quarta-feira, março 29, 2006

Vende-se Rivoli

O delay prova que evitei tocar no assunto, mas o assunto é demasiado bom (ou sexy, como diria Pires de Lima) para não ser tocado. Anteontem, Dia Mundial do Teatro, saiu no caderno de classificados do JN o seguinte anúncio, emoldurado - e não terá sido por acaso - a cor de laranja:
TEATRO
Excelente localização, no centro do Porto, auditório com capacidade para 800 pessoas, mais pequeno auditório, restaurante/bar, sala de ensaios, zona administrativa, amplas áreas para congressos, conferências, casamentos, baptizados e eventos promocionais. Vende-se ou cede-se exploração a privados. URGENTE.
Contacto: Câmara Municipal do Porto - 222 097 000

O anúncio, como se depreende, é uma piada - e nem sequer se pode dizer que seja de mau gosto. Eu, pelo menos, ri-me bastante. (Claro que não descarto a possibilidade de o defeito poder ser do meu mau gosto...) E o teatro, como se depreenderá também, é o Teatro Rivoli, alvo de esvaziamento gradual por parte da Câmara Municipal do Porto e, por isso mesmo, centro de polémica na última reunião camarária.

A meio da tarde, Rui Rio, que entretanto terá sido apanhado de surpresa com o sucedido, destilou no seu meio de eleição privado - o site autárquico -, toda a sua fúria em cima do dito jornal. Um jornal que, "mais uma vez contribuiu para a publicação de uma mentira, enganando os seus leitores"; um jornal que "publicou um anúncio que não é politicamente inócuo"; um jornal que ousou "dar amplo espaço noticioso ao debate sobre o Rivoli que teve lugar na última reunião do executivo".

Por tudo isto, Rui Rio decidiu fazer descer a sua sábia e justa mão sobre o jornal como um pai sobre um filho que falta a escola para ficar a brincar no recreio. O castigo vem anunciado no site: "A Câmara Municipal do Porto decidiu mover uma acção judicial contra o jornal e apresentar uma participação-crime contra o seu director, Leite Pereira, enquanto responsável máximo pela publicação em causa."

Ora, a reacção quase-quase fez com que, por uma vez, tivesse que vergar-me, rendida, diante da inteligência do senhor presidente da Câmara. E isto não é ironia. Ele que andava cheio de vontade de processar o JN; ele que passou meses a publicar diariamente a sua desilusão com as notícias publicadas no jornal e que infelizmente (para ele) nunca conseguiu desmentir; ele que acha que o jornal não o entende e descontextualiza as suas sempre doseadas afirmações; ele que até impôs um travão aos desbocados dos seus vereadores (o 25 de Abril não é como o sol, não nasce para todos) encontrou finalmente um não-assunto para se colocar na poltrona onde se sente melhor: a de vítima. Uff! Estava a ver que não!

Só é pena que Rui Rio, que já provou não perceber nada de jornalismo (valor-notícia; fontes, regras deontológicas, etc e tal) venha agora provar também que não percebe nada do complexo funcionamento de uma máquina como é a de um jornal. Seja a de que jornal for. E a manifestação pública da sua ignorância (por cortesia, não falarei do seu bom-senso) retira imediatamente esse apreço que quase-quase ganhei por ele. Convenhamos, um homem que consegue sempre moldar as histórias por forma a ganharem o formato que mais lhe convém merece sempre algum respeito. Nem que seja o simples respeito pela ginástica mental. Mas quando um autarca chega ao ponto de induzir os munícipes a pensar que o anúncio foi de autoria do jornal, quem é que engana quem, afinal?

A verdade é que mal estariam os jornais deste país se cada director tivesse que verificar cada anúncio do caderno de classificados. E no JN são algumas centenas. Quando muito, Rui Rio poderia lamentar a negligência do departamento comercial por não ter verificado a autoria do anúncio (a quem poderia agora imputar responsabilidades) e exigir um desmentido no dia seguinte. Se, por hipótese, um funcionário da autarquia, sei lá, um cantoneiro (nem sei se ainda existem, mas é um exemplo) me insultar na rua deverei processar o presidente da Câmara? Em última instância, seguindo a sua linha de raciocínio, é ele o responsável, não é?

No meio disto tudo fiquei com uma dúvida. Será que nesses múltiplos telefonemas de "pessoas iludidas" e interessadas em comprar o Teatro Rivoli estaria alguma instituição espanhola? Se sim, é bem provável que tudo isto não tenha passado de uma jogada do Governo de José Sócrates.

P.S.: Para que conste, o JN publicou uma nota, digna, no dia seguinte à publicação do anúncio, ou seja, ontem.


Nota da Direcção Comercial

Foi publicado ontem, no caderno de Classificados, um anúncio com o título "Teatro" que poderá ter levado os leitores a pensar que um qualquer teatro municipal da cidade se encontrava à venda, uma vez que tinha como contacto a Câmara Municipal do Porto. Este anúncio foi recebido no balcão-sede, no dia 24 de março, tendo sido pago em numerário, e sem que tivessem sido tomadas as devidas precauções na identificação do anunciante. A Direcção Comercial do JN lamenta o sucedido.

10 comentários:

  1. Quanto terá poupado a CMP por não ter de suportar o custo de anúncio? Mais, quanto vale a publicidade gratuita adicional conseguida? E o RR, o plano pode avançar mas a ideia foi do JN!!!

    GRR – O futuro tripanesce

    JAC
    Blog - "O meu Computador"
    (Tecnologias de Informação e Comunicações)
    http://o-meu-computador.blogspot.com/

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  2. no mínimo hilariante...


    dng
    (kultivo)

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  3. Que o JN tem um sentido de humor, que qualquer dia destronará O Inimigo Público já disse noutros lados.
    Aqui digo: Magnífico Post.

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  4. melhor do que o anúncio é a explanação deste post sobre a arrogância e estupidez do presidente da CMP. Parabéns. Fiquei fã da escrita deste blog

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  5. Helena, este comentário é tardio, mas parece-me que vale a pena comentar o disparate a que assistimos do seguinte modo:

    Certo dia, fins de sessenta ou inícios de setenta, não sei ao certo, o presidente do Tribunal Plenário do Porto, temida e iníqua estrutura que julgava crimes políticos, deixou de o ser. Morreu, demitiu-se, foi demitido... não importa. Certo é que, enquanto não tinha sucessor, saiu no JN um anúncio, que remetia para o número de telefone do dito tribunal e rezava assim: "Moço de fretes, precisa-se".

    Tanto quanto eu sei, ou quanto me contaram, não aconteceu nada a ninguém. Até parece que, nesses tempos de ditadura, o humor era algo mais respeitável do que agora, quando hé gente que julga ter sido eleita para o exercício do poder absoluto. Não era, mas parece...

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  6. Como se costuma dizer na minha terra, "quem não se sente não é filho de boa gente"

    Vejam esta nota da CM do Porto
    Analise a coerência

    Mas sem dúvida que Rio e JN não se podem "ver/ler" ...

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