entra no acampamento, mesmo no centro da cidade, mas igual aos outros todos. Ali é dona Teresa, língua afiada e ironia pronta, quem manda. "Vamos ter casas novas vamos, é já amanhã", atira logo para início de conversa. Aos 53 anos, parece mulher austera, não quer cá fotografias, desfia avisos em catadupa. Limpa as mãos ao avental, o suor da cara à camisola, poucos minutos depois revela-se avó babada, mulher prendada. Exibe mantas que faz com uma agulha. São arco-íris de bom gosto. "Já me ofereceram 50 contos por uma e não a vendi". Era do neto. "O resto ninguém compra, que isto está mau para todos." Vive como os outros, da prestação social do Estado. "Cada vez menos, estão sempre a cortar, qualquer dia não chega para comer".
Dona Teresa queixa-se do frio, das ratazanas da água que vai buscar todos os dias tão longe, mas não se queixa das pessoas da cidade. "Aqui, somos todos iguais".
Paisagem by Vanessa Chrystie
“Paisagem trata de abrir o coração, para que os outros vejam os lugares por onde nos passeamos. Ao questionar-se sobre o modo como a paisagem se relaciona com a nossa identidade, Vanessa Chrystie leva-nos pela mão e convida-nos a (re)descobrir as paisagens interiores que nos embrulham.
Aproximamo-nos das pinturas para observar os irresistíveis detalhes hiper-realistas, somos envolvidos pelo quadro como um todo e engolidos para dentro do seu espaço intimista. Em seguida apercebemo-nos do quanto está presente por ausência, tanto na pintura como em nós próprios. Ao mesmo tempo que nos perdemos dentro das pinturas, somos atirados para dentro de nós. E vemos como este acto de completar a pintura com o nosso olhar é feito com as nossas memórias, com as imagens que cada um de nós tem do corpo e do mundo. Por fim descobrimos, surpreendentemente, como temos dentro de nós as paisagens em que vivemos e os desejos de futuros horizontes que guardamos. De tal modo que este querer estar dentro da pintura é constantemente acompanhado por uma sensação de vontade de recuar. O movimento de aproximação e afastamento faz com que cada pintura se multiplique em várias leituras: a cada nova camada descoberta, uma redescoberta do quadro e de nós, do nosso ser.
Paisagem é um ensaio que nos mostra num só olhar as linhas do horizonte do interior dos corpos em simultâneo com os contornos das nossas paisagens. Depois de Paisagem não poderemos mais olhar as paisagens que nos rodeiam sem esta nova aprendizagem de inocência redobrada sobre o espaço em que nos encontramos.”
[Dina Mendonça in “Paisagens de Vanessa Chrystie”]
Galeria Arthobler, Porto
De 18 de Setembro a 30 de OutubroDe Quinta a Sábado, das 15h às 19h30
quinta-feira, agosto 26, 2010
Epílogo
Esgotaram os cigarros, o whisky, a paciência e as palavras. Choraram. Discutiram até ser dia. Os gritos batiam na janela como pássaros presos, assustados, espalhavam-se pela sala e, finalmente, caíam, cansados, no chão. As sombras dos móveis, dos objectos em cima dos móveis, ganhavam vida, mexiam-se com lentidão como fantasmas com medo. Escutavam, nas intermitências do silêncio, o pulsar do coração, o ranger dos dentes, a gelatina nas mãos. A crueldade a saltar das órbitas. O crepitar do fogo a queimar o passado em fotografias. Milhares de fotografias que lhes haviam forrado, aquecido os dias. Carpinteiros amadores a tentar reconstruir a vida fora do sonho enquanto o amor se despedaçava. A decalcar memórias que estão por vir em cima de memórias tatuadas por baixo da pele. Por dentro da carne. Perderam as certezas como quem tira e atira para longe a roupa. Rasgaram tudo. Embebedaram-se na dor, nas feridas reabertas uma e outra vez. Já não te amo, anunciou na escuridão. E na escuridão arrastou-se até à porta, chave na mão, na mala um esquecimento para decorar e exercitar. Um suspiro sustido desfez-se em choro. A lâmina da separação é a vertigem do não retorno. Apesar da viagem estar arquitectada desde o início. Como é que se asfalta um futuro quando tudo definhou e evoca o fim do caminho?
quarta-feira, agosto 25, 2010
sexta-feira, agosto 20, 2010
"O regresso do Pontal" by Pedro Adão e Silva
Mendes Bota acha que Passos Coelho está numa posição privilegiada para “perceber o povo”, afinal “vive em Massamá» e não num “condomínio fechado”. A frase não deve ser vista como um dislate do dirigente do PSD no Pontal. Foi resultado da esperteza saloia que já se anunciava na última edição do Expresso: “da estratégia do PSD faz parte mostrar o novo líder como o português comum que passa férias na recatada vila de Manta Rota, por contraste com o primeiro-ministro no luxo do Pine Cliffs”.
Sabemos que a anterior tentativa de demarcação com o PS - a revisão constitucional - não correu nada bem ao PSD. Passos deixou-se associar à privatização dos serviços públicos e à flexibilização dos despedimentos, e os efeitos tornaram-se visíveis nas sondagens. Para virar a página e voltar a sintonizar o líder com a classe média, não ocorreu aos estrategas do PSD nada melhor do que um contraste com as férias de Sócrates. Mas este regresso do PSD ao Pontal foi um regresso fora de tempo ao pior do cavaquismo, quando o homem do leme exibia a sua vivenda e justificava a ausência de currículo antifascista com o facto de não ter nascido em berço de ouro.
Com um Governo sem rumo, uma situação económica e social dramática e sem que se perceba como é que vamos ter orçamento para 2011, não deixa de ser significativo que o que o PSD tenha para oferecer seja uma ameaça de crise política combinada com uma discussão sobre as férias do primeiro-ministro e a freguesia onde vive o líder da oposição. É bem o espelho do pântano para onde estamos a caminhar. Quando a classe política der por isso, já os portugueses tiraram definitivamente férias da política. Em Massamá, no Pine Cliffs ou em Manta Rota. Pouco importa.
[Hoje, no i]
F. Scott Fitzgerald: O Grande Gatsby
"Sorriu compreensivamente - muito mais do que compreensivamente. Era um desses sorrisos raros que têm em si algo de segurança eterna, um desses sorrisos com que nos deparamos talvez quatro ou cinco vezes na vida. Um sorriso que, por um momento, encarava - ou parecia encarar - todo o mundo eterno, e que depois se concentrava em nós com irresistível expressão de parcialidade a nosso favor. Um sorriso que nos compreendia até onde desejaríamos ser compreendidos, que acreditava em nós como nós gostaríamos de acreditar, assegurando-nos que tinha de nós exactamente a impressão que nós, na melhor das hipóteses, esperávamos causar."
quinta-feira, agosto 19, 2010
"E o povo, pá?" by Hugo Gonçalves
[Foto: JMG]
Eu quero que o primeiro-ministro seja mais capaz que a grande maioria, que seja um exemplo e nos inspire a melhorar, não quero que seja como nós, o povo, porque o povo chega atrasado, junta-se à porta dos tribunais para arrear nos arguidos, pára na estrada se passa por um acidente, deixa-se arrebatar por músicas de Verão como “I got a feeling”, vê demasiada merda na televisão, mete baixa para ir de férias, não passa factura e não tem pagamento por multibanco para poder tourear as finanças.
Mendes Bota também disse: “Ele é um homem que passa férias junto aos outros, aos normais portugueses, não passa férias em hotéis de luxo e de cinco estrelas. Este homem compreende o povo porque vem do povo.” Já Mendes Bota não compreende o povo, que gosta mais de ser povo se não tiver se não tiver de viver num caixote de betão e marquise em Massamá e puder ir passar uns dias ao Brasil num hotel com pulseirinha de tudo incluído.
Já diziam os Homens da Luta: “E o povo, pá? O povo quer dinheiro para comprar um carro novo, pá.” O povo, como o entende Mendes Bota, já não existe. O povo já não quer ser do povo.
Hoje, no I
"Playa" by Roberto Bolaño
[Foto: JMG]
y al día siguiente volví a la playa y me volví a untar el cuerpo con protección solar y luego me quedé dormido sobre la arena, y cuando desperté me sentía muy descansado, y no me había quemado la espalda ni nada de nada, y así pasó una semana o tal vez dos semanas, no lo recuerdo, lo único cierto es que cada día yo estaba más moreno y aunque no hablaba con nadie cada día me sentía mejor, o diferente, que no es lo mismo pero que en mi caso se le parecía,
y un día apareció en la playa una pareja de viejos, de eso me acuerdo con claridad, se veía que llevaban mucho tiempo juntos, ella era gorda, o rellenita, y debía de andar por los 70 años aproximadamente, y él era flaco, o más que flaco, un esqueleto que caminaba, yo creo que eso fue lo que me llamó la atención, porque por regla general apenas me fijaba en la gente que iba a la playa, pero en éstos me fijé y la causa fue la delgadez del tipo, lo vi y me asusté, coño, es la muerte que viene a por mí, pensé, pero no venía a por mí, sólo era un matrimonio viejo, él de unos 75 y ella de unos 70, o al revés, y ella parecía gozar de buena salud, y él hacía pinta de que iba a palmarla en cualquier momento o de que ése era su último verano,
al principio, pasado el primer susto, me costó alejar mi mirada de la cara del viejo, de su calavera apenas recubierta por una delgada capa de piel, pero luego me acostumbré a mirarlos con disimulo, tirado en la arena, bocabajo, con la cara cubierta por los brazos, o desde el paseo, sentado en un banco frente a la playa, mientras fingía que me quitaba la arena del cuerpo, y me acuerdo que la vieja siempre llegaba a la playa con un parasol bajo cuya sombra se metía presurosa, sin bañador, aunque a veces la vi con bañador, pero más usualmente con un vestido de verano, muy amplio, que la hacía parecer menos gorda de lo que era, y bajo el parasol la vieja se pasaba las horas leyendo, llevaba un libro muy grueso, mientras el esqueleto que era su marido se tiraba sobre la arena, vestido únicamente con un trajebaño diminuto, casi un tanga, y absorbía el sol con una voracidad que a mí me traía recuerdos lejanos, de yonquis disfrutando inmóviles, de yonquis concentrados en lo que hacían, en lo único que podían hacer, y entonces a mí me dolía la cabeza y me iba de la playa, comía en el Paseo Marítimo, una tapa de anchoas y una cerveza, y después me ponía a fumar y a mirar la playa a través de los ventanales del bar,
y luego volvía y allí seguía el viejo y la vieja, ella debajo de la sombrilla, él expuesto a los rayos del sol, y entonces, de manera irreflexiva, a mí me daban ganas de llorar y me metía en el agua y nadaba, y cuando ya me había alejado bastante de la orilla miraba el sol y me parecía extraño que estuviera allí, esa cosa grande y tan distinta de nosotros, y luego me ponía a nadar hasta la orilla (en dos ocasiones estuve a punto de ahogarme) y cuando llegaba me dejaba caer junto a mi toalla y me quedaba mucho rato respirando con dificultad, pero siempre mirando hacia donde estaban los viejos, y luego tal vez me quedaba dormido tirado en la arena, y cuando me despertaba la playa ya empezaba a desocuparse, pero los viejos seguían allí, ella con su novela bajo la sombrilla y él bocarriba, en la zona sin sombra, con los ojos cerrados y una expresión rara en su calavera, como si sintiera cada segundo que pasaba y lo disfrutara, aunque los rayos del sol fueran débiles, aunque el sol ya estuviera al otro lado de los edificios de la primera línea de mar, al otro lado de las colinas, pero eso a él parecía no importarle,
y entonces, en el momento de despertarme yo lo miraba y miraba el sol, y a veces sentía en la espalda un ligero dolor, como si aquella tarde me hubiera quemado más de la cuenta, y luego los miraba a ellos y luego me levantaba, me ponía la toalla como capa y me iba a sentar en uno de los bancos del Paseo Marítimo, en donde fingía quitarme la arena que no tenía de las piernas, y desde allí, desde esa altura, la visión de la pareja era distinta, me decía a mí mismo que tal vez él no estuviera a punto de morir, me decía a mí mismo que el tiempo tal vez no existía tal como yo creía que existía, reflexionaba sobre el tiempo mientras la lejanía del sol alargaba las sombras de los edificios, y luego me iba a casa y me daba una ducha y miraba mi espalda roja, una espalda que no parecía mía sino de otro tipo, un tipo al que aún tardaría muchos años en conocer, y luego encendía la tele y veía programas que no entendía en absoluto, hasta que me quedaba dormido en el sillón,
y al día siguiente vuelta a lo mismo, la playa, el ambulatorio, otra vez la playa, los viejos, una rutina que a veces interrumpía la aparición de otros seres que aparecían en la playa, una mujer, por ejemplo, que siempre estaba de pie, que jamás se recostaba en la arena, que iba vestida con la parte de abajo de un bikini y con una camiseta azul, y que cuando entraba en el mar sólo se mojaba hasta las rodillas, y que leía un libro, como la vieja, pero estaba mujer lo leía de pie, y a veces se agachaba, aunque de una manera muy rara, y cogía una botella de pepsi de litro y medio y bebía, de pie, claro, y luego dejaba la botella sobre la toalla, que no sé para qué la había traído si no se tendía nunca sobre ella y tampoco se metía en el agua,
y a veces esta mujer me daba miedo, me parecía excesivamente rara, pero la mayoría de las veces sólo me daba pena, y también vi otras cosas extrañas, en la playa siempre pasan cosas así, tal vez porque es el único sitio en donde todos estamos medio desnudos, pero que no tenían demasiada importancia, una vez creí ver a un ex yonqui como yo, mientras caminaba por la orilla, sentado en un montículo de arena con un niño de meses sobre las piernas, y otra vez vi a unas chicas rusas, tres chicas rusas, que probablemente eran putas y que hablaban, las tres, por un teléfono móvil y se reían, pero la verdad es que lo que más me interesaba era la pareja de viejos, en parte porque tenía la impresión de que el viejo se iba a morir en cualquier instante, y cuando pensaba esto, o cuando me daba cuenta de que estaba pensando esto, el resultado era que se me ocurrían ideas disparatadas, como que tras la muerte del viejo iba a ocurrir un maremoto, el pueblo destruido por una ola gigantesca, o como que iba a ponerse a temblar, un terremoto de gran magnitud que haría desaparecer el pueblo entero en medio de una ola de polvo,
y cuando pensaba lo que acabo de decir ocultaba la cabeza entre las manos y me ponía a llorar, y mientras lloraba soñaba (o imaginaba) que era de noche, digamos las tres de la mañana, y que yo salía de mi casa y me iba a la playa, y en la playa encontraba al viejo tendido sobre la arena, y en el cielo, junto a las otras estrellas, pero más cerca de la Tierra que las otras estrellas, brillaba un sol negro, un enorme sol negro y silencioso, y yo bajaba a la playa y me tendía también sobre la arena, las dos únicas personas en la playa éramos el viejo y yo, y cuando volvía a abrir los ojos me daba cuenta de que las putas rusas y la chica que siempre estaba de pie y el ex yonqui con el niño en brazos me contemplaban con curiosidad, preguntándose acaso quién podía ser aquel tipo tan raro, el tipo que tenía los hombros y la espalda quemados, y hasta la vieja me observaba desde la frescura de su sombrilla, interrumpida la lectura de su libro interminable por unos segundos, preguntándose tal vez quién era aquel joven que lloraba en silencio, un joven de 35 años que no tenía nada, pero que estaba recobrando la voluntad y el valor y que sabía que aún iba a vivir un tiempo más.
El peor verano de mi vida:
[http://www.elmundo.es/elmundolibro/2000/08/17/anticuario/966450468.html]
[http://www.elmundo.es/elmundolibro/2000/08/17/anticuario/966450468.html]
Californication
[Foto: JMG]
"Não há uma forma fácil de dizer isto, por isso vou dizê-lo sem rodeios: conheci uma pessoa. Foi um acidente, não estava à procura disto. Uma autêntica tempestade. Ela disse qualquer coisa, eu respondi. Depois lembro-me de querer passar o resto da minha vida dentro daquela conversa. Talvez ela seja a mulher da minha vida. Pelo menos é completamente louca e está sempre a fazer-me rir... Essa pessoa és tu.
Não sei o que nos vai acontecer e não sei por que deves depositar alguma esperança em mim. Mas... tu cheiras tão bem, como cheiram as casas, e fazes um café delicioso. Isto tem de significar alguma coisa, certo?"
quarta-feira, agosto 18, 2010
"Pontal: metáfora menor" by Baptista-Bastos
[Foto: JMG]
Impulsionado por Mendes Bota, poeta e organizador, por igual avaliável, Pedro Passos Coelho, numa auto-imolação comovente, animou, este ano, o jantar. Houve faltosos, o mais exemplar dos quais o prof. Marcelo Rebelo de Sousa, que escapou, esbaforido, sob o subterfúgio intelectual de ter de esclarecer, na TVI, os sombrios mistérios da política. As televisões, atentas e zelosas, fixaram um friso de proeminentes cidadãos, quase todos reformados de luxo, que mais pareciam figuras de um retábulo de alucinados do que responsáveis pelo que nos tem acontecido nas últimas décadas.
Passos Coelho, como lhe competia, falou e disse. Vai sendo hábito afirmar desatinos que deixam os sociais-democratas embevecidos e os socialistas irritados. Segundo o nunca assaz louvado Vitalino Canas, agora com um corte de cabelo à ucraniana, o presidente do PSD quer provocar uma crise política, "de resultados imprevisíveis." Espinoteante tolice. Desta vez, Passos, que gosta de dizer coisas, quis, apenas, chatear o PS e espevitar os seus correligionários. Na SIC, Ricardo Costa, assumptivo e sem pitada de humor, como vai sendo costume, desmontou o discurso do Pontal, cheio de austeridade, veemência e sisudez. Parecia estar a decompor um grave texto de Kant. Com perdão da palavra, não se percebeu nada do comentário do Costa. Tomou a sério o que não passava de puro divertimento.
Nada que faça mal à saúde. A não ser, repito, a visão macabra daquele friso de gente confusa e aleatória, que ali se encontrava para varar uma quente noite de estio. Não se sabe o que Passos Coelho foi fazer ao Pontal. Expor o dandismo de que faz tanto júbilo ou a pesarosa monotonia que o acompanha?
William Faulkner: O som e a fúria
Foi entre as sete e as oito que a sombra dos caixilhos apareceu nos cortinados e eu entrei outra vez no tempo, ao som do despertador. Era do Avô, e quando o Pai mo deu disse: "Dou-te o mausoléu da esperança e do desejo; chega a ser dolorosamente justo que o uses para alcançares o reducto absurdum de toda a experiência humana, que responderá às tuas necessidades individuais tão bem como respondeu às do teu avô ou às do pai dele. Dou-to, não para que te lembres constantemente do tempo, mas para que te possas esquecer dele de vez em quando, sem depois te esfalfares na ânsia de o recuperares. Porque, como ele dizia, nenhuma batalha se pode considerar ganha. Nem sequer travada. O campo de batalha apenas revela ao homem a sua própria loucura e desespero, e a vitória é uma ilusão de filósofos e de loucos."
Estava encostado à caixa dos colarinhos e eu deitado a escutá-lo. Isto é, apenas a ouvi-lo. Não creio que haja alguém que deliberadamente escute um relógio ou um despertador. Nem é preciso. Podemos abstrair-nos do som por largo tempo, e nisto, num segundo de atenção, ele recria na nossa mente o longo período de tempo que não ouvimos.
terça-feira, agosto 17, 2010
Praia da Estela vista pelo buraco da fechadura
[Foto: JMG]
Fazemos topless, sempre. E nudismo, quando nos apetece. Onde nos apetece. E não frequentamos praias naturistas. É ali, onde calha. E nunca fomos olhados de lado por causa disso. Nem de frente. Também nunca nos sentimos motivo de particular repulsa. Nem nunca nos concentramos em quem, ao lado, longe ou perto, faz o mesmo. Um país civilizado, quase chegámos a pensar. Claro que depois não resistimos a olhar, a olhar furiosamente, quando vemos alguém fazer pic-nics na praia e a deixar vestígios disso. Também não resistimos a olhar quando vemos alguém fumar e enterrar as beatas na areia. Muito menos resistimos a olhar quando alguém decide resolver crises matrimoniais aos gritos em pleno areal. Ou em quem despeja açoites como baldes de água a propósito de nada em cima de uma criança. Nem sempre somos assim tão civilizados, pois. Mas não parecia o pior dos mundos, apesar de tudo...... até que a praia da Estela, na Póvoa de Varzim, se tranformou em assunto nacional. Via Partido Socialista, o que torna o assunto ainda mais triste. Nas últimas semanas, os poveiros decidiram insurgir-se contra quem apanha sol despido. "É uma ofensa", dizem. "Sobretudo para as crianças". E, à boa maneira afegã, saíram artilhados de paus e pedras decididos a fazer justiça pelas próprias mãos. Colocam vidros no chão e fazem esperas aos veraneantes. Consta que já terão tentado afogar alguns. Com orgulho. E o PS está com esta gente. Com esta gente que diz que "os naturistas são pedófilos e homossexuais". Que se masturbam a céu aberto e "fazem sexo" à vista de toda a gente. Que estão ali para provocar. Para ofender a imaculada moral dos que se não despem. Importam-se de repetir?!
A única coisa mais triste do que a falta de tolerância é mesmo a ignorância. A ignorância caucinada por um partido político não é só triste, é tétrica. E muito mais vergonhosa do que um corpo nu.
A única coisa mais triste do que a falta de tolerância é mesmo a ignorância. A ignorância caucinada por um partido político não é só triste, é tétrica. E muito mais vergonhosa do que um corpo nu.
segunda-feira, agosto 16, 2010
Respect
Não se sai de Graceland da mesma forma que se entrou. Há qualquer coisa que muda, é difícil detalhar o quê. Mas é fácil perceber por que razão se insiste tanto no mito de que Elvis está vivo. É só uma irracional e desmesurada vontade de que assim fosse... Elvis morreu há 33 anos.
Luís Ene: Muchas veces me sucede olvidar quien soy
"Era uno de los prostitutos más solicitados y mejor pagados de la agencia, y nunca puso un dedo encima de ninguna de las mujeres que lo recordaban com tierna y noltálgica pásion. Todas lo describían como un hombre atento, cariñoso, sabio y paciente que las guiaba com seguridad hasta si mesmas y a un placer sin sufrimiento ni límites como jamás habían soñado existiera. Les esperaba una extraordinaria revelacíon de un sexo sin friccíon, sin choque, sin incontenida pérdida de fluidos, pero intenso y penetrante como un sueño. Él les hablaba en sordina, con una voz que parecía venir de dentro de ellas, y lo que les decía abría como mil puertas por dónde ellas entraban al mismo tiempo, unidas por un placer tan intenso que por momentos dejabam de ser, y se apagaban como soles negros. Y los orgasmos que así alcanzaban eran tan dulces como frutos del paraíso, y tan medicinales como inevitables. Por más que le implorasen nunca aceptaba una clienta por segunda vez. Una vez, una vez apenas y nada más, les explicaba siempre com toda lentitud: era un medio y no un fin, no era posible repetir."
sexta-feira, agosto 13, 2010
Estrelas, só as do tecto do quarto
No ano passado foi assim...
Afinal, não houve planetas tangíveis, próximos - nem Júpiter nem Marte nem Vénus. Mas quem quer ficar a olhar para o tecto quando pode olhar para o céu? Houve estrelas. Tantas. Estrelas como pirilampos. Todos ali no céu. Como se estivessem a fazer malabarismos com tochas de fogo só para ficarmos mais felizes. Podia ser o Alentejo, aquele céu. Os pirilampos são como as estrelas: vêem-se melhor em Agosto. Só que são mais raros. Cada vez mais. E, claro, não é no céu distante que voam. Ao contrário das estrelas, a luz dos pirilampos é luz de reconhecimento, de enamoramento. Os pirilampos voam pouco, mas ainda assim, mais do que as pirilampas, que são mais pesadas. Em compensação, elas, as pirilampas, brilham mais, para poderem ser vistas por eles. Brilham mais quando querem acasalar. Estratégia de sedução. Ontem, parecia que todas as estrelas do céu estavam apaixonadas. Como se fossem pirilampos. Apeteceu-me entrar ali, em silêncio, descalça e às escuras. De mãos dadas. No céu.
Este ano... só nuvens. E gaivotas. Um céu em greve. Sobraram as mãos. Dadas.
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