segunda-feira, junho 09, 2008

Amor Cão



[Fotos: Joana Bourgard]

No coração do Porto, o negócio muda quando o dia termina. À noite, o comércio acontece na berma da estrada. Em Sá da Bandeira, rua de rapazes verdes a alugar o corpo a homens maduros por quinze euros, às vezes mais, por meia hora, às vezes menos, desenrola-se permanente jogo de sedução entre carros caros e meninos baratos. Telmo anda ali, horas altas da noite, repetidamente para trás e para a frente, o trajecto marcado entre duas esquinas. Adidas nos pés, jeans rasgados de origem, coçados do uso, a cabeça protegida pelo capuz do casaco. Olhar de cão abandonado, comportamento de gato vadio.

“Você topou-me logo, não foi? Aqui, rua acima rua abaixo, só me falta trazer um autocolante na testa”. Não é verdade. Não é à vista desarmada que se percebe quem são os rapazes que andam na rua à espera de entrar num carro. Não fosse a coreografia, sempre a mesma, o olhar fixo nos faróis, precisão de raio-x, e seria fácil ser-se traído pela aparência. “O que é que eu havia de estar aqui a fazer? A fazer pela vida, não é?” A resposta é uma rajada infantil de mau humor. Dura afinal tanto como um cigarro - pouco.

Telmo é de Estarreja, distrito de Aveiro. Foi viver para o Porto há um ano, mais mês menos mês. Alugou quarto, um depois outro. Habitava-o só ao fim-de-semana, que a semana era toda passada em Espanha, levado e trazido por uma carrinha que transporta tantos como ele para trabalhar do lado de lá. Na construção civil. Durou dois meses. Numa deambulação nocturna, ao convite de um estranho para “alucinar”, esticou o braço. Logo, sem pensar, sem pesar. O primeiro caldo. “Não sabia o que era. Só queria uma moca fixe”. Perder a cabeça, o emprego, o dinheiro para pagar a pensão, para comer, emagrecer, arrumar carros, vender o corpo, sobreviver. Aconteceu tudo num ápice.

Telmo depende da droga para viver, da prostituição para pagar a droga. Há um ano, mais mês menos mês. E Telmo é só mais um. Igual a tantos outros, outros iguais a todos os que estão ali naquela montra a céu aberto. Esta semana confirmou o diagnóstico de que já desconfiava: é seropositivo. Tem 21 anos.

O circuito portuense da prostituição masculina é curto, não é completamente escancarado, mas é visível. Mesmo que ninguém o queira ver, ou faça de conta que é apenas pista de arrumadores - não é. A pista de quem procura “fazer-se à vida”, prostituindo-se, é pouco mais de um quilómetro em linha recta: da estação de S. Bento, durante o dia, à Rua Sá da Bandeira, com extensão a todas as perpendiculares, à noite. Os rapazes, quase todos na faixa dos 20 anos, dizem que a fase nocturna da actividade arranca a partir das 21 horas. Mas só começam a ver-se a partir da primeira hora da madrugada. Não chegam nessa altura. Nessa altura, noite ganha, farejam apenas se ainda haverá mais algum cliente. O último antes de voltarem a casa dos pais, a uma pensão manhosa ou à casa de um amigo. Ou onde calha.

Ultimamente, Telmo regressava à casa de um amigo. Homem mais velho, percurso e vício idênticos. Nenhum deles usa relógio, mas sabem sempre a quantas andam. Sabem de cor o horário dos espectáculos dos Teatros Rivoli e Sá da Bandeira, dos cafés e dos restaurantes. E sabem de cor os clientes. O carro ainda vem lá ao fundo, imagem difusa para olhar virgem, e eles já sabem: este paga bem, aquele é só disto, aqueloutro é mais paleio. Os carros passam, duas, três voltas antes de abrandarem com a discrição possível. Accionam os mínimos, estacionam a pouco menos de cem metros do alvo escolhido. Aguardam. Estreantes discutem preço à janela; clientes fixos nem precisam falar.

Às vezes pode aparecer uma mulher, raro, um casal é mais comum, mas o normal é aparecerem homens de meia-idade. Casados, com dinheiro, a driblar a vergonha. Com medo de serem roubados. Os rapazes esperam. Precisam ver e ser vistos. Precisam engatar, mas rende mais quando são engatados. Os clientes gostam da sensação de poder escolher. E escolhem geralmente os mais novos. “O nosso interesse nunca pode ser maior do que o deles, porque eles gostam de atrair. Andam ali para engatar; não é para ser engatados”.

“Esta vida cansa”

É segunda-feira, o negócio está fraco, embora seja fim de mês e nem sequer esteja frio. Mais de 14 graus numa madrugada avançada de Fevereiro é quase verão para quem trabalha, não importa em quê, ao relento. Mas hoje os carros teimam em não parar. Telmo está ansioso, mas não desaustinado. Se ainda não tivesse consumido o habitual pacote de bower [mistura de coca e heroína], seria grave. Assim, menos mal. “Vou dormir, com droga ou sem droga. Mas, claro, o descanso é diferente”, diz a apertar o cigarro na boca, nas mãos as moedas ganhas a estacionar carros. Com clientes reforçaria a dose para dormir melhor. Para ressacar mais tarde. Sem clientes, há tempo para falar a troco de cigarros.

Não é coisa fácil de se conseguir. Não se ganha a confissão de um rapaz sem que antes diga que só está ali porque sim. Nem a sua disponibilidade para conversar antes de o ouvir repetidamente dizer que o não fará. Ou que só o fará a troco de dinheiro. “Você não está aí a ganhar o seu? Eu também estou aqui a ganhar o meu”. Mas como a noite ameaça estar perdida, a conversa é outra. Condescende.

“A minha vida é sexo e droga. E dinheiro. Dinheiro para ter droga”, sintetiza. Mas a ordem está invertida. O dinheiro vem sempre primeiro, é causa e consequência. “Digo muitas vezes aos clientes: não faço isto por amor, faço isto por dinheiro, por necessidade”, reafirma num encolher de ombros sem aparente alternativa. Nunca existe prazer no sexo. E o prazer da droga é cada vez menor. “Isto não é uma vida normal, é uma vida de merda. Cansa! Já não consumo para ficar com a moca; consumo para ficar normal.”

A prostituição que o sustenta é um meio como outro qualquer. Como arrumar carros, como pedir. Telmo, que aprendeu a conduzir carros a roubar a carros, deixou de roubar pouco antes de fazer 18 anos. “Estive um fim-de-semana preso e jurei que nunca mais ia roubar”. Gosta de pensar que é bom porque não faz mal a ninguém. E que a polícia o trata bem porque sabe disso. Porque lhes diz sempre a verdade. “Pedem-me a verdade, a verdade lhes dou. Mesmo quando passam aí à paisana, sou dos poucos que eles nunca incomodam porque chegaram à conclusão que não ando aqui a roubar.”
Ele já não rouba, pensando bem, só tira. O resultado é o mesmo. A diferença estará na ausência de agressão. Põem-se a jeito, ele aproveita. “Mas sou incapaz de fazer mal a alguém”, insiste. Tem corpo esquálido, frágil, magro como folha de papel. Não aguentaria um estalo. De vez em quando, tem uma “fezada”. Fezada é sinónimo de alguém que deixa cair a carteira com cartão multibanco e código dentro. Essa noite rendeu-lhe 800 euros. Sinónimo de cliente imprudente que vai à casa de banho da pensão e deixa na camisa um lote de notas: 500 euros. Sinónimo de Natal. “Cheguei a fazer mil euros numa semana”. O verbo de ordem é sempre o mesmo - e é impiedoso: “orientar”.

A espiral destrutiva de Telmo não aconteceu de um dia para o outro. A vida dele já estava estragada antes de ele a estragar. “O meu pai bebia muito, batia à minha mãe, batia muitas vezes. E ela dizia sempre que quando nós – eu e os meus dois irmãos – conseguíssemos arranjar-nos sozinhos, ia embora”. E foi. Os irmãos, hoje com 23 e 25 anos, começaram a trabalhar e ela entendeu que eles poderiam tomar conta do caçulo, o único que ainda frequentava a escola. Enganou-se. Telmo não chegou a completar o 5º ano, quando a escolaridade obrigatória inclui o 9º ano desde 1986.

“Nunca bati em nenhum professor, mas tinha vontade, sentia aquela raiva”, recorda a cerrar os punhos. E também não se deu bem em Inglaterra, como os irmãos; nem no Canadá, onde experimentou trabalhar, alto mar, na pesca de bacalhau. Quando a mãe reapareceu para corrigir a trajectória, depois de tolhida pelo medo à ira ciumenta do marido ter viajado para parte incerta, era tarde. “Ela ainda chegou a ir procurar-me à escola, mas eu estava zangado com ela. Nem lhe falei… era puto”.

No trémulo calendário de Telmo, o desmoronamento familiar terá acontecido há oito anos. Mas a violência de que se lembra, muito antes disso, não o larga. “Lembro-me de coisas com quatro, cinco anos. Essas coisas uma pessoa é obrigada a lembrar-se. Infância de merda. Se daqui a 40 anos ainda cá estiver, ainda me vou lembrar. São coisas que não saem da cabeça nem por nada”, diz a enrolar a língua, a voz a arrastar-se num português de parco vocabulário.

A parte da vida que não escolheu não desculpa a vida que tomou. Mas a existência dele é um nó que, sozinho, não consegue desfazer. “Eu sei que não tenho cabeça. Mas com 13 anos já tinha a liberdade toda; com 14, passava noites fora de casa e não se passava nada. Não quero dizer que os meus pais são culpados, mas, claro, se eu tivesse tido uma infância boa, isto não tinha acontecido. Ao fim e ao cabo, eles são os culpados desta merda toda.” Sobe o tom de voz, enerva-se. “Sou bué revoltado. Não sei se consegue reparar, mas as pessoas dizem-me que é fácil perceber que sou”. Percebe-se. Telmo não gosta da vida que tem. “Às vezes, preferia morrer”.

Perdeu a virgindade aos 14 anos, por seis contos, “ainda no tempo do escudo”. Homem mais velho, dentro de um carro, numa rua esquecida de Aveiro. Mas essa vez, diz, não contou. “A virgindade perde-se com uma mulher”. Perdeu-a, então, no Porto, um ano depois. Por dois contos. Pagou. Nunca soube o que era amor sem preço.

“Aquela não era a melhor mulher para eu ter, pela primeira vez, sexo. Mas também não podia ter sido uma rapariga de 15 anos, que eu, ao fim e ao cabo, estava na idade de aprender, não era de ensinar, é ou não é?” É ou não é? Sempre a mesma pergunta retórica no fim de cada frase. As frases todas com as palavras escolhidas a dedo para não ofender.

As prostitutas foram, na verdade, a sua primeira dependência. “Cheguei a gastar vinte contos por dia em sexo. Era mesmo viciado em putas”. E em mulheres mais velhas. “Uma mulher da minha idade não me diz nada. Nada, nada”, repete. “Não é uma mulher. Sempre achei as chavalas da minha idade umas otárias porque o que elas começaram a fazer com 20 anos, eu já tinha feito aos 14”.

Enquanto a conversa derrapa para a confissão, 70 homens do Corpo de Intervenção e da Divisão de Inspecção Criminal da PSP desmantelam a rede que abastece de droga a área metropolitana da cidade. No bairro do Aleixo, são apreendidos dois quilos de droga – cocaína, heroína, haxixe. Não bate nenhum recorde, mas seria o suficiente para vinte mil doses. E muito mais do que suficiente para alimentar a dependência de muita gente. São detidas onze pessoas em 16 buscas domiciliárias. Telmo não sabe. Ainda acha que, finda a conversa, é para lá que vai. E foi. Voltou de mãos a abanar.

No dia seguinte ninguém o vê. Confiança é bicho raro. O rapaz que se ganha numa noite, perde-se invariavelmente a seguir. Mesmo que se comprometa a aparecer, combine hora e lugar, que seja o primeiro a dizer que gostaria de falar à luz do dia, nunca mais se vê. Eclipsa-se. Como se a vida fosse um segredo que à noite parece poder ser partilhado e depois não.

"Se fizer o tratamento, deixo de rescar. É ou não é?"

Outra noite, outra a batalha, a mesma rua. Telmo reaparece. À hora de jantar, compasso de espera para a maratona que há-de vir, arruma carros. Braços abertos, sinaleiro de serviço, gesticula apressadamente, grita, a voz rouca: “Ó chefe, tem aqui lugar”. O chefe não pára e ele partilha a novidade, mesmo que outros rapazes, nervosos, lhe digam para não falar, para não confiar: “Vou tratar-me”, confia. Recebeu uma carta do Centro de Atendimento a Toxicodependentes (CAT) com data e hora de consulta e acredita que o vão levar para uma casa de tratamento. Em breve, diz, irá “trabalhar para Espanha ou regressar a casa”. Na cabeça dele será tudo muito rápido e sem dor. Parece genuinamente entusiasmado. “Se eu fizer o tratamento deixo de ressacar, é ou não é?”

Mas três dias depois, dia da viragem, manhã cedo, ressaca ainda por resolver, banho por cumprir, olheiras de quem dormiu pouco menos do que nada, seria afinal só dia inútil de consulta. Um desapontamento. Haveria, pelo menos, mais quatro ou cinco iguais antes de ser internado ou integrado num programa de metadona.

Telmo sente-se enganado. Pragueja. “Isto não se faz. Não se faz”, protesta a vingar a raiva com a sapatilha gasta em cada pedra do chão. O CAT só recebe toxicodependentes até às 10 horas. Quem não é levado pela mão, acaba sempre por falhar. No dia ou na hora. Telmo, desta vez, não falhou, mas jura que não volta.

Agora, qual recompensa de sacrifício sem fruto, precisa urgentemente consumir. Mas ainda não juntou dinheiro. Dez euros, é tudo quanto precisa. Corre para S. Bento, território de clientela segura. A casa de banho da estação é território adverso. Cubo branco de azulejos, homens sempre a entrar e a sair, a maioria sem lavar as mãos, às vezes travados pelos poucos minutos que demora a limpeza. Aquele é o local onde tudo pode acontecer. Todos sabem. Os taxistas mudam de postura quando a necessidade aperta. Ali não entram.

“É um sítio onde há muito movimento. A casa de banho é o sítio ideal para engatar”, confirma Telmo. “Durante o dia é mais velhos, pessoas reformadas, que passam o dia na peneleirice. Os outros andam a trabalhar e só às cinco ou seis da tarde saem do trabalho e passam ali, mas é coisa rápida.”

Há códigos, sinais que só eles sabem. Mas que se apreendem depois de pacientes horas de observação. Mão no bolso significa luz verde. Se o cliente rolar os dois dedos indicadores, ainda está a escolher. Esticar o polegar é encontro na pensão. E a estação está cercada de pensões a alugar quarto ao minuto. Os seguranças sacodem os rapazes. Supostamente. É o que dizem. O que se vê é diferente. Cumplicidade, graçolas durante pausa para café, espécie de protecção. “Fazemos o que toda a gente faz: fazemos de conta que não vemos”, reconhece um deles.

Num repente, Telmo desaparece. Não demorou cinco minutos a conseguir cliente. Volta pouco depois. O rosto suado, corado, o cabelo encharcado, a desviar o olhar, envergonhado. À luz nua do dia vêem-se os dentes estragados, radiografia de percurso sem cuidados mínimos. É um menino, prisioneiro de um corpo que não lhe pede paz.
O nervosismo só é vagamente atenuado quando chega ao Aleixo. A rusga, limpeza de uma só noite, não provocou efeito de continuidade. O bairro continua a ser o altar de quem quer comprar droga. Telmo consome logo ali, num campo onde se vêem dezenas a fazer o mesmo. Regressa com os lábios em sangue. Sangue que jorrou da seringa para o braço e que ele lambeu. Na mão seca, de pele engelhada, um papo. “Com a pressa estraguei tudo. Veio tudo para fora. Tenho que ir a casa consumir”, avisa, sem sinal de alívio.

Mas ele não quer ir a casa só porque o líquido que havia de lhe trilhar a veia certa e apaziguar o cérebro ficou preso na mão; quer ir a casa porque teme a reacção do amigo mais velho, amigo único - o mesmo que aceita dividir com ele a cama e a casa -, se ele não partilhar o lucro que aufere com o corpo. É acordo tácito. O amigo, 40 anos, tem já dificuldade em conseguir clientes; a verba de Telmo há muito que deixou de contemplar a pensão. Completam-se na desgraça.

A casa é abrigo pequeno, virado ao rio, odor ocre mastigado com perfume, pior do que a pior pensão. Sem televisão, sem electrodomésticos. Vários relógios, todos baratos, todos parados. Não se vislumbram utensílios que não os estritamente necessários para “caldar”. O amigo, cabelo grisalho, rosto marcado por 13 anos de cativeiro por tráfico de droga, já o aguarda.

“Queres ver?”, desafia Telmo, a arregaçar a manga do casaco de sempre que encobre um braço delgado, sem músculo, sem grama de gordura. “Estou todo picadinho, estou mesmo enterrado”, exibe como se fosse necessária prova. O homem está apático. Na carrinha de rua, onde troca seringas, recebeu uma informação que primeiro o emudeceu e depois o fez explodir. Tem HIV e responsabiliza Telmo pelo resultado. “Só podes ter sido tu!”, grita. “Porque tu não tens cuidado nenhum”. Telmo não tem cuidado, não se defende. “Se calhar fui eu, não sei”.

A forte probabilidade de ser seropositivo não parece assustá-lo. Ainda. “Sabes porquê?”, arregala os olhos. “Já convivi com muita gente que a tem, grandes amigos. E eles tentam viver a vida da melhor maneira. E, às vezes, porque não sabem o dia de amanhã nem de além, são as pessoas mais felizes, sabias?”

Não verte uma lágrima quando fala da dependência que lhe rouba todos os dias a vida; quando narra episódios de clientes que lhe lembram o que teima em contornar: que é prostituto. “Custa-me mais usar o corpo quando eles acham que eu tenho que fazer o que eles querem só porque me estão a pagar. Às vezes, digo: “Não faças isso que está-me a doer. Mas isso é o que lhes dá mais prazer. Aí, sinto-me mal, porque estou a ser usado, é ou não é?”. Usado por 20 euros. Em situações de desespero, usado por metade. Não se comove quando partilha os pesadelos que o assaltam durante a noite, as trapalhadas em que se mete durante o dia. Mas não escapa ao calor do sangue. Fala na mãe e emociona-se. Nos irmãos, e desfaz-se num pranto. É um menino outra vez. Enrola os braços à volta dos caracóis do cabelo, as lágrimas a correrem-lhe pela cara de barba por desfazer há tantos dias, ele a tentar disfarçá-las a acender outro cigarro.

“Não digo nada à minha mãe para não a preocupar. E não telefono aos meus irmãos porque eu, a falar com eles, começo logo a chorar.” Chora. Pausa. “Se lhes telefonasse ia mentir. Eles iam logo pedir-me para ir ter com eles a Inglaterra, porque gostam muito de mim. Arranjavam-me casa, trabalho, tudo. Mas não sabem a situação em que estou. E depois? Chegava lá e como era? Ia estragar-lhes a vida? Não posso fazer isso”.

"Achas que chego aos 40?”

Telmo já teve uma vida normal. “Era uma vida diferente. Tinha gosto em tudo, em acordar, fazer o meu trabalhinho, ter o meu maço de tabaquito, tomar o meu café, curtir a vida. À noite, ia a um bar, bebia o meu copo, tinha os meus amigos, fumava os meus charros. Tinha o meu portatilzinho, estava tudo fixe.”

Hoje, não tem gosto em nada. Já pesou 70 quilos; agora, a balança tem dificuldade em distanciar-se do ponteiro dos 40. Come quando calha, quando os trocos sobram, nunca mais do que para um bolo e um pacote de leite de chocolate, hábitos de infância. Tudo o que tinha, vendeu. O património é a roupa do corpo, o que sobrou cabe no bolso das calças.

Manhã de Março. Telmo está sentado no passeio da rua de Cedofeita, frente ao CAT, a fumar beatas que recupera do passeio, assombrado por uma nostalgia a que raras vezes se entrega. A vida toda a passar-lhe pela cabeça, a recordar o que dela houve de luminoso, como se adivinhasse que dali a escassos minutos, o teste da Sida lhe iria cortar o destino em duas metades: antes e depois de saber que é seropositivo.

Nem sequer é a primeira vez que aguarda a eternidade daqueles cinco minutos que demora a conhecer o resultado. “Uma vez tive relações com uma travesti, tinha peito e tudo e eu não via nada. Era uma mulher e dava prazer. Tivemos relações várias vezes. Mais tarde, através de amigas dela, soube que era seropositiva. Aí, fui fazer o teste. Deu negativo”. Não é a primeira vez, mas desta vez algo lhe diz que não terá a mesma sorte.

A enfermeira que lhe experimenta o braço não encontra veia. Chama uma colega. Também não consegue. Chamam outra. Outro, é um homem. Passa-lhe os braços por água a ferver, mas nos braços é impossível. O corpo está frio, o sangue gelado. O enfermeiro descalça-lhe as sapatilhas, procura uma veia da perna. Telmo pede desculpa pelo cheiro que, subitamente, inunda a sala branca, estreita e sem janelas.

Está impaciente. É picado duas, três, dez vezes e, mesmo assim, não há sangue capaz de encher três tubos. O que existe basta. “Se o resultado for negativo,´dizemos nós; se for positivo, alguém o há-de chamar”, explicam os técnicos, um deles a abanar a cabeça. “Lido com isto todos os dias. E não me lembro de algum dia ter aqui aparecido um miúdo neste estado”, deixa escapar.

Cinco minutos demoram anos a passar. Telmo é chamado para conversa particular. Mau sinal. Quando sai, o medo que dizia não ter, está todo ali. Todo ele é vulnerabilidade. É seropositivo. “Achas que vou chegar aos 40 anos, à idade do meu amigo?”, pergunta. Está baralhado, tonto, como se tivesse acabado de sair de uma montanha russa. Não completa uma frase. “Agora sei que a tenho… é uma coisa ainda… não estou informado, mas sei que tenho que andar agasalhado… não sei…Acho que ainda não entrei na realidade. Não sei se hei-de chorar, se hei-de rir, não sei. O meu cérebro parece que está parado”.

O cérebro não parou. A vida dele também não. Mas também não mudou. Promessas. Eternos recuos e recomeços. “Amanhã vou começar o tratamento”. Amanhã, afinal, é só depois de amanhã, no dia a seguir, na semana que há-de vir. Telmo continua ali, horas altas da noite, em Sá da Bandeira, repetidamente para trás e para a frente, o trajecto marcado por duas esquinas. Na estação de S. Bento, durante o dia, como num carrossel. O amigo foi preso no início de Maio. Telmo deixou de ter abrigo. Dorme numa cadeira, na sala de espera do Hospital Santo António.

“Se eu morresse aí, quem ia contactar a minha família? Ninguém sabe onde eles estão, ninguém sabe quem sou, ninguém sabe de nada”. No coração do Porto, Telmo é só mais um.

[Reportagem publicada no JN.

1 comentário:

  1. Helena

    Nem sei que escrever para lhe transmitir o que senti

    Obrigado por escrevar assim.
    Obrigado
    Parabéns

    Os jornalistas não são todos assim pois não?
    Nem metade, nem um milésimo decerto

    Parabens Helena, Obrigado

    AM

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