quinta-feira, setembro 30, 2010

Acordem-me, por favor, quando isto passar

Chegámos a casa ao início da noite, razoavelmente felizes, depois de um dia particularmente fruído, alheados das notícias do país. Alertados por mensagem alarmista, ligámos o computador, abrimos todos os sites de notícias e quase achámos que o computador havia sofrido um bug: em todos os jornais, em todas as televisões, em todas as rádios, a mesma notícia: o país está de tanga! E a frase de Durão Barroso não é de 2003 - é mesmo de 2010, de agora. E será fatalmente válida por muitos anos. Procurámos imagens, sons, provas da verdade, revemos a conferência de imprensa que, em circunstâncias normais, teríamos visto em directo. Emudecemos. Mesmo. Somos socialistas, socialistas de uma Esquerda solidária, igualitária, progressista, votámos neste Governo. Duas vezes. Lemos tudo como quem apanha um choque eléctrico, mas em câmara lenta. Para doer mais. Chorámos.

Dois objectivos para o longo e árduo percurso a que nem todos conseguirão sobreviver: convencer o PSD a aprovar o Orçamento de Estado e atingir um défice de 4,6% em 2011. Um défice semelhante ao da Alemanha. Atingir objectivos iguais em países que não poderiam ser mais diferentes. Para isso, o Governo vai: 1) reduzir 3,5% nos salários da função pública que se situem no intervalo entre os 1500 e os 2000 euros (menos 70 euros por mês) e reduzir 10% nos salários superiores a esse valor. (E com isso abrir a porta à redução de salários também no sector privado, diminuir o poder de compra, sufocar o pequeno comércio - ah, as tão propaladas PME's, talvez a sigla mais ouvida nos debates eleitorais das últimas eleições!... -, gerar mais desemprego.); 2) Vai congelar as admissões e reduzir o número de contratados; 3) Vai reduzir as ajudas de custo, horas extraordinárias e acumulação de funções, eliminando a acumulação de vencimentos públicos com pensões; 4) Vai reduzir as despesas do Serviço Nacional de Saúde, nomeadamente com medicamentos e exames; 5) Vai reduzir os encargos com a ADSE; 6) Vai aumentar 1% aos descontos para a Caixa Geral de Aposentações; 7) Vai eliminar o aumento extraordinário de 25% do abono de família nos escalões 1º e 2º e eliminá-lo para os rendimentos mais elevados (superiores a 630 euros brutos); 8) Vai reduzir 20% da despesa com o Rendimento Social de Inserção; 9) Vai reduzir as transferências para o ensino e sub-sectores da Administração: Autarquias e Regiões Autónomas, Serviços e Fundos Autónomos; 10) Vai criar um novo imposto sobre os bancos; 11) Vai aumentar o IVA de 21% para 23%; 12) Vai reduzir as despesas com indemnizações compensatórias e subsídios às empresas; 13) Vai reduzir as despesas com o PIDDAC; E mais e mais e mais...

Do lado da despesa, o Governo espera poupar 3,4 milhões de euros. Do lado da receita, espera amealhar 1,7 milhões de euros. Acresce a isto a decisão da PT de transferir para o Estado as responsabilidades com planos de pensões regulamentares e respectivos Fundos de Pensões. Ou seja, 1844 milhões mais um bónus de 750 milhões de euros, que totaliza 2,6 mil milhões, que servirão, disse Teixeira dos Santos, para cobrir a baixa execução das receitas não fiscais e para patrocinar os submarinos comprados por anterior Governo.

É a mão do FMI sem o FMI, comentou Ricardo Costa, do Expresso. São medidas necessárias nesta fase, mas agravadas por serem tardias, explicou Nicolau Santos à Sic N.  É um retrocesso a 1985, surpreendeu-se Ernâni Lopes, ex-ministro das Finanças que enterrou o FMI na véspera da adesão de Portugal à então CEE, com a desvantagem de que agora já não há mais nada a que a aderir para estabilizar a economia e tirar o país do pântano.

O PS multiplica-se em declarações, em justificações (como sempre, Augusto Santos Silva ganhava mais se estivesse calado), o partido louva a coragem de Sócrates, assegura que os socialistas estão unidos no pacote de medidas que gostariam de nunca ter de anunciar. O PSD também surge no habitual número de inversão de marcha. Ah, se assim é, talvez deixemos passar o OE! Isto apesar de ter dito e insistido que não aceitaria o aumento de impostos. Mas onde é que já ouvimos isto?! Pedimos desculpa e pronto. Os mercados talvez sossegem, talvez já amanhã, talvez baixem a taxa de juros, um recorde de 6,7%. Bruxelas talvez aplauda.

E daqui a uns meses, Cavaco Silva é reeleito presidente, superam-se os meses que inviabilizam legislativas, Sócrates cai e Passos sobe ao poder. E, sem surpresa, exercitá-lo-á fazendo mais disto ou pior, mas repisando sempre que a culpa não é dele, é da herança que recebeu. Antes dele, havia uma senhora que era melhor do que ele e talvez até, who knows?,  melhor do que Sócrates. Ninguém a ouviu, dizem agora os que estavam com ela. Mas foram esses, também, que a deixaram cair. Esses e os outros. Os outros todos que nela só viam a velha e a feia. Queriam um primeiro-ministro bonito? Está quase aí, quase numa sala perto de si. Para quem conseguir manter a sala.

Sócrates quis driblar a crise, quis acreditar que era possível trilhar outros caminhos que não este. Talvez tenha sido laxista. Ou foi só incompetente. Atrasou-se. E de cada vez que um primeiro-ministro se atrasa é o país que paga a conta. Mas um homem sozinho não destrói um país inteiro. Seria talvez conveniente recordar a fuga de Durão Barroso em 2003, o circo de Santana Lopes logo a seguir e todos os políticos que fazem da função um exercício de adolescência retardada.

Os espanhóis, por medidas idênticas, invadiram as ruas. Os portugueses talvez nem isso façam. E se o fizerem, também para eles será já tarde demais. Pouco ou nada mudará. Vai haver fome. Vai haver gente que vivia normalmente a viver mal. Gente que vai deixar de ter filhos (ah, o apelo à natalidade de Cavaco!); pais que têm filhos a estudar e que vão retirá-los da escola (ah, as novas tecnologias e o ensino até ao 12º ano!...).Vai haver debandada do país. Desemprego, mais. Falências, mais. Recessão. O início do fim.

Acordem-me, por favor, quando isto passar. E se puderem, digam-me que não passou de um sonho mau.

terça-feira, setembro 28, 2010

A fairy tale

[Annelies Strba]

She lives in a fairy tale
Somewhere too far for us to find
Forgotten the taste and smell
Of the world that she's left behind
It's all about the exposure the lens I told her
The angles were all wrong now
She's ripping wings off of butterflies

Keep your feet on the ground
When your head's in the clouds

Well go get your shovel
And we'll dig a deep hole
To bury the castle, bury the castle

So one day he found her crying
Coiled up on the dirty ground
Her prince finally came to save her
And the rest you can figure out
But it was a trick
And the clock struck 12
Well make sure to build your house brick by boring brick
or the wolves gonna blow it down

Well you built up a world of magic
Because your real life is tragic
Yeah you built up a world of magic
If it's not real
You can't hold it in your hand
You can't feel it with your heart
And I won't believe it
But if it's true
You can see it with your eyes
Even in the dark
And that's where I want to be

Paramore

sexta-feira, setembro 24, 2010

Fado da Maldição*

[Jens Nagels]

Que destino, ou maldição
Manda em nós, meu coração?
Um do outro assim perdido
Somos dois gritos calados
Dois fados desencontrados
Dois amantes desunidos

Por ti sofro e vou morrendo
Não te encontro, nem te entendo
Amo e odeio sem razão
Coração quando te cansas
Das nossas mortas esperanças
Quando paras, coração?

Nesta luta, esta agonia
Canto e choro de alegria
Sou feliz e desgraçada
Que sina a tua, meu peito
Que nunca estás satisfeito
Que dás tudo e não tens nada

Na gelada solidão
Que tu me dás coração
Não há vida nem há morte
É lucidez, desatino
De ler no próprio destino
Sem poder mudar-lhe a sorte

Amália Rodrigues

quinta-feira, setembro 23, 2010

Shirley Jackson: Sempre vivemos no castelo



A viagem é o viajante; não importa onde se chega, importa o que se vê quando e enquanto se caminha. Em "Sempre vivemos no castelo", publicado originalmente em 1962, considerado pela Times um dos dez melhores romances desse ano, não há nada para descobrir, porque tudo se adivinha à primeira página, o autor de um crime colectivo não datado, mas já com algum bolor. Também se adivinha que não nos serão dadas explicações sobre a motivação. Resta, portanto, o putativo prazer de uma deambulação em circuito fechado, no interior de um castelo em que vivem, depois de envenenada uma família inteira, a abastada Blackwood, apenas duas irmãs, Constance e Merricat, e um tio preso a uma cadeira de rodas. Os Blackwood são vítimas e vilões. O que deles havia perdeu-se; o que deles sobrou é hostilizado pela sociedade, uma comunidade em ponto pequeno, em todos os sentidos que atribuir se possa a pequeno.

Aposta-se tudo em Merricat, a menina de18 anos que podia muito bem ter só seis, que vive na lua, que constrói um mundo dentro do mundo, onde ela e Jonas, o gato, podem ser quem quiserem. Um lugar onde não há dor, mas também não há nada. Parecia promissora a personagem; fica aquém. A de Constance, 27 anos, também. Foi ela quem cozinhou naquela noite, logo a acusada de ser ter contaminado o jantar. Há entre as duas um amor inabalável - e um segredo terrível, que mantêm mesmo entre elas. Mas não chega a haver tensão e talvez isso seja o pior do livro, é sempre morno, lento, quase claustrofóbico.

Surpreendente é o facto de a história crescer uns dias depois de ter sido lida. Sobretudo pelo medo do desconhecido que todos ali à sua maneira têm, e pelas estratégias que encontram para o combater. Ou para não o enfrentar. Também pelos julgamentos prévios e fáceis que costumam atacar quem raciocina com a pele. E por aquele aparente laivo de redenção (ou hipocrisia, who knows?) da tal pequena comunidade.

Mesmo assim, Shirley Jackson (1916-1965), uma das escritoras norte-americanas cuja tradução era mais aguardada em Portugal, e cuja obra é considerada magistral, deixa-nos com a sensação de voo demasiado raso.

Merricat, said Connie, would you like a cup of tea?
Oh no, said Merricat, you'll poison me.

Merricat, said Connie, would you like to go to sleep?
Down in the boneyard ten feet deep!

Love is known for not giving in, but it seems almost impossible to make it.*

[Jens Nagels]

*Micah P. Hinson

quarta-feira, setembro 22, 2010

Íntima Fracção

[Charles Cohen]

Um esconderijo para  o tempo:

"Os dias do futuro estão em frente a nós,
como uma longa fila de círios acesos.
[...] Os dias do passado ficam para trás,
uma triste fileira de apagados círios."

Francisco Amaral, aqui, http://aeiou.expresso.pt/if

[Riceboy sleeps: All the big treees (extracto); Mikkel Metal: Blue items; Dreams of freedom: Is this love (ext.); Monster Rally: Birds pt.1 / pt.2; The Coral: Dream in August; Jacques Higelin: Entre deux gares;  Teen Daze: Driving home from the beach (The feeling of); Radiohead + Beck: Harry Patch (ext.); BVDub: Lest you forget; 2Muchachos: Aqualung has broken; Monster Rally: Birds pt.2; Doi: Missing; Jean Philippe Verdin: Everybody's gotta learn sometime; Christian Fennesz: Paint in black (ext.);  The Beach Boys: Walk on by; Sunsquints: Basque; Monster Rally: Birds pt.2; Marsen Jules: The sound of one lip kissing; Dreams of Freedom: Is this love (ext. IF remix). Texto: Konstantinos Kavafys. Voz: Francisco Amaral. Sons das BSO dos filmes "Blue Velvet" (Lynch); "The crying game" (Frears); "Contraluz" (Fragata).Voz : H. Bogart.]

segunda-feira, setembro 20, 2010

Kierkegaard: The seducer's diary


How beautiful to be in love, how interesting to know one is in love! See, that's the difference! The thought of her disappearing a second time can be irritating but in a sense it pleases me. The picture i now have of her wavers indeterminately between being her actual and her ideal image. I am now evoking it, but precisely because either it is real or it has at least its source in reality, it has its own fascination. I feel no impatience, since the must belong here in town, and for me that is enough for the moment. It is the possibility that makes her image properly appear - everything shoud be savoured in slow draughts. And should i not indeed be relaxed, i who consider myself my darling of the gods, to whom befell to rare good fortune to fall in love again? That, after all, is something no art, no study, can produce; it is a gift. But since i have succeded in stirring up a love once more, i want at least to see how long it can kept going. This love i coddle as i never did my first. Such an opportunity is not given every day, it seems, so it is truly a matter of making the most of it. That's what drives one to despair. Seducing a girl is no art, but it needs a stroke of good fortune to find one worth seducing. Love has many mysteries, and this first infatuation is also a mystery, even if a minor one - most people who rush into it get engaged or indulge in other foolish pranks, and then it's all over in the twinkling of an eye and they don't know what they have conquered or what they have lost. Twice now she has appeared before me and vanished; that means that soon she will appear more frequently. After he has interpreted Pharaoh's dream, Joseph adds: «The fact that you dreamt this twice, means that it will soon come to pass.»

sábado, setembro 18, 2010

Imprensa a criar excêntricos todas as semanas

"Temos 3,5 milhões de pensionistas; 2,2 milhões de estudantes; do pré-primário ao universitário, subsidiados pelo Estado através de propinas simbólicas e apoios da Eacção Social Escolar; temos 700 mil funcionários públicos, não incluindo os funcionários da profusão de empresas públicas e municipais, institutos públicos, fundações públicas e sei lá que mais; e temos 300 mil desesmpregados a receberem subsídio de desesmprego, mais os que recebem RSI. Façam as contas: são sete milhões de portugueses, dois terços da população, que vivem integralmente dependentes ou subsidiados em grande parte pelo Estado. Nem Esparta! Já nem Cuba! Talvez só a Coreia do Norte!"
Miguel Sousa Tavares, Expresso

"A política social é provavelmente a mais virtuosa e útil acção dos políticos - ela reconhece o evidente: como não existe distribuição equitativa de inteligência ou de posição social á nascença, é inteiramente justo que o Estado arrecade parte da riqueza e a redistribua para suavizar essas diferenças. Mas isso não significa que se possa gastar dinheiro como dantes."
Martim Avillez Figueiredo, Expresso

"Os dois grandes falhanços da revolução de 1974 são a justiça e a educação - mas não a saúde. Em 1974, Portugal tinha uma das mais elevadas taxas de mortalidade infantil do mundo (80 por mil). Hoje, tem a quarta mais baixa do mundo e a terceira da Europa (3 por mil). (...) A esperança média de vida aumentou mais de dez anos desde 1974. (...) A proposta do PSD sobre o SNS precisa de ser mais bem explicada. Em primeiro lugar, porque os cidadãos que ganham mais também pagam mais impostos, parte dos quais são supostamente dirigidos para para suportar o SNS. Com grande probabilidade, metade dos utentes do SNS não paga sequer impostos porque os seus rendimentos os isentam. Em segundo, é diferente pagar mais alguma coisa em taxas moderadoras do que pagar intervenções cirúrgicas ou tratamentos prolongados - e aí são muito poucos os portugueses da classe média com capacidade para o fazer. E em terceiro, se bem que seja muito atraente a ideia de podermos escolher a que hospital ir, seja ele público ou privado, mantendo sempre o apoio do Estado, ela precisa de ser muito bem analisada."
Nicolau Santos, Expresso

"É esta a chave para Portugal escapar ao FMI: elaborar um orçamento credível para o próximo ano e cumprir o défice com que se comprometeu no programa de Estabilidade e crescimento: 7,3% este ano, 4,6% em 2011 e 3% em 2012. fazer isto já exigirá um esforço brutal no próximo  ano. É funadamental que esse esforeço venha, em grande parte, da despesa. É isto que se exige ao Governo. É isto que se exige a uma oposição responsável: que aprove um bom orçamento. E, finalmente, é bom também não entrar numa escalada de exigências irrealizáveis, que depois nos possam descredibilizar."
Idem, ibidem

"Estamos num momento em que a pedagogia é vital, em que a política deve ser feita com base no conhecimento, diálogo e proximidade. [Isso implica] mudar de políticas e de políticos. De políticas porque chegámos ao fim de um modelo que acreditava que tudo era ilimitado: o crescimento, o consumo, as matérias-primas e o crédito. Temos de reconverter este modelo para o paradigma da finitude, do limitado. E de políticos, no sentido em que o modelo das últimas décadas, o político vanguardista e voluntarista, que tem um projecto para a sociedade e é questão de vontade e dimensão fazer com que a sociedade o siga, está condenado: a sociedade é muito melhor que a política - como se vê em Portugal. O bom político não é aquele que é muito determinado, é o que que faz composição com a sociedade."
Manuel Maria Carrilho, em entrevista ao Expresso


"Promover colectivamente um pequeno grupo de 'estranhos', sem protecção, a bode expiatório de uma crise grave e à superfície irresolúvel é uma antiga técnica do populismo, que Sarkozy (como Hitler) não hesitou em usar. Só que, por força, ela estabelece sempre sem exame uma culpa colectiva e aponta ao cidadão comum os 'culpados' de um 'crime' imaginário. Qual é o verdadeiro 'crime' dos ciganos? Em primeiro lugar, a raça (uma noção mais do que ambígua). em segundo lugar, a cultura, que neste caso incluiu o nomadismo. E, em terceiro lugar, a recusa de se 'integrar' na sociedade francesa, presumindo que existe um único modelo de 'sociedade francesa'. Ora, como muitas vezes já se verificou, estas três razões levam directamente ao ódio e à perseguição".
Vasco Pulido Valente, Público


"Inimigo do consenso, Sarkozy criou uma ideologia à sua medida. E até começou bem o mandato. Cortou, felizmente, com a insuportável prática do gaullismo, dirigista, plebiscitária, retórica e imperial. Acabou, felizmente,  com os complexos de esquerda que mantiveram Giscard e Chirac. Fez, felizmente, convites governamentais à esquerda. Esvaziou, felizmente, a Frente Nacional. Deu por finda, felizmente, a hostilidade aos americanos e ao absentismo em matéria de defesa. Discutiu, felizmente, o modelo social francês, que não é mais possível sem um crescimento económico sustentado. Argumentou, felizmente, em favor de um liberalismo regulado. Questionou, felizmente, aquele presidencialismo defeituoso que dilui as responsabilidades dos agentes políticos. Esse é o Sarkozy que os franceses elegeram em 2007 e que alimentou grandes esperanças nas direitas europeias, incluindo no presente cronista. Porém, chegado ao terceiro ano do seu mandato, Sarkozy é de facto uma decepção."
Pedro Mexia, Público


"O espectáculo de mendicidade que a Federação exibiu esta semana não é apenas um embaraço para o país; é a expressão de uma pobreza mental que, ao contrário da outra, nem todos os Orçamentos de Estado serão capazes de resolver ou iludir."
João Pereira Coutinho, Correio da Manhã

sexta-feira, setembro 17, 2010

Futuros santos do século XXI

[Stefan Wermuth]


"Espero que entre vós, que me escutam hoje, se encontrem os futuros santos do século XXI. É possível que alguns de entre vós pensem que ser santo não é para vós (...). Nós vivemos numa cultura da celebridade, e os jovens são frequentemente encorajados a modelar-se sobre personalidades do mundo do desporto e do espectáculo. O dinheiro não basta para nos tornar felizes. A chave da felicidade é muito simples: a verdadeira felicidade encontra-se em Deus".

Papa Bento XVI, na universidade de St. Mary em Twickenham, Londres

quinta-feira, setembro 16, 2010

Hanif Kureishi receive PEN literary prizes*


"Ando a tentar convencer-me de que deixar alguém não é a pior coisa que se lhe pode fazer. Será desconsolador, mas não tem que ser uma tragédia. Se nunca se deixasse nada nem ninguém, nunca haveria espaço para o novo. Naturalmente que avançar para diante é uma infidelidade - para com os outros, para com o passado, para com as velhas noções de nós próprios. Talvez cada dia devesse conter pelo menos uma infidelidade essencial ou uma traição necessária. Seria um acto optimista, de esperança, garantindo a crença no futuro - uma declaração de que as coisas podem não apenas ser diferentes, mas melhores.

(...) Sei que o amor é obscuro; temos que sujar as mãos. Se nos retraímos nada interessante acontece. Ao mesmo tempo temos que encontrar a distância correcta entre as pessoas. Demasiado perto, e elas soterram-nos; demasiado longe e abandonam-nos. Como é que as conseguimos manter na relação correcta?"

[Prémio será entregue em Londres a 20 de Outubro]

terça-feira, setembro 14, 2010

FIMP 2010




Esta é a altura do ano em que nos lembramos invariavelmente de Isabel Alves Costa, desaparecida na véspera do FIMP 2009, do FIMP que ela criou e alimentou, mesmo quando tudo no Porto era já tão diferente. Apetece sempre homenageá-la. Se há tradição de marionetas no Porto, é dela o mérito. Vinte anos é muito tempo. A partir de sexta-feira, a 21ª edição do Festival de Marionetas do Porto - a segunda sem IAC - debruça o olhar sobre a marioneta contemporânea. E propõe-se mudar, renovar, evoluir. Igor Gandra ao leme.

17 de Setembro, sexta-feira
Ópera dos Cinco €, uma ópera low cost com textos de Regina Guimarães e encenação de Igor Gandra.
De 18 a 25 de setembro
A companhia lisboeta Tarumba traz o espectáculo Mironescópio, a máquina do amor. "Um espectáculo de pequenas formas inspirado nos antigos Peep Shows e nas primeiras experiências cinematográficas realizadas no século XIX, com a utilização de aparelhos como o Cinetoscópio e o Mutoscópio.Os grandes especialistas da arte erótica, Dr. Erotikone, Madame Gigi e Madame Mimi, entre outros convidados, trazem consigo os seus valiosos Mironescópios.
18 de Setembro
A companhia russa Akhe Theatre apresenta Gobo.Digital.Glossary. "É uma tentativa de retratar um herói mítico da era digital, o Gobo. Reflexão em torno do espaço privado e público ou em torno da reprodução da realidade. “Perspectiva do herói”, “solidão do herói”, “sonho do herói”, “volume do herói”, são fragmentos, subtítulos e pequenas performances que vão desde o humor, o absurdo, a ansiedade ou a evocação."
18 e 19 de Setembro
A alemã Uta Gebert, que trabalha a solo e constrói as suas próprias marionetas, apresenta Jakusch. "Um sótão tenuemente iluminado. Num banco, uma velhinha pequena e bonita, no seu crepúsculo, suspensa por delicados fios. Em doze minutos, desliza com os amplos braços estendidos desde as memórias sombrias até ao presente. Esta íntima miniatura fala da velhice e do medo dela, como uma batida do coração, um piscar de olhos, um relógio chegando à hora, ou como um abraço."
19 de Setembro
De Itália, Pathosformel apresenta La Timidezza delle Ossa. São fantasmas que alteram a nossa percepção do corpo humano, fazendo uma dança radiográfica feita em bruto de músculos e ossos esmagados. O corpo é reduzido à sua estrutura; fisionomia, sinais distintivos e carne desapareceram.
24 e 25 de Setembro
Outra vez Uta Gebert, agora com Cocoon. "Casulos, mundos minúsculos, imagens de sonhos. Cocoon é uma peça sem palavras, fala do ciclo da morte e da transformação, de não ter para onde ir, da necessidade de protecção e da busca do conhecimento."
25 de Setembro
Teatro de Marionetas do Porto apresenta a nova criação "Make Love Not War".
A partir de LISÍSTRATA, de Aristófanes, encenado por João Paulo Seara Cardoso. "Lisístrata é uma peça contra a guerra, uma convicta apologia da paz e da concórdia entre todos os homens. Nela se atacam os velhos que governam a nação e gastam em armas o dinheiro necessário para outros fins. As mulheres, sob a direcção de Lisístrata, revoltam-se e conseguem, unidas, pôr fim à guerra civil que opunha Atenienses e Espartanos e trazer para casa os maridos e filhos. Utilizam para isso a arma do sexo: não se deixarão possuir por homem algum enquanto não acabar a guerra e não se fizerem as pazes."

"Blue with green should always be seen"


"Era quase um milagre estarem juntos outra vez, encontrarem-se de novo, se nos encontrarmos de novo, disse Ashley para si mesma, então poderemos sorrir. Ashley olhou-o com admiração, era como se nunca o tivesse visto antes, era tão belo que fazia doer, o cabelo preto que começava a embranquecer dos lados, os olhos muito azuis, o nariz aquilino, a boca sensual. Ele sorriu e deu boa noite, o sotaque era muito marcado, tinha algo de irresistível. Foi como um milagre, e é um milagre ele existir e ser assim, aquele rosto, aqueles olhos, aquela voz. Não se trata de ver Deus, mas de tocá-lo. Podemos chamar alguém com tanta força, mesmo sem o sabermos, que essa pessoa vem do outro lado do mundo ao nosso encontro. E a nossa vida é feita desses encontros."

Ana Teresa Pereira, Se nos encontrarmos de novo 

segunda-feira, setembro 13, 2010

Regresso de Nuno Cardoso ao TNSJ


"Grande paráfrase sobre a criação artística, sobre a emergência de um “novo teatro” além de toda a trivialidade, mas também sobre o desencontro do amor e da vida, sobre os tempos que acabam antes que saibamos quais os tempos que vêm, A Gaivota vive de um elenco de personagens intensas mas desencantadas, inteligentes ao ponto de saberem que o desejo dificilmente se tornará futuro.

Resta compreender a contemporaneidade da abordagem de A Gaivota, num país onde a criação artística é cada vez mais aquilo que se faz com menos, e se possível se faz menos... São, realmente, necessárias “formas novas”. Se não, necessariamente, no modo como se abordam textos fundamentais, pelo menos no modo como se interpelam cidadãos, na consciência de como se exerce um acto de criação que é também um acto de reinvenção das formas de sermos e estarmos juntos."
Nuno Cardoso

Quem conhece bem Nuno Cardoso e tem acompanhado o trabalho dele, pelo menos desde 2001, sabe que há anos o encenador, claramente o melhor e mais arrojado da sua geração, promete e deseja encenar A Gaivota, de Tchekov. É agora. Estreia nacional depois de amanhã, no Teatro Nacional de S. João, no Porto.

Tradução: António Pescada; Encenação: Nuno Cardoso; Assistência de encenação: Victor Hugo Pontes; Cenografia: Fernando Ribeiro; Desenho de luzes: José Álvaro Correia; Figurinos: StoryTailors; Sonoplastia: Luís Aly; Produção: Ao Cabo Teatro; Co-produção: Teatro Nacional São João, Centro Cultural Vila Flor, Maria Matos Teatro Municipal e Teatro Aveirense em colaboração com As Boas Raparigas…

domingo, setembro 12, 2010

Histories of Mutual Respect by Gabriel Abrantes

[Visionary Iraq]

O Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, inaugurou ontem a exposição “Histories of Mutual Respect”, de Gabriel Abrantes. Vencedor do Leopardo de Ouro, pela curta-metragem “A History of Mutual Respect”, no Festival Internacional de Cinema de Locarno 2010, na Suíça, Abrantes apresenta agora algumas das suas obras em vídeo como “Visionary Iraq” e “Liberdade” (em colaboração com Benjamin Crotty), “Olympia” (em colaboração com Katie Widloski) e “A History of Mutual Respect” (em colaboração com Daniel Schmidt).

"As obras de Gabriel Abrantes aparecem num momento em que nos poderíamos sentir tentados a aceitar acriticamente esta situação de desgaste e desfasamento do discurso inconformista, absorvido pelas lógicas vigentes do sistema, na exacta proporção da sua radicalidade. Sendo dotado de uma enorme mobilidade e descomprometimento a todos os níveis, o discurso deste artista constitui uma tentativa incessante de busca identitária entre particularismos e manifesta uma exigência, uma quase urgência, em sobreviver num mundo global que necessariamente, sem direcção definida ou sequer constante, alterou as relações entre cultura e política.

As imagens contidas nos vídeos de Gabriel Abrantes condensam um choque entre a banalidade do discurso e a gravidade do gesto e do comportamento – reflexos de um desejo de ascensão e transcendência, atraiçoado no final por uma falência dos princípios e da moral. Quem as observa passa a fazer parte de um jogo de representações apologéticas da redenção, aproximando-se de uma idealização sagrada e subliminar do porvir da arte, reiniciando uma nova busca dos valores e da aprendizagem que a realidade parece querer negar. Encontra-se uma sensação anunciadora de catástrofe – algo na iminência de acontecer, um princípio/fim que levará as pessoas a sentirem-se perto de um momento impossível de controlar, nas suas consequências futuras.

Os diálogos suportam e orientam as personagens que, não tendo uma pertença definitiva ao lugar onde se situam, surgem aparentemente descarnadas de sentido, e as palavras não comprometem individualmente quem as profere. Cada personagem faz uso de um texto universal, sobrevivendo numa conjuntura de desastre iminente. Por isso a palavra passa a adquirir uma carga profética e sagrada nas suas significações – como se, através do desenvolvimento do particular, qualquer criação pudesse atingir uma dimensão universalista. A felicidade por todos ambicionada supõe uma maravilhosa confiança na perfeição do homem, na sua ânsia de se libertar da eterna repetição da infelicidade, na sua demanda por um mundo novo e melhor. Este estado de aparente esperança apoia-se numa dupla recusa da salvação e do sublime, e escolhe uma ideia de felicidade – preferimos ser felizes a ser sublimes ou salvos."


De 11 de Setembro a 26 de Dezembro
De terça a sábado, das 10h às 12h30; das 14h às 19h
Domingos e feriados, das 14h às 19h

quarta-feira, setembro 08, 2010

O fim dos chumbos

[L'ecole de Platon, Jean Delville]

Lá em casa era proibido reprovar. Era igualmente proibido ter negativas. E pouco aconselhável ter notas baixas. Nunca nenhum de nós chegou a conhecer o castigo que valeria um chumbo ou uma nega, porque nunca nenhum de nós arriscou pisar o risco. Ou melhor, arriscámos uma vez, uma vez cada um, algures num período do oitavo ano, mas nunca ninguém soube. Até hoje, pacto tácito. O carimbo com Satisfaz nos testes, equivalente a uma positiva à risca, já era suficientemente embaraçoso para que não tivéssemos muita vontade de o repetir. Não era sujeito a sanção, mas instalava um silêncio que nos fazia sentir, no mínimo, uns mentecaptos. No limite, uns ingratos. Implicitamente, lia-se que não éramos dignos do esforço que faziam para nos proporcionarem o que eles não tiveram.

Passámos doze anos assim, não exactamente aterrorizados pelo medo de chumbar, que era afinal o medo de desiludir quem nos patrocinava, sobretudo os sonhos, mas conscientes da importância de não abrandar. E às vezes não era fácil. Nada fácil. Tínhamos metas para atingir, limites mínimos que não podíamos infringir, mas não tínhamos regras. Lá em casa não havia, nunca houve, horas para estudar nem horas para deitar. Havia centenas de livros à disposição e enciclopédias e atlas e dicionários, mas nenhuma indicação de em quais deveríamos pegar. Foi caminhada que tivemos de trilhar sozinhos. Sozinhos aprendemos a ser disciplinados, a cumprir um horário de estudo e de sono. E foi sozinhos que aprendemos a reconhecer as nossas limitações. Lá em casa, um parecia, ainda hoje, que tinha nascido ensinado de tudo e sem estudar conseguia estar sempre no podium. O outro tinha de se esforçar mais, infinitamente mais, de resto ainda hoje também, para conseguir estar quase lá de vez em quando.

Lá em casa não havia, nunca houve, ajudas para chegar aos lugares. Mas havia mensagens subliminares sobre esses lugares. Mensagens sábias, porque não convidavam a ir, mas despertavam a curiosidade para ir. Por isso, começámos a ler cedo. E cedo aprendemos que os livros da escola não bastavam. Muito menos os professores da escola. A escola, a nossa, era uma escola de interior, pobre como nós, para onde os professores iam provavelmente sem vontade e definitivamente sem empenho. Sabermos ler e escrever sem erros era o suficiente para os impressionar, tão baixas eram as expectativas sobre nós. Saber mais do que o mínimo obrigatório, o que se passava na país e no mundo, garantia nota máxima. Na recta final, entre o 10º e o 12º anos, já sozinhos ali (a outra metade de nós tinha migrado para um colégio), percebemos que os professores nos inflacionavam as notas, que não valíamos as notas que tínhamos. E pior, que talvez aquela matéria não fosse a matéria que deveríamos saber para entrar na faculdade. Era a matéria que por certo consideravam mais do que suficiente para alunos de campo sem futuro. Por isso, no último ano - o último ano em que houve três disciplinas - quase ignorámos o plano curricular. Estudávamos a duas velocidades, uma na escola e outra em casa. Lemos tudo, livros de que nunca ouvimos falar nas aulas e livros que nos ajudavam a entender esses livros. Sem orientação nem apostas sobre o que poderia sair nas provas específicas, não excluímos nada. Saísse o que saísse, estávamos preparados. E estávamos mesmo. Ficámos a quatro pontos dos 100% na prova nacional à qual estava entregue a nossa próxima etapa: entrar no curso de eleição na cidade escolhida.

Correu bem para o objectivo que traçámos; correu mal no resto. Temos, só um de nós, imensas e imperdoáveis lacunas nas disciplinas que não contribuíam para atingir a nossa meta. Por isso temos muita dificuldade, ainda hoje, sobretudo hoje, em estar ao lado dos professores no seu frequente queixume. Olhamos para trás, para a maioria dos que foram nossos, com um espírito crítico que, apesar de tudo, na altura não tínhamos, e quase nos perguntamos como conseguimos chegar até aqui. Chegámos por causa da educação que recebemos, dos pais incríveis que temos, e da sabedoria com que discretamente conseguiram fazer de nós o que queriam. Mas perguntamo-nos também o que teria sido de nós se não houvesse chumbos e se, sem isso, tivessem sido os pais a abrandar na exigência. Nisso, na possibilidade de facilitismo, o governo socialista falha. Porque fornece as ferramentas para emagrecer a distância de contextos e oportunidades, mas não fomenta a importância de as valorizar. Mas não falha, definitivamente não falha, quando exige dos professores aquilo que eles próprios deveriam ser sem lhes ser pedido. É por isso sendo a educação e a formação recebida em casa sempre uma incógnita, porque o desfecho não é infalível, questionamo-nos cada vez mais sobre se valerá realmente a pena estar constantemente a reformar o sistema educativo em vez de se apurar o sistema social. Mas, a cada dia que passa, mais achamos que este governo, em matéria estrita de educação, tem errado pouco. Basta para isso lembrar, mas talvez poucos se lembrem, da triste comédia que protagonizou David Justino...

Amor à primeira voz


Ela não queria ter memória. Não queria lembrar-se da primeira que lhe ouviu a voz e do que essa voz lhe fez. Não queria lembrar-se de quantos dias contou para o ver antes sequer de saber se alguma vez chegaria a vê-lo. Não queria lembrar-se desse dia, o dia em que pela primeira vez o viu. E viu que ele existia mesmo. O dia em que a contagem recomeçou. Para o ver outra vez. Outra vez sem saber se esse dia chegaria. Porque mesmo que chegasse, não haveria amanhã para eles. Isso ela sabia. Só não sabia que era a sério o que dizia a brincar, que se tinha apaixonado à primeira audição. Se não tivesse memória, não saberia que agora haverá sempre um antes e um depois daquele dia. Nem se lembraria que começou a tentar esquecê-lo no dia em que o conheceu. E que tantos dias depois, maldita memória, ainda não conseguiu.

terça-feira, setembro 07, 2010

Al Berto: O Medo

Sabes,
por vezes queria beijar-te
sei que consentirias
mas se nos tivéssemos dado um ao outro ter-nos-íamos separado
porque os beijos apagam o desejo quando consentidos
foi melhor sabermos quanto nos queríamos
sem ousarmos sequer tocar nossos corpos
hoje tenho pena
parto com essa ferida
tenho pena de não ter percorrido o teu corpo
como percorro os mapas com os dedos teria viajado em ti
do pescoço às mãos da boca do sexo
tenho pena de nunca ter murmurado teu nome no escuro
acordado
perto de ti as noites teriam sido de ouro
e as mãos teriam guardado o sabor do teu corpo
(...)
Sem o saber
hesito em deixar-te escrito mais que um simples adeus
de qualquer maneira por muito longe que me encontre
se pousares a tua mão sob a minha testa senti-lo-ei
esse gesto aliviar-me-á de todas as dores...

segunda-feira, setembro 06, 2010

Para quem mora lá, o céu é lá

"OSGEMEOS criam, com a intensidade das suas obras, um mundo-refúgio, fantasmagórico e intemporal - qual O Pássaro Pintado, de Jerzy Kosinsky, estupefacto perante a violência do mundo e o seu lado insanciável. Perante OSGEMEOS, encontramo-nos situados num mundo onírico, ora nocturno, ora diurno, que nos ilumina, não com luz, mas com cor. (...) As portas pintadas destas casas são igualmente metáforas de passagens para o imaginário."

CCB, Lisboa
Até 19 de Setembro

sábado, setembro 04, 2010

Herberto Helder: Os Passos em Volta

"Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos?"

sexta-feira, setembro 03, 2010

Vergílio Ferreira: Cartas a Sandra

"Curiosamente, onde menos te encontro é onde tu exististe. Desprendeste-te donte estiveste e é em mim que mais me acontece tu estares. Mas nem sempre. Quantos dias se passam sem tu apareceres. E às vezes penso é bom que assim seja para eu aprender a estar só. Mas de outras vezes rompes-me pela vida dentro e eu quase sufoco da tua presença. Ouço-te dizer o meu nome e eu corro ao teu encontro e digo-te vai-te, vai-te embora. Por favor. E eu sinto-me logo tão infeliz. E digo-te não vás. Fica. Para sempre. Há em mim uma luta entre o desejo de que te esqueça e o de endoidecer contigo."

quinta-feira, setembro 02, 2010

Breaking up is so very hard to do...

Les Amants Reguliers by Phillipe Garrel



Para quem viu Os Sonhadores, de Bertolucci (2003) e gostou, aqui fica a versão de Philippe Garrel, realizada dois anos depois. O mesmo tema, a mesma época, o mesmo lugar. Até o mesmo actor, o nosso rapaz fétiche Louis Garrel. É difícil dizer se é melhor. Ou talvez não seja. Este filme é mesmo uma obra-prima. O outro é só muito bom.

quarta-feira, setembro 01, 2010

Oscar Wilde: Uma mulher sem importância


Gerald: É muito difícil compreender as mulheres, não é?
Lord Illingworth: Não deves nunca tentar compreendê-las. As mulheres são quadros. Os homens são problemas. Se quiseres saber o que uma mulher realmente quer dizer - o que, a propósito, é sempre uma coisa perigosa de se fazer - olha para ela, não a ouças.
Gerald: Mas as mulheres são terrivelmente inteligentes, não são?
Lord Illingworth: Devemos sempre dizer-lhes isso. Mas para o filósofo as mulheres representam o triunfo da matéria sobre a mente - tal como os homens representam o triunfo da mente sobre a moral.
Gerald: Como podem então as mulheres ter o poder que Lord Illingworth diz que têm?
Lord Illingworth: A história das mulheres é a história da pior forma de tirania que o mundo alguma vez conheceu. A tirania dos fracos sobre os fortes. É a única tirania que perdura.
Gerald: Mas as mulheres não têm uma influência refinadora?
Lord Illingworth: Nada refina excepto o intelecto.
Gerald: Todavia, há diversos tipos de mulheres, não há?
Lord Illingworth: Na sociedade, há apenas dois tipos: as simples e as sofisticadas.
Gerald: Mas há boas mulheres na sociedade, não há?
Lord Illingworth: Demasiadas.
Gerald: Mas acha que as mulheres não deveriam ser boas?
Lord Illingworth: Não devemos nunca dizer-lhes isso, tornar-se-iam boas de imediato. As mulheres são um sexo fascinantemente voluntarioso. Todas as mulheres são rebeldes e geralmente numa revolta desenfreada de si próprias.
Gerald: Nunca foi casado, pois não, Lord Illingworth?
Lord Illingworth: Os homens casam-se por estarem cansados; as mulheres por estarem curiosas. Ambos se desiludem.
Gerald: Mas não acha que podemos ser felizes quando casamos?
Lord Illingworth: Completamente felizes. Mas a felicidade de um homem casado depende das pessoas com quem não casou.
Gerald: E se estivermos apaixonados?
Lord Illingworth: Devemos estar sempre apaixonados. É por essa razão que não devemos nunca casar.
Gerald: O amor é uma coisa maravilhosa, não é?
Lord Illingworth: Quando estamos apaixonados começamos por nos enganar a nós próprios. E acabamos a enganar os outros. É a isto que as pessoas chamam romance. Mas uma verdadeira grande paixão é relativamente rara hoje em dia. É o privilégio de pessoas que não têm nada para fazer.