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domingo, dezembro 28, 2014

Da plateia em 2014


Coriolano, Shakespeare, Nuno Cardoso, Teatro Nacional São João, Porto *****
Grind, Jefta van Dinther, Guidance *****
Mozart concert arias - Un moto di gioia, Anne Teresa De Keermaeker, Teatro Rivoli, Porto ****
Hale, Aleksandra Osowics, Filipe Pereira, Helena Martos Ramírez, Inês Campos e Matthieu Ehrlacher, Guidance ****
A Farsa, Raul Brandão, As boas raparigas, Black Box, Porto ****
Trainsposition#2, Emanuel Gat, Ballet de Lorraine, Guidance ***
Por minha culpa minha tão grande culpa, Mara Andrade e Marco da Silva Ferreira, Guidance ***
Oxitocina, Mara Andrade, Guidance ***
O que fica do que passa, Teresa Silva e Filipe Pereira, Guidance **
Hoje, Tiago Guedes, Guidance **
Agapornis, Teatro de Marionetas do Porto, Teatro Carlos Alberto, Porto *

Cildo Meireles, Museu de Serralves ****

sábado, outubro 11, 2014

Teatro de Marionetas do Porto: Agapornis


Tão desilusão....

(Uma estreia absoluta a marcar a abertura de mais uma edição do FIMP, que nos chega pelas mãos do Teatro de Marionetas do Porto, companhia absolutamente central na afirmação e consolidação de um festival que cumpre vinte e cinco anos de existência. Agapornis é uma incursão adulta e para adultos pelo universo literário de Anaïs Nin (1903-1977), desviando para a cena as fantasias eróticas das personagens femininas que habitam a transgressiva obra da autora de Uma Espia na Casa do Amor ou A Casa do Incesto, bem como de um celebrado, e controverso, Diário. Convocando marionetas, objetos e dispositivos cénicos, Agapornis apresenta-se como um lugar fértil e inquieto de cruzamento de linguagens, um dos traços distintivos do Teatro de Marionetas do Porto. Outra maneira de dizer que Isabel Barros – que divide com Edgard Fernandes e Rui Queiroz de Matos a autoria do espetáculo – mantém bem vivo o legado de João Paulo Seara Cardoso.)



domingo, março 02, 2014

Poussière d’étoiles - “Pó de Estrela”


Absolutamente maravilhoso o trabalho de Olivier Valsecchi
nesta chuva de areia
a que o fotógrafo francês preferiu chamar
Pó de estrela.

sexta-feira, fevereiro 14, 2014

sábado, fevereiro 08, 2014

“Por minha culpa, minha tão grande culpa”


“Oxitocina”, de Mara Andrade
“Por minha culpa, minha tão grande culpa”, de Mara Andrade e Marco da Silva Ferreira

 “Transposition#2”, da CCN – Ballet de Lorraine
“Objets re-trouvés”, de Mathilde Monnier

O GUIdance – Festival Internacional de Dança Contemporânea, em Guimarães, veio transformar o frio mês de Fevereiro num dos meses mais interessantes do ano. Quinze espectáculos de dança contemporânea, com cinco estreias (duas absolutas e três nacionais) em meia dúzia de dias é mais do que pode pedir-se. 

sexta-feira, fevereiro 07, 2014

Coriolano, Shakespeare



T.S. Eliot considerava Coriolano superior a Hamlet. No duelo de tragédias políticas de Shakespeare, a densidade do príncipe da Dinamarca ficaria muito aquém da do general romano, mesmo se ambas são histórias de vingança e traição e ambas perseguem o mesmo fim: representar uma elegia da moralidade. Hamlet "é uma confusão, cheia de cenas supérfluas", escreveu Eliot. "É a Mona Lisa da literatura”; já Coriolano é uma história simples, com sentido, não apenas um conflito doméstico, e que se conta num parágrafo.

O general que dá nome à peça é o herói de guerra responsável pela derrota do exército dos volscos. Como prémio, a nobreza pretende que ascenda de militar a político, candidatando-se a cônsule. Mas para isso depende do voto do povo. E Coriolano é o mais anti-povo possível. Despreza a plebe, odeia massas, tem uma inabilidade magistral para fazer campanha, para dizer o contrário daquilo que pensa e sente e também para ser adulado (e aqui, numa ambiguidade de precisão extraordinária, quase, quase gostamos dele, dessa inflexibilidade que sabe quase a incorruptibilidade). A sua fúria e visão antidemocrática levam-no não ao poder, mas ao exílio. E, mais tarde, a juntar-se aos volscos que antes derrotara com a inversa missão de vingar-se de Roma. No momento final, contudo, Caio Márcio, verdadeiro nome do herói trágico, também ele afinal manipulável, acaba por ceder ao apelo pacificador da mãe, única figura a quem se ajoelha. Coriolano, inflamado, impetuoso, radical, orgulhoso, representa assim uma tripla traição: primeiro ao povo, depois a Roma e, por fim, ao exército que o acolhera. Morre assassinado.

Não sabemos se Nuno Cardoso, como T.S. Eliot, prefere Coriolano a Hamlet. Sabemos que nunca encenou Hamlet, e que começou há sete anos a trabalhar numa espécie de trilogia shakesperiana sobre o poder. Depois de visto Coriolano - em cena no Teatro Nacional São João, no Porto, até dia 16 -, “Ricardo II” (2007) e “Medida por Medida” (2012) parecem apenas ensaios menores, parte do processo para chegar aqui. Aqui a uma peça de três horas (que voam) que nos confronta com o cidadão que queremos ser, com os políticos que estamos dispostos a eleger ou a banir, com as revoluções que estamos dispostos a encetar ou a recalcar. O encenador confirma a impressão: “Coriolano é o corolário perfeito para esta incursão shakespeariana. Neste momento, esta peça e as características do seu herói fazem dele catalisador de um conjunto de questões sem resposta, mas com muita angústia, que me assaltam na minha conduta como cidadão e homem”.

As angústias dele são as nossas. “Tem a ver com aquilo de que se fala muito em Portugal, que é a falência do regime. Tem a ver com a fraqueza e a tristeza de um jogo político ligado a interesses (…), tem a ver com este medo que arautos do Olimpo usam para nos incitar à revolta ou para nos chamar lamechas e tratar como gado”. A peça, continua, “deixa à mostra o que todos querem disfarçar, uma polis assente no reconhecimento de uma estratificação social, na manipulação, na objectificação das pessoas”.

Sempre que se encena ou adapta Coriolano, sublinha-se a actualidade de uma peça escrita há quase quinhentos anos. E volta a ser verdade. Vale a pena parar para pensar em como o texto sobrevive ao tempo. E, no caso, também ao contexto – real (em Cardoso, sempre com piscadelas de olho ao país) e cénico. Em “Ricardo II”, Nuno Cardoso reduziu o reino a um campo de futebol e substituiu o trono por uma cadeira de praia. Em “Medida por medida” colocou a acção em plena auto-estrada. Desta vez, de forma menos torcida, mais óbvia, porventura também mais eficaz, fez das escadas do Parlamento o cenário de guerra. E nós estamos todos lá representados, vemo-nos ao espelho – e isso é verdadeiramente impressionante. Como diz Cardoso, está ali um “regime com dois tronos em que quem não merece manda, e quem merece deixa mandar”.

Já o disse mil vezes, Nuno Cardoso é, de longe, dos meus encenadores preferidos. Nenhum outro me deixa a ressacar no intervalo das criações. Por tudo. Pelos dramaturgos e pelos textos que escolhe, pela inteligência com que os encena, pela equipa técnica que o acompanha quase sempre – sim, o Fernando Ribeiro (cenografia) e o Álvaro Correia (luz) são mesmo maravilhosos -, pelos elencos quase sempre inatacáveis. E sobretudo pelo denominador comum que ressalta do conjunto dos seus trabalhos: os valores no lugar certo. No capítulo shakespeareiano, no entanto, tive mais dificuldade em render-me. Excepto neste retumbante final, com Coriolano. Ainda por cima, teve o dom não de revelar, que estava revelado, nem de confirmar, que estava mais do que confirmado, mas de mostrar com total exuberância o gigantesco actor que é Albano Jerónimo no papel que muitos descrevem como o de um “aleijado emocional”. Seria injusto dizer que ele é a peça - não é, mas é grandioso.

tradução - Fernando Villas-Boas | encenação - Nuno Cardoso | movimento - Victor Hugo Pontes | cenografia - Fernando Ribeiro | guarda-roupa - Alejandra Jaña | desenho de luz - José Álvaro Correia | música - Rui Lima e Sergio Martins | apoio dramatúrgico - Ricardo Braun | interpretação - Albano Jerónimo, Afonso Santos, Ana Bustorff, António Júlio, Catarina Lacerda, Daniel Macedo Pinto, Joao Melo, Luís Araújo, Mário Santos, Pedro Frias, Ricardo Vaz Trindade, Rodrigo Santos, Sérgio Sá Cunha| produção executiva - Carla Fritz | assistente de produção - Alexandra Novo | gestão e administração - Hélder Sousa | Co-produção - Teatro Nacional D. Maria II, Ao Cabo Teatro, Teatro Do Bolhão, Centro Cultural Vila Flor, Teatro Viriato, Teatro Nacional São João

sábado, dezembro 28, 2013

Da plateia em 2013

[Oleg Oprisco]

Class Enemy, Nuno Cardoso **
A visita da velha senhora, Nuno Cardoso *****
Gertrude, Simão do Vale **
A ballet story, Victor Hugo Pontes ***

domingo, novembro 10, 2013

Class Enemy


Algum dia teria de acontecer haver uma peça de Nuno Cardoso a que não nos rendêssemos. Não só não gostámos, como nos foi penoso permanecer no auditório (gelado!!!) do Teatro do Bolhão até ao fim. E esta sensação começou logo no início. Class Enemy, de Nigel Williams, escrita em 1978, é um monumental cliché do início ao fim. Desde o texto, o que é compreensível porque é mais do que datado, à - infelizmente - encenação. Os actores, seis miúdos franceses, também dificilmente conseguiriam ser piores. 

quarta-feira, novembro 06, 2013

Luna Andermatt (1927 - 2013)


Entrevista publicada no Weekend do Jornal de Negócios de 2 de Dezembro de 2011
Luna Andermatt vive no Restelo, numa torre de apartamentos onde, em cada janela, o espaço e a vida continuam. A entrevista decorreu com um fundo de ópera, vinda do escritório do marido, Francisco Brás de Oliveira.
Na sala de estar, Luna reuniu recordações, provas de vida e de amor: os trabalhos de iluminura que aprendeu com a mãe; o programa da estreia da Companhia Portuguesa Bailado (no São Carlos em 61). Essa estreia, a casa a vir abaixo, foi uma conquista a dois e, no programa, o marido escreveu: "À loucura queremos dar equilíbrio / Ao medo queremos dar confiança e fé /Ao egoísmo opomos a dádiva de nós mesmos". Luna Andermatt e o marido continuam a querer exactamente o mesmo; exactamente o mesmo é necessário. Todos os dias, Luna Andermatt vai ensaiar para o CCB para estrear, dia 8, com a Companhia Maior (grupo de artistas com mais de 60 anos) a mais recente criação da sua filha, a coreógrafa Clara Andermatt. O corpo nem sempre obedece à mente, mas o fogo, esse fogo ao pisar o palco, não tem dores, não tem rugas, não tem idade.
1. O trabalho no palco tem que ter fogo. Se não tem fogo, não presta. É preciso viver por dentro do trabalho. Se não se vive, não presta. O público percebe muito quando não é sentido. 
Tenho a impressão de que a dança já nasceu comigo. Uma vez, num daqueles eventos do colégio, calharam-me uns versos muito engraçados. Era eu sozinha em palco, com um fato cor de rosa, todo plissado, tinha nove anos. O poema chamava-se "Sempre tive paixão pela dança": "Quando encontro no baile um bom par, não descanso, não paro e não deixo de dançar, de dançar, de dançar…", e fazia assim uns gestos de dança quaisquer, inventados, que ainda ninguém me tinha ensinado. 

2. Creio que as pessoas hoje são mais materialistas. O que interessa é a fatia de pão com manteiga. Mas não é tanto isso que me incomoda - é a falta de sentimentos nobres, de dádiva, nem que seja apenas para com o vizinho. Desapareceram aquelas atenções com que nós nascemos - puxar uma cadeira para o lado, para o outro se sentar, fazer uma delicadeza numa bicha - coisas pequenas, mas que definem o que vai lá dentro. Mas talvez eu esteja a exagerar. Talvez seja porque a televisão gosta mais de nos apresentar dramas. As atitudes nobres não têm atracção para a televisão. 

Quando estou a ver televisão e abrem a boca para discutir política, eu que detesto a cozinha, apetece-me ir para a cozinha. Também há aqueles que falam bem e que ouço do princípio ao fim do discurso, mas esses são poucos em relação aos outros. Repugnam-me as disputas. Não é assim que se conquista. Não é criticando os outros que subimos - a subida está dentro de nós próprios. 

3. Um tio meu, que era governador militar de Lisboa, chamou a minha mãe de parte para uma conversa muito brava: se ela estava a educar-me para eu entrar no Parque Mayer? Eu entrava em óperas no São Carlos. Uma vez, em "Os Pescadores de Pérolas", levava só uma espécie de biquini com um soutien com pérolas e dourados. O meu tio tinha um camarote privativo no São Carlos e eu sabia que ele me estava a ver. Quando cheguei a casa, disse logo: "olha mãe, amanhã tens um telefonema a descompor-te". 

A minha mãe achava bem eu aprender ballet para ser elegante, para ter gestos bonitos, mas não para fazer carreira. Foi o meu marido que me ajudou muito. Conhecemo-nos a bordo de um iate, tinha ele 17 ou 18 anos. Eu sou mais velha dois anos. A minha mãe gostou dele desde que começámos a namorar. Ele incitava-me. Já que tens essa paixão, dizia, cumpre-a. Isso deu-me força. Éramos muitos unidos e tínhamos muita garra, muita gana. 

A ele devo também a estreia da Companhia Portuguesa de Bailado no São Carlos [em 1961]. Não foi fácil. O director do São Carlos exigiu orquestra, não deixava pôr música gravada, e o preço de uma orquestra… Só as partituras da orquestra, na Sassetti, andámos dois anos a pagá-las… E depois era preciso pagar aos artistas e ao maestro. Mas tivemos a casa esgotada. O presidente foi à estreia, era o Américo Tomás nessa altura. E foi tudo com pompa, porque ainda hoje o meu marido não poupa em coisa nenhuma. Eu é que sou o travão. Não tenho outro remédio senão ser poupada, se não já estaríamos na prisão. 

4. A minha avó, pelo lado do meu pai, era alemã, e a família da minha mãe, Luna, vem dos reis de Espanha - ainda tivemos um Papa na família, o Benedito XIII -, de maneira que estes dois sangues têm aqui uma grande efervescência. 

O meu pai era oficial do Exército e morreu quando eu tinha três meses. A minha mãe trabalhava muito, era professora no Instituto de Odivelas e era também uma grande artista. Era iluminista e muito conhecida no estrangeiro. Fez trabalhos para o Hitler, para o Churchill, para o Rei Jorge VI de Inglaterra, e foi convidada pelo bispo da Cantuária para fazer a escritura de casamento da Rainha Isabel. Era uma profissão raríssima, que já não existe, pertencente ao século XVI. Ela só trabalhava em pergaminho - e pergaminho alemão, e não era o pergaminho alemão de hoje nem o da guerra, era o pergaminho alemão de antes da guerra. Ela ensinava-me e dava-me as encomendas mais acessíveis, que fazia questão que eu assinasse, e eu assinava M de [Maria Antónia] Luna. Ainda fiz 80 e tal trabalhos. A minha mãe fez mais de 1300 trabalhos e não fez um único igual a outro. Tinha um gabinete cheio de preciosidades. Trabalhava com ouro em pó e tinha que ser autêntico. Morreu com 82. Nos últimos anos foi viver para nossa casa. Ainda vivíamos na Infante Santo, naqueles prédios altos, onde tínhamos uma vista linda para o rio, e de onde tínhamos visto a inauguração da Ponte 25 de Abril. 

5. Estive em Inglaterra com uma bolsa de estudo e aí aprendi muito, não só tecnicamente. Quando voltei, ainda dancei, mas já estava com a mente só na ideia de criar algo que deixasse raízes. Não havia em Portugal uma companhia oficial, e os bons bailarinos iam para fora. Magoava-me ver tanta gente com valor mas sem futuro. 

Tive muitas desilusões - andei sete anos de gabinete em gabinete -, mas com o David Mourão Ferreira tive ouvidos, porque ele também era um artista e convidou-me para o conselho nacional de cultura e compreendeu a necessidade de dar apoio aos bailarinos.

Realmente orgulho-me muito de ter criado a Companhia Nacional de Bailado, em 1977. 

Parece-me que a companhia foi um embrião, um pontapé. Despertou o interesse e espírito da gente nova na altura e depois a dança teve uma explosão no nosso país. Observei como foi crescendo e fiquei muito feliz com isso. E, então, a dança era uma coisa, depois passou a ser outra, e agora é o futuro. 

6. Eu e o meu marido nunca deixámos de trabalhar. O meu marido continua a ir todos os dias para a Universidade [Lusíada] de que foi um dos fundadores, onde já não dá aulas, mas onde é uma espécie de conselheiro. 

Eu tenho uma vértebra deslocada na coluna, e às vezes quando tenho muitas dores, penso: hoje não vou ao ensaio… Mas saio de casa, vou mesmo, e nunca deixei de ir porque tinha dores. 

Não me vejo numa cama. Morreria de angústia em vez da doença. Se Deus me enviar um relâmpago, agradeço muito, porque quero viver até ao fim. Não sei o que é que me está reservado, mas gostava de morrer de pé.


A subida está dentro de nós próprios.

quinta-feira, setembro 12, 2013

Pedro Burmester

[Foto: Rita Burmester]

2013 ainda não acabou, o Matt Berninger ainda não chegou, e o ano já se fartou de dar-nos concertos para a vida. Mas nenhum dará uma lição tão grande como o de Pedro Burmester na Casa da Música. Porque poucas coisas são mais dignas de celebração do que a honra.

sábado, julho 13, 2013

A visita da velha senhora, Friedrich Durrenmatt


Recuperação de um texto notável, assustador pela falta de bolor. Encenação imbatível, como sempre, de Nuno Cardoso. E uma Maria João Luís como Clarinha, que é uma absoluta perdição. 

quinta-feira, maio 09, 2013

Clarice Lispector - A hora da estrela


Nenhuma exposição sobre um escritor pode ser do tamanho do escritor. Mas a exposição sobre Clarice Lispector, no Museu da Gulbenkian, em Lisboa, no ano em que se assinalam 35 anos sobre a morte da escritora ucraniana, é um bocadinho desapontante. Mesmo a sala dos segredos, um apelo ao voyeurismo emoldurado em dezenas de gavetas que podem abrir-se e vasculhar, não dá de Lispector uma só sombra da sua dimensão. Resta uma entrevista gravada em 1977 na TV Cultura que vale muito a pena ouvir.

Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa
Até 23 de Junho

quarta-feira, maio 08, 2013

O melhor do pior do mundo

Todos os anos, o World Press Photo é um soco no estômago, a prova de que o mundo não é um lugar bonito. E quando é, é muitas vezes demasiado triste. Também por isso, o WPP é sempre uma exposição obrigatória, para nos lembrar coisas que teimamos esquecer. E é a prova, para quem insiste em duvidar, da importância do jornalismo. Não partilho a Síria, o sangue, o caos, não quero, mas dominam a mostra - e o ano que passou. E não é bonito.

[Micah Albert, EUA]
Mulher sentada sobre sacos do lixo que recuperou da lixeira municipal de Dandora, arredores de Nairobi, no Quénia. Terá dito que gosta de folhear livros enquanto descansa de juntar lixo, sendo que é desse lixo que ela e mais dez mil pessoas sobrevivem, razão pela qual a maioria tem cancro, doenças renais e níveis elevados de chumbo no sangue. A lixeira tem oito quilómetros, é uma das maiores de África.
[Fausto Podovani, Itália]
Mirella e Luigi estiveram casados mais de 40 anos.
Os últimos cinco anos foram partilhados com o Alzheimer, doença que levou Luigi em Maio de 2011.

[Nemanja Pancic, Sérvia]
Milan tem quatro anos, saiu do hospital em Fevereiro, órfão.
O pai e a mãe saltaram de uma varanda de um sexto andar, em Belgrado, na Sérvia, porque estavam com graves problemas financeiros. Milan também foi atirado ao suicídio, mas sobreviveu.
[Daniel Rodrigues, Portugal]
É uma das poucas fotografias felizes, mesmo se num cenário de pobreza. É na aldeia de Dulombi, Galomaro, Guiné-Bissau, onde a maioria dos rapazes sonha ser futebolista. A fotografia é de Daniel Rodrigues, português cuja história teve também final feliz: primeiro prémio Vida Quotidiana no WPP numa altura em que tinha sido obrigado a vender as máquinas.

World Press Photo
Museu da Electricidade, Lisboa
Até 26 de Maio

terça-feira, maio 07, 2013

Joana Vasconcelos

[Marilyn, 2009]
[Coração independente, 2005]
[Carmen, 2001]

Não íamos ao Palácio da Ajuda para aí desde os doze anos e não somos entusiastas fervorosos do trabalho de Joana Vasconcelos, talvez também porque nunca o tivéssemos visto ao vivo. Fomos lá justamente para colmatar a lacuna numa oportunidade imperdível que nos oferecia de uma só vez todos os ícones da artista: a noiva em tampões, os sapatos Marilyn em tachos, o coração vermelho em talheres de plástico, os bordalos e os bordados quase todos. O que não esperávamos era o impacto do confronto entre a obra e o palácio: maravilhoso. Mesmo. Com dois momentos arrepiantes: o momento em que Maria Callas canta Carmen Habanera, de Georges Bizet, e o momento em que se ouve Amália Rodrigues cantar Coração Independente. O bilhete é caro, dez euros, mas é muito bem empregue. Há um terceiro momento, que não arrepia, mas é muito bonito:  o Jardin de Éden ou como uma sala escura com flores de plástico iluminadas pode surtir um efeito incrível. E depois há o Palácio, devia ser obrigatório visitá-lo. Por todas as razões e por mais uma: aquele espólio mostra que talvez andemos a viver acima das nossas possibilidades desde a monarquia.

Palácio Nacional da Ajuda, Lisboa
Até 25 de Agosto

quarta-feira, abril 10, 2013

Gertrude


Um ator e uma atriz fazendo em italiano e português um texto de Shakespeare. Se isto não é a Europa, o que é a Europa? Numa sala de ensaios do Teatro Carlos Alberto, no Porto, Fiammetta Bellone e Simão Do Vale trabalham cenas de Gertrude – uma peça a partir de Hamlet; um Hamlet pelo ponto de vista da mãe. Mexem-se dentro das palavras, como se o pano negro que lhes serve de chão e a roupa negra que é um chão-de-vestir fossem a própria tinta shakespeariana. Tinta antiga, tanta sombra, sangue novo. Umberto Eco terá dito que a língua oficial da Europa se chamava Tradução. Outra hipótese era chamar-se Shakespeare.

Herberto Helder escreve:

“No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se/ pelo meio dos ossos filiais,
pelos tendões e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte”

 
É uma verdadeira blasfémia pôr este poema entre aspas, deixá-lo atravessado de barras inclinadas no museu das citações, e blasfémia ainda maior é interrompê-lo a seguir. Perdoem-me, por favor. Mas, para falar deste Gertrude, era aqui que eu queria chegar. Do ensaio que vi (era manhã nesse dia portuense mas na minha memória, que estranho, é noite e noite alta), o que mais me impressionou traduz-se exatamente assim: “Pelo meio dos ossos filiais”, “calmas mães intrínsecas”, “enquanto o amor é cada vez mais forte”.

Jacinto Lucas Pires

Teatro Carlos Alberto, Porto
Até14 de Abril
De quarta a sábado: 21h30
Domingo: 16h00

domingo, março 24, 2013

Paulo Nozolino: Gloom


Paulo Nozolino volta a expôr em Lisboa, desta vez nas novas instalações da Galeria Quadrado Azul. Gloom, que inaugura noo dia 4 de Abril, às 22 horas, é uma mostra formada por dez imagens verticais, a preto e branco, que sintetizam uma série de recentes incursões do artista na Bretanha, a convite do Centre de Art et Recherche GwinZegal.

A palavra "Gloom" define um estado de espírito que pode ser associado à melancolia, à tristeza e mesmo às trevas. As fotografias agora reveladas descrevem um território deixado ao abandono, um projecto inacabado, sem solução possível: é a história interpretada na sua dimensão catastrófica. Espelhos da decadência universal, estas imagens, das quais o humano se ausentou, descrevem o estado de putrefacção que tudo invade: uma montra, uma lareira, um urinol. Reflexão acerca do vazio contemporâneo, a nova exposição de Paulo Nozolino é também um comentário sobre a proliferação de imagens numa sociedade devastada pelo capital.

Galeria Quadrado Azul
Rua Reinaldo Ferreira, 20-A
Lisboa

sexta-feira, março 08, 2013

Pedro Santos Guerreiro: Clara, Clarinha


Esqueça os caracteres chineses, que o mundo pós-Kennedy repete mas não pratica. A crise, a palavra crise, tem origem grega, o que também nada explica. A explicação não está noutros, está em nós. Se nos propusessem resolver a desdita matando alguém já teríamos aniquilado a espécie humana.

Talvez tenha sido na verdade matando que chegámos às portas da crise, desta crise que ainda não tem nome histórico mas já tem história para ter nome. Matando o que comemos quando queremos comer mais, mais que baste, mais que outros, mais que antes, mais que tudo. Matando o depois para ter já. Matando valores para ter preços. Tudo tem um preço. Um homem não tem preço? Uma multidão tem.

Não se tem medo das alturas quando só se olha para cima. Quando, finalmente, olhamos para baixo com terror, perguntamos “quem foi, quem foi que fez isto?”. Culpamos a desregulamentação como se fosse problema de lei. Apontamos aos mercados como a um matadouro. Dizemos que é ganância como se fosse coisa alheia.“Eu bem te disse que eles sempre acabam por ter ambições”, conclui a velha.

A velha é rica e está feia mas, ao contrário da dona Prudência de William Blake, não está solteirona nem é cortejada pela impotência: come carne de marido e bebe sangue de mundo. Por fastio. Por capricho. Por vingança. Por missão. Por consumição? A velha é superpotência, é a mulher mais rica do mundo, e regressa à cidade falida para a salvar, 45 anos depois de de lá ser escorraçada por gravidez não correspondida. Era ruiva. Saiu nova para uma velha profissão. Regressa velha para uma nova procissão. A procissão de um morto. A Clara, a Clarinha, a mais-que-tudo de quem não tem nada, quer um morto no caixão. O morto há-de ser o catita daquela cidade, cabrão que ela amou 45 anos antes e a trocou por mercearia, deixando-a com uma engenhoca nos braços como o engenheiro que sempre não era engenheiro de Alexandre O’Neill. O cabrão virou estimável, mas a mulher amar na palha não podia, menos ainda se por prazer. “Fungar, fungues tu ainda hoje no inferno com o Diabo a cavalo!”, dizia outra velha em Terras do Demo, de Aquilino Ribeiro, ao ouvir o arfar e os gonzos a chiar no quarto ao lado. “Cabra! Grande coira! Não te emprenha o ladrão para saberes o que custam gostinhos!” A Clara, a Clarinha, foi prenha conhecer os gostinhos: vendeu-se a homens e depois comprou-lhes o mundo para dele fazer bordel e os bordéis, dizem os provérbios do Inferno de Blake, constroem-se com os tijolos da Religião.

A Religião benze a fronte, a Economia encolhe os ombros, a Justiça lava as mãos, a Política põe o corpo todo no fogo. O diabo do dinheiro já começou a barganha das almas, é uma questão de tempo. É esperar: o arrobo impulsivo da ética desabará com o que antevêem os olhos, que são mais que a barriga esfomeada. Se já houve mercador que em Veneza cobrasse por juro uma libra de carne, por que não haveria a Clara, a Clarinha, bem-vinda Clarinha!, de pedir corpo inteiro por um bilião?


É o Direito, expressão da Justiça na conveniência do seu tempo, que ensina a diferença entre actos e factos. Cedo a moral cederá e a dúvida já não será se o homem morre mas saber quem o mata. Um facto: um homem morre. Um acto: matá-lo. A multidão, que primeiro é alumiada pela recompensa, cega depois a propiciar a execução. Aqueles que Orwell viu transformarem-se em porcos vivem – e matam. (Já a imprensa, que tem o poder de descobrir, expor e nisso proteger, deslumbra-se com pouco se se acomoda na sala de jantar.) E assim uma multidão tem preço porque dilui a culpa e dissolve a autoria: num pelotão de fuzilamento nenhum soldado sabe que espingardas têm balas. “Um cadáver não vinga as injúrias” (Blake). Negócio fechado.


É claro que “A Visita da Velha Senhora” é uma peça para este tempo. As comparações são irresistíveis num território desocupado de poder como está (e vai sendo) Portugal. Falamos de uma cidade que empobreceu depois de lhe terem comprado “aparelho produtivo” para o desmantelar; a Velha Senhora põe e dispõe e tem até nome angélico; o resgate impõe condições austeras, as instituições torcem-se com a devida vénia. Eis uma cidade empobrecida que inventa uma nova prosperidade a crédito, feita do que se vende e não do que isso rende. “Toda a cidade faz dívidas a torto e a direito. E o bem-estar da colectividade aumenta com as dívidas.” Perdão? “Precisamos de crédito, precisamos de confiança e de encomendas!” Mais nada. Ou mais isto: o teatro como pedagogia não do “funcionamento” da economia mas da demagogia que ela viabiliza. Em “Santa Joana dos Matadouros”, que Bertolt Brecht escreveu durante uma crise que ficou com o nome histórico de Grande Depressão, há uma deslição de humanidade em cima de um explícito funcionamento da “economia de mercado”. Isto é: dos mercados.

Também Friedrich Dürrenmatt viveu a Grande Depressão mas foi depois da Grande Guerra que (também) ela provocou que escreveu sobre a Velha Senhora. Aqui, a economia não é amada, nem amante, nem mulher, é uma gaja sentada para jantar. Tem de estar. E quem faz por comovê-la não quer se não comê-la. Mas sabendo isto: o capitalismo não é amoral, essa desculpa não pode servir a quem lá ande. A quem toma opções morais. O que estamos dispostos a relativizar por dinheiro? Tudo? Nada?

Dürrenmatt apresenta “um mundo e não uma moral” e pede que, ao contrário do que dita o Fausto de Pessoa, nem tudo seja símbolo e analogia. Uma mulher também é uma mulher, um homem também é um homem, um amor também é um amor.

Um amor.

Não é por acaso que a peça de Shakespeare citada não é o Mercador de Veneza, é Romeu e Julieta. Mas Clara, a Clara, a Clarinha, não é uma Julieta de Verona que se mate por não respirar sem Romeu. Não é uma Zefa de Terras do Demo que peça a Alonso que a mate depois de traí-lo, para que nessa súplica de morte acabe recebendo perdão de quem a ama sob um xaile mais rico que o manto de Nossa Senhora. Não é uma Karenina que afinal amou sozinha, não é Eurídice que morra por Orfeu, não é Lucrécia mal casada que se abandone numa cama de mandrágora com o amante ardiloso disfarçado de vagabundo. Em Clara cresceu o negro e não o vermelho. É vingativa. É pusilânime. É boçal. É uma besta. Mas uma besta rica nunca é uma besta, é rica. É mais fácil trair uma ruiva que uma rica. É? Não, não é nada.

“A humanidade gira toda sobre o amor e a fome”, escreveu Anatole France, mas há homens saciados que têm tanta fome de si mesmos que por insuficiência se afastam do destino da corrida, que é a partida e não a meta. Não há nada mais triste que amar esta mulher ruiva que não sabe que, matando, morrerá.

Nota de Pedro Santos Guerreiro: este texto foi escrito a convite do São Luiz Teatro Municipal para o programa da peça “A Visita da Velha Senhora”, de Friedrich Dürrenmatt, numa encenação de Nuno Cardoso que estreou a 7 de Março de 2013. E é uma homenagem a Ricardo Pais, que encenou algumas das peças que cito, que ensinou o meio país onde eu estava a ver, e sentir, teatro.

quarta-feira, fevereiro 27, 2013

Speechless



“Nos anos 70, Marina Abramovic viveu intensa história de amor com Ulay. Durante 5 anos viveram num furgão realizando performances. Quando sentiram que a relação já não valia, decidiram percorrer a Grande Muralha da China, dar um último grande abraço e nunca mais se ver. 23 anos depois o MoMa de NY dedicou retrospectiva a sua obra. Nela Marina compartilhava 1 minuto de silêncio com cada estranho que sentasse a sua frente. Ullay chegou sem ela saber, e foi assim.”
Maeve Jinkings

sábado, fevereiro 23, 2013

A ballet story by Victor Hugo Pontes



Estranha-se na primeira metade, entranha-se na segunda. Rendição total no fim.

quinta-feira, janeiro 03, 2013