segunda-feira, janeiro 31, 2011

To be shelved


A minha última maravilhosa descoberta no reino da blogosfera...

domingo, janeiro 30, 2011

Lyonel Feininger (1871-1956)


Untitled (Night View of Trees and Streetlamp, Burgkühnauer Allee, Dessau), 1928

sábado, janeiro 29, 2011

Love and Other Drugs by Edward Zwick



"Sometimes the things you want the most don't happen and what you least expect happens. I don't know - you meet thousands of people and none of them really touch you. And then you meet that one person and your life is changed. Forever."


Só eu é que tinha saudades de Jake Gyllenhaal?...

sexta-feira, janeiro 28, 2011

Frank McCourt: As cinzas de Ângela


"Quem me dera conseguir encontrar o meu pai para poder dizer à minha mãe, Aqui está ele e ainda tem três libras no bolso. Já não tenho fome, por isso posso subir por um dos lados da O'Connell Street e descer pelo outro e procurar nos pubs nas transversais, e encontro-o no Gleeson, como é que eu podia não dar com ele, se está a cantar (...). Tenho o coração a bater muito e não sei o que hei-de fazer, porque sinto que estou cheio de raiva como a minha mãe estava, sentada à chaminé, e a única ideia que me passa pela cabeça é entrar a correr e dar-lhe um pontapé nas pernas e tornar a sair a correr, mas não faço isso porque temos as manhãs ao pé do lume, quando ele me fala do Cuchulain, do De Valera e do Roosevelt, e se ele estiver lá dentro bêbedo e a oferecer cervejas a todos com o dinheiro do bebé, eu sei que os olhos dele estão iguais aos olhos do Eugene quando se punha à procura do Oliver. Posso ir para casa e mentir à minha mãe, dizendo-lhe que não o vi nem consegui encontrá-lo."

Odeio emprestar livros porque ninguém sente necessidade de os devolver. Emprestar um livro é partilhar intimidade. Não é só uma história que está a dividir-se, é um entendimento que está a multiplicar-se, é dizer: acho que vais gostar, que vais entender. Acho que tu também és isto. É desvendar qualquer coisa do que somos também... Mesmo assim, infeliz traição, as pessoas não devolvem livros emprestados. Um dos últimos a que perdi o rasto foi este. Esperei mais de dez anos para que mo devolvessem. O meu livro, as minhas anotações. Não aconteceu. Encontrei-o um destes dias numa livraria e não resisti a comprá-lo. Outra vez. Quase com medo. Há livros que só assimilamos numa segunda leitura, muito mais tarde. Mas será que há livros que nos tocam tanto numa primeira abordagem e depois, quando o tempo passa, percebemos que lhe insuflamos o significado? Não é o caso. A retrospectiva auto-biográfica da infância miserável, esventrada, esfomeada e enferma de Frank McCourt (o autor morreu há dois anos, com 80 anos) numa Limerick irlandesa dos anos 40 é o que parecia ser na altura: violentamente comovente. Como o filme de Alain Parker, de 1999.  

Blue Valentine by Derek Cianfrance

Dean: In my experience, the prettier a girl is, the more nuts she is, which makes you insane.
Cindy: I like how you can compliment and insult somebody at the same time, in equal measure.

quinta-feira, janeiro 27, 2011

Yann Martel: A vida de Pi


“Tenho que dizer uma coisa acerca do medo. É o único verdadeiro adversário da vida. Só o medo pode derrotar a vida. É um adversário esperto e ardiloso, que eu bem sei. Não tem decência, não respeita lei nem convenção, não mostra piedade. Vai ao nosso ponto mais fraco, que encontra com uma facilidade certeira. Começa na nossa mente. Num momento, estamos a sentir-nos calmos, seguros, felizes. E, depois, o medo, disfarçado com as vestes da dúvida afectada, introduz-se na nossa mente como um espião. A dúvida encontra descrença e a descrença procura empurrá-la. Mas a descrença é um soldado de infantaria mal armado. A dúvida vence-a sem grande dificuldade. Tornamo-nos ansiosos. A razão vem travar a batalha por nós. Somos tranquilizados. A razão está bem equipada com a última tecnologia das armas. Mas, para nosso espanto, a despeito da táctica superior e de um inegável número de vitórias, a razão é vencida. Sentimo-nos enfraquecidos, vacilantes. A nossa ansiedade torna-se pavor.

Depois, o medo trabalha todo o nosso corpo, que já está ciente de que qualquer coisa terrivelmente errada se está a passar. Já os nossos pulmões saíram voando como pássaros e os intestinos deslizaram como uma cobra. Agora a nossa língua pende morta como um gambá, enquanto o maxilar começa a galopar no mesmo sítio. Os ouvidos estão surdos. Os músculos começam a tremer, como se tivessem malária, e os joelhos abanam, como se estivessem a dançar. O coração retesa-se com demasiada força, enquanto o esfíncter se relaxa demasiado. E assim acontece ao resto do corpo. Todas as partes do corpo, da maneira mais própria de cada uma delas, se desintegram. Só os olhos funcionam bem. Eles dão sempre a devida atenção ao medo.”

quarta-feira, janeiro 26, 2011

O regresso de Perry Blake



4 de Fevereiro, Paços da Cultura, S. João da Madeia
5 de Fevereiro, Casa das Artes, Famalicão
6 de Fevereiro, Cinema S. Jorge, Lisboa

terça-feira, janeiro 25, 2011

Pretérito imperfeito

[Olivia Bee]

Tu sabes tudo, mas tudo fica só entre nós. E nós não sabíamos nada um do outro. Não sabíamos dos livros que nos roubariam as palavras, das canções que nos amorteceriam o silêncio, da dor que nos haveria de chupar até aos ossos. Não sabíamos nada de beijos envenenados. Beija-me. Mata-me. E dá-nos um epitáfio. Estaremos sempre lá, eu sei, nesse futuro antecipadamente roubado. Na promessa de que estaremos sempre lá sem estar. No coração, no pensamento, na barriga, nos lugares inventados para uma geografia que se não cumpre. Pretérito continuamente imperfeito. Amor que se prolongou no tempo, mas com início e fim no passado. 

segunda-feira, janeiro 24, 2011

Luto


Estava de luto, dizia para justificar a apatia daqueles dias. Sentia que tinha ficado viúva de marido vivo. É o pior dos lutos, insistia. Porque cega, trava, mata devagar. Porque se não cumpre nunca. Mas ainda está assim por causa do divórcio, Ana Maria?, perguntavam-lhe as clientes, já passaram tantos anos, o seu filho é quase um homem! Ana Maria engasga-se, comove-se, faltam-lhe as mãos, agarradas ao telemóvel como a um talismã, e as palavras certas. Nem se lembrava que tinha sido casada, quanto mais que o seu BI diz divorciada. Estava de luto, sim, mas pelo marido da outra, pelo homem casado que conhecera numa insuspeita noite de sábado, horas altas, música aos berros. Quem é que conhece um homem daqueles na noite?, perguntava alheada, incrédula, como quem fala sozinha, como quem pensa alto. Um homem daqueles não se conhece num sábado à noite, entre copos e charutos, ripostava, abanava a cabeça como se fosse a primeira vez que dizia alto a frase que seguramente já dissera baixo, para ela, para dentro, infinitas vezes. O homem só era daqueles porque era o homem por quem ela tombara.

Ana Maria chora com os olhos secos. Tudo nela é dor. É mais fácil expiar pecados que o sofrimento, ironiza a mulher de quase 50 anos, o embaraço de quem tem 15. Ana Maria tem quase 50, é verdade, mas não perde oportunidade de mostrar o peito, levantado, hirto, de menina, sem silicone nem marcas do tempo. Um orgulho. Uma mulher invulgar. E muito bonita ainda, se é que há idade para as mulheres bonitas deixarem de o ser. Fazendo das mãos única profissão, também não esconde a cabeça que tem. Gosta de ler, não importa o quê, gostos não se discutem, tem sempre de estar a seguir um livro, diz. E gosta mais ainda de arte e de viajar. Já atravessou os Estados Unidos, a famigerada Route 66, esteve em África vezes várias, a Europa é roteiro de fim-de-semana pelo menos uma vez por mês. Fala inglês, francês, espanhol, italiano, há pessoas assim. Não estudou por aí além, mas aprendeu línguas a viajar. Aprendeu a dispensar os phones de tradução simultânea nos museus, e quando percebeu que era capaz de perceber tudo ficou tão feliz!... Diz isto assim, com a melancolia de uma vida que acabou. Foi por falar bem inglês que num sábado à noite conheceu um daqueles homens que se não conhecem num sábado à noite. Um alemão de 39 anos a chamar por ela de um fato negro e camisa branca, homem requintado, educado, culto. Falaram a noite toda, ela sentia que se conheciam desde sempre. Finalmente alguém que gosta das mesmas coisas que ela, pensou. Cavalheiro, levou-a a casa quando já era dia, despediram-se com dois beijos na face. Ela adormeceu a sorrir, acordou a pensar nele. A pensar que nunca mais o iria ver, apesar de terem trocado contactos. Erro de avaliação. Ele tinha sentido o mesmo, o mesmo receio, não saíra sequer da porta do prédio. Dormiu no carro, ligou-lhe mal acordou.

Ficaram amigos. Ou começaram por disfarçar a paixão na amizade. Ela divorciada, ele em vias de divorciar-se de uma mulher nórdica que não conseguia engravidar. E o que ele queria ter um filho!... Não conseguia viver com a ideia de o não ter. O esforço e as tentativas goradas haviam-lhes desgastado o casamento. Decisão unilateral, ele decidiu. Ela saiu de casa. E Ana Maria passou a viajar todos os fins-de-semana para Berlim. Para o seu amor. À semana, passavam as noites a falar no computador, os dias a trocar mensagens. Meses a fio assim. Necessidade compulsiva, sintonizada. Apaixonada como adolescente, infinitamente compensada por um casamento de duas décadas a que tivera coragem de colocar um fim, tão feliz como sempre acreditara que era possível ser. Um dia, ele apareceu de surpresa no trabalho dela. Não era surpresa de amor. Era despedida de homem sério, honesto. A mulher, a outra, a nórdica, fizera por conta própria a derradeira tentativa na clínica de sempre, a inseminação artificial finalmente resultara. Ela estava grávida agora que estavam divorciados. E ele não podia abandoná-la.

Choraram abraçados, passaram a noite juntos, mas não conseguiram dormir, empanturraram-se com declarações de amor para sempre. E de manhã mudaram de opinião. Não iam, não conseguiam despedir-se. Era mais forte que eles. O amor está repleto de clichés. Mas, apesar de tudo, Ana Maria sentiu-se feliz com a decisão, ignorando, como só as mulheres apaixonadas conseguem ignorar, a certidão de óbito que acabara de ser passada ao seu amor. Acompanhou a gravidez, deixou de viajar para lá, agora era ele quem viajava para cá, amavam-se, e isso era a única coisa que importava. Aceitava que ele já não falasse com ela à noite, aceitava que ele já não viesse todos os fins-de-semana, aceitava a ausência de promessas sobre o futuro. O futuro era agora, era ali, era quando estavam juntos. E foi assim mesmo depois de a criança nascer. Mas no dia do aniversário dela, no dia em que completara 47 anos, ele não veio, não telefonou, não escreveu. Ela não trabalhou, ficou em casa o dia inteiro, no sofá, vestida a rigor, tinha a certeza que ele iria aparecer. Mas ele não apareceu. Nem telefonou. Nem escreveu. Ela achou que ia morrer. De dor, de amor. Tomou medicação para esquecer, para dormir. E quando acordou, no dia seguinte, venceu o orgulho e ligou-lhe. Voltaram a chorar, voltaram a declarar amor, mas ele tinha tomado uma decisão irreversível: não conseguiria salvar o casamento se continuasse a pensar nela. E pela filha, que ele amava mais do que tudo no mundo, tinha obrigação de o tentar salvar. Pediu desculpa a Ana Maria, explicou-lhe que tinham ido demasiado longe, tão longe como o amor que sentiam um pelo outro, mas que não poderia continuar a manter aquela situação. Desejou-lhe felicidades, prometeu que nunca a esqueceria e assegurou-lhe que sim, que era ela o amor da vida dele. Mas que não poderia prendê-la nem pedir-lhe que esperasse por ele. E pouco depois de desligar o telemóvel, escreveu-lhe um mail. A oficializar a despedida.

Ana Maria está de luto. Agarrada ao telemóvel como a um talismã. Não consegue apagar as mensagens, tantas, que trocaram. Não consegue parar de as ler. Diz que precisa de entender o que lhe escapou, em que momento o perdeu e não percebeu. Não consegue acreditar que acabou. Sinto-me uma viúva de marido vivo, diz e repete e volta a repetir. Às vezes, com sarcasmo. Confessa que ainda sonha que um dia ele vai ligar a dizer que não pode viver sem ela. É a mesma coisa que acreditar na ressurreição de um morto?, pergunta, a voz tão longe da mulher forte a que habituou as clientes. O silêncio como resposta desarma-a, ela desfaz-se num pranto, diz: se calhar fui eu que morri e não sei. 

domingo, janeiro 23, 2011

Love is an imbalance


Look at me: do you think I am balanced?!
I love you! How could I, if I love you, be balanced?
And then, fuck!, who wants to be balanced?

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Gonçalo M. Tavares

"A intensidade com que se é esmagado não importa,
de facto, o que importa é a intensidade que nos resta
depois de sermos esmagados."

quinta-feira, janeiro 20, 2011

Henri Michaux: Nous deux encore


Air du feu, tu n’as pas su jouer.
Tu as jeté sur ma maison une toile noire.
Qu’est-ce que cet opaque partout? C’est l’opaque qui a bouché mon ciel
Qu’est-ce que ce silence partout? C’est le silence qui a fait taire mon chant.
L’espoir, il m’eût suffi d’un ruisselet. Mais tu as tout pris. Le son qui vibre m’a été retiré.
Tu n’as pas su jouer. Tu as attrapé les cordes.
Mais tu n’as pas su jouer. Tu as tout bousillé tout de suite.
Tu as cassé le violon. Tu as jeté une flamme sur la peau de soie.
Pour faire un affreux marais de sang.
Son bonheur riait dans son âme. Mais c’était tout tromperie. Ca n’a pas fait long rire.
Elle était dans un train roulant vers la mer. Elle était dans une fusée filant sur le roc.
Elle s’élançait quoiqu’immobile vers le serpent de feu qui allait la consumer.
Et fut là tout à coup, saisissant la confiante, tandis qu’elle peignait sa chevelure, contemplant sa félicité dans la glace.
Et lorsqu’elle vit monter cette flamme sur elle, oh…
Dans l’instant la coupe lui a été arrachée. Ses mains n’ont plus rien tenu.
Elle a vu qu’on la serrait dans un coin. Elle s’est arrêtée là-dessus comme sur un énorme sujet de méditation à résoudre avant tout. Deux secondes plus tard, deux secondes trop tard, elle fuyait vers la fenêtre, appelant au secours.
Toute la flamme alors l’a entourée.
Elle se retrouve dans un lit, dont la souffrance monte jusqu’au ciel, jusqu’au ciel, sans rencontrer de dieu… dont la souffrance descend jusqu’au fond de l’enfer, jusqu’au fond de l’enfer sans rencontrer de démon.
L’hôpital dort.
La brûlure éveille.
Son corps, comme un parc abandonné..
Défenestrée d’elle-même, elle cherche comment rentrer.
Le vide où elle godille ne répond pas à ses mouvements.
Lentement, dans la grange, son blé brûle.
Aveugle, à travers le long barrage de souffrance, un mois durant, elle remonte le fleuve de vie, nage atroce.
Patiente, dans l’innommable boursouflé elle retrace ses formes élégantes, elle tisse à nouveau la chemise de sa peau fine. La guérison est là.
Demain tombe le dernier pansement.
Demain…
Air du sang, tu n’as pas su jouer. Toi non plus, tu n’as pas su.
Tu as jeté subitement, stupidement, ton sot petit caillot obstructeur en travers d’une nouvelle aurore.
Dans l’instant elle n’a plus trouvé de place. Il a bien fallu se tourner vers la Mort.
A peine si elle a aperçu la route.
Une seconde ouvrit l’abîme.
La suivante l’y précipitait.
On est resté hébété de ce côté-ci.
On n’a pas eu le temps de dire au revoir.
On n’a pas eu le temps d’une promesse.
Elle avait disparu du film de cette terre.
Lou
Lou
Lou, dans le rétroviseur d’un bref instant
Lou, ne me vois-tu pas ?
Lou, le destin d’être ensemble à jamais
dans quoi tu avais tellement foi
Eh bien?
Tu ne vas pas être comme les autres qui jamais plus ne font signe, englouties dans le silence.
Non, il ne doit pas te suffire à toi d’une mort pour t’enlever ton amour.
Dans la pompe horrible
qui t’espace jusqu’à je ne sais quelle millième dilution
tu cherches encore, tu nous cherches place
Mais j’ai peur
On n’a pas pris assez de précautions
On aurait dû être plus renseigné,
Quelqu’un m’écrit que c’est toi, martyre, qui va veiller sur moi à présent.
Oh ! J’en doute.
Quand je touche ton fluide si délicat
demeuré dans ta chambre et tes objets familiers que je presse dans mes mains
ce fluide ténu qu’il fallait toujours protéger
Oh j’en doute, j’en doute et j’ai peur pour toi,
Impétueuse et fragile, offerte aux catastrophes
Cependant, je vais à des bureaux, à la recherche de certificats gaspillant des moments précieux qu’il faudrait utiliser plutôt entre nous précipitamment tandis que tu grelottes
attendant en ta merveilleuse confiance que je vienne t’aider à te tirer de là, pensant «A coup sûr, il viendra
il a pu être empêché, mais il ne saurait tarder
il viendra, je le connais
il ne va pas me laisser seule
ce n’est pas possible
il ne vas pas laisser seule, sa pauvre Lou…
Je ne connaissais pas ma vie. Ma vie passait à travers toi.
Ca devenait simple, cette grande affaire compliquée. Ca devenait simple, malgré le souci.
Ta faiblesse, j’étais raffermi lorsqu’elle s’appuyait sur moi.
Dis, est-ce qu’on ne se rencontrera vraiment plus jamais ?
Lou, je parle une langue morte, maintenant que je ne te parle plus.
Tes grands efforts de liane en moi, tu vois ont abouti.
Tu le vois au moins? Il est vrai, jamais tu ne doutas, toi.
Il fallait un aveugle comme moi, il lui fallait du temps, lui, il fallait ta longue maladie, ta beauté, ressurgissant de la maigreur et des fièvres, il fallait cette lumière en toi, cette foi, pour percer enfin le mur de la marotte de son autonomie.
Tard j’ai vu. Tard j’ai su.
Tard, j’ai appris «ensemble» qui ne semblait pas être dans ma destinée.
Mais non trop tard.
Les années ont été pour nous, pas contre nous.
Nos ombres ont respiré ensemble.
Sous nous les eaux du fleuve des événements coulaient presque avec silence.
Nos ombres respiraient ensemble et tout en était recouvert.
J’ai eu froid à ton froid. J’ai bu des gorgées de ta peine.
Nous nous perdions dans le lac de nos échanges.
Riche d’un amour immérité,
riche qui s’ignorait avec l’inconscience des possédants,
j’ai perdu d’être aimé. Ma fortune a fondu en un jour.
Aride, ma vie reprend. Mais je ne me reviens pas.
Mon corps demeure en ton corps délicieux et des antennes plumeuses en ma poitrine me font souffrir du vent du retrait. Celle qui n’est plus, prend, et son absence dévoratrice me mange et m’envahit.
J’en suis à regretter les jours de ta souffrance atroce sur le lit d’hôpital, quand j’arrivais par les corridors nauséabonds, traversés de gémissements vers la momie épaisse de ton corps emmailloté et que j’entendais tout à coup émerger comme le «la» de notre alliance, ta voix, douce, musicale, contrôlée, résistant avec fierté à la laideur du désespoir, quand à ton tour tu entendais mon pas, et que tu murmurais, délivrée «Ah tu es là ».
Je posais ma main sur ton genou, par-dessus la couverture souillée et tout alors disparaissait, la puanteur, l’horrible indécence du corps traité comme une barrique ou comme un égout, par des étrangers affairés et soucieux, tout glissait en arrière, laissant nos deux fluides, à travers les pansements, se retrouver, se joindre, se mêler dans un étourdissement du cœur, au comble du malheur, au comble de la douceur.
Les infirmières, l’interne souriaient ; tes yeux pleins de foi éteignaient ceux des autres.
Celui qui est seul, se tourne le soir vers le mur, pour te parler.
Il sait ce qui t’animait. Il vient partager la journée.
Il a observé avec tes yeux. Il a entendu avec tes oreilles.
Toujours il a des choses pour toi.
Ne me répondras-tu pas un jour ?
Mais peut-être ta personne est devenue comme un air de temps de neige, qui entre par la fenêtre, qu’on referme, pris de frissons ou d’un malaise avant-coureur de drame, comme il m’est arrivé il y a quelques semaines. Le froid s’appliqua soudain sur mes épaules je me couvris précipitamment et me détournai quand c’était toi peut-être et la plus chaude que tu pouvais te rendre, espérant être bien accueillie ; toi, si lucide, tu ne pouvais plus t’exprimer autrement. Qui sait si en ce moment même, tu n’attends pas, anxieuse, que je comprenne enfin, et que je vienne, loin de la vie où tu n’es plus, me joindre à toi, pauvrement, pauvrement certes, sans moyens mais nous deux encore, nous deux…"

terça-feira, janeiro 18, 2011

segunda-feira, janeiro 17, 2011

Marta Blasco: Papeles rotos


Em “Papeles Rotos”, da artista Marta Blasco, um retrato feminino está articulado à volta de duas dimensões complementares, a técnica da gravura maneira negra e a animação. Uma vez concluída a imagem, esta é de seguida dividida em fragmentos para criar novas composições, como se a artista, além de querer imprimir um movimento continuo da mesma imagem, tentasse concentrar-se no ponto flutuante entre consciência e inconsciência, realidade e imaginação, ou num estado de semiconsciência, origem na qual se encontra a relação da artista com a estética do sublime.

Galeria Arthobler, Porto
De 22 de Janeiro a 27 de Fevereiro

domingo, janeiro 16, 2011

"Todos temos a ilusão de ser um tesourinho"

Não há sonhos mais legítimos que outros. Nem sonhar é exclusivo de um tempo ou de uma geração. Mas a distância entre sonho e realidade emagreceu. Antes, havia o sonho; agora, há a crença de que é sempre realizável. O mundo mudou. “O ideal moderno”, diz Gilles Lipovetsky em A Era do vazio, promoveu um valor fundamental: o da realização pessoal imediata.” O filósofo francês apresentava assim, no final dos anos 80, um novo tempo cuja lógica haveria de pautar-se pelo “mínimo possível de coacção e o máximo possível de opções, pelo mínimo de austeridade e o máximo de desejo”. As últimas décadas provaram que tinha razão. Não é justo atribuir aos media em geral e à televisão em particular esta mudança que legitimou novos valores, mas é impossível ignorar-lhe o poder – a TV criou a ideia de que não há impossíveis. E que a exposição pública compensa.

Dois exemplos: em Portugal, mais de 15 mil pessoas candidataram-se a Ídolos, programa da SIC cujo propósito era descobrir um cantor pop, exibido ao domingo em horário nobre e êxito de audiências. Prometia ao vencedor um curso na London Music School. Na TVI, a competição era outra. A Casa dos segredos desafiava uma dúzia de concorrentes a viver numa casa fechada, espécie de “Big brother” em que o último resistente teria direito a 150 mil euros. Conclusão: a exposição do indivíduo comum é lucrativa. A TV agradece. E todos ficam satisfeitos. Estamos face a uma sociedade, torna Lipovetsky, que “consome a sua própria existência através dos media”. Sociedade sem inocentes, cultivada pela TV e pela rentável maratona de reality-shows, pelos milhares de candidatos e audiências esmagadoras. Toda a gente tem um sonho e o veículo mais eficaz para realizá-lo parece ser a TV. Mas. quando corre mal e o sonho se despenha, é causa ou coincidência?

“A televisão não é uma ilusão. Permite, de facto, realização pessoal imediata. Torna as coisas possíveis e, muitas vezes, compensa. Democratizou o acesso a determinados patamares da vida”, afirma Pedro Boucherie Mendes, director dos canais temáticos da SIC, popularizado pelo desempenho mordaz no júri do Ídolos. Uma pessoa que nasceu numa aldeia do Alentejo, sustenta, “adquiriu o mesmo direito e a mesma possibilidade que eu de ter fama e ser uma estrela”. O retorno, mesmo se efémero, pode vir sob a forma de prémio monetário, de reconhecimento público ou de construção de uma carreira.

A questão não é, portanto, perceber onde está a possibilidade, mas de onde vem a necessidade. E, aparentemente, ela resulta de uma nova organização da sociedade. “Antigamente, as pessoas trabalhavam para ter uma carreira. Aos 14 anos era possível prever o que seriam aos 25; organizavam-se e viviam no sentido progressivo dessa meta. Havia um meio e um fim. Hoje, há uma travessia. Não se sabe de onde se parte, onde se está e para onde se vai”, explica Albertino Gonçalves, investigador do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho (UM). “Antes, havia um projecto; agora, há uma oportunidade, várias oportunidades – ou se agarram ou não. Antes, o percurso era ordinário; agora, é pautado pelo extraordinário. As pessoas têm a vida em aberto até mais tarde e com recursos de que antes não dispunham. Há a noção da vida como um puzzle, o que nos permite vestir várias personagens, ou seja, ser uma coisa aqui e outra ali.”

À mudança não é totalmente alheia a mão da TV. “As pessoas tendem cada vez mais a desenvolver uma relação com o mundo baseada no extraordinário, no feérico – até no sinistro, onde as coisas mais terríveis podem acontecer. Excluem a relação racional com o mundo e enveredam pelo carácter mágico. Acreditam em milagres, que o conto de fadas é possível, que podem ser o sapinho”, observa. E acreditam porque a televisão criou uma Susan Boyle, britânica catapultada para o sucesso aos 50 anos por ter rendido o Reino Unido, num programa equivalente ao Ídolos, ao cantar I dreamed a dream, do musical Os Miseráveis. Porque a televisão criou um Ted Williams, um sem-abrigo cuja voz radiofónica foi gravada por um repórter de televisão, daí resultando, em seu benefício, várias propostas de trabalho. “A crença no sonho, ela própria, não é nova, acompanha-nos desde sempre. Pode estar muito discreta, ser até secreta, mas existe sempre. A televisão veio apenas torná-la mais ostensiva”, defende o sociólogo.

Os exemplos de casos meteóricos sucedem-se e dão razão a Boucherie Mendes: “A TV resolve muitas vidas.” Mas a eficácia em tornar alguém conhecido nem sempre é sinónimo da real existência de um talento. O próprio escreveu em Agosto do ano passado, na Index, revista do diário i: “O mundo tem com certeza muitos defeitos, mas o maior é esta mania dos sonhos. Quem sonha julga-se automaticamente especial. Como é especial, o seu sonho será real mais tarde ou mais cedo. Alguém que se julga muito especial dificilmente percebe que é tão especial como um grão de areia na praia”.

Albertino Gonçalves corrobora: “Há hoje a ideia de que cada um de nós é um tesourinho, e que se esgravatarmos bem vamos encontrar coisas extraordinárias, o que não é verdade”. E explica a diferença: “Antes, apreciava-se um Elvis Presley com a devida distância, com a consciência de que estava envolto em qualidades extraordinárias, inatingíveis. Hoje, vê-se um herói e acredita-se que é possível ser igual, fazer igual. Sobretudo porque os heróis, hoje, não são pessoas inatingíveis, com capacidades ímpares; são pessoas comuns que a TV simplesmente transformou em estrelas.”

O problema, acrescenta Eduardo Cintra Torres, investigador e crítico de Televisão, “é que participar num programa televisivo, ou mesmo ganhá-lo, não garante o êxito.” E pergunta: “Os programas inscritos no real já existem há alguns anos, onde estão os concorrentes? Onde estão os ganhadores?” A TV, reconhece, “criou uma nova expectativa nas pessoas, mas não é garante de nada”, insiste. Até porque, afirma de encontro à ideia de Gonçalves, “se antes a fama resultava do talento ou do talento acrescido de beleza – casos da actriz americana Grace Kelly ou da austríaca Romy Schneider, ambas belas e talentosas –, hoje pode resultar de pouco mais do que nada.”

E é justamente deste “pouco mais do que nada”, observado em programas cujos concorrentes ficam conhecidos apenas por fazerem confissões de, por exemplo, adultério, que resulta outra importante mudança social. “O estatuto do ridículo mudou. Vivemos numa sociedade que valoriza o grotesco, o insólito. O ridículo já não mata. É só uma maneira de ser. E isso explica a desinibição”, considera o investigador da UM. “Diante da TV, as pessoas sofrem uma transformação: não é hipnótica, mas os controlos normais da razão, do bom senso e da auto censura ficam bloqueados, e o que sai é uma personagem.” Haverá quem questione o preço desta exposição. O sociólogo responde: “Para quem a deseja, a fama leva, de facto, as pessoas até às estrelas. Não é igual à adrenalina, mas é semelhante a um sonho a ser decantado dentro. E a fama é efémera, mas efemeridade é a única certeza que hoje temos sobre as coisas”.

Acontece que, de vez em quando, o sonho não só fica pelo caminho como corre mal. Zé Maria, vencedor do primeiro Big Brother, tentou suicidar-se; na Suécia, em programa idêntico, o vencedor suicidou-se mesmo. E Renato Seabra, finalista do programa da SIC, À procura de um sonho, é o principal suspeito de ter assassinado um homem. São tudo coincidências ou os concorrentes não estão preparados para o embate com a realidade, com uma resposta que porventura não lhes cumpre o imaginário e ficam perigosamente vulneráveis?

“Há uma indústria que vive das pessoas que querem fama. E, claro, há vítimas. Mas nas minas de carvão também há”, relativiza Cintra Torres. “Diabolizar a TV ou responsabilizá-la pelo comportamento desviante dos concorrentes não faz qualquer sentido. As coisas que ali acontecem, acontecem porque a sociedade as permite, deseja e amplia.” É aquilo que Boucherie Mendes designa como “efeito do acidente de automóvel: há um apelo para parar e ficar a ver”. De resto, tende a concordar com o crítico. “Em Portugal, vivemos numa sociedade que infantiliza as pessoas. São, desde muito cedo, desresponsabilizadas. Aprendem a usar desculpas para o que não são capazes de fazer, até que essa sucessão de desculpas se transforma numa norma. Isso explica que os candidatos tenham um sonho mas, paradoxalmente, não sejam ambiciosos. E não significa que não estejam preparados para aceitar as regras de um programa, a partir do momento em que decidem fazer parte dele”.

Albertino Gonçalves não discorda, mas deixa uma nota: “As experiências potenciadas pelos media alteraram a nossa relação com a sociedade. E têm dois riscos: a alucinação, porque cria uma hiper realidade; e melancolia, a ideia de que não somos nada só porque não estamos ali. Olhamos para o espelho retrovisor, vemos as ruínas e perdemos a fé. Ambos os riscos são extremos”, reconhece, “mas ambos são perigosos”.

Perigosos, mas não o suficiente para fazer explodir a bomba que, em potência, somos todos, ressalva Rui Abrunhosa Gonçalves, professor de Psicologia Forense da UM, especialista em psicologia do comportamento desviante. “Há várias coisas que, num indivíduo aparentemente exemplar, pode despoletar uma reacção dissociativa. Mas está sempre associada a um período tóxico (consumo de drogas, a personalidade esquizóide ou a uma patologia, mesmo que tão suave que só seja susceptível de ser detectada por um especialista”.

sábado, janeiro 15, 2011

Clara Ferreira Alves: O político e os patetas

Não me lembro de uma campanha política com maior indigência política do que esta. Lá estão eles na televisão, a falar de quê? Cavaco admite que ele e a mulher não passam de dois míseros professores, dois pobres professores, que puseram as suas poupanças, as poupanças de toda uma vida, num banco onde por acaso tinham uns amigos e conhecidos, e por acaso tiveram um lucro de cento e tal por cento sem como nem porquê. Um banco ao qual devemos todos nós, portugueses, milhões de euros. Assim, nem se sabe bem como. É uma daquelas coisas que acontecem a todos, até a nós, portugueses.

Quem ouvir Cavaco acha que o homem esteve estes anos todos exilado, e nunca foi nada, nunca quis ser nada mais do que um pobre professor e um agricultor de anonas, anonas que são todas oferecidas para solidariedade social. O Cavaco primeiro-ministro dez anos, o Cavaco candidato presidencial que perdeu com Jorge Sampaio (sim, perdeu, leram bem) e o Cavco de cinco anos de Presidência da República e de "magistratura passiva" (visto que só agora nos propõe a activa) nunca existiram. E o Cavaco que estes anos todos continuou a usar o controlo remoto para comandar o PSD e os seus líderes também nunca existiu. Resta-nos um professor (e a sua mulher) cheio de indignação existencial perante a legitimidade política da pergunta sobre a sua relação com a quadrilha do BPN.

Um candidato destes, que não se sabe que programa político tem, que convicções tem, deveria ser facilmente derrotado por outro candidato com força e com programa. Certo? O pior é que ouvimos os outros candidatos e parece que chegámos à Disneylância. Mais uma caterva de homens sérios sem uma ideia política dentro da cabeça. O mais penoso é Fernando Nobre, que não se sabe ao que vem nem porque vem e que só diz inanidades. O menos penoso é o do PC, que repete a cassete. Os outros dois não existem nem existe alguém que se preocupe com a sua existência. E Manuel Alegre? Queixa-se do PS e devia queixar-se dele mesmo. A ideia de desafiar Cavaco para interromper a campanha eleitoral e salvar Portugal do FMI é de certeza a ideia mais estúpida de toda a campanha. Alegre não percebe. Nem o que se está a passar com Portugal nem o que compete ao Presidente. O único poder que o Presidente português tem nas mãos chama-se capacidade de dissolução do parlamento, a única razão porque a eleição é importante é esta: quem ganhar terá a possibilidade de fazer cair o Governo. Ou mantê-lo em funções.

As patetices da campanha de amadores são a consequência da falta de visão dos candidatos e também a consequência da falta de exigência do jornalismo português. Nunca foi tão visível o empobrecimento intelectual do jornalismo e da política. O jornalismo tem de fazer as perguntas que ninguém faz e obter as respostas a que o público tem direito. Chegaram à profissão carregamentos de jovens sem preparação, mão de obra barata que exerce a profissão com a leviandade e a ignorância dos maus alunos. Existem colunistas e comentadores de cueiros, ligados a partidos e presumindo de independentes, existem estagiários a cobrir acontecimentos históricos, existem editores que não editam, existem prioridades invertidas. Existem trepadores sociais e velhos do Restelo.

Quando Portugal é falado em todo o mundo por causa da incapacidade de resolver o problema do financiamento externo, analisando friamente o problema (o que em Portugal nunca se faz, apesar de tanto comentador) os jornais e televisões dedicam espaço e atenção ao "modelo" Renato Seabra e ao assassínio de Carlos Castro, subitamente promovido a "jornalista". Destacando repórteres e meios que nunca destacam para cobrir acontecimentos internacionais que nos dizem respeito, o jornalismo tablóide chafurdou neste caso e agarrou-se a ele como a uma tábua de salvação. Dá audiências, as audiências que este jornalismo criou e alimenta. A nossa pouca exigência é o resultado desta indigência. E a nossa complacência para com a má governação é o resultado desta falta de atenção e inversão das prioridades. O país tornou-se como a televisão que tem: um jornaleco de escândalos.

Portugal não quer saber. Venha o FMI, não venha o FMI, tudo lhe é indiferente. O conformismo português, herdado de Salazar mas anterior a ele, atávico, é um conformismo nascido da ignorância e da desqualificação. Do subdesenvolvimento. Neste cenário, fica-se com a impressão de que o único político que se mexe e não se resigna é José Sócrates. O único que trabalha. Como todos os seus defeitos, Sócrates tem-se batido, e tem desempenhado um difícil papel no meio de ministros cansados e governantes exaustos de nada fazer, com excepção de Teixeira dos Santos. O Governo não existe, ele sim. No meio dos patetas, aparece um político. Esperam que ele se demita? Esperarão.

Clara Ferreira Alves, Pluma Caprichosa, revista Única, Expresso

sexta-feira, janeiro 14, 2011

Nicolau Santos: Portugal vale a pena


"As cerca de 70 crónicas que escolhi destinam-se a passar cinco mensagens.  A primeira, e mais importante, é que Portugal é muito melhor do que imaginamos. No país existem inúmeras ilhas de excelência, nos sectores privado e público, muitas vezes não reconhecidas ou desconhecidas inteiramente...."

quinta-feira, janeiro 13, 2011

"Não vou mudar o mundo, mas não abdico de escrever como se o conseguisse"


"É claro que não me iludo - sei que não vou mudar o mundo. Mas não abdico de escrever como se o conseguisse. De outro modo, não vale a pena. Se não juntarmos sonho e paixão ao que fazemos, pensando que aquela frase, figura ou tema podem ajudar a esclarecer ou a mudar a opinião de uma pessoa que seja, ou torná-la mais profunda e mais exigente, não estamos a fazer nada no jornalismo. Nunca achei que uma peça minha, só por ser capa, ia trazer o pessoal para as ruas e provocar uma revolução... Porém, se cinquenta pessoas tiverem sido tocadas pelo que escrevi e passarem a ter uma perspectiva diferente sobre um dado acontecimento, isso é o que verdadeiramente conta para mim."

Miguel Carvalho, redactor principal da Visão, Grande Prémio Gazeta 2009, em entrevista à Jornalismo & Jornalistas

quarta-feira, janeiro 12, 2011

Paulo Nozolino: Makulatur


Doze fotografias em seis dípticos. A perda, a raiva e a mácula. É a mais pessoal exposição de Paulo Nozolino de sempre. Sóbria e  contida, uma reflexão sobre a vida e a morte. “Makulatur” surge dois anos depois de “bone lonely” e será igualmente editada em livro pela alemã Steidl.

Inauguração 24 de Fevereiro 2011
Galeria Quadrado Azul, Largo dos Stephens,
Lisboa, 22h

terça-feira, janeiro 11, 2011

António Barreto: Fotografias



"Revi milhares de imagens e, de repente, uma sensação parecia atravessar a maior parte delas: eu estava ali de passagem. É o principal sentimento que me fica depois desta incursão em quarenta anos de vida e de memória. Fico com a impressão de que passei pelo mundo, cidades e campos, homens e mulheres, sempre distante. Parece que nunca pertenci. Que nunca fiz fotografias "de dentro", que nunca me integrei. Em frente, atrás ou de lado, mas sempre distante. Esta distância tem que se lhe diga. Em cada momento, estava lá. Com outros, graças a outros. Mas não pertenci."

Há poucos homens que admire mais em Portugal do que António Barreto. Dele se soube sempre que fotografava. Mas as imagens quase nunca tinham sido vistas. Não seguramente desta forma. O livro que, finalmente, decidiu publicar em Outubro do ano passado é tão bonito que só pode contrariar o texto, lindíssimo, que o próprio escreve: uma imagem pode mesmo comover mais do que a palavra. Por muito "rápida, imediata e sensorial" que seja a primeira; e "complexa, durável e reflectida" a segunda. Mas numa coisa estamos de acordo: "Muitas vezes, a fotografia revela mais a identidade do fotógrafo do que o carácter das pessoas ou das coisas fotografadas". António Barreto estará inteiro nesta colecção de, como diz, "destroços". É um absoluto privilégio assistir ao patchwork que com eles conseguiu fazer.

segunda-feira, janeiro 10, 2011

À procura de um sonho


Toda a gente tem sonhos. E segredos. E pecados. Quem não sonha está morto; quem não se resguarda é tonto; quem não peca é santo. Sonhos, segredos e pecados não são crime. O problema está na fronteira que determina as respectivas definições. E, mais importante, na maturidade e no bom-senso necessários para suportar cada um deles. Como em tudo na vida, de vez  em quando é preciso colocar o pé no travão.

Renato Seabra, 21 anos, finalista de Ciências do Desporto, em Coimbra, tinha um sonho: ser manequim, provavelmente internacional. Ambição legítima. Candidatou-se a um concurso televisivo, que a televisão parece ser o único veículo reconhecido como eficaz pela geração à qual pertence. Ficou em segundo lugar. A família há-de ter ficado feliz. Os amigos também. Ninguém questionou. Ninguém accionou o travão. Neste tempo, nada parece satisfazer mais as pessoas do que exibir o seu talento, seja ele qual for, na televisão - e a televisão dá para tudo: para cantar, dançar, representar, cozinhar, emagrecer ou só para simular o quotidiano dentro de uma jaula. Vale tudo. Daqui a cem ou duzentos anos, há-de falar-se deste tempo como um tempo muito sinistro.

Mas nem a televisão, com toda a sua pressa, parece ter conseguido responder à urgência do sonho de Renato. E, por isso, talvez ele tivesse também um segredo. Que mal teria aproximar-se de Carlos Castro, 65 anos, velho colunista do suposto glamour nacional a quem os transeuntes desse suposto glamour agradeciam a rampa de lançamento, se com isso conseguisse acelerar a projecção da sua carreira? Aparentemente, não teria mal nenhum. Se tivesse tido travão. Maturidade e bom senso. E verdade, já agora, que é coisa que também começa a escassear. Ou alguém por ele. Se tivesse havido uma mãe ou um pai que tivesse pensado duas vezes antes de autorizar o filho a viajar (para Madrid, Londres e Nova Iorque) com aquele homem, por muito conhecido que fosse. Com aquele ou com qualquer outro. Mas os holofotes cegam quem nos holofotes quer ser feliz.

E foi seguramente um Renato cego, independentemente de ser homo ou heterossexual, que matou outro homem, também ele cego, Carlos Castro. O primeiro, cego pela ambição; o segundo, cego pela devoção de um rapaz mais novo. Num crime que se presta a tanto folclore - as piadas ainda não começaram, mas não hão-de tardar -, o que mais me choca não é a morte, por monstruosa que tenha sido. O que verdadeiramente me choca é disponibilidade mental que as pessoas cada vez mais parecem ter para permutar a honra pela desonra. Mesmo que para sempre consigam manter a desonra em segredo. E, neste caso, não sei quem a permutou primeiro: se o homem que não teve coragem para se afastar de um miúdo sequioso de fama, preferindo acreditar que este o amava; se o miúdo, perigosíssima e preocupante amostra de uma geração, que é capaz de se violentar ao ponto de fingir amar alguém só para daí retirar benefício. Choca-me ainda mais a quantidade de histórias destas que hão-de pulular por aí sem que delas tenhamos conhecimento só porque não tiveram um desfecho trágico. E choca-me, finalmente, que a comunicação social, tão empenhada que está em abordar o assunto com pinças e pruridos, esteja a passar ao lado do assunto que mais interessa: quem é responsável pela desintegração dos valores desta gente, que é muita, para quem a vida só é vida se for mediática? E quem os protege?

Do sonho e do segredo de Renato, restou-lhe apenas o pecado. Capital. Poderia ser mais triste?

sábado, janeiro 08, 2011

Atom Egoyan: Chloe



Remake menor de Nathalie, de Anne Fontaine, de 2003.
Julianne Moore versus Emmanuele Béart.

quinta-feira, janeiro 06, 2011

Lugar II

[Stefanie Schneider]

Há sempre uma noite terrível para quem se despede
do esquecimento. Para quem sai,
ainda louco de sono, do meio
do silêncio. Uma noite
ingénua para quem canta.
Deslocada e abandonada noite onde o fogo se instalou
que varre as pedras da cabeça.
Que mexe na língua a cinza desprendida.

E alguém me pede: canta.
Alguém diz, tocando-me com seu livre delírio:
canta até te mudares em cão azul,
ou estrela electrocutada, ou em homem
nocturno. Eu penso
também que cantaria para além das portas até
raízes de chuva onde peixes
cor de vinho se alimentam
de raios, seixos límpidos.
Até à manhã orçando
pedúnculos e gotas ou teias que balançam
contra o hálito.
Até à noite que retumba sobre as pedreiras.
Canta - dizem em mim - até ficares
como um dia órfão contornado
por todos os estremecimentos.
E eu cantarei transformando-me em campo
de cinza transtornada.
Em dedicatória sangrenta.

Há em cada instante uma noite sacrificada
ao pavor e à alegria.
Embatente com suas morosas trevas.
Desde o princípio, uma onde que se abre
no corpo, degraus e degraus de uma onda.
E alaga as mãos que brilham e brilham.
Digo que amaria o interior da minha canção,
seus tubos de som quente e soturno.
Há uma roda de dedos no ar.
A língua flamejante.
Noite, uma inextinguível
inexprimível
noite. Uma noite máxima pelo pensamento.
Pela voz entre as águas tão verdes do sono.
Antiguidade que se transfigura, ladeada
por gestos ocupados no lume.

Pedem tanto a quem ama: pedem
o amor. Ainda pedem
a solidão e a loucura.
Dizem: dá-nos a tua canção que sai da sombra fria.
E eles querem dizer: tu darás a tua existência
ardida, a pura mortalidade.
Às mulheres amadas darei as pedras voantes,
uma a uma, os pára-raios abertíssimos da voz.
As raízes afogadas do nascimento. Darei o sono
onde um copo fala
fusiforme
batido pelos dedos. Pedem tudo aquilo em que respiro.
Dá-nos tua ardente e sombria transformação.
E eu darei cada uma das minhas semanas transparentes,
lentamente uma sobre a outra.
Quando se esclarecem as portas que rodam
para o lugar da noite tremendamente
clara. Noite de uma voz
humana. De uma acumulação
atrasada e sufocante.
Há sempre sempre uma ilusão abismada
numa noite, numa vida. Uma ilusão sobre o sono debaixo
do cruzamento do fogo.
Prodígio para as vozes de uma vida repentina.

E se aquele que ama dorme, as mulheres que ele ama
sentam-se e dizem:
ama-nos. E ele ama-as.
Desaperta uma veia, começa a delirar, vê
dentro de água os grandes pássaros e o céu habitado
pela vida quimérica das pedras.
Vê que os jasmins gritam nos galhos das chamas.
Ele arranca os dedos armados pelo fogo
e oferece-os à noite fabulosa.
Ilumina de tantos dedos
a cândida variedade das mulheres amadas.
E se ele acorda, então dizem-lhe
que durma e sonhe.
E ele morre e passa de um dia para outro.
Inspira os dias, leva os dias
para o meio da eternidade, e Deus ajuda
a amarga beleza desses dias.
Até que Deus é destruído pelo extremo exercício
da beleza.

Porque não haverá paz para aquele que ama.
Seu ofício é incendiar povoações, roubar
e matar,
e alegrar o mundo, e aterrorizar,
e queimar os lugares reticentes deste mundo.
Deve apagar todas as luzes da terra e, no meio
da noite aparecente,
votar a vida à interna fonte dos povos.
Deve instaurar o corpo e subi-lo,
lanço a lanço,
cantando leve e profundo.
Com as feridas.
Com todas as flores hipnotizadas.
Deve ser aéreo e implacável.
Sobre o sono envolvida pelas gotas
abaladas, no meio de espinhos, arrastando as primitivas
pedras. Sobre o interior
da respiração com sua massa
de apagadas estrelas. Noite alargada
e terrível terrível noite para uma voz
se libertar. Para uma voz dura,
uma voz somente. Uma vida expansiva e refluída.

Se pedem: canta, ele deve transformar-se no som.
E se as mulheres colocam os dedos sobre
a sua boca e dizem que seja como um violino penetrante,
ele não deve ser como o maior violino.
Ele será o único único violino
Porque nele começará a música dos violinos gerais
e acabará a inovação cantada.
Porque aquele que ama nasce e morre.
Vive nele o fim espalhado da terra.

Herberto Helder

House

"A tristeza é melhor do que nada."

quarta-feira, janeiro 05, 2011

Malangatana 1936 - 2011


"Havia muita gente a pintar paisagem. Eu queria ter liberdade. De expressão. Só que não sabia bem: era eu que queria ter liberdade de expressão ou era um bicho qualquer dentro de mim?"

segunda-feira, janeiro 03, 2011

Anamnese

É estranho termos 30 anos e sentirmos que temos 60. Há pelo menos dez anos que queremos chegar depressa aos 60 para podermos exilar-nos sem culpa nem desconfiados olhares de soslaio no Alentejo - caso o paraíso alentejano não se transforme no inferno algarvio. Não é preguiça; é só inadaptação ao tempo. Termos de viver os próximos 30 anos à espera dos 60 é uma esquizofrenia que não augura nada de bom.

Gostamos de livros de papel. Das capas. Do cheiro. De os sublinhar, de desenhar rodelas à volta das palavras que não conhecemos. Gostamos de escrever a data em que os comprámos ou nos foram oferecidos, e a data em que os começámos e acabámos de ler. Gostamos de fazer marcadores com amostras de perfume. Gostamos de transportar os livros, de os guardar e acumular à mesa de cabeceira, de precisar de uma frase e conseguirmos ir lá dar, em qualquer que seja o livro em que ela habite, de olhos quase fechados. Não gostamos de tablets, kindles, iPads ou smartphones. Mesmo que sejam parecidos com os livros, mesmo que os livros lá sejam mais baratos e caibam mil lá dentro, mesmo que se possa aumentar as letras e sublinhar com uma caneta virtual. Mesmo que sejam mais leves. Mesmo que seja possível traduzir em directo as palavras que não sabemos. Gostamos de ir ao dicionário. De significados, de sinónimos. E depois ficar a passear pelos sinónimos dos sinónimos.

Gostamos de jornais em papel. A preto e branco. Mesmo que sujem as mãos. Gostamos de textos longos, bem escritos, contextualizados, que nos mostrem alguma coisa para lá do óbvio. Que nos ensinem e nos despertem. Que nos comovam. Gostamos de textos que esgotem assuntos. Gostamos de jornalistas que não escrevem como os outros todos. Gostamos de um jornalismo que já não existe. Gostamos de fazer recortes e dossiers com os cronistas a que somos fiéis. Não gostamos da voragem informativa, de saber notícias hoje que vamos esquecer amanhã. Gostamos da preservação da memória, do jornalismo que não noticia só a última hora. A espuma dos dias. Gostamos do jornalismo que se colecciona. Coleccionava.

Não gostamos de crianças que são tratadas como adultas aos seis anos. Gostamos de crianças que acreditam no pai-natal até tarde, que acham que podem voar, que os animais falam e que os seres inanimados também sentem dor. Gostamos de crianças que não têm pressa de crescer. E que foram ensinadas a amar, a respeitar os mais velhos. Não gostamos de conhecer pessoas novas. Muito menos na internet. Gostamos do nosso núcleo duro. E gostamos de o ver ser furado uma vez em cada milhão por uma pessoa nova, alguém tão terrivelmente especial que parece que fez sempre parte de nós. Gostamos de ter pessoas em casa. De sentir muitas saudades delas quando vão embora. Já quase não gostamos de sair à noite. Gostamos de ficar acordados até tarde a conversar. Não gostamos de música aos gritos. Gostamos de silêncio.

Não gostamos de centros comerciais. Nem de lojas de espécie quase nenhuma. Gostamos de colocar a mesa para o pequeno-almoço como se houvesse todo o tempo do mundo para o tomar. Gostamos de guardanapos de pano. De ir buscar água ao bosque. E medronhos. E lenha para a lareira. Gostamos de ir comprar pão de pijama. E dizer bom-dia a quem passa. Gostamos de calçar galochas e chapéu e passar as manhãs a tratar do jardim. Mesmo que esteja frio e a chover. Gostamos do culto do almoço domingueiro. Dos vizinhos que são como família. Amamos a família! Não gostávamos de a ver só de vez em quando. Gostamos de estar em casa. De a ter cheia de brinquedos com nomes, apesar de não haver crianças. Gostamos de cartas enviadas pelo correio. De bilhetes escritos em post-its. De acordar todos os dias com um "gosto de ti". Gostamos de riscar no calendário os dias que faltam para a visita de alguém.

Gostamos de coisas datadas, irrepetíveis, de pessoas sobretudo. E sobretudo de ter tempo. Não gostamos de competir. De correr, de atropelos. Não gostamos de juízos de valor. Nem de quem vive para acumular. Gostamos de partilhar. E de ser surpreendidos pela bondade de alguém. A bondade de partilhar uma receita. Gostamos de passear de mãos dadas. E de ficar no sofá embrulhados numa manta. Gostamos quando o mundo parece um lugar maravilhoso só por causa disso. Só porque estamos juntos. 

sábado, janeiro 01, 2011

2011

If at first you don't fail,
TRY and TRY and TRY again.
Be stupid!
The supid are the
only ones brave!