segunda-feira, fevereiro 22, 2016

Gente melancolicamente louca, Teresa Veiga


É um livro para ler entre livros, como são todos os livros de contos. E, apesar da mística que rodeia Teresa Veiga - há mistérios assim em Portugal, como este ou de Ana Teresa Pereira, vá lá compreender-se porquê -, nem todos os contos, onze, são muito bons. Mas alguns são maravilhosos.
Como o de Manuela, uma rapariga de 15 anos, "dividida em duas, que levava a sua dupla existência com a dissimulação de um adulto e a leviandade de uma criança persuadida de que se fechar os olhos ninguém a vê". A rapariga do "tipo solitário" a quem chamariam "excessiva, desconcertante, obcecada e manobradora", se lhes fosse dado conhecer os seus segredos. Tão simples, só sobre o estigma.

Ou o de Natasha-em-fuga escrito por Susana, espécie de jornalista que teima em "renunciar as ideias feitas e ver tudo com os olhos da alma, isto é, um olhar límpido, primordial", e a quem no fim de uma peça se pergunta: "Será que daqui a trinta anos ainda é capaz de escrever coisas como o beijo do sol e o sopro cálido do vento?" Acrescentaria à pergunta "a fornalha do sofrimento" e a dúvida sobre qual das duas é o conto, o que diz muito de quem escreve.

Ou ainda o de Isabela, a rapariga enfermeira e criada da mãe, "sufocada por vinte e sete anos de reclusão e cheia de fome de viver", que após a libertação primeiro se torna "numa heroína à medida dos tempos modernos, com o coração a bater entre as pernas" e a quem depois, com música e literatura, são dadas letais asas de Ícaro.

Só para referir três contos - e todos são sobre mulheres. E não há um único em que o título não faça todo o sentido. Melancolia e loucura, tudo junto.


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