sexta-feira, janeiro 26, 2007

A voz. E o clone.

Falas-me sempre da voz. Sempre, desde o primeiro dia. É a primeira coisa que dizes quando digo olá, sou eu. E és o único a falar dela, da voz. Da voz sem ser para referir a má dicção ou a pronúncia daqui ou dali. Falas da voz com adjectivos insuflados. E lês-me uma crónica de Eduardo Prado Coelho, ao telefone: "Se alguma coisa se incorpora na matéria das vozes que as torna recalcitrantes a quase todas as palavras com que as tentamos definir, essa resistência tem por contraponto o estranho mistério de elas parecerem inesquecíveis - e por vezes, ao atender um telefonema, ao ouvir um programa de rádio, ao encontrar alguém na esquina de uma rua,é uma antiquíssima voz que vem segredar-me ao ouvido que a memória tem mais voltas, estragos e volutas do que possamos imaginar". Falas da voz primeiro e da gargalhada depois. É a segunda coisa que fazemos depois de dizermos olá, sou eu. Invariavelmente. Da gargalhada da saudade. Da saudade de sempre. Sempre incumprida. Parecemos tontos!...
Criámos um ritual de pretextos: tu ligas-me quando tropeças em qualquer coisa escrita sobre o poder da voz ou, mas menos, quando vês um cabelo "a arder". Eu ligo-te quando ouço uma música que descobrimos os dois ou, cada vez mais, quando encontro aquele que me parece ser um clone teu. E voltamos a rir. Dos pretextos. Sempre iguais. Devolvo-te o Prado Coelho por correio: "Há um dia em que sentes que o essencial ficou para trás, que a partir de agora tudo pode ser igual ao anterior mas nada terá a tonalidade que o distinguia, porque nenhum desejo investe o que acontece, porque ultrapassámos uma linha invisível, e aí experimentámos essa forma de morrer que é o puro derrame do sentido, a desolação sem resgate, o declive sereno mas inexorável, a impiedosa expansão de um depois". Seremos tontos?...
Nem a minha voz é como dizes ser, nem o clone é como tu. E também não há caminhos que nos conduzam ao passado, mas "um dia, vamos juntos a Nova Iorque". Promessas para o futuro. Somos tontos.

2 comentários:

  1. Olha, afinal há mais... O pior enfermo é aquele que já aprendeu a conviver com a doença, né? Devia ser possível a amnésia selectiva. DIACHO!

    ResponderEliminar
  2. Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

    ResponderEliminar