sexta-feira, setembro 30, 2011

"Saturday Night” by Matthew Lenton


“Saturday Night” desenvolve os fascínios do trabalho mais recente de Matthew Lenton da companhia teatral escocesa Vanishing Point – o aclamado e multi-premiado “Interiors” – espectáculo que trouxe para a linha da frente da cena internacional uma companhia que se destaca por uma linguagem refrescante, evocativa e hipnótica, e que conta as suas histórias partindo mais do que vemos (como se o palco fosse uma janela indiscreta) do que nos é dito por palavras.

Quando olhamos para uma fotografia, fazemos uma leitura profunda de uma única imagem, imaginando a história que ela conta. Deixamos a nossa imaginação agir sobre essa imagem. “Saturday Night” é sobre os ambientes que criamos para nós próprios e chamamos “nossa casa”, os sonhos que construímos juntos, os segredos que mantemos uns dos outros.

Explora uma poderosa combinação orgânica de performance teatral, música e vídeo começando com uma série de imagens misteriosas, precisas, belas, intensificadas e pormenorizadas, cada uma delas acompanhada de uma peça musical, cada uma delas a contar uma história. Os pontos de partida deste trabalho de Matthew Lenton incluem fotografias de Gregory Crewdson – famoso pelas suas imagens encenadas de casas e subúrbios de uma América crepuscular e surreal –, de Tom Hunter e de In Sook Kim, que fantasia sobre o universo privado de pessoas que vivem em edifícios transparentes.

Estamos a observar através das janelas de uma casa, com um jardim: salas diferentes, pessoas diferentes. O que decorre lá dentro é um mistério a ser descortinado e construído. Quem é o jovem casal que chegou recentemente? Que está ele a fazer na casa de banho? Quem é aquela presença estranha no andar acima? E o que está a movimentar-se no jardim? Vemos tudo. Não ouvimos nada. As pistas estão lá. Quem são os protagonistas? O que fazem ali? Será a sua relação amigável ou perigosa? Há um mistério que temos de resolver. Somos, com efeito, voyeurs activos, que detectam sentidos nos intrincados pormenores e pistas oferecidos pela imagem. Quando a imagem começa a mover-se, como num programa de televisão, os seus elementos e a relação que estabelecem entre si tornam-se menos significativos. Aparentemente, já não nos sentimos levados a fazer a nossa própria leitura de uma imagem. Em vez disso, esperamos que nos seja mostrado o que a imagem vai revelar.

Uma misteriosa trama de histórias e incursão na experiência do voyeurismo, “Saturday Night” inspira-se nesse lugar a que chamamos “lar” e nos perigos que inesperadamente o invadem.

Companhia Vanishing Point, hoje, 22 horas
Grande Auditório do Centro Cultural Vila Flor, Guimarães

quinta-feira, setembro 29, 2011

It's like I'm in a dream...



I'd like to lodge a complaint... with a relevant authority
With each other's where we ought to be, Cathy
I'm gonna right to the Times, sign it desperate at "Dolphin's Barn"
Shouldn't we be in each other's arms, Cathy?
Cathy, it's at times lik
e these I wish I wrote like you,
You seem to bend your words to suit your needs,
You melt my heart with your imagery, but I don't know
How to say it better, than darling since I met you
I haven't been the same
And I don't know, all the whys and wherefores
But you're the one I care for and that will never change Cathy
Oh to be with you tonight, smoke a jay and drink a G & T,
Do whatever's coming naturally, Cathy
Turn the sheets into sails
Turn the bed into a golden ship
Floating slowly down the Mississippi, Cathy.. Cathy
Cathy can you help me please, you put these things more poetically than me
I've sang of how love feels but it's much harder when it's all real
And I don't know
How to make it clearer, than honey when I'm near you
It's like I'm in a dream, and I don't know... in stormy weather
Just to be together is good enough for me... Cathy... Cathy... Cathy

segunda-feira, setembro 26, 2011

Para acabar de vez com a cultura

O título é de um livro do Woody Allen. Não creio que ele, ou nós, imaginássemos que quando este livro foi escrito e a palavra cultura era um bilhete de identidade, esse mundo estivesse em vias de extinção. Cresci num mundo, poderia dizer, controlado pela cultura. Comíamos cinema clássico e filmes russos e alemães com sete horas (não eram pera doce), papávamos Bergman ao pequeno-almoço, e ninguém podia chegar à puberdade sem ter lido pelo menos um romance de Tolstoi e Dostoievski, de Stendhal e Flaubert. As meninas tinham de chorar com Alexandre Dumas e a Dama das Camélias e os rapazes tinham de ir aos pássaros e beijar uma Becky Thatcher (não é parente da Mrs.) com a leveza do Tom Sawyer. Passávamos uma tarde a preguiçar com Huckleberry Finn no Mississípi. mark Twain foi um pai para a literatura e para nós. Fomos caçar baleias com Melville.

Tínhamos de saber distinguir entre a sonoridade melancólica de Chopin e a alegria cantante de Mozart, entre quintas e nonas fossem as Beethoven ou as de Mahler. E tínhamos de saber distinguir Cole Porter e Irvind Berlin, John Ford e Howards Hawks. Tínhamos de saber as subtilezas de Nietzsche e Schopenhauer para participar numa discussão onde entrasse a palavra niilismo (e a palavra niilismo estava sempre a romper conversas) e tínhamos de saber a diferença subtil entre o materialismo histórico e o materialismo dialéctico. O cânone e a vulgata. Alguns de nós lemos "Das Kapital" (nunca passa de moda) e outros leram o proibido Livro Vermelho do camarada Mao. Ele há gente para tudo, como dizia o avô Maia. Eu falei n'"Os Maias"? Adorámos.

Havia que discutir política usando autores como Steinbeck e Caldwell à mistura com Hobbes e Burke e discutir política do género usando autores como Baldwin e Steinem. Havia que ver o Holocausto pelos olhos de Ophuls filho (havia o pai, Max) e argumentar colocando na mesma frase os nomes de Goethe e Weimar contra os de Hitler e Goebbels (hoje, à luz da nossa intimidade com o pensamento e o banco alemão, dá muito jeito). Os iniciados citavam Walter Benjamim e Schiller. Entre outros. E falavam do Aufklaurung. Romantismo? Antes o de Lord Byron que o do tolo Bernard Henry-Lévy.

E havia a poesia francesa, desaparecida em parte incerta. Toda a gente sabia o que se tinha passado nas masmorras da Sade e Casanova e entre Rimbaud e Verlaine em Bruxelas (não tinha a ver com subsídios e comissões) e toda a gente tinha lido "As iluminações" e "As flores do mal" (este é Baudelaire). Toda a gente tinha escolhido entre o "Prufrok" de Eliot e os "Cantos" de Pound (não é parente da moeda), entre a ilegibilidade de Joyce e a xenofobia de amis (o pai). Toda a gente venerava Conrad. E Becket. E Pinter. Toda a gente que quisesse ser moderna, bem entendido. As mulheres bebiam o protofeminismo de Virginia Woolf e os homens que apreciavam mulheres e touradas, caça grossa e boxe, subir o Kilimanjaro e pescar no mar alto, comiam Hemingway às colheradas. Toda a gente sabia, evidentemente, por quem dobravam os sinos (é por nós que eles dobram).

Podia continuar por aí fora mas não quero entrar nessa, como se diz em brasileiro. A nostalgia já não é o que era, dizia a Simone Signoret. Teria de falar da educação francesa pelos filmes de Duras e da educação sentimental pelos livros do Scott Fitzgerald. Teria de falar do Kubrick e do Fassbinder. Do Cézanne e do Gauguin. Do Van Gogh e do Monet. Não quero maçá-los.

Chamava-se cultura europeia. Os americanos praticavam-na (Henry James anyone?). Com a marca do modernismo e da "angst" e solipsismo do século XX. Sartre e Camus, Kafka e Musil. Thomas Mann. Tínhamos de subir "A Montanha Mágica". A cultura europeia, como bem escreveu o checo Milan Kundera, era na matriz uma cultura literária, a dos inventores do romance (já sei que os chineses tiveram romance uns séculos antes de Rabelais mas não sabem quem é o Homero e estou um bocado farta de chineses).

O último filme ("Meia-noite em Paris") de um judeu culto de Nova Iorque, educado pela cultura europeia (e, sendo judeu, parte construtiva dessa cultura), é uma homenagem irónica ao mundo extinto. À nostalgia (oh diabo, e os italianos? O "Amarcord" do Fellini? O Visconti? O Rosselini?). Extinto pela tecnologia, que é arrogantemente ignorante, e pela crise, que nos faz perder horas a coçar a cabeça à procura de tostões e a pensar que os economistas financeiros são pessoas com importância (leia Pessoa). Eu sei que a cultura já não é o que era. Deixemos que um bando de cretinos mande em nós. Cretinos? A definição é de Michel Houellebecq em "la carte et le Territoire". Talvez o último romance europeu do último romancista europeu.

Clara Ferreira Alves, Sábado passado, na Única

domingo, setembro 25, 2011

sábado, setembro 24, 2011

Playground

This used to be my playground, this used to be my childhood dream, this used to be the place i ran to whenever i was in need of a friend, why did it have to end and why do they always say. Don't look back, keep your head held high. Don't ask them why, because life is short and before you know, you're feeling old and your heart is breaking. Don't hold on to the past, well that's too much to ask. Live and learn, well the years they flew and we never knew, we were foolish then we would never tire and that little fire is still alive in me it will never go away, can't say goodbye to yesterday. No regrets, but I wish that you were here with me. Well then there's hope yet, i can see your face in our secret place, you're not just a memory, say goodbye to yesterday [the dream], those are words i'll never say.

Out of the box IV

sexta-feira, setembro 23, 2011

quinta-feira, setembro 22, 2011

Jorge Semprún

Afundaremos em breve em trevas gélidas:
Adeus, vivo clarão de um verão fugaz.

quarta-feira, setembro 21, 2011

Paulo Nozolino: Bone lonely e Makulatur


Com edição da Steidl, os dois mais recentes trabalhos de Paulo Nozolino, “bone lonely” (2009) e “Makulatur” (2011), já chegaram ao mercado. O primeiro reflecte um olhar sobre o desmoronar do mundo moderno. O segundo apresenta a decomposição da célula familiar numa abordagem íntima do autor à morte. Dois objectos simples, o mesmo tamanho, um preto, outro branco, que dialogam entre si como um díptico. Ambos foram impressos em Junho deste ano na já mítica rotativa de Gerhard Steidl, em Göttingen.

À venda na Galeria Quadrado Azul, no Porto e em Lisboa.

terça-feira, setembro 20, 2011

"The devil made me draw it"


Um dia, Habibi haveria de chegar ao mercado. Hoje é o dia!

Entrevista de Craig Thompson à Mother Jones:

Craig Thompson grew up in rural Wisconsin, where his access to media was strictly controlled by his fundamentalist Christian parents. But comics flew under their radar, so that's where Thompson, then a socially awkward nerdling, ended up gravitating. His 1999 debut, Good-bye, Chunky Rice won a Harvey award and was nominated for an Ignatz—named for the beloved Krazy Kat character. He followed up with the mini-comics Bible Doodles and Doot Doot Garden, but it was Thompson's 2003 release of Blankets, an autobiographical coming-of-age saga that earned him a shower of awards and cemented his place in the comic pantheon—even as it led to a family rift. Maus creator Art Speigelman sent him a laudatory letter, and Time dubbed Blankets the year's best graphic novel, while Paste magazine would later name it the decade's best.

At a staggering 672 pages, Habibi, Thompson's new book out this week, is a richly rendered love story set in a fictional Middle-East that's simultaneously modern and medieval. The author weaves the adventures of his slave-child protagonists with tales from the Bible and the Koran, numerology, and themes of imperial debauchery and environmental degradation. "I wanted to do a book that was bigger than myself, either something sort of fantastical and epic like Lord of the Rings or something with political relevance, like Joe Sacco's documentary work," says Thompson, who is now 36 and living in Portland, Oregon. "So I think those two modes met somewhere in the middle: a social-political fairy tale."

Mother Jones: I was raised in Madison, Wisconsin, but never got as far north as Marathon. What's it like?
Craig Thompson: The town, when I was growing up, was population 1,200. There's a cheese factory there, and that's sort of the center. The elementary school and the high school are on pretty much the same block, and pretty much your entire life is there.

Did your parents work in the factory?
They didn't, actually. My dad was a plumber, and my mom was on and off again, either a stay-at-home mom or working with the disabled as a visiting-nurse assistant. We lived a 10-minute drive outside of town, in the country, on a highway.

You were cartooning pretty early on, right?
Yeah. I grew up in a very working-class family and also a very fundamentalist Christian family. So, we didn't have access to the arts in the house in any form other than the Sunday funnies.

Were the arts frowned upon by your parents?
I think that's one of the reasons I imprinted myself on the medium: They did censor all the media in the house. All the movies they'd watch first, and the television shows—it was very strict. Only Christian music was allowed, no secular music. But comic books were below the radar because they were children's entertainment, you know? They didn't even consider them. So I think that's why my brother and I were obsessed with comics; that was like our edgiest form of entertainment.

What comics were you most into?
We were really obsessed with Black and White comics, which were sort of part of this '80s, Teenage Mutant Ninja Turtles part of the industry. But it was indie creators, like self-publishing. They were generally escapist fantasy fun, but they were still more edgy and more, like, auteur-style than corporate superhero comics. We loved the DIY ethic behind it—that this is just one creator, one person, writing and drawing these and publishing them.

I would imagine you're familiar with Chick Tracts, those evangelical Christian morality comics.
Yes, although I don't think I had access to those until I moved to Milwaukee. I was already 19 or 20 then. Jack Chick's sort of political and religious stance matches my parents'—including that sort of strange, the Pope is the Antichrist, and those sorts of things.

Was your family part of an organized church?
It was an evangelical church we saw evolve from a couple families meeting in a living room at one person's house. And then there was a pastor. He was kind of a hippie pastor. These are all sort of small-town people but kind of growing out of the back-to-nature sort of Jesus-freak movement of the '60s and '70s. We'd sit in people's living rooms and sing Jesus songs that our pastor made up. And then at a certain point the church had access to a storefront that I think also hosted other churches, and they just had couch cushions on the ground. And then we rented out the City Hall, until it burned down. That was a cool space. And then we rented time at a Presbyterian church, so after their service we would have service. Finally, when I was in high school, the church bought its own building, or had it constructed, and then the political dynamics changed a lot; it became more conservative and half of the people left.

More conservative in what sense?
In every sense. The new people were older and it became more of a fire-and-brimstone sort of church. I felt pretty attached to the pastor I grew up with—he literally was a carpenter by trade and had long hair and a beard and made homemade songs on his acoustic guitar. It was, you know, a hippy-dippy version of Christianity. And then he left; I think he was booted out by the more conservative people that started to pour in.

Do you still consider yourself a Christian?
No, I don't consider myself a Christian at all.

Was there something in the church's teachings that turned you off?
It was slow and instant at the same time. The slow part happened all throughout my high school years, where I was really obsessed with Jesus and his teachings, but really disenchanted with the church and its dogma. I was pretty feminist back then—a little scrawny vegetarian Christian feminist boy. [Laughs.] So I clashed with a lot of the teachings, and a lot of the Bible, actually. But I loved Jesus and his ethics. That was sort of the career path I wanted to follow, too: just to live like Jesus, not have any belongings, not have any job, not pay any rent. It was very hippie.

That attitude could come in handy for a struggling cartoonist.
Yeah, definitely. I think there is some overlap in terms of artistic desires and Christian desires.

So have you also said goodbye to Jesus, or are you still down with him?

I'm still down with Jesus. I like to think of him mostly as a social revolutionary who mixed with bad crowds and hated the rich. [Laughs.

So was there a big rift with your parents after you split from the church?
Blankets was the vehicle with which I came out to my parents about not being a Christian, so we never really had that conversation. Typical sort of northern Midwest, stoic personalities: There isn't a lot of conversation or communication in our dynamic, so it just never came up. They never ask things about my life. They were really concerned about me going to church and stuff like that, but they never pressed for further details about Blankets, which is a lot about my falling from the faith.

But they read it?
They did read it. Yeah, I sent it to them. And it caused, at least for a couple of years, a lot of tension. But things are feeling better now.

Have they commented on your career?
They used to be very upset by it and say that my work was satanic, even. They used that term. And so, they were really troubled by the message, they said it was the devil's message in my work. And when they had suggestions of how I could use my talent, they would bring up like, VeggieTales, those Christian animated vegetables.

Have you sent Habibi to your parents?
No. I'll definitely send it to them as soon I have the official, printed version.

What do you think they'll think of that?
I don't think they'll like it. But at the same time, I don't think it could be worse than Blankets, because Blankets was about our family; it was about Christianity, it was very personal. I just feel like, you know, it can't get worse—not with my family, I don't think.

So this book is coming out the day before your 36th birthday. That's quite a present!
Yeah, it is. You've read the book, so you know about all the numerological concerns. And I like the numerology there, since 36 is nine, and the book is kind of based on that nine-panel grid.

Yeah, I loved how you organize the book. But let's talk about the number seven. I can totally see why it's been seven years since your last book. Habibi is an epic: 672 pages with tons of detail and all this insane calligraphy. Did you have a clue what you were getting into?
Not at all. I thought I'd spend two years on a book, and I thought I would do it really quickly.

How long did it actually take, from idea to completion?
It was six years solid of work.

Have your other books sold well enough that you could focus on this, or did you have to freelance on the side?
Blankets has sold pretty well. Not enough to make a sole living, but with foreign editions and the advance on Habibi, I was able to swing it. The key was having an advance, which I'd never had before.

The first time I read it, I was just sort of into the story. The second time I was really noticing all the minutiae and I was going, "Holy cow, how long this must have taken!" The panels are beautifully rendered.
That should be the strength and pleasure of comics, that you can read it through quickly the first time but then go back and savor the images. 

The cover resembles a Koran, which is fitting. How'd you learn the Koran?
The Koran I didn't start reading until I was researching for Habibi. And I like it a lot more than the Bible, although I don't think you can't substitute—because I feel like the Koran depends on you having a knowledge of biblical stories already. You can tell that the early Muslims already knew those texts. And their take on those stories is so much more poetic and mysterious.

You also indicate in Habibi that the two books diverge on key details, like which one of his sons Abraham tried to sacrifice to God.
Yeah, there are various divergences. But all Muslims believe it was Ishmael and all Christians believe it was Isaac. It's important to both faiths. I don't really understand the difference. Well, I do, but I guess it's strange that both sides are so adamant that it's this son.

Yeah, and whereas Ishmael went willingly to the altar, Isaac had to be tricked.
That point I think is really interesting. Those subtle variations; there's so much to mine from them.

Regarding the calligraphy, did you study Arabic, or just learn enough to do the book?
The latter. I learned the alphabet, the 28 letters, and paid particular attention to those nine letters that make up the chapters of the book. And it got to the point where I find pleasure in recognizing Arabic words because I know the letters. But no, I never learned to write or speak it. There's a saying that Arabic calligraphy is music for the eyes, which is my attitude toward comics. It's so much about timing and rhythm. 

Habibi is a great example of nonlinear storytelling, all these little fragments, meanderings, dreams, tangents ultimately come together to form a complete picture. Is that something you worked hard on, or is it just the way you go about telling stories?
Both, I think. It feels very natural to write that way in comics. It's easier to make those leaps in comics than in most other mediums—in a film, if there's a big jump, it can be confusing, but with comics you can just look at the previous page or previous panel and have somewhere to place your footing. My first draft of Habibi was much more linear and it was falling very flat, until I took a cue from 1001 Nights of kind of breaking everything apart and putting it back together in a nonlinear form.

1001 Nights. Elaborate.
Just the idea of folding one story in on another story, and you never knew where you began. And Scheherazade—I think it's potent for any artist, this idea of storytelling for survival.

Yeah, you used that notion in your own story.
I used all the tropes, like the scatological humor; even that comes from 1001 Nights. And a lot of the bawdy sexual humor is all in there too.

Now I'm going to have to go back and read it!
You should. It's totally scandalous and amazing and vulgar and obscene and surprising. You think of it as an old-fashioned work of literature. And then you read it and you're like, "This is fucked up and completely crazy!"

That was the ancient entertainment. The fairy tales we have now have all been sanitized from the originals, but the originals are full of incest and murder and crazy shit.
The Bible is too! It's funny how we forget how daring those things are compared to modern-day entertainment.

Okay, so, numbers and patterns also play a huge role in Habibi. How did you get obsessed with that?
Um, boy, I think it might be something natural about the cartoonist mind, when you become very neurotic about those kinds of things.

The pattern-making and numerology and symbolism: Is that in the Koran or did you make it up?
It's a combination. The birthplace of mathematics is in Arabic culture, and so I wanted to pay tribute to that. And as much as I was inspired by Arabic calligraphy, I was inspired by geometric design. I'm always struggling with panels in comics—why does it have to be just a box all the time? So I started thinking, what if I had chapters based on different geometric shapes, but also page compositions and panels based on shapes other than the standard square? And then it just spiraled off and became more obsessive. But it's easy to became obsessive once you start studying geometric design—it's really psychedelic and mind blowing to look at that stuff and think of the construction.

Your fictional Middle-Eastern realm has everything from slave markets and harems to junk heaps containing modern cars—although we don't see much else by way of technology. You also have these recurring themes of environmental degradation, and imperial decadence alongside abject poverty. Do you see your setting as past or future or present day?
All of those things, but probably most of all present day. It's all infused with a sort of imperialist guilt, in a sense of being from this world power and then traveling to more-developing nations and seeing the old world rubbing up alongside the modern world, and seeing how our culture feeds off these other cultures. How all the wealth in our culture is created by the poverty in other countries.

So we're the fictional kingdom of Wanatolia and the developing world is your village of outcasts?
Yes. Some of it is just fueled from my own experience going to places like Morocco or Vietnam where people's lives do feel like they're from another time centuries ago, but at the same time there's cars and televisions and all that stuff—and plenty of garbage and litter and pollution. I didn't want to make it too modern. I didn't want to have any guns or televisions in the book. So I got to pick and choose what I wanted. It's a fairy-tale world with modern things, cars, and there's plumbing and whatnot. But I'm not having people sitting around watching TV sets in the slums. Which would be closer to reality.

Have you traveled to the Middle East?
No. It's ironic I didn't do more travel research. But I once I started drawing the book it became such a commitment. And also, from the beginning, it didn't take place in any specific location or time.

You did do other research, though, like reading the Hadiths.
Yeah, those are the reported sayings of the Prophet. Some of them are held very sacred; some of them are very questionable. The only prohibition from image-making comes from the Hadiths. There's nothing in the Koran that says you can't make images.

I notice you veiled your Muhammad.
Yeah, and that was borrowing from Persian miniatures: That's how the prophet is always depicted, and I like that idea. I have a couple of Muslim friends who were much more offended by how I presented other prophets, because every prophet is sacred in Islam. Which is a sort of a jarring thought for Christians, because they could care less. You can make fun of Noah or Abraham or anyone. Christians don't have the same sort of sacred prophets.

So who among your artist peers do you most idolize?
Joe Sacco above all others. And Joe's a friend, a Portland-based cartoonist. But I think he's the most important cartoonist in America. I don't know if I have the talent or intellect to do the stuff he does. He's a much more educated man than I. He's definitely an inspiration.

I gather, like many cartoonists, that you felt very socially awkward as a kid. Was there a point where you realized, hey, wait, being able to do this stuff kind of makes me the cool guy.
[Laughs.] It happened somewhere in high school. When I was little, I was definitely the mercilessly beat-up little nerd kid. By the time I was in high school, I was one of those punkish skateboard kids and wasn't interested in comics very much. But I was reintroduced to the medium by people I found very cool, like other punkish skateboarder types. And then it kind of overlapped with my disillusionment with what I would do for a career—again, the DIY ethic. I was really interested in animation in high school, but had no idea about how a little working-class kid could get to a fancy art school and learn to be in the animation business. Plus, I recognized that you end up being a cog in the machine, designing and animating soap bubbles for a car commercial or something. I realized there wasn't a lot of opportunity to have a unique artistic vision in animation. And that's around the same time I rediscovered comics and was like, oh, one person can do it all—do the character designs and create the backgrounds and write the story.

You kind of have to isolate yourself, too.
I definitely have that introverted side where I don't mind being alone for eight hours doing my work. After that I don't want to be alone.

Do you have a disciplined work schedule?
I'm from the working-class Midwest: 9 to 6, that's about my work day. I used to work much more than that, but I really wore myself down, and now I maintain this very boring sort of work day, which keeps me much healthier. I have a friend who's a painter who calls painting "mowing the lawn," and I think it's similar with most art; it's like punching the clock and doing the work.

Flashes of inspiration mixed with vast amounts of tedium.
There something natural about that for a cartoonist, the slowness of things, wanting to resist the fast pace of modern pop culture. Which is ironic since cartoons were born out of fast-paced pop culture; they were something that would be produced in a week and thrown on newsstands. But now with the graphic novel, it's like the opposite—it's resisting all the internet culture.

Do you personally resist that stuff? You do have your blog.
I started that when I realized I'd been away from the scene for so long I was losing contact with my fan base. It's nice to have that as a little forum. But I only update that once or twice a month. So no, I'm not a social-networking person. My publicist started a Facebook page for me recently. But that's the closest I've come.

Are your fans obsessive?
Some of them, yeah.

Tell me a story.
I haven't necessarily had any creepy stalker experiences. I didn't have many fans before, so whenever I would meet a fan I could almost start a friendship with them. And then by the time Blankets exploded onto the scene, I had to start learning how to draw boundaries. I'd reply to one piece of fan mail and it'd open up a dialogue that I really didn't have time for. But the coolest thing about my fans, at least previously, is that people connect with my work on such an emotional level. Sometimes at a bookstore signing, people will come up to me and tell a personal story and just start crying on the spot. I don't mind. I mean, I'm blown away and intimidated by it, but also very moved by it, too.

segunda-feira, setembro 19, 2011

Sadness is a blessing*


Era sempre a mesma pergunta: isto é uma despedida? Não, nem sempre. Às vezes era. E depois não era. Um dia foi. Assim, sem aviso, ou quase. Tardaste tanto a chegar e foste tão célere a partir. Seria sempre cedo para ficar sem a parte insubstituível de mim que já eras. Achava que morreria no dia em que partisses. Mas tu partiste e eu não morri. Claro, nunca se morre de desgosto, embora devesse. Morrer ou poder matar. Não estávamos à mão, nada, mas coincidíamo-nos. E conhecíamo-nos. Como se de sempre, e ao mesmo tempo sempre pela primeira vez. Parecia amor, uma espécie de. Seria? Os amigos amam-se, nada de errado, mas nós nem éramos amigos. Éramos dois braços, esquerdo e direito, dois lábios, superior e inferior, duas metades da mesma unidade. Seríamos? A luz não teria morrido, a noite não teria descido, o silêncio não teria crescido. Eu não teria deixado de esperar por ti. Queria tanto que tivesse sido para sempre. Que não fossemos só frases dos mesmos livros, acordes das mesmas canções, trechos dos mesmos filmes, que são afinal os livros, as canções e os filmes de toda a gente. Fomos?

*Likke Li

domingo, setembro 18, 2011

Os três F da nova literatura americana


Parece que a nova literatura americana de referência vem toda catalogada na letra F: [Joshua] Ferris, [Jonathan Safran] Foer e [Jonathan] Frazen. Do primeiro, lemos The Unnamed e gostámos muito. Do segundo, lemos Extremely Loud & incredibly close e gostámos mesmo, mesmo muito. Do terceiro, estamos na recta final de Correcções e um destes dias diremos o que entendermos. Mas os três F estão já cá dentro, entrada directa no rol de autores a que voltaremos. Talvez não tão sofregamente como a Philip Roth, mas apenas porque ninguém, como Roth, consegue um tão intenso fluxo de publicação. Nos últimos anos, um ano um livro.

Acontece que saiu agora em Portugal o primeiro livro de Philipp Meyer, escritor também da fornada de 1970, a mesma dos Fs, "Ferrugem Americana", publicado nos Estados Unidos em 2009 e considerado, na altura, o livro do ano por vários jornais, figurando no top 10 de vendas e de crítica de quase tudo. O Ípsilon publicou, sexta-feira passada, uma entrevista com o rapaz. E o rapaz não fez mais nada: tratou os Fs como literatura de "entretenimento", diz-se "muito diferente deles" e, facada final, atacou Roth à descarada. Assim, de repente, não parece o princípio de uma bela amizade. Mas pode ser... Na dúvida, vamos experimentar.

Mia Couto: Murar o medo



... o medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte, vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura, algo me sugeriu o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas....

... a nossa indignação é bem menor que o medo. Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome, e como militares sem farda, deixámos de questionar, deixámos de fazer perguntas e de discutir razões...

... há quem tenha medo que o medo acabe.

O-B-R-I-G-A-T-Ó-R-I-O

quinta-feira, setembro 15, 2011

Máquina de escrever 1715-2011

Estamos todos a caminho do que não queríamos, todos a caminho de não sermos mais do que apenas um número, um código, um endereço. Todos a caminho de 1984. Aqui, um fim de linha. Mais um. (http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-57/despedida/fim-de-linha)

terça-feira, setembro 13, 2011

(a carta da paixão)

A paixão é voraz, o silêncio alimenta-se fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te toda no cometa que te envolve as ancas como um beijo. Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem nos quartos. É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta pelo meio o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras um pouco loucas engolfadas, entre as mãos sumptuosas. A doçura mata. A luz salta às golfadas. A terra é alta. Tu és o nó de sangue que me sufoca. Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões da madeira fria. És uma faca cravada na minha vida secreta. E como estrelas duplas consanguíneas, luzimos de um para o outro nas trevas.
Herberto Helder

segunda-feira, setembro 12, 2011

José Saramago: O Caderno



Viemos de Lanzarote no último sábado, com escala em Sevilha, e depois por estrada até Lisboa. No domingo, como expliquei, fomos à Azinhaga por causa de estátua que lá foi posta. O plátano em frente da casa é um autêntico esplendor, uma gama de verdes riquíssima que atrai para uma demorada contemplação e me fez pensar: “Não mudes, deixa-te ser como és”. Inútil desejo, virá o Verão com os seus calores, o Outono com o primeiro frio, e as folhas cairão, o esplendor apaga-se, a árvore adormece até que a nova Primavera venha tomar o lugar desta que está terminando.

Estes pensamentos sem nenhuma originalidade fizeram-me recordar o último e breve capítulo da Viagem a Portugal que, ouso pensar, alguma originalidade haverá tido. E pensei que não ficaria mal trazê-lo aqui, quando estamos a ponto de partir outra vez, agora para a Corunha. Aí vai, portanto:

«A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: “Não há mais que ver”, sabia que não era assim. O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já.»

Assim é. Assim seja.

domingo, setembro 11, 2011

Where Were You on Sept. 11, 2001?



http://www.nytimes.com/interactive/2011/09/08/us/sept-11-reckoning/where-were-you-september-11-map.html

Beijos abreviados. Não, obrigada.


Há uma diferença entre um beijo e um beijinho. Entre o original e o diminutivo, o singular e o plural. A diferença é ainda maior quando um beijo não passa de um bj. Bj ou Bjs, tanto faz, são beijos roídos, ratados, diminuídos, a despachar. Odeio bjs abreviados e beijinhos, mexem-me com os nervos, soam-me à ausência de carinho que um beijo necessariamente exige. Mas beijos usados como pontuação deixam-me a espumar. - A que horas vais? Bj. - Vou às 20h. Bj. Um beijo não é um ponto final, uma notação sintáctica, porra, não é o stop de um telegrama. Um beijo tem de ter um tom, uma intenção, um fim. Não é obrigatório e nem sempre é necessário. Gosto de beijos com tamanhos, grande, enorme, gigante. Ou só meio beijo, se o caso for complicado. Gosto de beijos num lugar concreto, na testa, na cara, na boca. De beijos com personalidade, de língua, se houver razão para isso. Gosto de beijos que vêem estrelas. De beijos com sabores, doces, salgados, agricodes. De canela, de mel, de rum. De beijos com cores químicas. Ou psicadélicas. Depende do momento. De beijos com mimos, com sorrisos. De beijos com saudades. Com temperatura certa. Arrepiados, a arder. De um beijo dirigido: beijo-te. De beijos furtivos. De beijos que não acabam. De beijos íntimos, com segredos. De beijos que não pestanejam. De beijos com cócegas. Com sol. Suados. Gosto muito de beijos com memória. Com numa canção atrelada. De um beijo com data, beijo-te amanhã. De beijos viciados, que embriagam. De beijos com cheiro, o do mar, o daquele dia ao acordar. Gosto de um beijo com um ponto de exclamação. Um beijo é coisa séria, de dentro, de um coração para outro coração. Mesmo que seja só escrito, tem de ser assim.

sábado, setembro 10, 2011

Out of the box II

A manic pixie dream girl by Ana Markl

Em 2007, um crítico de cinema do jornal satírico "The Onion" criou um termo - na altura, a propósito da personagem de Kirstin Dunst no filme "Elizabethtown" - que foi rapidamente integrado no léxico da cultura pop americana. "A manic pixie dream girl existe apenas na imaginação de cineastas sensíveis e serve para ensinar jovens nostálgicos e apaixonados a abraçar a vida, os seus infindáveis mistérios e aventuras", descreveu Nathan Rabin.

Encontra-se disto em quase todas as histórias de amor felizes sem final feliz, das produções independentes às mais hollywoodescas: Sandra Bullock numa comédia romântica de segunda categoria chamada "Forças da Natureza"; Zooey Deschanel num ensaio sobre o que é para sempre enquanto dura chamado "500 days of Summer"; Joey Lauren Adams numa história de amor entre uma lésbia e um heterossexual inseguro chamada "Chasing Amy".

A manic pixie dream girl é a mulher que resgata o homem da solidão ou da resignação desapaixonada, por oposição à mulher obcecada com a segurança e a estabilidade. É feminina, mas gosta de bola, é meio tonta mas não tem medo do ridículo, ama perdidamente mas receia comprometer-se. Uma personagem criada pelo sexo masculino, ainda que parta do pressuposto injusto de que os homens têm medo de amar. Na vida real, o que não faltam são histórias de amor felizes sem final feliz. Consta que as manic pixie dream girls desta vida acabam com o coração partido ou, pior ainda, domesticado pelos homens que as amaram pela sua selvajaria.

sexta-feira, setembro 09, 2011

And this is why I hate you...


You want to know why I hate you? Well I'll try and explain... You remember that day in Paris when we wandered through the rain and promised to each other that we'd always think the same and dreamed, that dream to be two souls as one, and stopped just as the sun set and waited for the night outside a glittering building of glittering glass and burning light... And in the road before us stood a weary greyish man who held a child upon his back, a small boy by the hand, the three of them were dressed in rags and thinner than the air and all six eyes stared fixedly on you. The father's eyes said "Beautiful! How beautiful you are!" The boy's eyes said: "How beautiful! She shimmers like a star!" The childs eyes uttered nothing, but a mute and utter joy and filled my heart with shame for us at the way we are. I turned to look at you to read my thoughts upon your face and gazed so deep into your eyes, so beautiful and strange, until you spoke and showed me understanding is a dream, "I hate these people staring make them go away from me!" The fathers eyes said "Beautiful! How beautiful you are!" The boys eyes said "How beautiful! She glitters like a star!" The child's eyes uttered joy and stilled my heart with sadness for the way we are. And this is why I hate you and how I understand that no-one ever knows or loves another. Or loves another.

quarta-feira, setembro 07, 2011

Gary Shteyngart: Super sad true love story


When i was young, i loved my parents so much it could have qualified as child abuse. My eyes watered each time my mother coughed from the "American chemicals in the atmosphere" or my father clutched at his beleaguered liver. If they died, i died. And their deaths always seemed both imminent and a matter of fact: Whenever i tried to picture my parents souls i thought of these perfectly white Russian snowbanks i saw in history books on the Second World War, all those arrows being drawn into Russia's heart along with names of German panzer divisions. I was a dark blemish upon these snowbanks. Before a was ever born, i had dragged them away just so the fetus inside my mother, that future-Lenny, could have a better life. And one day God would punish me for what i had done to them. He would punish me by killing them.

(...) The fact was that when she kissed my cheek it didn't hurt afterward, nor did it smell of onions. So to tee devil with her good intentions, as my parents might say. She was as alien, a trespasser, a woman i couldn't love back. When i saw her at the door, i threw the first and last punch of my life. It connected with surprisingly narrow mid-torso, where the last of her three boys had just gestated in fine, cushy comfort. Why did i punch her? Because she was alive while my parents were dead. Because now she was all i had left.

(...) - "We all die", Nettie told me, after she had fed me a powdered-cocoa-and-fruit concoction she called "the chocolate banana", whose ingredients and manner of preparation i still don't understand. "But someday you'll have children too, Lenny. And when you do you'll stop worrying about your parents' dying so much."
- Why, Missus Nettie?"
- "Because your children will become life." For a moment at least, that made sense. I could feel the presence of another, someone even younger than myself, a kind of prototypical Eunice person, and the fear of parental death was transferred upon her shoulders.

terça-feira, setembro 06, 2011

Ivan Turgueniev: Cadernos de um caçador


Não sei quanto tempo dormi, mas quando abri os olhos toda a floresta estava inundada de sol e, em todas as direcções, através da folhagem que marulhava com alegria, entrevia-se e cintilava o céu azul vivo; as nuvens haviam desaparecido, enxotadas pelo vento, o tempo desanuviara, e no ar sentia-se aquela especial frescura seca que, enchendo o coração com uma sensação de energia, quase sempre prediz uma tarde pacífica e clara depois da intempérie do dia. Já queria levantar-me e voltar a tentar a sorte quando, de repente, os meus olhos apanharam uma imóvel imagem humana. Olhei com atenção: era uma jovem rapariga camponesa. (...) Gostei sobretudo da expressão do seu rosto: tão simples e meiga era, tão triste e cheia de uma infantil perplexidade perante a sua própria tristeza. Estava, pelos vistos, à espera de alguém.

(...) - Vai esquecer-se de mim, Víktor Aleksândrich, disse Akulina com tristeza.
- Não, porquê? Não te esqueço; só que não sejas parva, tem juízo, obedece ao teu pai... Ora, eu não te esqueço, não. (Espreguiçou-se com calma e voltou a bocejar.)
- Não se esqueça de mim, Víktor Aleksândrich, continuou ela, suplicante. - Sabe como gostava de si, dei-lhe tudo... Está a dizer que tenho de obedecer ao meu pai... Mas como posso obedecer-lhe se...
- Porquê? (Pronunciou-o como que a partir do estômago, deitado de costas e com as mãos debaixo da nuca.)
- Ainda pergunta porquê, Víktor Aleksândrich, sabe...
Calou-se. O homem brincou com a corrente de aço do seu relógio.
- Akulina, tu não és estúpida, disse ele finalmente. - Por isso, deixa de dizer disparates. Quero-te bem, está a entender? Claro que não és parva, não és de todo campónia, por assim dizer; e a tua mãe nem sempre foi campónia. Mesmo assim és inculta, portanto tens de dar ouvidos ao que te dizem.
- Mete medo,Víktor Aleksândrich.
- Mas que disparate, minha querida: inventas cada medo! O que é isto?, acrescentou, chegando-se a ela. - Flores?
- Flores, respondeu Akulina, desalentada. - Colhi algumas erva-de-são-marcos, continuou, um pouco mais animada -, é boa para os vitelos. E esta aqui é o picão, cura a escrófula. Oha só que florzinha maravilhosa; nunca na vida vi uma florzinha tão linda. Esta é a não-te-esqueças, este é o serpão... E estas aqui são para si, disse, tirando de baixo da erva-de-são-marcos amarela um pequeno ramo de cantáureas azuis, atadas com uma erva fininha. - Quer?
O homem estendeu a mão com preguiça, pegou nas flores, cheirou-as com indiferença e pôs-se a girá-las nos dedos, lançando olhares para cima com um ar de importância pensativa. Akulina olhava para ele... Nos seus olhos tristes havia um sem fim de terna abnegação, de submissão venerabunda e de amor. Tinha medo dele e não se atrevia a chorar, e estava a despedir-se dele, e a admirá-lo pela derradeira vez; o homem, no entanto, estava deitado, repimpado como um sultão, e tolerava a sua adoração cm uma magnânima paciência e condescendência. Eu, francamente, olhava com indignação para a sua cara vermelha em que, através de uma fingida indiferença desdenhosa, transparecia um amor-próprio satisfeito e saciado.

segunda-feira, setembro 05, 2011

Vergílio Ferreira: Na tua face


Havia um desperdício enorme no que eu amava e eu pensava não podes desperdiçar o desperdício. O que é que se ama numa mulher? Porque se ama só a pele e um pouco da pele mais para dentro. O resto, que é afinal o que mais se ama, não existe. (...) Gostava de saber porque te amo nesta forma estranha de te não ter amado nunca. Houve primeiro a ausência de Bárbara em ti e que deixava um sinal de presença como uma flor seca num livro. Mas depois cresceste sobre isso e deitei a flor fora. E não precisei de procurar quem me arrefecesse a parte mais quente do meu ser vital. Porque o amor é assim, tem o lado mais quente com que se é aos sacões e instável e o lado morno com que se é contínuo e estável. 

(...) O que perturbava agora era essa estranha inquietação de um amor que não houve senão quando planificado na simples afeição de estarmos juntos. Eu com ela e ela comigo, penso. De a vida se resolver por si na quietude de haver nela o belo e o horrível, a alegria e o sofrimento. Tudo tinha arrefecido ao longo dos anos, como podia haver calor para antes disso? O que tivesse havido era frio de depois, mas nem houve. Mas sofre-se pelo que nos levam, mesmo que tencionássemos deitá-lo fora. Porque o nosso orgulho é imenso e a humilhação dele também.

domingo, setembro 04, 2011

sábado, setembro 03, 2011

Miguel Esteves Cardoso: Último volume


Quem não dava a vida por um amor? O essencial é amar os outros. Pelo amor a uma só pessoa pode amar-se toda a humanidade. Vive-se bem sem trabalhar, sem dormir, sem comer. Passa-se bem sem amigos, sem transportes, sem cafés. É horrível, mas uma pessoa vai andando. Apresentam-se e arranjam-se sempre alternativas. É fácil. Mas sem amor e sem amar, o homem deixa-se desproteger e a vida acaba por matar. Philip Larkin era um poeta pessimista. Disse que a única coisa que ia sobreviver a nós era o amor. O Amor. Vive-se sem paixão, sem correspondência, sem resposta. Passa-se sem uma amante, sem uma casa, sem uma cama. É verdade, sim senhores. Sem um amor não vive ninguém. Pode ser um amor sem razão, sem morada, sem nome sequer. Mas tem de ser um amor. Não tem de ser lindo, impossível, inaugural. Apenas tem de ser verdadeiro. O amor é um abandono porque abdicamos de quem vamos atrás. Saímos com ele. Atiramo-nos. Retraímo-nos. Mas não há nada a fazer: deixamo-lo ir. Mais tarde ou mais cedo, passamos para lá do dia a dia, para longe de onde estávamos. Para consolar, mandar vir, tentar perceber, voltar atrás.

O amor é o que fica quando o coração está cansado. Quando o pensamento está exausto e os sentidos se deixam adormecer, o amor acorda para se apanhar. O amor é uma coisa que vai contra nós. É uma armadilha. No meio do sono, acorda. No meio do trabalho, lembra-se de se espreguiçar. O amor é uma das nossas almas. É a nossa ligação aos outros. Não se pode exterminar. Quem não dava a vida por um amor? Quem não tem um amor inseguro e incerto, lindo de morrer: de quem queira, até ao fim da vida, cuidar e fugir, fugir e cuidar?

Out of the box I

sexta-feira, setembro 02, 2011

Canções de uma ilha


Quando alguém parte, tem de deitar
ao mar o chapéu com as conchas
apanhadas ao longo do Verão,
e ir-se com o cabelo ao vento,
tem de lançar ao mar
a mesa que pôs para o seu amor,
tem de deitar ao mar
o resto de vinho que ficou no copo,
tem de dar o seu pão aos peixes
e misturar no mar uma gota de sangue,
tem de espetar bem a faca nas ondas
e afundar o sapato,
coração, âncora e cruz,
e ir-se com o cabelo ao vento!
Depois, regressará,
Quando?
Não perguntes.

Ingeborg Bachmann, tradução de João Barrento e Judite Berkemeier

quinta-feira, setembro 01, 2011

Arnaldo Jabor

[Foto: JMG]

O amor é uma construção do desejo. O sexo não depende do nosso desejo; o nosso desejo é que é tomado por ele. Ninguém se masturba por amor. Ninguém sofre com tesão. Amor e sexo são como a palavra farmakon em grego: remédio ou veneno - depende da quantidade ingerida. O sexo vem antes. O amor vem depois. No amor, perdemos a cabeça, deliberadamente. No sexo, a cabeça perde-nos. O amor precisa do pensamento. No sexo, o pensamento atrapalha. O amor sonha com uma grande redenção. O sexo sonha com proibições; não há fantasias permitidas. Amor é o desejo de atingir a plenitude. Sexo é a vontade de se satisfazer com a finitude. O amor vive da impossibilidade - nunca é totalmente satisfatório. O sexo pode ser, dependendo da posição adoptada. O amor pode atrapalhar o sexo. Já o contrário não acontece. Existe amor com sexo, claro, mas nunca gozam juntos. O amor é mais narcisista, mesmo entrega, 'doação'. O sexo é mais democrático, mesmo vivendo do egoísmo. O amor é um texto. O sexo é um desporto. O amor não exige a presença do outro. O sexo, mesmo solitário, precisa de uma 'mãozinha'. Certos amores nem precisam de parceiro; florescem até na maior solidão e na saudade. Sexo, não - é mais realista. Nesse sentido, o amor é uma busca de ilusão. O sexo é uma bruta vontade de verdade.

O amor vem de dentro, o sexo vem de fora. O amor vem de nós. O sexo vem dos outros. 'O sexo é uma selva de epilépticos' (N. Rodrigues). O amor inventou a alma, a moral. O sexo inventou a moral também, mas do lado de fora da sua jaula, onde ele ruge. O amor tem algo de ridículo, de patético, principalmente nas grandes paixões. O sexo é mais quieto, como um cowboy - quando acaba a valentia, ele vem e come. Eles dizem: 'Faça amor, não faça a guerra'. O sexo quer guerra. O ódio mata o amor, mas o ódio pode acender o sexo. O amor é egoísta; o sexo é altruísta. O amor quer superar a morte. No sexo, a morte está ali, nas bocas. O amor fala muito. O sexo grita, geme, ruge, mas não se explica. O sexo sempre existiu - das cavernas do paraíso até as 'saunas relax for men'. Por outro lado, o amor foi inventado pelos poetas provençais do século XII e, depois, relançado pelo cinema americano da moral cristã.

Amor é literatura. Sexo é cinema. Amor é prosa; sexo é poesia. Amor é mulher; sexo é homem - o casamento perfeito é do travesti consigo mesmo. O amor domado protege a produção; sexo selvagem é uma ameaça ao bom funcionamento do mercado. Por isso, a única maneira de controlá-lo é programá-lo, como faz a indústria da sacanagem. O mercado programa as nossas fantasias. Não há 'saunas relax' para o amor, onde o sujeito entra e apaixona-se. No entanto, em todo bordel, finge-se um 'amorzinho' para iniciar. O amor virou um estímulo para o sexo. O problema do amor é que dura muito, já o sexo dura pouco. O amor busca uma certa 'grandeza'. O sexo é mais em baixo. O perigo do sexo é que podemos apaixonar-nos. O perigo do amor é poder transformar-se em amizade. Com camisinha, há 'sexo seguro', mas não há camisinha para o amor. O amor sonha com a pureza. O sexo precisa do pecado.

Amor é a lei. Sexo é a transgressão. Amor é o sonho dos solteiros. Sexo, o sonho dos casados. O amor precisa do medo, do desassossego. O sexo precisa da novidade, da surpresa. O grande amor só se sente na perda. O grande sexo sente-se na tomada de poder. Amor é de direita. Sexo, de esquerda - ou não, dependendo do momento político. Actualmente, sexo é de direita. Nos anos 60, era o contrário. O sexo era revolucionário e o amor era careta.