segunda-feira, agosto 22, 2005

Carlos Lopes Pires

"Antidepressivos
aumentam suicídios"

"O aumento da venda de antidepressivos nos últimos anos, em Portugal, tem a ver com a relação entre o Estado e a indústria farmacêutica", acusa Carlos Lopes Pires, psicólogo clínico. Em entrevista ao JN, o docente universitário muniu-se de vários estudos americanos para demonstrar o perigo do uso indiferenciado dessas substâncias. "Os antidepressivos não são inócuos. Já morreram pessoas intoxicadas por tomarem Prozac". O médico alerta ainda para os efeitos desconhecidos de uma medicação que pode induzir à violência, ao suicídio e ao homicídio. "A prescrição de antidepressivos em bebés aumenta 50% o risco de suicídio".
(Entrevista de Helena Teixeira da Silva publicada no Jornal de Notícias a 9 de Abril de 2005)
O aumento de 45% no consumo de antidepressivos verificado nos últimos anos significa que não existe critério de prescrição?
Significa que não há prescrição com base científica. Embora os antidepressivos sejam utilizados na depressão, a verdade é que são a primeira escolha do ponto de vista psiquiátrico para uma vasta gama de situações. Diagnostica-se a depressão com muita facilidade. Pessoas que estão tristes ou a reagir a uma perda ou fracasso, são consideradas deprimidas.

Essas situações devem ser combatidas com medicação?
Não. Estudos epidemiológicos mostram que, em cada 100 pessoas deprimidas, 75% recupera passado três meses sem recurso a qualquer tratamento. Passado nove meses, o número aumenta para 90%.

Se a depressão não é uma doença, é o quê?
É um distúrbio. Quando, no contexto médico, se diz a alguém que a depressão é uma doença, está a dizer-se que existe uma alteração bioquímica no cérebro da pessoa deprimida, e que ela não vai conseguir combatê-la a não ser tomando uma substância que se diz restabelecer esse equilíbrio. Isso é uma falsidade científica. Além disso nunca ter sido provado, existem evidências que mostram que as razões que conduzem as pessoas à depressão são de natureza psicossocial. A depressão é uma resposta saudável aos fracassos da vida. Infelizmente, o uso extensivo de fármacos não permitir à pessoa lidar com as suas dificuldades.

Mas os médicos também cedem à pressão do paciente...
O paciente tem a sua parte de culpa. As pessoas querem resolver os assuntos com rapidez e sem esforço. A tolerância à dor é muito baixa. Estamos na época pós-moderna do hedonismo como fim em si mesmo. Não difere da lógica da tomada de ganzas, heroína ou comprimidos para a cabeça, para dormir, para a ansiedade. É uma espécie de cosmética: tomamos coisas para nos sentirmos bem.

Apesar dos antidepressivos não serem vendidos sem receita médica, é fácil adquiri-los. Não deveria haver uma fiscalização mais apertada?
O aumento da venda de antidepressivos nos últimos dez anos tem a ver com a relação entre o Estado português e a indústria farmacêutica. Primeiro, passaram a ser comparticipados. Depois, foi criada uma portaria que permite a qualquer médico prescrever psicofármacos. Finalmente, o aparecimento dos genéricos permitiu que os antidepressivos passassem a ser produzidos a preços mais baixos. Existem interesses extra saúde e é importante discutir até que ponto a prescrição extensiva destas substâncias não constitui um problema de saúde pública. Os antidepressivos não são substâncias inócuas. Já morreram pessoas intoxicadas por tomarem Prozac.

Mas o Infarmed prevê que a depressão possa representar, em 2020, 5,7% das doenças...
Se é verdade que a depressão está a aumentar, é também verdade que os fármacos propiciam esse aumento. Antes do aparecimento do Prozac, quase se pensava que a depressão não existia. Os cálculos eram de cinco para um milhão. Foi a necessidade de o vender que levou à realização dos estudos de natureza epidemiológica. Percebeu-se aí que a depressão tinha uma prevalência muito maior. Hoje atinge 20%. Em Espanha há estudos que mostram que mais de 30% dos acidentes rodoviários são provocados por ingestão de antidepressivos.

O ano passado foi publicada uma carta aberta da Alliance for Human Research Protection (Aliança para a Protecção da Pesquisa Humana), acusando o Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA de encorajar o uso de antidepressivos nas crianças. Em que circunstâncias é que isso se justifica?
Neste momento, nos EUA existem associações médicas preocupadas com isso, porque se tem observado a prescrição massiva em bebés.

Isso condiciona a vida futura desses indivíduos?
Claro. Por isso é que é tão perigoso considerar a depressão uma doença no sentido biomédico. Os bebés são tratados como ratos nos ensaios clínicos. Nenhum deles diz que está triste porque foi abandonado. Estão deprimidos porque comem ou mexem-se pouco. O potencial das substâncias é avaliado se puser os animais a mexer.

Um estudo da Universidade de S. Petersburgo defende que a prescrição de antidepressivos em crianças aumenta 15% o risco de suicídio...
Nalguns casos, essa demonstração chega mesmo aos 50%. Na Grã-Bretanha e na Alemanha os laboratórios são obrigados a escrever nas caixas que aumenta a probabilidade de suicídio.

Os efeitos secundários são subestimados?
As pessoas e os médicos têm tendência a minimizar a possibilidade de acontecerem coisas. Nos EUA calcula-se que, por ano, dão entrada nos hospitais 180 mil pessoas com episódios psicóticos desencadeados por anti-depressivos. Em Portugal, este tipo de episódio é habitualmente diagnosticado como distúrbio bipolar, porque os antidepressivos, devido à sua capacidade de estimulação, podem provocar três fenómenos: euforia, que é uma alegria sem objecto; hipomania, que é uma alegria ainda mais exagerada, possibilitando uma certa violência; ou mania, uma situação na qual a pessoa não tem qualquer noção das proporções.

Tem consequências tomar antidepressivos pontualmente?
Faz ressacas, e nem sequer provoca efeito. É tudo psicológico. Um antidepressivo precisa de várias semanas para resultar. E, mesmo assim, há um estudo norte-americano recente, que se debruça sobre todos os ensaios clínicos de antidepressivos aprovados nos EUA entre 1987 e 1999, revelando que cerca de 90% do efeito dos antidepressivos é placebo. Os dossiês dos laboratórios nunca são questionados. E se estiverem falseados? Nos EUA, houve um julgamento devido a um suicídio provocado pelo Prozac. Quando o técnico da acusação teve acesso aos dossiês do laboratório, descobriu que um determinado número de pessoas dado como tendo desistido do tratamento, se tinha suicidado. Os familiares confirmaram o falecimento no curso do tratamento.

Quer dizer que há efeitos secundários por demonstrar?
Os antidepressivos nunca foram provados como tendo qualquer efeito antisuicídio. Há situações contrárias: pessoas que estavam deprimidas, começaram a tomar um antidepressivo e surgiram-lhes ideias de suicídio. Contrariamente ao que se pensa, não há medicamentos que tenham sido ensaiados mais do que quatro meses. O Prozac foi aprovado com apenas quatro semanas de ensaio. É uma contradição: o tratamento farmacológico da depressão é de seis meses e um período idêntico de manutenção.

Entre 1998 e 2001 houve 10 incidentes graves com tiroteios em escolas americanas, nos quais morreram 105 pessoas. Metade das crianças que cometeu homicídio estava a ser medicada. Isso pode ilibar um assassino?
Nos países norte-americanos, tem-se constatado que pessoas que começaram a tomar anti-depressivos tornaram-se violentas ao ponto de cometerem homicídios. A discrição dessas pessoas é de alguém que está sob o controle de uma coisa qualquer. E isso pode fazer com que cometam graves delitos. Nesse sentido, pelo menos nos EUA, é uma atenuante e leva as pessoas e pedirem indemnizações aos laboratórios. Provando-se a relação de causa e efeito, a pessoa foi vítima de uma substância relativamente à qual não foi informada.

As fichas clínicas devem ser tornadas públicas ou viola os direitos das crianças?
As escolas devem ser informadas, até porque as crianças aparecem alteradas.Mas só o facto de se equacionar essa questão já quer dizer que as pessoas suspeitam que há qualquer coisa de errado com esta história dos antidepressivos.

Recentemente, um cidadão britânico encabeçou uma campanha para sensibilizar a União Europeia contra o uso de anti-depressivos, revelando que em Inglaterra há 1,2 milhões de dependentes - número superior ao dos viciados em cocaína. Qual das duas substâncias é mais nociva?
A diferença é que os antidepressivos são utilizados no contexto legal do sistema de saúde; a cocaína não. Além disso, existem diferenças no modo de acção. A cocaína tende a ter um efeito mais curto, causa mais ciclos de ressaca. Mas não sabemos o que é que aconteceria se os antidepressivos se tornassem ilegais e a cocaína legal. Porque também há ressaca de antidepressivos. Neste momento, em Inglaterra, na água canalizada, já é detectada a flextina, que é o princípio activo do Prozac. As pessoas consomem tanto, que a água potável já tem a substância. É um ciclo.

O uso dos antidepressivos pode ser também motivado por uma sociedade cada vez mais competitiva?
Estudos realizados nos Estados Unidos, Japão e Alemanha demonstram que a depressão está a aumentar nos jovens, justamente, pela pressão que é exercida sobre eles para terem sucesso. Ao sobrecarregar os filhos de tarefas, os pais acham que os estão a preparar para a guerra que se avizinha. Mas essa guerra pode fazer com que os filhos desistam antes do tempo. As pessoas precisarem de média 19 para entrar na faculdade é um disparate. Significa que são pessoas pouco dotadas: só sabem utilizar a memória. Em termos de qualidades humanas ficam para trás. O que é que uma pessoa sem qualidades humanas faz ao exercer profissões em que isso é essencial?

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