quarta-feira, dezembro 15, 2010

Carlos Pinto Coelho (1944 - 2010)


Um privilégio. Entrevistei-o duas vezes. Comovi-me das duas. Ri-me imenso nas duas. Trocámos depois correspondência sobre a nossa costela transmontana. E sobre cultura. E sobre o seu cerceamento. Carlos Pinto Coelho era todo afecto, todo ausência de distâncias ou salamaleques, simples. Falava a cantar. Amanhã todos dirão que era o maior do mundo. Mas de 2003 até hoje poucos se lembraram disso. Triste país este... Não devia ter acontecido assim...

Entrevista publicada no Jornal de Notícias a 9 de Agosto de 2003


O mais antigo telejornal cultural da Europa deixou de acontecer. À beira de completar dez anos de existência, "Acontece", da autoria de Carlos Pinto Coelho, regressaria depois de amanhã ao ecrã se a Administração da RTP não tivesse, subitamente, ditado o seu fim. Mas na redacção, onde continua a trabalhar a exígua equipa do programa, ninguém parece ter desistido. Riem. É a alegria, explica o jornalista, ao JN, "de quem está triste, mas não abatido.O poder de quem tem a consciência tranquila". De quem há mais de três anos alertou as sucessivas direcções da estação pública para a forma "envelhecida" do programa, e não foi ouvido. A cabeça de Carlos Pinto Coelho fervilha, aos 59 anos, de projectos, de livros que conhecerão nova edição e de livros que estiveram congelados durante décadas. "Sou um homem de luto intenso, mas nunca prolongado".

Esta decisão da RTP vem abortar o desejo que tinha de celebrar as bodas de prata do programa...
Aborta uma coisa mais funda do que isso. Em Janeiro de 2000, escrevi um documento intitulado "Como acontece", em que explicava que o programa era robusto, mas estava envelhecido na forma, tinha prestígio, mas estava obsoleto no discurso televisivo e, ainda que fosse bem aceite, era já insatisfatório. Propus a sua reformulação total: nas áreas, nos conteúdos, no décor, nos genéricos, na forma como os cameramen estavam a trabalhar as peças. O documento repousou nos sucessivos directores e administradores da RTP sem nunca terem feito nada. Houve um di- rector que ainda se entusiasmou com o projecto, mas nunca passou disso. O caminho seria o do programa da Bárbara Guimarães, na SIC: visual despojado, sóbrio, bonito, moderno.

Soube do fim do "Acontece" pela rádio. O director de programas, José Rodrigues dos Santos, já explicou as razões?
Não há guerras, animosidade ou ressentimentos entre nós. É mais uma questão de choque de gerações do que de discordâncias profundas.Nesta crise final do "Acontece", o Zé estava de férias, no Brasil.Não podia ter-se pronunciado publicamente. O que estranhei foi ter ouvido pelo presidente da RTP, na TSF, e não pelo director de programas, não agora, mas no dia 27 de Junho, quando anunciei aos telespectadores que iria voltar.

Em televisão vende mais uma Bárbara Guimarães do que um Carlos Pinto Coelho?
Isso é visível. Em quase todas as televisões da Europa e dos EUA, os telejornais de referência são apresentados por homens e mulheres de cabelos brancos. Em Portugal não há uma única pessoa com mais de 50 anos a apresentar. É um toque de referência civilizacional que existe no Portugal do pós-25 de Abril. A Bárbara é jovem, culta, bonita e elegante. Eu tenho 59 anos, tenho cabelos brancos, sou avô. Mas digo isto sem mágoa, porque o ecrã nunca me fez falta.

O "Acontece" acabou pela polémica espoletada pelo ministro Morais Sarmento, pelo seu pedido de rescisão ou pela "selva da audiometria"?
Julgo que sei porque é que me mataram o "Acontece" tão de repente.Tenho a minha cabeça arrumada, mas não quero afirmá-lo na praça pública, porque não tenho provas. O que eu digo empiricamente é que o meu programa era visto, nas suas quatro emissões, por 250 mil pessoas por dia.

Em termos estritamente pessoais como é que sente a perda do programa?
É uma violência emocional para nós todos. Racionalmente aceito que todos os programas têm um fim. Mas o fim que eu esperava era mais bonito do que este. O "Acontece" nasceu como um filho meu. Diziam que não durava seis semanas, que não havia volume de matéria para alimentar sete minutos. E os anos encarregaram-se de mostrar o contrário. Falta-me agora a saborosa relação com os editores de livros. Entregámos 46 mil livros aos portugueses, com o apoio entusiástico desses editores (comove-se). E havia as distribuidoras de discos, filmes, bai- lado... Tudo eram relações de afectos. Não se pode soprar e dizer: "Acabou, gostei muito deste bocadinho." É uma década da minha vida e da minha gente.Somos humanos. Goste-se ou não de mim, julgando que sou ou não uma vedeta - e aproveito já para dizer que não sou. Respeitem, pelo menos, as pessoas que fizeram daquilo o melhor das suas vidas.

Foi uma espécie de missão apresentar esse programa no país europeu que menos consome livros, jornais, teatro...?
Depois de um inglório período de um ano, em que a RTP me mandou para casa, convidaram-me para editar o 24 horas. Foi um fracasso de audiências. Era o programa certo no horário errado. Foi aí que idealizei o "Acontece", que ganhou os três maiores prémios de jornalismo em Portugal.


Concebe o mesmo programa noutra estação de televisão?
Claro. Nós não cometemos nenhum crime. Não tenho vergonha nenhuma do nome "Acontece". Se puder transplantar o conceito e a obra, a vida e a experiência deste produto jornalístico para outro terreno, transplanto sem margem para dúvidas ou hesitações.


Está disponível, portanto?
Não estou morto nem enterrado. Estou disposto, mais do que disponível, a partir para outros projectos. Agora estou na RTP. É a minha casa há mais de 20 anos e continuo a gostar muito dela, apesar de estar muito triste e amargurado. Não me pergunte se quero mudar de mulher com esta rapidez. Quero viver com ela o máximo de tempo que me deixarem.

Aceitaria dar a cara pelo novo magazine cultural que deverá substituir o "Acontece"?
Que magazine? Com que colaboradores? Com que projecto? Digam-me primeiro qual é o projecto e as condições. Agora preciso que termine este período de luto para saber qual será o meu próximo salto. Aí, quando eu entender o que posso e quero fazer, fá-lo-ei com toda a energia, como no início. Os lutos, para mim, foram sempre rápidos. Mas muito intensos.

O programa passa em 90 emissoras de rádio. Também aí desaparecerá?
Claro que não. O programa de rádio, que chega a Macau e a Timor, tem quatro anos, e é completamente distinto da televisão. É a outra menina dos meus olhos, mas essa está bem, obrigada. Se calhar até vai ficar mais robusta, porque agora tenho mais tempo para ela.

A revista, que nunca chegou a aparecer, também poderá beneficiar desse tempo extraordinário?
Não. Só se justificava pela sinergia. Era a terceira perna do projecto "Acontece". Caía quando caíam as administrações RTP e renascia com as novas para voltar a cair. Nunca arrancou na vida. É muito português. Somos campeões europeus dos projectos metidos na gaveta.


Há uma faixa, a da guerra colonial e do 25 de Abril, que se demitiu da cultura, e não aparece nos espectáculos. Daqui a 20 anos essa ruptura será menos evidente?
Há um rompimento da minha geração com a das minhas filhas. A nova geração não quer os valores de alguns pais que se comprazem a chegar a casa, cansados, e ficam bovinamente sentados no sofá a ver novelas e Big Brothers. Mas daqui a 20 anos continuará a haver ruptura. Tem a ver com a globalização. Se calhar, nessa altura, os países já se transformaram noutras entidades cosmogénicas.

Acredita obviamente que a cultura pode mudar o Mundo...
Sempre foi a cultura a alavanca das mudanças, sobretudo nas rupturas.Os políticos entendem isto, mas têm um período muito curto de sobrevivência. Têm pouco tempo para provar, vencer e recolher os frutos. A cultura, ao contrário, tem o tempo todo da humanidade.Muitas vezes, até depois da morte dos seus criadores.


O próprio "Acontece" possui, nesse sentido, uma galeria de mortos.
Vou revelar-lhe uma coisa: o primeiro programa "Acontece" depois de férias, que deveria ir para o ar depois de amanhã, era exclusivamente dedicado a Augusto Abelaira, que morreu dois dias antes de eu saber que o "Acontece" iria morrer também. Com imagens inéditas.Pedi a uma equipa da RTP para filmar o último encontro que ele teve, em vida, com escritores.

A mania de dizer que a cultura é para as minorias não afasta ainda mais as pessoas?
A cultura é como aquelas mulheres bonitas, atraentes, graciosas e inteligentes, que se apaixonam perdidamente por um homem barrigudo, velho, careca, mas que têm toda a ternura e todo o encanto masculino do mundo, que só ela sabe. E, no entanto, quantos homens belos passam por ela, e ela não olha para eles. Quer só aquele.


O que é um jornalista cultural?
Um jornalista é um jornalista, ponto. Depois, como se fosse uma receita para fazer um herói, segundo o poema de Reinaldo Ferreira, junta uma dose de gosto. É preciso ter dentro um grãozinho que nos faça identificarmo-nos com o objecto do nosso trabalho. E ter uma imensa humildade: não somos gente culta. Somos a ponte entre a gente culta e o leitor. Finalmente, é preciso trabalhar desumanamente.

Nestes dez anos, cruzou três governos e muitos ministros da Cultura.
É verdade. O "Acontece" nasceu e morreu com um Governo PSD, o que é curioso.

Torna-se agora evidente a diferença entre a política cultural de Esquerda e de Direita?
Não. A cultura não é de Esquerda ou de Direita. Há acções de Direita no Governo de Guterres e de Esquerda no Governo de Durão Barroso. O conceito de Esquerda e Direita, infelizmente, esbateu-se ao longo de toda uma geração. Com o Muro de Berlim caíram os referentes de extrema. Tem a ver com a globalização, que é o empobrecimento autêntico para a acção mas não para o pensamento.

Não concorda então com o desinvestimento cultural deste Governo?
Concordo, não só na cultura como praticamente em tudo o que é acção. Este momento governativo português é eminentemente reactivo.Há uma reacção em relação a uma situação deplorável que foi encontrada.

Quer dizer que entende?
Não. O que eu discuto são as prioridades. Naturalmente, a prioridade contabilistica orçamental que agora impera no Governo do meu país não é a que eu consideraria primeiro e mais legítima. Mas eu não sou político. Sou, apenas, um cidadão que não abdica das suas opiniões.

Tem vocação política?
Tenho. Não gostava de a exercer, porque não gosto da vida política.

Perfil
Diz que a cultura lhe apareceu "no leito da mãe Sara", em S. Tomé e Príncipe. Foi ela, professora primária, a responsável pela paixão avassaladora que Carlos Pinto Coelho, 59 anos, jornalista, tem pela literatura. Em Lourenço Marques (agora Maputo, Moçambique) onde viveu parte substancial da juventude, a casa estava toda forrada de livros. Do pai, juiz, quase herdou o curso de Direito, que lecionou em Lisboa, abandonando-o no último ano, depois de ter reprovado na oral de Direito das Sucessões. "O único chumbo da minha vida de estudante", haveria de confessar mais tarde.Começou então a estagiar no "Diário de Notícias". Trabalhou em vários jornais e na televisão. Para completar a volta ao Mundo, falta-lhe apenas a Austrália. É uma vedeta? Ele garante que não.


Confissões
Um livro sobre a televisão portuguesa, chamado "Factos e ficções", está encravado há 20 anos no computador. Entretanto, em Novembro, a ASA reedita, 20 anos depois, o livro de fotografia "A meu ver".A segunda edição, desenhada por Armando Alves, embalada numa caixa de cartão, apresenta 50 textos inéditos de uma nova geração de autores.


"RTP é a única capaz de fazer cultura televisiva"
"Não estou abatido, estou triste. Raivosamente triste. Não me peçam para falar da RTP nos tempos mais próximos. A única coisa que pedi é que deixem a minha equipa unida, que não a chupem para o dia inexorável de uma redacção generalista. Não destruam o capital que a RTP tem, que é a única redacção capaz de fazer cultura televisiva.


"Enorme estima pelo ministro da Cultura"
"Tenho alto apreço e enorme estima pelo actual ministro da Cultura, Pedro Roseta. Quanto mais crucificado é na praça pública pelos seus piores inimigos -que estão dentro do PSD -, mais me apetece dizer e saltar para a rua e dizer que temos, de facto, um homem culto à frente do ministério. Agora, não sei se será bom ministro".

Decore este nome: Olivia Bee



Há um dia em que tropeçamos numa fotografia e temos a sorte de ela estar assinada. Como a imagem teima em não nos abandonar, pesquisamos o nome do autor para perceber se aquela imagem é regra, excepção ou só acaso. E de que imaginário prodigioso ou elaborada realidade provém. E, subitamente, descobrimos um tesouro! Imenso! Foi assim que cheguei a Olivia Bee, há um ano, talvez mais, não sei, não importa. O que importa é que depois de descoberta foi impossível largá-la (como, de resto, prova a esmagadora maioria das fotografias utilizadas desde então neste blogue).
Olívia Bee é uma menina de 16 anos, americana, ruiva, de fisionomia frágil, oscila entre a boneca de trapos e a fada de plumas - e tem uma sensibilidade absolutamente invulgar. Criou um diário fotográfico para documentar a fase da vida que quase todos, quando por lá passámos, quisemos esconder ou esquecer depressa. Olivia Bee transformou a adolescência numa coisa brutalmente poética. É um hino à vida simples.

O aviso que fez à navegação:
Dear everyone,
i'm really sorry if you hate my photos, think i'm depressed or overreacting. i'm a teenager of course i have hormones, i'm going to cry about stupid things, overreact when something minor happens...everything seems like the end of the world when you're 15. these photos are for me, i'm going to express what's going on in my heart this way. i apologize if i was ever rude to you, or if you think that my photos are going downhill. but why should you care if i'm getting worse? these pictures are my memories and my feelings and they are here if you want to view them, but if not that's ok too. i don't know if that completely says what i wanted to say...but thought i'd throw it out there.

by the way...you, if you're reading this which you probably aren't...please don't throw away my paintings. and i miss you but i'll be fine.

E uma entrevista, cheia de contradições, como só a adolescência pode ter. Onde mais, se não na adolescência, poderia misturar-se o suícidio musicado de Elliott Smith com a espuma dos dias da Vogue?

Favorite song to shoot to?
Anything by Van Morrison or Elliott Smith.

What has changed in your photography since you began?
Now, photography is my emotional outlet. My work has also become more candid. Right now I’m all about documenting my teenage years.

What age did you begin, and what sparked your interest in photography?
In 6th grade I took a class by accident, and at first I didn’t love it. But after a while my interest strengthened and last summer it became my emotional outlet and then even more this winter when I was having a hard time dealing with things.

How did you meet your current love interest?
Well, you know we were both in the forest deep at night and all the sudden out of the corner of my eye I see this light-saber and realize that there is a very cute boy attached. Then a bear tried to eat me but he beat it up for me. Love!

Any dangerous situations you’ve been in while photographing?
Standing on my tiptoes and doing ballet poses on the top of cliffs near the edge… going outside when it was 12 degrees in minimal clothing (even without shoes), falling in thorns a lot… being caught by the police when I was in the park far after curfew…

If any fashion magazine were to knock at your door, which would you pray did it first?
Teen Vogue!

Ever traveled out of Portland to shoot? Another country?
Well I’ve traveled out of Portland for other reasons and then shot there. I make do with what I’ve got.

Lens of choice?
Any of the vintage Pentax lenses are pure gold. Olympus used to make gorgeous ones too.

If you could place yourself in the upcoming Spike Jonze movie “Where The Wild things Are”, and could go to any environment and/or scene, from what you’ve seen in the previews or read from the book, where would you go?
I’d definitely go party it up with the monsters.

Ever heard of the Boards Of Canada? Their music reminds me of a certain aesthetic you have; though theirs captures childhood not as it’s lived but as grown-ups remember it, at least those of us with less-than-fond recollections.
I love them.

Last album listened to?
The best of Al Green.

Lastly, when, and if, the world listens to your voice in a larger way than you ever imagined, what will you, through your photographs, want to say?
Everything I say through my photos now. It’s different for almost every one, but the world should be able to make art what they want it to be. People are free to interpret my work as they wish. Art isn’t all about the maker, it’s also about the viewer.

sexta-feira, dezembro 10, 2010

Michael Cunningham


"Em arte, o heróico e o ideal foram eliminados muito antes da tragédia do 11 de Setembro. A pintura, por exemplo, há décadas que se tornou decididamente irónica, desenraizada e não-bela. Tal como a minha personagem Peter Harris pergunto-me se estaremos no melhor dos caminhos para esta espécie de dieta espartana nas artes que proíbe o Belo, o heróico e o ideal. (...) Interessa-me o facto de um belo objecto não ter poder para animar ou consolar. Podem chamar-me antiquado, mas continuo a considerar que uma das finalidades da arte é, não só desafiar-nos, mas ajudar-nos a recordar que a nossa vida merece ser vivida."

[Michael Cunningham, hoje, em entrevista ao Ípsilon, a propósito do livro "Ao cair da Noite"] 

http://www.revistapessoa.com/


Edição Especial Bienal Internacional
do Livro de São Paulo 2010

quinta-feira, dezembro 09, 2010

terça-feira, dezembro 07, 2010

Raining day....


Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.

Herberto Helder



segunda-feira, dezembro 06, 2010

Íntima Fracção

Deste túnel posso, no entanto, sair.
Posso ultrapassar, sem liquidar.
Posso novamente afirmar uma vez, sem o repetir,
pois agora o que afirmo é a afirmação, não a sua contingência.

Afirmo o primeiro encontro na sua diferença,
quero o seu regresso, não a sua repetição.
Digo: recomecemos!
RESTART!

domingo, dezembro 05, 2010

80 anos depois da morte de Raul Brandão


[Há pelo menos dez anos que espero ver Raul Brandão tratado dignamente nas páginas dos jornais. Há quase vinte que o leio obssessivamente. Com uma única dificuldade: encontrar os livros. Muitos dos que ainda tenho foram fotocopiados da Biblioteca, e só a muito custo têm sido substituídos por livros a sério. Mesmo nos alfarrabistas não é fácil. E, de certa forma, isto servirá para justificar o desinteresse dos jornais pelo escritor: se aparentemente ninguém o lê... Mesmo hoje, passam 80 anos sobre a sua morte, não houve ninguém que se lhe dedicasse. O máximo que li, discretamente aqui e ali, foi o anúncio a uma peça de teatro baseada em textos dele, que estreou ou vai estrear em Lisboa. Há uns 15 dias, o Expresso dedicava, e bem, páginas sem fim aos cem anos da morte de Tolstoi. É curioso, porque Brandão é justamente comparado aos escritores russos, sobretudo a Dostoievski. Mas sobre Brandão nem uma linha. Tudo bem. Não sei se toda a gente consegue eleger um escritor preferido, mas Raul Brandão é definitivamente o meu. Orgulhosamente o meu. Desde o primeiro dia que o li, teria 13 ou 14 anos. E de cada vez que volto a ele, parece-me mais actual, mais pertinente, mais profundo. E mais, mais, mais bonito. Por isso, criei um blogue com informação sobre o autor, aqui: http://www.brandaoraul.blogspot.com/.  Ainda está no início, que não tenho tido muito tempo, mas há-de ficar completo. Ou tão completo quanto possível. Espero só que sirva para que Raul Brandão possa ganhar mais leitores, sendo certo que quem realmente ficará a ganhar é quem é o ler.]

Raul Brandão é o poeta da prosa, toda a sua prosa é pura poesia, mesmo se falhou redondamente quando tentou escrever poesia pura. Restou apenas um poema que deve andar por aí perdido algures... Morreu há 80 anos. E ninguém me tira da cabeça que deveria ser leitura obrigatória na escola.

Quando era pequeno, Raul Brandão tinha se si próprio a imagem "de um ser extasiado que abria os olhos atónitos para o mundo, todo frenesim e paixão." A extensa obra que publicou é toda reflexo disso, como se nunca ao longo da vida tivesse conseguido deter o espanto e caísse sempre nas mesmas armadilhas, recusando aprender qualquer tipo de lição que porventura o tornasse menos vulnerável. Os livros estão cheios de sábios e de desgraçados, de pobres de pão e de pobres de espírito. De loucos e de sonhadores. O sonhador é o seu alter ego, sempre. É o homem que se fecha no sonho porque não entende a vida, não se adapta. Diz ele n'A Morte do Palhaço: "Da existência ficara-lhe o olhar desvairado, para dentro, de quem segue na alma um sonho e anda na vida por acaso, o olhar daqueles em quem a vida interior é enorme e que ficam surpreendidos quando a dor lhes diz que o mundo existe." Daí que muitos digam que a quem quiser conhecer a vida do autor bastará ler a sua obra, toda ela uma não assumida autobiografia espiritual. Ocupa-se de três temas essenciais: Deus, a Morte e o sentido (absurdo?) da Vida. Aos 50 anos, concluiria: "A que se reduz afinal a vida? A um momento de ternura e mais nada."

Foi o conselho recebido um dia, em Lisboa, por um anarquista, que determinaria o denominador comum de tudo o que produziu: "Se quer ser um escritor, fale dos pobres." Brandão fala sempre dos pobres. Mesmo se ele não era um pobre, em nenhum dos vastos sentidos que lhe dá, conhecia-os por dentro com rara ciência. E inquietava-se tanto com a dor dos outros como com a sua condição de privilégio. Os Pobres e A Farsa são dois livros fundamentais para o perceber. Com Húmus, um longo monólogo sobre as contradições que implicam aderir ou rejeitar um sistema, por muitos muito mais tarde considerado a sua obra-prima, completa uma espécie de trilogia. Na obra inteira, e como ninguém, Brandão criou personagens inesquecíveis: K. Maurício logo à cabeça (há quem diga que é equivalente ao Werther de Goethe), o Pita, o Gebo, a mulher do Gebo, a Mouca, a Candidinha, o Gabiru (alter ego confessado), o Astrónomo, a Velha, as prostitutas... Tudo gente complexa, humilde, descalça, que ou sofre ou se vinga da vida no sonho.

RB padeceu sempre da falta de leitores, já na altura isso era assunto, o que fez com que nunca confiasse verdadeiramento no valor do que escrevia. Só Guerra Junqueiro, que assina uma absolutamente magnífica carta-prefácio em Os Pobres, cedo arriscou dizer que estariamos diante de "um grande visionário, quase desconhecido e genial". A verdade é que muito perto da morte - morreu aos 63 anos -, Brandão continuava ainda a esperar caução dos amigos para o que publicava. Só com Os Pescadores conseguiu sucesso imediato, o que não deixa de ser curioso. Pessoalmente, é talvez o livro de que gosto menos, mesmo se ainda assim muito. Mas foi com esse livro que conseguiu ganhar a atenção dos jornalistas e dos críticos, classe a que de resto pertencia, e deixar de ser totalmente ignorado. Foi aí que as suas obras, até então de parcas tiragens, começaram a ser reeditadas. E foi a partir daí que conseguiu dedicar-se ao teatro, a sua grande paixão.  O pobre de pedir, outra vez romance, outra vez feito de diálogos interiores, foi o seu último livro, publicado postumamente.

sábado, dezembro 04, 2010

Lobotomia VI

Continuava a amá-lo por uma única razão: não podia não o amar.

sexta-feira, dezembro 03, 2010

Para quem não viu...




...vai sempre a tempo de ver. A Sic Notícias repetiu ontem o Plano Inclinado de 13 de Junho de 2010, uma espécie de homenagem a Ernâni Lopes (1942-2010). São biliões de lições em 50 minutos. Para ver e rever. E rever outra vez.

Lobotomia V

Talvez pudesse esquecê-lo, se quisesse, se tentasse, talvez conseguisse, talvez, quem sabe?, nunca tentou, precisava de uma boa razão para isso, e não a tinha.

MEC forever


O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um minuto de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.

quinta-feira, dezembro 02, 2010

O maravilhoso mundo das borboletas

[Pablo Neruda]
[Butterfly egg]
 [National Geographic]

As borboletas podem voar até 20 quilómetros por hora. Tocá-las é impedi-las de voar, de viver. E muitas só vivem 24 horas. Menos podem viver seis semanas. Raríssimas morrem ao fim de oito meses. Um milagre. Dos mais belos e misteriosos da natureza.

quarta-feira, dezembro 01, 2010

Funeral Blues


Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead.
Put crepe bows round the white necks of public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West.
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever; I was wrong.

The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood;
For nothing now can ever come to any good.

W. H. Auden
(1907-1973)



No lugar de um epílogo

[Floriane de Lassée]

Vinte e um. Noite. Segunda-feira. A silhueta da cidade na neblina. Algum desocupado inventou essa história de que há amor no mundo.

E por preguiça ou por tédio, todos acreditaram nele e assim viveram: esperando encontros, temendo rupturas e cantando canções de amor. Mas a outros será revelado o segredo e sobre estes recairá o silêncio...

Eu tropecei nele casualmente e, desde então, sinto-me como se estivesse doente.

Anna Akhmátova
[23 de Junho de 1889 - 5 Março 1966]

terça-feira, novembro 30, 2010

Jean Baudrillard: À sombra das maiorias silenciosas


Bombardeadas de estímulos, mensagens e testes, as massas não são mais do que um jazigo opaco, cego, como os amontoados de gases estelares que só são conhecidos através da análise do seu espectro luminoso - espectro de radiações equivalente às estatísticas e às sondagens. Mais exactamente: já não se trata de expressão ou de representação, mas somente de simulação de um social para sempre inexprimível e inexprimido. Esse é o sentido do seu silêncio. Mas esse silêncio é paradoxal - não é um silêncio que fala, é um silêncio que proíbe que se fale em seu nome. E, nesse sentido, longe de ser uma forma de alienação, é uma arma absoluta.

Ninguém pode dizer que representa a maioria silenciosa, e esta é sua vingança. As massas deixaram de ser uma instância à qual se possa referir como outrora se referia à classe ou ao povo. Isoladas no seu silêncio, deixaram de ser sujeito, não podendo, portanto, ser faladas, articuladas, representadas, nem passar pelo “estágio do espelho” político e pelo ciclo das identificações imaginárias. Percebe-se que poder resulta disso: não sendo sujeito, elas não podem ser alienadas - nem na sua própria linguagem (elas não têm uma), nem em alguma outra que pretendesse falar por elas. Fim das esperanças revolucionárias. Porque estas sempre especularam sobre a possibilidade de as massas, como da classe proletária, se negarem enquanto tais. Mas a massa não é um lugar de negatividade nem de explosão, é um lugar de absorção e de implosão.

(...) Durante muito tempo, a estratégia do poder parecia basear-se na apatia das massas. Quanto mais elas eram passivas, mais ele estava seguro. Mas essa lógica só é característica da fase burocrática e centralista do poder. E é ela que hoje se volta contra ele: a inércia que fomentou tornou-se o signo de sua própria morte. É por isso que o poder procura inverter as estratégias: da passividade à participação, do silêncio à palavra. Mas é muito tarde. O limite da “massa crítica”, o da involução do social por inércia, foi transposto.

segunda-feira, novembro 29, 2010

Paul Krugman: The Spanish Prisoner

The best thing about the Irish right now is that there are so few of them. By itself, Ireland can’t do all that much damage to Europe’s prospects. The same can be said of Greece and of Portugal, which is widely regarded as the next potential domino. But then there’s Spain. The others are tapas; Spain is the main course.

What’s striking about Spain, from an American perspective, is how much its economic story resembles our own. Like America, Spain experienced a huge property bubble, accompanied by a huge rise in private-sector debt. Like America, Spain fell into recession when that bubble burst, and has experienced a surge in unemployment. And like America, Spain has seen its budget deficit balloon thanks to plunging revenues and recession-related costs. But unlike America, Spain is on the edge of a debt crisis. The U.S. government is having no trouble financing its deficit, with interest rates on long-term federal debt under 3 percent. Spain, by contrast, has seen its borrowing cost shoot up in recent weeks, reflecting growing fears of a possible future default.

Why is Spain in so much trouble? In a word, it’s the euro.

Spain was among the most enthusiastic adopters of the euro back in 1999, when the currency was introduced. And for a while things seemed to go swimmingly: European funds poured into Spain, powering private-sector spending, and the Spanish economy experienced rapid growth.

Through the good years, by the way, the Spanish government appeared to be a model of both fiscal and financial responsibility: unlike Greece, it ran budget surpluses, and unlike Ireland, it tried hard (though with only partial success) to regulate its banks. At the end of 2007 Spain’s public debt, as a share of the economy, was only about half as high as Germany’s, and even now its banks are in nowhere near as bad shape as Ireland’s. But problems were developing under the surface. During the boom, prices and wages rose more rapidly in Spain than in the rest of Europe, helping to feed a large trade deficit. And when the bubble burst, Spanish industry was left with costs that made it uncompetitive with other nations.

Now what? If Spain still had its own currency, like the United States — or like Britain, which shares some of the same characteristics — it could have let that currency fall, making its industry competitive again. But with Spain on the euro, that option isn’t available. Instead, Spain must achieve “internal devaluation”: it must cut wages and prices until its costs are back in line with its neighbors.

And internal devaluation is an ugly affair. For one thing, it’s slow: it normally take years of high unemployment to push wages down. Beyond that, falling wages mean falling incomes, while debt stays the same. So internal devaluation worsens the private sector’s debt problems.

What all this means for Spain is very poor economic prospects over the next few years. America’s recovery has been disappointing, especially in terms of jobs — but at least we’ve seen some growth, with real G.D.P. more or less back to its pre-crisis peak, and we can reasonably expect future growth to help bring our deficit under control. Spain, on the other hand, hasn’t recovered at all. And the lack of recovery translates into fears about Spain’s fiscal future.

Should Spain try to break out of this trap by leaving the euro, and re-establishing its own currency? Will it? The answer to both questions is, probably not. Spain would be better off now if it had never adopted the euro — but trying to leave would create a huge banking crisis, as depositors raced to move their money elsewhere. Unless there’s a catastrophic bank crisis anyway — which seems plausible for Greece and increasingly possible in Ireland, but unlikely though not impossible for Spain — it’s hard to see any Spanish government taking the risk of “de-euroizing.”

So Spain is in effect a prisoner of the euro, leaving it with no good options.

The good news about America is that we aren’t in that kind of trap: we still have our own currency, with all the flexibility that implies. By the way, so does Britain, whose deficits and debt are comparable to Spain’s, but which investors don’t see as a default risk.

The bad news about America is that a powerful political faction is trying to shackle the Federal Reserve, in effect removing the one big advantage we have over the suffering Spaniards. Republican attacks on the Fed — demands that it stop trying to promote economic recovery and focus instead on keeping the dollar strong and fighting the imaginary risks of inflation — amount to a demand that we voluntarily put ourselves in the Spanish prison. Let’s hope that the Fed doesn’t listen. Things in America are bad, but they could be much worse. And if the hard-money faction gets its way, they will be.

sábado, novembro 27, 2010

Yasunary Kawabata: A beleza e a tristeza


O que eram as memórias? Qual era o passado de que se lembrava tão claramente? Quando Otoko se mudara para Quioto com a mãe, Oki teve a certeza de que se tinham separado. Mas teriam mesmo? Ele não conseguia fugir à dor de lhe ter arruinado a vida, de possivelmente lhe ter roubado todas as suas hipóteses de felicidade. Mas o que é que ela pensara a seu respeito, ao passar todos aqueles anos sozinha? A Otoko das suas recordações era a mulher mais apaixonada que ele alguma vez conhecera. E mesmo agora, a nitidez dessas memórias não significava que ela nunca se separara dele? (...)Oki sabia que aquilo que ela sentira por ele fora o amor desesperado de uma menina. Também ele avançara para outras mulheres. Mas nunca mais voltara a amar com tanta dor.

(...) - No fundo do teu coração, ainda estás apaixonada por ele. E ele também te mantém escondida no fundo do seu coração. (...) Mas não vale a pena pensares no senhor Oki. Esperares pelo senhor Oki é como esperares pelo passado. O tempo e o rio não fluem para trás.
- És mais do que aquilo que mereço. É um amor que nunca sonhei encontrar. Vale a pena morrer por uma felicidade como esta.
Mesmo agora, as palavras de Oki não lhe tinham desaparecido da memoria. Talvez os antigos amantes já não existissem, mas por entre a sua tristeza, Otoko tinha a consolação nostálgica de que o amor de ambos fora para sempre imortalizado numa obra de arte.

(...) Um dia, ao escrever uma carta, aconteceu que Otoko abriu o dicionário no caracter para "pensar". Ao ler os outros significados ("anseio por", "ser incapaz de esquecer", "estar triste"), sentiu o peito a apertar-se. Tinha receio de tocar no dicionário - até ali encontrara Oki. Inúmeras palavras faziam-na recordar-se dele. Associar tudo o que via e ouvia com o seu amor era o mesmo que estar viva. A consciência que tinha do próprio corpo era inseparável da memória do seu abraço.

sexta-feira, novembro 26, 2010

Nuno Cardoso encena Eugene O'Neill



Tiago Bartolomeu Costa
No Ípsilon

Se Eugene O'Neill (1888-1953) fosse um rio, "era um rio largo, aparentemente plácido, com correntes subterrâneas e absolutamente mortal, com uma fúria muito grande". Quem assim descreve o dramaturgo norte-americano é Nuno Cardoso, que amanhã, no Auditório Municipal de Vila Nova de Gaia, estreia "Jornada para a Noite", peça escrita em 1941 e estreada em Portugal pelo Teatro Experimental do Porto, em 1958, numa mítica encenação de António Pedro, apenas dois anos passados da sua primeira apresentação nos EUA.

A nova "Jornada para a Noite" de Nuno Cardoso é só o início de uma fúria Eugene O'Neill nos palcos portugueses: no espaço de um mês, haverá três estreias, correspondendo a quatro peças do dramaturgo norte-americano. Já na próxima semana, em Almada, com estreia a 25 e carreira até 19 de Dezembro, Joaquim Benite regressa a "Hughie" (1941) e a "Antes do pequeno-almoço" (1916), depois de em 1984 já as ter apresentado também em conjunto. E, também em Almada, mas a partir de 1 de Dezembro, Rogério de Carvalho - que em 2009 encenou "Jornada para Noite" - estreia "O Luto Vai Bem com Electra", a sua versão de "Mourning Becomes Electra" (1931), tríptico inspirado na "Oresteia" de Ésquilo, que Cardoso pensava encenar daqui a uns anos.

Joaquim Benite afirma que a influência de O'Neill, Prémio Nobel da Literatura em 1936, se sente em toda a dramaturgia norte-americana, "de tendência autobiográfica", onde "a experiência de transformação e criação da sociedade é individual", num contraponto à tradição europeia. Essa influência, "sente-se em Arthur Miller e em Tennessee Williams". Mas para Benite, embora fazendo parte da grande família do realismo teatral a que pertencem Ibsen, Strindberg e Tchéckhov, o teatro de O'Neill aproxima-se, por vezes, do "realismo poético" de Lorca. Já Nuno Cardoso diz que o tempo teatral das peças de O'Neill "acompanha o tempo da acção", nomeadamente em "Jornada...", onde "cria uma hipérbole sobre a família que pode existir ao nosso lado".

Segundo Rogério de Carvalho, que já experimentou ambas, a diferença entre "Jornada..." e "Electra" joga-se na relação com o exterior. "'Jornada...' é mais concentracionária", ao passo que em 'Electra' "as personagens "vivem sufocadas pelo passado, e pelos mortos, não se conseguindo libertar da culpa e dos estigmas".  O'Neill "é avassalador", diz Cardoso", e "isso deixa os actores descobrirem como trabalhar as personagens".


Jornada para a Noite, Eugene o'Neill; Encenação: Nuno Cardoso; Cenografia: F. Ribeiro; desenho de luz e sonoplastia: Eduardo Brandão; assistência de encenação: Victor Hugo Pontes. Elenco: Ângela Marques (Mary Cavan Tyrone ), Eduardo Breda (James Tyrone Jr.), João Pedro Vaz (James Tyrone ), Luís Araújo (Edmund Tyrone ) e Susana Sá (criada Cathleen). Auditório Municipal de Gaia, até 12 de Dezembro (de quarta-feira a sábado, às 21h30, e, ao domingo, às 16h).

O beijo

[Auguste Rodin, 1887]

Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um

Eu vi a terra limpa no teu rosto,
Só no teu rosto e nunca em mais nenhum.
[Eugénio de Andrade]