Ana Teresa Pereira conquistou o Grande Prémio de Romance e Novela. Conquistou-o com o romance "O Lago". Poderia ter sido com outro qualquer, seria sempre justo.
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quarta-feira, outubro 24, 2012
terça-feira, setembro 14, 2010
"Blue with green should always be seen"
"Era quase um milagre estarem juntos outra vez, encontrarem-se de novo, se nos encontrarmos de novo, disse Ashley para si mesma, então poderemos sorrir. Ashley olhou-o com admiração, era como se nunca o tivesse visto antes, era tão belo que fazia doer, o cabelo preto que começava a embranquecer dos lados, os olhos muito azuis, o nariz aquilino, a boca sensual. Ele sorriu e deu boa noite, o sotaque era muito marcado, tinha algo de irresistível. Foi como um milagre, e é um milagre ele existir e ser assim, aquele rosto, aqueles olhos, aquela voz. Não se trata de ver Deus, mas de tocá-lo. Podemos chamar alguém com tanta força, mesmo sem o sabermos, que essa pessoa vem do outro lado do mundo ao nosso encontro. E a nossa vida é feita desses encontros."
Ana Teresa Pereira, Se nos encontrarmos de novo
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quinta-feira, agosto 05, 2010
Ana Teresa Pereira: A coisa que eu sou
[Kandinsky]
"Sempre tinham dormido juntos. Em quartos de hotel, em cabanas perto do mar, em comboios que atravessavam noites sem fim. Mesmo no tempo em que ele não sabia muito bem onde acabava o seu corpo e começava o dela, onde acabava o seu corpo e começava o mundo. Adormecia com o som da máquina de escrever; e aprendera a ficar em silêncio quando ela se afundava num jardim, num museu, na escuridão de um cinema. Folheavam os dois velhos livros com gravuras a preto e branco: barcos engolidos pelas vagas, anjos que subiam e desciam uma escada, o príncipe no castelo da Bela Adormecida, o Capuchinho Vermelho na cama com o lobo. Por vezes ela lia versos que o menino não compreendia: «E como está perdido o ser que tem de voar e provém de um seio...» E contava-lhe histórias. Contos de fadas, sempre os mesmos, todas as noites."
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quinta-feira, junho 10, 2010
Ana Teresa Pereira: O verão selvagem dos teus olhos
"Sempre me senti uma estranha, como um anjo caído que não sabe muito bem onde está, nem qual é a sua natureza; ele é muito diferente dos que se movem à sua volta, e tem de fazer um esforço para passar despercebido. Uma questão de auto-defesa. Sempre senti uma certa perplexidade diante do mundo, das pessoas. Sempre amei, ferozmente, os animais e as plantas. Os meus cães e os meus cavalos, e o meu jardim. Mas acho que, exceptuando o meu pai, nunca gostei muito de pessoas. Talvez, muito simplesmente, não as compreendesse. O que as fazia viver, o que as fazia correr. Acho que compreendia o meu pai, até porque me parecia com ele. A forma como conhecia os livros por dentro. Mas, porque não compreendia as outras pessoas, e tinha de viver no meio delas, tornei-me uma actriz."
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sexta-feira, abril 16, 2010
Ana Teresa Pereira: Se nos encontramos de novo

Mesmo quem nunca teve coragem para ler a Ana Karenine, saberá de cor a primeira frase dessa obra emblemática, dizem, de Tolstoi: "As famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são-no cada uma à sua maneira." Eu também ainda não tive coragem para ler o livro e também sei de cor a frase - e também a acho genial. Mas prefiro outros inícios. Prefiro os inícios, alguns, de Ana Teresa Pereira. Prefiro o início de "Se nos encontrarmos de novo": "Talvez seja possível amar uma mulher por causa de um livro, de um poema sublinhado, de um filme a preto e branco, de uma casa, do olhar de um homem quando fala dela, da forma como o seu cão a espera. Da reprodução de um Mondrian na parede da sala."
Mesmo quem nunca leu José Luís Peixoto e só consegue vagamente identificar-lhe a face, achou que podia escandalizar-se quando o primeiro-ministro deste país não reconheceu aquele que é hoje uma das mais cumpridas promessas da literatura portuguesa contemporânea. A pergunta dirigida por José Sócrates ao escritor na celebração dos cem dias deste Governo, em Fevereiro - "Como é que você disse que se chamava? Jorge?" - ficou quase tão célebre como algumas citações dos clássicos. Não reconhecer o rosto de um escritor tem muito que se lhe diga - mas pode dizer mais do escritor do que do leitor. Eu nunca saberia reconhecer Ana Teresa Pereira. Ignoro-lhe por completo a cara. E no entanto é isso, também, que ajuda a que essa mulher madeirense seja o misterioso e terrível fenómeno solar que é. Uma escritora com uma obra superlativamente bela de que só muito de vez em quando se ouve falar.
A sua obra é a história, quem sabe se autobiográfica, da alma. E é uma história de amor pela arte: Mondrian, Rothko, Bonnard, Rembradt, Rublev, Van Gogh, Monet, Degas, Ticiano, Turner, os impressionistas todos da pintura; Iris Murdoch em primeiríssimo lugar, mas também Henry James, Emily Bronte, Ibsen, Rupert Brooke, Rilke, Charles Dickens na literatura. Livros e quadros. Sempre. Bach, Mozart, Haydn, Pizzetti na música; Vincente Minnelli, Tarkovsky, Sokurov, Ingrid Bergman, Katherine Hepburn, Robert Mitchum no cinema. A lista é exaustiva, precisa, sugestiva, minuciosa.
"Se nos encontrarmos de novo" é isto tudo. Mas é mais. É uma história de Amor, claro. E da impossibilidade do amor. Ou do amor que nasce quando o resto morre. É sobre o que fazer com ele, com esse amor, quando tudo renasce. E ressuscita por causa dele. "Um amor que só precisa da presença do outro para existir". É uma história de demónios, de fantasmas, de monstros que amam demasiado para poderem ser santos, de medos expiados a meio da noite, no meio da praia, "com um mapa nos joelhos para não nos perdermos", de setas de papel enviadas para ninguém, "setas atiradas para afastar o medo", de torres, reinos, contos de fadas e castelos de areia. É cheio de contradições. Como a vida.
É sobre os encontros que nos mudam a existência. "Podemos chamar alguém com tanta força, mesmo sem o sabermos, que essa pessoa vem do outro lado do mundo ao nosso encontro. E a nossa vida é feita desses encontros." E de como ficam inacabados, incompletos. E como, se calhar, só podem fazer sentido porque ficam assim, interrompidos. É sobre o que continua depois de desaparecer. É sobre "morrer procurando". É sobre o primeiro amor ser o último. E o último o único. "Vivemos fechados no nosso mundo, e um dia descobrimos que existe mais alguém, é isso apaixonar-se, tomar consciência da realidade de alguém além de nós. Sair da caverna e descobrir o mundo". É sobre ter alguém à nossa espera quando se regressa do inferno. E isso ser um milagre. É sobre ter procurado alguém a vida inteira, amá-lo ainda antes de o ver e depois isso ser mesmo verdade, ele existir mesmo. "É uma coisa terrível cair nas mãos de um deus vivo". É sobre "as lágrimas das coisas", o sofrimento, a vulnerabilidade. O caminho, de que "o amor e a perda fazem parte".
Ashley e Byrne. Ashley e Tom. Ashley e Ed. Ashley e Kevin. Ashley e... É sobre o imenso labirinto até se encontrar a saída, quando há saída. "Todos os caminhos são caminhos solitários, todas as procuras são procuras solitárias. Mas há os encontros que temos ao longo do caminho, e esses encontros são fundamentais, podem fazer-nos ir mais longe. Podem fazer-nos perder o rumo."
"Seria quase um milagre estarem juntos outra vez, encontrarem-se de novo. Se nos encontrarmos de novo, disse Ashley para si mesma, então poderemos sorrir." Era um bilhete de despedida. É sobre ter valido a pena, mesmo quando já nada parecia valer nada. "Eu estou apaixonada, como se fosse o princípio de qualquer coisa. E pratiquei a morte todos os dias da minha vida. E todas as vidas ficam inacabadas."
"If we do meet again, why, we shall smile."
(Júlio César)
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