terça-feira, junho 30, 2009

domingo, junho 28, 2009

Inquérito da Pública

Gosto do Miguel Esteves Cardoso. Mesmo. Desde sempre. Por mim, até pode escrever sobre batatas fritas, sobre o tempo ou sobre as unhas dos pés, que irei sempre lê-lo. E não sou especial. O país também deve gostar dele, porque desde que anunciou o regresso, desatou por aí a ser contratado para tudo o que mexe. Quase não há publicação em Portugal, desde o Público à Playboy, em que o homem não escreva. E ainda bem, digo eu.

Gosto do José Diogo Quintela. É, desde sempre, o meu gato fedorendo preferido, apesar de ser de Direita e do Sporting, que ninguém é perfeito. Gosto dele por ser diferente dos outros três gatos (e nada contra os outros), gostava do que escrevia no Público ao domingo, gosto da forma como ele gosta de música, e gosta daquela espécie de timidez, que pouco me importa se é verdadeira ou só fachada.

Não desgosto do Pedro Mexia. Gostava do que escrevia no blogue Estado Civil, gosto dele no Governo Sombra da TSF, não me incomoda, apesar de tudo, vê-lo na Cinemateca, embora já me vá incomodar muito se, como se diz por aí, for a ele a escolha de Manuela Ferreira Leite para o Ministério da Cultura (isto, claro está, se o PSD ganhar as legislativas.)

Adiante. Gostando dos três (mais dos dois primeiros, é certo), acho absolutamente ridículo que os três assinem o inquérito da última página da Pública. Nem o inquério é particularmente bom ou divertido ou picante, nem para aquelas perguntas, sempre as mesmas todas as semanas, são necessárias três cabeças. Muito menos, aquelas três.

Emídio Rangel


"Hoje, claramente, José Sócrates não tem a Comunicação Social do seu lado. É vergastado pela generalidade da Comunicação Social todos os dias."

sexta-feira, junho 26, 2009

Vale mesmo a pena ler

Thriller: Michael Jackson vs Neda Sultan

Lavemo-nos em lágrimas. Sabemos que a cultura Pop está para a nossa sonolência como no Irão para a revolta desesperada. Quando se “chora” Michael Jackson é já o ícone que se perde que é chorado. E o desejo do ícone não é mais do que o desejo da banalidade e da continuidade. Ironia do star-system que devorou – sem que o músico fosse propriamente uma vítima disso – o que os Jackson Five comportavam de ingénua irrisão ao verem na cultura branca um émulo, essa ideia barata (branca e com crédito, rica e obesa) que, pouco anos depois, a própria sociedade do espectáculo total se encarregou de despolitizar.

De um lado, (no Ocidente geográfico) afogamento completo da reivindicação de outra ordem (da coisa política, de outro espaço social), do outro (no Ocidente deslocalizado), esperança de rompimento com a ordem existente; de um lado, adormecimento da potência do existente, do outro, problematização fundamental da existência humana; de um lado, conúbio geral com a ideia que o fim da humanidade é isto: estar com a ordem dominante das coisas (aceitação geral do homem-economizado e do homem-sem-desejo-político), do outro, vontade de recuperar o começo do mundo e do humano o que implica a abolição simbólica e política do velho mundo. De um lado, o reino humano a recuar ao nível sumário do sono, do outro o reino da barbárie a esmagar a revolta.Que questões essenciais são hoje colocadas? Quem prefere o risco da crítica dissidente à hipostasia do lugar-comum?

Os neo-jornalistas que cresceram na cultura pop e não se interrogam da sua habituação, nos próximos dias vão escrever nos seus jornais de referência páginas e páginas sobre a morte do “rei” da Pop. Silogismo semântico da cultura edipiana e psicologicamente “burguesa” do jornalista português? (O que explica que a “crítica” freudiana se conforme à denúncia de hipotéticos abusos da estrela pop a menores e não vislumbre uma crítica possível ao universo de valores da indústria da cultura que nos policia). Sofisticação monárquica da hierarquia da ordem e dos valores dos novos Palma Cavalão? Vazamento dos olhos e da lucidez em nome do deserto de ideias? Escrevam.

Vão falar de uma cultura global, do "homem-criança da cultura pop", apresentarão a prova dessa cultura com uma galeria de capas de jornais de todo o mundo, vão especificar que estribilhos do ícone foram cantados esta noite em Tóquio, Los Angeles ou Arare, serão rigorosos e, arregimentados de estatísticas, disponibilizarão o número certo de chineses e senegaleses que choraram o fenecimento do ícone; com a profundidade a que nos habituaram, vão perfilar a lista de candidatos a apadrinhar a cúpula icónica da sociedade do espectáculo, um ou outro, mais emocional, verterá uma lágrima simbólica pela orfandade do espectro do vazio.

A náusea é sempre insuportável se a experimentamos. Resta-nos saber onde ela pulsa ou o que a faz embotar. E nenhuma cultura global e humana pode crescer sem pensar e distinguir as razões do cortejo de “lágrimas” por Michael Jackson e do quase silêncio das que derramámos pela Neda Sultan.

Os Vadios, 26 de Junho de 2009, Porto

quinta-feira, junho 25, 2009

Michael Jackson: a lenda começa hoje!

Visão em versão montanha russa

Ler a Visão desta semana é uma espécie de voltinha numa montanha russa, com direito a enjoo no final e tudo. Em rescaldo de festarolas dos santos, com carrosseis e palhaçadas afins, nada parece ser mais apropriado. Numa revista que se quer, e bem, plural, nada melhor do que um painel de cronistas em que cada um puxa a brasa para a sua sardinha.

Mário Soares acredita na redenção de Sócrates, que aprendeu a lição com a derrota nas europeias, que quer emendar a mão. Temos a cabeça à esquerda. Pedro Camacho, umas páginas à frente, não engole propriamente Manuela Ferreira Leite, mas também tem dificuldade em engolir o novo Sócrates. A nossa cabeça fica ali a meio caminho. Andamos mais um bocadinho, e Áurea Sampaio dispara contra o novo Sócrates, contra quem critica o novo Sócrates, mas também contra um PSD que, tendo saído de uma vitória nas europeias, perde a cabeça e embarca na palhaçada da moção de censura do CDS-PP sem, no entanto, aceitar dizer se casa ou não com ele caso vença as legislativas. A nossa cabeça começa a ficar tonta. E depois, claro, Ricardo Araújo Pereira, mordaz como sempre, a fazer-nos virar a cabeça à direita.

Enjoados? Sim. Mas não é pela prosa dos colunistas. É porque entre a primeira e a última crónica, há dez páginas (oito para o PSD; duas para o PS) que deveriam ser objectivas e são mais subjectivas do que as próprias crónicas. Manuela Ferreira Leite é emoldurada no título à-la-Obama, "Yes, we can", e como se fosse uma deusa negra vinda dos confins da América para salvar o pequeno Portugal, é levada ao colo pelo texto, aclamada como a salvadora a pátria. Sócrates, o pecador, é embrulhado no título "Espelho meu, espelho meu", e escorrega ali pelo texto como quem recebe a sanção pelas suas faltas, um Cristo contemporâneo levado pelo jornalista à cruz.

terça-feira, junho 09, 2009

E de repente tudo muda!

"O meu lixo continua limpo, como a minha vida continua limpa".
Victor Constâncio. Lindo!

segunda-feira, junho 08, 2009

No rescaldo das eleições

O PSD conseguiu ontem um resultado histórico nas eleições, e não se trata do facto de ter ganho pela primeira vez em 20 anos as Europeias e muito menos de ter ganho ao PS quando as sondagens indicavam o contrário. De todos os partidos que ganharam (o BE ganhou porque triplicou o número de deputados; o PCP ganhou porque teve a maior subida em 15 anos; o CDS-PP ganhou porque provou que as sondagens valem o que valem; o MEP ganhou porque foi o mais votado dos menos votados...) o PSD foi o único que conseguiu perder, ganhando.

Perdeu porque perdeu para a Europa a única figura social democrata que conseguiu capitalizar alguma credibilidade nos últimos tempos. Logo, aquela ideia de que "o PSD recuperou o mítico estatuto de verdadeira alternativa ao PS" é tanga. Perdeu porque quase todos os militantes do partido, ou pelo menos do aparelho, foram contra Manuela Ferreira Leite quando ela, a solo, escolheu Paulo Rangel. Logo, não deixa de ser irónico que tenha sido José Pedro Aguiar Branco, seguido de Rui Rio - os dois principais ofendidos com a escolha -, dois dos primeiros a vir cantar vitória. Perdeu porque com a esperança adquirida à boleia destas eleições de poder vir a constituir governo, o PSD mostrará brevemente o pior da política: barões e baronetes que até aqui andaram eclipsados não tardarão a ajoelhar-se aos pés de Ferreira Leite garantindo que nunca a abandonaram. E é ainda no PSD que está o principal derrotado da noite: Pedro Passos Coelho. Em meia dúzia de horas, o homem que julgava ser o futuro do partido viu-se subitamente emprateleirado no passado sem nunca ter chegado a ser presente.

José Sócrates perdeu. Nada a dizer. Admitiu-o com dignidade. E dignidade não é, ao contrário do que tantos desejavam, fazer um discurso anunciando que vai fazer tudo ao contrário do que até agora apregoou. Isso não seria humidade; seria estupidez. Vital Moreira é demasiado mau. Mau sobretudo porque julga que o país ainda é o país do povo parvo que embandeira em arco quando alguém grita: "Aquilo é uma roubalheira". Apanha que é ladrão! Aliás, a grande conclusão desta noite é que não só o PSD não é alternativa ao PS como o PS não é a alternativa ao PSD. O povo deixou de ser parvo, aprendeu a contar, percebeu que o poder não tem que saltar sempre só entre dois partidos.

O BE ganhou. Nas urnas e não só. Continua a ser o único partido com uma insondável capacidade para descobrir gajas boas: quem é aquela Marisa não sei quê?

PS.: A Sic também perdeu. Passou a semana inteira a anunciar a colecção de repórteres, os cenários, a tecnologia, os comentadores (a estreia de Ricardo Araújo Pereira) e a cereja: as sondagens para as legislativas. Depois, demorou tanto tempo a apresentar os resultados da dita sondagem que acabou por ser comida pela TVI, que também tinha sondagem semelhante: o PS ganha, mas sem maioria. Como se isso não bastasse, quando a Ana Lourenço pede um comentário a António Barreto, o sociólogo mata o que sobra da festa: "A sondagem é inútil, já está desactualizada".