sábado, setembro 17, 2011

quinta-feira, setembro 15, 2011

Máquina de escrever 1715-2011

Estamos todos a caminho do que não queríamos, todos a caminho de não sermos mais do que apenas um número, um código, um endereço. Todos a caminho de 1984. Aqui, um fim de linha. Mais um. (http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-57/despedida/fim-de-linha)

quarta-feira, setembro 14, 2011

terça-feira, setembro 13, 2011

(a carta da paixão)

A paixão é voraz, o silêncio alimenta-se fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te toda no cometa que te envolve as ancas como um beijo. Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem nos quartos. É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta pelo meio o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras um pouco loucas engolfadas, entre as mãos sumptuosas. A doçura mata. A luz salta às golfadas. A terra é alta. Tu és o nó de sangue que me sufoca. Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões da madeira fria. És uma faca cravada na minha vida secreta. E como estrelas duplas consanguíneas, luzimos de um para o outro nas trevas.
Herberto Helder

segunda-feira, setembro 12, 2011

José Saramago: O Caderno



Viemos de Lanzarote no último sábado, com escala em Sevilha, e depois por estrada até Lisboa. No domingo, como expliquei, fomos à Azinhaga por causa de estátua que lá foi posta. O plátano em frente da casa é um autêntico esplendor, uma gama de verdes riquíssima que atrai para uma demorada contemplação e me fez pensar: “Não mudes, deixa-te ser como és”. Inútil desejo, virá o Verão com os seus calores, o Outono com o primeiro frio, e as folhas cairão, o esplendor apaga-se, a árvore adormece até que a nova Primavera venha tomar o lugar desta que está terminando.

Estes pensamentos sem nenhuma originalidade fizeram-me recordar o último e breve capítulo da Viagem a Portugal que, ouso pensar, alguma originalidade haverá tido. E pensei que não ficaria mal trazê-lo aqui, quando estamos a ponto de partir outra vez, agora para a Corunha. Aí vai, portanto:

«A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: “Não há mais que ver”, sabia que não era assim. O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já.»

Assim é. Assim seja.

domingo, setembro 11, 2011

Where Were You on Sept. 11, 2001?



http://www.nytimes.com/interactive/2011/09/08/us/sept-11-reckoning/where-were-you-september-11-map.html

Beijos abreviados. Não, obrigada.


Há uma diferença entre um beijo e um beijinho. Entre o original e o diminutivo, o singular e o plural. A diferença é ainda maior quando um beijo não passa de um bj. Bj ou Bjs, tanto faz, são beijos roídos, ratados, diminuídos, a despachar. Odeio bjs abreviados e beijinhos, mexem-me com os nervos, soam-me à ausência de carinho que um beijo necessariamente exige. Mas beijos usados como pontuação deixam-me a espumar. - A que horas vais? Bj. - Vou às 20h. Bj. Um beijo não é um ponto final, uma notação sintáctica, porra, não é o stop de um telegrama. Um beijo tem de ter um tom, uma intenção, um fim. Não é obrigatório e nem sempre é necessário. Gosto de beijos com tamanhos, grande, enorme, gigante. Ou só meio beijo, se o caso for complicado. Gosto de beijos num lugar concreto, na testa, na cara, na boca. De beijos com personalidade, de língua, se houver razão para isso. Gosto de beijos que vêem estrelas. De beijos com sabores, doces, salgados, agricodes. De canela, de mel, de rum. De beijos com cores químicas. Ou psicadélicas. Depende do momento. De beijos com mimos, com sorrisos. De beijos com saudades. Com temperatura certa. Arrepiados, a arder. De um beijo dirigido: beijo-te. De beijos furtivos. De beijos que não acabam. De beijos íntimos, com segredos. De beijos que não pestanejam. De beijos com cócegas. Com sol. Suados. Gosto muito de beijos com memória. Com numa canção atrelada. De um beijo com data, beijo-te amanhã. De beijos viciados, que embriagam. De beijos com cheiro, o do mar, o daquele dia ao acordar. Gosto de um beijo com um ponto de exclamação. Um beijo é coisa séria, de dentro, de um coração para outro coração. Mesmo que seja só escrito, tem de ser assim.

sábado, setembro 10, 2011

Out of the box II

A manic pixie dream girl by Ana Markl

Em 2007, um crítico de cinema do jornal satírico "The Onion" criou um termo - na altura, a propósito da personagem de Kirstin Dunst no filme "Elizabethtown" - que foi rapidamente integrado no léxico da cultura pop americana. "A manic pixie dream girl existe apenas na imaginação de cineastas sensíveis e serve para ensinar jovens nostálgicos e apaixonados a abraçar a vida, os seus infindáveis mistérios e aventuras", descreveu Nathan Rabin.

Encontra-se disto em quase todas as histórias de amor felizes sem final feliz, das produções independentes às mais hollywoodescas: Sandra Bullock numa comédia romântica de segunda categoria chamada "Forças da Natureza"; Zooey Deschanel num ensaio sobre o que é para sempre enquanto dura chamado "500 days of Summer"; Joey Lauren Adams numa história de amor entre uma lésbia e um heterossexual inseguro chamada "Chasing Amy".

A manic pixie dream girl é a mulher que resgata o homem da solidão ou da resignação desapaixonada, por oposição à mulher obcecada com a segurança e a estabilidade. É feminina, mas gosta de bola, é meio tonta mas não tem medo do ridículo, ama perdidamente mas receia comprometer-se. Uma personagem criada pelo sexo masculino, ainda que parta do pressuposto injusto de que os homens têm medo de amar. Na vida real, o que não faltam são histórias de amor felizes sem final feliz. Consta que as manic pixie dream girls desta vida acabam com o coração partido ou, pior ainda, domesticado pelos homens que as amaram pela sua selvajaria.

sexta-feira, setembro 09, 2011

And this is why I hate you...


You want to know why I hate you? Well I'll try and explain... You remember that day in Paris when we wandered through the rain and promised to each other that we'd always think the same and dreamed, that dream to be two souls as one, and stopped just as the sun set and waited for the night outside a glittering building of glittering glass and burning light... And in the road before us stood a weary greyish man who held a child upon his back, a small boy by the hand, the three of them were dressed in rags and thinner than the air and all six eyes stared fixedly on you. The father's eyes said "Beautiful! How beautiful you are!" The boy's eyes said: "How beautiful! She shimmers like a star!" The childs eyes uttered nothing, but a mute and utter joy and filled my heart with shame for us at the way we are. I turned to look at you to read my thoughts upon your face and gazed so deep into your eyes, so beautiful and strange, until you spoke and showed me understanding is a dream, "I hate these people staring make them go away from me!" The fathers eyes said "Beautiful! How beautiful you are!" The boys eyes said "How beautiful! She glitters like a star!" The child's eyes uttered joy and stilled my heart with sadness for the way we are. And this is why I hate you and how I understand that no-one ever knows or loves another. Or loves another.

quarta-feira, setembro 07, 2011

Gary Shteyngart: Super sad true love story


When i was young, i loved my parents so much it could have qualified as child abuse. My eyes watered each time my mother coughed from the "American chemicals in the atmosphere" or my father clutched at his beleaguered liver. If they died, i died. And their deaths always seemed both imminent and a matter of fact: Whenever i tried to picture my parents souls i thought of these perfectly white Russian snowbanks i saw in history books on the Second World War, all those arrows being drawn into Russia's heart along with names of German panzer divisions. I was a dark blemish upon these snowbanks. Before a was ever born, i had dragged them away just so the fetus inside my mother, that future-Lenny, could have a better life. And one day God would punish me for what i had done to them. He would punish me by killing them.

(...) The fact was that when she kissed my cheek it didn't hurt afterward, nor did it smell of onions. So to tee devil with her good intentions, as my parents might say. She was as alien, a trespasser, a woman i couldn't love back. When i saw her at the door, i threw the first and last punch of my life. It connected with surprisingly narrow mid-torso, where the last of her three boys had just gestated in fine, cushy comfort. Why did i punch her? Because she was alive while my parents were dead. Because now she was all i had left.

(...) - "We all die", Nettie told me, after she had fed me a powdered-cocoa-and-fruit concoction she called "the chocolate banana", whose ingredients and manner of preparation i still don't understand. "But someday you'll have children too, Lenny. And when you do you'll stop worrying about your parents' dying so much."
- Why, Missus Nettie?"
- "Because your children will become life." For a moment at least, that made sense. I could feel the presence of another, someone even younger than myself, a kind of prototypical Eunice person, and the fear of parental death was transferred upon her shoulders.

terça-feira, setembro 06, 2011

Ivan Turgueniev: Cadernos de um caçador


Não sei quanto tempo dormi, mas quando abri os olhos toda a floresta estava inundada de sol e, em todas as direcções, através da folhagem que marulhava com alegria, entrevia-se e cintilava o céu azul vivo; as nuvens haviam desaparecido, enxotadas pelo vento, o tempo desanuviara, e no ar sentia-se aquela especial frescura seca que, enchendo o coração com uma sensação de energia, quase sempre prediz uma tarde pacífica e clara depois da intempérie do dia. Já queria levantar-me e voltar a tentar a sorte quando, de repente, os meus olhos apanharam uma imóvel imagem humana. Olhei com atenção: era uma jovem rapariga camponesa. (...) Gostei sobretudo da expressão do seu rosto: tão simples e meiga era, tão triste e cheia de uma infantil perplexidade perante a sua própria tristeza. Estava, pelos vistos, à espera de alguém.

(...) - Vai esquecer-se de mim, Víktor Aleksândrich, disse Akulina com tristeza.
- Não, porquê? Não te esqueço; só que não sejas parva, tem juízo, obedece ao teu pai... Ora, eu não te esqueço, não. (Espreguiçou-se com calma e voltou a bocejar.)
- Não se esqueça de mim, Víktor Aleksândrich, continuou ela, suplicante. - Sabe como gostava de si, dei-lhe tudo... Está a dizer que tenho de obedecer ao meu pai... Mas como posso obedecer-lhe se...
- Porquê? (Pronunciou-o como que a partir do estômago, deitado de costas e com as mãos debaixo da nuca.)
- Ainda pergunta porquê, Víktor Aleksândrich, sabe...
Calou-se. O homem brincou com a corrente de aço do seu relógio.
- Akulina, tu não és estúpida, disse ele finalmente. - Por isso, deixa de dizer disparates. Quero-te bem, está a entender? Claro que não és parva, não és de todo campónia, por assim dizer; e a tua mãe nem sempre foi campónia. Mesmo assim és inculta, portanto tens de dar ouvidos ao que te dizem.
- Mete medo,Víktor Aleksândrich.
- Mas que disparate, minha querida: inventas cada medo! O que é isto?, acrescentou, chegando-se a ela. - Flores?
- Flores, respondeu Akulina, desalentada. - Colhi algumas erva-de-são-marcos, continuou, um pouco mais animada -, é boa para os vitelos. E esta aqui é o picão, cura a escrófula. Oha só que florzinha maravilhosa; nunca na vida vi uma florzinha tão linda. Esta é a não-te-esqueças, este é o serpão... E estas aqui são para si, disse, tirando de baixo da erva-de-são-marcos amarela um pequeno ramo de cantáureas azuis, atadas com uma erva fininha. - Quer?
O homem estendeu a mão com preguiça, pegou nas flores, cheirou-as com indiferença e pôs-se a girá-las nos dedos, lançando olhares para cima com um ar de importância pensativa. Akulina olhava para ele... Nos seus olhos tristes havia um sem fim de terna abnegação, de submissão venerabunda e de amor. Tinha medo dele e não se atrevia a chorar, e estava a despedir-se dele, e a admirá-lo pela derradeira vez; o homem, no entanto, estava deitado, repimpado como um sultão, e tolerava a sua adoração cm uma magnânima paciência e condescendência. Eu, francamente, olhava com indignação para a sua cara vermelha em que, através de uma fingida indiferença desdenhosa, transparecia um amor-próprio satisfeito e saciado.

segunda-feira, setembro 05, 2011

Vergílio Ferreira: Na tua face


Havia um desperdício enorme no que eu amava e eu pensava não podes desperdiçar o desperdício. O que é que se ama numa mulher? Porque se ama só a pele e um pouco da pele mais para dentro. O resto, que é afinal o que mais se ama, não existe. (...) Gostava de saber porque te amo nesta forma estranha de te não ter amado nunca. Houve primeiro a ausência de Bárbara em ti e que deixava um sinal de presença como uma flor seca num livro. Mas depois cresceste sobre isso e deitei a flor fora. E não precisei de procurar quem me arrefecesse a parte mais quente do meu ser vital. Porque o amor é assim, tem o lado mais quente com que se é aos sacões e instável e o lado morno com que se é contínuo e estável. 

(...) O que perturbava agora era essa estranha inquietação de um amor que não houve senão quando planificado na simples afeição de estarmos juntos. Eu com ela e ela comigo, penso. De a vida se resolver por si na quietude de haver nela o belo e o horrível, a alegria e o sofrimento. Tudo tinha arrefecido ao longo dos anos, como podia haver calor para antes disso? O que tivesse havido era frio de depois, mas nem houve. Mas sofre-se pelo que nos levam, mesmo que tencionássemos deitá-lo fora. Porque o nosso orgulho é imenso e a humilhação dele também.

domingo, setembro 04, 2011

Respiro by Emanuele Crialese



Podia viver aqui...

sábado, setembro 03, 2011

Miguel Esteves Cardoso: Último volume


Quem não dava a vida por um amor? O essencial é amar os outros. Pelo amor a uma só pessoa pode amar-se toda a humanidade. Vive-se bem sem trabalhar, sem dormir, sem comer. Passa-se bem sem amigos, sem transportes, sem cafés. É horrível, mas uma pessoa vai andando. Apresentam-se e arranjam-se sempre alternativas. É fácil. Mas sem amor e sem amar, o homem deixa-se desproteger e a vida acaba por matar. Philip Larkin era um poeta pessimista. Disse que a única coisa que ia sobreviver a nós era o amor. O Amor. Vive-se sem paixão, sem correspondência, sem resposta. Passa-se sem uma amante, sem uma casa, sem uma cama. É verdade, sim senhores. Sem um amor não vive ninguém. Pode ser um amor sem razão, sem morada, sem nome sequer. Mas tem de ser um amor. Não tem de ser lindo, impossível, inaugural. Apenas tem de ser verdadeiro. O amor é um abandono porque abdicamos de quem vamos atrás. Saímos com ele. Atiramo-nos. Retraímo-nos. Mas não há nada a fazer: deixamo-lo ir. Mais tarde ou mais cedo, passamos para lá do dia a dia, para longe de onde estávamos. Para consolar, mandar vir, tentar perceber, voltar atrás.

O amor é o que fica quando o coração está cansado. Quando o pensamento está exausto e os sentidos se deixam adormecer, o amor acorda para se apanhar. O amor é uma coisa que vai contra nós. É uma armadilha. No meio do sono, acorda. No meio do trabalho, lembra-se de se espreguiçar. O amor é uma das nossas almas. É a nossa ligação aos outros. Não se pode exterminar. Quem não dava a vida por um amor? Quem não tem um amor inseguro e incerto, lindo de morrer: de quem queira, até ao fim da vida, cuidar e fugir, fugir e cuidar?

Out of the box I

sexta-feira, setembro 02, 2011

Canções de uma ilha


Quando alguém parte, tem de deitar
ao mar o chapéu com as conchas
apanhadas ao longo do Verão,
e ir-se com o cabelo ao vento,
tem de lançar ao mar
a mesa que pôs para o seu amor,
tem de deitar ao mar
o resto de vinho que ficou no copo,
tem de dar o seu pão aos peixes
e misturar no mar uma gota de sangue,
tem de espetar bem a faca nas ondas
e afundar o sapato,
coração, âncora e cruz,
e ir-se com o cabelo ao vento!
Depois, regressará,
Quando?
Não perguntes.

Ingeborg Bachmann, tradução de João Barrento e Judite Berkemeier

quinta-feira, setembro 01, 2011

Arnaldo Jabor

[Foto: JMG]

O amor é uma construção do desejo. O sexo não depende do nosso desejo; o nosso desejo é que é tomado por ele. Ninguém se masturba por amor. Ninguém sofre com tesão. Amor e sexo são como a palavra farmakon em grego: remédio ou veneno - depende da quantidade ingerida. O sexo vem antes. O amor vem depois. No amor, perdemos a cabeça, deliberadamente. No sexo, a cabeça perde-nos. O amor precisa do pensamento. No sexo, o pensamento atrapalha. O amor sonha com uma grande redenção. O sexo sonha com proibições; não há fantasias permitidas. Amor é o desejo de atingir a plenitude. Sexo é a vontade de se satisfazer com a finitude. O amor vive da impossibilidade - nunca é totalmente satisfatório. O sexo pode ser, dependendo da posição adoptada. O amor pode atrapalhar o sexo. Já o contrário não acontece. Existe amor com sexo, claro, mas nunca gozam juntos. O amor é mais narcisista, mesmo entrega, 'doação'. O sexo é mais democrático, mesmo vivendo do egoísmo. O amor é um texto. O sexo é um desporto. O amor não exige a presença do outro. O sexo, mesmo solitário, precisa de uma 'mãozinha'. Certos amores nem precisam de parceiro; florescem até na maior solidão e na saudade. Sexo, não - é mais realista. Nesse sentido, o amor é uma busca de ilusão. O sexo é uma bruta vontade de verdade.

O amor vem de dentro, o sexo vem de fora. O amor vem de nós. O sexo vem dos outros. 'O sexo é uma selva de epilépticos' (N. Rodrigues). O amor inventou a alma, a moral. O sexo inventou a moral também, mas do lado de fora da sua jaula, onde ele ruge. O amor tem algo de ridículo, de patético, principalmente nas grandes paixões. O sexo é mais quieto, como um cowboy - quando acaba a valentia, ele vem e come. Eles dizem: 'Faça amor, não faça a guerra'. O sexo quer guerra. O ódio mata o amor, mas o ódio pode acender o sexo. O amor é egoísta; o sexo é altruísta. O amor quer superar a morte. No sexo, a morte está ali, nas bocas. O amor fala muito. O sexo grita, geme, ruge, mas não se explica. O sexo sempre existiu - das cavernas do paraíso até as 'saunas relax for men'. Por outro lado, o amor foi inventado pelos poetas provençais do século XII e, depois, relançado pelo cinema americano da moral cristã.

Amor é literatura. Sexo é cinema. Amor é prosa; sexo é poesia. Amor é mulher; sexo é homem - o casamento perfeito é do travesti consigo mesmo. O amor domado protege a produção; sexo selvagem é uma ameaça ao bom funcionamento do mercado. Por isso, a única maneira de controlá-lo é programá-lo, como faz a indústria da sacanagem. O mercado programa as nossas fantasias. Não há 'saunas relax' para o amor, onde o sujeito entra e apaixona-se. No entanto, em todo bordel, finge-se um 'amorzinho' para iniciar. O amor virou um estímulo para o sexo. O problema do amor é que dura muito, já o sexo dura pouco. O amor busca uma certa 'grandeza'. O sexo é mais em baixo. O perigo do sexo é que podemos apaixonar-nos. O perigo do amor é poder transformar-se em amizade. Com camisinha, há 'sexo seguro', mas não há camisinha para o amor. O amor sonha com a pureza. O sexo precisa do pecado.

Amor é a lei. Sexo é a transgressão. Amor é o sonho dos solteiros. Sexo, o sonho dos casados. O amor precisa do medo, do desassossego. O sexo precisa da novidade, da surpresa. O grande amor só se sente na perda. O grande sexo sente-se na tomada de poder. Amor é de direita. Sexo, de esquerda - ou não, dependendo do momento político. Actualmente, sexo é de direita. Nos anos 60, era o contrário. O sexo era revolucionário e o amor era careta.