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quarta-feira, novembro 11, 2015

Querido Paulo


Querido Paulo,

A dor é sempre egoísta. Acordo e tu já não estás, dizem-me por mensagem, eu ainda a acordar. A dor é uma pancada na cabeça antes de chegar ao coração. Fico à toa, aturdida, não pode ser, não nos podes faltar. Tento cair em mim. Já não estás. Já não estás. E agora?

A dor é tão egoísta, não paro de pensar, não paro de me sentir assim, egoísta. Na dor, no orgulho. Tu eras tão nosso, era tão grande o orgulho de seres tão nosso. Eras o maior de todos e eras nosso. Orgulhosamente nosso. Estavas a reconstruir o nosso coração à medida que reconstruías a cidade. Egoísta, apetecia-me tudo menos partilhar-te. Mesmo que partilhar-te fosse melhor para ti. "Não vá embora", pedi-te uma vez ao telefone, quando me disseram que estavas na lista dos ministeriáveis. "Não vou, helena", disseste-me. "Oh, sei que vai", insisti, infantilmente, mais preocupada comigo do que com a profissão da notícia. "Dou-lhe a minha palavra que não vou. Não vou, não quero, já sou ministro da nação que é o Porto." E riste. Devolveste-nos em dois anos muito mais do que nos tiraram em doze. Devolveste-nos a vontade de ficar. E de fazer. Encheste-nos de sonhos outra vez. Tu dizias que o Porto era uma cidade com o cérebro sequestrado, resgataste a cidade e nessa libertação salvaste-nos. Tanto em tão pouco tempo. E agora? Onde estás agora? O que vai ser de nós?

As nossas entrevistas demoravam sempre muito tempo a começar. Eu queria sempre que tu fizesses aquelas tuas associações de ideias em espiral. Dava-te o mote de uma coisa qualquer estapafúrdia, ou de uma dúvida ou de uma curiosidade, e tu respondias-me com poesia anatómica. Era quase um jogo, tornavas tudo tão simples e tão belo quanto o limite do impossível pode ser. Tu explicaste-me o Dostoievsky com metáforas de medicina! Eu ficava pequenina, rendida, perdida nos teus infindáveis horizontes de saber, tu sabias que eu adorava isso em ti e davas-me isso antes de cada play no gravador com uma generosidade de um tamanho sem nome. Sabias tudo de todas as coisas, dizias que tinhas o google na cabeça muito antes de terem inventado o google. E tinhas mesmo. E tinhas sempre um sorriso e um elogio e uma elegância como já não há. Fazias-nos acreditar que éramos melhores do que aquilo que somos. Tu acreditavas. Acreditavas na magia da aprendizagem por osmose. E da protecção pela auto-ironia, peito aberto.

Não tinha idade para te entrevistar quando te entrevistei da primeira vez. É coisa que só se percebe mais tarde. A última entrevista demorou quinze horas. "Já está farta de mim?", perguntavas a cada hora. Nunca me fartava de ti, mas estava cansada. Tinhas um ritmo impossível de acompanhar. Quando cheguei, tu já lá estavas, a trabalhar. Quando fui embora, tu ainda lá ficaste, a trabalhar. No fim, combinámos nova entrevista, maior ainda. Em Braga, para provar o Abade de Priscos da tua mãe. Encontrámo-nos no concerto do Reininho, tinhas acabado de receber o título de Cavaleiro da Ordem da Arte e das Letras por decisão da ministra da cultura francesa. E no concerto da Cat Power, tinhas acabado de ser eleito mais ou menos por todos os jornais como o melhor que nos aconteceu nos últimos dois anos. Tinhas o dom da ubiquidade. Onde quer que fosse, fosse a que horas fosse, tu estavas lá. Eras o que fazias. Ias agora para a China. Iríamos a Braga antes do Natal. "Assim, prova os doces todos, não só o pudim". Onde estás agora? Para onde vamos sem ti?

Ensinaste-me que não se trata por você alguém de quem gostamos muito. Estávamos num almoço, pouco depois da morte do mestre Manoel de Oliveira que ainda ontem homenageaste, quando te perguntei quando começaste a tratá-lo por tu. "Nunca", respondeste. "Nunca tratei, só depois da morte. A morte aproxima-nos das pessoas a quem nunca tivemos coragem de dizer o quanto gostávamos delas".

Tu, querido Paulo, ser tão, tão raro, fizeste com que a minha passagem pela cidade e pela profissão fosse um infinito privilégio. E sabes, ainda não acredito que isto está mesmo a acontecer, que vamos mesmo ficar sem ti...

Obrigada por tanto, mas tanto.

terça-feira, março 24, 2015

Herberto Helder (1930-2015)


"Os animais podem ser humilhados ou destruídos. Há uma espécie de dignidade por falta de recursos morais, há uma inteireza fundada no mundo natural. Por meio de consciência, o homem alcança o poder ou a vulnerabilidade que o destrói. Escolhe-se a força ou a destruição própria, através da inspiração passada às provas, na enigmática malha da vida, opondo as astúcias do talento a cada repto de coisas. É o génio íntimo de cada um. Génio que não dá paz, que se contenta de si, e se alimenta no seu mesmo exercício. O poder é o poder, mais nada.

Um bicho, depois de fugir do pânico, assenta as patas na terra e avança inteiro, com os cornos baixos, ele todo projectado na violência da cabeça. Passa ou não passa. Passa ou morre. A morte é o seu abismo. Não pede perdão. Porque a inteireza animal é cega, limpa como a luz. Então, no largo onde o touro lutara com os homens, encontram-se agora os dois homens, um diante do outro, a cinquenta passos de distância, com a carga da consciência pessoal, o poder e a vulnerabilidade.

O rosto do homem que ressuscitou é agora um rosto fixo e acerbo, o rosto de um homem que morreu e, cerrado, se pôs lentamente a ressuscitar. E o outro estremece, porque de súbito encontrou a sua própria vulnerabilidade. O homem avança como se o seu corpo nem sequer se movesse, e quando chega perto nada resta ao outro senão deixar que a sua vulnerabilidade o torne inteiramente sensível, tome conta dele, alastre como a lepra, e ele fique vulnerável de uma ponta à outra. Então cai de joelhos e diz: - Perdão!
O homem murmura algumas palavras que apenas os dois podem perceber, mutuamente fascinados, o poder e a vulnerabilidade frente a frente. Diz: - Vou matar-te. O rosto é o mesmo - tenso e triste; e os olhos, extraordinariamente límpidos, assim: frios, vazios. Então grandes lágrimas sobem aos olhos do outro, e escorregam-lhe pela cara. Está imóvel, caído de joelhos, com as mãos no chão, e pela cara soerguida escorrem lágrimas. Repete: - Perdão! E o homem, que parece nem olhá-lo, que olha para dentro, sussurra ainda com a mesma tenebrosa cumplicidade: - Perdoo-te se disseres…

A cabeça do outro está exposta - nua e frágil - à luz muito alta. A luz corta-a. - Se disseres: tu tiraste-me a vida e tornaste a dar-me vida. E a luz parece agora fluir e refluir naquele rosto entregue, parece fazer nele um nó doloroso, e a boca diz: - Tu tiraste-me a vida e tornaste a dar-me vida.

O homem sorri de leve, como se tivesse ouvido uma frase infantil, e o seu espírito violento e irónico não pudesse captar toda a graça de uma frase tão inocente. Como se o poder se houvesse esgotado no poder, e o homem estivesse agora longe, de novo só, de novo isento e fundo, no lado de lá. O outro cai para diante, com a cara na poeira, e fica a tremer e a soluçar debaixo da luz esplêndida, cada vez mais alta."
Herberto Helder, Os passos em volta

terça-feira, novembro 18, 2014

Aniversário (de ausência) II


MANUEL ANTÓNIO PINA

Aniversário (de ausência)


Naquele tempo falavas muito de perfeição, 
da prosa dos versos irregulares 
onde cantam os sentimentos irregulares. 
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão, 

agora lês saramagos & coisas assim 
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente 
olhando as tuas pernas que subiam lentamente 
até um sítio escuro dentro de mim. 

O café agora é um banco, tu professora do liceu; 
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu. 
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes, 
e não caminhos por andar como dantes."

In 'Um Sítio onde Pousar a Cabeça'
MANUEL ANTÓNIO PINA 
18 de Novembro 1943 - 19 de Outubro 2012

domingo, abril 27, 2014

Vasco Graça Moura (1942-2014)


já ninguém morre de amor, eu uma vez 
andei lá perto, estive mesmo quase, 
era um tempo de humores bem sacudidos, 
depressões sincopadas, bem graves, minha querida, 
mas afinal não morri, como se vê, ah, não, 
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz, 
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes, 
ah, sim, pela noite dentro, minha querida. 

a gente sopra e não atina, há um aperto 
no coração, uma tensão no clarinete e 
tão desgraçado o que senti, mas realmente, 
mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não, 
eu nunca tive queda para kamikaze, 
é tudo uma questão de swing, de swing, minha querida, 
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber, 
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim. 

há ritmos na rua que vêm de casa em casa, 
ao acender das luzes, uma aqui, outra ali. 
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha 
no lusco-fusco da canção parar à minha casa, 
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente, 
minha querida, toda a gente do bairro, 
e então murmurarei, a ver fugir a escala 
do clarinete: — morrer ou não morrer, darling, ah, sim. 

blues da morte de amor in "Antologia dos Sessenta Anos"

quinta-feira, abril 17, 2014

Gabriel García Márquez (1927-2014)


"Entre realidades, deseos, sueños, alegrías, agradecimientos, imaginaciones y, sobre todo, por el paraíso irrepetible de su lectura, Gabriel García Márquez está ahora en el mismo lugar donde él llevó a Esteban en su inolvidable cuento El ahogado más hermoso del mundo, después de que a la gente del pueblo “se le abrieran las primeras grietas de lágrimas en el corazón”… Porque una vez comprobado que había muerto “no tuvieron necesidad de mirarse los unos a los otros para darse cuenta de que ya no estaban completos, ni volverían a estarlo jamás”…"
cultura.elpais.com


quarta-feira, fevereiro 05, 2014

Lee Siegel*: Philip Seymour Hoffman’s Beautiful Helplessness


There was a moment, two years ago, during Philip Seymour Hoffman’s performance as Willy Loman, in the Broadway revival of “Death of a Salesman,” when the actor seemed to break down. After a climactic fight, Willy’s son Biff sobs wildly and reaches for his father as Willy desperately pulls his lost son to him. Different actors playing Willy have done this scene in different ways: Lee J. Cobb held Biff with weak, half-clenched fists, as if fear and humiliation had atrophied his hands; Dustin Hoffman kept his hands suspended just over Biff’s back, unable to touch him, as if alienated not just from the product of his labor but from the creation of his own flesh.

But Hoffman’s Willy embraced his son with hungry physical intensity, hands open and grasping, as if his miserable existence had found its destiny, which was simply to hold and be held by another person, for no profit or purpose beyond fulfilling an elemental need. Hearing the news that Hoffman, long haunted by addiction and recently separated from his companion, who was also the mother of their three children, had died of a heroin overdose, I could not help but recall that unforgettable moment onstage, in which the engine of Hoffman’s art—a barely disciplined helplessness—stood revealed in his character’s ordeal.

Much will probably be written in the coming days about addiction, and about how much more Hoffman could have done if only he had kept the poison out of his life—and that is true, to an extent. He was only forty-six when he died. But the brute, ugly fact might also be that the poison was his elixir. It could be that Hoffman belonged that small group of artists who have an arrangement with their demons. It is the stuff of myth and folklore: the Faustian bargain, Balzac’s “The Wild Ass’s Skin,” “The Picture of Dorian Gray.” In these half-allegories, the price of remarkable creative vitality is a wasting away of mortality. Or, to put it another way: without the need to flee from pain by transfiguring it, you would not have the energy to endure the suffering, the solitude, and the uncertainty that are part and parcel of artistic expression. 

This comes dangerously close, I know, to the banal romantic notion that all genuine artists must suffer, which is accurate only in the sense that people are by definition gregarious and that making art, even if you are an actor plunging, in public, down into your depths, is solitary, even asocial, in its untrammelled freedom. Still, the link between suffering and creativity seems less romantic than pragmatic. There is something to Aristophanes’ satiric parable in which humans were once whole and were then split down the middle, and thus spent their lives seeking their other half. We would not love or desire if we had everything we needed. Some artists, like Hoffman, would not escape into their creations if art did not mend what life had painfully shattered. 

Like all artistic geniuses, Hoffman redefined his art, and the way he redefined it was, precisely, to disappear into his characters instead of playing his life as he was playing his role, which has been until recently the American style of acting. For every role that, in retrospect, seems to reflect his inner turmoil, there were characters he played to perfection who were a universe away from a tormented man. You watch Brando, and Brando’s immediate heir, Al Pacino, and De Niro and Dustin Hoffman, and all the other so-called Method actors, and you are watching with a double perspective. They are playing what we think we know about them as real people even as they are portraying a made-up person. And, through their accumulated roles, they are not just creating a body of work—they are telling their life story. (This mostly applies to male actors of the Method generation, not to female actors, but that is a different subject for a different essay.)

By contrast, Hoffman relinquished himself to his characters; thus the designation of character actor. In that, he was more like a British actor than an American one, though Hoffman’s rawness would, in a British actor, be a well-oiled spontaneity. Between wry, jaded Truman Capote, the craven, venal journalist in “Red Dragon,” and the wholly unironic and superhumanly self-possessed Lancaster Dodd in “The Master,” there are no characterological affinities, only utter self-annihilation. Hoffman may not have been the first character actor to become a star—Jeffrey Wright and Kevin Spacey also come to mind—but he was the most brilliant and unforgettable. 

In our current post-character-actor moment, Hoffman was creating a new conventional style for younger actors to react against, just as Pacino had for the previous generation. Bradley Cooper, for example, does not play himself, yet he does not disappear into his character, either; he is, like a member of a medieval travelling-theatre group, simply a professional actor for hire. Staying professional is one way for an actor to survive. Whether it will produce performances that are, like so many of Hoffman’s, immortal, remains to be seen. 

[Lee Siegel is the author of, among other books, two collections of criticism, “Falling Upwards: Essays in Defense of the Imagination” and “Not Remotely Controlled: Notes on Television.” He is a frequent contributor to newyorker.com.]

quinta-feira, janeiro 09, 2014

Francisco Assis sobre Manuel Seabra

[Alex Stoddard]

“Contra tudo o que é estrangeiro podemos encontrar segurança, mas a morte faz que todos nós, homens, habitemos uma cidade sem defesa." Epicuro, num curto e belíssimo texto sobre o tema da amizade, incluído no livro intitulado O Hipopótamo de Deus, José Tolentino de Mendonça traz-nos ao conhecimento um provérbio inglês de invulgar expressividade: “ Viver sem amigos é morrer sem testemunhas”.

Esta afirmação é de uma densidade prodigiosa, já que remete da solidão irremediável da morte para a natureza diversa das vidas. Ocorreu-me recuperá-la neste instante especialmente doloroso em que me vejo confrontado com a vontade, e a dificuldade, de evocar um amigo morto. Não um amigo qualquer mas o mais próximo dos últimos anos. De súbito, quando a razão parece estar prestes a despenhar-se num abismo de escuridão e silêncio, a recordação das palavras de um grande pensador e poeta permite-nos encontrar um caminho para falar do que parecia indizível: a perda de um amigo profundamente digno. Resta-me, pois, apresentar o meu testemunho sobre o Manuel Seabra, cidadão empenhado, jurisconsulto e político que morreu na semana passada.

Uma lapidar biografia institucional remete-nos para a enunciação de um percurso factualmente verificado. Manuel Seabra foi vereador e presidente da Câmara de Matosinhos, integrou diversos órgãos dirigentes do PS, incluindo o próprio Secretariado Nacional, e desempenhou durante os últimos quatro anos as funções de deputado na Assembleia da República. Ocupou todos estes cargos de forma exemplar deixando um lastro de seriedade, competência e lisura. Valorizava o estudo, cultivava o rigor e pautava-se por critérios de elevada exigência intelectual. Dito isto, que já não é pouco, o essencial fica ainda por dizer.

Manuel Seabra foi sobretudo um homem livre que combateu com mais convicção do que gosto e que nunca abdicou de uma atitude tolerante e solidária. Por detrás da sua permanente bonomia havia um carácter forte e insubmisso, pronto a lutar quando isso se impunha, disposto a concordar quando tal se revelava possível. Essa força interior impeliu-o a tomar decisões de inegável coragem que lhe abriram, simultaneamente, as portas do reconhecimento e da incompreensão. Não tinha o hábito de evitar as incomodidades e nunca claudicava na defesa daquilo em que verdadeiramente acreditava. A sua generosa compreensão das debilidades humanas tinha, porém, um limite – abominava tudo o que era medíocre, pequeno e vil. Por isso o víamos a ele, que era um ser de temperamento solar, a reagir com alguma brusquidão perante manifestações daquela natureza. Agindo dessa forma deu um inestimável contributo para a renovação da vida partidária provocando transformações destinadas a perdurar no tempo. Num país onde ainda parece preponderar a gramática da obediência ardilosa, que prefere a dissimulação à clarificação, el e ousou várias vezes seguir pelo caminho mais difícil. Quando teve de romper, rompeu, quando achou que deveria partir, partiu. Pagou por isto um preço muito elevado quando foi vítima de uma tentativa de silenciamento político. Nessa ocasião optou pela via da dignidade e afastou-se por uns tempos da política activa refugiando-se na prática da advocacia, profissão que aliás o apaixonava. Voltou quando o foram buscar.

Exerceu com especial alegria a função de deputado. Homem inteligente e culto, apreciava o debate, percebido como fecunda interacção de inteligências divergentes. Por isso mesmo era tão incisivo quanto tolerante, tão duro na retórica quanto aberto à compreensão das razões dos outros. Não era um dogmático, cultivava um pragmatismo exigente. Daí que tivesse amigos em todos os quadrantes políticos, decerto sensíveis à sedução do seu humor inteligente. Só num assunto assumia as vestes de um fanático, na exaltação da sua paixão benfiquista.

Fará falta ao país, ao Parlamento e ao PS. Subsistirá como uma memória constante no círculo dos seus amigos, que eram muitos, e que jamais esquecerão que o Manuel Seabra seguia exemplarmente uma outra afirmação, também contida no já referido livro, esta da autoria de Séneca: “Ter um amigo é ter alguém por quem morrer”. Estamos a sair de uma época em que com relativa banalidade os homens se dispunham a morrer por ideias abstractas; infelizmente também se dispunham com relativa facilidade a matar em nome delas. Para não cairmos agora no vazio de um egoísmo radical precisamos de regressar a essa longínqua afirmação de Séneca. Há muitas formas de morrer por um amigo. Manuel Seabra correu muitos riscos em nome desse valor superior da amizade. Isso distinguia-o e elevava-o a uma categoria muito rara na nossa vida pública. Confrontados com a dor da sua morte talvez possamos encontrar algum conforto numa derradeira citação de José Tolentino Mendonça:  “Porventura o mais fecundo não está na pergunta ‘Porque é que eles partiram?’, mas nessa outra que levaremos a vida a responder, e sempre em total gratidão: ‘Porque é que eles vieram?’.”

[Hoje, no Público]

domingo, janeiro 05, 2014

Eusébio 1942-2014



Uma tragédia, por Miguel Esteves Cardoso

Primeiro, não se acredita. Eusébio morto? Como é que pode ser? Depois acredita-se e amaldiçoa-se o azar de Eusébio e da família dele por ele ter morrido tão cedo.

Percebe-se que Eusébio já era um imortal há muito tempo e que, nesse sentido heróico, continua tão vivo como antes. Foi uma imortalidade que ele criou, jogada a jogada, de jogo em jogo, ano após ano, de golo em golo.

Mas Eusébio faz falta. Ele era um sábio e um benfeitor, um monumento vivo que falava com as pessoas e vivia como elas, no meio da gente. Era a última grande figura de Lisboa.

Os portugueses nem sempre trataram Eusébio com o respeito e a gratidão que ele não só merecia como tinha conquistado, apesar de ter enfrentado obstáculos formidáveis.

Eusébio era um senhor a jogar e era um senhor na vida. As grandes qualidades dele como futebolista - a inteligência, a imaginação, a solidariedade, a elegância e a audácia - nunca mais se juntaram num só jogador. Mas continuaram sempre na pessoa de Eusébio, ao lado de fraquezas que todos nós temos, provando que ele era humano.

É uma grande tristeza Eusébio não ter vivido mais anos de felicidade e de exemplo. São muitas as pessoas, de todas as idades e de todas as profissões, cujas vidas vão piorar por Eusébio já cá não estar.

A morte de Eusébio é uma tragédia. As tragédias choram-se. Não se celebram. A imortalidade já era dele. Não serve de consolação nenhuma. Era imortal e bem vivo que te queríamos, querido Eusébio.

Obrigados por tudo o que nos deste, a começar por ti.

quarta-feira, dezembro 11, 2013

Nadir Afonso (1920-2013)


"Quando entendi as leis da obra de arte, percebi que já não precisava de mais, comecei a sentir que essas leis são universais e que eu podia estar muito bem em qualquer lugar. Se tiver um metro quadrado de espaço para trabalhar, sou tão feliz como numa grande cidade. Comecei a sentir que a minha obra era cosmopolita, em qualquer parte se podia desenvolver."
[Entrevista ao Público, em 2009]

sexta-feira, dezembro 06, 2013

Francisco Louçã: Mandela, "não me atrevo a demorar-me"



O anúncio da iminência da morte de Nelson Mandela foi antecipado pelo governo sul-africano, quando a deterioração do seu estado de saúde fo reduzindo as suas resistências. O mundo assistiu entretanto, de longe, às homenagens mais tocantes de crianças e famílias que deixavam um ramo de flores no passeio da sua casa, desejando evitar o inevitável.

Não sei o que cada um e cada um lembraria então deste homem. Uns, o seu compromisso com a luta armada contra o apartheid, porque mudou tudo. Outros, a sua vontade de libertar o oprimido e de libertar o opressor, porque mudou o necessário. Outros talvez a resistência de uma vida inteira na prisão, porque foi tudo. Alguns certamente a sua paixão pela liberdade: "A verdade é que não somos ainda livres; alcançámos apenas a liberdade de sermos livres, o direito a não sermos oprimidos", escrevia ele no fim da sua Autobiografia. "Não demos o último passo na nossa viagem, mas sim o primeiro de uma estrada ainda mais comprida e difícil". 

Não sei o que pensam os que agora se emocionam e, no entanto, sinto como eles. Sei o que lembrarei: coragem, a coragem que não sabe se resulta, que não sabe se vai ser premiada, que não sabe se morre sozinha, que não sabe se vai ser esquecida, que não sabe nada mais do que ser honesta consigo própria. E essa honestidade é uma força gigantesca, magnífica, rara, apaixonante.

No final da sua Autobiografia, Mandela escreve que "Percorri esse longo caminho para a liberdade. Tentei não fraquejar; dei passos errados ao longo do percurso. Mas descobri o segredo: que, depois de escalar uma grande montanha, apenas se descobre que há muitas mais montanhas para subir. Parei aqui um pouco para descansar, para deitar uma olhada à vista maravilhosa que me rodeia, para olhar para a distância, de onde vim. Mas posso descansar somente por um momento, porque com a liberdade vêm as responsabilidades - e não me atrevo a demorar-me, pois a minha caminhada ainda não terminou". Pois não terminou.

quinta-feira, dezembro 05, 2013

Nelson Mandela (1918-2013)


Invictus
Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

quarta-feira, novembro 06, 2013

Luna Andermatt (1927 - 2013)


Entrevista publicada no Weekend do Jornal de Negócios de 2 de Dezembro de 2011
Luna Andermatt vive no Restelo, numa torre de apartamentos onde, em cada janela, o espaço e a vida continuam. A entrevista decorreu com um fundo de ópera, vinda do escritório do marido, Francisco Brás de Oliveira.
Na sala de estar, Luna reuniu recordações, provas de vida e de amor: os trabalhos de iluminura que aprendeu com a mãe; o programa da estreia da Companhia Portuguesa Bailado (no São Carlos em 61). Essa estreia, a casa a vir abaixo, foi uma conquista a dois e, no programa, o marido escreveu: "À loucura queremos dar equilíbrio / Ao medo queremos dar confiança e fé /Ao egoísmo opomos a dádiva de nós mesmos". Luna Andermatt e o marido continuam a querer exactamente o mesmo; exactamente o mesmo é necessário. Todos os dias, Luna Andermatt vai ensaiar para o CCB para estrear, dia 8, com a Companhia Maior (grupo de artistas com mais de 60 anos) a mais recente criação da sua filha, a coreógrafa Clara Andermatt. O corpo nem sempre obedece à mente, mas o fogo, esse fogo ao pisar o palco, não tem dores, não tem rugas, não tem idade.
1. O trabalho no palco tem que ter fogo. Se não tem fogo, não presta. É preciso viver por dentro do trabalho. Se não se vive, não presta. O público percebe muito quando não é sentido. 
Tenho a impressão de que a dança já nasceu comigo. Uma vez, num daqueles eventos do colégio, calharam-me uns versos muito engraçados. Era eu sozinha em palco, com um fato cor de rosa, todo plissado, tinha nove anos. O poema chamava-se "Sempre tive paixão pela dança": "Quando encontro no baile um bom par, não descanso, não paro e não deixo de dançar, de dançar, de dançar…", e fazia assim uns gestos de dança quaisquer, inventados, que ainda ninguém me tinha ensinado. 

2. Creio que as pessoas hoje são mais materialistas. O que interessa é a fatia de pão com manteiga. Mas não é tanto isso que me incomoda - é a falta de sentimentos nobres, de dádiva, nem que seja apenas para com o vizinho. Desapareceram aquelas atenções com que nós nascemos - puxar uma cadeira para o lado, para o outro se sentar, fazer uma delicadeza numa bicha - coisas pequenas, mas que definem o que vai lá dentro. Mas talvez eu esteja a exagerar. Talvez seja porque a televisão gosta mais de nos apresentar dramas. As atitudes nobres não têm atracção para a televisão. 

Quando estou a ver televisão e abrem a boca para discutir política, eu que detesto a cozinha, apetece-me ir para a cozinha. Também há aqueles que falam bem e que ouço do princípio ao fim do discurso, mas esses são poucos em relação aos outros. Repugnam-me as disputas. Não é assim que se conquista. Não é criticando os outros que subimos - a subida está dentro de nós próprios. 

3. Um tio meu, que era governador militar de Lisboa, chamou a minha mãe de parte para uma conversa muito brava: se ela estava a educar-me para eu entrar no Parque Mayer? Eu entrava em óperas no São Carlos. Uma vez, em "Os Pescadores de Pérolas", levava só uma espécie de biquini com um soutien com pérolas e dourados. O meu tio tinha um camarote privativo no São Carlos e eu sabia que ele me estava a ver. Quando cheguei a casa, disse logo: "olha mãe, amanhã tens um telefonema a descompor-te". 

A minha mãe achava bem eu aprender ballet para ser elegante, para ter gestos bonitos, mas não para fazer carreira. Foi o meu marido que me ajudou muito. Conhecemo-nos a bordo de um iate, tinha ele 17 ou 18 anos. Eu sou mais velha dois anos. A minha mãe gostou dele desde que começámos a namorar. Ele incitava-me. Já que tens essa paixão, dizia, cumpre-a. Isso deu-me força. Éramos muitos unidos e tínhamos muita garra, muita gana. 

A ele devo também a estreia da Companhia Portuguesa de Bailado no São Carlos [em 1961]. Não foi fácil. O director do São Carlos exigiu orquestra, não deixava pôr música gravada, e o preço de uma orquestra… Só as partituras da orquestra, na Sassetti, andámos dois anos a pagá-las… E depois era preciso pagar aos artistas e ao maestro. Mas tivemos a casa esgotada. O presidente foi à estreia, era o Américo Tomás nessa altura. E foi tudo com pompa, porque ainda hoje o meu marido não poupa em coisa nenhuma. Eu é que sou o travão. Não tenho outro remédio senão ser poupada, se não já estaríamos na prisão. 

4. A minha avó, pelo lado do meu pai, era alemã, e a família da minha mãe, Luna, vem dos reis de Espanha - ainda tivemos um Papa na família, o Benedito XIII -, de maneira que estes dois sangues têm aqui uma grande efervescência. 

O meu pai era oficial do Exército e morreu quando eu tinha três meses. A minha mãe trabalhava muito, era professora no Instituto de Odivelas e era também uma grande artista. Era iluminista e muito conhecida no estrangeiro. Fez trabalhos para o Hitler, para o Churchill, para o Rei Jorge VI de Inglaterra, e foi convidada pelo bispo da Cantuária para fazer a escritura de casamento da Rainha Isabel. Era uma profissão raríssima, que já não existe, pertencente ao século XVI. Ela só trabalhava em pergaminho - e pergaminho alemão, e não era o pergaminho alemão de hoje nem o da guerra, era o pergaminho alemão de antes da guerra. Ela ensinava-me e dava-me as encomendas mais acessíveis, que fazia questão que eu assinasse, e eu assinava M de [Maria Antónia] Luna. Ainda fiz 80 e tal trabalhos. A minha mãe fez mais de 1300 trabalhos e não fez um único igual a outro. Tinha um gabinete cheio de preciosidades. Trabalhava com ouro em pó e tinha que ser autêntico. Morreu com 82. Nos últimos anos foi viver para nossa casa. Ainda vivíamos na Infante Santo, naqueles prédios altos, onde tínhamos uma vista linda para o rio, e de onde tínhamos visto a inauguração da Ponte 25 de Abril. 

5. Estive em Inglaterra com uma bolsa de estudo e aí aprendi muito, não só tecnicamente. Quando voltei, ainda dancei, mas já estava com a mente só na ideia de criar algo que deixasse raízes. Não havia em Portugal uma companhia oficial, e os bons bailarinos iam para fora. Magoava-me ver tanta gente com valor mas sem futuro. 

Tive muitas desilusões - andei sete anos de gabinete em gabinete -, mas com o David Mourão Ferreira tive ouvidos, porque ele também era um artista e convidou-me para o conselho nacional de cultura e compreendeu a necessidade de dar apoio aos bailarinos.

Realmente orgulho-me muito de ter criado a Companhia Nacional de Bailado, em 1977. 

Parece-me que a companhia foi um embrião, um pontapé. Despertou o interesse e espírito da gente nova na altura e depois a dança teve uma explosão no nosso país. Observei como foi crescendo e fiquei muito feliz com isso. E, então, a dança era uma coisa, depois passou a ser outra, e agora é o futuro. 

6. Eu e o meu marido nunca deixámos de trabalhar. O meu marido continua a ir todos os dias para a Universidade [Lusíada] de que foi um dos fundadores, onde já não dá aulas, mas onde é uma espécie de conselheiro. 

Eu tenho uma vértebra deslocada na coluna, e às vezes quando tenho muitas dores, penso: hoje não vou ao ensaio… Mas saio de casa, vou mesmo, e nunca deixei de ir porque tinha dores. 

Não me vejo numa cama. Morreria de angústia em vez da doença. Se Deus me enviar um relâmpago, agradeço muito, porque quero viver até ao fim. Não sei o que é que me está reservado, mas gostava de morrer de pé.


A subida está dentro de nós próprios.

domingo, outubro 27, 2013

Lou Reed (1942 – 2013)



Aos nossos vizinhos:

Que belo Outono! Tudo a cintilar, dourado, e essa espantosa luz suave. E a água que nos rodeia.

Nos últimos anos, Lou e eu passámos aqui muito tempo, e, ainda que sejamos gente de cidade, este é o nosso lugar espiritual.

Na semana passada prometi a Lou que o tiraria do hospital e que voltaríamos a casa, a Springs. E conseguimos!

Lou era um mestre de tai chi e passou aqui os seus últimos dias a ser feliz, deslumbrado com a beleza e o poder e a doçura da natureza. Morreu no sábado de manhã, contemplando as árvores e fazendo a famosa posição 21 do tai chi, apenas com as suas mãos de músico a mover-se no ar. 

Lou era um príncipe e um lutador, e sei que as suas canções sobre a dor e a beleza no mundo vão encher muita gente com a sua incrível alegria de viver. Longa vida à beleza que desce, e perpassa, e chega a todos nós. 

A sua dedicada esposa e eterna amiga,

Laurie Anderson

A artista Laurie Anderson, viúva de Lou Reed, despediu-se publicamente do músico através de um breve texto publicado no East Hampton Star, um jornal que serve a comunidade de Springs, a cerca de 160km de Nova Iorque, onde o casal vivia e onde Lou Reed quis voltar para morrer. 

sexta-feira, outubro 18, 2013

Um ano sem o Pina


Ficámos muito mais pobres num ano sem o Pina do que em anos sucessivos de austeridade.

segunda-feira, setembro 23, 2013

António Ramos Rosa (1924 -2013)


As palavras mais nuas
as mais tristes.
As palavras mais pobres
as que vejo
sangrando na sombra e nos meus olhos.

Que alegria elas sonham, que outro dia,
para que rostos brilham?

Procurei sempre um lugar
onde não respondessem,
onde as bocas falassem num murmúrio
quase feliz,
as palavras nuas que o silêncio veste.

Se reunissem
para uma alegria nova,
que o pequenino corpo
de miséria
respirasse o ar livre,
a multidão dos pássaros escondidos,
a densidade das folhas, o silêncio
e um céu azul e fresco.

quarta-feira, setembro 18, 2013

Juan Luis Panero (1942-2013)


Quando te esqueceres do meu nome,
quando o meu corpo for apenas uma sombra
a apagar-se entre as húmidas paredes daquele quarto,
Quando já não te chegar o eco da minha voz
nem ressoarem as minhas palavras,
então, peço-te que te lembres de que fomos
uma tarde, umas horas, felizes juntos e foi belo viver.
Era um domingo em Hampstead,
com a frágil primavera de abril
pousada sobre os rebentos dos castanheiros,
Passavam para a igreja apressadas freiras irlandesas,
crianças, endomingadas e bisonhas, pela mão.
Em cima, atrás das sebes, na verde
penumbra do parque,
dois homens beijavam-se lentamente.
Tu chegaste, sem que me desse conta
apareceste e começámos a falar,
tropeçávamos de riso nas palavras,
balbuciávamos
no estranho idioma que nem a ti nem a mim pertencia.
De seguida, fizeste-te pequena nos meus braços
e a erva acolheu os teus cabelos escuros.
Depois as escadas sombrias, longas e estreitas,
o tapete com cinza e com gordura,
os teus pequenos seios desolados na minha boca.
Sim, às vezes é simples e é belo viver,
quero que recordes, que não esqueças
a passagem daquelas horas, o seu esperançado resplendor.
Eu também, longe de ti, quando perdida na memória
estiver a sede do teu sorriso, lembrar-me-ei,
tal como agora,
enquanto escrevo estas palavras para todos aqueles
que por um momento, sem promessas nem dádivas,

limpamente se entregam.
Desconhecendo raças ou razões que se fundem
num único corpo mais aventurado
e depois, acalmado já o instinto,
se separam e cumprem o seu destino
e sabem que, talvez só por isso,
a sua existência não foi em vão.

[O que resta depois dos violinos]

sexta-feira, agosto 30, 2013

Seamus Heaney [1939-2013]


Entrevistei-o em 2001, numa altura em que só sabia vagamente quem era. Nesse ano, Lobo Antunes recusara dar-me uma entrevista por não ter lido todos os seus livros. Ao contrário, Seamus Heaney, de quem tinha um só livro, acolheu na sua simplicidade uma miúda de 23 anos, acabada de chegar à profissão, e o seu terror de não entender aquele sotaque irlandês. Seamus Heaney, Nobel da Literatura em 1995, está longe de ser dos meus poetas de eleição, mas nunca mais esqueci aquele dia que ainda hoje parece-me que não aconteceu. E a morte do homem que inspirou aquele que é apontado como o melhor discurso de Bill Clinton - "Um dia a esperança irá rimar com a história" - deixa-me triste.

Um dos meus poemas preferidos:

And some time make the time to drive out west
Into County Clare, along the Flaggy Shore,
In September or October, when the wind
And the light are working off each other
So that the ocean on one side is wild
With foam and glitter, and inland among stones
The surface of a slate-grey lake is lit
By the earthed lightening of flock of swans,
Their feathers roughed and ruffling, white on white,
Their fully-grown headstrong-looking heads
Tucked or cresting or busy underwater.
Useless to think you'll park or capture it
More thoroughly. You are neither here nor there,
A hurry through which known and strange things pass
As big soft buffetings come at the car sideways
And catch the heart off guard and blow it open 
(Postscript)



domingo, agosto 25, 2013

António Borges 1949-2013


António Borges estreou, em 2008, uma série de entrevistas, cuja rubrica se chamava "Tropa de Elite". As entrevistas foram realizadas por Pedro Santos Guerreiro, José Maria Brandão de Brito e Jorge Marrão. O Negócios volta a publicar a entrevista ao economista este domingo, cerca de cinco anos depois. Na altura, José Sócrates era o primeiro-ministro, a crise financeira ainda não tinha estalado e a Europa dava instruções para se investir. A entrevista foi publicada a 4 de Abril.

Esta é a primeira entrevista desta iniciativa. Sabe por que razão o convidámos a si?
Não.

Porque pertence à elite. Aceita esta classificação?
Depende como define elite. Se elite é um conjunto de pessoas que tem de assumir uma responsabilidade pela condução da vida em comum, seja económica, política, cultural, então aceito.

É típico dizermos que faltam elites em Portugal. Mas também existe uma desconfiança do País face às elites que tem. Concorda?
Sim. Quando os resultados não são bons, alguém tem de assumir a responsabilidade. E a responsabilidade é justamente dessa elite, que, de facto, nos tem deixado insatisfeitos.

É a elite portuguesa que não tem qualidade ou quem tem qualidade não está disponível para o País?
Há muita gente de qualidade em Portugal, que encontramos em vários segmentos da sociedade e muitas vezes no estrangeiro. Não falta gente de qualidade.

Mas...
A razão pela qual essas pessoas ou se desinteressam ou não são eficazes é outra. No nosso País, estamos muitíssimo abaixo daquilo que é o nosso potencial. Há muita gente que acha que estamos condenados ao subdesenvolvimento e a uma inferioridade relativamente a outros povos. É falso e há inúmeras provas de que não tem de ser assim. Há em Portugal gente mais do que suficiente - a todos os níveis, não apenas nas elites - para termos outro desempenho.

E no entanto não o temos. Porquê?
O tema mais preocupante é termos um sistema extraordinariamente fechado, que vem do Dr. Salazar e que não se modificou suficientemente com a passagem para a democracia. Continua a ser um sistema muitíssimo controlado, orientado para a defesa dos interesses presentes e não dos futuros e que condiciona a actuação de muita gente, que ou participa nesse jogo e forma de funcionar ou desiste e muda de vida, o que significa um enormíssimo desperdício.

É uma "sub-elite" que se fecha para se perpetuar, é isso?
Sem dúvida. Isso é assim em todo o lado, mas quando o sistema é fechado, como o nosso, torna-se mais fácil a perpetuação na condução dos assuntos por uma elite relativamente limitada, que deixa de fora muita gente com enormíssimo potencial.

Repare: todos os períodos bons da vida portuguesa foram períodos em que a sociedade se abriu, em que apareceu gente nova, iniciativas revolucionárias e que rapidamente deram resultados extraordinários.

Por exemplo...?
Na década de 60, Portugal teve um crescimento económico fabuloso, o mais rápido do mundo logo a seguir a Taiwan. E isso teve que ver com a nossa entrada na EFTA, que fez surgir uma classe empresarial nova que revolucionou o País, criando depois tensões económicas que acabariam na Revolução.

Na década de 1985 a 1995, a seguir à entrada na União Europeia e numa altura em que estava consolidado o regime democrático, houve um novo dinamismo económico. Quase todos aqueles que são hoje os grandes empresários portugueses apareceram nessa altura com uma pujança extraordinária, com iniciativa, inovação. Ao fim desse período, o País parecia outro.

Nessa década até 1995 houve também privatizações. Os empresários tiveram oportunidades.
Sim, mas há um ponto muito importante: eram empresários novos. Ninguém conhecia o Eng.º Belmiro de Azevedo ou o Eng.º Jardim Gonçalves em 1985. O grande salto em frente dado com a União Europeia foi o aparecimento de um grande conjunto de novas iniciativas que resultaram da transformação de uma economia nacionalizada e que estava em crise, o que criou as condições... Por mais mérito que tenha o Eng.º Jardim Gonçalves ou o Dr. Artur Santos Silva, o sucesso dos bancos que criaram resulta do colapso da banca nacionalizada, que abriu espaço para novos projectos.

Sempre que há aberturas, aparecem pessoas novas e projectos extraordinários. Mas depois o País volta a fechar-se num regime contido, controlado e dominado e a maior parte das pessoas boas abandona o País.

Outras vezes, quando as empresas começam a correr bem, vende-se a estrangeiros, é mais fácil do que insistir. É outra forma de desistir.
Quando não há condições porque está tudo fechado, as pessoas desistem, fecham, vão para outro país, têm um sucesso imediato e vendem, desistem. Isto não é por acaso. As pessoas são racionais e não vão continuar a insistir quando as condições não existem.

Não é uma questão cultural? 
Não, porque não é permanente.

Mas historicamente diz-se que "os portugueses são de corridas curtas", o nosso empresariado detesta percursos longos. Vem do século XIX... 
Não concordo. O nosso atraso económico começou no fim do século XVIII. Até essa altura, Portugal estava no mesmo nível dos outros países. Agora, não é verdade que os nossos empresários tenham um "handicap" em relação a outros. Há muitos casos, antigos e recentes, de criação de valor sustentada e inovadora, mesmo revolucionária, de empresários que começaram quase do nada. Agora, é natural que à medida que um empresário adquire dimensão, ele próprio começa a estar mais preocupado com manter o que tem. É preciso que nessa altura apareçam outros empresários. Na nossa história recente, há períodos de explosão económica em que depois do sucesso as próprias empresas passam a condicionar a economia e a política económica. Foi isso que se passou no tempo do regime do Dr. Salazar e é isso que se passa no regime actual.

O que é "estar fechado"? 
Temos uma política económica e um enquadramento da actividade económica extraordinariamente conservador, no sentido de manter tudo como está. A burocracia, a regulação, a Administração Pública, a política económica no seu conjunto, a forma como o Governo intervém caso a caso...

Como é que se desmonta isso? Os exemplos de abertura que deu foram ambos externos são irrepetíveis: a abertura à EFTA e à CEE.
Não, a mudança de fora cria a oportunidade. E depois a política económica ajuda. Entrámos na comunidade europeia depois de um programa muito rigoroso para reequilibrar a economia, estávamos em ponto de rebuçado para um fase de expansão. Agora, se estamos numa situação em que as grandes empresas estão instaladas e a controlar, em que a situação macroeconómica não é favorável e em que não há espaço para criar inovação, então ninguém se pode admirar que o País só cresça 1 ou 2% ao ano.

Quem tem de criar esse espaço?
Precisávamos de ter uma política económica radicalmente diferente. Há um desempenho radicalmente diferente entre as economias abertas à inovação e as mais conservadoras e orientadas para a manutenção dos interesses actuais. Se compararmos uma Itália com uma Suécia, França com Irlanda ou Japão com os Estados Unidos, a diferença principal é essa. Nas economias com grandes desempenhos, como a Suécia, a Irlanda, os Estados Unidos, há uma abertura total ao aparecimento de novos "players", em prejuízo, às vezes deliberado, das empresas existentes. Já no Japão, Itália, França encontramos uma política orientada para as empresas que existem. Isso trava o crescimento e impede a inovação. Infelizmente, Portugal está desde há muitos anos muito mais do lado da Itália ou da França do que do da Irlanda.

A inovação é uma das questões centrais, mas…
É a questão central. O primeiro-ministro que temos hoje também percebe isso e criou o Choque Tecnológico propondo-o como o grande salto inovador. Mas depois criou um regime que é completamente avesso a essa inovação. É uma contradição total.

A inovação traz o chamado dilema da Justiça e da liberdade: ela destrói emprego…
Estou em desacordo. Os projectos mais inovadores são os que criam mais empregos. Que digam que isso implica mobilidade, que as pessoas passem de uns empregos para outros, que há empresas que vão desaparecer para outras aparecerem, isso aceito. Mas essa até é uma das grandes forças do nosso País: a mobilidade do mercado de trabalho. Ao contrário do que se pensa, nós temos mobilidade do mercado de trabalho. Nos períodos em que a economia crescia, as pessoas mudavam de emprego com uma rapidez alucinante e com uma adaptação notável. Quanto mais protegermos as empresas para supostamente protegermos o emprego, mais impedimos a inovação e, portanto, mais impedimos o emprego e a possibilidade de as pessoas realizarem o seu potencial.

Não concorda que há esse dilema da Justiça? 
Há, mas ao contrário: quanto mais se protege os interesses existentes, mais se desequilibra o poder e a distribuição de rendimentos. Como aliás se tornou evidente: a distribuição de rendimentos no nosso país tem-se deteriorado de uma forma gravíssima.

A passagem de um modelo para outro geraria uma tensão fortíssima.
Vai gerar tensão política. É aqui que eu faço o paralelo com o tempo do Dr. Salazar: nós vivemos num regime político e económico em que os interesses económicos estão habituados a ter um grande peso na tomada de decisão política. E vão sempre reagir contra uma política que não os vá proteger.

Exacto: o que os obrigará então a mudar?
O que os devia obrigar a mudar é o aparecimento de novas actividades, indústrias, empresas que lhes façam concorrência naquilo que conta, que é o acesso aos recursos humanos, de capital, etc. As grandes empresas portuguesas estão habituadas a uma situação de monopólio. Hoje, um jovem licenciado vai trabalhar onde, senão nestas grandes empresas? Elas estão bem, nunca estiveram tão bem, nem parece que vivem em Portugal, porque têm um nível de rentabilidade extraordinária enquanto o País vai definhando.

Como é que isso se explica?
Facilmente: temos uma política económica orientada nesse sentido. Consciente ou inconscientemente? Dou o benefício da dúvida. O grande problema económico português hoje é o dualismo; é haver dois países: um que são as grandes empresas cotadas em Bolsa, extraordinariamente rentáveis, que medem forças até em competência e capacidade de gestão com empresas estrangeiras, que estão muito bem e cujo grande problema é não saberem o que fazer ao dinheiro, onde hão-de investir os lucros que vão gerando; e depois a outra metade do País, que luta pela sobrevivência, que não consegue olhar mais do que quinze dias à frente porque não sabe se há dinheiro. Este dualismo tem uma dimensão regional brutal, há Lisboa e há o resto do País. Até o Porto e a região Norte estão num declínio gravíssimo. A distribuição de rendimentos tem-se deteriorado gravemente por força deste dualismo económico.

Essas grandes empresas que nem sabem o que fazer aos lucros são as mesmas que sempre que são ameaçadas invocam o instinto de protecção e sempre com o mesmo argumento, que aliás colhe popularidade: estão num mercado global, precisam de se agigantar no seu País para não serem engolidas por um estrangeiro.
Esse argumento é exactamente o mesmo que se ouve em Itália, em França e nos países em que a política económica é proteccionista e defensiva. Os resultados estão à vista…

A Europa está a enfileirar nesse discurso proteccionista e não apenas em Itália e em França…
Uma parte da Europa está. Mas é uma parte felizmente minoritária, há países com posição oposta. O grande fiel na balança vai ser a Alemanha, que vive nesse dilema.

Somos obcecados com Espanha. Mas a verdade é que Espanha também é proteccionista das suas empresas, também é fechada. Estamos a comparar-nos com o país errado?
Espanha não é uma economia fechada e tem uma grande vantagem em relação a nós: há um conjunto de empresas espanholas que se habituou a concorrer fora de Espanha e a aceitar as regras de uma concorrência sem quartel, o que introduz uma disciplina e uma exigência de desempenho que não depende da protecção do Estado. Embora a protecção do Estado exista em Espanha e seja relativamente forte, não tem sido suficiente para imunizar a Espanha dos ventos de concorrência que existem à escala europeia.

Portugal precisa de uma economia de mercado mais transparente, é isso?
Nós não temos mercado. O mercado não existe em Portugal. As empresas prósperas e que remuneram bem os seus accionistas não trabalham no mercado. Têm situações instaladas, ou por força da regulação, ou porque estão em sectores naturalmente protegidos da concorrência estrangeira. Há uma grande cumplicidade entre os governos e essas empresas para manterem uma situação confortável e uma regulação favorável. As outras empresas, do sector transaccionável que, essas sim, estão no mercado, coitadas, sofrem as consequências e vão desaparecendo. 

Veja-se o caso das farmácias: é um sector muito protegido. Elas souberam muito inteligentemente utilizar essa protecção para serem um sector bem gerido, eficiente, muito melhor do que o é, por exemplo, em Inglaterra. Entra--se numa farmácia portuguesa e fica-se surpreendido com a informática, com a gestão de "stocks"… Na base disso está uma regulamentação favorável que cria prosperidade. Mas se formos falar na indústria exportadora, não é nada disto. É gente que luta pela sobrevivência, com uma dificuldade permanente para saber se no dia seguinte ainda está viva, não tem nenhuma protecção. Esse é outro ponto que ninguém percebe: quando protegemos metade da economia, estamos a discriminar a outra metade. Quando damos à EDP condições de rentabilidade extremamente favoráveis, estamos a obrigar toda a gente a pagar energia mais cara.

Os Governos receiam que o mercado funcione?
Pois claro, porque quanto mais força tem o mercado, menos poder tem o Governo. O Estado está muito presente na economia e está-o cada vez mais também porque os nossos governantes são habilidosos em reforçar esse peso do Estado.

O Estado tem de ter menos força?
Eu gostava que o Estado tivesse muita força naquilo em que é indispensável: na Justiça, na diplomacia, na defesa, nos sectores sociais, na Segurança Social, Saúde, Educação. Aí é que eu gostava que o Estado fosse poderoso, eficaz, moderno, inovador. Mas não: o Estado está mais preocupado em manter este sistema de controlo e que é opressivo do que executar bem as suas funções.

Nos países como a Irlanda ou a Finlândia, que cita, o Estado também está muito presente.
Eu defendo o papel do Estado como ele existe na Finlândia, na Suécia ou na Noruega. Um Estado com um respeito extremo pelo mercado e com uma reacção visceral contra os interesses instituídos e uma abertura à inovação; um Estado que faz aquilo que só o Estado pode fazer, bem feito. Se é mais Estado social ou menos Estado social, isso é uma questão de preferência do eleitorado, se quer pagar mais impostos ou menos impostos. Mas a questão essencial é saber se queremos um Estado condicionador e limitador como é em Portugal ou aberto e a favorecer a inovação.

O que é um Estado que desenvolva o país? 
Uma política diferente devia reconhecer duas coisas: primeiro, que Portugal é um pequeno país e para ter sucesso tem de utilizar o resto do Mundo como quadro de referência e não estar a pensar apenas na realidade concreta portuguesa; segundo, que há um grande potencial de realização e que esse é que pode ser o grande factor de mudança e portanto orientar a actuação política nesse sentido. O que fazemos é o exacto oposto.

O conceito dos PIN é o melhor exemplo do que estou a dizer: o Estado cria um sistema de controlo opressivo e asfixiante, com um peso brutal da burocracia, que impede os empresários de fazer seja o que for. Depois, aqueles que o Estado escolhe e selecciona, designa como sendo de interesse nacional e cria um regime especial. É uma receita fantástica para dizer: "queremos projectos novos mas controlados por nós, decididos por nós e nós é que dizemos quem é e quem não é". É o regime soviético modernizado.

Apesar dos Simplex.
Isso é tudo fachada. Fale com qualquer pequeno empresário que tenha 50 ou 100 empregados e fale-lhe do Simplex, ele atira--se pela janela. O Simplex não é para eles. Na Administração Pública, o ponto não é o Simplex ou os supranumerários, é entrar-se num serviço qualquer ou numa repartição e perceber que o modelo de gestão e de funcionamento é o mesmo do tempo do Dr. Salazar.

Outro dualismo que está a ser criado pela globalização é entre o capital e trabalho, em benefício do capital.
Mas é também uma questão do País. Temos tido uma política macroeconómica favorável ao capital e prejudicial ao trabalho.

Estamos a falar de quê? Do choque ao ver uma empresa anunciar congelamento salarial porque só vai lucrar 800 milhões de euros este ano?
A questão não é essa. A questão é: porque é que a empresa diz que vai congelar os ordenados e os seus empregados não se vão embora? Porque não há outras oportunidades, porque o emprego não cresce, porque não há procura de gente qualificada. Esse é que é o drama. Se não há projectos novos, não há procura de trabalho, os salários baixam. O facto de os salários estarem a perder poder de compra e da má repartição de rendimentos é consequência do funcionamento do mercado, adverso a quem trabalha.

Uma das coisas mais interessantes do nosso País é termos uma taxa de investimento muito alta. Mas para onde vai esse investimento? Vai quase todo para o sector não transaccionável, o sector próspero, que está protegido. O sector transaccionável, aquele onde está a grande maioria do potencial de crescimento de emprego, não vê um tostão.

O capitalismo triunfou, não houve outro sistema que o vencesse. Mas o capitalismo é amoral, traz desigualdade. É isso?
Discordo. Não há um capitalismo, há vários capitalismos. A ideia central do capitalismo é a ideia do mérito, quem tem mais qualidade é quem deve singrar. Mas no mundo inteiro, e em Portugal, isso é muito evidente, não são sempre os melhores que singram; é quem tem mais poder, é quem tem mais força para controlar a política económica e a organização política.

Lá está: o capitalismo está a trazer desigualdade. 
O bom capitalismo não aparece espontaneamente. É preciso que haja quem regule a concorrência, quem imponha boas regras de "governance" nas empresas, se não o capitalismo descamba.

Diz que a política económica deve assumir que Portugal precisa de olhar à escala global. Mas que recursos temos que nos diferenciem?
Nesta perspectiva, o facto de sermos um país pequeno é uma vantagem. Nós temos facilidade em acompanhar a inovação de base tecnológica e científica. Temos uma qualidade que pouca gente tem: a qualidade de vida. Se quisermos perceber porque é que a Califórnia tem a riqueza que tem é por uma razão simples: qualidade de vida. Todas as empresas que precisam de gente altamente qualificada têm vantagem em colocar-se na Califórnia, para onde toda a gente quer ir. Nós só estamos a tirar proveito disso no sector do turismo, o que é insuficiente.

Veja-se o caso da Siemens: instala em Portugal um centro de investigação e tecnologia com 1.500 engenheiros. Porquê? Primeiro, porque há bons engenheiros em Portugal; segundo, porque é muito fácil trazer engenheiros estrangeiros, eles gostam de viver cá; terceiro, porque a partir daqui se pode facilmente montar uma unidade de negócios para o Mundo inteiro, pois gostamos da interacção com o estrangeiro. Este é um exemplo evidente do que é uma estratégia que tira proveito dos nossos trunfos e da realidade de que somos um país pequeno.

Silva Lopes dizia há algumas semanas que Portugal é uma sociedade de direitos adquiridos e que foi por isso que se fez a Revolução Francesa. Mas a questão dos direitos adquiridos é também corporativa e, nesse sentido, não parte do Governo.
Não acho. Os nossos políticos têm apresentado muito habilmente este problema dos direitos adquiridos como sendo um problema dos sindicatos, dos trabalhadores, dos professores. Mas o problema principal dos direitos adquiridos é dos patrões. Aí é que estão os direitos adquiridos.

No final desta conversa, apetece concluir que recomenda que seja criado uma entidade reguladora para o Governo...
A entidade existe, é o povo. É isso que é suposto a democracia fazer.