quinta-feira, setembro 27, 2007

Gota de orvalho

Acabo de trabalhar às seis da tarde em ponto. Se bem que, para ser rigorosa, não possa dizer que nos últimos dias tenha exactamente andado a trabalhar. Com a cabeça perdida em parte incerta, tenho-me limitado a cumprir as horas supostas. Nada de que possa orgulhar-me. Desafio um amigo para um Martini; está em Santo Tirso. Outro; está em Lisboa. Outro ainda; só chega à noite. Desisto da convivência. E eles não sabem que se livraram do meu humor duvidoso. Indecisa entre apanhar o metro e aterrar numa sala de cinema ou entrar num táxi que me ponha em casa, deixo-me embalar como gota de orvalho na berma da parra. Ontem disseram que estou "mais gorda". Perguntaram: "Grávida?" Não! Mas não é por isso, por aparentemente estar mais gorda, gorda ao ponto de parecer grávida, que decido ir a pé para casa. Três horas de viagem.
Caminho pela cidade para me testar. Para perceber o que me prende. Ainda. Ou já não. Há três anos era capaz de jurar que tinha encontrado o meu lugar. Hoje, tenho sérias dúvidas. Desço ruas que desço todos os dias de carro e das quais, sete anos depois de aqui ter chegado, ainda não aprendi os nomes. Encho as sapatilhas de pó nas obras do Bonjardim. Acho que é Bonjardim e continua cheio de prostitutas: gordas, feias, velhas. Quase todas. Finjo que não reparo na tristeza do cenário e elas fingem que não reparam em mim. Atravesso, ao fundo, as grades de segurança e pondero sentar-me na esplanada que alguém montou na Praça D. João I. A praça que antes era do Rivoli e agora está alugada a Jesus Cristo. O Superstar. Lembro-me das vezes, tantas, que entrei no Teatro para namorar as coreografias de Olga Roriz que só havia em VHS. Nunca as comprei porque achava que um dia seriam editadas em DVD. Arrependo-me. A livraria do 3º piso já não existe.
Viro à direita, seduzida pela música que parece vir dos Aliados. Há um grupo qualquer a fazer yoga aos pés de Almeida Garrett e outro a montar uma grua, vá lá saber-se para quê. Os dois têm aparelhagens a competir, a cuspir decibéis. Menos interessante do que parecia. Mas a avenida agora é isto: um palco que se aluga às prestações para o que der e vier. Trepo a rua do Almada. Perco-me nas montras de luz, de ferragens, de chocolates. E no olhar triste das pessoas. Como podem todas ser tão cinzentas? O pó faz-me espirrar. O da rua de Ceuta, a do túnel.
Arrisco uns caminhos de paralelo e vou ter aos Leões. Gosto dos Leões, do Piolho, da mistura de pessoas, de raças, de cultos que se cruzam ali todos os dias. E continuo a gostar dos rituais universitários que começam a florescer nesta altura do ano, embora na minha altura não tivesse tanta certeza disso. Ou coragem para isso, o que é, para todos os efeitos, diferente. O Piolho. Fosse o Porto inteiro assim. Vivo. Mas a Sociedade de Reabilitação Urbana pode renovar prédios, mas não renova espíritos.
Viro outra vez à direita. Atravesso Carlos Alberto, nome da primeira travessa onde morei (obrigada, Pedro, pelo quarto e pelas conversas) e entro em Cedofeita. Os lojistas começam a colocar nas portas cartões a dizer "encerrado". A rua, apesar de pedonal, tem mais grafitis do que gente a esta hora. Corto na primeira à esquerda, para Miguel Bombarda. Assim, a olho nu, um estrangeiro adivinharia que esta é a rua das galerias de arte? Tento vasculhar as exposições inauguradas no sábado passado, mas o horário da arte é igual ao das mercearias: está tudo a encostar a porta. Até o Centro Cultural Bombarda. Por agora, melhor assim. Da última vez, quase perdi a cabeça. Mas como é possível que não se invista na vida para lá das oito da noite? [O telemóvel interrompe-me os pensamentos. Bingo! É o Pedro. Pergunta se vou ao casamento de 20 de Outubro. Como poderia pensar não ir? Guarda-me a fila da frente na igreja e uma cadeira ao teu lado na mesa. "Vais para casa a pé? És doida?", pergunta-me para corrigir logo a seguir. "Bem, sempre é uma maneira de emagreceres". Dois comentários na mesma semana. Devo estar gorda. Ponto final. ]
Fico ali a olhar para o céu só porque sim. Só porque é fim de tarde e gosto desta rua, mesmo velhinha, mesmo feinha, mesmo com tudo a fechar. Gosto do cheiro a morangos. E de ver as pessoas a caminharem para casa, aliviadas talvez por o dia ter chegado ao fim. É possível que diferentes pontos da cidade originem rostos diferentes? Contorno a esquina e sigo para a Rua do Rosário para mergulhar de cabeça no Gatos Vadios, colo quentinho de livros escolhidos a dedo por amigo de outras vidas guardado no peito. Leio edições antigas da Águas Furtadas com um caseiro bolo de canela na mão. E, à saída, tropeço num poema de Helga Moreira que já não posso deixar ali.
Estava dito e combinado
para a manhã seguinte.
No sítio em frente ao último
quarteirão e o meio dia por limite.
Ao que ia não sabia.
Soube depois
que essa presença lhe bastava.
Foi o que senti quando fiquei presa ao senhor com a idade do meu pai. O meu pai casou com a minha mãe faz hoje exactamente 32 anos. O livro, com ilustração de Ângelo de Sousa, e a ternura serão enviados amanhã pelo correio. À moda antiga.
Ando para trás, até ao Largo da Maternidade e descaio-me até à rua Júlio Dinis. É outro território, definitivamente. Já não há casas que parecem de bonecas; só prédios iguais aos prédios de cartão que construía nas aulas de trabalhos manuais. Subo até à Boavista para ver a Casa da Música onde já não me lembro de ir? Aproveito e, mais abaixo, desencaminho o amigo comunista dos cafés que, partilhados, fazem acender luzes em Beirute? Penso nisso, tentada, mas acabo por não me desviar. Calco, pela primeira vez, os cuidados jardins da Galiza, esses onde a Câmara gosta de colocar a sua propaganda. Olho para dentro das cervejarias: a Galiza de um lado, o Gambamar do outro, ambos ainda vazios, que a clientela dali, clientela como eu antes de me habituar a cozinhar, só chega fora de horas.
Não é grande aventura viver a olhar para trás. Mas continua a ser das universidades que me sinto mais estranhamente próxima. Ali, na linha das faculdades do Campo Alegre - onde fiz a prova específica de História no longínquo ano de 1995 -, misturo-me com a catadupa de alunos, alunos com aquela sensação de que o tempo passa devagar e de que o mundo lhes (nos) pertence. Dizem-lhes todos os dias que, quando acabarem os cursos, não terão emprego. E que se o tiverem, o melhor que lhes poderá acontecer é passarem a pertencer à geração "mil euros". Eles talvez pensem nisso, talvez até se preocupem e se assustem com a possibilidade, mas enquanto esse dia não chega, estão felizes. E sabe tão bem ver pessoas felizes. Pessoas com os olhos pendurados no ar em vez de os pregarem ao chão. Entram todos no mesmo café. Tenho saudades do que era, também, o nosso café. Onde entrávamos todos sem termos combinado nada. Onde estamos agora? Onde entramos?
Espio ainda a ementa do restaurante do Campo Alegre. Continua praticamente a mesma desde que o Luís me levou lá. Luís do mar de Moel, das margaridas amarelas, das palavras de açucar, da amizade a sério. [Foi há tanto tempo, lembras-te? Foi antes de trocares o Porto por Londres.] Alguém devia ensinar-nos, em pequenos, que as cidades não podem escolher-se pelas pessoas que as habitam, porque quando chegarmos elas podem estar a partir.
Começo a aproximar-me de casa. Já suada, já com a camisola atada à cinta. Já com a chave na mão. Tenho este vício de tirar da mala a chave muito antes de ver a porta. Rio-me quando passo na escola de condução onde estou inscrita há quase quatro anos e onde não coloquei os pés sequer meia dúzia de vezes. Se os stands vendessem asas em vez de carros, já teria a carta. Ao lado, abriu uma imobiliária. A casa, que só posso ter comprado num momento de insanidade, valeria, atesta uma fotografia colada na montra, mais 75 mil euros se estivesse empoleirada num terceiro andar. Perco a vontade de rir. E não é pelo preço. É por ter achado, cedo demais, que o Porto seria a minha última paragem.
Passo pelo meio das Condominhas, onde também já morei. Um T1 com vista para o rio que não me deixou saudades. A senhora idosa da frente assusta-se com o vulto que a persegue: eu. Não lhe levo a mal. À frente dela - à frente dela e à minha frente - estão cinco junkies, sincronizados, nas escadas do prédio da curva a cozinhar um caldo. Viver nas costas do Aleixo é viver paredes-meias com escombros humanos. Com o que resta de uma vida que talvez nunca tenha chegado a ser. E que perturba, mas nem sempre comove. Tropeço do André, arrumador que mais parece porteiro do prédio. Pergunta-me o que me fez de mal. Pergunta-me sempre isto desde que deixei de lhe dar moedas. "Nada, André. Não fizeste nada."
Acciono o comando do portão. Lanço um olhar panorâmico sobre o jardim que me acolhe de flores ainda abertas e respiro fundo com esperança de que algum sabor a privilégio me diga que isto me basta. A lua está cheia e sentada em cima da minha cabeça. A Chiara Mastroiani já está, outra vez em repeat, graças a um doce presente recebido durante a tarde, a sussurrar Au parc de Alex Beaupain. A sala continua a cheirar a incenso. E o telemóvel volta a tocar. "Última quinta-feira do mês no Batô. Está lá a velha guarda toda. Vens?"
Não vou. Seria perfeito se o Porto fosse a cidade onde quero ficar. E não é. Já não é.

Santana Lopes 1 - SIC 0

Pedro Santana Lopes não é levado a sério. Por ninguém e pelos jornalistas em particular. Às vezes, é pena. Ontem, quando abandonou os estúdios da Sic, estava coberto de razão. Interromper uma entrevista para continuar a alimentar o ridículo circo em torno de José Mourinho - chegou ao aeroporto e depois? - é, no mínimo, de doidos varridos.
Santana Lopes teve a coragem de dizer que não aceitava continuar a responder às perguntas, explicou, e muito bem, as suas razões e abandonou os estúdios. Previsivelmente, hoje todos lhe cairão em cima. A notícia não será a não-notícia que a Sic impôs, mas o feito do ex-primeiro-ministro. E desta vez será injusto apontarem-lhe o dedo.

quarta-feira, setembro 26, 2007

Cometa Halley

[Paulo Pimenta]

Eu não sabia que queria que fosse para sempre. Quando tu chegaste de mansinho, como o gato, eu não sabia. Não sabia quando passeava contigo com a minha mão fria dentro do teu casaco quente que queria que fosse para sempre assim. Passeios de chá de hortelã. Quando via contigo pela primeira vez as coisas que já tinha visto mil vezes e me falavas de tudo o que ainda havia para vermos juntos. O que eu nunca tinha visto sequer uma vez. Não sabia que ia desejar para sempre encontrar-te de vez em quando, qual cometa Halley, e que a vida só ia contar quando essas vezes raras aconteciam. Não sabia que ia desejar-te. E desejar as nossas discussões empolgadas de felinos vadios. Quando as despedidas escorregavam como o pé de criança num baloiço para as promessas. Não sabia que precisaria de as ver cumpridas. E que me castigarias com aquele abraço de lã. Não sabia que queria que fosse para sempre a tua voz. E a voz das vozes dos teus álbuns ouvidas devagarinho. Não sabia que era a sério o que te dizia a brincar. E que a brincar te perderia no caminho. Não sabia que continuaria contigo quando, de mansinho, te esboroasses. E que te seguiria até ao fim do mundo se, como o gato, tivesse sete vidas. Não sabia. E se soubesse, quererias saber?

segunda-feira, setembro 24, 2007

Houellebecq na 9ª Bienal de Lyon


Dizem-me que Michel Houellebecq esteve na 9ª Bienal de Lyon, onde terá apresentado uma instalação "com cenas neurótico-violentas" com a participação do arquitecto holandês Rem Koolhaas (sim, o da Casa da Música), da artista plástica alemã Rosemarie Trockel e do escultor Renaud Marchand. Fui vasculhar, mas encontrei, infelizmente, muito pouco. Em compensação, descobri que ele, escritor francês de eleição, tem um blog, Mourir, onde anúncia textos "mais ou menos inéditos". Preciosa descoberta, apesar de vagamente desactualizada.
A instalação, pelo que apurei, inspira-se no último romance "A possibilidade de uma ilha" (2005), no qual volta a reflectir, de forma invariavelmente cínica, suponho, sobre as crises existênciais e ideológicas do nosso tempo e sobre o qual realizou, também, um filme, rodado em Lanzarote, porto de abrigo de Saramago. Deverá estrear em 2008.

Honey don't think

Its the luck of the draw
How you wound up with me
You dont know how at all
But I beg you to stay
Crawl around on this earth
While the worlds still small

Honey dont think
About it too long now
Honey dont think
Youre liable to figure me out

Something wrong in my stars
Could you look at my chart
Help me healing these scars
Could you learn to read minds
In the case of mine
Do you read in the dark

Grant Lee Buffalo: http://www.buscatube.com/watch/y/thomasmanzi/1/n-oAWl6FeAg/grant-lee-buffalo-honey-dont-think.aspx

domingo, setembro 23, 2007

My Little Funhouse


Ainda não tinha 15 anos quando apareceram os irlandeses My Little Funhouse, com o álbum Stand under. Não sei se teria a ver com a idade, mas não me lembro de alguma vez ter ficado tão fixada em duas músicas. Naquela altura (1992) não havia iphone, nem ipod, nem mp3, nem quase nada. Onde eu vivia, só lentamente, muito lentamente começavam a vender-se cds. Restava-me, portanto, um gravador manhoso e uns packs de cassetes de qualidade equivalente.
Inibida dessa prodigiosa possibilidade do "listen in repeat", gravei de um lado de uma dessas patelas com duração de 90 minutos, sucessivamente a canção "Raintown" e do outro, também repetidamente, a canção "Anonymous". Ouvi-as tantas, tantas vezes que ainda hoje as ouço sem as ter. Ouço-as dentro da cabeça, às canções e à voz rouca do Alan Lawlor, mas gostava de as ter. Alguém sabe como?

sexta-feira, setembro 21, 2007

Monopólio de Mourinho

Gosto de pessoas com mau feitio, com muito mau feitio. De pessoas que dizem coisas que não lembram ao diabo, que fazem tempestades de copos de água, que destilam palavras como balas, que perdem excelentes oportunidades de ficas caladas, que falam antes de pensar, que vivem a arder e que têm sérias dificuldades em proferir a palavra "desculpa". Gosto de pessoas assim, vá lá saber-se porquê. E, por isso, gosto de Mourinho.
Também gosto dele, obviamente, pelo que ele deu ao FCP. Estou a borrifar-me para o que deu ao Chelsea, mas reconheço-lhe o mérito. Agora, que a saída dele de Inglaterra (demitido ou despedido ou por mútuo acordo, não interessa) tenha monopolizado os noticiários todos (40 minutos seguidinhos e impregnados de directos), com os jornalistas a indagar as opiniões de Marcelo Rebelo de Sousa a Gordon Brown já me parece do absoluto domínio do delírio. Se ele tivesse morrido, ter-se-ia feito o quê? Decretado luto mundial?! Ele não morreu; ficou só milionário. Haja decoro!

quinta-feira, setembro 20, 2007

O capacete dourado



O capacete dourado é o filme mais bonito - e bonito é mesmo o adjectivo que melhor veste a obra de estreia de Jorge Cramez - realizado nos últimos anos em Portugal. Inspirado numa história real de real amor, protagonizada por um casal de namorados em Guimarães em Outubro de 1999, poderia facilmente ter redundado numa daquelas películas semi documentais com forte travo voyeurista. Mas não é esse o caminho escolhido. É um filme onde o amor une o que a morte aparentemente sempre separa. É sobre a adolescência na interioridade, sobre crescer à solta. E é uma superlativa obra de arte, quase como o "Inland Empire" de David Lynch.
Em vez de um trilho cronológico que acabaria com duas cordas numa ponte a enforcar uma rapariga de 15 anos e um rapaz de 18, Cramez dá-nos fogo de artifício e música (muito boa música), espelha a história no rio e roda o filme em Vila Real. Dificilmente outro cenário poderia ser mais perfeito. Não me lembro de um filme português tão terrivelmente comovente.

quarta-feira, setembro 19, 2007

About today

Today you were far away
and I didn't ask you why
What could I say
I was far away
You just walked away
and I just watched you
What could I say

How close am I to losing you

Tonight you just close your eyes
and I just watch you slip away
How close am I to losing you
Hey, are you awake
Yeah I'm right here

Well can I ask you about today

How close am I to losing you
How close am I to losing
The National: http://www.youtube.com/watch?v=MFY2d42sUSk&NR=1

Everything will flow

[Paulo Pimenta]

Ele enforcou-se no olhar dela. Podia viver sem o corpo que o mordia, sem os ossos crocantes, sem a cara que parecia de anjo, sem aquele cheiro sem cheiro que ela espalhava, mesmo sem o seu sorriso. Podia até viver sem o timbre quente da sua voz ou do que a voz conseguia dizer sem dizer. Mas não podia viver sem ver o que viam os olhos dela. Enforcou-se na dúvida.

terça-feira, setembro 18, 2007

Quiz IX

É verdade que o mundo inteiro mudou enquanto eu dormia?

segunda-feira, setembro 17, 2007

O público do Pillowman

Já não gostava de ir ao cinema por causa do público: come pipocas como se tivesse um amplificador sonoro dentro da boca, bebe Coca Cola com a delicadeza dos porcos, fala alto como se estivesse numa tourada e, como se isso não bastasse, ri por tudo e por nada. Geralmente, por nada. Por isso, filmes, só em casa.
No teatro nunca tinha provado este sabor amargo da vizinhança. Até anteontem. Ainda por cima, numa das mais soberbas peças de teatro que alguma vez vi: The Pillowman do irlandês, igualmente soberbo, Martin McDonagh. A peça, que assinalou a inatacável estreia de Tiago Guedes na encenação, estreou no Teatro Maria Matos, em Lisboa, em Outubro. Percorri propositadamente a distância que separa a capital do Porto para assistir. A sala estava cheia. E durante mais de duas horas, o público manteve-se em silêncio. Quando acabou, continuou mudo, provavelmente absorvido pela crueza do texto, pela perfeição das interpretações. Pelo soco da peça.
No Teatro Nacional S. João, no Porto, onde a peça esteve até ontem (Nuno Lopes no lugar do agente Ariel, anteriormente desempenhado por Albano Jerónimo), toda a gente pareceu achar demasiada piada a tudo. Piada a quê?, não consegui parar de me perguntar. A um deficiente mental? A uma criança que foi fechada pelos pais num quarto durante sete anos? À fragilidade humana? Há ali humor, é certo, mas é negro e não dá para rebolar no chão às gargalhadas. Confesso que tive que amarrar os braços por baixo das pernas para não assassinar uma meia dúzia de pessoas. E que me apeteceu, sinceramente, esbofetear outra meia dúzia. E insultar outros tantos.
Infelizmente, o teatro não é coisa que dê para ver em casa. E, infelizmente, também ainda não é possível seleccionar pessoas à entrada. Ou abaná-las à saída. É pena.

sexta-feira, setembro 14, 2007

Tsai Ming-liang

"Eu não acredito no amor eterno, mas acredito nas relações entre as pessoas: são uma coisa muito preciosa. Cada pessoa é uma nuvem. Não somos autónomos, não temos liberdade suficiente - o destino empurra-nos, comanda os nossos encontros, como o vento empurra as nuvens, e isso torna as relações humanas e os encontros ocasionais muito preciosos. Um episódio de amor não deixa de ser precioso por ser curto. Temos que nos habituar a enfrentar o vaivém do amor. E quando ele vem não podemos estar anestesiados."
Tsai Ming-liang, entrevistado por Inês Nadais, no Y, a propósito do seu filme "O sabor da melancia", que chegou ontem a Portugal.

Desculpas de crocodilo


Luís Filipe Scolari pediu desculpa ao país, aos portugueses, à Federação, à UEFA. Ou seja, a todos os que o patrocinam e caucionam. Curiosamente, só não pediu desculpa à equipa adversária e sobretudo ao jogador que agrediu. O número que protagonizou, em directo, até seria cómico se não fosse profundamente envergonhador. Quase tão envergonhada como a reacção de Hermínio Loureiro... no blog. O mundo do futebol nunca pára de nos surpreender.

quinta-feira, setembro 13, 2007

Cores de Cuba


"De Cuba, retenho na memória o calor humano de um povo que vive com tão pouco e ainda assim consegue sorrir porque não perdeu a capacidade de sonhar. Guardo comigo a multiplicidade de raças que convivem sem problemas, os sorrisos que nos brindam, o som da música sempre presente, a beleza natural de alguns olhares, a magia do museu vivo de carros antigos, os cheiros da fruta nos mercados, as sombras das arcadas corroídas pelo tempo e as cores bem vivas que teimam em contrariar o desânimo. E trouxe também muitas fotografias que representam o meu olhar sobre Cuba e especialmente sobre as Cores de Cuba."
Nelson Silva
De 15 de Setembro a 12 de Outubro
Das 9 horas às 23 horas
Café Kappuccino, em Matosinhos

I never knew you from the sun

What a time it was
Was be friended and was a friend
For the longest while
You were here
And I never knew you from the sun

Snow is on the ground
This is not my landscape now
Where I find myself
Without you

Oh I never knew you from the sun
Oh I had a friend I had a friend I loved
Now I walk for miles
Into dark forests of piano sounds
I'm lost

Deep into my sleeve
Deep in my sleeves
Pockets start where
I always reach
You are there

Oh I never knew you from the sun
Never, never knew you from the sun

Innocence Mission aqui: http://www.youtube.com/watch?v=C2YTppYrDjE.
Com a devida vénia ao Germano!

quarta-feira, setembro 12, 2007

A falta

A amizade é um intervalo matemático impossível de clonar. É desse intervalo, único e irrepetível, mesmo que turbulento, tumultuoso, que nascem as relações de afecto que não queremos perder. E das quais sentimos a falta. Não nasce das virtudes individuais, por infinitas que sejam, de uma ou de outra parcela. Resulta do que se constrói na distância que vai de um ao outro lado. Sentimos a falta dos que têm mau feitio, mau hálito, mau aspecto, má índole, maus modos, mau corte de cabelo. Dos que ouvem música má, lêem livros maus ou não lêem de todo. A falta, muita falta dos que já não voltam. E a falta dos que vivem num paralelo independente. Dos que só vimos uma vez na vida. A falta dos que, de vez em quando, assustam, ferem, gritam, insultam e nos trocam as voltas. Mas nunca a falta daqueles com quem o intervalo é repetível. Uma equação que dá resultados iguais quando conjugada com mais do que uma parcela diferente é uma equação errada. Não nos arrebata. Não nos prende. Não deixa saudades.
Escreve Rodrigo Guedes de Carvalho, no livro "Canário", acabadinho de publicar:
"Um gajo igual a tantos outros que são iguais a tantos outros, que são afinal todos iguais e não se importam, que fazem aliás por serem todos iguais uns aos outros, e por serem todos iguais quem é que há-de dar pela falta dele, daqui a nada aparece outro igualzinho, e depois outro e assim por diante".

sábado, setembro 08, 2007

Maddie

É a Polícia portuguesa, porventura e por ridículo, os media portugueses, como acusam os ingleses, que precisam desesperadamente encontrar um culpado para o desaparecimento de Maddie, ou os ingleses todos, com rara e estranha conivência política, que precisam desesperadamente acreditar que uma família tão perfeita, onde tudo aparentemente encaixa tão bem, com uma filha tão terrivelmente bonita, não pode, por azar, por acaso, por negligência ou por má sorte estar dramaticamente envolvida no que parece ser o desfecho do caso?

sexta-feira, setembro 07, 2007