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quarta-feira, agosto 03, 2011

E.

Andávamos sempre de mãos dadas, aos beijinhos, aos abracinhos, aos saltinhos no meio da rua. Espalhávamos magia, mesmo quando estávamos tristes. Escrevíamos longas cartas de amor um ao outro, que entregávamos em mão, e faltávamos às aulas para ficarmos a debater a vida, que haveria de ser obviamente bela. Porque nós, claro, íamos mudar o mundo. Lembras-te? Tínhamos tudo planeado: erradicar os maus, salvar os pobres, enaltecer os bons. Íamos ganhar muito dinheiro para construirmos a Aldeia dos Cogumelos, esse lugar mágico onde os velhinhos sem família rejuvenesceriam ao lado de crianças órfãs que nós iríamos adoptar. Íamos ser muito importantes, mas só o suficiente para podermos ser ouvidos. Parecíamos mais felizes que os outros só porque tínhamos um sonho e acreditávamos mesmo nele. Bebíamos até ser dia, dançávamos como tresloucados (em cima das colunas!!!), arruinávamos a véspera dos exames a jogar matrecos e dardos. E quando o bar fechava, íamos para casa ler um livro qualquer que tínhamos acabado de descobrir e que não podia, não podia mesmo esperar para o dia seguinte. O exame que nos perdoasse. Porque o essencial do que nós queríamos ser e fazer não estava nos apontamentos nem nas aulas nem nas pautas. Em tudo colocávamos diminutivos: lindinha, lindinho, saudadinhas... À sexta-feira, abraçávamo-nos como se a despedida fosse para sempre e não só até domingo. Ao domingo, a festa exagerada do reencontro. Tu mimavas-me tanto! Um exagero! Não éramos namorados, nunca fomos, nunca quisemos sequer ser, nunca foi assunto. Éramos só amigos, amigos de verdade inteira. E os amigos assim como nós sabem que têm de se abraçar, de escrever cartas de amor, de partilhar a vida, de ser capazes de dar a vida. E nós éramos. Tanto! Tínhamos 20 anos, 21, 22, parecíamos miúdos. E talvez os miúdos saibam mais da verdade e da entrega do que nós quando crescemos.

E depois separámo-nos. Crescemos, acho eu. Ou não, não sei. Fomos engolidos pela profissão, por cidades diferentes, pelos namorados, pela distância. Pela ausência. Os primeiros anos foram os mais difíceis. Sobretudo para mim, que tenho um problema crónico de inadaptação. Tu limitaste-te a regressar a casa, aos amigos de infância, à família, ao teu porto seguro. Eu comecei do zero no meio de ninguém, de pessoas que do sonho não sabiam nada, da vontade de mudar o mundo, menos ainda. Não havia uma conversa que me prendesse, uma única. Emudeci, deixei de partilhar o que quer que fosse, quer pela falta de comparência de interlocutores à altura, quer pelo medo de parecer ridícula, quer pela absoluta falta de vontade de deixar entrar quem quer que fosse na minha vida. Tão mimada, tão mal habituada. Chegava a casa e respirava de alívio, de cansaço dos outros. Esqueci-me de mim, acho. E depois, depois de alguns anos a ver-te só uma vez por ano, esqueci-me de nós também. Não deixei de gostar de ti, deixei só de contar contigo.

E um dia arrumei tudo. Cartas, postais, lembranças, bilhetes do cinema, do teatro, dos concertos (inesquecível Coura em 1999), tudo o que me fizesse chorar, tudo o que me prendesse ao passado e me impedisse de viver agora. Arrumei tudo o que me fizesse continuar doentiamente a desejar aquele mundo cheio de pessoas boas, amigos de sangue, família quase, família mesmo, pessoas saudáveis, sonhadoras, sem medo de dizer a um amigo: amo-te, sem medo de serem mal interpretadas, sem falta de tempo para fazer o bem, esses amigos todos que eu tinha tido, e onde te incluis, esses amigos que me fizeram brutalmente feliz durante cinco anos, mas esses amigos que eu já não tinha a não ser no coração. Esses amigos espalhados por todos os cantos do mundo, menos no raio do canto onde tinha acontecido eu ficar a viver. Senti, senti tantas vezes, se tu soubesses, senti que toda a gente tinha crescido menos eu. Que toda a gente sabia como era, menos eu. Passou. Adaptei-me, acho, até para surpresa minha. Sim, fiquei diferente. Como não ficar? O privilégio da bondade dos outros na nossa vida pode ser muito traiçoeiro quando desaparece. O amor não devia ter fronteiras. Não devia haver mais do que uma cidade, mais do que uma aldeia, para as pessoas que gostam verdadeiramente umas das outras. Não devia ser possível perder pessoas de quem se gosta tanto. Ou então, devia haver descontos nos transportes, nos telemóveis... Mudaria alguma coisa? Não sei.

Encontraste cartas minhas com 12 anos, dizes-me agora. E que te confortaram, que te recordaram o que é realmente importante na vida, agora que estás confrontado com uma fase em que não sabes se é a vida que não muda, se és tu. Bem vindo ao clube. Perguntas-me o que falhou. Não sei. Não sei mesmo. Dizes que choraste um bocadinho e que te surpreendeste com o sentido que aquelas palavras ainda fazem. Que te fizeram bem. Se eu tivesse aqui as tuas cartas, ia a correr buscá-las. Mas não tenho e talvez seja melhor assim. Não é no passado que quero reencontrar-te; é no presente. 

sexta-feira, junho 11, 2010

11


No primeiro dia disseste logo que querias morrer. Que nada te prendia, que nada te impediria, que te sentias a mais, que estavas farto. Era Inverno, Dezembro frio, a música alta, sempre a mesma no mesmo pub, os bancos de veludo baixos, quatro joelhos colados e dois ginger ale a dividirem a mesa com o capacete, as luvas, a tralha toda da mota, o teu ouro. Tu querias morrer. Talvez não já, não sei, mas o aviso estava feito. Ameaça velada a ensombrar a conversa, uma dor que não sabias bem de onde vinha, mas que não cabia dentro de ti. Sufocava-te, enlouquecia-te a necessidade de evasão. Um cutelo entre ti e a vida. Eras tão novo e já tão farto. Mas eu era ainda mais nova, que poderia eu saber? Só que tu querias morrer. Porque mo disseste. Logo ali e tantas vezes depois. Nunca duvidei por um segundo. Tu ias morrer. Era o nosso segredo. O primeiro beijo.

Passou o Inverno, um, dois, três, o Verão, três, quatro, cinco, as estações todas tantas vezes e uma tempestade que te despiu, que te desmoralizou, mais ainda, e quase te matou. Meses e meses a pedir-te para não morreres, não já, eu a chorar, tu a rir. Aquele riso que me dizia ao ouvido: tens de estar preparada, tens de estar preparada. Mas eu não estava. Tu estavas à espera que eu crescesse, eu estava à espera que tu esperasses por mim. Eu espero por ti, dizias. Esperávamos os dois como se fosse possível algum dia termos a mesma idade. Para nada daquilo parecer pecado. O amor. E a morte. Os dias inteiros no rio, à varanda, em cima da ponte, em sítios sem nome. Tu do lado de fora da janela a gritar Parabéns no dia do meu aniversário. Tu a desceres a escadas a correr para pegares em mim ao colo no meio da rua. Dias inteiros de mãos dadas, infindáveis noites sem dormir naquele teu abraço apertado. Colecção de segredos que não parava de aumentar. Como o desejo.

Um dia disseste que só ainda não tinhas morrido por minha causa. Porque eu precisava de ti. "Não te posso deixar aqui sozinha", disseste. "Ninguém te entende como eu. Ninguém se entende como nós." Ninguém me entendia como tu. Nós entendíamo-nos. Mesmo. Tanto. Tudo. E ninguém entendia como. Como podia amar-te, e amar-te tanto, se quase todos te odiavam - como se a cega fosse eu e não eles. Como podia defender-te no que todos te atacavam. Como o meu mundo parava quando tu vinhas do nada. E como eu te adivinhava, vinha a tua mota ainda ao longe, tão longe que não era possível ouvir e eu sabia. Como soube no dia em que a ambulância passou que eras tu. Como soube no dia em que o telefone tocou que eras tu a notícia. Mas antes disso, como só tu me fazias rir, como só tu me fazias não ter medo. Como só tu me fazias faltar às aulas durante o dia e fugir de casa a meio da noite. Só para falarmos durante horas e horas. E como tu me protegias, sempre e sempre. "Queres que lhes bata?" Sorrias, despias aquele casaco de pele a pesar toneladas e embrulhavas-me como quem embrulha uma princesa frágil. Ainda que o frágil fosses tu, tu a tremer, tu a disfarçares a ressaca, tu desaustinado nas ruas escuras onde tantas vezes te fui encontrar. Mas tu sorrias, sempre, não te zangavas, sorrias e vinhas. Dizias: "Não podes andar aqui sozinha". E eu respondia: "Não estou sozinha, estou contigo". E ficava tudo bem, eu via-te, sorria, tu sorrias. Era quase fácil esquecer que ainda querias morrer.

Um dia fiz-te um desenho num caderno de uma aula a que não fui. Um desenho a lápis que tu completaste com uma caneta. Escreveste o teu nome, porque o desenho eras tu. Abraçaste-me e perguntaste: "Nunca me vais esquecer, pois não?" Se tu prometeres não morrer, não. Foi o nosso último Verão. Depois, perdemo-nos, primeiro às prestações, depois de vez. Porque eu tinha de sair dali, e tu sabias. Só não sabias que contigo nunca teria conseguido. Alguma vez me terás perdoado? Alguma vez terás entendido o que te disse? E um dia o telefone tocou. A tua testa fria. O último beijo.

Passaram onze anos, hoje. A ausência não é uma imagem desfocada que segue num único sentido, para lá, até desaparecer. A ausência é coisa que vai e volta, às vezes mais desbotada, às vezes mais violenta. A ausência às vezes é tão viva que ainda olho para trás, ainda vou aos mesmos lugares, ainda te ouço rir. E às vezes ainda volto para trás quando tento subir as escadas do sítio onde estás. E ainda sonho contigo, sabes? Mas os sonhos dizem-me sempre a mesma coisa, és tu a falar, dizes que já não estás. E eu queria tanto que estivesses aqui agora. Queria tanto as nossas conversas, o teu abraço, a tua protecção, queres que lhes bata?, queria tanto saber como seria agora que finalmente cresci e não teríamos de esperar mais. E ainda hoje não entendo porque não me ligaste, porque não me chamaste. Se não tivesses ido embora, ainda hoje guardaríamos os segredos um do outro. Eu teria continuado a guardar a tua vontade de morrer se tu não tivesses quebrado a promessa. A promessa de que nunca o farias.

terça-feira, março 30, 2010

A musa


Amas a musa. Ama-la quase desde sempre e vais amá-la dessa forma perdida, rendida, cega, até ao último dia da tua vida. Ama-la, mesmo temendo amá-la mais do que ela a ti, dúvida que carregas, mas que nem sequer te pesa. Ama-la apesar dos desvios, das arestas, das injustiças, das tempestades. Ama-la com um medo terrível que ela te deixe, que ela te troque. Não irias suportar vê-la com outra pessoa. Por isso, vais aguentando, apagando o que corre mal, reconstruindo o caminho, porque sabes que a vida é assim: se não te deixares engolir pelo pesadelo, se o souberes enfrentar, é porque terás estado à altura do sonho. E a vida, acreditas, vai-te compensando por isso, mantendo-te casado.

Inconscientemente, acreditas que o amor se pode reter, rentendo a pessoa que se ama. Porque não saberias o que fazer contigo, ao amor que sentes, se perdesses o alvo desse amor. Porque se o perdesses, ao olhar para trás, sentirias que a tua vida não fez sentido, porque toda a tua vida foi dedicada a essa mulher que te corta a respiração, a mulher do uniforme curtinho, das pernas morenas, dos pés lindíssimos, dos lábios voluptuosos, vermelhos, molhados. E tu amaste tanto, construíste tanto, partilhaste tanto, aguentaste tanto, superaste-te tanto, perdoaste tanto, fizeste filhos lindos, foste tão feliz, viveste tanto, dedicaste-te tanto, acreditaste tanto, amaste tanto... o que irias fazer a isso tudo, não é?

Tu nunca traíste a musa. Nunca! Nem mesmo quando, nos últimos capítulos, acumulaste namoradas ou amantes ou (a)casos ou o que quer que seja que lhes queiras chamar. O teu coração nunca esteve lá, nas outras camas, nos outros (a)braços, o teu coração nunca vacilou. Nem sequer foi tua a ideia do swing nem das ménages nem do resto. Por ti, experimentarias tudo o que há para experimentar, mas apenas com ela, com a tua musa. Descobriste o amor da tua vida aos 15 anos, já passaram mais de 40!, e tu nunca duvidaste. Tiveste a certeza que era ela ainda antes de saberes sequer o que era o desejo, ganhaste-a aos vinte e tal, mas antes disso já lhe dedicavas poemas, canções, e se a musa nunca vacilasse, tu passarias muito provavelmente a tua vida inteira a viver para ela em exclusividade. Sem nunca olhares para o lado, sem nunca provares outro sabor. E a seres tremendamente feliz com isso.

Tu não sabes, ou não queres saber, mas tu não vives com o amor da tua vida. Já não vives. Vives com o amor que sentes pelo amor da tua vida. Parece a mesma coisa, mas é tão diferente. Porque o amor, tu sabes, para ser da vida, não pode ser como o teu parece ser: intermitente, ausente, apagado, silencioso. Olho para ti e vejo-te a olhar para o tecto em vez de te ver olhar para o céu. Olho para ti e vejo-te com um corpo morto no colo, que te recusas a enterrar. Não consegues ser feliz com ele; menos ainda conseguirás ser feliz sem ele.

segunda-feira, outubro 26, 2009

Um lugar ao sol

[Olivia Bee]
Não tinhas medo de morar paredes meias com o cemitério. Desde que me lembro de ti, lembro-me de ti sentado na rede branca presa por cordas às árvores do pátio de tua casa. Ficavas ali a balouçar, também nos sonhos, a rir, virado para as campas. Nunca pareceste uma criança. As coisas que dizias, a forma como as dizias, parecia que tinhas nascido ensinado de coisas que nunca saberíamos aprender. Às vezes, levantavas-te da rede e ias falar com os mortos. Mortos que, antes o serem, nunca conheceste. E lias as dedicatórias. E trocavas a água às flores, mesmo quando eram de plástico. Passeavas pelo recinto vedado a grades de ferro, pisavas aquela terra amarela que se cola à sola dos sapatos mesmo quando está seca, contornavas as pedras de mármore com a alegria de quem viaja por um jardim que não enterra corpos, encerra segredos. Fazias as contas desde a data do falecimento de cada defunto onde estacionavas até ao momento presente. E tentavas encenar o que aquela pessoa faria se ainda fosse viva. Tentavas imaginar de que forma aquela perda havia influenciado a vida dos que ficaram. Quando tropeçavas numa morte muito antiga, mas ainda cheia de flores novas, comovias-te. Quase choravas por uma dor que não conhecias, que não era tua, mas que supunhas que havia de ser grande. Grandemente insuportável. Nunca ninguém sobrevive se não esquecer.

Quando estavas triste, ias para lá, para o cemitério, mais ou menos às claras, mais ou menos às escondidas. Quem poderia entender um rapaz que em vez de jogar futebol como os outros meninos gostava de passear no universo dos mortos? Tu gostavas, mas também não eras capaz de explicar porquê. Achavas que cada morto era uma espécie de anjo pousado nas oliveiras e que cada um deles te conseguia ver e ouvir. E entender. E talvez até proteger.

Quando cresceste, esse teu ritual não mudou muito. A única coisa que mudou foi que passaste a ter as tuas próprias pessoas alojadas em vários cemitérios. Passaste a sentir a dor que antes só imaginavas. Não era muito diferente, dizias. Era só mais epidérmica. Era a tua. Perdeste muita gente em muito pouco tempo. E sentiste muitas vezes saudades dos tempos em que nos teus passeios pelos cemitérios só havia gente que para ti era anónima. Agora, estavam ali a primeira mulher que julgaste amar de verdade, o amigo que não era o melhor mas de quem gostavas como se fosse, os avós todos. E o teu pai. Gente suficiente para teres perdido, se alguma vez o tiveste, o medo de morrer.

Elogiavas o suicídio dia-sim, dia-não. Dizias que o grande bálsamo da vida é a possibilidade da morte. O saber que podias acabar com tudo no momento em que quisesses, no momento em que não fosse capaz de continuar. Mas nunca te suicidaste. Nunca sequer tentaste verdadeiramente. Mas sempre disseste, mesmo quando a frase já não tinha a doçura dramática da adolescência, que havias de ir embora cedo. Dizias como se acreditasses realmente nisso. Não sei se acreditavas. Acho que só dizias isso porque querias que o destino te pregasse uma partida, obrigando-te a morrer velho e decrépito. Não pregou, o destino. A partida.

sexta-feira, setembro 18, 2009

terça-feira, setembro 15, 2009

Regina



[Foto: Olivia Bee]


Tens nome de chocolate, cara de boneca de porcelana e o sorriso mais desarmante que alguma vez conheci. Justificar completamenteSomos as duas ruivas, tu de um ruivo mais claro, quase louro, e ficamos as duas cravejadas de sardas quando apanhamos sol (tu achas piada; eu nem por isso). E, claro, a nossa pele, branca como o papel, permite-nos apanhar facilmente invejáveis escaldões, mesmo quando só nos bronzeamos à sombra. Tu és linda, inacreditavelmente linda, mas adoras fazer de conta que não. E coleccionas piadas negras sobre isso. E sobre o peso. E sobre a altura. E sobre a vida amorosa. Ally McBeal em versão lisboeta. Quase nunca nos tratámos pelo nome; "lindinha" era apelido que dava para as duas. Eu adorava diminutivos; tu deixaste-te levar.

Descontando as idas a Espanha para comprar caramelos, saí pela primeira vez de Portugal contigo: fomos à Áustria, teríamos 18 anos, e tu pudeste finalmente encenar uma Maria von Trapp da Música no Coração, mas com muito mais pinta. Eu encenei uma sinfonia do Mahler, sentada no piano de viagem dele, lembras-te? Fotografámo-nos como um casal de namorados: nos jardins, nas pontes, nos cafés, nos museus. Trocámos flores. Tu já contavas viagens várias, manejavas mapas com uma destreza que ainda hoje sou incapaz de imitar. Despachadíssima em tudo. Eu limitava-me a seguir a tua sombra, feliz, porque sentia que me levavas pela mão. Sentia que me bastava dizer: "Eu estou com ela". E o que eu gostava de mostrar que estava contigo. Na altura, bem tentei convencer-te de que Paris seria o nosso melhor destino, palco de um qualquer encontro anual da juventude que beneficiaria da presença do Papa, e eu queria muito conhecê-lo antes dele morrer. Mas tu, agnóstica fervilhante, trataste logo de encontrar uma alternativa às férias católicas que eu te propusera. Uma alternativa com brinde, eu sei: Taizé. Inesquecível. A verdade é que poderias ter-me proposto a Lua ou o Pólo Norte. Eu iria contigo até ao fim do mundo. Ou só até ao quarteirão do lado. Eu queria era ir contigo.

Conhecemo-nos no equador do percurso académico, a meio. O mesmo curso, mais ou menos as mesmas pessoas. Pelo menos, muitas das que eram importantes para mim eram igualmente importantes para ti. Tu já lá estavas, na Universidade, quando eu cheguei. Somos as duas da mesma fornada, 77, mas tu entraste um ano mais cedo para a escola ou fizeste dois num, já não me lembro. Seja como for, não é surpreendente em ti. Às vezes, dava comigo a pensar que tu sabias tanto, que estavas tão à nossa frente, que não entendia como podias aceitar fazer parte daquele rame-rame.

No ano em que começámos a falar, eu estava adormecida, quase moribunda, com o interruptor da vida desligado. A vida tinha-me subtraído tanto em tão pouco tempo que não sabia como sair dali. Tinha deixado de falar, de rir, de sair. Definitivamente, tinha deixado de ter paciência para ir às aulas. Já tinha feitos TACs e exames vários, já me tinham sido diagnosticadas todas as espécies possíveis de neuroses, já tinha engolido toda a espécie de comprimidos. E nada. Nada parecia ser suficientemente eficaz para me devolver à terra dos vivos. Até que tu, vá lá saber-se porquê, começaste a procurar-me no único sítio onde poderias encontrar-me: em casa. E aparecias sempre com uma alegria, com uma Primavera tão grande dentro de ti, e eu gostava tanto de te ver, de te ter ali, estava tão encantada contigo, que comecei a sorrir só para tu não ires embora. Para poderes gostar de mim. Para não te fartares daquela minha tristeza. E quando dei conta, tinha reaprendido a rir, a sair. A viver. E não há nada que se possa dizer ou fazer por alguém que seja suficientemente grande para agradecer o ter-nos devolvido a capacidade de rir, de viver. De continuar. A não ser talvez jurar amizade eterna. E eu jurei numa das mil e uma cartas que te escrevi e entreguei à mão e por baixo da porta de tua casa. E, mais tarde, por correio, quando regressaste a casa, a Lisboa, com um sotaque que te queixavas de nem ser de lá nem de cá. Altura em que decidiste colocar no nariz um piercing que nunca cheguei a ver.

Mas vejo a Barbie que me ofereceste quando fiz 20 anos. Estavas farta de ouvir as minhas piadas sobre nunca ter tido uma Barbie quando era pequena e quiseste colmatar a falha num gesto que ainda hoje me leva às lágrimas. Foi a minha primeira e obviamente a minha única Barbie. E é a única boneca que guardo, a única que sobreviveu a um Natal em que decidi dar tudo o que tinha coleccionado até aí. Olho para a Barbie e penso que é como é possível termo-nos perdido. Eu tinha um namorado, quase tão ruivo como nós, ou tão louro como tu, que eu amava e tu amavas, mas de formas diferentes. E o amor da amizade, sabíamos as duas, havia de durar mais que o amor dos namorados. Mas tu ameaçavas-me, dizias que se não houvesse casamento, bem podia esquecer os paninhos de cozinha que prometeste bordar como presente. E de seguida, bem podia esquecer-te a ti. Às vezes penso se era a sério o que dizias a brincar. Mas não, não podia ser.

A verdade é que se há dez anos alguém me dissesse que quando o teu filho nascesse, o teu filho a quem, cumprindo uma das tuas teimosias, deste o nome do rapaz que te escreveu a primeira carta de amor, andavas tu na quarta classe; se me dissessem que eu não não estaria lá, ao teu lado, no dia em que foste mãe, eu não acreditaria. Se há dez anos me dissessem que não estaria contigo no dia em que perdeste a tua mãe, a tua mãe que só conheci por telefone, que só iria saber disso muitos meses depois, eu acharia que o mundo estava todo do avesso. Louco. E, no entanto, não estive lá. Não estive lá, nem em nenhum dos momentos que terão sido seguramente os mais importantes da tua vida. Não te vejo há tanto tempo que já nem sei quanto tempo passou.

Ou talvez te tenha visto no Verão do ano passado, no Alentejo. Não sei. Acordei daquele torpor do calor e quando olhei para o lado, a duas ou três toalhas de distância, vi uma rapariga como tu, com o teu sorriso, com a tua forma de falar, de andar, que é andar aos saltinhos, e ao lado uma criança que deveria ter três ou quatro anos a chamar-te mamã. Os dois em direcção à água com uma prancha de body board. Eras tu? Eras, não eras? Sabes o que fiz? Tentei voltar a adormecer pra me esquecer de ti, daquela improbabilidade que me soube a amarga ironia, mas comecei a chorar antes de conseguir adormecer. A chorar de raiva. Pela falta de coragem de ir ter contigo, falta de coragem para te abraçar, para te dizer que não sei por que raio nos perdemos, mas que eu morro de saudades tuas. Quis sair dali. Depressa. E saí. Para fugir de ti. Porque não queria um encontro de circunstância. Como não o quis quando marcaste, através um mail colectivo, um jantar cá em cima. Queria estar sozinha contigo. Sempre fui muito monopolizadora, eu sei. Sempre quis as pessoas só para mim. Sempre te quis só para mim. Tu queixavas-te disso. "O sol não nasce só para ti, lindinha!"

Não penso em ti todos os dias. Não penso em ti sequer todas as semanas. Mas penso em ti infinitamente mais vezes do que aquelas que estarás se calhar disposta a acreditar. E nunca me esqueço, nunca me esqueci durante este tempo todo, do teu aniversário. Há anos em que penso até que seria um bom pretexto para te escrever, para te telefonar. Mas depois falta-me coragem. A mesma que me faltou quando há dois ou três meses soube da tua mãe. Vou dizer o quê? Que gosto muito de ti? Que gostei sempre? E isso serve-te de quê, não é?

Quando surgiu esta coisa do Facebook, inscrevi-me e cliquei logo o teu nome no motor de busca. Mas tu não estavas lá. Chegaste agora, há duas ou três semanas. Adicionei-te meia a medo, meia em histeria. E aguardei um qualquer sinal teu. Como quando me guiavas pelo Tirol com os teus mapas, dizendo-me quando podia passar. Mas tu não deste sinais. Acordava, ligava o computador e ia sempre ver. Nada. Até que hoje comentaste uma das minhas fotografias. Estivemos as duas em Paris em Novembro de 2007, dizes. Era só disso que eu precisava. Do teu sinal. E se bem te conheço, vais odiar que te escreva publicamente quando poderia tê-lo feito simplesmente para ti. Ou pegado num telefone. Mas eu não consigo fazer isso. Não me perguntes porquê. E depois, apetece-me mesmo fazer-te esta declaração pública. De amor. Ou este público acto de contrição.

Eu costumava dizer que tu eras um dos meus cinco dedos da mão, uma das minhas cinco melhores amigas. Sem ti, durante estes anos todos, perdi o indicador. E não imaginas a falta que ele me fez. A falta que tu me fizeste. E fazes.

sábado, setembro 05, 2009

domingo, agosto 30, 2009

À espera do super-homem

A cartada definitiva haveria de ser jogada no último dia, o último de três improváveis dias passados a voar. Literalmente. “Fiz-te uma pergunta mas não precisas responder. O caso é sério, não é?” Retórico, Wayne Coyne, vocalista dos efabulatórios Flaming Lips, acabara de invadir, indiscreto, uma das 20 mil hirtas histórias da oitava edição do Festival de Paredes de Coura, no bucólico Minho, na fronteira do milénio. E sem dó nem piedade, sintetizara-a, aos gritos, esborrachando um coração quase vivo na cara, enquanto a desmascarava: “Digam a quem está à espera de um super-homem que ele ainda não desceu, mas vem. Esta é uma boa altura para ele sair do sol em direcção ao céu”. Prognóstico testemunhado num concerto onde o adjectivo “inesquecível” nunca viria a morrer, apesar da overdose.

(Aviso prévio à navegação: É uma história de amor. E de fadas. De teletubbies e balões. E de estrelas cadentes consumidas a meio da noite como uma droga dura. E de tudo o que fará sempre daquele festival, como haveria ser escrito, “um santuário sem Deus, onde o sagrado sorri à passagem do profano. Um local onde a crença vive em eterna suspensão e onde os devotos sabem que a homilia não dura para sempre”.) Não durou.

A coxa de frango, gordurosa, alarvemente sacudida com mãos de chocolate e dentes alvos, era só uma das inúmeras calorias espalhadas pela mesa de plástico espetada no chão de terra, que a concentração do olhar dele não chegaria a deglutir na antecâmara do concerto. Lentamente, ela aproximou-se como quem pede desculpa por trilhar o soalho crocante de um salão onde decorre uma cerimónia ininterrompível. Avisado pela sombra assustada de um corpo escondido dentro de uma túnica branca, ele apressou-se a empurrar o galináceo de churrasco com um golo de Super Bock e apresentou-se. Ela também. Obrigados a trabalhar juntos no festival, haveriam de confessar mais tarde os inúmeros preconceitos Norte-Sul que hospedavam na mala para disparar à testa um do outro ao menor indício de contrariedade. Embora não tivesse havido contrariedade. Até os Coldplay, vaiados pela multidão, lhes pareceram "ter cumprido à risca o que deles se esperava." O Público foi o único jornal a prever que eles seriam "os novos meninos bonitos da pop-britânica". As 20 mil pessoas que cuspiram garrafas de plástico para o palco haveriam de concordar quatro anos mais tarde.

Alienado, o promotor do evento, parco em estadias, perguntava, esperançado, ainda no primeiro dia, noite: “São namorados, não são?” Tinham 72 horas para se entenderem ou desentenderem. Não tinha que ser para sempre. “Não”, apressaram-se a responder, sintonizados. “O que é esta luz a brilhar à tua volta? Deriva de alguma química? Se é natural é porque alguma coisa dentro de ti terá chegado. O amor é o lugar que tu desenhas.”, insistia Coyne, cúmplice, visionário, afogado em milhares de confetis, erguendo, no meio do absolutamente mágico e pouco conhecido "Soft Bulletin", uma versão de cristal de "Somewhere over the rainbow" de “O feiticeiro de Oz” para atenuar o frio daquela noite.

"Se vocês casarem, eu quero ser o padrinho", sorria o promotor do melhor festival de Verão português. Se eles tivessem casado, ele teria sido o padrinho. Mas o último dia do festival seria apenas o princípio de uma viagem da qual não acreditavam ser possível regressar. A menos que um dia se resignassem e acreditassem que tudo não passara de um sonho. O conto só seria de fadas se fosse para sempre?

Teremos sempre Flaming lips.

quinta-feira, agosto 20, 2009

O passado da tua ausência

Tu eras o rapaz mais bonito da universidade. Soube-o mal te vi. Magro, moreníssimo, os olhos rasgados, cheios de luz, lindo até onde não é possível ser-se. E aparentemente tão alheado de tudo, uma aura de magia, de mistério à tua volta. E cheiravas tão bem. Ninguém cheirava como tu, usavas um perfume que ainda não tinha chegado a Portugal. E esse odor sabe-me sempre a ti, ainda hoje.

Lembro-me da primeira vez que te vi, já passaram quase 15 anos: tu dentro de uma t-shirt laranja, a tua pele a contrastar com a cor do algodão, tu ali sentado, sozinho, naquele degrau do edifício lateral, em frente à cantina ou ao quiosque ou lá o que era aquilo. Irremediável, instantaneamente rendida a ti, quem quer que tu fosses. Mas senti que te perdi logo ali. Porque lembro-me de te procurar, procurar, procurar e nunca saber onde estavas, de que curso eras, de onde vinhas, onde paravas. Nunca-nunca sabia de ti. Até que comecei a tropeçar em ti, aqui e ali. Podia lá imaginar que não era por acaso! Os olhares a cruzarem-se, os olhares a não se desviarem, os olhares a fixarem-se.

Lembro-me da primeira vez que falámos, numa sexta-feira ao fim da tarde, antes de cada um de nós apanhar o autocarro para o fim-de-semana. Não me lembro o que dissemos, mas lembro-me da felicidade desse dia e, claro, do teu cheiro. Não havia telemóveis, nem sms, nem internet, não havia nada para trocar. Um dia, muitos anos depois, comprei um frasco daquele perfume por tua causa. Ainda o tenho, está intacto. É uma espécie de santuário onde estás. Onde está o que ficou de ti. O que ficou de ti para mim.

Lembro-me de estar em tua casa, que era também a casa daquele fulano meio esquisito que tinha um cão enorme e que fazia plantação de cogumelos. Lembro-me do teu quarto. De uma noite inteira. De te dizer que a tua barriga parecia uma tablete de chocolate. E parecia mesmo. E lembro-me das tardes passadas em minha casa a estudar, da tua paciência, da tua bondade comigo. Da tua gargalhada. Podíamos ter ficado ali para sempre. Mas talvez eu ainda não soubesse o que era querer uma coisa para sempre. E um dia foste embora. Sem te despedires. Sem avisar. Nesse dia, perdi-te mesmo. Não sei precisar como ou quando ou de que forma. Nem sei precisar o dia em que dei conta. Talvez não tenha sido logo. Mas quando percebi, inquiri todos os teus amigos vezes e vezes sem conta. Mas ninguém parecia saber muito bem onde estavas. Ou não queriam dizer-me. No fundo, todos achavam que eu tinha sido má contigo. Não sei se fui. Mas talvez por isso, por teres ido embora sem avisar, fiquei sempre com a sensação de que, desde que te conheci, passei a vida inteira a procurar-te. E, às vezes, a procurar-te da forma mais desonesta, que era procurar-te nos outros. Nunca deixei de te procurar, nem mesmo quando não fazia a mais pequena ideia de onde estavas, ou depois, quando já sabia vagamente que tinhas abandonado o curso e o país.

Depois, a minha memória de ti fica mais difusa, dispersa, enevoada. É pouco cronológica, aparece em fragmentos: de cheiro, de voz, de bilhetes, de momentos fugazes.... Associo tanto a ti, desde sempre, a expressão (que nem sequer é uma expressão) "estrela cadente", que parece que não só a inventaste, como inventaste as próprias estrelas cadentes. Se calhar porque fomos sempre apenas isso. Uma estrela cadente. Guardo um bilhete teu onde me falas disso, onde me falas do rasto de um cometa. Passámos um pelo outro a correr. Cruzámo-nos quantas vezes, sabes? A minha memória de ti tem sobretudo a ver com a minha procura de ti. No Insólito, no Deslize, naquele bar ao lado do BA, ou no café da frente, ou no bar no CP2 ou sei lá eu! A minha procura de ti numa altura em que já não era possível encontrar-te. Um dia, numas férias de Natal, decidi escrever uma carta para casa da tua mãe. Imaginava que, mais cedo ou mais tarde, acabarias por lê-la. Não só a leste como me respondeste logo a seguir. Quase não conseguia acreditar que ainda te lembravas de mim. Que te lembravas de tudo. Que tinhas estado sempre lá, ao pé mim, no coração. Fiquei mais feliz do que saberia agora explicar-te. Ficámos amigos, claro. Amigos de verdade.

Mas nunca mais de vi. E se eu te procurei!... Sobretudo nos teus amigos. Sinistro caminho de compensação. Até tropeçar em ti, em 2001, já numa outra cidade, num centro comercial, o mais improvável dos locais para um reencontro. Tu costumavas dizer que eu era "a menina dos cabelos a arder". E naquele dia, por um momento em que tudo me pareceu extraordinariamente estranho e confuso, eu quis poder ser o que nunca fui: a tua menina. Dos cabelos a arder. Ah, mas o tempo... E a certeza, mais clara do que antes, de que nunca soube quem és de verdade. Muito menos tu quem eu sou realmente. E, apesar disso, a certeza infinitamente maior de que vou gostar sempre, sempre, sempre de ti. Sejas tu quem fores. Mesmo. Como quando tinha 17 anos. Como quando te vi pela primeira vez. Como se o tempo tivesse parado aí. Porque definitivamente não é o que sabemos das pessoas que nos faz gostar mais ou menos delas. Sobretudo não é a vida partilhada a par e passo. É o que delas se torna tatuagem, cicatriz, marca inesquecível. Insubstituível.

Voltámos a falar no ano passado. Por telefone. A tua voz igualzinha, aquele teu irresistível sotaque absolutamente igual. Mas nem aí nos vimos. Combinámos um pequeno-almoço, mas eu achava que tu não ias acordar, que não querias acordar. E por isso também eu não acordei. E quando me ligaste a perguntar se eu me tinha esquecido, já era tarde para sair de casa e ir ter contigo. Tu tinhas um comboio ou um avião para apanhar. Um de nós nunca chegaria a tempo. Depois, na noite em que o mundo mudou, nós estávamos lá os dois, os dois no Grand Parq, em Chicago, nós e mais uns largos milhares a aplaudir o Obama, eu sei. Mas não nos vimos. Não tive coragem de te ligar.

E agora tu reapareces assim do nada, a dizer-me que vamos ser vizinhos por um ano, talvez dois ou mais. Mas não vamos. Já não vamos. Ainda não é desta que a minha cidade voltará a ser a tua. Embora eu vá continuar a procurar-te. E a guardar-te. Sempre.