quarta-feira, março 30, 2016

Contra o "jornalismo de matilha"*


Há que fazer escolhas nesta guerra em que o jornalismo anda tão mal ferido pelo que aí se vai publicando em seu nome

Vai-se assistindo cada vez mais ao fenómeno do chamado "jornalismo de matilha" (pack journalism) na sociedade portuguesa. Os acontecimentos seleccionados como notícias são alvo de uma cobertura maciça por parte dos vários e distintos meios de comunicação social. Os jornalistas, em bando (ou seja, em matilha...) juntam-se nos mesmos sítios, às mesmas horas e para os mesmos acontecimentos marcados pelas mesmas agendas oficiais, entrevistam as mesmas pessoas e destacam os mesmos assuntos. Sem espírito crítico, sem um olhar próprio, copiam-se uns aos outros e escolhem o mesmo ângulo das notícias. Não é mesmo raro que as combinem. "Vais puxar por onde? Qual é o lead por que optaste?", perguntam uns aos outros, seja na Assembleia da República onde terminou uma audiência parlamentar, seja no tribunal, a seguir a um julgamento, ou num qualquer ministério, após uma qualquer conferência de imprensa. 

É uma falsa concorrência esta. A principal preocupação é dar mais depressa e não de forma diferente. Aliás, torna-se mesmo difícil contrariar esse espírito de "matilha", face à frequente resistência e desconfiança por parte das chefias, nada sensíveis a qualquer sugestão de se dar relevo a uma perspectiva diferente da que os outros media escolheram e já difundiram antes. O resultado é um produto final idêntico e uniforme para consumo de leitores de jornais, telespectadores e ouvintes de rádio. 

Daí a prática frequente de "se copiarem" as versões de quem cabe noticiar os acontecimentos imediatamente ou em directo: a agência de notícias Lusa e as rádios e as televisões. 

Nesta "correria" imposta pelo imediatismo e pela tirania do tempo, não se perde apenas a originalidade e o espírito crítico. Vão-se atropelando as mais elementares regras éticas e deontológicas do jornalismo. Na pressa de se noticiar - e de se noticiar primeiro -, não se confirmam as informações recolhidas quantas vezes por-espírito-santo-de-orelha, não se aprofunda, não se ouvem todas as partes envolvidas. Todos os dias se divulgam notícias falsas ou incompletas que, com uma velocidade espantosa, ganham crédito e influenciam a opinião pública. Criam-se convicções baseadas em mentiras por via desta prática generalizada hoje na imprensa portuguesa. É uma dinâmica perigosa e gravíssima. Perigosa, porque os jornalistas, com o poder de assegurarem os direitos constitucionalmente consagrados de informar e de ser informado, tornam-se eles próprios instrumentos de interesses e de poderes estabelecidos. Grave, porque durante a correria, a "matilha" arrasta o bom nome das pessoas para a lama, não respeita a presunção da inocência e, sobretudo, não noticia a verdade. Diz-se que a verdade é relativa. Mas também se sabe - ou devia saber-se... - que o que um jornalista noticia é o que ele filtra através dos "óculos" com que cosntrói a realidade, como notava o sociólogo francês Pierre Bourdieu. Existe, porém, um valor para lidar com essa subjectividade: a honestidade intelectual. Um jornalismo sério e honesto distingue a informação da propaganda e da contra-informação, respeita o direito ao bom nome e à reserva da vida privada alheia, não toma partido e ouve sempre as partes em causa (e em pé de igualdade, que só o exercício permanente da equidistância o permite).

É sem dúvida um exercício difícil lutar contra a tirania do tempo nestes tempos dominados pela velocidade com que circula a informação. Mas há que fazer escolhas nesta guerra em que o jornalismo anda tão mal ferido pelo que aí se vai publicando em seu nome: ou se sobrevaloriza o sensacionalismo e a mentira, ou se opta por um jornalismo cívico e responsável. 


*Paula Torres de Carvalho, no Público, em 2010


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