domingo, abril 28, 2013

Vasco Pulido Valente: A nova geração

[Stefanie Schneider]
O discurso inaugural do dr. Seguro no Congresso do PS deu à coisa um tom de resignação e melancolia quase de fazer chorar. M...uito bem vestidinho e penteadinho, imberbe e respeitoso, o dr. Seguro tem o ar inescapável de um eclesiástico de fresca data. Parece um padre novo, ainda ignorante dos pecados da congregação, mas com as lições do seminário na ponta da língua. Recitou aplicadamente uma longa homilia, com uma voz monocórdica e um ou outro acesso de exaltação, destinado a entusiasmar os crentes. Só que os crentes não se entusiasmaram; responderam sempre com indiferença e umas palmas fracas para não estragar a liturgia. Sem uma vaia a Cavaco e a pequena agitação quando se falou de António Costa e Francisco de Assis, ninguém acreditava que a maioria daquela gente não estava a dormir.

O dr. Seguro, como aliás Pedro Passos Coelho, pertence a uma raça que pouco a pouco invadiu a política portuguesa e vai chegando agora aos lugares de comando. Educados pelas várias "juventudes" dos partidos, que os guardam misericordiosamente até aos 30 anos, seguem depois para lugares subalternos: nos gabinetes dos ministros ou no Parlamento e, com alguma sorte, acabam num instituto, numa fundação, numa empresa pública ou numa Secretaria de Estado sem importância. Pelo caminho, conheceram (e, à vezes, serviram) as grandes personagens da seita e os "notáveis" da província. Pelos 40 anos já passaram pela direcção nacional, já têm uma facção, que os promove e apoia nas querelas da casa, e já se tornaram intrigantes de primeiro plano. De Portugal e do mundo não sabem e não querem saber nada.

Mas no partido gostam deles, tanto como eles gostam do partido, a que, de resto, se referem com expressões de amor e adulação, com que as beatas costumavam rezar aos santinhos da sua devoção e que envergonhariam qualquer adulto com um resto de vergonha na cara. Falam, aliás, uma linguagem própria, uma espécie de mistura da "linha" do dia com um calão táctico pretensioso e repulsivo, em que tudo se "gere", mesmo "o silêncio", e a palavra "estratégia" designa manobras de colégio interno ou uma qualquer intriga de cozinha. A ascensão destas criaturas, que andam hoje pelas centenas ou milhares, e que dominam a vida pública portuguesa, é um flagelo. A insistência do Presidente num mirífico "consenso" com o PS é, no fundo, a ideia de juntar num único cesto, a troco de uma pacificação efémera, a pura substância da inconsciência, da irresponsabilidade e do carreirismo do pessoal político que desgraçadamente nos pastoreia.

Hoje, no Público

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