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sábado, julho 07, 2012

Ivan Turguéniev: Águas de Primavera


"Ambos estavam apaixonados pela primeira vez, e estavam a operar-se neles todos os milagres do amor. O primeiro amor é como a revolução: o sistema monótono e correcto da vida estabelecida quebra-se e desmorona-se num instante; a juventude ergue-se em barricadas, a sua bandeira colorida drapeja e, seja o que for que a espere pela frente - a morte ou uma nova vida -, envolve tudo nos seus vivas entusiasmados.

(...) As pessoas fracas nunca põem fim a nada - ficam à espera desse fim."

terça-feira, setembro 06, 2011

Ivan Turgueniev: Cadernos de um caçador


Não sei quanto tempo dormi, mas quando abri os olhos toda a floresta estava inundada de sol e, em todas as direcções, através da folhagem que marulhava com alegria, entrevia-se e cintilava o céu azul vivo; as nuvens haviam desaparecido, enxotadas pelo vento, o tempo desanuviara, e no ar sentia-se aquela especial frescura seca que, enchendo o coração com uma sensação de energia, quase sempre prediz uma tarde pacífica e clara depois da intempérie do dia. Já queria levantar-me e voltar a tentar a sorte quando, de repente, os meus olhos apanharam uma imóvel imagem humana. Olhei com atenção: era uma jovem rapariga camponesa. (...) Gostei sobretudo da expressão do seu rosto: tão simples e meiga era, tão triste e cheia de uma infantil perplexidade perante a sua própria tristeza. Estava, pelos vistos, à espera de alguém.

(...) - Vai esquecer-se de mim, Víktor Aleksândrich, disse Akulina com tristeza.
- Não, porquê? Não te esqueço; só que não sejas parva, tem juízo, obedece ao teu pai... Ora, eu não te esqueço, não. (Espreguiçou-se com calma e voltou a bocejar.)
- Não se esqueça de mim, Víktor Aleksândrich, continuou ela, suplicante. - Sabe como gostava de si, dei-lhe tudo... Está a dizer que tenho de obedecer ao meu pai... Mas como posso obedecer-lhe se...
- Porquê? (Pronunciou-o como que a partir do estômago, deitado de costas e com as mãos debaixo da nuca.)
- Ainda pergunta porquê, Víktor Aleksândrich, sabe...
Calou-se. O homem brincou com a corrente de aço do seu relógio.
- Akulina, tu não és estúpida, disse ele finalmente. - Por isso, deixa de dizer disparates. Quero-te bem, está a entender? Claro que não és parva, não és de todo campónia, por assim dizer; e a tua mãe nem sempre foi campónia. Mesmo assim és inculta, portanto tens de dar ouvidos ao que te dizem.
- Mete medo,Víktor Aleksândrich.
- Mas que disparate, minha querida: inventas cada medo! O que é isto?, acrescentou, chegando-se a ela. - Flores?
- Flores, respondeu Akulina, desalentada. - Colhi algumas erva-de-são-marcos, continuou, um pouco mais animada -, é boa para os vitelos. E esta aqui é o picão, cura a escrófula. Oha só que florzinha maravilhosa; nunca na vida vi uma florzinha tão linda. Esta é a não-te-esqueças, este é o serpão... E estas aqui são para si, disse, tirando de baixo da erva-de-são-marcos amarela um pequeno ramo de cantáureas azuis, atadas com uma erva fininha. - Quer?
O homem estendeu a mão com preguiça, pegou nas flores, cheirou-as com indiferença e pôs-se a girá-las nos dedos, lançando olhares para cima com um ar de importância pensativa. Akulina olhava para ele... Nos seus olhos tristes havia um sem fim de terna abnegação, de submissão venerabunda e de amor. Tinha medo dele e não se atrevia a chorar, e estava a despedir-se dele, e a admirá-lo pela derradeira vez; o homem, no entanto, estava deitado, repimpado como um sultão, e tolerava a sua adoração cm uma magnânima paciência e condescendência. Eu, francamente, olhava com indignação para a sua cara vermelha em que, através de uma fingida indiferença desdenhosa, transparecia um amor-próprio satisfeito e saciado.

sexta-feira, agosto 19, 2011

Ivan Turguéniev: Fumo


Estava só no vagão; ninguém o incomodava. "Fumo, fumo", repetiu ele algumas vezes: e, de súbito, pareceu-lhe que tudo era fumo, tudo, a sua própria vida, a vida russa - tudo o que era dos homens, e especialmente tudo o que era russo. "Tudo fumo e vapor", pensou, "tudo parece mudar continuamente, em toda a parte novas formas, acontecimentos, mas no fundo é tudo o mesmo; tudo corre, tudo se apressa para qualquer parte - e tudo desaparece sem um rasto, nada atingindo; o vento muda - e tudo se lança na direcção oposta, e de novo começa o mesmo jogo incessante, ansioso e fútil." Lembrou-se de muita coisa que tivera lugar com clamor e comoção em frente dos seus olhos nos últimos anos... "Fumo", pensou ele, "fumo!" Lembrou-se das controvérsias acesas, das discussões, dos gritos no quarto de Gubarióv e em casa de outras pessoas, grandes e humildes, avançadas e reaccionárias, velhas e novas... "Fumo", repetiu, "fumo e vapor". 

[Clássicos Relógio D´Água: uma edição com uma quantidade de erros de ortografia absolutamente escandalosa.]

quarta-feira, junho 08, 2011

Ivan Turgueniev: Primeiro amor


Oh, juventude, juventude! Não te preocupes com nada, parece que todos os tesouros do universo te pertencem, a própria tristeza te é aprazível, a própria angústia te fica bem, és convencida e atrevida, dizes: só eu vivo, olhai... mas os dias correm e desaparecem sem deixar rasto, perdendo-se-lhes a conta, e tudo o que tinhas desaparece como a cera ao sol, como a neve... E talvez o enigma do teu encanto não seja o de conseguires tudo mas a possibilidade de pensares que consegues tudo - consiste precisamente em lançares ao vento as forças que não saberias aproveitar; consiste em que cada um de nós se considera, sem ironia, um esbanjador de tempo, e acha, a sério, que tem todo o direito de dizer: oh, o que eu conseguiria se não tivesse perdido tempo em vão!
Também eu... em que depositava as minhas esperanças, que futuro rico previa para mim quando me limitei a despedir-me com um suspiro, com uma triste sensação, do fantasma efémero e momentâneo do meu primeiro amor?

terça-feira, março 01, 2011

Ivan Turguéniev: Solo virgem


Estranho era o estado de alma de Nejdánov. Nos últimos dois dias, tantas sensações novas, tantas caras novas... Pela primeira vez na sua vida entrara em contacto íntimo com uma rapariga, que - em toda a probabilidade - amava. Estava presente no início de um movimento, ao qual - em toda a probabilidade - dedicaria todas as suas forças... E então? Estava contente? Não. Hesitava? Tinha medo? Estava confuso? Oh, claro que não. Sentia ao menos aquela tensão em todo o seu ser, aquele anseio de estar à frente, nas primeiras filas da luta, que é causado pela aproximação da batalha? Também não. Acreditava realmente na sua causa? Acreditava no seu amor? "Oh, maldito esteta! Céptico!", murmuravam inaudivelmente os seus lábios. Então, porquê este cansaço, este desalento até para falar, excepto para gritar de raiva? Que voz íntima queria ele abafar com esses gritos? Mas Marianna, essa rapariga deliciosa e fiel camarada, essa alma digna e apaixonada, essa maravilhosa rapariga, não o amava realmente? Não era efectivamente grande aquela felicidade que encontrara nela, que merecia a sua amizade e o seu amor? E aqueles dois seres que iam agora à sua frente, Markélov, Solómin, que ainda conhecia tão pouco, mas por quem se sentia tão atraído - e não eram eles excelentes tipos do povo russo, da vida russa, e não era só por si uma felicidade conhecê-los e ser íntimo deles? Então porquê aquela sensação vaga, intranquila e atormentadora? Porquê aquela tristeza? Sendo um sonhador tão melancólico - de novo os seus lábios murmuraram - que raio de revolucionário poderia dar? Devia era escrever versos, ficar amargurado, cultivar as suas manias psicológicas e subtilezas de todos os géneros, mas não confundir a sua irritabilidade doentia e nervosa com uma raiva de homem, com a fúria honesta e de um homem de convicções! Oh Hamlet, Hamlet, príncipe da Dinamarca, como escapar à tua sombra? Como deixar de te imitar em tudo, até na própria depreciação?
***
(...) É caridade recolher os pobres e os aleijados. Mas permita-me que observe: viver luxuosamente e não fazer mal a ninguém, mas não erguer um dedo para ajudar o próximo... não significa que se seja bom. Por mim, sinceramente, não dou grande apreço a esse tipo de bondade.