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segunda-feira, março 26, 2012

Ivan Búnin: O amor de Mítia


"O que foi para ele aquela Primavera, e sobretudo aquele dia, quando o vento dos campos lhe soprava tão frio na cara, quando o cavalo, vencendo o caminho através das aradas negras e dos restolhais saturados de água, respirava ruidoso pelas narinas largas, bufando e rouquejando a plenos pulmões, com uma magnífica força selvagem? Parecia-lhe então que aquela Primavera, precisamente aquela, com os seus dias repletos de paixão por qualquer coisa e por alguém, em que ele amava todas as colegiais e todas as raparigas campónias do mundo, é que era o seu verdadeiro primeiro amor. Mas como aqueles tempos lhe pareciam agora tão distantes! Na altura ainda um rapazinho, inocente, crédulo, pobre nos seus modestos sonhos, tristezas e alegrias! Um sonho, ou antes, a recordação de um qualquer sonho maravilhoso era, então, o seu abstracto e incorpóreo amor."

[o primeiro escritor russo a ganhar o Nobel, em 1933. Escreveu o poeta Alexander Tvardóvski sobre este livro: "O que mais nos espanta aqui é esta arte antiga dos que sabem amar até ao fim e a que Búnin deu corpo quase só com a descrição da natureza de que nos fala: uma Primavera a florescer pode ser pujante de felicidade e de adjectivos gloriosos se o amor está perto, mas pode ser terrível e de adjectivos arrepiantes se o amor está longe."]

domingo, março 18, 2012

Último brinde


Bebo ao lar em pedaços,
À minha vida feroz, 
À solidão dos abraços 
E a ti, num brinde, ergo a voz...
Ao lábio que me traiu, 
Aos mortos que nada vêem, 
Ao mundo, estúpido e vil, 
A Deus, por não salvar ninguém.

Anna Akhmátova, 1934 

quinta-feira, junho 02, 2011

VI

"A gente está sempre a tropeçar,
 mesmo quando o caminho é liso,
é assim o destino humano:
quando não nos enganamos no essencial,
enganamo-nos nos pormenores.
Ninguém conhece a verdadeira verdade."

sexta-feira, maio 20, 2011

V

"O monstro mais monstruoso
é o monstro
com sentimentos nobres."
Fiodor Dostoievski, The eternal husband

Contos de Tchékhov Vol. III


Nós, os russos polidos, temos propensão para estas questões irresolúveis. Por norma, o amor é poetizado, enfeitado de rosas e rouxinóis; ora nós, os russos, enfeitamos o nosso amor com essas questões fatais, e escolhemos entre elas as menos interessantes. Em Moscovo, quando ainda era estudante, tinha uma namorada, senhora muito querida que, sempre que a apertava nos meus braços, pensava em quanto eu lhe daria por mês e em qual era, na altura, o preço da libra de vitela. Também nós, quando estamos apaixonados, não paramos de nos interrogar; se é honesto ou desonesto, se é inteligente ou estúpido, aonde nos levará este amor, etc. Se isso é bom ou mau, não sei dizer, sei apenas que incomoda, não satisfaz, irrita.

(...) De cada vez que ia à cidade via sempre nos olhos dela que me esperava; ela própria me confessava que, ainda de manhã, tivera uma sensação especial, o pressentimento de que eu apareceria. Falávamos muito, calávamo-nos muito, mas não confessávamos o nosso amor, escondíamo-lo timidamente, receosamente. Tínhamos medo de tudo o que pudesse abrir o nosso segredo mesmo a nós próprios. Eu amava-a profundamente, com ternura, mas também ponderava, interrogava-me sobre aonde nos poderia levar o nosso amor se não tivéssemos forças para lhe resistir; parecia-me intolerável que aquele meu amor sereno, triste, pudesse quebrar súbita e rudemente a corrente feliz da vida do seu marido, dos seus filhos, de toda aquela casa onde gostavam tanto de mim, onde me faziam tanta companhia. Seria honesto? Ela seguir-me-ia, mas para onde? Para onde a poderia levar? Outra coisa seria se eu tivesse uma vida bela, interessante, se, por exemplo, estivesse a lutar pela libertação da pátria, ou se fosse um cientista célebre, um actor ou um pintor; mas, na realidade, teria de a arrastar de um ambiente vulgar e quotidiano para outro igual, ou ainda mais quotidiano. E quanto tempo duraria a nossa felicidade? O que seria dela no caso de doença minha, ou morte, ou se, pura e simplesmente, deixássemos de nos amar?

(...) Feliz ou infelizmente, nada existe na vida que não acabe mais cedo ou mais tarde. Chegou a hora da despedida. (...) Quando ela já se despedira do marido e dos filhos e já não faltava muito tempo para o terceiro e último sinal de partida, entrei no seu compartimento para pôr na bagageira uma cesta que ela ia esquecendo em terra; também eu devia despedir-me dela. Quando, no compartimento, os nossos olhares se cruzaram, a força da alma abandonou-nos aos dois, abracei-a, ela apertou o rosto contra o meu peito, as lágrimas corriam-lhe nos olhos; beijando-a no rosto, nos ombros, nas mãos molhadas de lágrimas - oh, que infelizes que nós estávamos! - declarei-lhe o meu amor e compreendi, com uma dor pungente no coração, como era inútil, mesquinho e enganador tudo o que nos impedia de amar. Compreendi que, ao amarmos, temos de reflectir sobre o amor numa base mais elevada, mais importante do que a felicidade ou a infelicidade, o pecado ou a virtude no seu sentido corrente, ou então não vale a pena, sequer, reflectir sobre ele.

Beijei-a pela última vez, apertei-lhe a mão entre as minhas, e separámo-nos para sempre.

quarta-feira, abril 06, 2011

III

All right, but what’s it all for? It can’t be that life was so meaningless, repugnant. And if it really was this repugnant and meaningless, then why die, and die suffering? Something is wrong.
* A Morte de Ivan Ilitch, Tolstoi

terça-feira, março 08, 2011

Iconic Russia


"Se alguma vez o desejo concordar com a razão, estaremos a raciocinar e não a desejar, precisamente porque é impossível, digamos, mantendo a razão, desejar o absurdo e ir, desse modo, propositadamente contra a razão e desejar o que não é bom para nós."
Fiódor Dostoiévski, Cadernos do Subterrâneo

terça-feira, março 01, 2011

Ivan Turguéniev: Solo virgem


Estranho era o estado de alma de Nejdánov. Nos últimos dois dias, tantas sensações novas, tantas caras novas... Pela primeira vez na sua vida entrara em contacto íntimo com uma rapariga, que - em toda a probabilidade - amava. Estava presente no início de um movimento, ao qual - em toda a probabilidade - dedicaria todas as suas forças... E então? Estava contente? Não. Hesitava? Tinha medo? Estava confuso? Oh, claro que não. Sentia ao menos aquela tensão em todo o seu ser, aquele anseio de estar à frente, nas primeiras filas da luta, que é causado pela aproximação da batalha? Também não. Acreditava realmente na sua causa? Acreditava no seu amor? "Oh, maldito esteta! Céptico!", murmuravam inaudivelmente os seus lábios. Então, porquê este cansaço, este desalento até para falar, excepto para gritar de raiva? Que voz íntima queria ele abafar com esses gritos? Mas Marianna, essa rapariga deliciosa e fiel camarada, essa alma digna e apaixonada, essa maravilhosa rapariga, não o amava realmente? Não era efectivamente grande aquela felicidade que encontrara nela, que merecia a sua amizade e o seu amor? E aqueles dois seres que iam agora à sua frente, Markélov, Solómin, que ainda conhecia tão pouco, mas por quem se sentia tão atraído - e não eram eles excelentes tipos do povo russo, da vida russa, e não era só por si uma felicidade conhecê-los e ser íntimo deles? Então porquê aquela sensação vaga, intranquila e atormentadora? Porquê aquela tristeza? Sendo um sonhador tão melancólico - de novo os seus lábios murmuraram - que raio de revolucionário poderia dar? Devia era escrever versos, ficar amargurado, cultivar as suas manias psicológicas e subtilezas de todos os géneros, mas não confundir a sua irritabilidade doentia e nervosa com uma raiva de homem, com a fúria honesta e de um homem de convicções! Oh Hamlet, Hamlet, príncipe da Dinamarca, como escapar à tua sombra? Como deixar de te imitar em tudo, até na própria depreciação?
***
(...) É caridade recolher os pobres e os aleijados. Mas permita-me que observe: viver luxuosamente e não fazer mal a ninguém, mas não erguer um dedo para ajudar o próximo... não significa que se seja bom. Por mim, sinceramente, não dou grande apreço a esse tipo de bondade. 

sábado, fevereiro 19, 2011

Anna Akhmátova: Só o sangue cheira a sangue

 
Há dentro de mim uma lembrança,
pedra branca no fundo de um poço,
já não posso, já não quero lutar:
ela é sofrimento, alegre alvoroço.

Acredito: quem olhe bem de perto
nos meus olhos a possa vislumbrar.
E cisme mais triste do que ouvindo
uma história de saudade e pesar.

Diz-se que os deuses mudavam os homens
em coisas, sem matar-lhes a consciência,
para que vivesse a maravilhosa
tristeza. E ficaste-me lembrança.

Anna Akhmátova, "Anna de todas as Rússias"
[1889-1966]

quinta-feira, novembro 25, 2010

Maximo Gorki: Os Vagabundos


- As minhas palavras são frias como os raios de sol no inverno; raramente os homens as utilizaram, mas quando o fizeram, elas serviram para criar grandes obras. Os autores dessas obras já estão mortos e os monumentos que lhes foram erguidos desmoronar-se-ão em breve sob o insulto do tempo; mas tu vês a vida, conheces os homens e sabes que tudo se mantém igual ao tempo em que cantava o grande Wolfgang, e mesmo ao tempo anterior a ele. Devo lembrar-te isso dado que sou verídica e que para mim não há dor ou alegria, bem ou mal; sirvo a beleza e ela é a verdade suprema, a que não será destruída quer por séculos quer por milénios. Queres apossar-te das minhas palavras sublimes e aceitar-me por tua companhia?
- Para quê?, perguntou o meu poeta com tristeza.
- Para quê, quando tu e ela possuem tão pouca influência sobre a vida. Amo os homens e, nos meus sonhos, quero a felicidade de todos, quero que a vida seja tão bela, tão viva, como o rebentar fragoroso das vagas num dia claro, cheio de sol, e que seja igualmente leve e melodiosa. Quero ensinar os homens a desejar uma única felicidade: a de se respeitarem a si mesmos pela pureza e grandeza dos seus pensamentos e dos seus actos. Queres ajudar-me? 
- A vida é igual a um rio, mas as suas nascentes são turvas porque jorram do seio da terra e é à superfície que lhe correm as águas. Queres purificar as fontes da vida? Transporta-as para os céus. Mas eu sirvo a beleza e sei que o mal é frequentemente mais belo do que o bem. E penso que se o bem fosse tão forte e tão espalhado como o mal, seria o mal o objecto dos teus desejos. Tudo o que abunda é vulgar e aborrecido. E o que vence corrompe-se sempre e perece por orgulho, esgotado pela luta, empanzinado pela vitória. Olha para o sol: é eternamente jovem e brilha com uma luz forte onde quer que os seus raios penetrem; para ele bem e mal não existem... É o que se chama ser objectivo, e nisso consiste a equidade mais elevada que nos é dado atingir sobre a Terra.
Mas a isto o meu poeta exclamou, indignado:
- Em tudo isso não há alma. Já se pensou bastante, o que nos falta é a reaprender a sentir! Na vida não há sentimentos de uma só peça, como de resto não há, geralmente, que seja de um só bloco. Tudo é quebrado e abanado pelos golpes possantes da inteligência, e o espírito humano, penetrante como uma agulha, profundo como uma serpente, já verteu demasiado veneno na taça da vida. Repara, não faltam na vida grandes espíritos, mas onde há - mostra-mas - grandes almas? E a sede de viver desaparece. Como recifes de coral no oceano tais ou tais homens emergem da vida, mas ela, fervilhando à volta deles, quebra contra a sua dureza os nadadores que aspiram a agarrar-se a qualquer coisa. Todos os homens desejam apenas uma coisa, a felicidade, mas procuram-na em sítios diferentes... É necessário abrir-lhes os olhos e mostrar-lhes a verdadeira felicidade. 

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Lev Tolstoi: A morte de Ivan Ilitch


"A vida é uma série de sofrimentos em aceleração, voa cada vez mais velozmente para o seu termo, para o mais hediondo sofrimento. «Estou a voar...» Estremecia, estrebuchava, queria resistir, mas já sabia que era impossível resistir, e de novo, com os olhos cansados de olhar mas incapazes de não olhar para o que estava diante deles, perscrutava o espaldar do sofá e esperava - esperava a queda terrível, o golpe, a destruição. «É impossível resistir», dizia para si."