domingo, fevereiro 17, 2008

Dalila Rodrigues na Casa da Música


Nada contra Dalila Rodrigues. Nada contra Guta Moura Guedes. Nada contra quem aceita o que lhe oferecem. Nada contra quem, no fundo, faz pela vida. Ou pelo currículo. Tudo contra quem não sabe o lugar que ocupa. Tudo contra quem convida não importa quem. Tudo contra quem muda regras antes de conhecer as regras. Tudo contra quem trata equipamentos públicos como quintais familiares. Tudo contra quem não sabe por onde anda nem para onde vai. Tudo contra quem tem estado ao volante da Casa da Música, no Porto.

A Casa da Música (quem consegue esquecer o chavão?) seria a casa de todas as músicas. De todos os portuenses, de todos os portugueses, de todos os europeus, de todos os de todo o lado. A Casa da Música faria parar o trânsito. A Casa da Música seria um íman, um pólo, um catalisador. A Casa da Música seria a Casa. Seria a Música. A que está a dar, a que já deu, a portuguesa, a estrangeira, a clássica, a contemporânea, a experimental, a da orquestra, a dos miúdos, a dos graúdos, a dos que sabem tudo, a dos que não sabem nada. A Casa da Música seria.

Seria mas não é. Seria mas não foi. Seria mas dificilmente será. E não me apetecendo neste momento dissertar sobre a qualidade ou diversidade (ou falta delas) da programação, debato-me com uma única dúvida que não para de me indignar, de me martelar a cabeça: por que raio uma casa de música contrata agora – como já contratou antes – alguém ligado às artes plásticas para divulgar o equipamento? O que raio tinha Guta Moura Guedes da Experimenta Design a ver com o projecto – por muita piada que possam ter tido as suas intervenções e instalações e convites que lançou a alguns artistas da praceta? E o que raio tem agora a ver Dalila Rodrigues, doutorada em História da Arte, com passado nas direcções do Museu Grão Vasco (2001 e 2004), e do Museu Nacional de Arte Antiga (2004 e 2007)?

O que sabiam ambas dessa direcção tão pomposa quanto estéril designada de Comunicação, Marketing e Desenvolvimento? Por que raio se a ideia é efectivamente cumprir um papel – desgraçadamente tão necessário – nesta área não contratam precisamente alguém da área? Que marca deixou Guta (e nada contra a senhora, que é adorável)? Que marca deixará Dalila (e nada contra a senhora, que viu a sua popularidade disparar por força da falta da popularidade de Isabel Pires de Lima)? Duas mulheres - curiosamente? ironicamente? - contratadas quando os seus projectos primeiros falharam? Não caberiam ambas melhor em Serralves, por exemplo?

Não se trata de não aceitar que um projecto possa evoluir, nomeadamente da música para as artes plásticas. Mas de não aceitar que haja aposta no acessório antes de ver cumprido o essencial – e o essencial da Casa da Música não são as artes plásticas!!!! De não aceitar que as duas contratações venham da mesma área, mas na área para a qual foram contratadas nada faça alusão à sua área de intervenção. De não aceitar que se contratem pessoas de outras áreas quando não se contratam – muito mais urgentes – assessores ou consultores para a programação.

A continuar assim, e está visto, a Casa da Música nunca passará de um projecto que nunca chegou a ser. Será um edifício – lindo, lindo, lindo, nunca ninguém se cansará de o elogiar - para turistas. De Lisboa ou de longe. Mas, para isso, se calhar, não teria valido a pena gastar cem milhões de euros. Sobretudo, não teria valido a pena tanto sangue, suor e lágrimas.

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