segunda-feira, outubro 31, 2011

Jonathan Franzen: Correcções


E quando o evento, a grande mudança da nossa vida, é simplesmente uma intuição, uma percepção.... não é uma coisa estranha? Não é estranho que absolutamente nada mude, a não ser o facto de vermos as coisas de modo diferente, de termos menos medo e menos ansiedade e, de uma maneira geral, nos sentirmos mais fortes, em consequência disso: não é espantoso que uma coisa completamente invisível, dentro da nossa cabeça, possa dar a sensação de ser mais real do que qualquer outra coisa que experimentámos antes? Vemos as coisas mais claramente e sabemos que estamos a vê-las mais claramente. E tomamos consciência de que isso significa amar a vida, de que é disso que que quem fala a sério a respeito de Deus está sempre a falar. Em momentos assim.

domingo, outubro 30, 2011

Regressar ao Lunário. Ciclicamente.



Ardo na memória das noites em que não te conhecia. Aliso as tuas pálpebras durante as noites de vigia e sei que uma vida anterior à minha presença as feriu. No entanto, sinto que és capaz de olhar-me como se eu contemplasse o mar. De resto, os dias acumulam-se uns sobre os outros, iguais, sob o negro esplendor do sol. E latejamos, além, onde nos perdemos para sempre. Na boca reacendo uma navalha de lume para sufocar a solidão, e as palavras que já nada podem revelar, nem ajudar. Mas se um dia voltares, acorda-me, como inesperadamente me acordaste uma noite. Não me deixes dormir mais, desperta-me e tudo se iluminará num gesto, num sorriso teu. Talvez não seja tarde ainda para começarmos a regressar um ao outro. Basta beber o mel que sempre bebemos no sexo um do outro, e de novo sentir o turbilhão de alegria que nos despertava a meio da noite para o amor. Regressa e oferece-te à preguiça triste de quem continua aqui vivo, sorvendo a espiral da sua própria ausência. Regressa, peço-te, mesmo antes de partires. 
(...)
Vem e cobre a minha sombra cansada, antes que o vento a disperse ao amanhecer. Pega-me nas mãos, apaga a dor da luz nas pálpebras e leva-me. Entra no túnel marmóreo dos sonhos e do caos das imagens, refaz os passos e as sombras amachucadas pelo esquecimento e pelas palavras - mas não deites a cabeça sob a quilha do meu peito, peço-te. Porque um dia irei à tua porta mendigar os favores do perturbado corpo. Morrerei ou voltarei a ver, no ardente ouro do amor. E perseguir-nos-emos um ao outro, até aos confins turvos da memória. Recomeçaremos a vida juntos. 
(...)
Possuo para sempre tudo o que perdi. 
E uma abelha pousa no azul do lírio, e no cardo que sobreviveu à geada. Penso em ti. Bebo. Fumo, mantenho-me atento, absorto - aqui sentado, junto à janela fechada. Ouço-te ciciar amo-te pela primeira vez, e na ténue luminosidade que se recolhe no horizonte acaba o corpo. Recolho o mel, guardo a alegria e digo-te baixinho: Apaga as estrelas, vem dormir comigo no esplendor da noite do mundo que nos foge.

sábado, outubro 29, 2011

Inadaptação


A tristeza dele tinha barbas e rugas. Uma tristeza de velho num corpo ainda por desabrochar. Doía-lhe a coluna da alma, alojava lágrimas na garganta. O coração febril e ferido, a cabeça a fervilhar. A implorar por um mundo novo, um mundo fora do mundo. Sonhava ser velho, de verdade, por fora, perder a memória e fugir. Sentia que lhe tinham amputado a esperança à nascença. Era uma montanha russa emocional.

quarta-feira, outubro 26, 2011

Antonio Negri*


As primaveras árabes apanharam-no de surpresa?
Sim, sobretudo o movimento em geral, a forma como este se desenvolveu em Marrocos até ao Iémen ou ao Bahrein. Foi um pouco parecido com o que aconteceu na Europa em 1948. Na verdade, foi algo de muito profundo. O que me tocou não foi a luta pela liberdade - o que não deixa de ser fundamental face a um poder corrupto e autoritário -, mas o sujeito dessa luta. Não foram apenas as pessoas pobres e desempregadas que saíram à rua; foram também os chamados cognitive workers. O movimento gerou-se de modo imprevisto e novo. Estamos perante uma nova forma de luta social.

Surpreende-se que se surpreenda. Não é a penas a confirmação do seu conceito de "multitude", enquanto um conjunto heterogéneo de indivíduos que se unem?
Já tinha a confirmação da multitude enquanto composição. A "multitude" é composta pela classe média em crise e sobretudo pela nova juventude universitária, o chamado general intelecto. É uma composição muito complexa e de difícil compreensão, mas é um conceito muito importante. No passado, relacionávamos o indivíduo com o barro, a família, o tempo, a forma de trabalho, a relação política, as experiências históricas, a luta do partido, a liderança sindical. Hoje, os indivíduos que fazem parte dessas massas não se reduzem a uma identidade. O movimento árabe é, de facto, uma "multitude".

É flexível, imprevisível, não tem um chefe...
Não há um chefe, há vários. A inteligência média das pessoas é muito elevada. Isso não significa que haja uma unidade imediata, mas sim um trabalho nesse sentido. Quando falamos de "multitude", falamos sobretudo de um movimento. É especialmente uma produção de subjectividade que é feita de inter-relações entre pessoas. Hoje trabalhamos juntos, definimo-nos juntos, ligamo-nos... Aquilo que se passa neste momento em muitos países árabes é a procura de um equilíbrio, que não será o melhor, entre as diversas forças. Vive-se um período de transição, num interregno. Mas essa vontade de transformação caminha lado a lado com a globalização.

As notícias económicas dominam totalmente as nossas vidas. Acredita que esta crise geral, ou "omnicrise" - como escreve nos seus livros -, se vai prolongar?
Vai. O desenvolvimento capitalista está bloqueado pelo facto de a produtividade actual ser social. Os estados capitalistas, os líderes, não têm meios para recuperar essa produtividade social. A riqueza da actualidade não sai das fábricas. Forma-se fora desse controlo capitalista. Hoje, é completamente impossível definir o valor económico da acumulação do mesmo modo que se fazia na era da jornada de trabalho. Tudo é paradoxal. Temos uma construção capitalista ligada ao velho modelo e uma banca/finança que procura medir a produção social. O capitalismo está muito atrás da capacidade social de as pessoas produzirem riqueza. Essa é a razão da grande crise. A acumulação primitiva do capital acontecia através da expansão do capital. Vivemos num momento em que o capital é incapaz de recuperar. Não se trata apenas de uma crise económica. Mas de uma crise de poder. Teórica e institucional. O sistema capitalista não está mais ligado à realidade. A realidade segue o seu caminho sozinha.

A deserção é a única possibilidade de fazer face ao sistema?
A deserção é sempre uma desobediência face à ordem. Prefiro o êxodo à deserção. A deserção existia na sociedade fordista. Era a sabotagem que os operários faziam. Hoje, o êxodo pode criar uma comunidade fora da capacidade de controlo dos capitais estatais. Por exemplo, os "indignados" espanhóis arranjaram uma outra forma de existir, uma nova organização social, para reclamar uma certa justiça distributiva e uma capacidade directa de se autogovernarem. Há muitas organizações onde isso pode acontecer... Lugares como os kibutz de Israel, onde as pessoas estão juntas na sua pobreza e na sua riqueza. Não sou fanático dessa experiências, nas quais a componente afectiva é muito importante, e não tenho grandes utopias sobre esse assunto. Mas acredito que as experiências de êxodo são fundamentais. É importante dizer: "Eu sou livre. Sou indignado; porque este mundo perdeu a sua razão produtiva e logo está corrompido. Já não creio na representação, porque essa representação é perigosa. Eu procuro construir coisas diferentes. Eu sou alter." Veja bem, os êxodos, como aqueles que partiram da Europa para os EUA, construíram formas formidáveis de comunidade. Eu estava em Espanha quando o movimento dos "indignados" começou. O movimento começou por exigir uma "democracia real já".

Mas não se pode comprar os "indignados" de Madrid aos revoltados de Londres...
É profundamente diferente; mas também existe uma unidade mesmo na diferença, porque continua a ser uma revolta contra uma crise que não podemos pagar. Além de que não aceito o julgamento do governo inglês de que eram uns assassinos, uns delinquentes. Isso não explica nada. Vi apenas os jornais, mas conheço bem esse tipo de movimentos. São pessoas que foram verdadeiramente expulsas da sociedade e reentram nela utilizando as formas que os campesinos usavam no Antigo Regime, ou seja, através da destruição. O que importa perguntar é: "Porque é que as cidades inglesas podem explodir a cada momento? O que é que se passa lá? Porque é que isto acontece em Inglaterra, o país do multiculturalismo e da Segurança Social?" A verdade é que o capitalismo não consegue organizar a capacidade produtiva dessas pessoas. Para compreender o que fazer na Europa é preciso olhar para a América Latina; porque a América Latina está a sair dessa forma da dependência global e a encontrar novas formas de organização. Em 2004/2005, o Brasil estava dependente do centro capitalista mundial. Hoje, o Brasil propõe intervir na crise europeia. O Brasil de Lula reconheceu que existiam elementos produtivos nas favelas ao financiar as famílias mais pobres. Lula conseguiu diminuir a delinquência entre os jovens e duplicar a massa de trabalhadores. Nas cidades brasileiras há uma transformação real.

Uma das coisas que diz é que é extremamente difícil reconhecer o inimigo. Será por isso que em Portugal não há neste momento grandes revoltas?
Não conheço bem a situação portuguesa. Mas penso que Portugal é como Itália. Há uma cultura de acumulação familiar, que chega e ajuda a sobreviver no momento da crise. Não é uma situação dramática, como a de Espanha ou a da Grécia. Mas isto são apenas hipóteses da minha cabeça.

Há uma solução para terminar com esta "omnicrise"?
Não sou profeta. Limito-me a analisar. Este homem já não é alienado. É um homem endividado, socialmente precário, com uma falsa representação política e entregue a sujeitos políticos que são apenas mediáticos. Não podemos definir uma tendência única na Europa. Mas sei que não há apenas uma crise. Há também uma renascença.

É um optimista?
Não. Sou realista. Considero o pessimismo uma verdadeira arma ao serviço do inimigo real. Sou ateu justamente porque não considero que o problema seja a morte ou o mal. O que é fundamental na vida é viver, estar junto. Sou um espinosista. Trabalhei bastante sobre Espinosa, sobretudo na prisão, porque trabalhar sobre Espinosa deu-me uma certa força para fazer frente às coisas irracionais e imbecis, como a estúpida repressão. Eu sou o que sou porque me reuni a outras pessoas. Não porque me isolei. Espero que haja uma consolidação a nível europeu, porque é o único terreno onde é possível lutar e transformar as coisas. A Europa é um importante terreno de luta. Como sabe, sou um antiamericanista, mas os norte-americanos jamais quiseram uma Europa unida. A Inglaterra é um exemplo, é uma espécie de avançado, um pouco como Israel no meio dos países árabes. Sou extremamente europeísta. A Europa é um espaço dentro da globalização onde podemos mudar as coisas.

[filósofo italiano, entrevista publicada no Expresso de 15 de Outubro]

terça-feira, outubro 25, 2011

A educação no mundo global: novos desafios


Num artigo de Einstein publicado no The New York Times, em 1952, havia umas considerações sábias sobre a educação, feitas na sua maturidade, que merecem ser recordadas. Dizia: “Não é suficiente um ensino especializado. Através dele a pessoa transforma-se numa máquina útil, mas não num ser harmonicamente desenvolvido.” Ainda que mais aplicável à situação norte- americana, é de se ter em atenção para se criar seres humanos completos. “É importante que o estudante adquira um entendimento e vivo sentir dos valores.” Os educadores devem reflectir sobre eles e interiorizá-los, para os transmitirem de modo simpático. “O estudante deve ter um sentido nítido do belo e do que é moralmente bom. (...) Deve aprender a entender os motivos dos seres humanos, os seus entusiasmos e os seus sofrimentos de modo a ter uma relação adequada com as pessoas e com a comunidade. Estes aspectos valiosos são levados às gerações mais novas pelo contacto pessoal de quem ensina; não, pelo menos no essencial, através de livros de texto.” Sabemos o valor da dedicação dos professores e o tempo que os pais, em particular a mãe, dispensa aos filhos.

“Resultado de uma boa educação é que se desenvolva nos jovens um pensamento independente e crítico, o que pode ficar prejudicado pela sobrecarga de muitas e variadas matérias”; tal sobrecarga leva à dispersão e à superficialidade, como acontece em geral nos programas do nosso ensino: enciclopédico e de fraco conteúdo. Tenho para mim que hoje Einstein acrescentaria: importante é o domínio e uso da informática, sabendo que é apenas uma ferramenta útil. Fundamental é pensar de modo lógico, ordenado, rigoroso!

Outro pensador que continua a produzir escritos de valia, Charles Handy, irlandês, define um factor “ E”, que provoca Emoção, Entusiasmo, Esforço, Efervescência..., no estudante. Cita o testemunho de uma professora do ensino básico: “ O que muito me emociona é ver um rapaz ou rapariga que começa a dar-se conta de que sobressai em algo. Vejo que os seus olhos brilham, que toda a sua personalidade cobra vida, que nasceu um ser novo. Este tipo de emoção é indiscritível.” Quando os educadores – pais, professores – têm o dom de estimular a criança naquilo em que pode sobressair, aí entra o factor “ E” em acção. Pensamos que só são inteligentes os que têm um bom raciocínio lógico-matemático. Há felizmente vários tipos de inteligência, como o psicólogo Gardner nota. O Ronaldo terá a inteligência “corporal-cinestésica”; o Mourinho, a “interpessoal”, etc., para usar a linguagem de Gardner. Cada um deles é inexcedível no seu métier. Somos influenciados pelas expectativas que outros têm sobre nós – positivas ou negativas –, sobretudo daqueles que mais prezamos: pais, professores, colegas. Importa que elas despertem o nosso factor E.

Alguém rematava que “em lugar de um curriculum nacional para a educação, o que realmente importa é um curriculum individual para cada criança”. Precisamente a “personalização” do ensino deve procurar fazer isso, e os bons professores fazem-no, seguindo o ritmo e as aptidões de cada criança. Estamos a viver um momento ímpar da História da Humanidade que vejo como de ouro. E não estou a ser cínico, mergulhados como estamos numa profunda crise. Porque para muitas centenas de milhões de pessoas, das zonas mais pobres do globo, este é um grandioso momento, cheio de esperança, para a recuperação do sentido de dignidade que até aqui lhes fora negado. Refiro-me aos países pobres do Oriente, que foram capazes, apenas pelos seus meios, de se organizar e ultrapassar as teias de pobreza e miséria que os enredavam, na sequência da exploração colonial primeiro e, depois, da adopção de modelos económicos socialistas, estéreis e corruptores ( como na Índia e China). Eles estão a dar instrução generalizada a todas as crianças; assistência na doença cada vez mais capilar e difundida; e, sobretudo, tentam criar trabalho para todos poderem ganhar a sua vida.

Eles têm forte impacte no Ocidente, com o que trabalham e exportam, como sentimos todos os dias. Porque na sua pobreza habituaram-se a uma vida duríssima, exigente, disciplinada no trabalho, e a troco de muito pouco. E num mundo global como o nosso, a Europa não pode descansar nos louros antigos, no consumismo corrosivo, na fraca produtividade, na preguiça mental, sob pena de soçobrar inevitavelmente como aconteceu com Roma Antiga. Tem de reagir e muito depressa. Começando pela educação dos mais jovens: encarando-a a sério – movidos pelo exemplo de trabalho árduo dos mais velhos, que se verão obrigados a isso –, para formar pessoas com saber, com determinação de trabalhar, organizadas e exigentes consigo. E a crise ocidental actual é a grande oportunidade de desencadear uma inteligente reacção para acabar com os vícios e exageros, e evitar a todo o custo a tentação de se fechar sobre si mesmos. Os desafios exteriores são benéficos por obrigarem ao esforço de superação.

[Eugénio Viassa Monteiro, hoje, no DN]

segunda-feira, outubro 24, 2011

O dia em que fizemos as pazes com o André



"Os verdadeiros paraísos são os paraísos que perdemos. A bilheteira das Antas, o barulho dos torniquetes, a arquibancada... todos de pé, confetis azuis e brancos no ar e entra em campo o F. C. Porto... Cor... Cores vivas que cativam e prendem o olhar e sons... de música, de causas, de princípios e de um sentimento. Primeiras e eternas memórias de paixão e amor ao clube, mas não de qualquer clube... Porto, palavra exacta, nunca ilude. O portista vive, subsiste, é eterno; o portista sente, sofre, luta; o portista quer, pede e exige; o portista junta, acumula e ganha; numa simbiose perfeita com a personalidade de cada um o portista é educado, aprende, é formado e torna-se melhor. Como pessoa, como homem e como mulher.

Quando me permiti a reflectir sobre o que nos poderia ter levado ao sucesso da época passada, cheguei à conclusão de que o portismo esteve presente a cada passo e em cada um de nós desde o princípio. Emoção, revolta, desejo, ambição. Sentido comum, conceito de união, empatia e reconhecimento. Não há derrotas quando é firme o passo, ninguém fala em perder, ninguém recua. Ninguém recuava, sonhávamos... acreditávamos sempre mais e depois seguimos convictos. Dúvida? Não...! Mas luz, realidade e sonho que na luta amadurece.

Apoiados no talento e na sabedoria de cada um, avançámos. No dilúvio, na neve, no inferno e na catedral triunfámos. Deram tudo por nós esses atletas, transpirados mas sempre inspirados, criativos e livres, encontraram sempre o caminho certo. E ganhámos... Muito! dirão alguns; pouco! dirão outros; o suficiente e o esperado! dizemos todos nós... porque se há algo que nos orgulha como portistas é querermos sempre mais e por isso ganhamos mais vezes e por isso somos recordistas! Na perseverança de um presidente temos um exemplo de vida. A nossa relação não foi enciclopédica, foi muito mais do que isso. Foi a emoção transmitida pelo gesto e pelo olhar, pela confiança e pela gratidão.

E fora do olhar comum, a estrutura Porto, qual baluarte, unido e formado para a vitória. Liderado exemplarmente, só tem um objectivo: garantir as máximas condições de sucesso para quem aqui trabalha. Sem ela, nada funciona, com ela tudo se mescla, todos se interrelacionam porque sabem que todos dependem de todos. O esforço de um, contagia todos os outros.

É uma honra e um orgulho estar presente entre vocês e receber um prémio desta envergadura. Qualquer prémio atribuído a um indivíduo num desporto colectivo é e sempre será algo ingrato e injusto e por isso mesmo partilho convosco. Assim fomos educados, todos decisivos na obtenção do nosso sucesso, todos decisivos no nosso compromisso com a vitórias.

E azul e branca essa bandeira avança, azul, branca, indomável, imortal. Como não pôr no Porto uma esperança se daqui houve nome Portugal?"

[Discurso de André Villas-Boas,  no dia em que recebeu o Dragão de Ouro para o treinador do ano]

domingo, outubro 23, 2011

Para que serve a utopia?



A Utopia está no horizonte. Sei muito bem que nunca a alcançarei. Quando ando dez passos, ela afasta-se dez passos. Quanto mais a procurar menos a encontrarei, porque ela vai-se distanciando quanto mais me aproximo. Qual é então a utilidade? A utopia serve para isso. Para CAMINHAR.

quinta-feira, outubro 20, 2011

Uma bicicleta...


... pode mudar uma vida. A minha mudou a minha. 
Fosse tudo assim tão simples...

quarta-feira, outubro 19, 2011

Pedro Lains: Uma carta fora do baralho


Afinal, Portugal não é a Grécia. É o Chile. De há 30 anos. Não vamos apenas recuar no rendimento per capita, mas também na História, na integração europeia e, seguramente, na qualidade da democracia. Em prol de quê? - Em prol de uma fé. E a troco de quê? - A troco de uma mão cheia de nada.

Deixem-me personalizar porque é caso para isso. Conheço o pensamento de Vítor Gaspar, porque várias vezes me cruzei com ele, em seminários, e porque ele se interessa por história económica e várias vezes entrámos em diálogo. Sempre concordámos em discordar. Também conheço o seu pensamento porque por onde ando há outros economistas assim, também dos bons. Posso talvez dizer que em cada 100 economistas ou historiadores económicos que conheço, cinco pensam como o ministro das Finanças e um é fora de série. A presença de um deles num debate é sempre fonte de animação.

Mas há dois grandes problemas. O primeiro é que estes economistas, no fundo, não estão muito interessados em causalidades. Estão mais preocupados com equilíbrios. Não acham importante determinar se vem primeiro o ovo ou a galinha. Há um défice, um desequilíbrio? Corrija-se. Mas as causas são… Não interessa, corrija-se para recuperar a confiança, criar um círculo virtuoso e restabelecer o crescimento. Onde foi isso visto? Aqui e ali. Mas como prova que a recuperação foi o resultado da contracção, se o mundo entretanto mudou? Porque a teoria assim o diz.

O segundo problema, porventura maior, muito maior, é que esses economistas não chegam, nem perto nem longe, aos governos dos países avançados e europeus como Portugal. Os ministros das Finanças europeus são políticos, não teóricos e sobretudo não teóricos da fasquia dos 5%, brilhantes, é certo, de Vítor Gaspar. Quanto muito chegam a governadores de bancos centrais. Tivemos azar.

E tivemos azar por culpa de muita gente e, em última análise, do actual primeiro-ministro. Ele ouviu à saciedade que era preciso "mudar o rumo", que vivíamos "acima das possibilidades", que era preciso um "corte radical com o passado". E acreditou nisso tudo. Primeiro, acreditou nas "gorduras do Estado" - até ver que as havia, mas que eram macroeconomicamente marginais. Ficou sem eira nem beira. Até que Vítor Gaspar lhe apresentou um plano, o único plano que havia para pôr tudo em linha como recorrentemente lhe pediam.

O plano de Vítor Gaspar já chocou muita gente, porque é chocante. E não o fez só à esquerda, pois o PSD também ficou chocado e muito. Mas não se consegue mexer. Nem o PS. A principal razão porque o plano é chocante é que ele assenta numa carta que não estava no baralho: a contracção sem limites de salários - e mais aumento de impostos. Assim qualquer um sabe governar.

Passos Coelho não parece ter percebido o que se estava a passar, como revelam duas das suas declarações. A primeira foi quando disse que os funcionários públicos "ganham mais 10 a 15% que trabalhadores privados". Sim, ganham, mas não todos e porque os de rendimentos mais baixos ganham mais e as mulheres ganham o mesmo que os homens. Se queria corrigir essa "injustiça" teria de ter feito de outro modo. E não podia, pois tinha de ir aos salários mais baixos. A segunda foi quando disse que a medida era para dois anos, o que o ministro das Finanças prontamente desmentiu. Obviamente. Um choque destes para durar tem de durar. Não há milagres.

Ou seja, este Orçamento equilibra as contas, segundo o memorando da troika, à custa de uma contracção permanente, feita num acto, brutal, do rendimento disponível. E a troco de quê? Já lá vamos.

Passos Coelho ainda será dos poucos que acredita que a culpa disto tudo não é dele, que "não tem de pedir desculpa aos portugueses". Vítor Gaspar já sabe que não, claro. A dimensão do "ajustamento", como lhe querem chamar é de tal forma grande, é de tal forma brutal que, como é evidente, ultrapassa qualquer estrago que tenha sido feito pelo Governo anterior. Percebe-se esta lógica simples, não se percebe? Julgo que não é preciso ir mais longe.

O actual Governo, uma vez por todas, tem de assumir as suas opções. As suas opções radicais. E profundamente anti-europeias. O mantra por trás destas opções é também, por seu lado, incompreensível. Trata-se de "recuperar a confiança dos mercados". Este mantra, dito em 2011, não revela uma completa falta de percepção do que se está a passar na economia internacional? Revela. E, claro, ninguém com tanta fé notou que os mercados nada notaram sobre o que por cá se está a fazer. Inclusivamente, até podem responder negativamente, esses mercados, por causa da enorme contracção que aí vem, desta desgraçada economia.

Mas insistamos nos mercados e voltemos ao Chile. Nos anos 1980, um grupo de rapazes de Chicago entrou pela ditadura chilena adentro e "cortou com o passado", fazendo um "ajustamento profundo". Os pormenores não cabem aqui, mas quatro questões importantes cabem: o país era então uma ditadura; não estava integrado num espaço económico e monetário alargado; havia uma enorme taxa de inflação; e os mercados internacionais não estavam de rastos. E o desemprego subiu a perto de 25%, sem subsídios, claro, que isso é para os preguiçosos.

A estratégia de Vítor Gaspar, sufragada por Passos Coelho, é profundamente desactualizada e mesmo errada. Ela insere-se num quadro mental em que os gastos do Estado provocam inflação, quando estamos numa fase de baixíssima inflação; pressupõe o financiamento nos mercados internacionais de capitais, quando estes estão retraídos em todo o Mundo.

Há alternativa? Claro que há. A Europa não se gere pelos 5% de ideias económicas que infelizmente foram parar ao Ministério das Finanças. Nem de perto, nem de longe. Passos Coelho tem muito que aprender. Já está é a ficar sem tempo para o fazer. Vítor Gaspar tem um bocado de razão em pensar como pensa. É isso que acontece sempre, entre economistas. Mas deitou essa razão por borda fora, ao ir tão longe, tão fora da realidade do país, do euro e da Europa. Precisamos de recentrar o País, para o que convém começar por reconhecer as causas das coisas.

Hoje, no Jornal de Negócios

terça-feira, outubro 18, 2011

2012 por um canudo


Quem recebe acima de mil euros, perde o subsídio de Natal e de férias. Médicos e enfermeiros com contrato individual de trabalho nos hospitais-empresa sofrem corte remuneratório adicional. Os privados podem seguir o exemplo. Os pensionistas que ganham acima de 5000 euros têm dupla penalização. A taxação a 23% de um leque muito mais alargado de bens garante dois mil milhões de euros em 2012. De 6% para 13%: águas de nascente, águas minerais, medicinais e de mesa ainda que reforçadas ou adicionadas de gás carbónico ou de outras substâncias. De 6% para 23%: Bebidas e sobremesas lácteas, iogurtes de soja, refrigerantes e xaropes de sumos, as bebidas concentradas de sumos e os produtos concentrados de sumos, batata fresca descascada, inteira ou cortada, pré-frita, refrigerada, congelada, seca ou desidratada, ainda que em puré ou preparada por meio de cozedura ou fritura, espectáculos, provas e manifestações desportivas e outros divertimentos públicos, ráfia natural.  De 13% para 23%: Conservas de frutas ou frutos, designadamente em molhos, salmoura ou calda e suas compotas, geleias, marmeladas ou pastas, frutas e frutos secos, com ou sem casca, conservas de produtos hortícolas, designadamente em molhos, vinagre ou salmoura e suas compotas, óleos directamente comestíveis e suas misturas (óleos alimentares), margarinas de origem animal e vegetal, café verde ou cru, torrado, em grão ou em pó e seus sucedâneos e misturas, produtos preparados à base de carne, peixe, legumes ou produtos hortícolas, massas recheadas, pizzas, sandes e sopas, ainda que apresentadas no estado de congelamento ou pré-congelamento e refeições prontas a consumir, nos regimes de pronto a comer e levar ou com entrega ao domicílio, aperitivos à base de produtos hortícolas e sementes, aperitivos ou snacks à base de estrudidos de milho e trigo, à base de milho moído e frito ou de fécula de batata, em embalagens individuais, aparelhos, máquinas e outros equipamentos exclusiva ou principalmente destinados a captação e aproveitamento de energia solar, eólica e geotérmica e afins. As instituições públicas do Ensino Superior, incluindo as fundações, estão proibidas de contratar pessoal. Os bancos voltam a pagar uma contribuição extraordinária que incide sobre os seus passivos e sobre os derivados que estão fora do balanço. Fraude fiscal qualificada custa oito anos de prisão, mais três do que actualmente previsto. Governo agrava imposto sobre poupanças e castiga resgates. Madeira perde 182 milhões de euros de verba. Açores também recebem menos dinheiro. Proprietários pagam mais IMI. Autarquias e juntas de freguesia perdem 145 milhões de euros e vão ter limites de endividamento mais apertados. As parcerias público-privadas (PPP) rodoviárias só vão apresentar um saldo positivo para o Estado em 2039, dez anos depois do prazo apontado pelo anterior Governo para que estas concessões começassem a gerar receitas superiores aos encargos. Até 2029 vão custar mais 4,8 mil milhões. Despesas de saúde só abatem 10% ao IRS contra os 30% actuais, e com limite de 838 euros. Deduções de gastos com habitação são reduzidas de 30% para 15% e as amortizações deixam de ser dedutíveis. Também para os encargos com rendas pagas o limite máximo a deduzir serão 15%. Depósitos a prazo perdem benefícios fiscais, logo, as taxas de juro oferecidas pelos bancos deverão baixar. Electricidade aumenta 4%, mais 1,75 euros que o preço actual. Automóveis de luxo terão uma sobretaxa de 7%. O selo do carro também terá um aumento mínimo de 3,8%, em média, o preço vai subir quase 6%. Parte dos feriados é abolida.

segunda-feira, outubro 17, 2011

Naomi Klein: The most important thing in the world now

I love you.

And I didn’t just say that so that hundreds of you would shout "I love you" back, though that is obviously a bonus feature of the human microphone. Say unto others what you would have them say unto you, only way louder.Yesterday, one of the speakers at the labor rally said: "We found each other." That sentiment captures the beauty of what is being created here. A wide-open space (as well as an idea so big it can’t be contained by any space) for all the people who want a better world to find each other. We are so grateful.

If there is one thing I know, it is that the 1 percent loves a crisis. When people are panicked and desperate and no one seems to know what to do, that is the ideal time to push through their wish list of pro-corporate policies: privatizing education and social security, slashing public services, getting rid of the last constraints on corporate power. Amidst the economic crisis, this is happening the world over. And there is only one thing that can block this tactic, and fortunately, it’s a very big thing: the 99 percent. And that 99 percent is taking to the streets from Madison to Madrid to say "No. We will not pay for your crisis."

That slogan began in Italy in 2008. It ricocheted to Greece and France and Ireland and finally it has made its way to the square mile where the crisis began. "Why are they protesting?" ask the baffled pundits on TV. Meanwhile, the rest of the world asks: "What took you so long?" "We’ve been wondering when you were going to show up." And most of all: "Welcome." Many people have drawn parallels between Occupy Wall Street and the so-called anti-globalization protests that came to world attention in Seattle in 1999. That was the last time a global, youth-led, decentralized movement took direct aim at corporate power. And I am proud to have been part of what we called "the movement of movements."

But there are important differences too. For instance, we chose summits as our targets: the World Trade Organization, the International Monetary Fund, the G8. Summits are transient by their nature, they only last a week. That made us transient too. We’d appear, grab world headlines, then disappear. And in the frenzy of hyper patriotism and militarism that followed the 9/11 attacks, it was easy to sweep us away completely, at least in North America.

Occupy Wall Street, on the other hand, has chosen a fixed target. And you have put no end date on your presence here. This is wise. Only when you stay put can you grow roots. This is crucial. It is a fact of the information age that too many movements spring up like beautiful flowers but quickly die off. It’s because they don’t have roots. And they don’t have long term plans for how they are going to sustain themselves. So when storms come, they get washed away.

Being horizontal and deeply democratic is wonderful. But these principles are compatible with the hard work of building structures and institutions that are sturdy enough to weather the storms ahead. I have great faith that this will happen. Something else this movement is doing right: You have committed yourselves to non-violence. You have refused to give the media the images of broken windows and street fights it craves so desperately. And that tremendous discipline has meant that, again and again, the story has been the disgraceful and unprovoked police brutality. Which we saw more of just last night. Meanwhile, support for this movement grows and grows. More wisdom.

But the biggest difference a decade makes is that in 1999, we were taking on capitalism at the peak of a frenzied economic boom. Unemployment was low, stock portfolios were bulging. The media was drunk on easy money. Back then it was all about start-ups, not shut downs. We pointed out that the deregulation behind the frenzy came at a price. It was damaging to labor standards. It was damaging to environmental standards. Corporations were becoming more powerful than governments and that was damaging to our democracies. But to be honest with you, while the good times rolled, taking on an economic system based on greed was a tough sell, at least in rich countries.

Ten years later, it seems as if there aren’t any more rich countries. Just a whole lot of rich people. People who got rich looting the public wealth and exhausting natural resources around the world. The point is, today everyone can see that the system is deeply unjust and careening out of control. Unfettered greed has trashed the global economy. And it is trashing the natural world as well. We are overfishing our oceans, polluting our water with fracking and deepwater drilling, turning to the dirtiest forms of energy on the planet, like the Alberta tar sands. And the atmosphere cannot absorb the amount of carbon we are putting into it, creating dangerous warming. The new normal is serial disasters: economic and ecological.

These are the facts on the ground. They are so blatant, so obvious, that it is a lot easier to connect with the public than it was in 1999, and to build the movement quickly. We all know, or at least sense, that the world is upside down: we act as if there is no end to what is actually finite—fossil fuels and the atmospheric space to absorb their emissions. And we act as if there are strict and immovable limits to what is actually bountiful—the financial resources to build the kind of society we need. The task of our time is to turn this around: to challenge this false scarcity. To insist that we can afford to build a decent, inclusive society—while at the same time, respect the real limits to what the earth can take.

What climate change means is that we have to do this on a deadline. This time our movement cannot get distracted, divided, burned out or swept away by events. This time we have to succeed. And I’m not talking about regulating the banks and increasing taxes on the rich, though that’s important.

I am talking about changing the underlying values that govern our society. That is hard to fit into a single media-friendly demand, and it’s also hard to figure out how to do it. But it is no less urgent for being difficult. That is what I see happening in this square. In the way you are feeding each other, keeping each other warm, sharing information freely and proving health care, meditation classes and empowerment training. My favorite sign here says "I care about you." In a culture that trains people to avoid each other’s gaze, to say, "Let them die," that is a deeply radical statement.

A few final thoughts. In this great struggle, here are some things that don’t matter.
—What we wear.
—Whether we shake our fists or make peace signs.
—Whether we can fit our dreams for a better world into a media soundbite.
And here are a few things that do matter.
—Our courage.
—Our moral compass.
—How we treat each other.

We have picked a fight with the most powerful economic and political forces on the planet. That’s frightening. And as this movement grows from strength to strength, it will get more frightening. Always be aware that there will be a temptation to shift to smaller targets—like, say, the person sitting next to you at this meeting. After all, that is a battle that’s easier to win.

Don’t give in to the temptation. I’m not saying don’t call each other on shit. But this time, let’s treat each other as if we plan to work side by side in struggle for many, many years to come. Because the task before will demand nothing less.

Let’s treat this beautiful movement as if it is most important thing in the world. Because it is. It really is.

Naomi’s speech also appeared in the Occupied Wall Street Journal.
[I was honored to be invited to speak at Occupy Wall Street on Thursday, October 6. Since amplification is (disgracefully) banned, and everything I said had to be repeated by hundreds of people so others could hear (a.k.a. "the human microphone"), what I actually said at Liberty Plaza had to be very short. With that in mind, here is the longer, uncut version of the speech.]

domingo, outubro 16, 2011

O assombro da incoerência do nosso ser


Sou um mero espectador da vida, que não tenta explicá-la. Não afirmo nem nego. Há muito que fujo de julgar os homens, e, a cada hora que passa, a vida me parece ou muito complicada e misteriosa ou muito simples e profunda. Não aprendo até morrer - desaprendo até morrer. Não sei nada, não sei nada, e saio deste mundo com a convicção de que não é a razão nem a verdade que nos guiam: só a paixão e a quimera nos levam a resoluções definitivas.

O papel dos doidos é de primeira importância neste triste planeta, embora depois os outros tentem corrigi-lo e canalizá-lo... Também entendo que é tão difícil asseverar a exactidão dum facto como julgar um homem com justiça. Todos os dias mudamos de opinião. Todos os dias somos empurrados para léguas de distância por uma coisa frenética, que nos leva não sei para onde. Sucede sempre que, passados meses sobre o que escrevo - eu próprio duvido e hesito. Sinto que não me pertenço... É por isso que não condeno nem explico nada, e fujo até de descer dentro de mim próprio, para não reconhecer com espanto que sou absurdo - para não ter de discriminar até que ponto creio ou não creio, e de verificar o que me pertence e o que pertence aos mortos. De resto isto de ter opiniões não é fácil. Sempre que me dei a esse luxo, fui forçado a reconhecer que eram falsas ou erróneas.

Raul Brandão, in Se Tivesse de Recomeçar a Vida

sábado, outubro 15, 2011

By Woody Allen


"Amar é sofrer. Para evitares sofrer, não deves amar. Mas, dessa forma vais sofrer por não amar. Então, amar é sofrer, não amar é sofrer, sofrer é sofrer. Ser feliz é amar, ser feliz, então, é sofrer, mas sofrer torna-nos infelizes, então, para ser infeliz temos que amar, ou amar para sofrer, ou sofrer de demasiada felicidade - espero que estejas a perceber." 

Out of the box VII

sexta-feira, outubro 14, 2011

quarta-feira, outubro 12, 2011

Tarjei Vesaas: Noite de Primavera


No mesmo instante, os olhos começaram a arder. Uma dor pungente. Estava quase, agora. Os seus olhos picavam e ardiam cada vez mais - como se pudessem facilmente destruir e consumir tudo onde o seu olhar pousasse. Estava praticamente em cima do tufo e preparava-se para entrar - mas... Não! De súbito, o feitiço quebrou-se e desfez-se. (...) Tudo havia desaparecido. Os botões de flor já não giravam. Nada pulsava ou vibrava. Já nada era delicioso tão-pouco: ele sentia-se fraco e vazio. Reparou depois que estava coberto de suor.
(...)
Ela fazia lembrar uma ave perigosa dentro de uma gaiola segura. Mas não segura o suficiente para evitar que agarrasse quem quer que chegasse demasiado perto. (...) Estou só a pensar sobre uma dor que cresce tanto e tão bruscamente até rebentar. Sentira uma descarga de vida vinda de um lugar completamente novo. (...) Ousaram até segurar a mão um do outro. Mãos firmes e solitárias que subitamente seguram algo estranho e maravilhoso. (...) Aquilo que desejamos muitas vezes torna-se subitamente em algo bastante diferente, podemos sentir que algo se tornou diferente, podemos sentir que algo se tornou diferente ainda antes de realmente nos darmos conta.

domingo, outubro 09, 2011

Absolutamente Rita Blanco


O amor incondicional só pode trazer um final feliz. O meu amor pela minha filha é incondicional. Se alguém chegar e me disser: "Olhe, precisamos de lhe tirar o coração para dar à sua filha agora mesmo. Nem dá tempo para a anestesia." Respondo: "Abra, abra, tire à vontade, sirva-se." O amor incondicional é mesmo incondicional. Aquela mãe prefere perder a filha, e o amor dela, do que permitir que ela saiba que cometeu incesto. Foi a mãe que deu azo que ela pudesse acontecer, e por isso é levada às últimas consequências. O amor incondicional só aparece em situações extremas. Ao guardar o segredo, ela mantém a sanidade mental da filha. Se eu tivesse cometido um erro assim, levava o segredo até ao fim para não magoar mais ninguém. Todos temos segredos para levar até ao fim, para não magoarmos os outros. Não temos?

Todos os homens precisam de mulheres que os guiem. Começa na infância, não é? É muito raro os homens serem mais fortes do que as mulheres. Parecem mais fortes quando são giros e quando são difíceis, porque vão para a guerra e nós adoramos isso. A questão é: será que nós, mulheres, queremos ser felizes? As mulheres podem ser mais facilmente felizes sozinhas, aceitam melhor a solidão.

Eu preciso de confiar imenso nas pessoas e que confiem em mim, deixando-me fazer o que quero. Eu de onde venho volto sempre lá, porque são pessoas que me reconhecem e que reconheço. Se não me deixam pensar no que vou fazer, baralho-me. Interessa-me trabalhar com poucas pessoas. Isto é uma arrogância inacreditável, enfim... é a minha limitação, uma delas. Preciso que haja uma comunhão e que não seja só eu a servir uma pessoa, mas que nos sirvamos uns aos outros. Falam-me em figuras tutelares, eu falo de pessoas com quem sinto cumplicidade, e que também sentirão por mim. Que eu aprendo coisas interessantes? Sim. Que lhes dou algumas coisas? Espero que sim. 

Gosto imenso de pessoas. Quero estar mesmo próxima das pessoas e falar sobre as pessoas. Sabem porque leio? Para ser actriz, viver aquelas vidas todas. Todos os dias me comovo com as pessoas, com a fragilidade, com a solidão... as pessoas estão muito desprotegidas. As pessoas valem muito a pena, eu só sou actriz para falar sobre as pessoas. Sou sempre eu. E não me quero abandonar. Se não perco-me... Eu acredito imenso na satisfação e na possibilidade de ser feliz. Aquela mulher é são, tenta salvar coisas muito complicadas para que as pessoas possam viver as suas vidas. Sou vaidosa e infelizmente ainda não consegui vencer isso, passo a vida a lutar contra o meu ego.

Eu sempre quis construir pessoas, sempre. Quis sempre que as personagens fossem pessoas que pudessem fazer rir ou chorar, que tivessem um lado comovente, que é o que eu vejo nas pessoas de todos os dias, principalmente quando acontecem desastres e as pessoas ficam totalmente baralhadas e "despidas". Eu quero que a realidade fique mais real.

[Das entrevistas ao Ípsilon e ao Expresso, a propósito de "Sangue do meu sangue", de João Canijo]

sábado, outubro 08, 2011

Chuva de estrelas


Uma chuva rara de estrelas cadentes poderá ser vista na noite deste sábado na Europa e Ásia Central, um evento que só voltará a ocorrer daqui a pelo menos 40 anos. Entre 60 e 600 estrelas cadentes poderão ser vistas por hora. No começo da noite de sábado, a Terra deverá entrar em uma nuvem de poeira deixada pelo cometa 21P/Gicobini-Zinner, descoberto em 1900. "Milhões de partículas irão penetrar na atmosfera a uma velocidade de 80.000 km/h, e permitirão aos apaixonados contabilizar até 600 meteoritos por hora, um evento que não voltará a ocorrer em menos de 40 anos", explicou o observatório de Paris.
A fricção com o ar faz com que essa poeira esquente e se volatilize, gerando o fenómeno das estrelas cadentes, flechas de fogo incandescentes. O cometa 21P/Gicobini-Zinner retorna a cada 6,6 anos à proximidade da Terra e do Sol. A sua última passagem remonta a 2 de Julho de 2005. A próxima está prevista para 11 de Fevereiro de 2012.

sexta-feira, outubro 07, 2011

Petz by Olga Roriz


«Este é um espectáculo sobre nós, seres afectuosos, facilmente domesticáveis, afeiçoados, dóceis e selvagens, perigosos e cruéis. Falso! É um espectáculo onde nos propomos observar o inatingível. O privado e o público. O quotidiano, a rotina e os hábitos. O silêncio e a solidão. Os lugares apertados. O espaço sem espaço. A acumulação dos detritos. A reciclagem dos afectos, dos objectos, dos sentidos. A azáfama e a inércia. As pequenas palavras. A procura dos nomes. As presas e as surpresas. O jogo de poderes. A sedução. O desejo. O domador e o domesticado. As funções e disfunções. A dependência. Reacções e confusões. A vivência possível. A ironia de uma partilha forçada. A falsa privacidade. O engano. O acaso. Brincar como se fosse ao acaso. Homens e mulheres afeiçoados por si próprios. Auto domesticados. Selvagens. Um espaço interior com paredes, portas e janelas imaginárias. A luz é apenas uma memória. O som da cidade dissipou-se no tempo. A clausura torna-se real.»
Olga Roriz

Estreia absoluta
Teatro Camões, Lisboa
Hoje e amanhã

quinta-feira, outubro 06, 2011

Tomas Tranströmer Nobel de Literatura 2011


Estou na montanha e vejo a enseada.
Os barcos descansam sobre a superfície do verão.
«Somos sonâmbulos. Luas vagabundas.»
Isso dizem as velas brancas.

«Deslizamos por uma casa adormecida.
Abrimos as portas lentamente.
Assomamo-nos à liberdade.»
Isso dizem as velas brancas.

Um dia vi navegar os desejos do mundo.
Todos, no mesmo rumo – uma só frota.
«Agora estamos dispersos. Séquito de ninguém.»
Isso dizem as velas brancas.

Desde a montanha, 1962

Alexandre Martins: Sim, vamos esquecer-nos de ti

Hoje queria escrever um texto ainda mais estúpido do que o da semana passada, mas o Steve Jobs estragou-me os planos por umas horas. Não que ele tenha feito de propósito, mas a verdade é que a morte de qualquer figura pública, especialmente se for de cancro, estraga-nos sempre um bocadinho os planos. Passamos mais tempo agarrados às notícias e às conversas do costume com amigos, colegas e conhecidos: "Já viste? Isto dá que pensar a um gajo...", ou "já viste? Isto dá que pensar a uma gaja...", entre outras frases de ambos os géneros. Todos sentimos uma necessidade urgente de mudar de vida, numa confissão implícita de que a que temos não interessa nem ao Menino Jesus. E uma coisa que não interesse a uma criança que nasceu em palhas e que recebe mirra em vez de um ursinho de peluche deve ser particularmente chata. Todos queremos mudar de emprego mais uma vez, todos queremos falar "contigo" uma vez mais, todos queremos dizer-te "amo-te" todas as vezes, todos queremos dizer-te "já não te amo" de uma vez por todas.

Mas a verdade é que ninguém toma grandes decisões nestes momentos. O máximo que conseguimos fazer é deixar posts no Facebook com citações importantes e dois-pontos-abrir-parêntesis. Somos as velhas carpideiras das redes sociais. Vamos velar corpos para o Twitter e juramos que agora sim, vamos começar a aproveitar a vida. E é então que acontece o verdadeiro milagre: amanhã, depois de o buraco da Madeira voltar a dominar as primeiras páginas, lá estaremos todos, como sempre, a chatear o amigo sportinguista, a passar duas horas a ver vídeos de gatinhos fofinhos no YouTube e a queixar-nos da falta de dinheiro para comprar o novo iPhone. Quase nenhum de nós "stay hungry" e muito poucos "stay foolish". A esmagadora maioria "just stay" e continuará a vida a ser um "good dog". O mais fascinante na memória é a rapidez com que ela se esquece das coisas. Um dia destes, quando alguém tentar escrever um texto mais estúpido do que o desta semana, será a vez de outra pessoa lhe estragar os planos por umas horas. Mas prometo que não será de propósito.

Hoje, no P3


 “A morte é muito provavelmente a melhor invenção da vida. Lembrar-me de que todos estaremos mortos em breve é a ferramenta mais importante que encontrei para me ajudar a fazer as grandes escolhas na vida”.
Steve Jobs, 2005, frente a uma plateia de estudantes da Universidade de Stanford, nos EUA.

terça-feira, outubro 04, 2011

Last song



If this was our last song,
what would we do then?
(If) this was our last song,
what would we say then?
If this was our last time,
what would we do,
what would we say then?

segunda-feira, outubro 03, 2011

Étienne de La Boétie


"Não pode haver amizade onde está a crueldade, a deslealdade, a injustiça. Entre os maus, quando se juntam, há uma conspiração, não há uma companhia. Eles não se entre-amam, mas entre-temem-se, não são amigos, mas cúmplices.