quarta-feira, dezembro 30, 2009

"A velha tinha um gato"




Chama-se "Uma velha tinha um gato", mora na Rua dos Canastreiros, na Ribeira do Porto e abriu há um mês. E dificilmente aquele bar poderia ser mais charmoso. Logo à entrada, um sofá vermelho anuncia o bom augúrio. Mas antes (ou depois) disso, vale a pena conhecer a proprietária, mulher de teatro, dos tempos de uma cidade que se perdeu, uma mulher extraordinariamente bonita, actriz capaz de nos fazer perder as horas (e as cheias) na conversa. Depois, lá dentro, ouve-se muito boa música, lê-se o I e fuma-se alegremente. Calorosamente. De repente, faz lembrar um pub (e já ninguém diz pub) dos anos 80, mas com um update que lhe dá mais luz, mais glamour. No fim da noite, estamos em casa.

Super Bock a mais dá nisto...

Cobre a fachada do Mercado Ferreira Borges, no Porto. E mente: Aqui bebe-se cultura. Poderia haver algum slogan mais irónico?

domingo, dezembro 27, 2009

Entrevista para ler, reler e guardar


Martin Avillez Figueiredo bem avisa logo no editorial do I que a entrevista a Tolentino Mendonça, publicada ontem, é iluminada. E é mesmo. Vale a pena, muito a pena, ler o editorial, e a entrevista conduzida por Maria João Avillez. Alguns excertos:

Eu sinto que a procura de Deus é a dimensão mais forte da minha existência. Em última análise é dessa procura - humilde, inacabada, sempre a ser refeita - que me alimento. Vivo na sua expectativa, deslumbro-me com a revelação surpreendente e polifónica da sua presença, sofro e interrogo o seu silêncio... Com a consciência profunda, porém, de que estes contornos mais intensos ou mais frágeis da minha procura não são os mais importantes. Importante é, nas horas da graça ou naquelas de densa escuridão, saber-se buscado, saber que é Deus quem nos procura...

Uma amizade não começa no momento em que é explicitada. Para chegar a ser explicitada tem primeiro de crescer em silêncio nos corações, de se construir lenta e misteriosamente em múltiplos encontros, de se consolidar num tráfico íntimo de sinais... Há uma frase de Blanchot que explica deste modo a forma como todos experimentamos a amizade: "Já éramos amigos e não sabíamos." A amizade com Deus é a mesma coisa. Quando é que Ele se tornou obrigatório? Tenho de responder, para ser verdadeiro: muito antes que eu o soubesse.

O nosso encontro com Deus é, nesta nossa condição histórica, um encontro mediado. Eu diria que, no meu caso, esse encontro foi decididamente mediado pelo espanto. Descubro-me enamorado de um espanto fundamental. Não consigo mais tirar dali os olhos ou o coração. Não é só o assombro perante "a espantosa realidade das coisas", de que Fernando Pessoa falava, e que em si mesmo já é tanto! O maior assombro é pela vocação divina do homem que está em nós inapagavelmente inscrita. Quando o que sabemos de Deus nos constrange, nos cerca, nos pressiona, nos compromete, nos deixa sem saída (e estou a citar palavras de dois grandes crentes, S. Paulo e o profeta Jeremias), então percebemos que é connosco que Deus está a falar.

Há uma oração que aprendi, e dizem- -me que se reza em Taizé: "Senhor, estou aqui à espera de nada." Com o tempo, esta oração tem-se tornado a paisagem de fundo do meu caminho espiritual. Acho que posso dizer que vivo na dependência de Deus. Jesus Cristo é o objecto da minha fé. Com todas as minhas falhas e incertezas, procuro que a sua humanidade se torne inspiração para a minha. Mas peço a Deus a liberdade e a gratuidade necessárias ao amor. Eu não creio para que Deus me facilite a vida ou a resolva por mim. Os místicos ensinam que "a rosa é sem porquê".

Reeleição de Cavaco Silva aparentemente tranquila

Para Cavaco Silva é sempre cedo de mais para anunciar a recandidatura a Belém, luxo a que só deverá entregar-se até meados de 2010. Até lá, quanto mais souber conter a animosidade, melhor. Para evitar surpresas.

É coisa a que já nos habituámos: Cavaco Silva fala de si próprio na terceira pessoa quando não quer falar. "O presidente da República não deve pronunciar-se sobre isso" foi talvez a frase que mais vezes proferiu durante os últimos cinco anos. Apesar disso, em Agosto deste ano, à boleia das alegadas escutas de que Belém estaria a ser alvo, encetou um tipo de discurso que o fez descer a pique no ranking de popularidade. Foi também a confirmação do início do fim da "cooperação estratégica" com o Governo. A haver uma recandidatura, Cavaco Silva já não poderá, por isso, insistir na fórmula que entretanto se corrompeu, defendem os especialistas ouvidos pelo JN. Mas ainda pode apostar em ser "o garante de estabilidade" do país. E nem Manuel Alegre, que corre o risco de ser "o derrotado mais votado de sempre, até com uma votação superior a um milhão de votos", deverá beliscar a sua reeleição, acredita o comentador político António Costa Pinto.

"Nos últimos meses, o presidente da República (PR) arriscou muito, teve várias intervenções menos felizes e, com isso, a sua imagem sofreu um forte abalo. É impossível repetir a bandeira de cooperação que usou na última campanha presidencial", afirma José Manuel Leite Viegas, investigador do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia. No entanto, o chefe de Estado já terá percebido o jogo em que entrou. "Quanto mais atritos houver entre o Governo e a Oposição, mais o PR poderá afirmar-se como referencial de estabilidade. Neste jogo, ganha quem for mais contido, porque o país não perdoará quem aparecer aos olhos da opinião pública como o desencadeador de ataque de uma situação que, já de si, é aguda. Quem alimentar o conflito será penalizado, e ele já percebeu isso."

José Adelino Maltez concorda, embora não veja "na claríssima conflitualidade entre Cavaco e Sócrates uma coisa necessariamente negativa". Além da "boa educação que ambos demonstraram ter esta semana na troca de cumprimentos de Natal" - e o politólogo ressalva que refere o episódio "sem ironia" -, "o conflito prende-se mais com diferenças de carácter do que de políticas". Na política europeia, na segurança e na defesa nacional "houve sempre grande coincidência", recorda. Significa isto que voltaremos a ter um estado de graça entre os dois órgãos de soberania capaz de potenciar uma candidatura à Direita, como aconteceu em 2005? Não, responde Maltez. Acordos institucionais? Também não. Mas podemos ter, avisa, "aquilo que Cavaco Silva deseja no seu íntimo: um Bloco Central. Para tal, basta que Sócrates saia do PS e Ferreira Leite do PSD, o que é muito provável no próximo ano", defende. "Nesse cenário, Cavaco voltaria a ter uma excelente vitória de cooperação estratégica e o caminho livre para um segundo mandato tranquilo."

Mesmo que isso não venha a suceder, "a campanha de Cavaco Silva será fácil", insiste José Adelino Maltez. E António Costa Pinto não encontra motivos para que não seja assim. "Ele tem todas as vantagens do seu lado: pode ser o último a anunciar a candidatura, o episódio de Agosto será rapidamente esquecido e se o conflito se prolongar até Dezembro de 2010 (véspera de eleições), o povo terá tendência a escolher o que já conhece, porque vê nisso um elemento de estabilidade". Além disso, "para as presidenciais conta mais a imagem do candidato do que as suas propostas". Portanto, mesmo que aos olhos dos portugueses Cavaco possa parecer demasiado conservador - é contra o divórcio, o aborto e o casamento homossexual -, isso, no fim, contará muito pouco". A reeleição do actual PR, concordam todos, estará mais nas mãos dos outros, nas falhas dos outros, do que dele próprio: "A ele, basta-lhe capitalizar o lugar e reagir cada vez menos às guerras com o PS e com Sócrates."

quinta-feira, dezembro 24, 2009

terça-feira, dezembro 22, 2009

Diálogos pueris

- O pai foi para o Jesus, explica-lhe a mãe.
- Porquê?, pergunta a menina de três anos.
- Porque tinha um dói-dói.
- E quem lhe fez o dói-dói?
- Foi o Jesus.
- O Jesus é mau?
- Não, é bom.
- Então, foste tu que lhe fizeste o dói-dói?
- Já te disse que foi o Jesus. Mas o pai está no céu. Podes falar com ele sempre que quiseres.
- O Jesus tem telefone? Lá no céu?
- Não, não tem. Mas basta olhares. Ele ouve o que dizes.
- E como é que eu ouço o que ele diz?
- Ouves aí dentro, com o coração. Onde quer que estejas, o pai consegue ver-te e ouvir o que dizes.
- Mas o céu é muito longe, não é?
- Pois é.
- Mãe, o pai também consegue dar-me banho lá do céu?
- Não, isso não.
- Porquê? Porque já não gosta de mim?
- Claro que gosta de ti. Gosta muito. Mas o pai teve que ir embora.
- E quando volta?
- Não volta.
- Porquê?

segunda-feira, dezembro 21, 2009

domingo, dezembro 20, 2009

São Bento e Belém: “guerra de fracos”


Desde o estatuto dos Açores que a relação entre Belém e São Bento não voltou a ser a mesma. José Sócrates e Cavaco Silva recusam admitir o divórcio, mas entre eles tudo faz faísca. Até quando pode um país em crise aguentar este conflito?

Parece uma daquelas intermináveis séries de televisão em que as temporadas sucedem-se ininterruptamente mas não acrescentam nada às anteriores. Há dois personagens com poder no centro do conflito, raras vezes estão de acordo e nunca respondem directamente um ao outro. Não é ficção. Cavaco Silva e José Sócrates são os responsáveis máximos do país. Mas a série está longe de chegar ao fim. E eles muito longe de estabelecerem uma base de entendimento. O preço, afirmam os politólogos ouvidos pelo JN, é pago pelos portugueses.

“É uma guerra entre fracos, entre duas personalidades que estão a desempenhar funções muito abaixo dos níveis olímpicos que o país exige nesta altura”, lamentou Viriato Soromenho-Marques, professor catedrático da Universidade de Lisboa. “O conflito cresce na proporção inversa da capacidade que eles têm para responder aos problemas reais do país”.

E esses problemas, defende, não são nem a falta de comparência de José Sócrates ao encontro com o Presidente da República, nem a rejeição de Cavaco Silva ao casamento homossexual – os dois motivos que voltaram a incendiar a relação entre os dois órgãos de soberania. A esse tipo de problema, no entanto, nenhum gabinete resiste a comentar. “O gabinete do primeiro-ministro já não estranha a intriga mesquinha que, a propósito e despropósito, é colocada nos jornais contra o primeiro-ministro”, reagiu São Bento sobre o mal-estar que a ausência de Sócrates terá provocado em Belém. “O relacionamento do Presidente da República com o primeiro-ministro é do domínio reservado. A Presidência não alimenta intrigas montadas para desviar as atenções”, respondeu Belém.

“É difícil ir mais longe nesta crispação do que eles já foram”, analisa João Cardoso Rosas, professor universitário de Teoria Política. Com a agravante de “estarmos constantemente a assistir a recados encomendados, a comentários por interposta pessoa (Sérgio Sousa Pinto, por exemplo, criticou anteontem Cavaco por causa do casamento gay.)”. Ou, como afirma Soromenho-Marques, assistimos “a uma espécie de guerra de estratégia indirecta, em que a tensão sobe ou desanuvia, mas nunca atinge o patamar de cooperação, que Cavaco prometeu no seu discurso de tomada de posse”.

A data do desmoronamento da relação entre ambos não oferece dúvidas: “o entendimento ruiu e a confiança quebrou-se com o veto do presidente ao estatuto político-administrativo dos Açores há um ano”. Mas também, relembra Cardoso Rosas, “porque foi nessa altura que Manuela Ferreira Leite assumiu a liderança do PSD. Teria sido fácil a Cavaco manter a sua promessa de cooperação se os líderes do PSD continuassem a não lhe agradar”.

A um ano das eleições presidenciais e três meses depois de ter sido eleito um governo de minoria relativa, “a chave tem pouco a ver com a incontinência verbal a que temos assistido”, torna Viriato Soromenho Marques. “O país precisaria de uma liderança política forte e na qual confiasse. Isso não só não acontece, como temos os dois principais órgãos de soberania fragilizados, com défices de popularidade e entregues a declarações infelizes, nas quais a melhor defesa é o ataque”.

“Nenhum fica bem na fotografia”, corrobora João Cardoso Rosas, sem disfarçar a “surpresa” pelo caminho seguido por Cavaco. “Esperava dele uma intervenção de fundo sobre o futuro do país e não a permanente tentativa de imiscuir-se na esfera do governo”. E acrescenta: “Sem alternativa que justifique dissolver a Assembleia e convocar eleições antecipadas, resta saber qual será a plataforma em que irá basear-se a recandidatura de Cavaco. Repetirá a promessa da cooperação estratégica?”

She's screaming, and I'm her only witness

[Olivia Bee]

O amor é um sanatório. Este amor é um sanatório. Ninguém vai ter alta. Se um fugir, salvam-se os dois. Mas ninguém foge. A que distância vive um conto de fadas de um filme de terror?!

sábado, dezembro 19, 2009

As sete vidas de Santana Lopes


É difícil perceber que característica melhor o define: se a resistência das pilhas Duracell, recarregáveis e mais duradouras que as outras, se a sensibilidade de menino guerreiro, que "precisa de um descanso, de um remanso, de um sonho". A verdade é que Pedro Santana Lopes, 53 anos, já foi deputado, eurodeputado, secretário de Estado, presidente de câmara, líder do PSD e até primeiro-ministro. E o cardápio de cargos poderia ser mais virtuoso se a todos eles não estivesse igualmente associada uma derrota ou uma desistência, que Pedro amua com facilidade.

Quem não se lembra da declaração pública que fez em 1998 a anunciar a desistência da vida política depois de ter ficado inconsolável com uma caricatura feita pelo Big Show Sic? Amuou, mas depois candidatou-se à Câmara de Lisboa. Ou, mais recentemente, de ter abandonado os estúdios da Sic Notícias, irritado por Ana Louranço ter interrompido a entrevista para mostrar em directo a chegada a Portugal de José Mourinho? Também travou guerras com Cavaco Silva em 1994, abandonando o Governo social-democrata. E nos congressos do partido garantiu sempre palco - o seu discurso é invariavelmente um dos mais aguardados -, mas nunca vitórias. Depois, a irritação passa-lhe e ele volta. Sempre. Com ambição renovada, que não há derrota que o faça eclipsar-se. Mesmo se já perdeu demasiadas vezes: dentro e fora do PSD. Foi fácil acreditar quando disse: "Vou andar por aí". É mais difícil acreditar quando agora garante: "Se sair do PSD, não voltarei." Pedro pode falhar, mas nunca deixa de tentar. Se o céu é o limite, só ele saberá.

Santana Lopes volta a dividir o PSD


Pedro Santana Lopes, que nos últimos anos perdeu o "país", a Câmara de Lisboa e a liderança do PSD, voltou para anunciar que quer tirar o partido do torpor com um congresso extraordinário antes das directas. Pelo PSD ou para recuperar o poder?

Se a ideia era congregar o partido em torno de uma proposta conciliadora e capaz de fazer ressuscitar o PSD como alternativa de Governo, o resultado foi contraproducente. A convocatória do congresso extraordinário, anunciada anteontem por Pedro Santana Lopes (PSL) no semanário Sol, já está a dividir militantes e dirigentes. Curiosamente, Manuela Ferreira Leite concordou com a ideia. "É um belíssimo momento para um debate muitíssimo importante antes das eleições directas". Só que a posição da líder do PSD, que teve conhecimento prévio do artigo por iniciativa do próprio Santana, longe de levar a que outros a sigam, acentuou a estranheza.

"O partido não precisa de um congresso extraordinário, precisa de eleições ordinárias", afirmou ao JN Ângelo Correia, antigo dirigente do partido, impaciente com o protelar constante da sucessão da liderança do PSD. "Não se justifica adiar por mais tempo a escolha de um líder que dê ao partido o rumo que ele perdeu".

O líder parlamentar, Aguiar-Branco, não irá subscrever a convocação do congresso, mas não vê nisso "um problema", desde que seja a vontade dos militantes. Já Deus Pinheiro, figura história do PSD, acha "a ideia excelente numa altura em que é tão importante discutir o partido e o país".

Ângelo Correia não podia estar mais em desacordo. O congresso, a realizar-se, será uma perda de tempo. "Juntar 500 pessoas num congresso a discutir o partido é diferente de juntar 50 mil militantes a votar numas eleições. Há uma escala democrática que se preserva e defende nas eleições." De resto, sustenta, "se é necessário eleger delegados para o congresso, porque não fazer já eleições?" O antigo dirigente vai mesmo mais longe. "A proposta de PSL é uma manobra suspeita, paralisante e frustrante das expectativas do partido. O Congresso só vai alimentar a confusão", prevê.

Deus Pinheiro está outra vez do outro lado. "É a ausência e não a discussão de ideias que cria confusão. A estabilidade do partido resultará de um debate em que sejam revistas as nossas posições".

Se a possibilidade de congresso está longe de gerar consenso, já a hipótese de PSL regressar à liderança do partido não oferece à mais pequena dúvida: aparentemente, a rejeição é transversal.

Miguel Relvas, deputado do PSD, que também não encontra utilidade no congresso - "A urgência que tantos parecem ter no congresso é oposta à calma com que adiam as eleições, e isso é estranho", disse -, recusa a ideia de que PSL possa ver nesta estratégia um caminho de regresso ao poder. "Os protagonistas do futuro não podem ser os mesmos do passado". Cita Pedro Passos Coelho numa entrevista que deu recentemente ao JN: "O PSD tem de emancipar-se dos velhos do Restelo". Nesse aspecto, até Deus Pinheiro está de acordo. " Não julgo que seja essa a ideia de PSL, mas se for, desaconselhou-o vivamente. O PSD precisa de alguém disponível, com sangue na guelra".

Para já, a lenha que PSL veio atirar para a fogueira do PSD serviu apenas para deixar ainda mais claro que não se sabe quem está do lado de quem. A ironia de Luís Filipe Menezes é um bom exemplo. "Fui líder do partido durante quase um ano e agora ia tentar resolver em 24 horas aquilo que não fui capaz de resolver num ano?!"

quarta-feira, dezembro 16, 2009

Possession & Poison

[Olívia Bee]

Só sabias amar o que era teu. Só conseguias salvar o que podias guardar. Por uma vez, o amor não é capital acumulado. Amas o que vais perder amanhã.

segunda-feira, dezembro 14, 2009

Paraíso Perdido no TNSJ

Hoje, no Teatro Nacional São João, entre as 20 horas e a uma hora da madrugada, oportunidade imperdível para experimentar a leitura integral do texto «Paraíso Perdido», obra poética do século XVII, escrita por John Milton, originalmente publicada em 1667 em dez cantos. O poema descreve a história cristã da "queda do homem", através da tentação de Adão e Eva por Satanás e a sua expulsão do Jardim do Éden. Com direcção de Nuno Carinhas e Daniel Jonas. É possível entrar, sair e voltar a entrar.


"(...)Lembrem-se os homens que benigno o Eterno
Os aditou por tão feliz aliança.
Noites, dias, sazões, anos e séc’los,
Hão de seguir seus turnos té que o fogo
Abrase e purifique este Universo.
Então mais puro o Céu, mais puro o globo,
Serão de justos a morada eterna.”

domingo, dezembro 13, 2009

"A maior distância entre dois lugares é o tempo"

É infalível: Nuno Cardoso nunca desilude. Mesmo quando depois de tantas encenações perfeitas, a expectativa não pode estar senão no patamar mais elevado. "Jardim zoológico de cristal", do norte-americano Tennessee Williams, é um texto dos anos 40, a atravessar a Grande Depressão, mas basta conhecer o trabalho do encenador para saber que em algum momento ele havia de conseguir transportar aquela peça para a actualidade. Foi o que aconteceu.

Olha-se para o cenário, ainda inanimado, de Fernando Ribeiro, os actores ainda em pause, e fixamo-nos logo em dois detalhes que hão-de ser a chave para o que virá depois. A peça desenvolve-se toda dentro de uma espécie de aquário ou de montra, cujos vidros estão quebrados: o atalho para memória. E como ela pode ser adulterada com o tempo. Às vezes, para espetar facas; outras vezes, para apaziguar de um presente que está longe de ser o que se imaginou. Lá dentro, uma mesa pequena, cheia de animaizinhos pequenos, frágeis, de cristal. Estão ali a dizer-nos que a sua vulnerabilidade imita apenas, senão mais, a de quem os colecciona. Todos os personagens estão presos num contexto que gostavam de não ter.

Laura é talvez a maior personificação dessa fragilidade (e como Micaela Cardoso - sempre, sempre, sempre incrível! - consegue levar-nos às lágrimas!...). A rapariga superlativamente tímida, no limiar da perturbação, a rapariga inadaptada, que desistiu da escola, do curso de dactilografia, e mais que houvesse para desistir se não se tivesse enclausurado em casa (às vezes na floresta, às vezes nos museus...) a tratar dos seus animais sem vida e dos seus discos riscados. A rapariga que se fosse uma-vezes-mil em vez de ser uma-vezes-uma estaria a receber rapazes em catadupa para escolher aquele com quem deveria casar. Laura tem uma deficiência na perna, é coxa, multiplicou na cabeça essa deficiência por cem, e isso impediu-a de ser. É o fardo da família. Da mãe. É o unicórnio.

A mãe, Amanda Wingfield (eu que quase só tinha visto a Maria do Céu Ribeiro em monógos ou em peças a duas vozes, fiquei siderada) é uma mulher à beira de um ataque de nervos. Abandonada pelo marido há 16 anos, sustentada pelo filho contrariado, aterrorizada com o futuro de uma filha que ameaça não trabalhar nem casar. De vez em quando vai lá atrás, ao passado, à memória, como quem toma uma aspirina para suportar o peso do presente. Ela e os bailes, ela a sua interminável fila de pretendentes, ela e a sua imensa felicidade. Ela a oscilar entre o desespero e a esperança, entre a luta e a desistência. O filho, Tom, homem da casa, sabe-lhe as frases de cor. Evita-as: às histórias repetidas até à exaustão e à mãe. Vai ao cinema (?) todas as noites; todos os dias para a fábrica. É ele o narrador também. E também ele tem as asas cortadas.

Um dia, Tom cede, aceita levar lá a casa um colega da fábrica para conhecer Laura. O colega é, de todos os homens do planeta, o único por quem, um dia, em segredo, no liceu, Laura esteve apaixonada. Jim O'Connor, o rapaz mais popular da escola, tão popular que só por uma terrível rasteira da vida o futuro poderia apresentar-se naquele tão pouco glamouroso presente. Podia ter corrido tudo mal. Correu tudo bem. Mas já era se calhar tarde... "A maior distância entre dois lugares é o tempo".

sexta-feira, dezembro 11, 2009

Finalmente, a crítica justa



Aí está a bela crítica de Luís Maio, no Ípsilon, àquele que é claramente um dos melhores discos deste ano. "Este é um daqueles álbuns desconfortáveis, castigadores, que nos fazem sentir miseráveis, mas que soam tão bonitos, que não conseguimos parar de ouvi-los. Um disco excepcional (...). As coordenadas musicais remetem para a herança do rock oceânico, arty e progressivo, sugerindo comparações que vão desde os Flaming Lips aos Spiritualized, passando por Arcade Fire e Sigur Rós. De facto, não há aqui nada muito original do ponto de vista sónico, mas o que faz de "Hospice" um disco tão avassalador é o abandono de Peter Silberman, a sua entrega profunda e incondicional ao tormento alheio. É a sua voz doce e anémica, mais os teclados sonambólicos que a vão embalando, os crescendos radiosos e os decrescendos terminais das guitarras, os sopros que soam a juízo final, mais as baterias que recriam o ruído opressivo de asas de helicóptero. É toda uma experiência musical que não apazigua, mas se funde de tal forma com a mortificação que a torna estranhamente fascinante."
LINDO!!!!!!

Manoel de Oliveira: 101 anos!

quinta-feira, dezembro 10, 2009

A bela política nacional

As pessoas irritam-se; os deputados são pessoas; logo os deputados irritam-se. O silogismo não foi usado por Jaime Gama, mas podia muito bem ter sido. Os dirigentes partidários até podem desculpar os deputados que se excedem, mas o país não será tão benevolente.

Há um ano, um estudo liderado por André Freire revelou que a confiança dos portugueses no Parlamento é inferior à média europeia e que oscila de acordo com as suas prestações televisivas. Anteontem, a televisão mostrou precisamente a Comissão de Saúde transformar-se num ringue de boxe semântico com Ricardo Gonçalves do PS e Maria José Nogueira Pinto, agora no PSD, a protagonizarem o mais recente desvario político, inflamado por substantivos disparados como se fossem adjectivos. “Palhaço” foi a designação encontrada pela deputada social-democrata para classificar o comportamento, alegadamente recheado de comentários laterais, do colega socialista.

Ricardo Gonçalves também não será inocente. Já por várias vezes os deputados socialistas foram obrigados a acalmá-lo em plena Assembleia da Republica. Com 52 anos, o professor de filosofia é conhecido pela forma “emotiva” de se expressar. Para Maria José Nogueira Pinto, 57 anos, ex-militante do CDS/PP, é que a troca de insultos terá sido uma estreia.

Tanto a estreia como a reincidência parecem funcionar como atenuantes para Jaime Gama. O presidente da AR procurou desvalorizar o episódio. “Conheço os dois parlamentares que estiveram envolvidos numa troca de palavras mais acesa, sei que são pessoas responsáveis, correctas e que se irão auto-moderar no futuro”. Mas nem o futuro apaga o presente nem o passado é a prova de que o incidente é inédito.

Perfect place for either suicide or a first date

segunda-feira, dezembro 07, 2009

sábado, dezembro 05, 2009

Patrick Watson: Perto do paraíso


Do fim para o início. Já chegámos ao paraíso e Patrick Watson está lá em cima, sete megafones de luz às costas, insondável instrumento, braços no ar, o corpo esguio empoleirado numa cadeira no meio da sala, das pessoas, do riso, feliz "special tea", a evangelizar a centena que ontem à noite esteve no Teatro Sá da Bandeira, no Porto. Aquela sala é um santuário, a cadeira vermelha um altar, Patrick Watson um deus. Ele, mestre, maestro, eleito líder espiritual por duas horas, manda e o público obedece, e todos repetem com ele, todos rendidos, perdidos de riso, embora sem o special tea, todos de braços pendurados no ar: "Just me, the fish and the sea". E a sentença da canção "Man under the sea", retirada do álbum Close to Paradise [2006], repetida durante minutos a fio numa penumbra memorável e mágica, sobe sem pressa de volume até uma espécie de apoteose. Ele está ali para salvar. Naquela sala há uma seita. Não tem nome, talvez nem crença, mas está feliz. O momento é de eucaristia. Porque há ali qualquer coisa que ressuscitou.

Do paraíso para o céu. Há em Patrick Watson, rapaz canadense, idade e barba de Cristo, qualquer coisa de conto de fados, qualquer coisa de corvo branco, de baile de praça francesa, de Amelie Poulain, qualquer coisa de manto celestial, de ironia aguda, de pimenta negra, dizem de cabatet, de experimentalidade, definitivamente. Estava ali para apresentar Wooden Arms, editado em Abril. A maioria queria apenas, ou pelo menos mais o paraíso: The Great Escape a arrepiar, a doer, ele ao piano, véu de bréu integral, o real fim do ruído, a grande saída, o fim de um dia ruim. Podes apenas colocar um sorriso e respirar? Mas o disco novo, longe de parecer estrangeiro, surgiu ali como se sempre tivesse feito parte do outro. Watson ao piano, e ninguém cruza a perna para tocar piano, mas ele cruza, cruza e diz enquanto limpa as chagas com água benta: You open your ears and heart. You put a big bird in a small cage, it will sing you a song.

Do céu para a terra. Ah, se a humanidade soubesse que às vezes a salvação está só à distância de um piano! Patrick Watson toca hoje em Lisboa. No Porto, passou em segredo. Alguém saberá porquê?!

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Luiz Ruffato: Eles eram muitos cavalos


Escusado tentar encaixar "Eles eram muitos cavalos" do brasileiro Luiz Ruffato numa qualquer categoria da literatura. Se fossemos mesmo obrigados a fazê-lo, diríamos apenas que é um longo poema. Ou 68 micro-poemas. Mas com regras próprias. Para ler em voz alta. E em loop. Um livro que desmonta tudo o que sabemos sobre livros e tudo o que não sabemos sobre as entranhas das cidades. Sobretudo, tudo o que nem sequer sabemos que é possível ver. Ou sabemos, mas não temos capacidade para.

Fixar o dia 9 de Maio do ano 2000 em S. Paulo. Era uma terça-feira e o céu estava nublado. E o mundo cabe inteiro dentro desse dia. O pai orgulhoso, o filho que tem um mapa na cabeça e o rapaz desempregado. A velha esbugalhada, avó. O garoto craque em matemática, jesuscristinho. O rato que observa os outros ratos na imundície. A mulher que o marido de pantufas nunca ouve. A vizinhança sempre atenta às discussões alheias. A tia da horta e o índio que dança no asfalto. A mulher que prometeu nunca mais beber e os amantes que poderiam ter sido grandes amigos. A princesa de 16 anos e a outra que é vaca, puta, cadela, desgraçada. O segurança negro espadaúdo e o evangelista à procura da inspiração divina. O McDonalds, claro, o telemóvel, o taxista, e obviamente o paraíso. O velho, cuja neta é boa, mas a adolescência... E isto tudo a velocidade de cruzeiro. Mil e muitos quilómetros/hora dentro da história que cada pessoa é.

É quase tão escusado catalogar "Eles eram muitos cavalos" como procurá-lo. Não há Fnac que nos valha. Encontrei um exemplar em Torres Vedras, na Livraria Livro do Dia, cujo proprietário, também poeta, fez a imensa gentileza de me enviar. De resto, é dele o melhor texto sobre a "experiência a não perder" desta leitura. Escreve ele: "Esta é uma grafia do tempo em que se escreviam cartas, um tempo em que dizer São Paulo, Lisboa ou Maputo, significava aos nossos cérebros uma secretária onde alguém se houvera sentado (...). Imagine-se a experiência de um filme de uma vida a passar-nos diante dos olhos, em fast forward - assim será aquilo por que Luiz Ruffato nos tenta fazer passar, uma leitura onde nenhum copo de água ou garrafa de oxigénio nos poderá aliviar, porque este livro lê-se com a cabeça e não com os olhos, com os movimentos e não com as palavras."

terça-feira, dezembro 01, 2009

A sangue frio

[Nan Goldin]
Subornei a memória para que ela te apagasse de mim antes que eu percebesse que nunca mais virias, nem hoje nem amanhã nem nunca. Antes que soubesse que nunca mais te veria e não soubesse o que fazer com isso. Com a tua colecção de amontoadas ausências, de violentas intermitências, de sucessivos encantos avulso. Os cometas não mentem. Tu eras um. Meu amor. Lembras-te da primeira vez? Da primeira vez que disseste amor colado ao pronome possessivo? Palavras como peças de xadrez. Sem sangue, que é onde se alojam os escrúpulos. Era um jogo, o árbitro nunca chegou, valia tudo. Até queimar. Até romper o tabuleiro. Se eu cair por ti, dás-me a mão? Se eu tivesse caído por ti, sem ti seria o chão.

Subornei a consciência para me vingar. Do arame, do poço da morte, da sala de espelhos. Do algodão doce. Da radioactividade. De ti. Enchi o teu lugar de outros lugares, as tuas palavras de outras palavras, as tuas faltas de presenças outras. Aos predadores só resta morrer ou matar, não é? A sangue frio, mato eu. Falcão peregrino, príncipe das aves de caça. Eras insuportavelmente meu, beijavas-me com trilhos sonoros, levavas-me no sono. Disputavas a manta, esticavas o braço, eu levitava. Explicavas o absurdo com a química. E a improbabilidade do futuro com a ampulheta da partida colocada em cima da mesa do bar de hotel. Não dou a vida, mas dou tudo de mim. Para ti, chega? Não podiam coexistir a luz do sol e o sangue do pescoço. Voo pardo, ocre, rasante. Não chegou.

Subornei o coração. A parte que era tua. Para poderes voltar. Hoje ou amanhã ou depois. Para não te ver quando te vir. Para não te sentir quando te tocar. Para não sangrar quando morderes.