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terça-feira, março 12, 2013

No dia em que Raul Brandão faria 146 anos



Quando morreu, em 1930, Amâncio Cabral escreveu sobre Raul Brandão na Ilustração (revista que existiu de 1926 a 1939, e que pode ver-se, e vale a pena ver, na Hemeroteca Digital):

"O que Raul Brandão tinha e os demais, raramente, têm não se aprende nem se ensina. (...) O artista de olhos claros que desapareceu era demasiadamente homem para ser estátua; o seu coração pulsava demais pelos que sofrem e choram e gemem doloridos, para poder atingir o sarcasmo e a frieza analítica que caracterizam a maioria dos génios catalogados, gigantes de mão dura que nos amarfanham e plasmam os sentidos sem perder a sua inalterável frieza, a frieza do mármore incomovivel de todos os monumentos. Mas a sua silhueta, aureolada da ternura infinita da sua obra melancólica, mais há-de crescer, cada vez mais, pois quanto mais distante estiver a sua vida terrena, mais a sua arte e a sua espiritualidade hão-de estar connosco."

Um ano depois da sua morte, a mulher, Maria Angelina, partilhava "O pobre de pedir", o último livro de Raul Brandão, pedindo-lhe desculpa pelo "atrevimento", mas dizendo que não sabia se devia "guardar numa gaveta" o livro em que "há páginas mais belas em dor, em humanidade, do que as Dostoievski".

Fica o excerto, tão actual, no dia em que Raul Brandão faria 146 anos.

"Já não posso com estes tipos. A aldeia está a transformar-se numa coisa amarga, numa coisa vasta e amarga, que se não fez para os meus nervos delicados. A verdadeira dor e a verdadeira piedade têm um peso insuportável. Já não posso. Já não posso com esta mulher que passou por mim e olhou para mim - e eu fiquei para sempre ligado à sua figura inexpressiva e gasta -, nem com o cego das Uveiras, que a cegueira tornou mais alto, e que não bole, fixando o céu, como se esperasse do céu um acto extraordinário, nem com todas estas figuras escavoncadas, que passam os dias da vida monótona, repetindo os mesmos gestos, cheios de terra e em contacto permanente com a terra:

- E Jesus que não vem!
Já muitos o viram. É um pobre - é um pobre de pedir -, é um fantasma. Ninguém sabe dizer como é esse vulto que desaparece na volta dos caminhos. Não traz sacola, e não passa talvez duma sombra. O seu silêncio mete medo. Viram-no, e quem o vê fica atónito como o Manco, que anda desvairado pelo alto dos montes, a desafiar o vento com um pau e a pedir lume ao fogo dos relâmpagos. Viu-o o senhor José, espesso como granito, que nunca pôde comunicar comigo. Viu-o e calou-se. Mas sei que viu o pobre, porque se pôs a olhar para mim duma maneira singular... e o Manco teima e diz, com a ponta do cigarro requeimando ao canto da boca:

- Jesus Cristo há-de voltar para nos dar a Terra.
- Voltar?!
- Os pobres hão-de ser sempre pobres."

domingo, fevereiro 24, 2013

Raul Brandão: A pedra ainda espera dar flor



Há pelo menos três ou quatro coisas que se sentem quando se consegue responder com facilidade à pergunta difícil: Qual é o teu escritor preferido? 1) Sentir que seria capaz de dizer de cor páginas inteiras de vários livros, à força de tantas vezes os ter lido (presunção imbecil); 2) que o escritor e a sua obra não são suficientemente reconhecidos e bem tratados, o que se reflecte logo numa procura que passa muito mais por alfarrabistas e bibliotecas do que por livrarias; 3) a angústia de, achando que já se leu tudo, não ter mais nada para ler desse autor; 4) uma alegria gigantesca quando alguém se dedica a vasculhar o baú do dito escritor e publica inéditos.

Raul Brandão (1867-1930) é o meu escritor preferido de sempre. E nunca me conformei com a falta de popularidade dele. Nem sequer a entendo. Por estes dias, Vasco Rato ofereceu-nos, mais uma vez, um presente maravilhoso: "A pedra ainda espera dar flor", uma compilação de textos extraída de quase quarenta publicações de todo o tipo, com cinquenta inéditos. Um milagre.

"E tudo isto cabe dentro de um caixão de pássaro! Cabem os dias e as noites, os monólogos infindáveis; cabe a ternura e a dor, cabem todas as construções imaginárias que nos sustentam. A vida, que é tão grande, não tem peso, o sonho sem limites não tem peso... Cabe ali tudo o que maquinou e remoeu e que é infinito ao pé desse farrapo inútil.

Agora que me vou despedir dela para sempre, tenho de confessar a mim mesmo que sob essa agitação perpétua, sob esse desespero perpétuo, só havia sonho e ternura.  Isto durou um momento, mas durante esse momento, que é a eternidade, arcou com a vida, atreveu-se a disputar à desgraça os últimos restos de ilusão, não se conformou com a desgraça num debate que só terminou quando foi ao fundo, talvez melhor fosse a gente deixar-se ir logo ao fundo... Mas ela não pôde: tinha de defender a vida dos seus e defendeu-a até cair amachucada por aquelas mão de ferro que não perdoam nem quebram. Tinha de defender o seu sonho, e defendeu-o até tombar exausta, combatendo pela vida viva que nos acompanha até ao túmulo.

Talvez o seu sonho fosse inútil. O sonho dos humildes é quase sempre inútil. Talvez. Mas nela entram, como nos sonhos grandiosos, como em todos os dramas da existência, as estrelas, o céu e o inferno. Entra Deus. E isto pesa toneladas. No desta figura que nunca sucumbiu estava também uma ternura extraordinária. Até o seu desespero era ternura. E isto tudo, que exige um tablado desmedido e que liga cada ser ao vasto universo, cabe agora entre quatro tábuas de forro."

(A Morta, Maio de 1924)

sexta-feira, fevereiro 22, 2013

Viagens ao sofrimento do povo português



Textos dispersos de Raul Brandão são um espelho perfeito da sociedade portuguesa entre finais do século XIX e as primeiras décadas do XX. Fundamental.



Há páginas inesquecíveis na literatura portuguesa. E algumas delas foram escritas por Raul Brandão, a começar por "Húmus", livro sobre as incertezas da existência e sobre os homens que, olhando para o universo, procuram respostas sobre o mal. Lá se escreve, de forma cortante: "A honradez deste homem assenta sobre uma primitiva infâmia. O interesse e a religião, a ganância e o escrúpulo, a honra e o interesse, podem viver na mesma casa, separados por tabiques. Agora é a vez da honra - agora é a vez do dinheiro - agora é a vez da religião. Tudo se acomoda, outras coisas heterogéneas se acomodam ainda. Com um bocado de jeito arranja-se sempre lugar nas almas bem formadas". Raul Brandão tinha uma pena iluminada: as suas frases são sinais de sol e sombra, de dúvidas e algumas certezas. Mas, sobretudo, conseguiu descreveu o país e o seu povo, os seus sonhos e superstições, como poucos outros. Fala da Decadência e por isso consegue ser tão actual."A Pedra ainda espera dar flor", uma compilação de textos dispersos escritos entre 1891 e 1930, com uma sólida organização de Vasco Rosa, ajuda-nos a conhecer melhor o seu mundo. Os seus textos sobre os ciclos do tempo são de uma beleza estonteante (leia-se "Maio", por exemplo), ou sobre a cultura portuguesa revelam a solidez do seu pensamento (fala-nos de António Nobre, de Eça, de Camilo, de Almeida Garrett, de Teixeira de Pascoaes, de Fialho de Almeida, dos Bordallo Pinheiro, com uma elegância e conhecimento únicos), do teatro ou dos pescadores. Fala da vida e da dor, temas sempre tão presentes em toda a sua obra e isso acaba por nos tornar mais ricos. Está aqui a alma, o sangue e o suor do povo português, a viver sempre entre a pobreza e a decadência, com momentos de euforia porque julgou descobrir o destino.


Há uma lógica de derrocada total nestes textos. E eles são uma boa forma de partirmos para os seus livros (não só "Húmus" mas também "Os Pescadores", "As Ilhas desconhecidas" ou "História de um Palhaço". Em "O Diário de K. Maurício", há uma frase que parece escrita para a história de Portugal e dos portugueses: "Habituou-se a sonhar e a ter medo de viver". Às vezes, ao lê-lo, parecemos estar a ler poesia em forma de prosa, tal a riqueza das imagens que desfilam defronte dos nossos olhos. Este livro agora editado, que nos traz textos de diferentes fases da vida de Raul Brandão, mostra-nos a capacidade que tinha para ver o horizonte sem preocupações de fronteiras no seu afã para desvendar o destino dos homens. Depois há a vertigem da dor sempre presente nas suas palavras: "os mais destemidos pescadores portugueses são os poveiros: quase sempre o seu túmulo é o fundo do mar". Que palavras mais fortes servem para descrever o sofrimento do povo português, o trabalho duro para garantir a fuga ao limiar da pobreza.

É isso que sobretudo fascina na escrita de Raul Brandão: mesmo quando fala da dor e do mal, faz isso de forma poética, como se as palavras pudessem aveludar os sentimentos e estes não fossem espinhos de uma rosa. Bonita mas que pica. "A pedra ainda espera dar flor" é uma forma magnífica de procurarmos descobrir a sua obra.

[Fernando Sobral, hoje, no Jornal de Negócios]

segunda-feira, dezembro 05, 2011

Raúl Brandão - 81 anos depois...

A maioria adora mitos. Ontem só se falava de Sá Carneiro, 31 anos depois da sua morte. Eu adoro mitos. Hoje só falo de Raul Brandão, o maior escritor português, 81 anos depois da sua morte - 5 de Dezembro de 1930.

"O homem prende-se a muitas coisas inúteis: riqueza, ambição, interesses mesquinhos: vive emaranhado numa teia. De forma que não tem tempo de ver, nem de ouvir, nem de se conhecer. Quantas criaturas existem que nunca olharam para o céu? Natureza, árvores, montes, rios, esse pélago que vejo do meu quarto deixa-os indiferentes, as horas de preguiça e de sonho deixam-os indiferentes. Nunca tiveram tempo para amar as coisas simples e grandes da vida. O que é eterno não o viveram. Alguns morrem sem terem reparado que existiram. (...) Habituar-se a gente a viver com ideias simples é como habituar-se a andar com fatos velhos e rotos. Indigna os outros. De forma que tem de se viver arredado.Para se ser feliz na vida é preciso ser-se pobre. Sentir-se que o pão que se come não é tirado a nenhuma boca, nem o lume que nos aqueceroubado a alguma velhice friorenta. As coisas desprezadas são as melhores da vida: a paz, as horas esquecidas, a água desnevada que se bebe, os minutos de silêncio em que se sente Deus connosco. De que serve acumular ódios, ambições, riquezas? Não é isto demais para uma vida terrena? A vida artificial é que transformou o homem. Da vida artificial é que nasceu o orgulho, a ambição, os erros, o crime, e até a piedade. Se todos vivêssemos da verdadeira existência, o homem seria feliz. Como se pode redimir tudo isto? Pregando o Amor. Só o Amor nos pode ainda salvar."
Raul Brandão, Os Pobres

domingo, outubro 16, 2011

O assombro da incoerência do nosso ser


Sou um mero espectador da vida, que não tenta explicá-la. Não afirmo nem nego. Há muito que fujo de julgar os homens, e, a cada hora que passa, a vida me parece ou muito complicada e misteriosa ou muito simples e profunda. Não aprendo até morrer - desaprendo até morrer. Não sei nada, não sei nada, e saio deste mundo com a convicção de que não é a razão nem a verdade que nos guiam: só a paixão e a quimera nos levam a resoluções definitivas.

O papel dos doidos é de primeira importância neste triste planeta, embora depois os outros tentem corrigi-lo e canalizá-lo... Também entendo que é tão difícil asseverar a exactidão dum facto como julgar um homem com justiça. Todos os dias mudamos de opinião. Todos os dias somos empurrados para léguas de distância por uma coisa frenética, que nos leva não sei para onde. Sucede sempre que, passados meses sobre o que escrevo - eu próprio duvido e hesito. Sinto que não me pertenço... É por isso que não condeno nem explico nada, e fujo até de descer dentro de mim próprio, para não reconhecer com espanto que sou absurdo - para não ter de discriminar até que ponto creio ou não creio, e de verificar o que me pertence e o que pertence aos mortos. De resto isto de ter opiniões não é fácil. Sempre que me dei a esse luxo, fui forçado a reconhecer que eram falsas ou erróneas.

Raul Brandão, in Se Tivesse de Recomeçar a Vida

sábado, julho 30, 2011

Manoel de Oliveira & Raul Brandão


Ainda não tivemos um filho e provavelmente nunca escreveremos um livro, mas já plantámos uma árvore. Duas, três, quatro. Uma oliveira, um limoeiro, um pinheiro e um medronheiro. Todas têm nome e significado. A oliveira é o Manoel (quase foi Germano - e ele merecia), homenagem ao realizador que nos comove. Vive lado-a-lado com o pássaro de pau que trouxemos de Viana num domingo de sol de Maio, partilha o espaço com a caveira de plástico que roubámos de Woodstock na véspera de Obama ganhar as eleições, o que, na altura, significou devolver-nos a esperança - nos políticos, no mundo, na humanidade, no futuro. O Manoel não é uma árvore cinematográfica, representa sobretudo o espírito das pessoas e das coisas que nunca, nunca deveriam morrer. É lição quando abrimos todos os dias a janela.

O Manoel, o verdadeiro, o Mestre, 102 anos de vida, anunciou esta semana que vai adaptar "O Gebo e a Sombra", de Raul Brandão ao cinema. O filme vai ser rodado em Paris, em Setembro, e falado em francês. Não percebemos o porquê do francês, mas tudo bem. Oliveira pode fazer o que quiser, e querendo fazer Brandão, o nome de baptismo do pinheiro, nome do nosso escritor-fétiche, escritor-obsessão, o nosso escritor maior, até podia fazê-lo em chinês. Contamos os dias para ver.

"O Gebo e a Sombra" é uma peça de teatro escrita em 1923, triste como só os livros de Brandão. É sobre a pobreza, como sempre, sobre a miséria, sobre a desgraça de ser honesto e roubado, de ser honrado e escarnecido, de mentir para manter um sonho - o sonho de morrer sem saber da verdade que dói. Sobre poupar o outro da dilaceração do desapontamento. É um livro magrinho e enorme. "Ou a vida é um acto religioso ou um acto estúpido e inútil".

Diz Gebo, personagem de outras histórias, sempre as mesmas angústias: "Foi tudo inútil? Sinto que todos precisamos de nos sacrificar. Então tu imaginas que eu não tenho também horas de dúvida? De uma tristeza inexplicável, quando ouço uma voz dizer-me baixinho coisas que não quero ouvir. Mas calo-as, finjo que não as ouço. É o meu dever. E teimo: tenho sido sempre um homem honrado, arrastei sempre esta cruz... Tu ouve-la? (...) Os outros estão ricos e eu estou pobre, por causa dos meus escrúpulos? Se soubesses o que isto me custa! O que isto me tem custado de gritos sem ninguém ouvir! Aqui entre nós nunca o contei a ninguém, nem talvez a mim mesmo. Não chores... Às vezes sinto-me tão pobre e tão triste! Vem-me um negrume, é mais que tristeza, é talvez a morte... Um homem deve ser honrado acima de tudo, o seu dever é ser justo e honrado ou é enriquecer?"

quinta-feira, abril 28, 2011

A morte do palhaço


De uma galeria de personagens gastas pela “existência, pela ambição e pela febre” emerge a figura de um Palhaço, que exprime melhor do que ninguém o “lado grotesco da desgraça e a amargura do riso”. À parte o desespero, poderíamos dizer deste Palhaço criado por Raul Brandão (1867-1930) que tem dentro de si todos os sonhos do mundo, “como se um bicho de esgoto criasse asas e se pusesse a voar”. Quando passaram 20 anos, "O Bando" relê um texto onde já foi feliz e revisita a música composta por José Mário Branco, mas a este gesto dificilmente poderíamos chamar reposição, porque no teatro aquilo que foi não voltará a ser. E porque no caso concreto destes incansáveis alquimistas, a inscrição de um espectáculo numa nova paisagem cénica e dramatúrgica implica necessariamente outras formas de organização e percepção. A Morte do Palhaço que co-produzimos e apresentamos no claustro do Mosteiro de São Bento da Vitória é uma visão em tudo diferente daquela estreada em Lisboa no ano de 1991, na sala do Teatro Maria Matos. Quando passaram 20 anos, João Brites regressa inquieto aos mesmos pontos de interrogação: “Quais são os nossos sonhos e quimeras? E que força precisamos para os atingir? E quem são os nossos pares nesta luta?”

uma criação Teatro o bando; texto Raul Brandão: dramaturgia e encenação João Brites libreto Nuno Júdice composição musical José Mário Branco espaço cénico Nuno Carinhas direcção musical Jorge Salgueiro corporalidade Jo Stone figurinos e adereços Clara Bento interpretação Ana Brandão, Guilherme Noronha, Paulo Castro (actores), Diogo Oliveira, Inês Madeira, João Sebastião, Sara Belo, entre outros (cantores), Sandra Rosado (bailarina) co-produção Teatro o bando, TNSJ
Mosteiro São Bento da Vitória, PortoAté 15 de Maio

quinta-feira, março 24, 2011

I

Pegou num lápis
e escreveu na parede:
intervalo
de vinte minutos
para sonhar.

domingo, dezembro 05, 2010

80 anos depois da morte de Raul Brandão


[Há pelo menos dez anos que espero ver Raul Brandão tratado dignamente nas páginas dos jornais. Há quase vinte que o leio obssessivamente. Com uma única dificuldade: encontrar os livros. Muitos dos que ainda tenho foram fotocopiados da Biblioteca, e só a muito custo têm sido substituídos por livros a sério. Mesmo nos alfarrabistas não é fácil. E, de certa forma, isto servirá para justificar o desinteresse dos jornais pelo escritor: se aparentemente ninguém o lê... Mesmo hoje, passam 80 anos sobre a sua morte, não houve ninguém que se lhe dedicasse. O máximo que li, discretamente aqui e ali, foi o anúncio a uma peça de teatro baseada em textos dele, que estreou ou vai estrear em Lisboa. Há uns 15 dias, o Expresso dedicava, e bem, páginas sem fim aos cem anos da morte de Tolstoi. É curioso, porque Brandão é justamente comparado aos escritores russos, sobretudo a Dostoievski. Mas sobre Brandão nem uma linha. Tudo bem. Não sei se toda a gente consegue eleger um escritor preferido, mas Raul Brandão é definitivamente o meu. Orgulhosamente o meu. Desde o primeiro dia que o li, teria 13 ou 14 anos. E de cada vez que volto a ele, parece-me mais actual, mais pertinente, mais profundo. E mais, mais, mais bonito. Por isso, criei um blogue com informação sobre o autor, aqui: http://www.brandaoraul.blogspot.com/.  Ainda está no início, que não tenho tido muito tempo, mas há-de ficar completo. Ou tão completo quanto possível. Espero só que sirva para que Raul Brandão possa ganhar mais leitores, sendo certo que quem realmente ficará a ganhar é quem é o ler.]

Raul Brandão é o poeta da prosa, toda a sua prosa é pura poesia, mesmo se falhou redondamente quando tentou escrever poesia pura. Restou apenas um poema que deve andar por aí perdido algures... Morreu há 80 anos. E ninguém me tira da cabeça que deveria ser leitura obrigatória na escola.

Quando era pequeno, Raul Brandão tinha se si próprio a imagem "de um ser extasiado que abria os olhos atónitos para o mundo, todo frenesim e paixão." A extensa obra que publicou é toda reflexo disso, como se nunca ao longo da vida tivesse conseguido deter o espanto e caísse sempre nas mesmas armadilhas, recusando aprender qualquer tipo de lição que porventura o tornasse menos vulnerável. Os livros estão cheios de sábios e de desgraçados, de pobres de pão e de pobres de espírito. De loucos e de sonhadores. O sonhador é o seu alter ego, sempre. É o homem que se fecha no sonho porque não entende a vida, não se adapta. Diz ele n'A Morte do Palhaço: "Da existência ficara-lhe o olhar desvairado, para dentro, de quem segue na alma um sonho e anda na vida por acaso, o olhar daqueles em quem a vida interior é enorme e que ficam surpreendidos quando a dor lhes diz que o mundo existe." Daí que muitos digam que a quem quiser conhecer a vida do autor bastará ler a sua obra, toda ela uma não assumida autobiografia espiritual. Ocupa-se de três temas essenciais: Deus, a Morte e o sentido (absurdo?) da Vida. Aos 50 anos, concluiria: "A que se reduz afinal a vida? A um momento de ternura e mais nada."

Foi o conselho recebido um dia, em Lisboa, por um anarquista, que determinaria o denominador comum de tudo o que produziu: "Se quer ser um escritor, fale dos pobres." Brandão fala sempre dos pobres. Mesmo se ele não era um pobre, em nenhum dos vastos sentidos que lhe dá, conhecia-os por dentro com rara ciência. E inquietava-se tanto com a dor dos outros como com a sua condição de privilégio. Os Pobres e A Farsa são dois livros fundamentais para o perceber. Com Húmus, um longo monólogo sobre as contradições que implicam aderir ou rejeitar um sistema, por muitos muito mais tarde considerado a sua obra-prima, completa uma espécie de trilogia. Na obra inteira, e como ninguém, Brandão criou personagens inesquecíveis: K. Maurício logo à cabeça (há quem diga que é equivalente ao Werther de Goethe), o Pita, o Gebo, a mulher do Gebo, a Mouca, a Candidinha, o Gabiru (alter ego confessado), o Astrónomo, a Velha, as prostitutas... Tudo gente complexa, humilde, descalça, que ou sofre ou se vinga da vida no sonho.

RB padeceu sempre da falta de leitores, já na altura isso era assunto, o que fez com que nunca confiasse verdadeiramento no valor do que escrevia. Só Guerra Junqueiro, que assina uma absolutamente magnífica carta-prefácio em Os Pobres, cedo arriscou dizer que estariamos diante de "um grande visionário, quase desconhecido e genial". A verdade é que muito perto da morte - morreu aos 63 anos -, Brandão continuava ainda a esperar caução dos amigos para o que publicava. Só com Os Pescadores conseguiu sucesso imediato, o que não deixa de ser curioso. Pessoalmente, é talvez o livro de que gosto menos, mesmo se ainda assim muito. Mas foi com esse livro que conseguiu ganhar a atenção dos jornalistas e dos críticos, classe a que de resto pertencia, e deixar de ser totalmente ignorado. Foi aí que as suas obras, até então de parcas tiragens, começaram a ser reeditadas. E foi a partir daí que conseguiu dedicar-se ao teatro, a sua grande paixão.  O pobre de pedir, outra vez romance, outra vez feito de diálogos interiores, foi o seu último livro, publicado postumamente.

segunda-feira, junho 14, 2010

Raúl Brandão: A morte do palhaço


"Da existência ficara-lhe o olhar desvairado, para dentro, de quem segue na alma um sonho e anda na vida por acaso, o olhar daqueles em quem a vida interior é enorme e que ficam surpreendidos quando a dor lhes diz que o mundo existe."

quinta-feira, abril 15, 2010

[Nan Goldin]
"Assim é a vida. É um rio de lágrimas, de brados, de mistério. A onda turva põe as mais fundas raízes à mostra, a torrente leva consigo de roldão a desgraça e o riso; sem cessar carreia este terriço humano para uma praia, onde as mãos esquálidas dos que sofreram encontram enfim a mão que os ampara, onde os olhos dos pobres, que se fartaram de chorar, ficam atónitos diante da madrugada eterna, onde todo o sonho se converte em realidade..."
Raul Brandão in Os Pobres

quinta-feira, março 05, 2009

Casa de Ló


O Porto está repleto de espaços alternativos, trendy, cosmopolitas, espaços todos inaugurados nos últimos tempos e imediatamente catapultados para o roteiro fashion da cidade. Mas nenhum, absolutamente nenhum, é tão perfeito quanto a Casa de Ló, na Travessa de Cedofeita (a Travessa é uma espécie de Galerias de Paris - o mini Bairro Alto do Porto-, mas na versão freak, logo, incomparavelmente melhor).

Não é só a música que, ao contrário dos outros sítios, é boa; não são só os empregados; não são só os doces caseiros ou o fabuloso chá dos Açores; nem é só aquele maravilhoso terraço ou só aquelas magníficas mesas de lousa onde é possível desenhar enquanto se toma café. É isso tudo, mas é também a colecção de livros. A preço de chuva.

Encontrei lá o "Diário de K. Maurício", de Raul Brandão. Habitualmente, essa preciosidade constitui a primeira parte de "A morte do palhaço". Para o caso é indiferente. Quem venera Raul Brandão sabe bem como um e outro livro são difícieis de encontrar. Por cinco euros é puro milagre.

terça-feira, janeiro 30, 2007

Raul Brandão


Não é novo: é verdade que não me conformo com a falta de popularidade de Raul Brandão, espécie de Dostoievsky português. Por estes dias, a Relógio D'Água fez de mim uma pessoa mais feliz ao reeditar, na colecção "Obras Clássicas da Literatura Portuguesa - Séc. XX", um dos meus livros de eleição, que nunca consegui ter senão por fotocópias: "A morte do palhaço e o mistério da árvore". Com um bónus precioso: "História dum palhaço (A vida e o diário de K. Maurício). A edição, na verdade, é de Novembro de 2005. Por alguma estranha razão, só a descobri agora.
História dum palhaço
"Vi que a multidão é má e se ri e se despedaça, indiferente, criaturas; vi que há homens tão desgraçados que, se têm dores, são ridículas. As suas amarguras fazem rir a multidão. Nascem para sofrer, eternamente perseguidos, encolhidos, habituados até á desgraça... Outros têm na vida um método e vão por aí fora e tudo subordinam às suas ideias, torcendo a vida para que ela caiba dentro de regras. Riem, choram, atropelam-se. Sofrem e fazem sofrer".
A morte do palhaço
"Encontro a dor no fim de tudo. Não vou para um prazer sem pensar no fim, na desgraça em que tudo se aninha, no tédio de ter realizado... E na minha alma se fez pouco a pouco um grande vácuo, um amargo tédio por a vida ser só isto, por o sol brilhar de uma só forma e por já ter imaginado todas as coisas... E no entanto eu não vivi senão por imaginação... Deixa-me explicar-te isto melhor: é como se eu fosse composto de diferentes seres, cada um com as suas ideias, os seus sonhos e as suas ilusões, e por cada tarde que finda, na luz que cerra os olhos, um desaparecesse para sempre, levando-me uma parte de ventura e de tristeza... Eu nunca estou só. Quando me isolo é que estou mais acompanhado."

domingo, agosto 20, 2006

Raul Brandão


O melhor presente que pode dar-se ao leitor de um escritor de quem já se leu a obra inteira várias vezes é a descoberta de textos inéditos. Vasco Rosa fez isso por mim. Acabo de adquirir "Lume sobre cinzas" e "Paisagem com Figuras" de Raul Brandão (1867-1930) - o melhor escritor português de sempre. O primeiro volume reúne textos dispersos, ensaios dramatúrgicos e apontamentos de viagens, escritos entre 1887 e 1930. O segundo contém retratos de escritores como Camilo Castelo Branco ou Eça de Queirós. Voltarei ao assunto quando acabar de os ler.

sexta-feira, novembro 18, 2005

Raul Brandão (1867-1930)

Em circunstâncias normais, no próximo dia 4 de Dezembro, alguém se lembraria de escrever sobre Raul Brandão, escritor do Porto falecido há exactamente 75 anos. Infelizmente, sou capaz de apostar que o aniversário da morte de um dos melhores escritores portugueses de sempre passará, discretamente, sem ninguém dar por ela.
Uma citação, apenas, de "A morte do palhaço", publicado em 1926:
"Da existência ficara-lhe o olhar desvairado, p'ra dentro, de quem segue na alma um sonho e anda na vida por acaso; o olhar daqueles em quem a vida interior é enorme e que ficam surpreendidos quando a dor lhes diz que a morte existe."