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sexta-feira, março 10, 2006

Rodrigo Guedes de Carvalho

(Fotografia: Bruno Castanheira)

"O jornalismo passa ao lado do essencial da vida"
Não escreve para que lhe descubram as entranhas, mas reconhece que os seus livros dirão mais de si do que o jornalismo. Não tem a preocupação de obedecer às tendências e teme o dia em que a obra seguinte não esteja à altura da anterior. Rodrigo Guedes de Carvalho, “afinal, é uma pessoa sensível”, diz de si, com ironia.O jornalista é diferente do escritor, é diferente do argumentista. “Coisa ruim”, o filme que escreveu, foi visto por 15.230 espectadores na semana de estreia. “A casa quieta”, romance publicado há meio ano e já na 6.ª edição, foi um dos cinco escolhidos pelo Instituto Português do Livro e da Biblioteca para representar Portugal na Bienal de S.Paulo. O próximo livro, “A mulher em branco”, é apresentado no Porto, a 4 Abril. O seu campeonato é, afinal, o da literatura.
(Entrevista de Helena Teixeira da Silva parcialmente publicada no Jornal de Notícias a 11 de Março de 2006)
Teve a pretensão de inaugurar uma nova etapa no cinema português ao escrever o argumento de “Coisa Ruim”, um filme de terror?
Fizemos história ao ser o primeiro filme português a inaugurar o Fantasporto e a estar em competição em longa-metragem. Filmes são longas-metragens; literatura são romances. Contos e curtas não contam. Não é uma verdade absoluta – é o meu entendimento. Mas não houve qualquer pretensão na feitura ou na montagem do filme de inaugurar o que quer que fosse. Foi uma feliz coincidência.

O centro do filme é uma casa assombrada. É o purgatório?
Pode ser, sobretudo porque trabalho sempre a partir das personagens: quem são, de onde vêm, qual é a sua relação. No filme interessava-me a implosão daquela família. Enquanto está em Lisboa vive um quotidiano cheio de não-ditos, de fantasmas. Provavelmente teria continuado assim se não se tivesse deslocado para aquela casa, na aldeia. Os acontecimentos dão um estado de enervamento e de stress tal que começam a dizer o que realmente sentem.

Porque é que essa aldeia não é identificada?
Porque não é relevante. E porque o filme não tem, de facto, um local. Aquela aldeia é feita de pedacinhos de aldeias da zona. A maior parte dos sítios já estão contaminados por antenas parabólicas e cabos de alta tensão. Relevante é o facto de se passar num interior profundo. Pode ser onde se quiser, neste caso, é tudo na zona de Torrozelo. A casa sobretudo. Não deve haver nenhum português, por mais citadino que seja, que não tenha uma tia ou uma avó, um padrinho de regiões semelhantes. É um imaginário que está presente em todos os portugueses, provavelmente nos mais velhos com mais força e com mais referência, mas os miúdos novos, de uma forma ou de outra, também já vão conhecendo esses locais.
As histórias que o inspiraram foram-lhe contadas como tendo efectivamente acontecido ou já como lendas?
Algumas, poucas, como tendo efectivamente acontecido; outras provêm de leituras. Sou um apaixonado pelo tema. Desde criança que li os mais variados livros, desde os mais naifs sobre lendas religiosas de Portugal ou "Velhas e novas andanças do diabo em Portugal" ou livros que normalmente não são romances - são ensaios ou compilações de lendas. E todo esse universo foi ficando em mim e foi-me aparecendo no momento da escrita. Foi um processo um pouco inconsciente.

Não sendo crente, o imaginário popular merece-lhe respeito?
Sou não crente do ponto de vista estritamente religioso. Não professo nenhuma religião. Sou crente em dados históricos como, por exemplo, a existência de Jesus Cristo, mas não mais do que isso. A existência de um deus omnipresente e todo poderoso não tem cabimento para mim. Em relação a tudo o que seja lenda ou superstição sou céptico. Tenho tendência a racionalizar as coisas. É um mecanismo de defesa. Racionalizamos para não nos permitirmos ter medo. No entanto, perante tantos acontecimentos, alguns profusamente documentados ou testemunhados, acho que deve haver mais coisas entre o céu e a terra do que aquelas que nós conseguimos explicar.

Mas coloca-se sempre no papel do observador, como estando de fora, como não fazendo parte daquilo…
Sim, não fazendo parte daquilo e tentando não me deixar atemorizar por isso. Penso que todos já tivemos situações de medo absolutamente irracional, uma inquietude que não sabemos de onde vem: é o vento, é um animal que passou no restolho. Se é isso, não há razão para ter medo, e no entanto, naquele momento, nós temo-lo. Era um pouco essa sensação que se quis transportar para o filme.

Definiu um público alvo?
Nunca o defino. Primeiro, porque podemos não atingir todo o público-alvo; segundo, porque estaríamos a excluir parte do público. Escrevo na esperança de que toda a gente aprecie, sabendo que isso é impossível. Mas há uma coisa que está a verificar-se e que nos enche de orgulho: na generalidade tivemos boa crítica e estamos a ter muito público. Os dados do primeiro fim-de-semana são muitíssimo prometedores.

Terá a ver também com uma cobertura mediática invulgar?
Sou quem sou e o ano passado lancei um livro que não teve metade deste foguetório.

Também porque não quis...
É verdade. No caso do “Coisa ruim”, o meu nome pode ter ajudado, mas não foi determinante. Gosto da minha posição de mero argumentista. A grande alavanca da promoção deve-se à abertura oficial do Fantasporto e ao facto de o Paulo Branco ter gostado muito do filme e ter apostado na promoção, o que não costuma fazer. O problema dos objectos é que se não os publicitarmos, as pessoas não sabem que existem.

A cultura merecia ter mais expressão nos media?
Completamente! Sou um lutador dentro da SIC para que a cultura tenha mais cobertura mediática. E nós já devemos ser os que lhe prestamos maior atenção.

É um espectador assíduo de cinema português?
Não totalmente assíduo, mas ultimamente vi praticamente tudo. Houve filmes da última década que me escaparam.
Viu os filmes nomeados para os Oscars?
Só vi o Crash.

Dois filmes nomeados para os Oscars levantaram questões essenciais sobre o jornalismo. Entre a vampirização dos afectos [“Capote”] e a incondicional vigilância da verdade [”Boa noite e boa sorte”] onde se situa?
No cinema interessa-me pouco a caução do real. Mas, por natureza, o jornalista é um vampiro, embora não tanto quanto o escritor, que está quase sempre a levitar do seu corpo. Tudo é matéria, mesmo as coisas mais pessoais. O jornalismo tem um drama: passa ao lado do essencial da vida. Toca, como um mosquito, coisas e vidas às vezes graves e segue para a próxima reportagem. Não podemos sentir-nos culpados. Não podemos embrenhar-nos na vida de todas as pessoas que tocamos.

Mas é-lhe permitida emoção, piscar o olho ao espectador?
Não só é permitida como é necessária. Não sou um absoluto fundamentalista da objectividade, até porque, enquanto valor absoluto, não existe. Pelo menos, não é identificável. Como é que nós dizemos que fulano é objectivo e outro não é? Obviamente, o jornalista – passe o lugar comum – é também um ser humano e isso é uma vantagem para a sua profissão, porque no acto de comunicar, as pessoas vão sentir que é uma pessoa como elas que assistiu aquilo e que lhes está a comunicar isso, não foi uma máquina, um robot. Não pode é utilizar as emoções que retirou da reportagem para com isso manietar ou manipular o espectador. Tem que saber usar isso. Tem que lhe ser dada a oportunidade de ser uma pessoa que sente, que se emociona, que não passa incólume pelas coisas.

"Boa noite e boa sorte" retrata sobretudo um período turbulento de pressões. Já as sentiu?
De uma forma geral, acho que não. Portugal não é um bom exemplo para isso. Portugal é tão pequenos em tudo que até nas pressões o somos. Não posso falar por outros colegas ou empresas, mas nunca senti pressão em qualquer sentido: forçar notícia porque interessa ou ocultar dados que fossem de alguma forma comprometedores. Dar-me-ia muito mal com esse tipo de pressão. Não digo o que faria porque nenhum de nós sabe. Seria fácil dizer que batia a porta e ia para debaixo da ponte. Mas na realidade, não sei. E nunca senti pressões, nem na RTP nem na SIC. Aliás, o Pinto Balsemão, com alguns defeitos que possa ter, tem uma tradição, reconhecida por todos, de ser uma pessoa que respeita muito os seus jornalistas.

Os seus livros resultam da adaptação de episódios reais fornecidos pelo jornalismo?
Não preciso de acontecimentos reais para ficcionar. Até agora não o fiz, mas não me choca quem o faz. O escritor não deve ter barreiras que não sejam as do seu bom senso. Tudo serve, desde que seja feito com qualidade. Não pode haver barreiras na arte.

No seu caso, a informação funciona como elemento inibidor?
A informação com que lido não me tem fornecido matéria interessante. No meu próximo livro há uma criança que desaparece. Isso não quer dizer que o escrevi porque tenho dado muitas notícias sobre crianças que desaparecem. Mas como a minha escrita não tem nada de fantasioso – é sempre sobre pessoas e acontecimentos reais –, é normal que algumas situações sejam contaminadas por notícias que apresento.

O livro chama-se “A mulher em branco”. Qual é o fio condutor?
É a história de um divórcio violento. Interessam-me as relações humanas. É sobre isso que gosto de escrever – não sei se é sobre isso que continuarei a escrever. No fim-de-semana em que o homem tem o filho à sua guarda, vai passear com a criança e ela desaparece em circunstâncias que depois se perceberá. O homem, que já tem uma relação difícil com a mulher, tem que informá-la que perdeu o filho de ambos. É o sentimento de culpa elevado à décima casa. A mulher, com o choque, fica amnésica. Uma amnésia retrógrada que se caracteriza pelo facto de sermos capazes de recordar a infância, mas não o passado recente. Com a amnésia, a mulher não se lembra sequer que tem um filho, logo não o pode chorar.

Daí o título...
Sim. Foi desafiante trabalhar o que se passa na cabeça de uma mulher que não tem nada na cabeça.

Fez pesquisa sobre a matéria?
Não, não pergunto nada a ninguém. Estou permanentemente a fazer pesquisa no meu dia-a-dia, em silêncio. E quando escrevo estou completamente a marimbar-me para as tendências, senão teria escrito um romance histórico. E estava garantido. Interessa-me a relação orgânica que tenho com a minha escrita, explorar cada vez melhor a palavra. Vejo a literatura como a escultura: temos um pedaço de granito e começamos a buscar o que está lá por baixo. É uma luta comigo: tentar ser melhor. E como tenho a vantagem de não viver da literatura, escuso de saber o que o mercado quer.

O livro será apresentado em Abril, no Porto, com a mesma discrição de “A casa quieta”?
Está prevista uma apresentação normalíssima. Convidarei sobretudo amigos, porque é um momento de cumplicidades mais do que de fogo de artifício e espavento. Logo se vê quem o apresenta, terá que ser uma pessoa que me é próxima, quer do ponto de vista pessoal quer literário. Ainda não será desta vez que haverá posters gigantes à porta da Fnac.

Fica a ideia de que se protege no jornalismo na proporção em que se expõe na literatura...
Nenhum deles sou eu, nem o escritor nem o jornalista. No jornalismo represento a redacção e as notícias produzidas nesse dia. Cumpro regras básicas: dou voz aos dois lados da notícia, trato com seriedade uns assuntos, permito-me leveza noutros. Basta uma pausa ou um sorriso e percebe-se que tenho uma visão irónica sobre aquilo. Mas não é o meu jornal, é o jornal da SIC. Na escrita, parece que finalmente está a conhecer-se as entranhas da pessoa – afinal é uma pessoa sensível [risos]. Mas a escrita é também a representação de algo. Mesmo que aquilo que escrevo pareça quente e arrancado num repente, o processo de escrita é um mecanismo frio para provocar essa sensação. Se os livros são meus, estará lá muito de mim, mas não quer dizer que tenham que conhecer-me através das minhas personagens.

Não me refiro a literatura autobiográfica. O facto de escrever sobre sangue não quer dizer que esteja a sangrar, mas escrever sobre sangue dirá uma coisa diferente do que diria se escrevesse sobre água.
Sim, nesse sentido, sou muito mais eu na escrita, embora não tenha partido com essa necessidade de me dar a conhecer. Escrevo porque me dá prazer. É natural que diga muito de mim, quer nas escolhas dos temas, quer nos desenhos das personagens. Está lá muito do que amo e muito do que odeio.

Deposita nos livros o que despreza na sua vida?
Não trabalho com essa missão, mas às vezes acontece. No novo romance há um personagem que representa tudo o que me repugna. É como se estivesse a libertar-me de algo que não quero para a minha vida, que não gostaria de ser. Há quem diga que se escrevo aquela cena é porque ela está dentro de mim, não entendo. Por exemplo, em “A casa quieta” escrever sobre a incomunicabilidade entre as pessoas ajudou-me a melhorar a minha vida. Não posso escrever sobre o drama que é perdermos tempo a não dizermos que gostamos uns dos outros se não o praticar na minha vida.

O encanto da escrita reflecte algum desencanto com o jornalismo?
Não, até porque comecei a escrever antes de ser jornalista. O jornalismo, de alguma forma, passa ao lado do essencial da vida. Pela sua natureza, volatilidade, rapidez. Interessam-me coisas onde possa estacionar, pensar mais. A arte, sendo ficção, aproxima-nos mais do que é essencial na vida do que a realidade nua e crua do jornalismo. E o que procuramos na arte são emoções.

A arte dá-nos mais da vida do que a própria vida?
Acho que sim. Porque a arte é imortal. Vai sobreviver-nos. Faz parte das nossas ambições mais básicas. É por isso que lemos livros, vamos ao cinema, apreciamos escultura. Precisamos disso. Ao contrário, há muitas coisas da vida real sem as quais viveríamos bem. Precisamos desse procurar do belo - no limite, é nesse sentido que os artistas trabalham, nem que seja um belo horrível. Nós temos, felizmente, dentro de nós, esse desejo de abstracção.

Questiona o seu talento enquanto escritor?
Todos os dias e cada vez mais. Os elogios são muito bons, mas têm o condão de elevar a fasquia. Há a exigência de que o próximo trabalho seja melhor do que o anterior, e isso é uma angústia. Qual será o meu tecto? Provavelmente o trabalho mais recente de alguém não é o melhor. Angustia-me a expressão: “Desta vez, desiludiu”.

“O problema não é não correspondermos às nossas expectativas; é não correspondermos às expectativas dos outros” escreveu em “A casa quieta”. É isto?
É a desconstrução daquela frase cor-de-rosa dos livros de auto-ajuda que querem sempre convencer as pessoas a não se importarem com os outros. É a mesma coisa que insistir em dizer às pessoas que se sentem feias – aliás, o meu próximo argumento parte daí – que isso não interessa porque são bonitas por dentro. À pessoa isso vale de pouco porque sabe que ser feia numa sociedade cada vez mais exigente em termos estéticos, é agrilhoante. A expectativa dos outros em relação a nós é o que mete mais medo e é o que mais nos agrada quando conseguimos fazer algo bom.

Esse argumento que referiu é o “Entre os dedos”?
Não, é outro. O “Entre os dedos" já está feito, e já estamos a trabalhar sobre ele. Agora estou a escrever outro argumento, que é sobre a forma como uma mulher se vê. Ela vê-se de uma forma diferente daquela que os outros a vêem. Depois, se isto está na cabeça dela ou não... terá que ver o filme.

Essa superação constante nos seus livros passa muito pelo apuramento da forma. É mais importante do que o conteúdo?
A forma é o que realmente nos toca. No jornalismo – e eu costumo dizer sempre isto aos estagiários -, o sensacionalismo nunca está no conteúdo, está sempre na forma. Pode fazer-se uma belíssima peça jornalística sobre um homicídio ou sobre pedofilia. Depende do talento do jornalista. Na literatura, dois escritores podem pegar na mesma história e um tocar-nos e outro não. Tocar, revolver, emocionar está na forma como se escreve. É isso que define um escritor com E grande. Há agora uma corrente de escritores que acha que o importante é a historieta, e que as palavras são mecanismos para se contar a história. Não, não, não. Discordo em absoluto. Uma palavra fora do sítio é completamente diferente. Se eu tiver uma personagem a responder numa discussão: “Não” ou ”Não, não, não” é completamente diferente. As palavras pesam, foram inventadas e têm todas significados diferentes. Há uma lógica para isso. Gosto de caracterizar as personagens pela forma. Alguns capítulos são propositadamente mais pausados, mais clássicos, mais com ponto final e percebe-se que as personagens são serenas. Há outros que não, há um corrido porque quero que a personagem provoque isso. E faço-o através da forma.
E a forma condiciona o ritmo de leitura...
Obrigo a ler de uma forma, guio, pretendo que leiam assim. Podia ter escrito aquela manhã com os quatro filhos (em "A casa quieta") de forma diferente e não teria dado aquela sensação de sufoco.

Chegou a esse registo apenas pela influência de António Lobo Antunes, com quem é invariavelmente comparado?
Não. É a minha forma. A comparação não me chateia – é um elogio; não é um insulto. Como escritor é dos melhores de sempre e tenho grande ternura por ele como pessoa, e sei que ele também tem por mim. Mas penso que é redutor considerarem que escrevo à Lobo Antunes porque, nesta altura, já provei que valho um bocadinho mais do que isso. E isto não é dizer que quero retirar o nome dele, pelo contrário. Quero muito que o Lobo Antunes goste do que escrevo, como quero que pessoas, outras, que gosto e considero e não são escritores, continuem a apreciar-me. Porque são o meu público, são pessoas que considero intelectualmente e por quem tenho afectividade. Preciso que gostem se não era um bocadinho angustiante. Mas, como eu já disse, vai haver um dia em que ele não vai gostar. E isso não pode, de maneira nenhuma, definir a minha carreira. Tenho uma relação muito salutar com o nome e a sombra do Lobo Antunes. Não tenho problemas nenhuns que digam, que tenho influências dele. Tenho, é verdade. Todos temos influências das pessoas que apreciamos.

Assusta-o ser confundido só com mais uma pessoa mediática a publicar livros?
Assusta. Os meus livros têm uma escrita diferente, por exemplo, do José Rodrigues dos Santos ou do Miguel Sousa Tavares. Não é melhor nem pior - é diferente. O público acabará por não ser o mesmo também. O meu medo – e isto tem que ficar claro -, é haver pessoas que podem nem sequer pegar no meu livro por ter sido eu a escrever. Por não gostarem de mim como jornalista, ou por pensarem que sou só mais um da televisão a tentar apanhar a onda. Com este preconceito podem não me ler. Há outro risco: terá havido muitas pessoas que terão comprado o livro por ser meu. “Aposto que conta aqui os podres da sic”, disse-me uma senhora na Feira do Livro. Acham que tenho que escrever um livro que se aproxime do jornalismo. E depois desiludem-se porque não estão à espera deste tipo de escrita. Rejeitam-no. A minha escrita pode ficar num limbo em relação aos potenciais leitores. Não sei o que é pior.

Qual é o balanço entre perdas e ganhos?
Apesar de tudo, para o tipo de leitores que gostava de ter, continuo a achar que é mais uma perda do que um ganho. Mas isso não me preocupa.
Suponho que também não preocupe somar edições...
Não escrevo a pensar no público, mas escrevo para o público. Parece uma contradição, mas não é. Para o livro soar verdadeiro às pessoas, ele tem que sair de mim e eu tenho que estar preocupado sobretudo com a minha escrita. A partir do momento em que é publicado, quero que chegue ao maior número de pessoas possível. Em termos de D. Quixote vendeu bastante bem. Não se aproxima nada das cifras de José Rodrigues dos Santos ou de Miguel Sousa Tavares. Mas mais importante do que isso, mais do que a quantidade, foi o feed back que recebi de alguns críticos e de alguns leitores. As pessoas sentiram o livro, tiveram uma experiência emocional muito forte e esperam que eu escreva outro. Eu nunca conseguiria dizer: “Claro que vai ser um sucesso”, porque não me cabe dizê-lo. Cabe-me trabalhar uma coisa que me dê prazer e esperar que ela dê prazer às pessoas.

Se lhe perguntar se é escritor provavelmente dir-me-á que não...
Dir-lhe-ia que sou um escritor e um jornalista porque tenho conseguido conciliar as coisas. Mas eu tenho tanto respeito pela palavra escritor que não quero ser eu a considerar-me. Felizmente, há já muita gente que o faz. Gosto tanto de literatura, de livros, que tenho muita parcimónia em utilizar essa expressão. Adoro ler e escrever e espero que a qualidade da minha escrita faça com que me considerem um escritor. Mas nunca serei eu a utilizar essa denominação.

Mas o seu campeonato é o da literatura...
Sim, é o de querer ser considerado escritor.

quinta-feira, outubro 27, 2005

Avelino Ferreira Torres

Catch me
if you can

(Reportagem de Helena Teixeira da Silva publicada na Grande Reportagem a 7 de Outubro de 2005)

Não há nada de que não seja acusado. Ou quase nada. “Nunca me acusaram de matar, nem de droga, nem de pedofilia”, contraria, irónico, Avelino Ferreira Torres. “E ninguém me pode acusar de não ter trabalhado pelo Marco”. O Marco é Marco de Canaveses, concelho do interior, com 52 mil habitantes, que dificilmente seria conhecido se não fosse o invulgar mediatismo do seu presidente de Câmara, na recta final de uma maratona que dura há 23 anos. Este ano é candidato independente à autarquia de Amarante, sua terra natal. “Procuro ser justo. E na minha consciência nada me pesa. Digo isto com sinceridade”, sublinha, na sede de campanha, numa voz pausada acompanhada de gestos calmos, longe da impetuosidade que lhe é comummente atribuída.

Não lhe pesam, portanto, as acusações de peculato, de abuso de poder, de suborno a um inspector do IGAT, de promiscuidade entre a política e o futebol, de falências fraudulentas, de falsificação de documentos e desvio de fundos comunitários, de alteração do Plano Director Municipal para sobrevalorizar terrenos que, alegadamente, comprou ao desbarato. Alheio às acusações que sobre ele pendem, Ferreira Torres, 60 anos completados a 26 de Janeiro, avança uma explicação inédita: “Acredito piamente na justiça divina. E acredito muito em karmas. Acho que estou aqui a pagar por alguma coisa que familiares meus do passado fizeram. Um dia, expliquei esta minha teoria a um padre. E, passado algum tempo, ele disse-me que tinha lógica”.

O fardo, fruto daquilo que diz ser “uma perseguição política”, não parece preocupá-lo. “Há vinte anos que andam a dizer que vou ser preso e continuo aqui. Só tenho sido condenado a dar algumas esmolas”, afirma, numa referência aos advogados que o defendem. “Não me preocupo: eles vivem disso, e eu tenho nojo ao dinheiro. Só gasto o indispensável, porque vim do nada, de uma família pobre com 17 irmãos e nunca me esqueço disso. Cumpro à risca o evangelho”.

Mas Ferreira Torres, cuja incursão na vida política, em 1983, fica a dever-se a Vieira de Carvalho, falecido presidente da Câmara da Maia, não foi só condenado a dar esmolas. Este ano foi condenado num processo de peculato a três anos de prisão, em fase de recurso, e é um dos 171 arguidos no caso “Apito Dourado”.

Uma vez mais, o autarca, perspicaz no malabarismo com os temas que lhe poderiam provocar desconforto, desvaloriza a colecção de processos com um exercício de memória que o remete para a primeira vez que foi a tribunal, tendo sido condenado a pena suspensa. “Sou condenado porque sou sério”, observa. “Há uns anos, um jornalista do semanário “O País” fez-me uma entrevista sobre o assassínio do meu irmão, e eu disse o que sentia. Disse que sabia quem o matou. Ele publicou e o Ministério Público moveu-me uma acção pela gravidade daquelas afirmações. Podia ter entalado o jornalista e dizer que ele escreveu coisas que eu não disse. Mas não o fiz. Mantive aquilo que disse e fui julgado por isso. Por ser sério”, insiste.

O caso da morte de Joaquim Ferreira Torres, presidente da Câmara de Murça, assassinado em Paredes, a 21 de Agosto de 1979, quando conduzia um Porsche vermelho, prescreveu em Agosto de 1994, sem que nunca tenha sido encontrado o autor do crime. Ferreira Torres teima que sabe quem puxou o gatilho. “Eu já tinha uma pontinha de investigador, mas a partir deste caso, passei a perceber todas as golpadas que os investigadores fazem. Não descobriram o assassino do meu irmão porque não quiseram. E eu, como não tenho espírito para matar, voltei à minha vida normal”. Não tem espírito para matar, mas sabe que há quem acredite que recruta equipas para bater em determinados inimigos. “É mentira. Sou incapaz de, premeditadamente, fazer um ajuste de contas. A canalha vem oferecer-se para bater, mas eu nunca aceito. O meu staff sou eu. Não mato sequer um insecto insignificante”.

O rasto das acusações entregues na Procuradoria Geral da República no curso dos últimos anos contra Avelino Ferreira Torres – a maioria da autoria de Gil Mendes, secretário da Junta de Freguesia de Ariz, eleito pelo PSD -, poderia ter-se dissipado do circo público, se não fosse José Faria, ex-testa-de-ferro do autarca e funcionário da Câmara do Marco de Canaveses, ter tentado matar-se com um tiro na cabeça em Agosto deste ano. “Comecei a ficar tolo”, afirmou numa entrevista exclusiva ao 24 Horas, poucos dias depois de ter tido alta do Hospital de S. João, no Porto, onde esteve internado uma semana. José Faria confessou ter perdido a cabeça devido à procuração irrevogável passada por Avelino, em 1990, e com a qual comprou e vendeu tranquilamente dezenas de propriedades, até ser notificado pelo Fisco para pagar 60 mil contos. À banca diz que deve mais de 300 mil contos. “Aquele dia não era para ser assim. Eu hoje podia estar na cadeia”, disse o trabalhador municipal, que aufere cerca de 550 euros mensais. A revelação será, apenas, a ponta de um iceberg que o funcionário - entretanto aconselhado pelo advogado Pragal Colaço a não prestar mais declarações à Comunicação Social - parece determinado a não continuar a encobrir.

Mas sobre o acto tresloucado do seu ex-colaborador, Ferreira Torres não quer falar. “Só posso dizer que não me vou atirar a ele, ao contrário do que as pessoas dizem. Rezei muito e sempre soube que não ía morrer.”, assegurou ainda antes da alta de José Faria. Reconhece ainda que lhe comprou alguns terrenos, uma vez que o funcionário possuía uma imobiliária, e que tem documentos que provam que José Faria lhe deverá muito dinheiro. De resto, visitou-o duas vezes no hospital e achou que ele “está doente”.

“Sou impulsivo, mas choro com muita facilidade. As pessoas não me conhecem e a culpa é dos jornalistas que não olham a meios para atingir os fins - fins políticos e encomendados. Fico magoado com a imagem que passam de mim. Como é possível dizerem-se atoardas a meu respeito quando são totalmente mentiras?”, questiona indignado. Hoje, já não lê jornais para “conseguir levar a cruz ao calvário”.


Avelino Ferreira Torres, admirador de Marquês do Pombal e devoto de Santa Teresa de Lizier, em França, onde ruma todos os anos a 1 de Outubro, é o décimo quarto filho de Manuel Nunes Ferreira e Ilda Ribeiro Torres, ambos falecidos. “Não me lembro do dia em que a minha mãe morreu, porque não sou bom a fixar datas. Mas ela era impecável. Não nos deixava andar sujos. A roupa era sempre limpinha. Quando havia um rombo, ela ia buscar umas calças velhas que dissessem mais ou menos com aquelas e cozia”, emociona-se.
Nasceu na freguesia de Rebordelo, em Amarante, onde está a reconstruir a casa onde nasceu, e é lá que tenciona iniciar a campanha eleitoral. “Não sou nenhum pára-quedista. Vivi cá até aos 15 anos e nunca me esqueci das pessoas. Entendo que devo dar aqui o mesmo que dei noutras paragens”, argumenta.

Numa família numerosa, cedo sentiu a necessidade de começar a trabalhar. Primeiro numa empresa de abate de madeira, depois a guardar rebanhos nas serras. Aos 15 anos, Joaquim, irmão mais velho e mais rico, leva-o para Rio Tinto, onde residia, e lança-o no mundo empresarial. Ele agarra a oportunidade e, oito anos depois, torna-se presidente do Sport Clube de Rio Tinto. No mesmo ano, casa com Rosa dos Santos Cunha, que conhecera entretanto. Aos 24 anos regressa ao Marco, para associar-se aos irmãos Rodrigo e Manuel na gestão de uma serração. A partir daí, os negócios sucedem-se e sobrepõem-se a uma velocidade inimitável.
No início dos anos 80, abre a sua própria serração e multiplica o ramo empresarial: confecções, tipografias, jornais. Algumas fábricas acabaram por fechar, falidas ou ardidas. Os encerramentos, considerados suspeitos, deram origem a um processo por falência fraudulenta, num caso; e suspeita de fogo posto, no outro. A primeira acusação, referente às Confecções Ferreira Torres, falidas em 1996, foi formalizada no início de Setembro pelo Ministério Público.

Quando regressa ao Marco, Ferreira Torres começa também a investir dinheiro no clube da terra, o Futebol Clube do Marco. A dedicação acaba por conduzi-lo à presidência do clube, que se orgulha de ter colocado na II Divisão Nacional. No fim da década de 90 já integra o Conselho Nacional de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol. A política autárquica seria o passo seguinte. Em Setembro de 1983, o Executivo de coligação PSD/PS renuncia o mandato numa altura em que ele está no hospital a recuperar de uma operação ao estômago. “Nunca acreditei que pudesse ficar bom. Estava lá a preparar a minha morte quando o professor Vieira de Carvalho, numa visita, disse que queria que eu me candidatasse à Câmara do Marco”, recorda. Os médicos desaconselharam-no e ele interpretou a opinião como uma sentença de morte. “A minha mulher viu-me tão triste que, para me animar, disse que devia ser candidato”. Em Outubro desse ano, Ferreira Torres concorre pelo CDS e vence com maioria absoluta. O resultado repetiu-se até 2000. E ele sente que cumpriu a missão.

“Dou apenas um exemplo: Amarante tem um pavilhão gimnodesportivo; o Marco tem 10. E ainda vou inaugurar mais dois antes de ir embora.” Acredita que se “não fossem as vitórias políticas, não tinha inimigos. Ganhei sempre a Câmara por um partido pequenino. Mas nunca me deram ordens. Eles sabiam que eu não sou um “Yes man”. Eu respeitava os presidentes, fossem eles quais fossem, e eles respeitavam-me a mim e à minha autonomia. Se me perguntarem: está arrependido de ter sido do CDS? Não, não estou, porque me deixaram ser livre. O PS e o PSD não deixam os seus autarcas serem livres. Impõe-lhe regras e é por isso que Amarante não evoluiu nestes 16 anos”, sentencia.

Manuel Monteiro, ex-líder do CDS, diz guardar boas recordações do autarca. “Sempre recebi dele um tratamento de grande respeito e consideração”. Quanto às acusações que sobre Ferreira Torres pendem, afirma que não lhe compete pronunciar-se. “O que se passa em Portugal, de um modo geral, é de uma gravidade tal, que resumir a questão ao Avelino é tentar tapar o sol com a peneira. Aos políticos convém encontrar bodes expiatórios para que outras situações menos mediatizadas passem incólumes. Quantos candidatos a deputados têm problemas judiciais?”, questiona. E acrescenta: “O que está a acontecer com a complacência das autoridades máximas do país e o silêncio do Presidente da República é gravíssimo. É urgente lançar um debate para se saber o que é que deve prevalecer: a lei ou a suspeita? Perante a lei, todos são inocentes até prova em contrário. Mas se prevalecer o bom senso político, as pessoas não devem ser candidatas quando sobre elas há suspeitas de foro judicial. Mas enquanto os políticos continuarem a beneficiar do quadro de imunidade tudo isto vai, infelizmente, continuar a acontecer”.


23 anos depois de “uma gestão despesista”, que levou a autarquia marcoense a uma situação de pré-falência, Filipe Baldaia, candidato à Câmara do Marco pela CDU, acusa o autarca de “75% do concelho continuar sem rede de abastecimento de água e 80% não ter saneamento”. A água que foi, recentemente, entregue a uma empresa privada, “é a mais cara do país e a segunda mais cara da Europa. O Marco cresceu, apenas, em betão e em número de habitantes; não teve um desenvolvimento equilibrado nem sustentado”. Os dados do Ministério da Educação corroboram a crítica: Marco de Canaveses é o quinto concelho do país onde se regista maior abandono e insucesso escolares – o equivalente ao dobro da média nacional.

Luís Almeida, engenheiro civil e candidato socialista ao Marco, encontra uma virtude na transferência de Ferreira Torres para Amarante. “Vamos passar os próximos vinte anos a pagar a dívida que ele deixou, mas aqui vivia-se um clima de medo. E agora as pessoas libertaram-se das amarras. A prova é que foi criada uma comissão de utentes para protestar contra o aumento da água, entre quatro a oito vezes mais caro do que o dos municípios vizinhos. A 3 de Agosto houve uma manifestação com 2500 pessoas a reclamar na rua. Antigamente, isso seria impensável”.

“Com a saída dele, fecha-se um ciclo”, completa Manuel Moreira, cabeça de lista do PSD. “A partir de agora, é importante que o concelho seja falado e conhecido pelas coisas positivas”. Só Norberto Soares, candidato pelo CDS – conhecido no meio como o “delfim” de Ferreira Torres, cujo filho, é número dois na lista -, não comunga desta avaliação. “Quem conhecia o Marco, e quem o conhece hoje, percebe que houve uma alteração muito grande no seu desenvolvimento urbanístico, empresarial, económico e social”. O mérito, ressalva, “é também da determinação de algumas pessoas da sociedade que encontraram aqui uma oportunidade para desenvolverem a sua economia”. Quanto ao antecessor, é taxativo: “É um lutador, um homem determinado a alcançar os objectivos a que se propõe. Luta pelos seus ideais até à última gota”.

A caracterização tem, pelo menos, um discípulo. “Acredito no Avelino e acho que ele é o homem certo para Amarante, neste momento”, afirma António Pedro, 61 anos, director do jornal “O Tribuna de Amarante”, garantindo que não confunde a sua opinião com a opinião do jornal. “Qualquer um pode escrever o que lhe apetecer no jornal, desde que não insulte ninguém”. O jornalista lamenta, no entanto, “a campanha caluniosa” a que está a assistir-se em Amarante. “Todos andam a caluniar o Avelino, chamam-lhe assassino, e ele não calunia ninguém”.

De resto, Ferreira Torres rejeita todas as acusações, incluindo a de ter enriquecido, deixando a Câmara do Marco à beira do colapso financeiro. “Isso é uma estupidez. A situação está perfeitamente dentro da lei. Atravessamos algumas dificuldades quando a ministra Manuela Ferreira Leite esteve no governo, porque estávamos a contar ir buscar um milhão e 300 mil contos, previstos na lei das finanças locais, e ela cortou essa possibilidade. Mas há males que vêm por bem, porque a lei prevê o reequilíbrio financeiro e foi o que nós fizemos. Entretanto, os juros baixaram, e conseguimos uma verba muito maior e pouco mais está a pagar-se por mês”.

Em relação ao património pessoal, assegura que o cenário é mais grave: “Se me quiserem pagar as minhas dívidas ou dar-me 200 mil contos, eu dou tudo o que tenho. Só quero ficar com a minha casa”. E, já agora, com a Quinta de Segoiva, em Tuías, o seu já designado “sonho jamaicano”. “Vai ser uma estalagem de cinco estrelas, mas está a ser mais cara do que eu julgava”.

Gil Mendes, que desde de Maio de 2003 envia cartas ao Procurador Geral da República, com provas contra Ferreira Torres, tendo, inclusivamente, sido já agredido por ele, não acredita em nada do que o autarca diz e acusa-o “de acreditar nas próprias mentiras”.“As autoridades deixaram criar este monstro e agora não o conseguem agarrar. Depois de tudo o que foi tornado público, se Ferreira Torres não for preso até ao fim do ano, é porque este sítio onde vivemos é um país de bananas”, desabafa.

“Ele é um homem perigoso, que não respeita as leis. Os dados que estão na posse dos magistrados já são suficientes para o prender. Mas ninguém o faz, porque ele goza de total impunidade”, retorna Luís Almeida. “Há dias, um homem forte da Polícia Judiciária confessou a um amigo meu que se o Avelino perder as eleições em Amarante, irão prendê-lo. Se ganhar, será muito difícil. Ou seja, neste país só é preso quem perde as eleições do Benfica ou da Câmara”.
Recusando resignar-se, José Adelino Maltez, professor catedrático de Ciência Política, no ISCSP, em Lisboa, diz ter, apesar de tudo, “esperança na resolução de casos como este”. “A democracia portuguesa viveu a doce ilusão de que não havia grupos de interesses e viveu na clandestinidade em relação a financiamentos partidários. Ou seja, a culpa disto tudo, foi a hipocrisia generalizada, que não quis assumir que havia corrupção. De repente, rebentou a rebeldia, que não produziu qualquer golpe de Estado, mas um desencanto colectivo. O grave não é haver denúncias; grave é que estes autarcas continuem a ganhar”. E esclarece: “Avelino é o ramo de uma árvore; o problema está na floresta”.


“Nunca aceitaria trabalhar com um candidato como Avelino Ferreira Torres”, garante António Cunha Vaz, especialista em comunicação e imagem, responsável por inúmeras campanhas nacionais e regionais. “Em primeiro lugar, para aceitar, teria que acreditar no candidato, nas suas ideias, na sua forma de estar na vida e ele teria que cumprir alguns princípios da nossa consciência democrática. Em segundo lugar, não acredito em mandatos em número ilimitado nem numa democracia de base populista”. Cunha Vaz, que assina a campanha de Carmona Rodrigues, em Lisboa, vai mais longe na sua sentença: “Numa democracia madura, ele nunca poderia ser candidato. Ele não gere a sua imagem; cria ilusões com viagens de helicóptero, que só se compadecem com um tipo de eleitorado menos esclarecido. O único trabalho sério que poderia fazer com ele seria retirá-lo da política e dizer-lhe que fica bem em programas como a “Quinta das Celebridades”.

A Quinta das Celebridades, reality-show emitido pela TVI, contou justamente com a presença do autarca na última edição. “Tenho consciência que os responsáveis pelo programa me queriam ver lá, porque achavam eu ia chatear o Alexandre Frota, o Castelo Branco, o jet-set, e dar umas bofetadas a quem se portasse mal. Mas saiu-lhes o tiro pela culatra”, conta Ferreira Torres. A experiência foi “positiva” porque ficou “amigo de todos, sem impostorice”, e porque diz não ter recebido um tostão. “Estive lá 17 dias. Assinei um contrato que dizia que uma metade do cachet era para a CERCI do Marco e a outra metade para a CERCI de Amarante. Não sei quanto dinheiro foi, mas admito que tenham sido alguns milhares de contos”.

A generosidade de Ferreira Torres que, ultimamente é estendida às associações de Amarante, a quem tem entregue cheques com quantias generosas, não convence João Magalhães, ex-presidente dos Amigos do Marco, Associação que fundou em 1998 em nome da liberdade de expressão. “Ele não engana ninguém. A primeira vez que ganhou as eleições no Marco, fê-lo destruindo o outro candidato com comunicados anónimos. O estratega da campanha é o mesmo de hoje, Sanhudo”.

Sanhudo Portocarreiro, cujo nome verdadeiro é António Monteiro Novais, cortou relações com Ferreira Torres pouco depois destas eleições, transformando-se num dos seus piores inimigos. Em 1996, chegou mesmo a enviar uma carta ao Procurador Geral da República denunciando: “Vive-se neste concelho um clima perturbado com desvios de milhares de contos, compras de mansões e quintas, restauradas no Marco e em Vila de Conde, por pessoal ligado à autarquia e com ameaça de despedimento a diversos funcionários que não acatem pontualmente as ordens do presidente. O mesmo presidente e alguns funcionários qualificados que actuam sobre pressão e grandes ameaças, vêm danificando documentos, actas e falsificando outros”. E solicitava: “Peço sigilo, pois trata-se de um homem desnorteado e até perigoso”.

Antes desta carta, já Sanhudo tinha elaborado um documento a que chamava “Concurso – Para tirar o Marco do anonimato cultural”, cujas questões não passavam de denúncias cifradas sobre a conduta de Ferreira Torres. “Quem mandou telefonar uma madrugada ao Sr. Eulalio Fonseca de Amarante ameaçando-o de morte, em nome dos Guerrilheiros de Cristo Rei? Quem trás do estrangeiro microfones ultra-sensíveis e secretos para devassar conversas? Quem foi ao jornal Comércio do Porto ameaçar o director? Quem é que compra capangas no Porto a onze contos para bater a A ou a B? O rol de perguntas era interminável, mas alguns anos depois, António Novais negou ser o autor de tudo. Em 2000 assinou a laudatória biografia de Ferreira Torres “O homem. O presidente”, e hoje é, garante João Magalhães, “assessor da Câmara com um salário de 500 contos, sendo a mulher também funcionária municipal”.

“Ferreira Torres sabe que a maioria das pessoas tem um preço. E ele vai até ao preço certo”, retorna o socialista Luís Almeida. João Magalhães, alvo de um processo de difamação agravada colocado pelo autarca do Marco, e do qual foi absolvido, cansou-se de lutar e desistiu. “O sistema não funciona. A minha família viveu anos terríveis por eu ter exercido o meu direito à cidadania, que só serve para desenvolver inimigos nos interesses instalados. E ninguém nos defende: nem a justiça, nem a polícia, nem os partidos, que só incentivam ao silêncio e à prática camaleónica”.

No hall de entrada da sede de campanha de Avelino Ferreira Torres, em Amarante, um homem calvo agarra-lhe no braço e sussurra-lhe: “Veja lá, senhor presidente, o que pode fazer por mim”. O autarca, que diz ter “duas formaturas: a da vida e a de gestão de empresas”, e que diz gostar de reconciliar casais nas horas livres, acena afirmativamente coma cabeça. “Não sou cinzento. Não gosto de dizer não. Mas quando é para dizer sim, gosto que digam logo. Não vale a pena gastar muita saliva quando a meio da conversa já percebi o que as pessoas querem”, explicaria mais tarde.

quarta-feira, setembro 14, 2005

João Fernandes


"Não queremos
condenar a arte
ao provincianismo"

Serralves começa a ser um museu idêntico aos que visitava na infância. Um espaço acolhedor e de confronto. Mas João Fernandes, que substitui a partir de agora Vicente Todolí, na direcção do Museu de Serralves, é mais ambicioso. Quer apurar o sentido crítico dos cidadãos e continuar a criar condições para que os artistas portugueses tenham oportunidades de defesa e apresentação de obra idêntica à dos artistas internacionais. Do Porto, cidade onde organizou as primeiras exposições, o novo director só espera que não regrida.
(Entrevista de Helena Teixeira da Silva publicada no Jornal de Notícias a 25 de Janeiro de 2003)

A programação da nova equipa só entrará em vigor em 2005. Haverá mudanças?
O Vicente Todolí e eu programamos o museu até 2004. Começo agora a pensar na programação de 2005. Não entendo que seja necessário mudar a linha de programação, mas edificá-la e aprofundá-la.O desafio maior diz respeito à colecção. É o momento de fazê-la crescer e assegurar que continua as expectativas que despertou aquando da sua apresentação, na abertura do museu.

O Museu de Serralves, ao integrar a Rede Internacional de Museus, é, por vezes, acusado de privilegiar a arte estrangeira em detrimento da nacional...
Os portugueses não tiveram oportunidade durante uma boa parte do século XX de conhecer os seus artistas, muito menos os que existiam no Mundo. Uma das melhores formas de defender e apoiar a arte que se faz aqui é situá-la numa colecção e numa programação que sejam internacionais. Não queremos continuar a condenar os artistas portugueses à claustrofobia, ao provincianismo. Um terço das nossas exposições é obrigatoriamente constituído por artistas portugueses. Esta proporção permite-nos situar os portugueses no contexto de uma programação internacional e, com isso, abrir portas para que eles possam ser conhecidos no contexto dos outros artistas que vêm cá fazer exposições. Se o contrário acontecesse, estaríamos a confirmar essa regra da excepção e do isolamento que sofreu a arte portuguesa. Não se trata de uma obsessão por uma internacionalização demagógica ou por qualquer detrimento da arte portuguesa.

E em relação à colecção?
Temos uma relação contrária à proporção que temos em relação à política de exposições. A maior parte dos artistas que adquirimos são portugueses. Procuramos ter um núcleo dos anos 60/70 que represente em paridade artistas portugueses e internacionais.Depois dos anos 70 só compramos, de arte internacional, os artistas que apresentamos no museu porque surge como documentação da vida do próprio museu.

Como é que Serralves consegue manter-se incólume aos vários governos e ministros da cultura?
É um projecto curioso e singular da sociedade portuguesa. Em primeiro lugar pela ligação que existe entre a iniciativa pública e privada. É graças à confluência singular desta junção que Serralves consegue desenvolver os seus projectos. É isso que tem feito com que não fique dependente do contexto político. Aliás, uma estrutura cultural não deverá estar dependente de uma flutuação política. Temos conseguido relações extremamente positivas com todos os ministros da cultura que temos conhecido.

O Conselho de Administração de Serralves deliberou agora a criação de um Conselho Consultivo para o Museu. Porquê?
No momento em que o museu passa a ser dirigido por um português, entendeu-se que deveria ter um conselho consultivo constituído por personalidade relevantes do mundo da arte internacional, como o Kynaston McShine, do MOMA, de Nova Iorque.

Quem vai ser o seu director adjunto?
Estamos num processo de selecção e negociação do director, devendo ser anunciado em breve. É uma pessoa com experiência museológica, com uma experiência de trabalho internacional, que permitirá uma integração muito fácil nas linhas de continuidade deste museu.

Como sente o legado de Vicente Todolí?
Não o sinto bem como um legado. É uma experiência que construímos em conjunto, o que faz com que me seja extremamente facilitada a continuidade do projecto.

Relação deficiente com ensino de arte

Qual é a relação de Serralves com o ensino de arte?
É deficiente. Não nos compete apresentar os artistas saídos das escolas, mas as próprias escolas deveriam fazê-lo em condições dignas. Recebo mais convites para visitar escolas de arte lá fora do que cá. Estando num museu, sinto falta de conhecimento de artistas, que apesar de tudo, é compensada pela luta dos próprios artistas. No Porto, têm surgido nos últimos anos artistas que criam os seus próprios espaços. Sem subsídios, mas com coragem, criam projectos condenados a ser efémeros. Faz falta um apoio regular a esses espaços de emergência. Ficaria satisfeito se tivesse espaços na cidade que permitissem o conhecimento do trabalho regular de artistas jovens, criando-me possibilidades para posterior apresentação no museu. Seria importante criar a oportunidade para que artistas jovens de outros países pudessem vir em residência para a cidade, criar intercâmbios e condições de apresentação para os que trabalham cá. Que existissem condições para que Serralves se pudesse associar a outras instituições e criar eventos como o Squatters, em 2001.


"A cultura não pode ser como uma sobremesa"

De que forma se evidencia, em Serralves, a preocupação com a criação de oportunidades?
Em Serralves estamos a conviver com a primeira geração de portugueses que tem direito a conhecer a arte do seu tempo. Independentemente daquilo que os números representam, confesso que o sucesso de um museu não é comensurável pelas estatísticas. Mas fico satisfeito se acreditar que estou a criar a possibilidade para que cada pessoa possa confrontar-se com experiências artísticas que aqui são apresentadas e possa construir a sua própria relação com a obra de arte, não livre de uma domesticação social, mas sim criando uma relação individual e natural com essa mesma obra de arte. Gosto, compreensão, conhecimento, entusiasmo ou até rejeição. Espero que Serralves possa suscitar isso nas pessoas.A cultura não é menos essencial na vida de uma pessoa do que todas as outras actividades do seu dia a dia. Não é a sobremesa que podemos decidir ter ou não ter quando vamos ao restaurante.

De onde lhe vem o encanto pela arte?
A criação artística interessa-me desde miúdo. Apareceu, primeiro, transformada pelos escritores que sobre ela escreviam, Proust, Joyce, Thomas Mann. E depois, pelas viagens. Há viagens muito curiosas... Fui à Flandres e à Holanda em busca dos flamegos primitivos e dos escritores holandeses do século XVIII e descobri os museus de arte contemporânea. Foi a descoberta de toda uma série de artistas. Foi nessas viagens, que fazia em miúdo, que percebi como uma sociedade organizada podia organizar os museus.Para um viajante adolescente significava ser bem acolhido, mesmo com pouco dinheiro. Por isso, acho que os museus devem ser espaços acolhedores, que criem perspectivas de confronto com a arte.Não devem ser demagógicos. A arte é um confronto e para isso as pessoas têm que se libertar de alguns preconceitos. Fico contente por Serralves ter criado um cenário que considero semelhante ao dos museus da minha infância.

Considerando a sua formação, como se posiciona entre o livro e o objecto?
Não faço uma opção. Ambos podem confluir naquilo que é a criação artística do nosso tempo. Ambos são uma experiência artística e uma forma de questionamento para que o nosso relacionamento com o Mundo seja aberto, generoso, disponível. Para não ficarmos perdidos em certezas falsas.

Que exposição gostaria de trazer e nunca conseguirá?
(risos) Não me passa pela cabeça não trazer cá uma exposição que quero mesmo trazer. De qualquer forma, Serralves não importa, não compra exposições, coproduz. Nunca trazemos o que está a acontecer em Londres, Paris ou Nova Iorque. O que se faz neste museu é criativo por si só. É a sua singularidade. Não adianta fazer aquilo que os outros já estão a fazer. Às vezes, nem aceitamos coproduções internacionais, justamente para chamar a atenção do Mundo para o que se passa aqui.

E a exposição de Bacon?
Não é similar às outras que já foram feitas. Só a decidimos fazer a partir do momento em que encontramos um ponto de vista próprio sobre a obra dele.

Em tempo de crise, julga-se que só compensa investir em arte.É um coleccionador?
Acha? Não sei... Os valores atribuídos em mercado não são definidores da própria obra de arte. Sou responsável por uma colecção, mas não é o critério do mercado que me orienta. Mas, fico satisfeito quando obras compradas para Serralves valorizaram cinco vezes mais passados uns anos. Significa que foram feitas apostas interessantes.

E pessoalmente?
Não tenho arte em minha casa. É um paradoxo que eu assumo. Acho importante que haja coleccionadores, mas não quero ter uma relação com a obra de arte que passe pela propriedade. A minha relação pessoal com a arte faz-se da minha relação com os artistas, com os projectos nos quais estou envolvido.

Não deveria haver uma relação mais estreita entre o museu e as galerias da cidade?
É curioso o aumento do número de galerias de arte da cidade.Isso coincide com o aparecimento do museu. Poderia ser interessante um mapa de arte contemporânea do Porto, que incluísse o museu, as galerias, o Centro de Fotografia e outras instituições expositivas, para poder haver um percurso de arte visual para quem visitar a cidade.

Que análise lhe merece a política cultural da cidade?
O Porto é hoje uma cidade com projectos nacionais e uma diversidade de experiências culturais extremamente interessantes. 2001 lançou projectos como a Casa da Música e fortaleceu as estruturas nacionais emergentes, como o Rivoli, o Teatro S. João, Serralves. Provou que havia público para a cidade. Foi uma rampa de lançamento para um contexto cultural que não pode regredir, mesmo que haja problemas económicos. À recessão económica não pode ser inerente a regressão cultural. Trata-se de adaptar as possibilidades às condições que existem, nunca abdicando da vida cultural. Não sou tão pessimista como muitos. É impossível regressar aos tempos em que não havia nenhuma iniciativa institucional. A vida política, cedo ou tarde, reconhecerá a evidência disto: a cultura é um facto diário da vida dos cidadãos desta cidade. E não creio que estejam na disposição de abdicar dela.

MARCAR O PASSO DA EXPOSIÇÃO
Do programa de quatro visitas guiadas já alinhavado para a mostra sobre Francis Bacon, em Serralves, uma será feita pelos passos de João Fernandes. É no dia dia 7 de Fevereiro, às 18.30 horas.A primeira, guiada por Fernando Pernes, é no dia 27. Depois, a 7 de Março, João Bénard da Costa dá voz aos olhos dos visitantes e, no dia 30 do mesmo mês, Fernando Pernes encerra as visitas guiadas.
DA LITERATURA PARA AS ARTES VISUAIS
O início da vida, marcado por mais literatura do que qualquer outra coisa, poderia não fazer prever que João Fernandes, transmontano, acabasse por dedicar-se, em regime de exclusividade e paixão absolutas, às artes visuais. Ele, no entanto, que cedo se teria deixado influenciar pelas opiniões dos escritores sobre arte, não ficou admirado. Cursou letras mas, na primeira oportunidade, trocou-as.
FRANCIS BACON NA PASSAGEM DE TESTEMUNHO
A maior exposição realizada em Portugal sobre o pintor Francis Bacon - talvez o mais conhecido na segunda metade do século XX - marca a transição de reinado na Direcção do Museu de Serralves: sai Vicente Todolí, agora a caminho da Tate Gallery, de Londres; e entra João Fernandes. "Cage/Uncaged", mergulho no universo tortuoso do britânico, ficará patente até ao dia 20 de Abril.

Alexandra Lencastre


"Estive muitos anos de castigo"

Tem um sonho recorrente: está a cair e não sabe onde vai parar."Sinto-me a diminuir de tamanho, como a Alice no país das maravilhas". Alexandra Lencastre é a imagem de uma fragilidade que não disfarça, mais do que de um rótulo de sex-symbol, que lhe colaram e que ela odeia, "porque é redutor". E porque nem sequer se sente bonita.Em entrevista ao JN, a actriz anuncia o divórcio com a Comunicação Social que acusa de não ter merecido o seu voto de confiança. "Vida privada, nunca mais", garante. E entusiasma-se com os pormenores dos três filmes que deverão estrear no próximo ano.
(Entrevista de Helena Teixeira da Silva publicada no Jornal de Notícias a 30 de Outubro de 2003)

Parece ter, definitivamente, optado pelo cinema. Só nos últimos três anos participou em oito filmes.
Mas estive durante muitos anos de castigo. Estava no banco e não me deixavam jogar. Além de ter feito muita televisão como actriz, cometi o erro de apresentar programas.E paguei uma factura caríssima, porque há um preconceito dos cineastas contra a televisão, o que é perfeitamente ridículo.Resistem por ignorância. Tratam o cinema como se fosse a nobreza do audiovisual e a televisão como a ralé. Estamos a combater isso e os realizadores estão a ficar mais flexíveis.

Aliás, foi esse "castigo" que levou John Malkovich a convidá-la para um filme.
Ele achou que estavam a fazer uma caça às bruxas em Portugal, que seria uma coisa política, e que eu pertencia a uma lista negra. Conhecemo-nos num programa do Carlos Cruz e pouco depois recebi o guião do "Em Clandestinidade" em minha casa.

Acaba de participar em dois filmes ainda sem estreia marcada.Que tipo de mulher interpreta em "Os Imortais"?
Queria muito trabalhar com o António Pedro Vasconcelos, mas havia sempre uma impossibilidade, uma espécie de nevoeiro que nos afastava.Dois anos e meio antes de o filme ser rodado, li o guião, e achei-o fantástico, porque é um filme de acção. Entro só em três cenas: com o Joaquim de Almeida (sou mulher dele), o Nicolau Breyner e a Maria Rueff. Elas apaixonam-se, embora isso nunca se veja.A história delas não é contada, mas é subentendida.

E protagoniza o "Lá fora", de Fernando Lopes, que é uma repetição de realizador.
Tenho uma relação muito especial com o Fernando Lopes. Costumo chamar-lhe "doce vampiro". No momento certo, ele suga-nos o sangue, a alma, o corpo, a voz, a expressão, a emoção. Leva-nos o coração sem pedir licença. É muito comovente a maneira dele trabalhar.(emociona-se e pede desculpa por isso).

Desempenha o papel de uma jornalista dura...
A Laura é uma mulher completamente diferente das que estou habituada a encontrar no meu percurso como actriz. E é, talvez, a mais complicada. Senti que ela me devorou. Mesmo exteriormente, com aquele cabelo todo encaracolado, louro platinado, anos 40. A artificialidade dela é uma metáfora. É uma jornalista que se vai escondendo atrás da imagem pública de mulher bem sucedida, completamente afirmativa e segura. Parece uma predadora, às vezes é quase maquiavélica, mas depois percebem-se uma série de fragilidades.Parece que sabe tudo, mas é como se fosse completamente virgem.Quando conhece Zé Maria (Rogério Samora), volta a acreditar no amor. A ingenuidade dela é quase adolescente. Vê uma luz e não percebe que aquela luz é o fim. É como se fosse uma criança de dois anos a correr atrás de um rapaz de 12. Só que, se ele tropeça, levanta-se e continua a correr, se ela tropeça fica com os joelhos em sangue. Poderia ser um encontro de almas gémeas, mas não é.

Um drama?
É um filme pessimista, fala de impossibilidades. Transmite falta de ar porque passa a noção de que estamos mesmo sozinhos. E fica em aberto. Não dá respostas. Vai causar incómodo em quem o vir, mas causa também em quem o fez. O argumento é muito denso e muito bom.

Em Outubro, regressa às filmagens.
Vou fazer "A costa dos murmúrios", com a Margarida Cardoso, baseado na obra da Lídia Jorge. Mais uma vez, vou contracenar com Rogério Samora, que é um tenente alucinado, fachista, traumatizado, arrogante, sinistro. E eu sou a mulher dele. Uma menina do continente que vai com o marido para África durante a guerra. Uma mulher nervosa, que sente que alinhou num esquema sem se revoltar, uma mulher a quem o marido já não dá valor e que se sente profundamente só. Ela diz que imagina o seu funeral só com o marido a olhar para a campa como uma festa à qual as pessoas se esqueceram de ir.

São papéis completamente diferentes de "A mulher que acreditava ser presidente dos EUA". Gostou de fazer a comédia de João Botelho?
Hoje não aceitaria. Achei que aquilo não tinha piada nenhuma.Mas foi um desafio. E teve a vantagem - por ela ser completamente desfigurada -, dos jornalistas pararem de me perguntar se sou sexy, o que já era incómodo. A única coisa a que achava piada era à Rita Blanco e às outras mulheres.

Continua a preferir trabalhar com mulheres?
Traz imensas vantagens. Podemos falar dos maridos, dos filhos, das fraldas, dos períodos menstruais sem aquilo parecer um disparate.Com homens, quem é que consegue? Além disso, podemos andar aos beijos sem que a imprensa diga que temos um caso. Consegue-se um equilíbrio entre ser mulher, com todas as características que temos, sem isso ser vergonhoso nem inibidor do trabalho.A minha experiência diz-me que se produz lindamente com mulheres.

Tem saudades de fazer teatro?
Imensas. Não faço teatro desde que nasceu a minha filha mais nova, que tem cinco anos. Já tive projectos, subsídios na mão que tive que devolver e fiquei desmotivada. Mas há uma peça escrita pela Clara Ferreira Alves, com uma ideia minha, para ser feita no Vilaret, que ainda pode acontecer. Neste momento, só faz sentido recomeçar devagarinho, com dois ou três actores no máximo, para me poder compatibilizar com a minha família.

É mais complicado conciliar trabalho e família no teatro?
É. Eu sou apologista da quantidade. Aquela teoria dos momentos de qualidade não me convence. Recuso-me a não estar com as minhas filhas. Preciso de tempo para elas, para as conhecer. E os sentimentos, e as ideias erradas, e que amor é que têm para dar. Houve uma altura em que acreditava em compartimentos estanque. Hoje não acredito. Tento explicar isto às minhas filhas, dizer-lhes que a profissão da mãe é dura, não é aparecer com sorriso de plástico nas revistas. Mas, para isso, tenho que me subdividir em várias mulheres. E isso nunca é valorizado pelos maridos, pelos patrões ou pelos realizadores.

Sente-se finalmente protegida pela crítica?
Relativizo a crítica desde os 26 anos. Temos que ser lúcidos e perceber que, às vezes, dizem bem de nós com justiça, outras vezes sem razão de ser. O mesmo se passa quando dizem mal. Os dois Globos de Ouro que recebi são disso exemplo. O primeiro foi um disparate. Eu fazia parte do elenco secundário de uma novela onde havia trabalhos fantásticos da Rita Loureiro, do João Perry, da São José Lapa. Parece que me deram o Globo por uma data de anos em que podia ter sido, pelo menos, nomeada e nunca fui. Recebê-lo naquela altura foi completamente injusto.No caso do "Delfim", não achei tão injusto porque me senti recompensada pelo meu regresso ao cinema. Acho que correspondi às expectativas do realizador, mas achei que o prémio era para ele. Até porque ele não recebeu, o filme também não, e eu não me senti bem a receber. Causa-me incómodo ser exageradamente elogiada.

E pelos colegas?
Sinto-me sobretudo protegida pelos homens. De uma forma geral, têm uma atitude protectora em relação a mim, não sei porquê.Se calhar porque sou muito ansiosa e angustiada. Algumas mulheres também, como a Rita Blanco. E isso sabe-me bem.

De certa forma, a sua carreira é catapultada com a "Banqueira do povo", mas depois não chegou a investir em telenovelas.
Honestamente, em novela, o mais interessante é fazer os papéis principais. Porque é que não aceito papéis secundários? Porque nem sempre aparecem na altura certa. A seguir à "Banqueira" apareceram imensos convites, mas todos a bater no mesmo. Era sempre convidada para fazer a cabra de serviço (ri). Não me apetecia.

Sempre recusou despir-se. A personagem de "Ana e os Sete" foi uma cedência?
Foi, claro. A personagem é tão completa e o projecto tão giro que achei que valia a pena. E tive rapidamente a noção que a versão portuguesa era muito mais suave que a espanhola. O despir aqui é quase adocicado, como num cabaré. Se me pedissem nu integral não aceitava.

É frequentemente acusada de falsos pudores. Há mais condescendência com o excesso de autoconfiança do que com a insegurança?
Não sei. Estou cada vez menos preocupada com aquilo que as pessoas pensam porque não medem o que dizem. Criei uma barreira invisível para me defender.

Lembra-se de quando começou a ser considerada uma sex-symbol?
Estava a fazer uma peça pós-Perestroika, encenada pelo José Wallenstein, "Estrelas no céu da manhã". Era uma prostituta de Moscovo. Houve uma grande mudança com as personagens que tinha feito até aí.No "Sete", fizeram-me uma entrevista, mas publicaram fotografias da peça. Nessa altura achava alguma graça porque sempre tive muitos complexos por ser feia e baixa. Não sabia que ia pagar a factura durante tantos anos. Um rótulo, por melhor que seja, é sempre redutor.

A propósito de facturas, depois de ter ultrapassado a fase "Na cama com", gostava de voltar a entrevistar?
Na altura, fui ingénua ao aceitar esse programa. Deixava-me intimidar pelos convidados. Hoje, gostava de voltar a fazer entrevistas, mas tenho sobretudo vontade de fazer uma espécie de "Frou-frou".Lembra-se?

A sua beleza tem ajudado a impulsionar a carreira?
Não, porque não sou bonita. Posso produzir-me e com isso ficar mais bonita. Mas nunca serei uma Leonor Silveira ou uma Ana Padrão.Tenho horror aos grandes planos em cinema.

Contou que, se lhe tivessem dito, quando era pequena, que só encontraria o amor aos 29 anos, não teria acreditado. Acredita no amor eterno?
Mesmo que a vida me faça passar por experiências mais ou menos negativas, acredito no amor acima de tudo. Acredito nele como uma força enorme onde podemos buscar energia para tudo. O amor é o meu combustível. Sem ele não seria o que sou. Também a nível profissional. Se for, algum dia, privada de amar, uma grande parte de mim irá morrer.

E em contos de fadas, acredita?
Acredito. (risos). E alimento isso nas minhas filhas que estão agora apaixonadas pelo Peter Pan. Digo-lhes que também me apaixonei por ele. No meu caso, ele não apareceu, mas pode ser que apareça no delas. São os contos de fadas que nos dão forças para continuar.E acredito nos anjos da guarda, e sou católica e tenho fé e acho que é assim que se contorna a dor, a morte e os percalços da vida.

Continua a ser possessiva?
É uma coisa que tenho tentado controlar. As pessoas não mudam; refinam com o passar dos anos. É preciso ter a noção que nascemos e morremos sozinhos e, muitas vezes, nas ocasiões mais importantes da nossa vida estamos igualmente sozinhos. Aprendi a controlar isso de forma a não magoar os outros, o que não quer dizer que o meu primeiro impulso não seja esse.

Como se define como mulher?
Uma mulher à procura de equilíbrio. Sinto que estou na fase em que posso abrir o último pacote de foguetes.

E que mulher gostaria de ser?
Uma daquelas mulheres que quando põem as mãos na mala não tiram 500 mil coisas até encontrar a chave. Que são arrumadas. Por dentro.

Idade 37 anos
Filme Azul, de Kieslowski
Livro Todos os de Michael Cunningham. (Na cabeceira, tem sempre a Bíblia e uma compilação de poemas. E agora uma compilação de ofertas.)
Paixão as filhas
Medo de tudo o que lhes possa acontecer
Saudade dos três anos, a altura mais feliz da minha vida
Sonho deixar de ter pesadelos de uma vez por todascidade Amesterdão

Confissões

"A Liberdade de Imprensa sufoca o indivíduo"
Tenho uma relação de amor/ódio com a Imprensa. Nunca mais falarei da minha vida privada. Confiei nas pessoas e elas não mereceram.Agora é o salve-se quem puder. Percebi que toda a noção de ética e respeito e confiança está adulterada. Isto chegou a um ponto em que a liberdade de Imprensa está a sufocar a liberdade do indivíduo.

"O suicídio não é uma cobardia; é uma opção"
Tentei suicidar-me depois de, contra a vontade da família, ter trocado o curso de Filosofia por teatro. No fim do trimestre tive uma avaliação muito dura e senti que tinha feito a opção errada. Fiz um disparate para chamar a atenção. Mas, de facto, não considero o suicídio uma cobardia ou uma fuga; é uma opção.Depende das circunstâncias.

"Sinto-me como a Alice no país das maravilhas"
Tenho causas perdidas, mas tento não pensar nisso, porque sou pessimista, e rapidamente caio como a Alice no país das maravilhas.Sinto-me a diminuir de tamanho. Cair sem saber para onde é um pesadelo recorrente que tenho. Esse filme é um dosque mais me marcou - é terrivelmente adulto e cruel. Não deixo que as filhas o vejam.
Filmografia

Lá Fora (2004)
Imortais, Os (2003)
A Mulher que Acreditava Ser Presidente Dos EUA (2003)
O Delfim, O (2002)
The Dancer Upstairs (2002)
Paisagens Intermédias (2002)
A Falha (2000)

Jorge Vaz de Carvalho

"Reagirei ferozmente
se a Casa da Música não integrar
os músicos da ONP"

Jorge Vaz de Carvalho promete "reagir ferozmente" se os 94 músicos que actualmente integram a Orquestra Nacional do Porto (ONP) não transitarem todos para a Casa da Música. O director da ONP, que terminará funções dentro de três meses, vai mais longe e sublinha que não basta incorporar os executantes - é preciso também contar com a mais-valia de técnicos e administrativos. Muito crítico em relação à forma como todo o processo está a ser conduzido, Vaz de Carvalho reforça a necessidade de um "estatuto especial" para a estrutura sinfónica e sublinha as dificuldades que a ONP já está a encontrar: "A Casa da Música tem uma sala de ensaios onde a orquestra não cabe toda".

(Entrevista de Helena Teixeira da Silva publicada no Jornal de Notícias a 9 de Setembro de 2005)


Por que é que o seu mandato, que não foi renovado, foi prolongado por mais três meses?
Tendo em conta que o Ministério da Cultura decidiu que a Orquestra Nacional do Porto (ONP) vai ser integrada na Casa da Música (CdM), perdendo autonomia como instituto público, não fazia sentido renovar o mandato. Entretanto, o secretário de Estado pediu-me que ficasse em funções até à integração, e eu aceitei porque isso está previsto na lei. Farei, apenas, uma gestão corrente, uma vez que a época de 2006 já está planificada.

A ONP passa a ser um agrupamento como o Remix?
Suponho que sim.

Ou seja, o contrário do que sempre defendeu...
Sempre afirmei que a ONP não devia integrar a CdM em pé de igualdade com os outros agrupamentos. O peso artístico e funcional é incomparável. Basta olhar para a programação da CdM para se perceber que a ONP é o motor daquela Casa, e que, sem ela, a CdM nem teria razão de existir. A ONP devia ter um estatuto especial. Mas isso tem a ver com uma lógica funcional que não é a de quem decide. É interessante comparar os salários: há músicos do Remix que reprovaram nos testes de adesão à ONP e, no entanto, ganham infinitamente mais.

Herdou 49 músicos da ONP. Quantos existem agora?
Construí uma orquestra sinfónica com 94 músicos. Mas a ONP é também o pessoal técnico e administrativo - pessoas de grande qualidade técnica e humana, que vai ser a grande mais-valia da CdM.

Todas passarão para a CdM?
Nem me passa pela cabeça que uma instituição que se quer de excelência possa prescindir de pessoas com esta qualificação. Sem a qualidade da minha coordenadora artística de produção e dos técnicos de palco, a CdM não teria aberto, na data em que abriu, sem problemas.

Mas é líquida a transferência total dessas pessoas?
Para mim, é. Se isso não acontecesse, seria profundamente injusto. Seria uma atitude ignóbil. E se assim não for, reagirei ferozmente na Comunicação Social. Espero que a integração seja pacífica mas, na realidade, não sei de nada.

Não seria expectável que estivesse mais informado?
Já estou habituado a não ser ouvido sobre coisas importantes. Por isso é que a CdM tem uma sala de ensaios onde a orquestra não cabe. E um palco subdimensionado e problemas logísticos e estruturais que têm sido um verdadeiro teste ao profissionalismo dos músicos.


Como é que funciona uma orquestra que não cabe na sala
de ensaios?
Com grande paciência. Compreendemos que não é possível ensaiar sempre no grande auditório, mas devia ter sido pensada uma sala de ensaios com tamanho e condições de ergonometria, qualidade acústica, temperatura e dimensão do próprio espaço que permitam condições normais. É pena que isso não aconteça num edifício que custou o que custou. Aliás, se pudesse, mandava instaurar um inquérito para saber quem deu as medidas das salas ao arquitecto e quem permitiu que fossem separadas por vidros.

Também aposta na integração do maestro Marc Tardue?
Ele tem contrato até ao fim de 2007. Na última renovação foi-lhe acrescentada uma cláusula em que o contrato pode ser rescindido unilateralmente, seis meses antes. Seria ignóbil que alguém da CdM não honrasse o contrato do maestro até ao fim. Se o futuro director for uma pessoa de bem e tiver a qualidade esperada, é evidente que não irá cometer essa injustiça.

Encontra vantagens na integração da ONP na CdM?
Tem uma grande virtude: houve grandes restrições orçamentais na ONP, mas como a CdM não as tem, é evidente que será possível, em 2006, contratar um nível de maestros e solistas superior. Não os pude contratar - não porque não os conheça ou porque precise receber lições de qualquer director artístico -, mas porque nunca tivemos os privilégios orçamentais que, pelos vistos, a CdM tem.

Concorda que a acústica é uma das melhor do Mundo?
Nem nada que se pareça. O Europarque tem muito melhor acústica. E tem fosso e teia. E o recém inaugurado de Faro tem uma acústica notável. A da CdM deve ser corrigida urgentemente.

Sente alívio por não fazer parte de uma integração com a qual não concorda, ou lamenta não fazer parte disso?
Não é uma questão sentimental; é uma questão lógica. Quando está a tratar-se de coisas importantes, que podem definir estratégias que condicionam o funcionamento de uma instituição tão grande, tão ambiciosa e tão cara como a CdM, as pessoas que estão no terreno e que conhecem as questões devem ser consultadas. Mas era o que me faltava: tomar qualquer iniciativa para me apresentar como candidato a uma dessas reuniões! Nunca farei essas figuras na vida. Sempre que for necessário, estarei disponível.

Miguel Sousa Tavares


'Quero o meu livro adaptado a filme'

Transportou a história do trabalho escravo em S. Tomé durante dez anos na cabeça. E soltou-a agora em "Equador", o seu primeiro romance histórico que há seis semanas ocupa o top das livrarias. "Queria escrever um livro que desse prazer às pessoas", confessa enquanto substitui, incessante, o cigarro na ponta dos dedos. Miguel Sousa Tavares, em entrevista ao JN, coloca o país à lupa - e fala longamente de si. "Sinto-me idiota a ter opinião sobre tudo".

(Entrevista de Helena Teixeira da Silva publicada no Jornal de Notícias a 21 de Julho de 2003)


"Equador" é um romance histórico com algumas imprecisões. São falhas propositadas por ser ficção?
Há erros. O principal foi, misteriosamente, a troca do português pelo colombo. É uma falha da qual desconheço a origem. Depois, há dois ou três erros meus, que passaram. A localização do Forte de S. João Baptista, por exemplo. São erros cometidos por distracção, por escrever tarde. Não têm a gravidade que teriam se fosse uma tese de História.

A pesquisa histórica não foi feita por si. O que é que encomendou exactamente?
Não encomendei. Há dez anos que junto material para este livro.Muitas coisas eram documentação minha. Depois, pedi a colaboração de uma licenciada em História para me ajudar a descobrir coisas: se havia electricidade pública em S. Tomé em 1905, quais os hotéis de Lisboa naquela época, os restaurantes mais frequentados...

O livro tem todos os ingredientes que poderiam fazer da história um bom filme: um herói incompreendido, minorias desfavorecidas, testes de lealdade e um amor absoluto...
Gosto de contar histórias e elas não podem chatear as pessoas.Tentei escrever um livro que a mim me desse prazer escrever e às pessoas prazer ler. Foi voluntário o facto de estar escrito como se fosse um argumento para um filme. Tenho uma ideia muito visual dos livros. Preciso de ver os personagens, os ambientes, a decoração dos sítios onde se passam as coisas. De facto, é uma visão muito cinematográfica. Quero que o meu livro seja adaptado ao cinema.

Diz que desiste de um livro se, à décima página, ainda não estiver preso à história. Teve essa preocupação com o leitor ?
Claro. Se até aí o livro ainda não tiver ganho o leitor, não tem futuro. Ouvi centenas de opiniões sobre o meu livro e todas o leram até ao fim, o que não aconteceu com a maioria dos livros que tive nas mãos.

Prescindiu do vocabulário da época. O livro é escrito em português actual...
É e não é. A narração está escrita em linguagem actual. É uma história contada em 2003. Seria absurdo escrever como há cem anos. A correspondência e os ofícios estão escritos na linguagem da época.

Cem anos depois, a maneira de fazer política em Portugal é diferente da que descreveu?
Se calhar não, mas não me preocupei muito com isso. Mesmo das querelas políticas da altura, falo apenas por alto. A ideia essencial é que somos um país muito provinciano. E continuamos igual, ou se calhar, pior, porque no início do século XX ainda havia um mundo de perspectivas à frente, e hoje são cada vez mais curtas.Nem sequer há um S. Tomé para onde ir.

O golpe de Estado em S. Tomé poderia ser o capítulo seguinte de "Equador"?
Não. É o capítulo seguinte da história trágica da independência de S. Tomé, que não encontra justificação para tanta miséria.

O que adopta da história que escreveu: a coragem de largar tudo, a defesa dos desfavorecidos...?
Nenhuma dessas coisas, ou se calhar um bocado de todas elas.Há um dia - e essa é a missão do personagem que vai para S. Tomé -, em que somos confrontados com a necessidade de que a nossa vida faça sentido. Ele, que era um diletante lisboeta e tinha uma vida cómoda, mas sem sentido, encontra ali um sentido para as coisas.

Escreveu todo o tipo de histórias. Escapou-lhe a poesia e continua a ter uma BD para completar...
Da poesia, que experimentei aos 19 anos, desisti, graças a Deus. Gosto muito de banda desenhada. Gostava muito dessa história inacabada, que saía em fascículos na Grande Reportagem. O desenhador era excelente, mas não cumpria prazos. Fiquei com isso atravessado e deixei-a...

"Toda a gente acha que é um bocado dona de mim"

"Portugal sofre de conferencite aguda". Miguel Sousa Tavares será mais sensível do que deixam transparecer as suas opiniões implacáveis. "Os homens não são necessariamente insensíveis", tentou provar.Mas, apesar da credibilidade indiscutível que adquiriu perante o país, nem sempre se sente tão seguro como demonstra. "Tenho muitas contradições".

De certa forma, cultiva essa imagem de pessoa distante, de analista político frio e arrogante... (interrompe)
Não, não cultivo nada. Sou diferente quando estou em Portugal e no estrangeiro. O que tenho aqui é um instinto de autodefesa porque, graças à televisão, não tenho nenhuma espécie de privacidade a não ser quando estou fechado em casa. De resto, desde o café, ao futebol, ao mercado, à praia, as pessoas olham para mim como coisa pública. Toda a gente acha que é um bocadinho dona de mim.No estrangeiro é diferente. As pessoas que me conhecem ficam admiradíssimas com a minha transformação. Volto a ser eu, natural.

Não hão-de ser muitas já que gosta de viajar sozinho...
É verdade. É a minha mulher e pouco mais.

Apesar desse instinto de protecção, escrevia na Máxima crónicas mais íntimas...
Foi um desafio da Manuela Fragoso, directora da revista. Disse-lhe que só escreveria seis coisas e acabei por lá ficar oito anos. O meu objectivo foi mostrar, do ponto de vista do homem, às leitoras da Máxima e à sua redacção 100% feminina, que os homens não são necessariamenete insensíveis. As mulheres acham que os homens sensíveis têm um lado feminino. Nunca pode ser o lado masculino, o que é extraordinário (risos). O lado masculino, do ponto de vista das mulheres, é uma coisa brutal. Mas acho que consegui passar a mensagem, porque ainda recebo cartas a dizer que o melhor do que escrevi está ali.

Publicou uma crónica, que aparece no livro "David Crockett", chamada "Eternamente". Quando perdeu essa ilusão de que tudo é nosso para sempre"?
Com a idade. Com as percas que vamos tendo. A maior ilusão da vida é, de facto, pensar que as coisas boas duram para sempre.Bergson diz que "a felicidade é ausência de dor". Não sou tão extremista, mas acho que não existe felicidade eterna, nem dias eternamente com sol. Existe apenas aquilo que conseguimos salvar.Se salvarmos as memórias boas e apagarmos as más, excelente.

De tudo o que escreveu, o que é que lhe dá mais prazer?
A banda desenhada. O resto, não sei. O que me custou mais escrever foi o "Equador" e um livro para crianças. A escrita tanto dá prazer como o contrário: é fonte de angústia, de sofrimento, de desespero, de frustração e de falta de confiança em nós próprios. Oscila muito.

Considerando a fama do seu mau feitio, seria normal vê-lo menos na imprensa cor-de-rosa. Mas está sempre a aparecer. Gosta ou incomoda-o?
Não posso virar sempre a cara aos fotógrafos. Mas uma das razões porque não tenho tanta vida social é precisamente essa. Aprendi, infelizmente, que às vezes até em casas particulares onde pensamos ir apenas como amigos, vamos também como objecto de fotografia de coluna social. É terrível. Desejaria sinceramente ter uma vida só minha, que não fosse partilhada por toda a gente.

Tem uma imagem 'negligé premeditada'. A imagem é tão importante como a mensagem que quer passar?
De todo. Mas eu não sou nada premeditado (risos). Não sou, sinceramente. Escolho a roupa num minuto. Vou à gaveta das camisas e tiro a que está em cima, vou ao armário das calças e tiro as que estão mais à mão. Sou o tipo de pessoa que, se gosta de uns sapatos, usa-os todos os dias durante dez anos. Cheguei a uma idade a que, em termos de roupa, visto aquilo em que me sinto bem. Não penso se é negligé ou não. Quando era advogado, tinha que usar gravata, senão não me levavam a sério, quando vou à televisão, também a ponho. É a única ocasião em que hoje uso gravata.

Frequentou durante oito anos o colégio S. João de Brito, e transformou-se num agnóstico. O que fizeram os jesuítas de tão perverso para deixar de acreditar?
Não sei como são os colégios jesuítas hoje, mas o meu, na altura, em termos pedagógicos, estava completamente errado. Os jesuítas ensinaram-me o contrário de todos os valores morais em que acredito na vida. Aprendi coisas que repudio, como a delação ou a separação de classes. Percebi logo que não concordava com aquilo, e andei lá dos 7 aos 15 anos. Hoje não tenho qualquer ideia dos jesuítas.Há padres jesuítas que admiro imenso e outros que desprezo. Como em tudo na vida não há categorias, há pessoas. Conheci um padre jesuíta, na Índia, inesquecível. Assim como conheci um, em Lisboa, que é um padre social e da moda, que eu desprezo com todas as minhas forças. Não tenho paciência para padres betinhos.

Tem uma pesadíssima herança. Lê os livros todos da sua mãe (Sophia de Mello Breyner Anderson) e ela lê os seus?
Claro. A minha mãe é minha grande fã. Aliás, houve um livro que escrevi que levei à sua apreciação antes de publicar. E ela deu-me uma ideia que eu usei.

E da parte do seu pai, Francisco Sousa Tavares. Licenciou-se em Direiro, como ele. Queria salvar o Mundo?
Teve mais influência o facto de não haver um curso de jornalismo na altura que era o que eu queria ser já. Mas ele tinha razão quando dizia: "Vai para Direito e depois logo se vê". Gostei muito de ser advogado. Gostei muito da parte do tribunal. Aliás, há no livro um episódio que é uma espécie de tributo a isso.A parte burocrática da advocacia detestei. Queria ser jornalista, não para salvar o Mundo, mas porque queria contar histórias.A primeira reportagem de jornalismo que escrevi foi sobre um patrão de uma multinacional sueca que tinha ordenados em atraso, e os trabalhadores foram sequestrá-lo ao hotel. Teve um enredo policial porque consegui chegar à fala com o sueco e adorei aquilo. Adorei. Quando a li, no dia seguinte, no jornal pensei que era aquilo que tinha querido a vida toda.

Como vê o estado actual da Grande Reportagem da qual foi director durante dez anos?
Fico sobretudo triste com a ideia de a revista passar a ser um encarte dentro do DN e do JN. Não sei se foi a solução de sobrevivência, mas será a morte da Grande Reportagem. A crise publicitária é indesmentível. O ano passado houve uma queda de 15% na imprensa escrita. E o editorial era fatal que mudasse, porque aquilo é a revista do director.

Esteve em todas as televisões e passou por alguns jornais, mas fica a ideia de que o maior laço afectivo é com o Público. Lembro-me daquela intensa crónica de despedida, há dois anos...
É verdade. Gosto muito do Público. É um jornal infinitamente melhor que os seus destinatários. Não aqueles que o compram, mas os que deviam comprar e não compram. O Público é bom de mais para o meio cultural, intelectual, para as exigências dos portugueses.Gosto muito de escrever num jornal que leio exaustivamente todos os dias.

Assume-se como pessoa de contradições?
Claro. Tenho muitas contradições. Mas se calhar dentro das contradições existe uma certa coerência. Não sou uma pessoa de verdades adquiridas.Sou uma pessoa de valores adquiridos. Não tenho muitos, mas os poucos que tenho são firmes. Se calhar, daqui a três anos, conversamos e digo tudo ao contrário. Não quer dizer que não perdure aquilo em que acredito. Se as circunstâncias mudam, o nosso olhar sobre as coisas muda também.

É uma contradição o facto de ter condenado o projecto da estação de televisão onde hoje é comentador semanal?
Condenei o projecto da Igreja que não tem nada a ver com o projecto de agora. A Igreja quis ter uma televisão por favor político, o que é um escândalo. Na altura, concorri com outro projecto que perdeu para o da Igreja. Hoje, toda a gente está de acordo comigo. D. José Policarpo já disse que a Igreja devia pedir desculpa pela aventura na TVI, para onde arrastou o dinheiro de muita gente e o próprio nome da conferência episcopal.

Identifica-se com o projecto actual da TVI?
Não me identifico com nenhuma informação televisiva neste momento.Se fosse director, não faria nenhuma daquelas. Mas também é verdade que não aguentaria mais de uma semana no cargo. Antes havia uma separação entre programação que cativa audiências e informação que dá prestígio à estação. Isso mudou radicalmente a partir do dia em que se descobriu que fazer informação tablóide também capta audiências. A primeira vez que apareceu escrito foi numa informação interna, na SIC. Portanto, vivemos com esse princípio de que informação não é o interesse público, mas o interesse do público.

Via a informação da SIC por ser fã do José Alberto Carvalho.Opta agora pela informação da RTP 1?
Vejo bastante mais do que via antes. De facto, sou fã dele.

Como classifica a informação da estação pública de televisão?
Como uma manta de retalhos. Pode ser boa, má, imprevisível ou absurda. Estão reunidas todas as condições para que a RTP possa ter uma informação inatacável e não tem. Acho, sinceramente, que as pessoas que serviram determinado projecto da RTP dificilmente poderão continuar agora a servir um projecto oposto.

Continua, então, a achar que não há solução para a RTP?
Há solução. Sempre defendi a existência de uma televisão pública.Acho é que é difícil fazer uma RTP nova com pessoas velhas e gastas politicamente. Estive lá dez anos. Sei que aquela televisão desgasta muito as pessoas, suga-lhes o melhor e deixa-lhes só vícios burocráticos.

Nunca teve paciência para andar em digressão a fazer palestras. Diz que não o faz a não ser a troco de dinheiro...
Odeio conferências, palestras, simpósios, jornadas. Tenho três tipos de carta para responder a esses convites. Há um modelo em que pergunto às pessoas se imaginam que não tenho que trabalhar para ganhar. Todos os dias, sem exagero, recebo dois convites para fazer uma palestra. Será que estes tipos todos imaginam que podem dispor do tempo e do dinheiro de uma pessoa que se mete no comboio, paga as suas viagens, vai na véspera, e perde dois dias para fazer uma palestra? Se querem conferências - e Portugal sofre de conferencite aguda - façam-no profissionalmente.Esses convites vêm sempre de pessoas que trabalham para o Estado.Estão chateados com trabalho e decidem fazer simpósios. Só que eles continuam a ganhar e eu não.

Isso acontece porque parece ter sempre opinião sobre tudo. Não se sente, às vezes, um pouco idiota nesse papel?
Sinto (risos). Ninguém pode ter opiniões interessantes e válidas sobre tudo. É óbvio. É uma profissão que se inventou agora: o 'opinion maker', que é suposto ser um generalista de ideias.Não me posso queixar, porque vivo dela e, em termos comparativos, em Portugal paga-se muito bem aos cronistas de opinião.

Qual o preço a pagar por dizer sempre o que pensa?
O mais evidente é a saturação. O excesso de exposição cansa. Mas é uma coisa sem grande longevidade. As pessoas perguntam como posso ter opinião sobre tudo. Poder posso, tanto que tenho.Mas sou o primeiro a dizer que essa opinião não é sempre bem fundamentada. Seria impossível.

Portugal à lupa

Universidade Moderna: Condenação simbólica
O caso da Moderna vai acabar em nada. Houve expectativas tão altas que já se sabia que ia ser assim. A partir do momento em que a justiça não conseguiu levar as investigações até ao fim, houve uma tentativa de incriminar Paulo Portas para salvar o caso.Como a operação falhou, vai acabar numa condenação simbólica para justificar a prisão preventiva dos que estão lá dentro.

Subsídios da UE: Choque Nacional
Todos os que se habituaram a viver da mama dos dinheiros europeus vão ter um choque completo, e ainda bem, quando grande parte dos subsídios forem desviados para o leste. Os portugueses perderam a noção do que é mérito, competência, competitividade, esforço e trabalho. Perderam a noção de que o país tem que criar riqueza e não pode viver eternamente de esmolas dos países ricos. Habituaram-se a que as coisas caiam do céu. Tudo é subsidiado, toda a gente fez cursos de formaçao. Já é altura de perceber que nem tudo é exigivel e há coisas que têm que ser conquistadas com o nosso esforço.

Casa Pia: Carne para canhão
Espero que não seja um fogo fátuo. A Casa Pia foi um crime continuado ao longo dos anos, consentido, incentivado, mantido com responsabilidades das pessoas que estavam lá dentro. Mais do que condenar figuras públicas, o importante é que a estrutura humana que transformou crianças orfãs confiadas ao Estado em carne para canhão seja condenada e julgada.
Livros
Equador Romance histórico sobre as roças de S. Tomé e Príncipe, no início do século XX.
Não te deixarei morrer David Crockett Compilação de crónicas
Anos perdidos Crónicas escritas, semanalmente, no Público, entre 1995 e 2001.
Sul Relato de viagem. "O excesso de tudo que nos engole e arrasta como uma vaga gigantesca."
O segredo do rio História para crianças em que o autor desmistifica a morte.
Perfil
Idade 51anos
Defeito A caridade é a mãe de todos os vícios
Qualidade A coragem
Música O tango é a minha última descoberta
Escritor Yourcenar, Nabokov, Tchekov, Sepúlveda
Fobia Andar de avião
Paixão A vida
Cidade Buenos Aires, onde todos os presidentes de Câmara, actuais e passados, do Porto a Lisboa, deviam ir para uma cura de humildade