segunda-feira, julho 13, 2015

Filipe Melo: Os últimos marinheiros


Quem há uns dez ou doze anos leu o primeiro livro de Filipa Melo ("Este é o meu corpo"), sabe o que é passar largos anos, em vão, à espera do livro seguinte. E entende a felicidade que é chegar a uma estação de serviço e tropeçar, finalmente, num novo livro. Mesmo que seja mínimo, mesmo que seja muito diferente. É uma reportagem, um retrato sobre essa coisa do mar, que nos é tão sensível, e "dos homens ao ritmo do mar", escrito da forma mais bela e emotiva que é possível.

"O avesso de um sonho. Muitos deles, perdidos sem salvação no meio do nevoeiro, abalroados por navios mercantes ou por transatlânticos, lançados contra as rochas ou icebergues, deitados à água pelo bater das caudas das baleias, feitos cadáveres com as mãos geladas como garras sobre os remos, esganados de fome, frio e sede, tantos, tantos deles selaram, como Yann, núpcias monstruosas com o mar."


quinta-feira, julho 09, 2015

Simple things



She said, I don't want a model
I don't want a movie star
You don't have to win the lotto
I want you to win my heart
Yeah, she said I just want someone true
She said I just want someone to, smoke with me babe
And lay with me babe
And laugh with me babe
I just want the simple things
Smoke with me babe
And laugh with me baby
And lay with me baby
Cause I just want the simple things
I just want you

terça-feira, julho 07, 2015

Catarina Santos vence Prémio Gazeta Multimédia





Reportagem da jornalista Catarina Santos na Sicília, sobre o drama dos migrantes que tentam chegar à Europa, conquista o prémio do Clube dos Jornalistas.

O drama de milhares de migrantes que todos os dias tentam chegar à Europa é o tema central de “A Sul da Sorte”,  reportagem da jornalista da Renascença Catarina Santos que venceu o prémio Gazeta Multimédia 2014.

"Utilizando diversos registos e meios, Catarina Santos mostra, com rigor e grande sensibilidade, os vários lados de um problema que já ultrapassou as fronteiras de Itália", escreve o júri no comunicado divulgado esta terça-feira.

Os prémios Gazeta são o mais prestigiado galardão do jornalismo português.

Manuel Carvalho e Manuel Roberto (imprensa), Mário Galego (rádio), Pedro Coelho (televisão), António Cotrim (fotografia) e Vânia Maia (revelação) foram outros vencedores dos Prémios Gazeta 2014. O júri distinguiu com o prémio Gazeta de Mérito o jornalista Fernando Paulouro e atribuiu o prémio da Imprensa Regional ao jornal "Soberania do Povo". O júri do prémio é constituído por Eugénio Alves (Clube dos Jornalistas), Cesário Borga (Clube dos Jornalistas), Elizabete Caramelo (docente universitária), Fernando Cascais (docente universitário e CENJOR), Fernando Correia (jornalista e docente universitário), Jorge Leitão Ramos (crítico de cinema e televisão), José Rebelo (docente universitário) e Paulo Martins (docente universitário e Comissão da Carteira).

Ver reportagem aqui: http://rr.sapo.pt/a-sul-da-sorte/

domingo, julho 05, 2015

Grécia II

Há dias assim, em que muita gente comenta a actualidade recorrendo a essa planta espermatófita que é o tomate. Não consigo deixar de pensar no que seria se também os tivéssemos em Portugal.

Grécia I

Há poucas coisas mais comoventes do que a coragem de quem tem todas as desculpas para a não ter.

sábado, julho 04, 2015

Who is next in line to get hurt



Lately i've been searching, searching for answers
I walk around the boulevards, looking for magicians
With a cold feet, black coat full of arms outstretched and a leading voice
And i can't help but shout at the top of my lungs
Who is next in line to get hurt
Who is next in line to get speared

sexta-feira, julho 03, 2015

Drugs, sex, and polaroids...



... Pick a star in the sky

quinta-feira, julho 02, 2015

Bergman inesgotável


Não é o Bergman todo, não é sequer o Bergman essencial (digo eu, que não sei nada), mas pronto, é o Bergman possível. Melhor que nada num lugar para onde o espólio da Cinemateca parecia não saber o caminho.
Começa hoje, no Campo Alegre, com "Luz de Inverno".

Explicou Bergman: "O filme está estreitamente ligado com a peça musical: a Sinfonia dos Salmos de Stravinsky. Ouvi-a na rádio, uma manhã, na Páscoa e acordou-me para a ideia de que gostaria de fazer um filme sobre uma igreja solitária nas planícies de Upsala. Alguém que entrasse na igreja, se fechasse nela, subisse ao altar e dissesse: "Deus, vou ficar aqui até que, de uma forma ou de outra, Tu me proves que existes. E vai ser o fim. Ou o Teu fim, ou o meu".

quarta-feira, julho 01, 2015

terça-feira, junho 30, 2015

Maybe I was ready all along



I will not vanish and you will not scare me
Try to get through it, try to bounce to it
All the while thinking I might as well do it
They be lovin' someone and I'm not that stupid
Take the next ticket to take the next train
Why would I do it? And you wanna think that

segunda-feira, junho 29, 2015

A bondade é contagiosa *


A bondade já tem um “sítio” – foi localizada no cérebro, assim como o sentimento que lhe é associado quando essa área regista atividade: “elevação moral”. Além disso, percebeu-se que esta é “contagiosa” – ou seja, ao assistirmos a atos de bondade, somos impelidos a fazer o mesmo –e ajudar. 

Publicado na revista “Biological Psychiatry”, um estudo levado a cabo pela psicóloga Sarina Saturn, da universidade de State Oregon (EUA), mediu a atividade cerebral e o ritmo cardíaco de estudantes universitários enquanto assistiam a vídeos com imagens de atos heróicos ou humorísticos.

Quando viam as imagens heróicas, os sistemas nervosos simpático e parassimpático dos estudantes atingia um pico, o que constitui “um padrão muito invulgar” segundo a psicóloga. “Os dois sistemas são recrutados para uma só emoção” – e isso é incomum, porque combinam uma reação de luta, e outra, posterior, de acalmia. 

Isto pode explicar-se assim: assistir a um ato de compaixão implica testemunhar o sofrimento de outra pessoa – o que desencadeia uma resposta de stresse, e ativa o sistema nervoso simpático. Depois, ao vermos esse sofrimento aliviado acalmamos, e o sistema parassimpático é ativado. Na zona média do córtex pré-frontal (a área relacionada com a empatia), também  foi registada atividade. E é nessa área precisamente que o neurocirurgião João Lobo Antunes julga poder residir o cerne da questão.

“É possível que a capacidade de responder positivamente aos bons exemplos, como a generosidade ou altruísmo, conduzindo ao que alguns chamam 'elevação moral', dependa também da porção mais 'social' do cérebro humano, particularmente o córtex pré-frontal (como tem sido proposto por vários neurocientistas, entre os quais António Damásio)”, defende. O professor recorda que, em termos muito simples, “as experiências emocionais são apreciadas por áreas anteriores do lobo frontal, particularmente no córtex pré-frontal (o sítio que Egas Moniz elegeu como alvo no tratamento de certas doenças mentais); mas também na amígdala, que permite reconhecer os vários tipos de expressão facial, amigável ou não”, e acaba por ser muito importante no relacionamento social entre pessoas.

“Muito mais complexa é a questão do juízo moral, que é estudado através dos modelos experimentais, como o célebre ‘caso das linhas de comboio e do homem gordo’”. Lobo Antunes explica “estes dois dilemas”. No primeiro, um comboio percorre um trajeto que depois se bifurca – num sentido irá atropelar uma pessoa, no outro três pessoas. Nós temos a capacidade de mudar o trajeto por meio de uma alavanca (“agulha”). Conseguiríamos causar a morte de uma, para salvar três? 

No segundo dilema, a vida de três pessoas seria salva se empurrássemos para a linha um homem gordo que se encontra na ponte sob a qual passa o comboio. Seríamos capazes de o fazer? De facto, a maior parte de nós não teria hesitação em manejar a “agulha”, mas já não seria capaz de empurrar o homem gordo, e as áreas cerebrais envolvidas nesta decisão não são idênticas”.

“Curiosamente, as áreas envolvidas em juízos morais são também áreas integradoras das emoções”, continua Lobo Antunes. “Esta teoria tem sido particularmente defendida por Haidt, que considera que o juízo moral é primariamente intuitivo ou emocional. Ele distingue dois sistemas, um antigo, rápido, automático, que instintivamente nos faz julgar se um ato é “bom” ou “mau” - e neste caso, inspira-nos “repugnância”. A este sistema antigo, com mais de 5 a 7 milhões de anos, junta-se outro mais recente (100.000 anos), mais lento e que implica um juízo mais deliberado”. O médico conclui que “sim, a bondade é contagiosa – o problema é haver tanta gente vacinada contra ela…”

* No Expresso

quinta-feira, junho 25, 2015

Scott McCloud: Sculptor


Desconfio que pela primeira vez descobrimos uma BD ao nível de Blankets.
O que faríamos se encontrássemos o amor da nossa vida a 200 dias de morrermos?

quarta-feira, junho 24, 2015

Mariko Tamaki & Jillian Tamak: This One Summer



Não é o Blankets, mas o Craig Thompson leu e aprovou, o que à partida é uma caução de peso. Não é imperdível, mas é um belo livro sobre os tempos em que ainda não sabíamos nada da vida e muito pouco uns dos outros. É uma viagem à adolescência sem ser adolescente e é um tratado sobre a amizade.
(Ana, estas duas podíamos ser nós aos 13 anos ♥)

quinta-feira, junho 18, 2015

quarta-feira, junho 17, 2015

Frase do dia (?)

"O Syriza é a cirrose da Europa, a desgraça dos gregos intoxicou o projecto europeu."
João Figueiredo, PSD

terça-feira, junho 16, 2015

segunda-feira, junho 15, 2015

Paulo Varela Gomes: Morrer é mais difícil do que parece


[Parte do texto que me fez abdicar do preconceito e aceitar comprar a Granta portuguesa pela primeira vez]

Tenho um cancro de grau IV. De cada vez que abro o teclado do computador na intenção de escrever, ocorre-me a frase, já mil vezes repetida, “Quando estiverem a ler estas linhas, é provável que o autor já não esteja vivo”.

São incontáveis os artigos, livros, documentários e filmes sobre pessoas que morrem de cancro. Nunca vi nenhum porque não aguento o stress mas ouvi dizer que alguns são eficientes e fazem os espectadores chorar muito. Não vou escrever aqui um artigo desse género, primeiro, porque não sou capaz, e em segundo lugar porque a história da minha doença e daquilo que tenho feito para lidar com ela tem algumas características muito peculiares que podem interessar a todo o género de pessoas que se preocupam com a vida e a morte e que pensaram com seriedade no tema deste número da Granta: “Falhar melhor”.

Tudo começou quando acordei uma manhã com um inchaço do tamanho de uma amêndoa no lado esquerdo do pescoço. Iludido por uma espécie de incredulidade optimista, pensei que se tratava do resultado de uma infecção nos dentes ou na garganta. Desenganou-me um médico especialista dessas áreas com quem fui falar alguns dias depois: “O senhor tem uma massa na garganta. É melhor ir ver isso rapidamente.” Estava muito grave e sossegado, ele. Percebi depois que nunca lhe tinha passado pela cabeça que alguém não soubesse o que quer dizer “massa” em termos orgânicos. Esta foi a única consulta médica a que a Patrícia, minha mulher e minha “curadoura”, não me acompanhou. Estava a ajudar a Rita a podar as videiras da Vinha Comprida. Quando lhe telefonei a transmitir a seca mensagem do médico, percebeu tudo e diz-me que ficou imenso tempo a olhar lá para o longe, para o pinhal sobre a várzea, com as lágrimas a correr-lhe pela cara.

Quarenta e oito horas depois fiz a obrigatória TAC cervical. Despi-me sem preocupações, coloquei aquela bata ridícula dos hospitais que faz qualquer pessoa parecer que sofre ininterruptamente dos intestinos, deitei-me na máquina. No fundo, esperava boas notícias: não tarda, iriam informar-me de que se tratava de uma chatice menor. Estivemos depois hora e meia debaixo da luz verde escura, crepuscular, da sala de espera. Quando o radiologista veio falar connosco, acabou nesse preciso instante a vida que levávamos juntos há mais de duas décadas. O radiologista tinha a expressão macambúzia de quem apresenta os pêsames a uma família enlutada: cancro na otofaringe com tumor na cadeia linfática cervical posterior e metástases no pulmão. Não operável. Tratamentos em doses muito altas de quimio e radioterapia para, daí a dois a quatro meses, deixar de poder comer ou respirar.

segunda-feira, junho 08, 2015

sábado, maio 23, 2015

Houellebecq: "Querem ver-me morto"


É um dos mais geniais e controversos escritores franceses. “Submissão”, 
o seu último romance, lançado no dia do atentado ao “Charlie Hebdo”, colocou-o na mira dos extremistas. Desde então vive acossado porque sabe que tem a cabeça a prémio

CLARA FERREIRA ALVES

Na vida de Michel Houellebecq, que pode ter 56 ou 58 anos, há coisas que acabaram. A rotina de uma casa modesta num bairro de Paris dos que nunca estiveram na moda. Os jantares pré-cozinhados comprados no supermercado. As saídas e entradas na cidade sem que ninguém note. Uma ida a um restaurante, a uma exposição, a um café, a uma livraria. A liberdade, enfim. Michel Houellebecq é célebre como uma estrela rock, mais célebre ainda que o rocker Iggy Pop, que é um admirador e que fez um álbum baseado nas escritas de Houellebecq depois de lhe dizer que não conseguia ler outra coisa. A admiração é mútua e Michel Houellebecq raramente admira alguém ou alguma coisa. Antes da polémica de “Submissão” era famoso, muito, e perseguido, bastante, mas não viajava com proteção policial constante. Depois do atentado do “Charlie Hebdo”, cometido no mesmo dia em que o romance era lançado (para os que vivem no planeta Marte, aqui se esclarece que o romance trata de uma França onde um candidato muçulmano moderado ganha as eleições e trata de impor uma sharia suave à República, com a colaboração dos socialistas e dos vira-casacas), a proteção tornou-se obrigatória.

Embora a conversa seja em Saint-Germain-des-Prés, na sede da Flammarion no Odéon, ele nunca foi um intelectual de Saint-Germain, como o seu “inimigo público” Bernard Henry-Lévy, ou um prosador de café. Não frequentou o Café de Flore nem foi visto a vaguear nos corredores da La Hune dedilhando livros. Michel Houellebecq é um solitário que gosta de observar os outros sem ser reconhecido. E é uma criatura que se reconhece pela extrema fealdade, que os anos acentuaram por gosto próprio, visto que concede à aparência e aos cuidados com a roupa ou a beleza o mesmo desprezo que concede à comida. Quer isto dizer que come para se alimentar, pouco, com preferência pela charcutaria, e que não compra roupa. Beber é outra coisa. Nos anos verdes aparecia embriagado, mas agora parece ter reduzido os vícios ao tabaco. Fuma cigarros eletrónicos, uma novidade. Dantes fumava quatro maços por dia. Michel Houellebecq foi um mal-amado, rejeitado pelos pais, rejeitado pelos escritores. Não será para ele a solidariedade que rodeou Salman Rushdie depois da fatwa ou a reunião internacional do Pen Club com cartas dos confrades a defender a liberdade e a elogiar-lhe a prosa, a inteligência e sensibilidade. Houellebecq é definido como um anti-humanista, o que quer que isto signifique. Depois de “Submissão” e do “Charlie Hebdo”, só os amigos de Houellebecq apareceram a defendê-lo, e são poucos. Um deles é François Nourrissier, da Academia, que se bateu pelo Goncourt do autor. O outro é Frédéric Beigbeder, um típico parisiense elegante, definido como um dos que só usam caxemiras de triplo fio, e um dos raros que penetram no círculo restrito do escritor ameaçado e retirado de circulação. De resto, choveram as críticas e os ajustes de contas com um homem dotado de um talento raro e que sabe que o tem, o de escrever sem mácula. E pensar ainda melhor. É natural que ele tenha uma corte seleta, como todos os grandes escritores, mas ninguém dirá muitas palavras porque o medo impera. E nunca Houellebecq foi tão manso para com o Islão como neste livro, o que demonstra que ou não o leram ou não o souberam ler, ou aproveitaram o pretexto para lançar o homem às feras.

Gostar de pessoas parece não ser a sua especialidade mas nesta conversa o moralista é equivalente ao humanista. A ideia da Europa unida repele-o e acha que a França se dissolve molemente.


Há uma distância dos primeiros romances, “Extensão do domínio da luta” (95), “As Partículas elementares” (98), “Plataforma” (2001) e “A Possibilidade de uma ilha” (2005) em relação a “O Mapa e o Território” (2010) e “Submissão” (2015). Este Houellebecq, nascido na Ilha da Reunião de um casal de aventureiros que “rapidamente se desinteressou do filho” e o abandonou, viveu a infância na Argélia colonial com a avó materna e na França profunda com a avó paterna, comunista, que o criou. A mãe escreveu um livro aos 80 anos a atacar o filho, acusando-o de tudo e demonstrando um narcisismo e um sentimento antimaternal que valeram simpatias ao “órfão”. Foi a mãe que falsificou a data na certidão de nascimento, pondo dois anos a mais para o filho poder entrar na escola mais cedo e ultrapassar os colegas. Beidbeger diz do amigo: Michel vem de um lugar de extremo sofrimento, ninguém imagina o que ele sofreu. Tornou-se escritor, destino saudável dos infantes infelizes.


Amou a avó paterna, a mãe que nunca teve, e pouco mais. Quando Clément, o cão  dele, morreu, Michel Houellebecq chorou. Tem um filho adulto, Étienne, de que nunca fala, e duas ex-mulheres. Território proibido a jornalistas e críticos. O encontro não foi, ao contrário do que era costume, na casa ou numa brasserie de Paris. Vigiado, o homem está sentado numa sala cheia de livros e papéis, embora não se veja um único guarda. Fui avisada, ele é tímido e não gosta de falar. Um sol enevoado entra pela janela e ilumina metade da cara de Michel Houellebecq. É a cara de um pássaro assustado, que se levanta para apertar a mão, um aperto sem firmeza e distraído. A única coisa que parece interessá-lo é o cigarro eletrónico que parece um adereço despropositado num homem que se está nas tintas para a saúde.


Tenho à minha frente aquele que considero, sem esforço, o maior escritor europeu vivo, e bem vivo, e isto tem o seu efeito. Houellebecq  é gentil, fala baixo e fala pouco, e por vezes fala como se falasse para si, para dentro. Como se pensasse alto. O doido que uma vez disse à jornalista do “New York Times”, há muitos anos, que pusesse uma minissaia transparente e fosse com ele para a cama porque a única coisa que lhe interessava era o sexo, desapareceu. Houellebecq mudou porque a sua idade mudou e a sua vida mudou. Sempre quis ser célebre, porque isso lhe conferia imunidade a tudo. A tudo menos a ser morto por um terrorista.


Já googlou o seu nome? Sobre si escrevem-se milhares de coisas, muitas delas disparatadas, mas muito apaixonadas. Chama-se a isto uma reputação. Dá-se conta desta quase mitologia em torno da sua personagem?
Agora dou. Sim.

Há quem o acuse de ter construído, de ter querido esta mitologia. Mostrou-se no cinema, na música. Faz o seu teatro.
Seria difícil fazer isso, construir. Seria preciso escolher fazer isso. Seria muito difícil para mim fazê-lo, ou conseguir fazer isso. Compreendo a ideia mas não seria capaz. Não seria capaz.

Já googlou o seu nome? Foi ler o que dizem de si?
Neste momento, sim. Quero saber o que se faz quando se quer desaparecer da atualidade. Há coisas completamente nulas. É preciso que isto se reduza um pouco.

É demasiado célebre. Isso perturba a escrita?
Perturba a vida. A vida.

E os guarda-costas e polícias? Num certo ponto Salman Rushdie tinha uns quinze ou vinte a guardá-lo quando se deslocava a um país.
Não estou nesse ponto mas sim, perturba muito a vida.

Se quiser ir ver a cabeça do cão de Velázquez ao Grand Palais, digo isto porque quando o seu cão morreu teve um grande desgosto, ou beber um copo num bar, pode?
Sim, se for com pessoas, se tiver pessoas à minha volta.

Anda sempre com entourage? Pode caminhar na rua sem ser reconhecido?
Não, não posso. E tenho sempre pessoas comigo, sim, o que não é bom. Não é uma coisa que me agrade. Sou demasiado conhecido.

A celebridade pesa? Começou há muito, essa celebridade?
A partir de um certo ponto, pesa. Muito. Sempre houve a celebridade, há muito tempo que vivo com isso, mas só se tornou incómodo depois de “Submissão”.

Leio-o há muito tempo, e li a sua poesia. Acho que sacrificou o poeta ao escritor de romances...
É verdade.

Leio-o há muito tempo e quando publicou “Plataforma” disse coisas verdadeiramente violentas sobre a religião muçulmana. Disse-as em entrevistas e disse-as no livro. Escreveu que o Islão é “uma religião que só podia nascer num deserto estúpido no meio de beduínos sujos que não tinham mais nada do que fazer, perdoai, senão sodomizar camelos”. E isto em 2001, ano do 11 de Setembro. Foi perseguido nos tribunais e acusado de racismo, absolvido. Nunca sentiu perigo físico?
Não.

E agora, com um livro que é tudo menos islamofóbico, porquê a polémica?
Porque penso que este livro é pior do que isso. Huuuuummmmmm... É difícil explicar mas o livro põe o dedo num medo europeu. O medo de que a Europa se torne um continente muçulmano.

Isso é um medo real ou é um medo real em França?
Não somente em França. É real em países onde há presença muçulmana, real na Alemanha, real na Itália, na Espanha... e é real mesmo em países onde não leem o meu livro.


Isso estava na sua cabeça quando o começou a escrever?

Não, veio depois.

Mete-se com a religião, e não apenas o Islão. O catolicismo, o judaísmo. Este Islão parece por vezes simpático, se assim se pode dizer. Suave. Exceto na demografia.
Creio que fiz com que aparecesse como plausível que a sociedade francesa, europeia, se adapte a um chefe muçulmano que aparece como simpático. Fiz medo a muita gente.

E aconteceu “Charlie Hebdo”. Uma violência que não esperava. Perdeu um amigo, Bernard Maris, assassinado. O que é que isto lhe fez?
Foi uma coincidência impiedosa. E fez-me pensar que desta vez as coisas não iam compor-se.

Tem medo? Mesmo com guardas é fácil matar alguém.
Huuuummm... Não, não tenho medo. Não tenho medo porque a minha natureza é assim, despreocupada.

Uma vez disse que queria ser sempre um irresponsável. É assim?
Um pouco, sim.


Tornou-se um dos pilares da cultura francesa, um intelectual comparado a Gide, Camus, Sartre, uma linhagem de ilustres responsáveis. Como é que pode ser irresponsável? Pode continuar a ser uma criança enraivecida? Há quem diga que está demasiado velho para isso, uma coisa que normalmente se diz das mulheres.

Não é verdade. Pode sim, pode ser-se um intelectual agressivo e irritante até à náusea.

Pensa na morte? Nos livros, onde trata sempre dos grandes temas, o sexo, o amor, a morte não aparece tanto.
Não penso muito nisso, na minha morte. E ainda menos na dos outros. Mas a doença é pior do que a morte.

Muitos grandes escritores temem a perda de faculdades, o momento em que comecem a escrever mal. E não saibam que escrevem mal.
Não penso nisso e não posso dizer que isso me pese na consciência. Não penso nisso.

Teve uma infância difícil. O que é que lhe faz mal, na vida?
Muita coisa me fez mal. O sofrimento físico, sim.

E a estupidez humana, a parvoíce?
Não, já estou habituado.

Esse medo do sofrimento físico não é compatível com tantos cigarros. Ou a charcutaria.
Cigarros eletrónicos. Não fazem mal. Não tenho medo das grandes coisas. Não poder escrever não me parece muito grave.

Escrever todos os dias, com disciplina? Quando começa um livro interrompe?
Todos os dias, sim. Ou não. Não interrompo. Interromper é a catástrofe.

Começa com quê? Uma ideia?
Normalmente, é com frases. Não uma mas várias frases, uma série curta.

Um parágrafo? Um verso, como na poesia?
Sim. Um bom parágrafo seria bem bom.


Revê muito? É minucioso?

Muito minucioso. Revejo muito. Corrijo.


E o momento de entregar o livro, declará-lo terminado?

Passo mal. Mal quando entrego o manuscrito e mal quando corrijo as provas. É a última hipótese.


Bonnard ia corrigir o amarelo nos quadros que já estavam expostos. É um perfeccionista?

Isso pode ser feito com os quadros mas não com os exemplares. Sei ser razoável e ter um tempo de correção das provas igual ao de toda a gente. Mas é penoso, penoso.

E depois de publicado?
Sou bastante fatalista. Está feito. Nada a fazer. Não penso muito no que ficou escrito, no que ficou para trás. Raramente tenho ocasião de pensar nisso. Penso nisso quando a ocasião se oferece, quando me pedem para ler uma passagem dos meus livros.

Muitos escritores quando se leem ou ouvem ler em público surpreendem-se com o que escreveram anos atrás, olha isto não é nada mau, não está nada mal escrito.
Sim, sim, pode acontecer aquando se está contente consigo mesmo. Quando se começou a esquecer o que se escreveu e se redescobre, pode ser uma boa surpresa. É-se muito crítico quando se está na fase penosa do acabamento do livro, quando há que terminá-lo. Mas ao fim de alguns anos, habituamo-nos. Ça va.

Responde a gente que lhe escreva, leitores? Tem interação com os seus leitores, atendendo a que é um autor de culto, com clube de fãs?
Sim, fico contente que as pessoas fiquem contentes.

E agressões, teve algumas?
Raramente.

Mistura na ficção os pensamentos de Pascal com pratos pré-cozinhados em microondas. Raro. Os leitores identificam-se com qual destes elementos? As ideias? Ou o quotidiano? A monotonia do quotidiano? O microondas?
Não sei. Penso que as pessoas se identificam com um cenário que reconhecem, elas identificam o seu próprio mundo. Claro que se identificam com uma personagem mas o mundo em que ela se move e que as pessoas reconhecem como seu é importante.

A vida dita normal é irrelevante. É preciso ser dono de um grande estilo para a tornar interessante em ficção. A vida é deprimente. E já agora, esse cigarro que está a acender não é nada eletrónico.
Não é não. Vou fumá-lo. Não sei se é preciso um grande estilo. Uma grande catarse.

Mas você trabalha a prosa como um estilista. Nada é deixado à solta ou está lá por acaso. E existe o trabalho da inteligência.
O estilo é demasiado confuso como tema. O que é necessário é uma grande atenção, a capacidade de atenção. O que falta a muitos autores é essa capacidade de atenção. Não veem nada à frente. Não veem nada do que se passa à volta deles.

Pode ser-se um autor sem nada ver?
Ah, sim, basta ver a quantidade de autores que há por aí. Autores que em vez de escreverem sobre coisas que existem encenam lugares-comuns. Pensam o mundo como um lugar-comum. Atapetar o mundo de atenção é importante.

A atenção extrema é uma qualidade dos infelizes e dos solitários. Quando se está muito entretido não se vê nada em volta.
Isso é muito certo. Quando se observa a vida das pessoas é preciso não estar a pensar na nossa. Não estou certo de que seja uma questão de solidão ou infelicidade. O essencial é não estar demasiado preocupado com as coisas pessoais. E não ter muitas preocupações. Coisas práticas para resolver. Chatices. Para se ser uma espécie de observador neutro não se pode estar enfiado em si mesmo. Não é muito bom ser-se infeliz. Quanto à solidão, há muita gente que me fala dos problemas deles, que me fala da sua vida para se fazerem viver como sujeitos de um romance. Como sujeitos de um autor.

E não é preciso saber pensar? Além da atenção? Você escreve romances de ideias.
Não. Muita gente consegue fazer isso, pensar. Não é o mais difícil. Muita gente desenvolve pensamentos a partir de ideias que foram buscar a outros. Ideias feitas. É fácil, há muitos livros escritos assim. Observar o mundo real é o que mete medo a toda a gente.


Vivemos num mundo mediático, mediatizado, que é um jogo de espelhos de ideias feitas.

Mas além disso fica a vida real das pessoas. E vê-la não é fácil.

Escrever a vida real no mesmo sentido em que Balzac escrevia sobre a vida real das pessoas?
Sim, Balzac fazia isso. Pode-se sempre teorizar, teorizar não é um problema, mas há que ter uma base real.

É um autodidata. Quando é que descobriu que era um escritor? Era adulto? Tinha já um emprego?
Não sei, escrevendo livros, acho. Era adulto, era ainda estudante, antes do emprego. É tudo um pouco vago.

Nos seus livros, vê-se que quando quer tratar um tema, a física de partículas, o turismo sexual, o mercado da arte, a vida académica, etc., que o estuda e investiga metodicamente. Até à exaustão.
Sim, faço-o de propósito. Investigo as coisas, os meios a que não tenho acesso direto. A polícia (em “O Mapa e o Território”) a universidade (em “Submissão”)...

Isso não o maça? Ou fá-lo com prazer?
É problemático. Porque estou a suportar ideias feitas. São zonas de ideias feitas que nada têm a ver com a realidade.

Os autores são atraídos por grandes ideias, não pela construção de sistemas burocráticos, saber como funciona a educação ou a polícia...
Há autores que se documentam muito, eu sou um deles.

Estudou Biologia. A sua inteligência é científica, se posso dizê-lo. Experimenta, usa o método científico para testar e negar a hipótese. E tem uma mente matemática, lógica. Tal como Coetzee, que é um matemático, e que é um escritor que admira.
Isso não sei. Não estou consciente disso.

É um escritor perigoso, que escreve no fio da navalha. O que podia tornar-se insuportável ou asqueroso é redimido pela forma. A forma exalta o conteúdo execrável. “Lolita”, de Nabokov, é um livro escrito assim. Perigoso. À beira do abismo. Disto tem consciência? Deste risco?
Sim, estou consciente do risco, quero o risco. É uma questão de disciplina que consiste em evitar a autocensura.

Lê enquanto escreve? Outros autores?
Sim, não me perturba nada. Ficção, o que quer que seja. Não me incomoda. O meu cérebro não se deixa perturbar. É outra zona. E mesmo que interfira, não me importa. O que é difícil é evitar autocensurar-me. Não se colocar em perigo, evitar recusar a zona de perigo. Este é o esforço.

Como leitora, há momentos em que penso que o livro vai descambar, perder-se. E depois você recupera, e recompõe, e é literatura pura. Podia ser a definição do génio, este efeito literário conseguido contra todas as convenções do género.
Sim, mas não é um esforço positivo. O esforço negativo consiste em não dar importância a tudo o que possa impedir-me.

Em “O Mapa e o Território”, um romance mais literário do que “Submissão”, encena a sua morte de uma forma brutal. Mata-se mas é um assassínio ritualístico. Violentíssimo. Gráfico. Quando li aquilo pensei que jamais conseguiria escrever aquilo sobre mim mesma. Foi difícil? E donde vem a ideia a Michel Houellebecq de matar Michel Houellebecq?
Não, não foi muito difícil. Huuummmm... Posso dizer que não sei de onde vem a ideia. A ideia seduzia-me mas não sei porquê. Não posso gabar-me de sonhar assim tantas vezes com isso, não é um pesadelo familiar. Posso dizer que gosto da ideia de me cortar em bocados. Diz-me qualquer coisa.

Eis uma novidade na história da literatura, um autor que se corta a si mesmo em bocados. Graficamente. Clinicamente.
Talvez. Efetivamente.

Se fosse pintor seria fácil. Um bocado Bacon. Você é um Bacon da literatura.
Talvez. Huuuuummmmm... Bacon...talvez. O ritual obrigava a que as cabeças ficassem intactas. As cabeças do homem e do cão.

Isso era importante?
Acrescenta o horror, deixar as cabeças intactas.

É o que faz o Estado Islâmico, deixa as cabeças das vítimas decapitadas sobre os corpos, graficamente, como prova. A cabeça dos reféns torna-se simbólica. Exceto quando estão em mau estado.
É horrível mas não sei porquê.

O Islão de “Submissão” é diferente. É apaziguador. E diferente do tal Islão dos beduínos no deserto estúpido. Penso que quando se escreveu sobre “Submissão” muitos críticos não reproduziram esta frase antiga, e outras, de propósito, para o protegerem depois de “Charlie Hebdo”. Mesmo os que o detestam.
É verdade, já não ousam. Não penso que seja para me proteger. Muita gente por aí ficaria muito feliz se eu fosse morto.

Tem a certeza? Você tem muita gente que gosta dos seus livros. No caso de Salman Rushdie tive a certeza de que havia muita gente que o queria morto. Assassinado.
Também tive. E no meu caso também querem ver-me morto.

Donde vem esse ódio? Você é apenas um escritor. Inventa palavras, mundos.
É o que eu digo. Mas esse ódio acho que sei donde vem. Sou perigoso. Perigoso para uma visão da sociedade que é defendida todos os quartos de hora por gente dessa sociedade em França.

Quando “Submissão” saiu já havia gente enraivecida com o livro, um tipo do “Le Monde” desfê-lo, acusou-o de tudo. Percebo, você mete-se com os bonzos, os do “Le Monde”, os jornalistas e comentadores de televisão, os políticos... a fauna. É natural que contra-ataquem. Isso é suficiente para odiar alguém?
Sim, sim, claro. Veem-me como um tipo perigoso.

Mas não para o Islão. Perigoso para os franceses.
Sim. A minha morte pode ser uma boa novidade para muita gente.

Estúpido, odiar alguém pelas ideias. Ou livros.
Talvez, mas é assim.


Mas também há muita admiração pelo escritor. Pela prosa.

As duas coisas. Mas há os que também nesse plano me denigrem.

Não será o velho pecado da inveja literária? A mesquinhez da falta de talento?
Pode ser simplesmente isso mas são verdadeiros inimigos. E há os que pensam que não existo e que não escrevo. Ou que seria preferível não existir e não escrever.

Disse numa entrevista que queria ser amado, como toda a gente. É verdade ou é uma daquelas boutades das entrevistas?
É verdade, não obteremos uma coisa se dissermos que não acontecerá.

Os escritores, os grandes escritores, são muito amados. E por isso tudo lhes é perdoado. Têm um ego brutal, idolatria, groupies como as estrelas rock. Não se podem queixar.
Não acho que me perdoem assim tanto. Em França, pelo menos. Não duvide de que sou detestado.

Não será uma consequência do elitismo do meio intelectual parisiense? Das regras desse meio que você infringiu? No resto do mundo não creio que o detestem.
Sim, é no nosso país que somos verdadeiramente detestados.

É uma tradição, quase. Os grandes escritores são detestados no seu país. Os Nobel, sobretudo. Saramago era detestado em Portugal. Coetzee saiu da África do Sul. Martin Amis saiu da Inglaterra. Ser detestado é melhor do que ser unanimemente celebrado. Só os medíocres amáveis são amados por todos.
Concordo. O que quer que seja não há nada que eu possa fazer.

Diz-se que é um anti-humanista. O que quer dizer que o Nobel nunca virá?
É uma consequência. O humanismo é um bocado curto como filosofia.

Neste momento egocêntrico da história do mundo, o que é o humanismo?
Uma lengalenga oca.

É fácil ser-se humanista mas não é fácil amar as pessoas.
É bem visto ser-se humanista.

As suas personagens são sempre homens sós, quase sem família, sem mulher nem filhos. Sente-se confortável com estes atores das suas ficções? São todos um pouco Houellebecq?
Sim, sinto. Mas não sei se é por isso. Creio que são mais personagens metafísicas. Mais dotados para a abstração.

Acha que as mulheres não são capazes disso? Da capacidade metafísica?
Não sei. Sei que lhes é dada uma ausência de história pessoal que os torna mais genéricos.

Mas eles têm uma história pessoal, é por isso que os seguimos.
Queria dizer que eles se envolvem pouco. Servem de modelo geral.

Nenhuma intensidade, é isso? Sobretudo nos sentimentos?
Não muita.

Você é assim? A falta de intensidade é uma arte. É mais fácil ser-se mobilizado, atraído pela intensidade.
Não sei. Eu gosto o suficiente para os imaginar assim, em todo o caso. Sem querer parecer-me muito com essas personagens, revejo-me um pouco nelas.

A personagem de “Submissão”, François, não é simpático. É lúcido, quase detestável. Mas tem qualquer coisa que faz com que nos identifiquemos com o que diz e faz. E pensa. Eu não gosto dele mas ele mobiliza-me, não o largo. Você consegue fazer isto naturalmente ou é trabalhado? Pensa no leitor?
Não penso no leitor.

Que relação tem com as suas personagens, incluindo o Michel Houellebecq de “O Mapa e o Território”?
Elas fazem-me companhia.

Vê-as fisicamente? São como você? François é mais novo.
Sim. Não são necessariamente como eu. Mais jovem. Mais belo do que eu. Não as vejo com precisão mas tenho uma visão.


Falou na beleza. A beleza é um tema literário, como a fealdade. Cyrano, Quasimodo... Quando os realizadores de “Experiência de Quase-Morte” disseram a Catherine Deneuve que iam fazer um filme consigo ela disse que era muito feio. Eles contaram isto à imprensa. E responderam a Deneuve, uma bela mulher, que para eles você não era feio. A fealdade deixou de ser um tema seu? Já foi. Defendeu que havia uma vida sexual para os feios e outra para os bonitos, o que é verdade.

Sim, em mim o tema desapareceu um bocado. Não sei porquê. Cyrano, Quasimodo, vêm de livros não muito conseguidos.

A beleza é um dom raro. A maioria das pessoas não é bela.
Não concordo.

Em Paris, as pessoas arranjam-se muito, cuidam-se, embelezam-se. O que você não faz. Mas a fealdade é a condição humana.
Não acho.

Por se achar feio? Por as outras pessoas dizerem, como Deneuve, que é feio? Os belos veem mais o feio do que os outros.
Quanto mais velho se fica mais feio se fica. Vi isso no meu pai. É por isso que com a idade o tema deixou de me parecer importante. Avancei na idade. A velhice é igual para todos.

E a pornografia também desapareceu? Pela mesma razão?
Sim. E porque há uma ausência de progresso nesse domínio.

Porque é que o sexo continua, apesar da sua condição vulgar e natural em qualquer animal, a ser o grande tabu? Porque é que as pessoas ficam tão chocadas com livros que descrevem sexo?
Huuuuummmm. Não sei, verdadeiramente não sei. Penso porque é que as pessoas pensam aquilo que pensam mas no fundo não sei nada. Absolutamente nada. Ou pior, não se trata de compreender, quando se tenta compreender para descrever acaba-se por não descrever nada. Não se descreve o que se compreende. Deve escrever-se sem compreender porque se tentarmos compreender não se pode escrever. E isto é importante, quando se começa a compreender o mundo para o descrever acaba-se por não escrever coisa nenhuma. É preciso descontar a missão da incompreensão.

Neste momento, a sua preocupação maior, o seu tema, acaba por ser a política, e a Europa, ou a política da Europa. Não era um tema seu e começa com “O Mapa e o Território”. Uma Europa na idade pós-industrial.
É verdade, começa. Neste momento, é o que me interessa. Mais do que uma Europa, uma França pós-industrial. É mais a França do que os outros países que não têm os mesmos recursos.

A França não tem problemas de ricos? Quando se olha para outros países, e basta olhar para o meu, Portugal, vemos problemas bem maiores do que os estados de alma franceses.
Não é verdade, não é nada verdade. Não, não!


Em França vive-se bem. Talvez não sejam felizes, os franceses, mas não vivem mal.

Não vivem nada bem. Pode viver em Paris, mas em França as pessoas empobreceram muito. Significativamente.

Velhos, novos, imigrantes... ou toda a gente?
Sobretudo os velhos. Dizer que a França tem problemas de ricos não é verdade, sobretudo se considerarmos a experiência vivida das pessoas. O que as pessoas vivem não é a quantidade de dinheiro que têm mas a evolução da situação. Estão à beira de serem engolidos, eliminados. Há muita gente no limite da pobreza. De ano para ano. Não é a mesma coisa ter a mesma quantidade de dinheiro quando se sobe ou quando se desce. E os velhos estão na linha descendente, e muita gente com eles.

E atribui isso a quê? À inépcia dos políticos?
Não sei bem, há imposições económicas que levariam muito tempo a explicar.

Não corremos o risco de tratar a política com cinismo? Porque, como dizem os americanos, “it’s a dirty job but somebody’s gotta do it”. Precisamos de políticos e de governantes.
Precisamos.

Acha que a União Europeia, com tudo o que se passa agora com a Grécia ou os países do sul, vai acabar mal?
Vai acabar, isso é certo. Espero bem que este pesadelo acabe.

Porquê pesadelo?
Porque é um pesadelo, uma ideia muito má.

Durante anos, décadas, as pessoas acreditaram que a Europa em União ia dar-lhes uma boa vida. E agora têm medo. O que é que se pode opor à hipótese europeia no futuro?
A França. Este país.

Isso pode confundir-se com nacionalismo.
Sim, eu sou nacionalista.

Como o nacionalismo de Marine Le Pen?
Sim, pode ser igual. Estou-me nas tintas.

O que é a França? Com tantos árabes, africanos, imigrantes, etc. O que é hoje a França?
Esse é o nosso problema mas muito menos importante do que o outro.

Talvez o referendo britânico dê cabo da Europa. Ou alguém alguma vez vai dizer basta?
Talvez acabe aí. Alguém vai dizer basta.

Os gregos estão numa situação horrível.
Francamente, estou-me nas tintas para os gregos. Preocupo-me com a França.

E como é que a Europa pode acabar? Com violência ou democraticamente, com eleições e referendos?
Vai fazer-se molemente, pela dissolução progressiva.

Sempre pensou assim, foi contra a União Europeia? Bruxelas vai fazer os possíveis por manter-se, sobreviver.
Sempre fui contra, uma péssima ideia. Sim, Bruxelas... vai ser duro escavacar o sistema.

Pode dar-se cabo do sistema, nos dias que correm? Veja-se a crise da banca, a crise financeira, o sistema mantém-se inalterado. Não aprendeu, não corrigiu.
Não é impossível dar cabo do sistema.

É estranho ouvir um escritor dizer estas coisas. Pode dizer o que quer. Pode dizer a verdade. Um político não pode nunca dizer o que pensa.
Penso que os políticos pensam muito pouco.

Não há ninguém que admire em política? Nem Mitterrand?
Não, nada. Ninguém. Não me parece que algum deles tenha refletido sobre a História do seu país. Ou lhe tenha dado importância.

A religião. A sua atitude mudou. Acha possível ter uma sociedade coesa e coerente sem religião?
Dificilmente.

Resta o problema da fé, que é uma busca pessoal e não coletiva.
Mas aí precisamos de uma fé ligeira, uma fé que abarque muita gente. É preciso procurar.

Uma fé ritualística, litúrgica?
Sim.

Isso já existe, as pessoas casam-se pela igreja sem fé, pelo ritual. Podemos algum dia ver um Michel Houellebecq convertido?
Vamos ver.