quarta-feira, fevereiro 29, 2012

Baptista-Bastos: Um livro para Passos Coelho ler

Estamos enfraquecidos e aterrorizados. O pior ainda não chegou, avisa-nos o Governo, que já desempregou não só milhares de portugueses, como a própria generosidade. A banalidade das advertências quase deixou de nos comover. Aceitamos as coisas com a resignação de quem entende que valores mais poderosos se levantam. Como há tempos me disse o meu amigo João Lopes, deixámos de alimentar a compaixão, sem a qual nem sequer sobrevivemos: vegetamos. Mas vale a pena insistir na notícia desta desgraça? Creio que sim; de contrário estaríamos a ressuscitar a fantasia de que, se tudo não está bem, vai melhorar. Não vai. Pedro Passos Coelho pressagiou o nosso em-pobrecimento; agora, pede-nos energia. Anda, notoriamente, desorientado. E não sabe a quem se dirige, por desconhecimento de quem somos. Mas não somos matéria vaga.

Leio em Montesquieu: "Não há desgosto que uma hora de leitura não desvaneça." Faço-o, há muitos anos. Claro que o desgosto não se desvanece. Mas a leitura reconforta-nos. E permite-nos estabelecer comparações. É o que devia fazer o Governo: ler. Há, nele, uma encantadora ausência de livros, sobretudo de História. Os discursos chãos, vazios de sentido, escassos de virtude quanto cheios de ignorância, fornecem-nos a dimensão cultural e moral destes senhores. Não se pode governar estranhando a natureza de quem é governado.

Um volume recente, o terceiro da História de Portugal, de António Borges Coelho, ergue-nos o ânimo e alivia-nos dos pesares. Recomendo a Passos, que parece tão desviado de nós, a leitura de Largada das Naus, que nos sacode a sonolência de espírito e nos convoca a inteligência e a coragem. É um texto extraordinário pela beleza da prosa, pelo rigor da pesquisa, pela grandeza da proposta. Como nos dois tomos anteriores, Donde Viemos e Portugal Medievo, o grande historiador não oculta a paixão pelo povo, a contribuição inapagável e sem preço de uma gente fervorosa, amante e entusiasta, violenta e terna, que troca "gestos, cerimónias, roupas, vocábulos" e que experimenta "as armas e os corpos". Nós.

Como poucos, António Borges Coelho fornece-nos a dimensão de um tempo e a espessura de uma população que construiu o país com a rudeza de uma vontade quase inexplicável. Como é possível desconhecer esta gente?, que criou um leito de nações, enquanto consolidava a sua própria, com o génio e o montante, a poesia e o sangue.

Não se deve falar connosco na linguagem da displicência. É imoral. Afinal pertencemos a uma estirpe que, para citar o etnólogo brasileiro Luís da Câmara Cascudo, outro maior, "levou nas naus o coração batente e a pedra de Pêro Pinheiro, mas, também, a língua e a força da aprendizagem". Essa força transformadora que, na repressão, no opróbrio e na desdita não foi nunca dominada.

Hoje, no DN

Viriato Soromenho Marques: A corrida aos euros

Hoje a banca europeia vive o seu segundo momento de happy hour. O primeiro ocorreu a 21 de dezembro quando Mario Draghi deixou que 523 bancos levantassem em escassas horas 489 000 milhões de euros, a três anos, com uma taxa de juro de 1%. Para os leitores ficarem com uma ideia, essa quantia é superior a todos os resgates atribuídos aos três países intervencionados, incluindo o prometido segundo pacote à Grécia (no total são 403 mil milhões). A Europa esteve à beira de um colapso de crédito, antes do Natal, tal a desconfiança reinante entre os bancos.

Foi esta medida do BCE, contra a letra e o espírito do Tratado de Funcionamento da União Europeia (em particular os seus artigos 123.º, 125.º e 127.º) que nos deu mais algum tempo para respirar. Mas é mesmo só isso. Tempo para respirar. Aposto que hoje a banca vai atingir novo recorde, ultrapassando a barreira dos 500 000 milhões. Nenhuma solução estratégica surgiu entretanto. O dinheiro da banca vai ser usado para bons negócios especulativos com a dívida pública dos respetivos países, mantendo artificialmente a dívida de Itália e Espanha a níveis suportáveis.

A falta de coragem moral e a completa incompetência política que prevalece no país hegemónico desta derrocada europeia em curso abriram caminho a um novo Tratado de "disciplina orçamental", que ninguém vai cumprir, mas que trará mais achas para a dilaceração e o conflito. A Grécia já entrou na condição de zombie. Um cadáver adiado, que está apenas à espera do resultado das eleições francesas para ser declarado oficialmente morto. Uma Europa assim só merece o destino de Sodoma e Gomorra. Mas nem é preciso o fogo dos céus. Basta seguir o guião de Berlim para o inferno.

Hoje, no DN

O lado bom da China

terça-feira, fevereiro 28, 2012

Pedro Santos Guerreiro: "Portugal: shrink, don't die, then grow"



Ask Portuguese politicians who they are these days and you will get a sharp and predictable reply: "Not Greek!" Ask a Spaniard or an Italian and they'll say they are neither Greek nor Portuguese. A German will say he's a German, a French might answer he's a German too. And a British prime minister may repeat that he's not sure if he's a European. (Well, these days, who is?)
People love short explanations for complex matters. Take Greece: what got Greece into this deadlock? Too much public debt and too many lies is one acceptable answer. Ireland? The banking system is to blame, and the bubble it provided for the real estate market. But Portugal had no major banking problems and, in fact, private debt is higher than public debt. So, how did this small, open economy go into quarantine?
The bottom line is that Portugal pursued an expansionist fiscal policy for an entire decade, supported by abundant cheap credit, which also led to high household and commercial debt. Low savings and high debt, combined with fiscal expansion and low growth, caused two major imbalances: on public accounts and external accounts. For 10 years, no one seemed to care, not only because the money was pouring in all eurozone countries, but also because unemployment was at a low rate. That fooled the Portuguese people: the credit was financing mainly nonproductive sectors, such as real estate and construction, including state-owned companies and PPP projects. When the markets stopped the feeding and started the bleeding, Portugal got stuck. Thus came the EU-IMF-ECB "troika", with a €78bn loan, along with austerity and a plan to change the economy.
Portugal has now weathered seven months of austerity. All kinds of taxes have been raised, tax deductions have been reduced or eliminated, pensioners are losing pensions, social support is diminishing, the public companies are downsizing, and average salaries are being cut. In Portugal, although the yearly wages are lower than the European (and British) average, they are paid in 14 monthly sums (workers receive double salary usually in August and in December). Now public servants have lost two of these 14 payments.
The banking system is rapidly deleveraging, privatisations are moving ahead, structural reforms are being approved, whether in the labour market or in reducing the state intervention in the economy. All of this makes Portugal's situation very different from the one in Greece: the EU teachers' pet to Greece's rebel.
Portugal has a three-step agenda ahead. The first is to absorb the imbalances, which means reducing public spending and extinguishing all external deficit. The second step is to keep rolling over its accumulated debt, something that cannot be reduced overnight. The third step will be to create confidence in Portugal's economic sustainability and ability to pay its debt. Only then will the financial markets open up to Portugal and put debtor/creditor relations back to normal. By 2013? Hopefully, but unlikely.
Portugal has political stability and seems to be enjoying social tolerance: there's protest but no riots, no blockade nor violence, unlike in Greece. Besides, the country is on course to reduce its fiscal deficit to 4.5% this year –latest official reports are positive. Banks are in better shape than the markets feared. So, from a financial point of view, Portugal really is on track.
So what's missing? Yes, you've seen it from the beginning and, actually, you see it almost everywhere in Europe: economic growth is missing. The fundamental problem remains: internal devaluation is needed, but with no economic stimulus (something only the European surplus countries and the ECB can provide), economies such as Portugal's will step on the brakes – and Europe itself may break.
Portugal's economy is shrinking into a -3% to -4% recession this year, and relies on exports to tip those scales. The unemployment rate is up to 13% (with a staggering 35% among young people) and prime minister Pedro Passos Coelho admitted that it will keep rising. If the economy doesn't show vital signs by the end of this year, and should Portugal need more austerity measures, then the social environment may break into intolerance and fiscal goals may slide. Bear in mind that the "troika" is not welcomed by most Portuguese, who are understandably against losing autonomy to non-elected institutions.
The question for Portugal is not if the country's going to need more money from the troika (it probably will, for the initial package came up short), or more time (getting back to the markets in 2013 seems too optimistic and depends a lot on what Europe manages to achieve), or even if there will be need for an haircut (a big taboo). The main question is if all the structural reforms that are dramatically being imposed by the troika, and the European agenda on the sovereign debt crisis, will succeed in putting the economies under austerity back on track.
Creating jobs and promoting growth really is the issue in Europe. Including Britain, where David Cameron recently wrote a letter to the EU asking for a growth agenda. Or maybe this was just Cameron's way of getting back to the "saving the euro" agenda. Agenda? Well, just call it Europe.
[Hoje, no Guardian]

domingo, fevereiro 26, 2012

Paul Krugman: What ails Europe?

Things are terrible here, as unemployment soars past 13 percent. Things are even worse in Greece, Ireland, and arguably in Spain, and Europe as a whole appears to be sliding back into recession.

Why has Europe become the sick man of the world economy? Everyone knows the answer. Unfortunately, most of what people know isn’t true — and false stories about European woes are warping our economic discourse.

Read an opinion piece about Europe — or, all too often, a supposedly factual news report — and you’ll probably encounter one of two stories, which I think of as the Republican narrative and the German narrative. Neither story fits the facts.

The Republican story — it’s one of the central themes of Mitt Romney’s campaign — is that Europe is in trouble because it has done too much to help the poor and unlucky, that we’re watching the death throes of the welfare state. This story is, by the way, a perennial right-wing favorite: back in 1991, when Sweden was suffering from a banking crisis brought on by deregulation (sound familiar?), the Cato Institute published a triumphant report on how this proved the failure of the whole welfare state model. Did I mention that Sweden, which still has a very generous welfare state, is currently a star performer, with economic growth faster than that of any other wealthy nation?

But let’s do this systematically. Look at the 15 European nations currently using the euro (leaving Malta and Cyprus aside), and rank them by the percentage of G.D.P. they spent on social programs before the crisis. Do the troubled GIPSI nations (Greece, Ireland, Portugal, Spain, Italy) stand out for having unusually large welfare states? No, they don’t; only Italy was in the top five, and even so its welfare state was smaller than Germany’s. So excessively large welfare states didn’t cause the troubles.

Next up, the German story, which is that it’s all about fiscal irresponsibility. This story seems to fit Greece, but nobody else. Italy ran deficits in the years before the crisis, but they were only slightly larger than Germany’s (Italy’s large debt is a legacy from irresponsible policies many years ago). Portugal’s deficits were significantly smaller, while Spain and Ireland actually ran surpluses.

Oh, and countries that aren’t on the euro seem able to run large deficits and carry large debts without facing any crises. Britain and the United States can borrow long-term at interest rates of around 2 percent; Japan, which is far more deeply in debt than any country in Europe, Greece included, pays only 1 percent. In other words, the Hellenization of our economic discourse, in which we’re all just a year or two of deficits from becoming another Greece, is completely off base.

So what does ail Europe? The truth is that the story is mostly monetary. By introducing a single currency without the institutions needed to make that currency work, Europe effectively reinvented the defects of the gold standard — defects that played a major role in causing and perpetuating the Great Depression.

More specifically, the creation of the euro fostered a false sense of security among private investors, unleashing huge, unsustainable flows of capital into nations all around Europe’s periphery. As a consequence of these inflows, costs and prices rose, manufacturing became uncompetitive, and nations that had roughly balanced trade in 1999 began running large trade deficits instead. Then the music stopped.

If the peripheral nations still had their own currencies, they could and would use devaluation to quickly restore competitiveness. But they don’t, which means that they are in for a long period of mass unemployment and slow, grinding deflation. Their debt crises are mainly a byproduct of this sad prospect, because depressed economies lead to budget deficits and deflation magnifies the burden of debt.

Now, understanding the nature of Europe’s troubles offers only limited benefits to the Europeans themselves. The afflicted nations, in particular, have nothing but bad choices: either they suffer the pains of deflation or they take the drastic step of leaving the euro, which won’t be politically feasible until or unless all else fails (a point Greece seems to be approaching). Germany could help by reversing its own austerity policies and accepting higher inflation, but it won’t.

For the rest of us, however, getting Europe right makes a huge difference, because false stories about Europe are being used to push policies that would be cruel, destructive, or both. The next time you hear people invoking the European example to demand that we destroy our social safety net or slash spending in the face of a deeply depressed economy, here’s what you need to know: they have no idea what they’re talking about.

Hoje, no NYTimes

Absolut Kim Ki-duk



... embora não por esta ordem.

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

The days of wine and roses


The days of wine and roses,
Laugh and run away,
Like a child at play,
Through a meadowland,
Toward a closing door,
A door marked never more,
That wasnt there before.

The lonely night discloses,
Just a passing breeze,
Filled with memories,
Of the golden smile,
That introduced me to,
The days of wine and roses,
And you!

The lonely night discloses,
Just a passing breeze,
Filled with memories,
Of the golden smile,
That introduced me to,
The days of wine and roses,
And you!

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

segunda-feira, fevereiro 20, 2012

Paul Éluard: Capitale de la douleur



La courbe de tes yeux fait le tour de mon coeur,
Un rond de danse e de douceur
Auréole du temps, berceau nocturne et sûr,
E si je ne sais plus tout ce que j'ai vécu
C'est que tes yeux ne m'ont pas toujours vu.

Feiulles de jour e mousse de rosée,
Roseaux du vent, sourires parfumés,
Ailes couvrant le monde de lumière,
Bateaux chargés du ciel e de la mer,
Chasseurs de bruits et sources des coulers,

Parfums éclos d'une couvée d'aurores
Qui gît toujours sur la paille des astres,
Comme le jour dépend de l'innocence
Le monde entier dépend de tes yeux purs
E tout mon sang coule das leurs regards.

domingo, fevereiro 19, 2012

Stars have their moment and then they die



I've felt you coming girl, as you drew near
I knew you'd find me, cause I longed you here
Are you my destiny? Is this how you'll appear?
Wrapped in a coat with tears in your eyes?
Well take that coat babe, and throw it on the floor
Are you the one that I've been waiting for?

As you've been moving surely toward me
My soul has comforted and assured me
That in time my heart it will reward me
And that all will be revealed
So I've sat and I've watched an ice-age thaw
Are you the one that I've been waiting for?

Out of sorrow entire worlds have been built
Out of longing great wonders have been willed
They're only little tears, darling, let them spill
And lay your head upon my shoulder
Outside my window the world has gone to war
Are you the one that I've been waiting for?

O we will know, won't we?
The stars will explode in the sky
O but they don't, do they?
Stars have their moment and then they die

There's a man who spoke wonders though I've never met him
He said, "He who seeks finds and who knocks will be let in"
I think of you in motion and just how close you are getting
And how every little thing anticipates you
All down my veins my heart-strings call
Are you the one that I've been waiting for?

sábado, fevereiro 18, 2012

Para ler de joelhos

[Foto: Ricardo Castelo]

Tem um pensamento torrencial. É difícil não sucumbir ao encanto, ao humor, à inteligência e às histórias. Consegue defender o cepticismo da forma mais apaixonada, tornando-o quase o seu inverso. Não acredita em milagres, mas faz tudo para que eles aconteçam. A conversa começou pouco religiosa sobre a relação entre os intelectuais e os políticos. Já não me lembro da primeira pergunta, mas a primeira resposta foi a que se segue.

Um dia o Sócrates telefonou-me, eu tinha escrito uma crónica em que falava das declarações do então treinador do Benfica, Camacho, que garantia que o clube jogava bem mas não metia golos. Relembrei que o objectivo do futebol não era “jogar bem”, mas meter golos, nem que seja com a mão. Comparava a situação com a do governo, dizendo que estava tudo óptimo, com o pequeno problema de não funcionar. Estava em casa e o telefone tocou. Atendi – ainda bem que fui eu, a minha mulher teria decerto descomposto o tipo a pensar que era um brincalhão – e escutei uma voz: “Daqui José Sócrates.” Ainda na dúvida se não era alguém a gozar comigo, ouvi: “Venho protestar consigo na minha qualidade de benfiquista e já agora de socialista”, e convidou-me a ir almoçar a S. Bento. Vou-lhe dizer uma coisa, ele surpreendeu-me. Olhe que a certa altura até me citou o Ruy Belo, e apropriadamente, com uma citação certa. Estava acompanhado daquele tipo que vinha do SIS, o Almeida Ribeiro, a partir daí telefonava--me muitas vezes. Eu sei que ele fazia isso a várias pessoas, porque quando morreu o Eduardo Prado Coelho li uma declaração em que ele dizia: “Era uma grande pessoa, uma grande figura, e até tinha um almoço marcado com ele.” Garanto-lhe que aquilo funcionava. Continuei a dizer o que pensava, mas durante uns tempos não escrevia “José Sócrates”, mas “primeiro-ministro”, para desfulanizar, como dizia o António Sérgio. Começámos a afastar-nos quando ele, num discurso que fez no Norte, em 2008, no início da crise do subprime, garantiu que os portugueses deviam estar seguros de que a Segurança Social não especulava com o dinheiro das pessoas como as economias de casino. Eu com aquele péssimo hábito que tenho de jornalista, fui confirmar as coisas, consultei o site da Segurança Social e vi que 80% dos fundos estavam aplicados em acções. Ele tinha dito expressamente que não se aplicava dinheiro em acções e não era verdade.

Os políticos, além de tentarem seduzir os intelectuais como o Manuel António Pina, também os castigam?
Vou dizer-lhe uma coisa: é mais comum a sedução. O único político que me lembro de me mostrar algum desagrado foi o Sampaio. Senti isso depois de escrever uma crónica quando ele foi a Barrancos, durante a guerra sobre as touradas de morte. É preciso lembrar que foi a posição dele que ajudou muito a legalizar aquela excepção, dizendo, em Barrancos, que o povo quer as touradas de morte. E eu escrevi uma crónica citando o Mário Cesariny, dizendo: “Vem ver o povo que lindo é/ vem ver o povo dá cá o pé.” Passado uns tempos atribuíram-me uma condecoração. Fui lá recebê-la, em Guimarães, pensei em não aceitar delicadamente, mas a minha mulher disse-me que fosse. A minha mulher é fantástica, deve ser a única pessoa que nunca escreveu um poema na vida, nunca tentou escrever “alma” a rimar com “calma” e “água” com “mágoa” e apesar de não gostar de poesia faz-me uma espécie de edição. Às vezes escrevo um poema e ela diz-me o que acha, e normalmente tem razão. E sobre eu não querer aceitar a condecoração disse-me: “Lá estás tu a pôr-te em bicos dos pés.” E tinha razão. No dia aprazado, Sampaio pôs-me o penduricalho e eu agradeci. E ele disse-me assim, com aquela cara severa que o homem tem, “não me agradeça a mim, agradeça ao Estado”. E eu disse-lhe: “Ó senhor Presidente, mas como não tenho o Estado à mão, agradeço-lhe a si.”

Está um bocadinho desencantado?
Estou muito. Eu não tenho nenhuma fé. Mas escrevi recentemente uma crónica chamada “O que fica depois do que se perde”, sobre o filme “A Palavra”, do Dreyer. É uma história sobre a fé. Conta a vida de um luterano que tem três filhos, o mais velho é ateu, o segundo tem uma loucura mística, convence-se que é a reencarnação de Cristo, e o terceiro, o pai tenta casá-lo com uma rapariga de outra seita protestante. Todos consideram louco aquele que se julga Cristo, eu até escrevi na crónica loucura entre aspas, para acrescentar uma nota em que dizia que sou céptico, mas sou céptico em relação ao próprio cepticismo, mas depois acabei por tirar as aspas porque já não tinha espaço para as explicar. A certa altura do filme, a mulher do filho mais velho, ateu, morre, e as duas crianças pedem ao tio que ressuscite a mãe, porque têm aquela fé pura e sem limites acreditam nisso – é das cenas mais comoventes da história do cinema – e ele ressuscita-a. As únicas pessoas que não ficam surpreendidas são as duas crianças. É curioso que eu que não tenha fé nenhuma, mas quando vejo coisas daquelas sinto uma espécie de melancolia. É a sensação que têm os amputados que sentem a perna que já não têm.

Não acha que esse desencantamento é fruto de um sentimento de impotência? Muitos textos seus fazem esse contraponto entre as esperanças de uma geração dos anos 60 e o abastardamento da maioria dessas pessoas no presente...
Isso não gera naturalmente impotência, a não ser nos impotentes. Eu cito muitas vezes uns versos do João Cabral Neto, na “Morte e Vida Severina”, que dizem assim: “Muita diferença faz entre lutar com as mãos e abandoná-las para trás.” E eu sou uma pessoa que atira as mãos para a frente. O meu cepticismo é mais em relação ao ser humano e sobretudo em relação a todos os tipos de optimismo. Às vezes inverto aquela máxima e digo que o optimista é um pessimista mal informado. Eu sujo as mãos, mas faço-o descomprometidamente. Estávamos a falar da descrença, mas eu sinto--me completamente revoltado. Às vezes digo: a vontade que tenho era pôr um cinturão de bombas e explodir com essa malta toda. Quando vejo tratar mal alguém mais vulnerável, um velho, uma mulher, uma criança ou um animal, sou capaz de fazer mal…

Mas não acha que, como no filme, é preciso acreditar para que as coisas aconteçam?
Não acredito em milagres. Digo que aquilo é muito bonito, é belo. E senti a necessidade de pôr um parênteses: a beleza é o rosto mais jubiloso da verdade. Não da própria verdade, mas do seu rosto. Quanto à verdade, tenho dúvidas que exista. Isso da beleza não é uma constatação minha. No outro dia estava a ver uma entrevista do Prémio Nobel da Física Steven Weinberg, em que ele dizia que a teoria das cordas era tão bonita que tinha de ser verdadeira. É um físico que diz isto, não é o místico. Sei que a literatura e a arte são formas e não a confundo com a realidade prática. Já tenho dito que sou um pouco religioso, no sentido mais estritamente literal da palavra.

A poesia não é uma forma de religião. Não é uma negação da realidade?
Não necessariamente. No outro dia disse uma coisa com que concordo, nem sempre isso me acontece. Estive a reler uma entrevista minha à “Ler”, e exclamei: “Eu disse isso?” Fiquei contente. Achei que tinha dito uma coisa acertada. Nem pareço eu. A propósito do Joaquim Manuel Magalhães falar do regresso ao real, disse: “Mas há alguma coisa que não seja real? Tudo é real. O problema é que há muitas realidades. O sonho é tão real como estar acordado.” De facto, nós sentimos efeitos físicos dos sonhos, dos desejos, dos medos, das esperanças. É tudo real. Digo-lhe mais, os mitos – e não estou a falar dos mitos gregos, que são arquétipos da realidade humana – são forças reais: não há nada mais mobilizador que um mito. O mito da greve geral dos trabalhadores é mobilizador. O mito de uma sociedade sem classes também mobilizou milhões de pessoas ao longo da história.

Nas suas crónicas fala repetidamente da expulsão dos poetas da polis e opõe os economistas aos poetas. O que significa isso?
O economista no sentido em que eu o trato são uma espécie de núncios e arautos dos mercados. Escrevi uma crónica contra esses economistas, os que em geral têm acesso às televisões. Não são todos. Eu frequento um blogue de economistas que se chama Ladrões de Bicicletas, em que se fala de outra forma. Curiosamente, o título não remete para a economia, mas para a arte e o cinema. Não sou tão insano que não saiba que as realidades económicas existem, o que me parece é que lá por serem realidade não são necessariamente verdadeiras.

É possível fazer poesia nos tempos da troika?
Acho que se calhar até é obrigatório. Tenho um amigo que está a fazer um livro de poemas sobre isso, o João Luís Barreto Guimarães. Por acaso a minha poesia não é muito desse género, mas no outro dia coloquei num poema, aqui nuns caderninhos [procura o dito], meti qualquer coisa sobre aquela frase do Passos Coelho sobre a democratização da economia, a propósito da precariedade da existência e do absurdo. Compreendo que os seres humanos procurem sempre um sentido ou um destino. É duro de mais saber que se existe para nada. São os grande problemas filosóficos. Aquelas perguntas que nos fazem os nossos filhos: onde estava eu antes de ter nascido? O que nos acontece depois de morrer? São esses os grandes problemas filosóficos a que todos procuram responder: de onde vimos e para onde vamos. Toda a arte e toda a literatura reflecte isso. O Borges diz que toda a arte se resume a dois temas: o amor e a morte... e o tempo. O amor através do sexo está ligado ao abismo antes e a morte ao abismo do ser do depois, ao seu desaparecimento. São uma espécie daquilo que os astrónomos chamam horizontes opacos, a partir dali não se pode ver o antes e o depois. É natural que os homens se interroguem. Toda a arte, como toda a filosofia, são interrogativas.

Manuel António Pina opõe o poeta ao economista, mas também a infância à idade adulta, em que a infância aparece como um sítio, quase um paraíso perdido...
Eu sei. Nós quando somos pequenos queremos ser grandes rapidamente. Mas na infância os poetas invejam a capacidade de ver pela primeira vez. A poesia é também uma forma de olhar de novo. A infância é mítica porque é a capacidade de olhar profundamente pela primeira vez. Para mim, é a melancolia de um momento mítico – mítico até porque parece que já nascemos com a estrutura para a linguagem no cérebro – da relação com as coisas sem intermediação da linguagem. A linguagem afasta-nos do mundo. Nós já nascemos como seres condenados à linguagem, como provam os trabalhos do Chomsky, mas tenho um poema num livro, “Lugares da infância”, em que se fala daquela possibilidade de ter uma relação com o mundo sem essa intermediação. No meu caso a ideia de infância é uma busca desse momento inicial sem nenhuma palavra e nenhuma lembrança em que nós somos também mundo.

Há uma certa ironia em ser oficial de uma profissão, a de jornalista, em que se faz a mediação com os outros através da linguagem...
Mas eu dou-me bem com as duas situações. Há uma coisa que me seduz muito, é o infinitamente grande e o infinitamente pequeno. Sou um leitor apaixonado de livros de divulgação, quer sejam sobre a astronomia, quer sejam sobre a física de partículas. Leio muitas coisas dessas. Sabe porquê? Porque são aqueles momentos em que a nossa linguagem é posta em crise. Digo às vezes, simplificando, que, se a malta que anda a meter heroína lesse um livro de astronomia, sentiria uma pedrada muito mais forte. Imaginar uma distância daqui até Alfa do Centauro, vários anos-luz, é como calcular a nossa dívida pública, é difícil de abarcar. É curioso que estes livros de divulgação tenham a necessidade, para expressar esta realidade, de usar a linguagem poética. Há a célebre experiência do gato de Schrödinger, em que ele defende que um fenómeno só existe depois de ser observado. Só sabemos se o gato que está na caixa está vivo ou está morto quando a abrimos. Até esse momento há metade de probabilidades de que esteja vivo e metade de que esteja morto. Nós é que construímos de facto a realidade através da observação, nós é que lhe damos sentido. Quando observamos não conseguimos tirar a nossa consciência como quem tira um sobretudo. Nunca saberemos como é o mundo real, e até que ponto ele coincide com aquele que construímos através da observação e com recurso à linguagem. Ao longo da história há muitos exemplos de que essa observação não era correcta. A infância é para mim esse momento de coincidência de nós com o mundo. É o problema do amor: nunca conseguimos alcançar o outro. Damo-nos mais com as pessoas com quem nos escapa sempre alguma coisa. Mas em relação ao jornalismo, quando observamos a nossa galáxia, percebemos que é uma entre milhões, que o nosso sistema está num braço modesto da galáxia e que o nosso planeta se encontra entre biliões de outros. Esta normalidade dá-me uma sensação de imensa paz, porque me permite relativizar-me a mim e aos meus problemas. Aprendi com os grandes tipógrafos, às vezes estava na chefia de redacção cheio de problemas com os títulos e eles diziam--me: “Não se preocupe que amanhã isto é para embrulhar o peixe.” A dimensão do infinitamente grande e do infinitamente pequeno dá-nos a consciência de que tudo é para embrulhar peixe.

Mas isso remete para a questão clássica da filosofia, perante essa espécie de morte de Deus na imensidão do cosmos: porque raio de razão faremos nós o que quer que seja?
A grande dignidade da vida e do jornalismo está em ter a consciência plena de que aquilo acaba a embrulhar peixe, mas fazê-lo o melhor possível em cada momento. Fazer o mais honesto, empenhar-se ao máximo, sabendo que é completamente irrelevante. É essa a grandeza do ser humano.

Mas não há nenhuma forma humana de transcendência?
Não acredito na transcendência, a não ser nessa: a consciência de ter uma pulsão para ir além de nós mesmos. No nosso caso concreto, é fazer o melhor possível aquilo que sabemos que no dia seguinte desaparece. É a nossa forma de transcendência.

[Momento em que o fotógrafo Ricardo Castelo pergunta se é possível marcar fotografias para amanhã, com gatos.]
Vou dizer-lhe uma coisa. Se quiser tirar, eu vou. Costumo dizer que à primeira digo sempre que não, mesmo que queira, e à segunda digo sempre que sim, mesmo que não queira. Tenho o hímen complacente. Estou tão farto de ver fotografias de gatos, é um cliché a meu respeito. Costumo dizer que há dois tipos de fotografias de escritores: ou com mão no queixo ou com livros atrás, e no meu caso é com gatos. Se puder evitar, peço--lhe que o faça.

Há a hipótese de tirarmos uma fotografia de um gato a ler um livro seu?
[Risos.] Eu tenho uma fotografia com um gato do Manuel Resende a ler um livro meu. Tenho-a aí, ele estava a traduzir uma obra minha em francês, o Manuel Resende e não o gato, e o bicho adormeceu em cima dos meus poemas.
Continuando, isso da impotência não há. Eu não consigo deitar as mãos para trás, como se fala no poema do João Cabral Neto. Faço as coisas. É uma frase feita das minhas, daqueles bordões a que a gente se agarra, mas defendo que o mínimo que nos é exigível é o máximo que podemos fazer.

Há quem diga que o jornalismo tende a matar a inteligência. E a arte, não sente isso?
Há bastante gente que diz isso. Também a propósito da infância vou citar-lhe um poema meu: “Um tempo houve em que,/de tão próximo, quase podias ouvir/o silêncio do mundo pulsando/onde tu eras mundo, coisa pulsante.” Está a ver, isto é a minha ideia de infância. “Extinguiu--se esse canto/não na morte/mas na vida excluída/da clarividência da infância/e de tudo o que pulsa,/fins e começos,/e corrompida pela estridência/e pela heterogeneidade”, aqui onde estava “heterogeneidade” eu tinha escrito “jornalismo”. Tinha: “corrompida pelo jornalismo”, mas acabei por não pôr, porque é limitativo. Mas é verdade que um dos limites do jornalismo está na estridência. Mas para um jornalista e um escritor (costumo dizer que é uma roupa que nunca me serve bem e poeta muito menos, jornalista acho que me serve melhor) a matéria-prima é a mesma: a palavra escrita. Estas duas formas de escrita: uma para comunicar e outra para criar realidades, para convocar o mundo, têm muitos pontos de contacto. Uma coisa que eu aprendi no jornalismo é a humildade. Se conhece escritores, sabe que normalmente são tipos que acham que é fundamental aquilo que escrevem. No caso do jornalismo, como sabemos que aquilo que escrevemos no dia seguinte está a embrulhar o peixe, não é assim. No jornalismo aprendi essa humildade fundamental. Tenho de escrever, nas minhas crónicas, 1400 caracteres, o morto à medida do caixão – agora tenho-lhes metido o IVA, como aumentou, escrevo 1420. E meti-lhe o IVA baixo. Depois de escrevermos uma coisa, o coordenador corta e altera o título. O jornalismo é um trabalho colectivo. Isso dá-nos uma grande modéstia. O Luiz Pacheco dizia que daqui a cem anos ninguém se lembra. Qual daqui a cem anos... Mesmo na altura já ninguém se lembra. Os escritores têm muita dificuldade em aceitar que tudo acaba por se esquecer. Tudo tende para o esquecimento. Mas há mais relações, o jornalista aprende com o escritor o respeito pelas palavras, sabendo que há palavras que se dão com as outras, e outras não. Não calcula o tempo que demoro a escrever aquela merda com 1400 caracteres. Leio aquilo tantas vezes... Volto atrás e vou para a frente. Só a trabalheira de arranjar assunto. Eu espontaneamente só tenho opinião uma vez por ano, agora tenho de ter todos os dias porque ganho a vida assim. Nunca leio o que escrevi no dia seguinte, porque se o faço fico completamente frustrado.

Nas suas crónicas tem uma certa desconfiança em relação às homenagens e afirma que o inferno dos poetas é acabar nas lapelas dos políticos.
Sabe uma coisa, agora que tive o Prémio Camões tenho homenagens em todo o país. E eu vou porque as pessoas são simpáticas. Se me estendem a mão, estendo sempre a mão. Não gosto de humilhar ninguém. Mais depressa lhe dou uma chapada que a deixo pendurada, compreende? Se desse uma chapada ficava cansado para o resto dos dias. Por isso é que em entrevistas já tenho dito que apertei a mão a muitos canalhas e continuarei a apertar. Ao contrário do Borges, que diz “compreendo o beijo ao leproso, mas não aceito o aperto de mão ao canalha”. De qualquer maneira são pessoas simpáticas. Não posso deixar de fazer isso quando as pessoas me convidam. As explicações que eu dou para tentar não ir por causa das crónicas, da diálise e da falta de tempo, tudo verdade, mas se as pessoas insistem eu vou. O dinheiro do Prémio Camões não o dava a ninguém, mas o prémio partilhava-o com toda a gente, com quem quiser. Entrego já a glória daquela merda.

Gosta do secretário de Estado da Cultura?
Sou amigo dele, mas não acho que ele esteja a fazer um grande trabalho. Não gostei nada da história do Centro Cultural de Belém. Tive uma crónica escrita sobre isso, mas depois não a publiquei.

Mas o Graça Moura é um bom poeta.
Tenho dito isso. Costumo dizer-lhe que só por causa dos poemas dele perdoo- -lhe tudo, até ser a favor da pena de morte. A propósito da sua pergunta inicial sobre os políticos, o Jardim sempre que cá vinha telefonava-me e queria almoçar comigo. Eu fiz a tropa com ele, sabe? Até dormíamos no mesmo beliche. A minha mãe costumava dizer que é na guerra e no jogo que se conhecem os homens…

E tem boa impressão dele?
Até fico ofendido com essa pergunta [risos]. Tenho a pior possível. Vou-lhe contar um episódio que revela o comportamento daquele tipo, é o comportamento dos cobardes. Na guerra estávamos na Acção Psicológica. Éramos dez tipos e eram quase todos do piorio, só havia três tipos que não eram fachos. Nós dez contestámos uma prova física que contava para a classificação e combinámos chegar todos ao mesmo tempo. Então fizemos a corrida em passo de cruzeiro, e 100 metros antes da meta o Jardim arranca a grande velocidade e rompe o acordo, o filho da puta, para ver se ganhava uns pontos extra. O azar dele é que arrancou a 100 metros e nós éramos todos mais ágeis que ele, está a ver a figura dele?, e ultrapassámo-lo todos e ele ficou em último lugar. Mas aquilo foi um acto de traição em relação a uma coisa que tínhamos acordado todos. Mas apesar de já lhe ter chamado Bokassa ele nunca me pôs um processo e sempre que vinha cá telefonava-me para almoçar comigo. Os políticos tratam-me sempre bem. São umas putas velhas.

Mas há alguma explicação do amor dos políticos pela poesia?
Conhece “A Carta a Um Jovem Poeta”? É um diálogo entre Rilke e um jovem poeta que lhe tinha entregue uns poemas. O Rilke simpaticamente disse que tinha gostado de alguns, a que o jovem terá aduzido esperançado: “Acha então que devo continuar a escrever?” Tendo Rilke respondido de pronto: “Ó homem, se pode parar de escrever, aproveite.” Eu acho até que é um dever cívico. Defendo a tese de que a poesia devia pagar imposto. Mesmo cair sob a alçada do Código Penal. Isso para evitar que, entre outras coisas, eu tenha de ler aqueles 400 livros [aponta para um molho de livros de um concurso de que é jurado]. Todos com “alma” a rimar com “calma” e “água” a combinar com “mágoa” e coisas do género. Poupava-se papel, árvores e muitas coisas. Só se publicavam livros daqueles que estavam dispostos a correr riscos. Voltando à vaca fria, isto visto, já não digo de Alfa do Centauro mas da Lua, é completamente risível.

[Hoje, no i, entrevista notável de Nuno Ramos de Almeida]

Gilles Deleuze: Do desejo





sexta-feira, fevereiro 17, 2012

That's how I know I love you



 "I used to make long speeches to you after you left. I used to talk to you all the time, even though I was alone. I walked around for months talking to you. Now I don't know what to say. It was easier when I just imagined you. I even imagined you talking back to me. We'd have long conversations, the two of us. It was almost like you were there. I could hear you, I could see you, smell you. I could hear your voice. Sometimes your voice would wake me up. It would wake me up in the middle of the night, just like you were in the room with me. Then... it slowly faded. I couldn't picture you anymore. I tried to talk out loud to you like I used to, but there was nothing there. I couldn't hear you. Then... I just gave it up. Everything stopped. You just... disappeared. And now I'm working here. I hear your voice all the time. Every man has your voice."

quinta-feira, fevereiro 16, 2012

Pedro Lains: "Where is growth going to come from?"


Francamente, não tive tempo antes, mas o assunto não podia morrer. Sobretudo depois de ver que a surpresa vem de outras partes, incluindo de um recente artigo do New York Times, onde o jornalista fica sem saber o que dizer quando o ministro das Finanças, à falta de melhor, cita George Washington em defesa da sua política financeira. Nessa entrevista, Gaspar não diz de onde virá o crescimento que permitirá a redução da dívida, concentrando-se apenas em elogiar a redução do défice - sem lembrar que o fez essencialmente com medidas temporárias, como a transferência das pensões dos bancos, ou anunciadas como tal (anúncio ainda não desmentido por quem tanto pugna pela honestidade financeira), como os cortes nas pensões e salários. De resto, diz apenas que o crescimento virá em 2014 e que será de 2% ao ano, e a gente aqui pode acreditar ou não.

Mas na sua intervenção na LSE, há cerca de duas semanas e entretanto publicada em podcastVítor Gaspar foi mais longe na explicação das origens do futuro crescimento do país. A palestra durou cerca de meia hora, tendo sido seguida por quase uma hora de perguntas e respostas. As duas partes foram interessantes, embora a segunda mais, até porque a palestra seguiu uns slidesque se compreendem bem e em menos tempo.    Ao minuto 59, um certo Tomás, depois de elogiar o que o ministro tem feito pelo bom nome do país, colocou a pergunta crucial: "What are the pilars of growth for Portugal?". A resposta, dada aos minutos 70-75, foi muito elucidativa. Depois de refrasear a pergunta, Gaspar disse que a primeira fonte de crescimento será uma "normal cyclical recovery". Ou seja, isto vai abaixo e depois vem acima porque a economia passa a ter "lots of spare capacity". Pasme-se. Presume-se que quanto mais abaixo for, mais acima virá; e Passos deve estar com a esperança que essa "normal cyclical recovery" venha bem antes de 2015.

Mas o ministro ainda deu mais ideias sobre de onde virá o crescimento. Segundo ele, modelos dinâmicos e  “convencionais” de equilíbrio geral, aplicados a Portugal, mostram que a eliminação de "markups" (que é mais ou menos a distância entre preços ou salários de monopólio e de mercado) levarão a um crescimento do PIB potencial de 10%, em 10 anos, acrescentando, com entusiasmo, que metade desse crescimento virá nos 3 primeiros anos do "programa". E como chega a esses resultados? Simples, a partir do exemplo da Alemanha "no passado recente" e de estimativas dos tais "markups" para Itália. Belo! Ainda acrescentou algumas palavras sobre a "agenda de reforma estrutural" mas aí só disse que tem "esperança" que ela tenha impacto, pois não está no modelo (claro, nunca ninguém conseguiu medir tal coisa...).    Entretanto, com um declínio acentuado da economia no último trimestre de 2011 e o desemprego a 14%, a primeira parte do programa parece estar a ser um grande êxito – que, seguramente, ainda crescerá. Aguardemos com expectativa os resultados da segunda parte do programa, a do modelo de equilíbrio geral que, felicidade, é "dinâmico e convencional". E alemão e italiano...

Os riscos desta aventura são tão grandes que surpreende que ninguém consiga dizer ao ministro que mais se parece com marxismo do que com outra coisa qualquer.

Amar o Porto (VI): Miguel Bombarda


Cidade sem medo de mostrar o coração.

terça-feira, fevereiro 14, 2012

Paula Rego: Broken Promises (Madame Butterfly)


Tela de Paula Rego, inspirada na ópera de Puccini, Madame Butterfly, vendida hoje, em leilão, em Londres, por mais de 850 mil euros, depois de ter sido comprada em 2006. O quadro esteve exposto, pela última vez, no Museu Rainha Sofia, em Madrid, em 2007. 

sábado, fevereiro 11, 2012

“For Rent” by Peeping Tom


Depois da trilogia composta pelas peças “Le Jardin”, “Le Salon” e “Le Sous Sol”, e de “32 rue Vandenbranden”, Peeping Tom apresenta “For Rent”, um espectáculo forte, visualmente fascinante e cinematográfico, que mistura dança, música e efeitos visuais. Somos conduzidos numa lógica de curto prazo, de flexibilidade, de reinvenção sem limites que faz com que o discurso de uns se transforme na fantasia dos outros. O palco é lugar onde “a criação se recria constantemente” e fonte de imagens que jorram incessantemente. É espaço cénico para oito bailarinos que oscilam no fio da incerteza, fundindo sonho com realidade, passado com presente, imaginação com objectividade. Não há mais lugar para uma narrativa única dentro deste quadro de múltiplas vozes. “O palco é um lugar que não nos pertence, um lugar onde somos inquilinos intermitentes”.

GUIdance – Festival Internacional de Dança Contemporânea
Centro Cultural Vila Flor, Guimarães
22 Horas

Clara Ferreira Alves: Miguel Relvas dos Santos



    Nas salas, salinhas e saletas da nossa capital passa-se muito tempo nos últimos tempos a discutir a filiação de Miguel Relvas. O tema não necessita grau académico para a discussão. Basicamente, muito basicamente, como dizem os donos das tascas quando dizem coisas do género “nós aqui trabalhamos basicamente à base de refeições e portanto não pode ocupar uma mesa com um café”, o assunto resume-se a uma pergunta: o tipo (ok, o gajo, esta gente da capital é pouco respeitadora) faz aquilo sozinho ou é o Passos que o autoriza? A outra pergunta, que não segue necessariamente esta, é: até quando vai o Passos deixar o Relvas em rédea solta? Talvez o Relvas caia do cavalo, suspiram lacrimejantes sociais-democratas, muito dados à pieguice que o Passos vitupera.
    (…) Quando o poder acaba, os Relvas deste mundo passam-se para as empresas e enroscam-se nos conselhos de administração. São impunes, amigos de toda a gente e sabedores dos segredos de toda a gente, pelo que ninguém os ousa enfrentar. O que os move não é tanto o ganho pessoal e sim a pequena liturgia do poder, com as espinhas dobradas em volta mais o sorriso serviçal com que são recebidos nas mesas dos almoços de negócios da capital. Facilitadores expeditos e joviais, dão grandes abraços aos inimigos e têm no estrangeiro amigos em lugares importantes, normalmente parecidos com eles. Acabam, se a jogada não correr mal, condecorados pelo senhor Presidente da República Ou mesmo conselheiros de Estado. O Grão-Mestre desta ordem é Dias Loureiro, um controlador geneticamente modificado, dotado de total Impunidade e que por aí continua, a negociar com angolanos, com brasileiros, com quem quiser negociar. De vez em quando é avistado num avião ou num desses restaurantes da capital, porque ele tem mais que fazer. E é tudo menos piegas. Ora o Relvas ainda mal começou, o homem é muito rápido e por isso dá a impressão de que faz muitas coisas mas na verdade só faz uma: campanha eleitoral do Relvas. Dentro do azougado PSD, muitos dizem que a filiação do Relvas não é legítima e que o PSD não é aquilo.
    . Analisemos a filiação. Nestas coisas temos de ser caritativos. O Relvas gosta de negociar com Angola e com angolanos, o Relvas gosta de negociar com brasileiros e também com brasileiros que gostam de Angola e dos angolanos, e que mal tem Isso? Vamos agora ser piegas? O Passos não gosta de gente piegas. Se o Relvas tiver de vender uns bens de família, vulgo bocados de Portugal, a culpa não é do Relvas, é da crise que nos atirou para uma irremediável pelintrice. Temos de ver o Relvas à luz desta bondade, que o faz exaurir-se ao serviço dos contratos de compra e venda da pátria. O Relvas quis fazer um programa de televisão em Angola, e por sinal um bonito programa de televisão onde ele era entrevistado enroscado na bandeira, e caíram-lhe em cima os jornalistas e os ingratos portugueses. Analisemos isto de outro modo: O Relvas, que conhece bem Angola (consta na biografia, que nenhum jornal se deu ao trabalho de investigar, incluindo o período em que a empresa do Relvas “abria portas no estrangeiro” e prestava pequenos serviços ao grande BPN), gosta de Angola e dos angolanos. (…)
    Miguel Relvas torna-se assim uma espécie de filho do Presidente angolano, talvez mesmo o filho português que nunca teve. É, diria o Miguel Relvas dos Santos, a “nossa maneira de estar no mundo”.
    [Hoje, no Expresso]

sexta-feira, fevereiro 10, 2012

“Island of no memories” by Kaori Ito


“Island of no memories” conta a história de um homem que se desprende da sua inevitabilidade através de um processo de amnésia. Uma viagem pelo amor e ciúme, pela idade e morte, onde o que parece ser uma experiência divertida se transforma, de repente, em pesadelo. Isidora é uma ilha onde ninguém se lembra de nada, um espelho vazio de reflexos perdidos. Não há nomes, nem casas, nem famílias... nem medo. E quando não há memória, a mesma pessoa pode ser amada várias vezes. Que haverá que nos prende ao mundo? Quanto de esquecimento cabe no amor?

Kaori Ito, inspirada na obra de Stefan Merill, “The Story of Forgetting”, explora, em “Island of no memories”, os limites do corpo e a capacidade das vozes. Através do movimento dos corpos, apaga-se o vivido quando se faz pertinente, mistura-se a voz com o tempo. “Island of no memories” é a desordem da mente, um emaranhado de cordas que nos aprisionam, destituindo-nos da liberdade. Na vertigem do movimento, a memória não passa de anamnese.

GUIdance – Festival Internacional de Dança Contemporânea

Centro Cultural Vila Flor, Guimarães
22 Horas

Ovo: Teatro de Marionetas do Porto

[Foto: João Tuna]

Partindo de uma ideia original de Eric de Sarria – um dos colaboradores mais próximos do marionetista francês Philippe Genty – Ovo tem dentro de si uma ideia de recomeço. No início desta história encontramos um homem - um ator, um marionetista? - que cai, o seu crânio abre-se e o que resta da sua memória esvai-se no chão. Perde a noção de futuro, apenas o passado e os seus automatismos persistem. A sua vida, de que não restam mais do que as ruinas da memória, estilhaça-se e é reconstruida por quatro personagens. O palco é o espaço interior povoado de personagens engendradas pelo inconsciente, mas capturadas no mundo da representação teatral.

Primeiro espetáculo do Teatro de Marionetas do Porto sem a assinatura de João Paulo Seara Cardoso (1956-2010), em Ovo existem coisas que dão origem a outras coisas. E é com este espetáculo que a companhia dá início a uma nova fase, com a colaboração de artistas que são convidados pela primeira vez, num desejo de continuar a encontrar novas formas, novos objetos poéticos, nos quais a marioneta, e todo o trabalho realizado com esta equipa, seja sempre um novo desafio.

Ao procurar o que os separa, descobrimos que o inverso é um novo lugar, apercebemo-nos de que o passado é como que o inverso do presente. O presente não é como um ovo que o passado chocou?

Mosteiro de São Bento da Vitória, Porto

De quarta a domingo às 21h30
Até 26 de Fevereiro

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

One day I'll be fine with that



Distance is fine
and all you can care
and nothing is big like that
you don't see me now
I don't see you back

terça-feira, fevereiro 07, 2012

Osamu Dazai: Não humano



Há algumas pessoas cujo medo por humanos é tão mórbido que chegam a um ponto em que anseiam por ver com os seus próprios olhos monstros com formas cada vez mais horríveis. E quanto mais nervosos são - quanto mais rápidos a amedrontar-se -, mais rezam para que cada tempestade seja o mais violenta possível... E pintores que tenham esta mentalidade, depois de sofrerem repetidos ferimentos e ameaças às mãos de aparições chamadas seres humanos, têm muitas vezes passado a acreditar no fantástico e a ver espectros, em pleno dia, no meio da natureza. (...) Tudo passa. Essa é a única coisa que achei assemelhar-se a uma verdade na sociedade dos seres humanos onde até agora vivi como se num inferno. Tudo passa."

(um soco dado por um dos maiores escritores japoneses do séc. XX. Suicidou-se aos 39 anos, depois de várias tentativas falhadas, a 13 de Junho 1948. Começou a despedir-se da vida logo no primeiro livro, na primeira frase.)

segunda-feira, fevereiro 06, 2012

I realized I was in love with a voice



They say I made the moon
Everything was in the dark
No memories at all
Just a tiny freezing wind in my back
As I was sitting there
Singing a song they had never heard before
Suddenly, a voice told me


"Keep on singing, little boy
And raise your arms in the big black sky
Raise your arms the highest you can
So the whole universe will glow"

My first vision was a bush growing down the river
And I couldn't stop crying
Something was missing
I realized I was in love with a voice
I called it, again, and again
But all I heard was the echo in the light

domingo, fevereiro 05, 2012

O Artista by Michel Hazanavicius *****



Nomeado para 10 categorias do Oscars, só nos apetece gritar: Bérénice Bejo!!!!

Clara Ferreira Alves: O fim do mundo num gemido


Quase todos os dias podemos ver a procissão de homens ocos. A sair dos carros blindados com vidros escuros, caminhando apressados no centro de um grupo de assistentes que carregam as pastas e caminham um passoa trás, como os súbditos, sorrindo ou franzindo os olhos para as câmaras, conforme a gravidade da situação. Apertam muito as mãos uns dos outros E às vezes fazem pose para a fotografia de grupo, com os olhos espantados e a imobilidade de espantalhos.

"The hollow men", um dos grandes poemas de T.S. Eliot, e um dos que mais influenciaram a literatura posterior, não poderia ter melhores representantes do que esse conjunto de fraquezas e conveniências a que chamamos "líderes europeus".

O que fazem os líderes europeus? Cimeiras. Fazem cimeiras. E antes das cimeiras dizem que vão resolver os problemas da europa e da zona euro e depois das cimeiras dizem que novos passos e definitivos passos foram dados para resolver os problemas da Europa e da zona euro e uma semana depois, esgotado o primeiro impulso optimista dos mercados, volta tudo ao mesmo. Os juros sobem, os ratings descem, os bancos descapitalizam, o desemprego aumenta. E a Grécia continua a descida ao fundo do poço. Em cada cimeira aparece um pacote de medidas que serão "implementadas" no futuro, sabendo todos que o futuro é para a semana que vem.

Antes das cimeiras os líderes europeus dizem que não pode ser a Alemanha a decidir o futuro do euro, depois das cimeiras os líderes europeus concordam com as decisões alemãs sobre o euro. Antes das cimeiras os líderes europeus juram que já perceberam que a austeridade é perigosa para as economias, depois das cimeiras os líderes europeus afirmam que mais austeridade é o único caminho. Estamos nisto há uma eternidade.

Custa a crer como é que um conjunto de gente supostamente eleita por ser inteligente consegue ser tão vilmente estúpida. Custa a crer como é que o Governo alemão resolve impor unilateralmente aos gregos um "comissário" financeiro, destituindo-os da última parcela de soberania, como se a Grécia fosse um protectorado, sem que o resto da Europa se levante num clamor.

T.S. Eliot escreveu "The Hollow Men" em 1925, no rescaldo da I Guerra Mundial e do Tratado de Versalhes, The hollow men, the stuffed men. Os homens ocos, os homens de palha. As nossas vozes secas/ Quando sussurramos juntos/ São silenciosas e sem sentido. O poema acaba com a estrofe catastrófica: This is the way word ends/ This is the way the world ends/ No with a bang, but a whimper. E assim acaba o mundo, não com um estrondo mas com um gemido. O poema entro no vocabulário anglo-americano e foi citado milhares de vezes em escritos posteriores, em livros, filmes, séries de televisão. Coo uma profecia, a leitura actual do poema devolve-nos este tempo histórico comandado por homens ocos.

O verdadeiro défice europeu não é financeiro. É humano. Na história da Europa dos últimos séculos nunca houve um conjunto de burocratas e de chefes tão afastados da grandeza europeia como esta gente que se junta em Bruxelas para decidir sobre gente que não conhece. O provincianismo de Merkel, uma engenheira química que cresceu no outro lado do Muro, mostra-se nos discursos. A senhora Merkel tem a eloquência prudente e limitada de um alemão da Alemanha interior, um território mental sem pingo de cosmopolitismo, conservador nos costumes e nos hábitos, inspirado pela frugalidade luterana ou a centrifugação ideológica do marxismo-leninismo soviético. Esta Alemanha desdenha o desconhecido território do hedonismo e do esbanjamento, desdenha os povos de "índole voluptuária" (citando Latino Coelho) que agora estendem a mão.

O falhanço de Merkel foi o de não ter explicado as razões pelas quais os hedonistas ameaçam o sistema capitalista mundial. E ameaçam a economia, o bem-estar e a estabilidade da Alemanha. Uma Alemanha que ainda não perdeu a mania do lebensraum le quer estender uma hegemonia às soberanias nacionais que não conseguiu controlar ou vigiar antes do desastre. Nem a Alemanha nem a Europa. A Grécia dava sinais inequívocos de descontrolo financeiro e fiscal e nem um único chefe europeu ou alemão entendeu colocar a burocracia europeia não ao serviço de si mas da fiscalização. A punição pela punição não produz efeitos e só serve para afastar a Grécia (e Portugal) da Europa do centro e sentenciá-los à morte. Sem investimento nem estímulo, a economia não cresce e fica nas mãos de meia dúzia de agentes e intermediários, o que está a acontecer. Portugal torna-se um entreposto. A austeridade tem um preço alto. Aniquilação da soberania política e económica. Destruição do Estado. Miséria social. Desemprego. Desigualdade. Emigração. Dependência. A quantas cimeiras de homens ocos teremos de assistir antes de o nosso mundo acabar com um gemido?

(Ontem, na Revista do Expresso)

The wisdom of a fool won't set you free



Every time I think of you
I feel shot right through with a bolt of blue
It's no problem of mine
But it's a problem I find
Living a life that I can't leave behind
But there's no sense in telling me
The wisdom of the fool won't set you free
But that's the way that it goes
And it's what nobody knows
well every day my confusion grows


Every time I see you falling
I get down on my knees and pray
I'm waiting for that final moment
You say the words that I can't say


I feel fine and I feel good
I'm feeling like I never should
Whenever I get this way
I just don't know what to say
Why can't we be ourselves like we were yesterday
I'm not sure what this could mean
I don't think you're what you seem
I do admit to myself
That if I hurt someone else
Then I'll never see just what we're meant to be


Every time I see you falling
I get down on my knees and pray
I'm waiting for that final moment
You say the words that I can't say

sábado, fevereiro 04, 2012

T. S. Eliot: The Hollow Men


I
We are the hollow men
We are the stuffed men
Leaning together
Headpiece filled with straw. Alas!
Our dried voices, when
We whisper together
Are quiet and meaningless
As wind in dry grass
Or rats’ feet over broken glass
In our dry cellar

Shape without form, shade without colour,
Paralysed force, gesture without motion;

Those who have crossed
With direct eyes, to death’s other Kingdom
Remember us—if at all—not as lost
Violent souls, but only
As the hollow men
The stuffed men.

II

Eyes I dare not meet in dreams
In death’s dream kingdom
These do not appear:
There, the eyes are
Sunlight on a broken column
There, is a tree swinging
And voices are
In the wind’s singing
More distant and more solemn
Than a fading star.

Let me be no nearer
In death’s dream kingdom
Let me also wear
Such deliberate disguises
Rat’s coat, crowskin, crossed staves
In a field
Behaving as the wind behaves
No nearer

Not that final meeting
In the twilight kingdom

III

This is the dead land
This is cactus land
Here the stone images
Are raised, here they receive
The supplication of a dead man’s hand
Under the twinkle of a fading star.

Is it like this
In death’s other kingdom
Waking alone
At the hour when we are
Trembling with tenderness
Lips that would kiss
Form prayers to broken stone.

IV

The eyes are not here
There are no eyes here
In this valley of dying stars
In this hollow valley
This broken jaw of our lost kingdoms

In this last of meeting places
We grope together
And avoid speech
Gathered on this beach of the tumid river

Sightless, unless
The eyes reappear
As the perpetual star
Multifoliate rose
Of death’s twilight kingdom
The hope only
Of empty men.

V

Here we go round the prickly pear
Prickly pear prickly pear
Here we go round the prickly pear
At five o’clock in the morning.

Between the idea
And the reality
Between the motion
And the act
Falls the Shadow
For Thine is the Kingdom

Between the conception
And the creation
Between the emotion
And the response
Falls the Shadow
Life is very long

Between the desire
And the spasm
Between the potency
And the existence
Between the essence
And the descent
Falls the Shadow
For Thine is the Kingdom

For Thine is
Life is
For Thine is the

This is the way the world ends
This is the way the world ends
This is the way the world ends
Not with a bang, but a whimper.