terça-feira, julho 15, 2008

O Maestro sem medo



À VISTA DESARMADA, ELE É SÓ O MAESTRO EXCÊNTRICO QUE ARRISCOU COMPÔR PARA OS DA WEASEL. NADA MAIS INVEROSÍMIL. O TRABALHO DE FUNDO DE RUI MASSENA, MÚSICO DO PORTO A VIVER NA MADEIRA, SERÁ MENOS MEDIÁTICO, MAS É RECONHECIDO NO MUNDO. ONTEM, A CASA DA MÚSICA ESGOTOU PARA ASSISTIR À SUA DIRECÇÃO MUSICAL.

Lá em casa pulsava a música dos sixties. Importavam-se os êxitos dos rapazes de Liverpool, Beatles a conduzir a sala. A rebeldia temperava-se com Charles Aznavour, voz de tenor, que inundava o mundo com “She”, a canção que haveria de ser recuperada e exaltada, três décadas depois, na voz de Elvis Costello para a película Notting Hill. Estávamos nos anos 70. Em Vila Nova de Gaia, a família, temente à redenção da música, organizava festas, reunia amigos, todos dançavam. E de todas as vezes, ele, ainda miúdo, sabia que incontornavelmente haveria de ser chamado a intervir. “Agora, o Rui vai tocar”, anunciava o pai aos convidados. Envergonhado, a resmungar, caminhava em direcção ao piano, e sob o olhar atento de todos, tão depressa derramava sobre as teclas brancas e pretas a “Lachatemi cantare” de Toto Cotugno, compositor italiano que viria a vencer o Festival da Canção em 1990, como o “Adágio”, de Albinoni, o mesmo que um dia, e num frémito cardíaco diferente, haveria de tocar na Serra do Pilar, na despedida do avô. “Detestava aquilo”, admite agora. “Aquela coisa de mostrar as habilidades do filho, detestava”. O filho, que foi único até aos cinco anos, é Rui Massena, homem feliz, maestro consagrado.

Com três semanas de antecedência, esgotou a lotação da Sala Suggia da Casa da Música, onde ontem dirigiu a Orquestra Nacional do Porto. “Se o escolhi, é porque lhe reconheço talento”, afiançou Pedro Burmester, director artístico do equipamento. “É claramente um dos músicos mais importantes da sua geração”, reforça António Vitorino d’Almeida, entusiasmado por poder confirmar o talento daquele rapaz que um dia tanto o impressionou a dirigir uma Orquestra Júnior no Coliseu do Porto. “Acompanhei-o desde pequeno, sem o conhecer, à distância e em silêncio, atento à sua evolução, acreditando sempre que um dia ele seria o que é hoje: Um tipo já feito aos 35 anos, com enormíssima maturidade, que alia talento a um raro sentido de responsabilidade, profissionalismo e inteligência”.

Para o maestro, “Massena é daqueles que não engana”. E Massena lembra-se bem desse dia. Tinha 18 anos. Começava a sentir “verdadeira vontade de dirigir”. O professor Hugo Berto Coelho, director da Academia de Música Vilar do Paraíso – figura crucial na sua vida, pela aprendizagem, mas sobretudo pela bondade -, acabara de lhe oferecer a sua primeira batuta de madeira para dirigir uma obra que o próprio escreveu e compôs. “Estava tão feliz que nem conseguia dirigir com a batuta. Pousei-a e comecei a dirigir com as mãos. Como sabia. Ou como não sabia, com inconsciência”. Desfaz-se numa gargalhada. Não há escala no percurso que não lhe arranque sorrisos.

“Pianista sem rótulo”
Último sopro da tarde. Cessou o sol e uma intensa sessão fotográfica. Instalado na esplanada do derradeiro piso da Casa da Música, estarrecido com a vista que o edifício de Rem Koolhas lhe proporciona sobre a cidade que será sempre a sua, mesmo que a não habite há tanto tempo, Rui Massena aceita fazer a retrospectiva do seu trajecto. Nos olhos verdes, que transbordam de água quando se empolga, traz o cansaço de quem acordou às cinco horas da madrugada para apanhar um voo que o haveria de transportar da Madeira, onde há oito anos dirige a Orquestra Clássica, para Gaia, cidade berço que nesse dia, 27 de Junho, o distinguiu com a medalha de mérito.

Pede um descafeinado e um café. Assim, os dois ao mesmo tempo. Mas não verte um lamento sobre as horas de sono que lhe faltam, nem qualquer pedido sobre o tempo que estará disposto a conceder – e concede quase quatro horas de conversa. Com o cabelo despenteado de sempre, ténis coloridos calçados, calças largas, fralda da camisa branca afora, o maestro passaria tranquilamente por um “hip hop man”. Mas a imagem, se alguma coisa diz de alguém, dele evidencia apenas que é um homem livre. Rui Massena, pai de dois filhos – o mais velho está inscrito nos Andorinhas, clube madeirense onde Cristiano Ronaldo iniciou a carreira que a criança jura querer seguir -, “adepto tolerante” do Futebol Clube do Porto, é um sonhador, lutador imbuído de carisma e boa disposição. É um louco, se a loucura significar coragem. Suficientemente provocador para embarcar numa aventura com os Da Weasel, o sextexto hip hop mais conhecido em Portugal; definitivamente arrojado para não recear o que sabia de antemão: que a partir daí, seria injustamente mais conhecido “pelos cinco por cento que representam essas experiências exteriores à música erudita, do que pelos 95%” que caracterizam o seu “trabalho de fundo”.

Será Massena esse imenso resto que quase ninguém sabe? “Completamente”, responde. Mário Laginha, compositor com quem também já ensaiou outras viagens, di-lo de outra forma: “É um dos raros maestros que não tem medo de arriscar. Leva a música tão a sério, executa-a com tal exigência, que se permite brincar com ele próprio, o que só revela o seu mérito”. Na verdade, Massena é “pianista sem rótulo”. Como intérprete “serve o texto”; como autor, tem “toda a liberdade do mundo”; como programador – porque também o é –, não espera que a comunidade descubra a música, leva-a ele até ela. Contextualizando-a sempre, mas sem que isso o impeça de a colocar nos mais diversos cenários.
“Nunca tive dúvidas de que seria músico”, diz ele, quase com embaraço, como se a certeza comportasse pecado e a felicidade que isso lhe traz fosse proibida. “Só me faltava descobrir que lugar queria dentro da música”.

A responsabilidade de tão prematura convicção foi da educadora do infantário que aconselhou os pais daquele menino tímido a levarem-no a quem o pudesse fazer crescer na área. “Ela dizia que eu tinha muita sensibilidade musical”. Pelo menos, sorri, “foi isto que me contaram”. Os progenitores, seguros do potencial da sua cria, levaram-no a casa do compositor César de Morais (1918-1992) para que pudesse ter aulas particulares de piano. “Era um homem que dormia nas aulas”, recorda Massena. “Lembro-me vagamente da austeridade daquela sala. Eu tocava e ele não olhava, dormitava. Mas quando eu tocava uma nota ao lado, acordava logo”. A memória do episódio volta a ser motivo de risada. “Eu era miúdo, ficava muito impressionado com aquilo. No fim, perguntava sempre ao meu pai: “Como é possível que ele acorde com as notas erradas?” O pai não sabia responder, mas com a infinita generosidade que só os pais conseguem ter, comprou um piano lá para casa, e começou, também ele, a estudar música para poder ajudar o prodígio. “Os meus pais adoram música. Não tocam nem nada. Mas adoram. E injectaram-nos – em mim e na minha irmã [Cristina Massena, quase a lançar um disco] – essa paixão. No fundo, acho que eles desejavam mais isto do que nós”.

Dois anos depois, é o professor Morais quem assegura que Rui pode ir mais longe. Para adquirir formação adequada, inscrevem-no na Academia Vilar do Paraíso, embrião de músicos como António Oliveira ou Liliana Moreira, e aí permanece até aos 21 anos. Na altura, como agora, não era a música – ou não era só a música – que o mais o prendia; eram as relações humanas. “Aquela escola não forma músicos; forma pessoas. Isso fascinou-me. Fomos ensinados naquela lógica de que tudo o que fazemos, fazemo-lo para o outro. Foi um período muito forte da minha vida”.

Entretanto, lá fora, no exterior daquela redoma de pautas e partituras em que crescia, o mundo avançava. E ele ia perdendo alguns detalhes. “Tinha 14 anos, ouvia falar nos Smiths e noutras bandas da moda e não sabia o que eram”. Também não aderiu aos trajes lúgubres que marcaram os anos 80, nem alguma vez experimentou um charro.

No entanto, não escapou à sua própria banda de garagem. Na Depressão Total, ele era o teclista. Mas a façanha acabaria depressa, em dia de concerto na Escola António Sérgio. Eles tocavam versões dos intrépidos Ramones; os Falecido Alves dos Reis – banda do Porto nascida em 1988; Alves dos Reis propriamente dito foi talvez o maior burlão da história portuguesa - engordavam a massa de público e fumavam haxixe. “Havia fumo no palco, malta a dançar aos pontapés, pessoas com lenços na cabeça e correntes no corpo. O meu pai entrou e só disse: “Despede-te dos teus amigos. Não voltas a tocar neste grupo”. Não era educação severa; era protecção.

Abortada a incursão pelo rock, Rui Massena continua a cantar em coros, a tocar em orquestras, a fazer recitais a solo, a criar grupos de jazz. Sempre no plural, trilhando simultaneamente duas pistas. Quando completa o 12º ano e, ao mesmo tempo, o curso complementar de piano, candidata-se ao Ensino Superior. Na Universidade Moderna, entra em Direito. É eleito Mister Caloiro, adora a praxe. No Conservatório, no mesmo ano, matricula-se no curso de Direcção Musical. “Compunha, tocava, cantava, era hiper feliz. Feliz mesmo, com aquela inconsciência da felicidade total”. Depois, começa a sentir “necessidade de ir mais fundo”. Tem ninho, não tem asas. E nada ali o pode resgatar. Desiste de tudo, procura outro lugar.

Cesário Costa (n.1970), amigo de infância, actual director artístico da Orquestra do Algarve, sugere-lhe o curso de Direcção de Orquestra, na Academia Nacional Superior de Orquestra, em Lisboa. E Massena não hesita. Aos 22 anos faz as malas e instala-se na capital do país. Era uma inevitabilidade. A partir dali, tudo seria a sério, bilhete de ida sem regresso ao anonimato.

“Lufada de ar fresco na música clássica”
O reconhecimento, unânime e internacional, de que agora beneficia – esgotou o lendário Carnegie Hall, em Nova Iorque, onde dirigiu o New England Symphonic Ensemble; foi descrito como “temperamental e instigante” na prestigiada Dvorak Hall, em Praga; considerado “a grande atracção” quando dirigiu a Orquestra Sinfónica do México; repetidamente ovacionado na Tonhale, em Zurique – e a ratificação mediática que daí resultou, não foram meteóricos. Muito menos consequência do que diz serem os seus exercícios de “bicar fora do prato”, e dos quais a colaboração com os Da Weasel – primeiro, a orquestrar versões sinfónicas para concertos esgotadíssimos (10 mil pessoas, na Madeira, em 2005; 40 mil no ano seguinte, em Lisboa); depois, a assinar dois temas do álbum “Amor, Escárnio e Maldizer” da banda - será popular exemplo. Mesmo que essas fusões tenham sido “marcantes, enriquecedoras, fundamentais”. Também porque “tinha passado a vida toda a sentir-se mais velho do que a própria idade”. E naquela vertigem rejuvenesceu, reencontrou-se. De resto, é Pacman quem o certifica e engrandece: “O Massena foi das melhores coisas que aconteceu no nosso caminho. É um espírito livre num meio tendencialmente hermético e cheio de puristas. No cenário da música clássica, ele é uma lufada de ar fresco”.

A sagração do maestro é a sequela natural deste embrulho inteiro: das vezes em que se expôs em cosmos alheios, mas sobretudo fruto de treze de trabalho rigoroso, disciplina intensa no aperfeiçoamento da interpretação: os últimos oito, na Madeira (com sucessivas jornadas em Itália, para estudar com Gianluigi Gelmetti, e em França, com Cristhian Manem); os cinco que os completam, em Lisboa.

E Lisboa não foi etapa fácil. “O espectro mudara radicalmente”, reconhece. Deixara de ter à mão o amparo de algodão doce dos pais, a cumplicidade dos amigos de sempre e principalmente o espírito – diz a cantar - do Fame! I’m gonna live forever a que o habituaram na Academia Vilar do Paraíso. Na escola dirigida por Miguel Graça Moura - numerus clausus cerradíssimos; uma classe, cinco alunos - alimentava-se o culto da seriedade. Para ser aceite, teria que superar duas ferozes eliminatórias.

De um universo inicial de candidatos, são seleccionados três – Rui Massena é um deles. Desses três, ao fim de dois meses de experiência, seria escolhido o que poderia continuar. E Massena é definitivamente eleito. Graça Moura confidencia-lhe: “Não és o músico com mais experiência; mas és o que tem mais talento”. Sabê-lo soube bem, mas não lhe atenuou a inquietação. Aluno do maestro francês Jean-Marc Burfin, inicia um processo de grande debate interior. “Tenho por ele um respeito total, é um homem que me marcou muitíssimo. Mas teve o dom me pôr completamente em causa”. Autoavaliação sucinta: “Eu tinha ares daquilo que a música erudita não suporta: era bastante superficial, vivia mais para as pessoas do que para a música”. O que é que isso quer dizer? “Que nunca fui doente, obsessivo, sempre tive um olhar saudável sobre a música”. Tão sadio que, na altura, não entendeu por que razão não poderia dirigir a 3ª Sinfonia de Schubert com uma gravata pintada pela irmã, exibindo “o rosto e os óculinhos” do compositor austríaco. Jean-Marc disse-lhe que o adereço era “excêntrico” e convidou-o a tirá-lo. Massena ficou triste, mas não enfurecido. Aliás, muitas vezes, e sem o saber, foi o professor quem o impeliu a continuar. “Pensava: ele está a fazer isto porque acredita em mim”. E quando vacilava, era esta a frase que repetia para dentro, vezes e vezes sem conta. “Às vezes, acreditando mais no Jean do que em mim”, confessa.

Durante esse período, o maestro teve várias moradas. Sabe a primeira de cor: Rua da Rosa, 44, 4º Esquerdo, em pleno Bairro Alto. Habitava um quarto pequeno, com janela onde as pombas pousavam, o Tejo e o Cristo Rei como cenário, ao fundo. “Adorava aquele espaço”, diz. Abandonou-o porque as quatro bailarinas da Escola Superior de Dança com quem partilhava o lar eram demasiado solicitadas. O toque ininterrupto da campainha impedia-lhe a concentração. Mudou-se para a Travessa das Almas.. Raquel Freire, amiga de infância, cineasta em início de carreira, era a nova inquilina. “Foi maravilhoso viver com o Rui, porque é uma pessoa de bem com a vida, encara o mundo de peito aberto. Além do talento, tem genuíno prazer em viver”, afirma a autora de “Rasganço”, filme cujo argumento estava a escrever precisamente nessa altura. “Vivíamos a mil, quase não dormíamos. Nenhum de nós tinha tempo para nada, nem tempo nem dinheiro, mas estávamos tão felizes que nem notávamos.”

Muito antes disso, no oitavo ano do liceu, ainda em Gaia, a realizadora foi várias vezes para a rua por causa dele. “Éramos colegas de carteira. Ele tem uma imaginação delirante, contava anedotas e eu não conseguia parar de rir”, revive. Como nunca tentaram emendar-se, os professores decidiram separá-los. Ela foi para a última fila, ele ficou na primeira. Afastamento geográfico não detona a memória. E Raquel, no filme “O veneno cura”, que irá estrear este ano, escreveu uma personagem inspirada nele.

Quando Rui Massena, então com 27 anos, terminou o curso, não teve tempo para pensar no que viria a seguir. O director do Conservatório da Madeira procurava um maestro para dirigir a Orquestra Clássica. Assistiu a vários concertos. Escolheu o rapaz despenteado. Para trás ficou o desejo de rumar a Chicago, para estudar na Nortwestern University. Um desapontamento? “Não. Podia passar dez anos a correr as escolas todas do mundo, mas a direcção de orquestra é a prática. Preciso testar as verdades para as saber verdades; preciso que as coisas saiam de mim”. Rui Massena é um self made man.

quarta-feira, julho 09, 2008

Platónov


Demasiado longa, demasiado violenta, demasiado imperfeita. Platónov conviveu sempre de perto com o excesso e o falhanço. Peça inaugural de Anton Tchékhov, escrita com a urgência de tudo dizer e tudo questionar, sucessivamente trabalhada e sucessivamente rejeitada, acabaria por ser resgatada da sombra ao longo do séc. XX. Isto porque talvez se possa dizer de Platónov, a obra, aquilo que alguém diz nela de Platónov, a personagem: “É o exemplo acabado da moderna indefinição”. Retrato em fuga de um grupo de trintões e quarentões desiludidos com uma sociedade que frustrou os sonhos da sua juventude? Celebração vital dos prazeres da culpa e da contradição? Ouçamos o nosso herói, num acesso de ironia e lucidez: “Ser jovem e ao mesmo tempo não ser idealista. Que depravação!”. Nuno Cardoso propõe-nos uma leitura possível de um conflito irresolúvel (foi também esse um dos propósitos que o conduziram a Woyzeck, outro clássico mutilado), acrescentando à sua já extensa galeria de beautiful losers o corpo vacilante de um professor de província, um Hamlet com testosterona a mais, que assiste embriagado ao desconcerto do mundo…
Estreia: 17 Julho
Até: 3 Agosto
TEATRO NACIONAL SÃO JOÃO

sexta-feira, junho 27, 2008

Estranho mundo mediático

Estranha moda a que faz com que um número invulgar de pessoas opte por escrever um livro para partilhar ou justificar aspectos da sua vida pessoal ou profissional. Ou para ajustar contas. Ou para sabe deus o quê. O caso é tanto mais grave no caso de quem poderia, pura e simplesmente, dar uma entrevista. Mas, claro, o efeito de uma entrevista dura quanto? Dois dias, três? Uma semana? E não dá para juntar os amigos da praxe, nem serve de mote para um cocktail.
O caso mais recente, anunciou o próprio, é o de José Miguel Júdice, senhor de quem, por meia dúzia de razões, gosto bastante. Mas, que raio? Por que diabo não explica já, sem cerimónias, a razão de ter abandonado o projecto da zona ribeirinha de Lisboa? No caso de cargos públicos, pagos por todos nós, a intenção de contar o que quer que seja num livro é ainda mais ridícula. Significa que os cidadãos têm acesso aos seus direitos - e um dos seus direitos fundamentais é a verdade - como quem espera pelo capítulo de um romance. E para o ter tem que o pagar! Era a mesma coisa que José Sócrates vir dizer agora que só explica em 2009 num livro, e se perder as eleições, por que razão tem infernizado a vida aos portugueses!
Mas, claro, a moda não é só de Júdice - quem ainda não publicou um livro por estas bandas sobre receitas, doenças, viagens, desaires políticos, aventuras sexuais (Zezé Camarinha na D. Quixote!! A editora enlouqueceu!), casos de polícia como Carolina Salgado (outra vez D. Quixote!!) , fétiches de clientes, como tudo o que é prostituta, que ponha o dedo no ar -, nem só aqui do burgo. Nos EUA não há político nem mulher de político que não queira acrescentar a sua página à história, sobretudo em caso de traição. Quantos mais casos há, mais ridículo se tora o fenómeno. E que José Miguel Júdice queira engrossá-lo é uma coisa que me entristece.

terça-feira, junho 24, 2008

António Jorge Pacheco na direcção artística da CdM?

António Jorge Pacheco será o substituto de Pedro Burmester como director artístico da Casa da Música, a partir de Janeiro de 2009.
Esta opção representa uma opção pela continuidade da estratégia artística e educativa até agora seguida pela Fundação, já que António Jorge Pacheco está no projecto Casa da Música desde 1999 e desempenha actualmente as funções de Coordenador de Programação da instituição.
Em acumulação, tem também a seu cargo a gestão artística do Remix Ensemble e da Orquestra Barroca Casa da Música.
O responsável diz pretender que a Casa da Música «continue a ser um espaço aberto a todos os géneros e correntes, e que não se acomode ao que já foi feito e como foi feito».

segunda-feira, junho 23, 2008

Da hipocrisia II

Mete-se uma cunha por alguém. Paga-se. Ninguém questiona.
Atropela-se alguém no emprego. Puxa-se o tapete. Ninguém questiona.
É-se um filho-da-puta só porque sim. Todos os dias. Tantos. Ninguém questiona.
Quebra-se a confiança. Azar. Ninguém questiona.
Não se dá moeda ao arrumador. Vadio. Ninguém questiona.
Não se pára na passadeira, mesmo quando há pessoas a atravessá-la. Prioridades. Ninguém questiona.
Rouba-se, mata-se e esfola-se por um vintém. Ninguém questiona.

Ajuda-se alguém, mesmo que seja um estranho, só porque sim. Sem nenhum objectivo, sem querer nada em troca, e cai o Carmo e a Trindade.

Aceita-se boleia para Marte!

Da hipocrisia I

Num país onde ninguém tem coragem de assumir a sua orientação sexual - quando ela não condiz com a da suposta maioria - como poderiam encarar com naturalidade a assunção da Sida? Varre-se o pó para debaixo do tapete e fingimos todos que não vemos. Há médicos a garantir que aprendem isto nos pomposos congressos internacionais que frequentam: que não é aconselhável que os seropositivos se denunciem. Aplausos para os congressistas! Não deviam antes aprender, eles próprios, a desdramatizar o assunto, para que não sejam vedados aos seropositivos direitos elementares como um emprego, um namorado/a ou simplesmente não serem olhados de soslaio? Quando a ignorância começa nos médicos, o que nos reserva o futuro?

Um futuro onde tudo estará sempre fora do lugar. Não importa que toda a gente infecte toda a gente. Desde que ninguém saiba, está tudo bem. Aplausos!


domingo, junho 22, 2008

Research II


"Não há volta a dar: o culto egoísta do eu-para-mim-mesmo está institucionalizado. As pessoas orbitam de tal forma em torno do próprio umbigo que acabam por se despenhar em si mesmas... vazias, inertes. É muito mais confortável viver num mundo polido, blindado, ilusório. No entanto, a miséria humana coexiste connosco. Em pessoas palpáveis, próximas, das quais só não sabe o nome quem prefere tratá-las através da estatística. Mundo que para muitos só existe na televisão. A felicidade, acho, está na luta atenta e sensível. Solidária."

Research I

[Foto: JMG]

"O desafio da fé é maior nestes momentos. Cristo viu os seus amigos negá-lo, viu a multidão que o acolhera dia antes com ramos de oliveira, gritar: Morte! Crucifica-o! Sentiu os pontapés e os insultos de todos. Mas mesmo assim foi até ao fim. Amou até ao fim. Numa cruz onde estão duas atitudes humanas: no madeiro vertical está o egoísmo, o homem que vê apenas o seu umbigo como horizonte. No madeiro horizontal, que parte o vertical, está simbolizado o abraço ao mundo, o serviço, a entrega aos outros. A cruz é o maior símbolo. Onde está a maior prova de amor."

sábado, junho 21, 2008

Friends will be friends

[Foto: JMG]
Os amigos imaginários são os úncos que nunca nos desiludem.

quinta-feira, junho 19, 2008

My brightest diamond


Saiu anteontem o segundo disco dos My Brightest Diamond.
A Thousand Shark's Teeth para ouvir aqui.

1. Inside A Boy
2. Ice and the Storm
3. If I Were Queen
4. Apples
5. From the Top of the World
6. Black and Costaud
7. To Pluto’s Moon
8. Bass Player
9. Goodbye Forever
10. Like a Sieve
11. The Diamond

segunda-feira, junho 09, 2008

Amor Cão



[Fotos: Joana Bourgard]

No coração do Porto, o negócio muda quando o dia termina. À noite, o comércio acontece na berma da estrada. Em Sá da Bandeira, rua de rapazes verdes a alugar o corpo a homens maduros por quinze euros, às vezes mais, por meia hora, às vezes menos, desenrola-se permanente jogo de sedução entre carros caros e meninos baratos. Telmo anda ali, horas altas da noite, repetidamente para trás e para a frente, o trajecto marcado entre duas esquinas. Adidas nos pés, jeans rasgados de origem, coçados do uso, a cabeça protegida pelo capuz do casaco. Olhar de cão abandonado, comportamento de gato vadio.

“Você topou-me logo, não foi? Aqui, rua acima rua abaixo, só me falta trazer um autocolante na testa”. Não é verdade. Não é à vista desarmada que se percebe quem são os rapazes que andam na rua à espera de entrar num carro. Não fosse a coreografia, sempre a mesma, o olhar fixo nos faróis, precisão de raio-x, e seria fácil ser-se traído pela aparência. “O que é que eu havia de estar aqui a fazer? A fazer pela vida, não é?” A resposta é uma rajada infantil de mau humor. Dura afinal tanto como um cigarro - pouco.

Telmo é de Estarreja, distrito de Aveiro. Foi viver para o Porto há um ano, mais mês menos mês. Alugou quarto, um depois outro. Habitava-o só ao fim-de-semana, que a semana era toda passada em Espanha, levado e trazido por uma carrinha que transporta tantos como ele para trabalhar do lado de lá. Na construção civil. Durou dois meses. Numa deambulação nocturna, ao convite de um estranho para “alucinar”, esticou o braço. Logo, sem pensar, sem pesar. O primeiro caldo. “Não sabia o que era. Só queria uma moca fixe”. Perder a cabeça, o emprego, o dinheiro para pagar a pensão, para comer, emagrecer, arrumar carros, vender o corpo, sobreviver. Aconteceu tudo num ápice.

Telmo depende da droga para viver, da prostituição para pagar a droga. Há um ano, mais mês menos mês. E Telmo é só mais um. Igual a tantos outros, outros iguais a todos os que estão ali naquela montra a céu aberto. Esta semana confirmou o diagnóstico de que já desconfiava: é seropositivo. Tem 21 anos.

O circuito portuense da prostituição masculina é curto, não é completamente escancarado, mas é visível. Mesmo que ninguém o queira ver, ou faça de conta que é apenas pista de arrumadores - não é. A pista de quem procura “fazer-se à vida”, prostituindo-se, é pouco mais de um quilómetro em linha recta: da estação de S. Bento, durante o dia, à Rua Sá da Bandeira, com extensão a todas as perpendiculares, à noite. Os rapazes, quase todos na faixa dos 20 anos, dizem que a fase nocturna da actividade arranca a partir das 21 horas. Mas só começam a ver-se a partir da primeira hora da madrugada. Não chegam nessa altura. Nessa altura, noite ganha, farejam apenas se ainda haverá mais algum cliente. O último antes de voltarem a casa dos pais, a uma pensão manhosa ou à casa de um amigo. Ou onde calha.

Ultimamente, Telmo regressava à casa de um amigo. Homem mais velho, percurso e vício idênticos. Nenhum deles usa relógio, mas sabem sempre a quantas andam. Sabem de cor o horário dos espectáculos dos Teatros Rivoli e Sá da Bandeira, dos cafés e dos restaurantes. E sabem de cor os clientes. O carro ainda vem lá ao fundo, imagem difusa para olhar virgem, e eles já sabem: este paga bem, aquele é só disto, aqueloutro é mais paleio. Os carros passam, duas, três voltas antes de abrandarem com a discrição possível. Accionam os mínimos, estacionam a pouco menos de cem metros do alvo escolhido. Aguardam. Estreantes discutem preço à janela; clientes fixos nem precisam falar.

Às vezes pode aparecer uma mulher, raro, um casal é mais comum, mas o normal é aparecerem homens de meia-idade. Casados, com dinheiro, a driblar a vergonha. Com medo de serem roubados. Os rapazes esperam. Precisam ver e ser vistos. Precisam engatar, mas rende mais quando são engatados. Os clientes gostam da sensação de poder escolher. E escolhem geralmente os mais novos. “O nosso interesse nunca pode ser maior do que o deles, porque eles gostam de atrair. Andam ali para engatar; não é para ser engatados”.

“Esta vida cansa”

É segunda-feira, o negócio está fraco, embora seja fim de mês e nem sequer esteja frio. Mais de 14 graus numa madrugada avançada de Fevereiro é quase verão para quem trabalha, não importa em quê, ao relento. Mas hoje os carros teimam em não parar. Telmo está ansioso, mas não desaustinado. Se ainda não tivesse consumido o habitual pacote de bower [mistura de coca e heroína], seria grave. Assim, menos mal. “Vou dormir, com droga ou sem droga. Mas, claro, o descanso é diferente”, diz a apertar o cigarro na boca, nas mãos as moedas ganhas a estacionar carros. Com clientes reforçaria a dose para dormir melhor. Para ressacar mais tarde. Sem clientes, há tempo para falar a troco de cigarros.

Não é coisa fácil de se conseguir. Não se ganha a confissão de um rapaz sem que antes diga que só está ali porque sim. Nem a sua disponibilidade para conversar antes de o ouvir repetidamente dizer que o não fará. Ou que só o fará a troco de dinheiro. “Você não está aí a ganhar o seu? Eu também estou aqui a ganhar o meu”. Mas como a noite ameaça estar perdida, a conversa é outra. Condescende.

“A minha vida é sexo e droga. E dinheiro. Dinheiro para ter droga”, sintetiza. Mas a ordem está invertida. O dinheiro vem sempre primeiro, é causa e consequência. “Digo muitas vezes aos clientes: não faço isto por amor, faço isto por dinheiro, por necessidade”, reafirma num encolher de ombros sem aparente alternativa. Nunca existe prazer no sexo. E o prazer da droga é cada vez menor. “Isto não é uma vida normal, é uma vida de merda. Cansa! Já não consumo para ficar com a moca; consumo para ficar normal.”

A prostituição que o sustenta é um meio como outro qualquer. Como arrumar carros, como pedir. Telmo, que aprendeu a conduzir carros a roubar a carros, deixou de roubar pouco antes de fazer 18 anos. “Estive um fim-de-semana preso e jurei que nunca mais ia roubar”. Gosta de pensar que é bom porque não faz mal a ninguém. E que a polícia o trata bem porque sabe disso. Porque lhes diz sempre a verdade. “Pedem-me a verdade, a verdade lhes dou. Mesmo quando passam aí à paisana, sou dos poucos que eles nunca incomodam porque chegaram à conclusão que não ando aqui a roubar.”
Ele já não rouba, pensando bem, só tira. O resultado é o mesmo. A diferença estará na ausência de agressão. Põem-se a jeito, ele aproveita. “Mas sou incapaz de fazer mal a alguém”, insiste. Tem corpo esquálido, frágil, magro como folha de papel. Não aguentaria um estalo. De vez em quando, tem uma “fezada”. Fezada é sinónimo de alguém que deixa cair a carteira com cartão multibanco e código dentro. Essa noite rendeu-lhe 800 euros. Sinónimo de cliente imprudente que vai à casa de banho da pensão e deixa na camisa um lote de notas: 500 euros. Sinónimo de Natal. “Cheguei a fazer mil euros numa semana”. O verbo de ordem é sempre o mesmo - e é impiedoso: “orientar”.

A espiral destrutiva de Telmo não aconteceu de um dia para o outro. A vida dele já estava estragada antes de ele a estragar. “O meu pai bebia muito, batia à minha mãe, batia muitas vezes. E ela dizia sempre que quando nós – eu e os meus dois irmãos – conseguíssemos arranjar-nos sozinhos, ia embora”. E foi. Os irmãos, hoje com 23 e 25 anos, começaram a trabalhar e ela entendeu que eles poderiam tomar conta do caçulo, o único que ainda frequentava a escola. Enganou-se. Telmo não chegou a completar o 5º ano, quando a escolaridade obrigatória inclui o 9º ano desde 1986.

“Nunca bati em nenhum professor, mas tinha vontade, sentia aquela raiva”, recorda a cerrar os punhos. E também não se deu bem em Inglaterra, como os irmãos; nem no Canadá, onde experimentou trabalhar, alto mar, na pesca de bacalhau. Quando a mãe reapareceu para corrigir a trajectória, depois de tolhida pelo medo à ira ciumenta do marido ter viajado para parte incerta, era tarde. “Ela ainda chegou a ir procurar-me à escola, mas eu estava zangado com ela. Nem lhe falei… era puto”.

No trémulo calendário de Telmo, o desmoronamento familiar terá acontecido há oito anos. Mas a violência de que se lembra, muito antes disso, não o larga. “Lembro-me de coisas com quatro, cinco anos. Essas coisas uma pessoa é obrigada a lembrar-se. Infância de merda. Se daqui a 40 anos ainda cá estiver, ainda me vou lembrar. São coisas que não saem da cabeça nem por nada”, diz a enrolar a língua, a voz a arrastar-se num português de parco vocabulário.

A parte da vida que não escolheu não desculpa a vida que tomou. Mas a existência dele é um nó que, sozinho, não consegue desfazer. “Eu sei que não tenho cabeça. Mas com 13 anos já tinha a liberdade toda; com 14, passava noites fora de casa e não se passava nada. Não quero dizer que os meus pais são culpados, mas, claro, se eu tivesse tido uma infância boa, isto não tinha acontecido. Ao fim e ao cabo, eles são os culpados desta merda toda.” Sobe o tom de voz, enerva-se. “Sou bué revoltado. Não sei se consegue reparar, mas as pessoas dizem-me que é fácil perceber que sou”. Percebe-se. Telmo não gosta da vida que tem. “Às vezes, preferia morrer”.

Perdeu a virgindade aos 14 anos, por seis contos, “ainda no tempo do escudo”. Homem mais velho, dentro de um carro, numa rua esquecida de Aveiro. Mas essa vez, diz, não contou. “A virgindade perde-se com uma mulher”. Perdeu-a, então, no Porto, um ano depois. Por dois contos. Pagou. Nunca soube o que era amor sem preço.

“Aquela não era a melhor mulher para eu ter, pela primeira vez, sexo. Mas também não podia ter sido uma rapariga de 15 anos, que eu, ao fim e ao cabo, estava na idade de aprender, não era de ensinar, é ou não é?” É ou não é? Sempre a mesma pergunta retórica no fim de cada frase. As frases todas com as palavras escolhidas a dedo para não ofender.

As prostitutas foram, na verdade, a sua primeira dependência. “Cheguei a gastar vinte contos por dia em sexo. Era mesmo viciado em putas”. E em mulheres mais velhas. “Uma mulher da minha idade não me diz nada. Nada, nada”, repete. “Não é uma mulher. Sempre achei as chavalas da minha idade umas otárias porque o que elas começaram a fazer com 20 anos, eu já tinha feito aos 14”.

Enquanto a conversa derrapa para a confissão, 70 homens do Corpo de Intervenção e da Divisão de Inspecção Criminal da PSP desmantelam a rede que abastece de droga a área metropolitana da cidade. No bairro do Aleixo, são apreendidos dois quilos de droga – cocaína, heroína, haxixe. Não bate nenhum recorde, mas seria o suficiente para vinte mil doses. E muito mais do que suficiente para alimentar a dependência de muita gente. São detidas onze pessoas em 16 buscas domiciliárias. Telmo não sabe. Ainda acha que, finda a conversa, é para lá que vai. E foi. Voltou de mãos a abanar.

No dia seguinte ninguém o vê. Confiança é bicho raro. O rapaz que se ganha numa noite, perde-se invariavelmente a seguir. Mesmo que se comprometa a aparecer, combine hora e lugar, que seja o primeiro a dizer que gostaria de falar à luz do dia, nunca mais se vê. Eclipsa-se. Como se a vida fosse um segredo que à noite parece poder ser partilhado e depois não.

"Se fizer o tratamento, deixo de rescar. É ou não é?"

Outra noite, outra a batalha, a mesma rua. Telmo reaparece. À hora de jantar, compasso de espera para a maratona que há-de vir, arruma carros. Braços abertos, sinaleiro de serviço, gesticula apressadamente, grita, a voz rouca: “Ó chefe, tem aqui lugar”. O chefe não pára e ele partilha a novidade, mesmo que outros rapazes, nervosos, lhe digam para não falar, para não confiar: “Vou tratar-me”, confia. Recebeu uma carta do Centro de Atendimento a Toxicodependentes (CAT) com data e hora de consulta e acredita que o vão levar para uma casa de tratamento. Em breve, diz, irá “trabalhar para Espanha ou regressar a casa”. Na cabeça dele será tudo muito rápido e sem dor. Parece genuinamente entusiasmado. “Se eu fizer o tratamento deixo de ressacar, é ou não é?”

Mas três dias depois, dia da viragem, manhã cedo, ressaca ainda por resolver, banho por cumprir, olheiras de quem dormiu pouco menos do que nada, seria afinal só dia inútil de consulta. Um desapontamento. Haveria, pelo menos, mais quatro ou cinco iguais antes de ser internado ou integrado num programa de metadona.

Telmo sente-se enganado. Pragueja. “Isto não se faz. Não se faz”, protesta a vingar a raiva com a sapatilha gasta em cada pedra do chão. O CAT só recebe toxicodependentes até às 10 horas. Quem não é levado pela mão, acaba sempre por falhar. No dia ou na hora. Telmo, desta vez, não falhou, mas jura que não volta.

Agora, qual recompensa de sacrifício sem fruto, precisa urgentemente consumir. Mas ainda não juntou dinheiro. Dez euros, é tudo quanto precisa. Corre para S. Bento, território de clientela segura. A casa de banho da estação é território adverso. Cubo branco de azulejos, homens sempre a entrar e a sair, a maioria sem lavar as mãos, às vezes travados pelos poucos minutos que demora a limpeza. Aquele é o local onde tudo pode acontecer. Todos sabem. Os taxistas mudam de postura quando a necessidade aperta. Ali não entram.

“É um sítio onde há muito movimento. A casa de banho é o sítio ideal para engatar”, confirma Telmo. “Durante o dia é mais velhos, pessoas reformadas, que passam o dia na peneleirice. Os outros andam a trabalhar e só às cinco ou seis da tarde saem do trabalho e passam ali, mas é coisa rápida.”

Há códigos, sinais que só eles sabem. Mas que se apreendem depois de pacientes horas de observação. Mão no bolso significa luz verde. Se o cliente rolar os dois dedos indicadores, ainda está a escolher. Esticar o polegar é encontro na pensão. E a estação está cercada de pensões a alugar quarto ao minuto. Os seguranças sacodem os rapazes. Supostamente. É o que dizem. O que se vê é diferente. Cumplicidade, graçolas durante pausa para café, espécie de protecção. “Fazemos o que toda a gente faz: fazemos de conta que não vemos”, reconhece um deles.

Num repente, Telmo desaparece. Não demorou cinco minutos a conseguir cliente. Volta pouco depois. O rosto suado, corado, o cabelo encharcado, a desviar o olhar, envergonhado. À luz nua do dia vêem-se os dentes estragados, radiografia de percurso sem cuidados mínimos. É um menino, prisioneiro de um corpo que não lhe pede paz.
O nervosismo só é vagamente atenuado quando chega ao Aleixo. A rusga, limpeza de uma só noite, não provocou efeito de continuidade. O bairro continua a ser o altar de quem quer comprar droga. Telmo consome logo ali, num campo onde se vêem dezenas a fazer o mesmo. Regressa com os lábios em sangue. Sangue que jorrou da seringa para o braço e que ele lambeu. Na mão seca, de pele engelhada, um papo. “Com a pressa estraguei tudo. Veio tudo para fora. Tenho que ir a casa consumir”, avisa, sem sinal de alívio.

Mas ele não quer ir a casa só porque o líquido que havia de lhe trilhar a veia certa e apaziguar o cérebro ficou preso na mão; quer ir a casa porque teme a reacção do amigo mais velho, amigo único - o mesmo que aceita dividir com ele a cama e a casa -, se ele não partilhar o lucro que aufere com o corpo. É acordo tácito. O amigo, 40 anos, tem já dificuldade em conseguir clientes; a verba de Telmo há muito que deixou de contemplar a pensão. Completam-se na desgraça.

A casa é abrigo pequeno, virado ao rio, odor ocre mastigado com perfume, pior do que a pior pensão. Sem televisão, sem electrodomésticos. Vários relógios, todos baratos, todos parados. Não se vislumbram utensílios que não os estritamente necessários para “caldar”. O amigo, cabelo grisalho, rosto marcado por 13 anos de cativeiro por tráfico de droga, já o aguarda.

“Queres ver?”, desafia Telmo, a arregaçar a manga do casaco de sempre que encobre um braço delgado, sem músculo, sem grama de gordura. “Estou todo picadinho, estou mesmo enterrado”, exibe como se fosse necessária prova. O homem está apático. Na carrinha de rua, onde troca seringas, recebeu uma informação que primeiro o emudeceu e depois o fez explodir. Tem HIV e responsabiliza Telmo pelo resultado. “Só podes ter sido tu!”, grita. “Porque tu não tens cuidado nenhum”. Telmo não tem cuidado, não se defende. “Se calhar fui eu, não sei”.

A forte probabilidade de ser seropositivo não parece assustá-lo. Ainda. “Sabes porquê?”, arregala os olhos. “Já convivi com muita gente que a tem, grandes amigos. E eles tentam viver a vida da melhor maneira. E, às vezes, porque não sabem o dia de amanhã nem de além, são as pessoas mais felizes, sabias?”

Não verte uma lágrima quando fala da dependência que lhe rouba todos os dias a vida; quando narra episódios de clientes que lhe lembram o que teima em contornar: que é prostituto. “Custa-me mais usar o corpo quando eles acham que eu tenho que fazer o que eles querem só porque me estão a pagar. Às vezes, digo: “Não faças isso que está-me a doer. Mas isso é o que lhes dá mais prazer. Aí, sinto-me mal, porque estou a ser usado, é ou não é?”. Usado por 20 euros. Em situações de desespero, usado por metade. Não se comove quando partilha os pesadelos que o assaltam durante a noite, as trapalhadas em que se mete durante o dia. Mas não escapa ao calor do sangue. Fala na mãe e emociona-se. Nos irmãos, e desfaz-se num pranto. É um menino outra vez. Enrola os braços à volta dos caracóis do cabelo, as lágrimas a correrem-lhe pela cara de barba por desfazer há tantos dias, ele a tentar disfarçá-las a acender outro cigarro.

“Não digo nada à minha mãe para não a preocupar. E não telefono aos meus irmãos porque eu, a falar com eles, começo logo a chorar.” Chora. Pausa. “Se lhes telefonasse ia mentir. Eles iam logo pedir-me para ir ter com eles a Inglaterra, porque gostam muito de mim. Arranjavam-me casa, trabalho, tudo. Mas não sabem a situação em que estou. E depois? Chegava lá e como era? Ia estragar-lhes a vida? Não posso fazer isso”.

"Achas que chego aos 40?”

Telmo já teve uma vida normal. “Era uma vida diferente. Tinha gosto em tudo, em acordar, fazer o meu trabalhinho, ter o meu maço de tabaquito, tomar o meu café, curtir a vida. À noite, ia a um bar, bebia o meu copo, tinha os meus amigos, fumava os meus charros. Tinha o meu portatilzinho, estava tudo fixe.”

Hoje, não tem gosto em nada. Já pesou 70 quilos; agora, a balança tem dificuldade em distanciar-se do ponteiro dos 40. Come quando calha, quando os trocos sobram, nunca mais do que para um bolo e um pacote de leite de chocolate, hábitos de infância. Tudo o que tinha, vendeu. O património é a roupa do corpo, o que sobrou cabe no bolso das calças.

Manhã de Março. Telmo está sentado no passeio da rua de Cedofeita, frente ao CAT, a fumar beatas que recupera do passeio, assombrado por uma nostalgia a que raras vezes se entrega. A vida toda a passar-lhe pela cabeça, a recordar o que dela houve de luminoso, como se adivinhasse que dali a escassos minutos, o teste da Sida lhe iria cortar o destino em duas metades: antes e depois de saber que é seropositivo.

Nem sequer é a primeira vez que aguarda a eternidade daqueles cinco minutos que demora a conhecer o resultado. “Uma vez tive relações com uma travesti, tinha peito e tudo e eu não via nada. Era uma mulher e dava prazer. Tivemos relações várias vezes. Mais tarde, através de amigas dela, soube que era seropositiva. Aí, fui fazer o teste. Deu negativo”. Não é a primeira vez, mas desta vez algo lhe diz que não terá a mesma sorte.

A enfermeira que lhe experimenta o braço não encontra veia. Chama uma colega. Também não consegue. Chamam outra. Outro, é um homem. Passa-lhe os braços por água a ferver, mas nos braços é impossível. O corpo está frio, o sangue gelado. O enfermeiro descalça-lhe as sapatilhas, procura uma veia da perna. Telmo pede desculpa pelo cheiro que, subitamente, inunda a sala branca, estreita e sem janelas.

Está impaciente. É picado duas, três, dez vezes e, mesmo assim, não há sangue capaz de encher três tubos. O que existe basta. “Se o resultado for negativo,´dizemos nós; se for positivo, alguém o há-de chamar”, explicam os técnicos, um deles a abanar a cabeça. “Lido com isto todos os dias. E não me lembro de algum dia ter aqui aparecido um miúdo neste estado”, deixa escapar.

Cinco minutos demoram anos a passar. Telmo é chamado para conversa particular. Mau sinal. Quando sai, o medo que dizia não ter, está todo ali. Todo ele é vulnerabilidade. É seropositivo. “Achas que vou chegar aos 40 anos, à idade do meu amigo?”, pergunta. Está baralhado, tonto, como se tivesse acabado de sair de uma montanha russa. Não completa uma frase. “Agora sei que a tenho… é uma coisa ainda… não estou informado, mas sei que tenho que andar agasalhado… não sei…Acho que ainda não entrei na realidade. Não sei se hei-de chorar, se hei-de rir, não sei. O meu cérebro parece que está parado”.

O cérebro não parou. A vida dele também não. Mas também não mudou. Promessas. Eternos recuos e recomeços. “Amanhã vou começar o tratamento”. Amanhã, afinal, é só depois de amanhã, no dia a seguir, na semana que há-de vir. Telmo continua ali, horas altas da noite, em Sá da Bandeira, repetidamente para trás e para a frente, o trajecto marcado por duas esquinas. Na estação de S. Bento, durante o dia, como num carrossel. O amigo foi preso no início de Maio. Telmo deixou de ter abrigo. Dorme numa cadeira, na sala de espera do Hospital Santo António.

“Se eu morresse aí, quem ia contactar a minha família? Ninguém sabe onde eles estão, ninguém sabe quem sou, ninguém sabe de nada”. No coração do Porto, Telmo é só mais um.

[Reportagem publicada no JN.

No surprises*

A heart that's full up like a landfill,
a job that slowly kills you,
bruises that won't heal.
You look so tired-unhappy,
bring down the government,
they don't, they don't speak for us.
I'll take a quiet life,
a handshake of carbon monoxide,

with no alarms and no surprises,
no alarms and no surprises,
no alarms and no surprises,
no alarms and no surprises,
Silent silent.

This is my final fit,
my final bellyache,

with no alarms and no surprises,
no alarms and no surprises,
no alarms and no surprises please.

Such a pretty house and such a pretty garden.
No alarms and no surprises (get me outta here),
no alarms and no surprises (get me outta here),
no alarms and no surprises, please.
RADIOHEAD

terça-feira, junho 03, 2008

10

Aprendi a esquecer a data em que desapareceste. Data de morte voluntária que coincide com data de nascimento involuntário, como são todos. Escolhi concentrar-me no nascimento. E celebrá-lo sem te levar flores. Sem me lembrar de ti. Celebrá-lo como não foi possível celebrar no dia em que, antes de o aniversariante apagar as velas, o telefone tocou, com alguém do lado de lá a dizer que alguém tinha desaparecido. Ninguém disse que eras tu, mas eu sabia que eras. E eras. A ameaça velada a ensombrar as conversas desde sempre, uma dor que não sabias bem de onde vinha mas que não cabia dentro de ti. Sufocava-te, enlouquecia-te a necessidade de evasão. Escolhi esquecer-te. Escolhemos sempre concentrar-nos no que não faz doer. No que já não podemos remediar. Escolhemos sempre libertar-nos do peso. Mas hoje, sem querer, voltei a lembrar-me. A lembrar-me de quando estavas cá. E de como tudo era mais simples. Estes dez anos pareceram dez dias. Dez dias inteiros que demoraram mais a passar só porque não fizeste parte deles.

sexta-feira, maio 23, 2008

3 Iron


"Todos somos casas vazias
À espera de alguém
Que abra a fechadura e nos liberte."

Kim Ki-duk

terça-feira, maio 20, 2008

Manoel de Oliveira em Cannes


"Ao longo destes meus cem anos de vida, o cinema cresceu comigo.
Agora, posso dizer que o cinema me faz crescer".

segunda-feira, maio 19, 2008

Cat Power

Once I wanted to be the greatest
No wind of waterfall could stall me
And then came the rush of the flood
Stars of night turned deep to dust

Melt me down
Into big black armour
Leave no trace of grace
Just in your honour
Lower me down
To culprit south
Make 'em wash a space in town
For the lead
And the dregs of my bed
I've been sleepin'
Lower me down
Pin me in
Secure the grounds
For the later parade

Once I wanted to be the greatest
Two fists of solid rock
With brains that could explain
Any feeling
Lower me down
Pin me in
Secure the grounds
For the lead
And the dregs of my bed
I've been sleepin'
For the later parade

quinta-feira, maio 15, 2008

Paulo Nozolino

[Foto: J.P. Coutinho]

“Viajar tem sido sempre a minha maldição, ver a minha alegria, fotografar a minha sorte. Para sempre rasgado entre ficar demasiado tempo e partir cedo demais, decido-me pelo instante. Sou uma permanente testemunha em fuga.”

Fim-de-semana do cinema japonês


Amanhã, 18h30;
22h
Ugetsu Monogatari / Contos Da Lua Vaga,
Kenji Mizoguchi

Sábado, 18h30
Onna Ga Kaidan O Agaru Toki /Quando Uma Mulher Sobe As Escadas,
Mikio Naruse
22h
Madadayo / Ainda Não!
Akira Kurosawa

Domingo, 18h30; 22h
U-Na-Gi / A Enguia
Shohei Imamura


[Organização conjunta da Fundação Ciência e Desenvolvimento/ TCA e Medeia Filmes, 15 a 21 Maio sessões às 18:30 e às 22:00. Cine-Estúdio do Teatro do Campo Alegre - Rua das Estrelas. Informações: www.fcd-porto.pt 22 6089800. Oito filmes, dos clássicos aos contemporâneos, um filme por dia, à excepção do dia 17 (2 filmes).]

terça-feira, maio 13, 2008

A cor do desejo

Há música a voar na rua e só eu ouço. Borboletas de fingir a aterrarem-me no corpo, ursos de plástico a dançar à janela, flautistas de gargalhadas largas. E ilusões rápidas. O sol queima-me a pele, apesar de ser noite e estar a chover. Ainda há motivos para rir, mesmo que tudo vá morrer daqui a pouco e o silêncio vá engolir a tristeza que há-de vir. Ainda parece bonito. O fogo de artifício com cores de arco-íris. Tudo inventado.
Ninguém quer o amor; só o bocadinho de cor que existe no desejo.

quinta-feira, maio 08, 2008

Indie no Porto 8/15 Maio

As duas salas do Cinema Trindade reabrem hoje para receber a extensão do festival INDIE.
Sessões 19h00 e 21h30
Trindade 1

A Hero never Dies
de Johnnie To - Hong Kong, 1998, 98’
Dois assassinos, dois patrões, duas companheiras, destinos duplos. Eis o fim do filme de heróis de Hong Kong, o género que John Woo popularizou nos anos 1980. To desconstrói-o com movimento de câmara e cor abstracta, tornando a história do tipo com uma pistola na celebração da estrutura classicamente simétrica. Quando o glacial L. Lai e os chefes dos criminosos rivais do duro cowboy L. Ching-wan formam uma aliança, os dois pistoleiros tornam-se supérfluos. Descobrindo que são um par de avatares de heroísmo individual fora de moda, entre eles o jogo passa a aliança e depois a tragédia. Um manual da habilidade de To para injectar efeito emocional numa peça formalista: cada traição e sacrifício são um soco.
Secção: Herói Independente
Trindade 2
Scott Walker: 30 Century Man
de Stephen Kijak - Reino Unido, 2006, 95’
Documentário sobre o génio musical e uma das mais enigmáticas figuras da música rock, Scott Walker. Stephen Kijak proporciona-nos uma viagem através da música e carreira de uma das mais enigmáticas e influentes figuras da história do rock. Dos primeiros anos como baixista em Sunset Strip, ao mega-estrelato na cena pop inglesa da “swinging London” dos anos 60 como líder dos The Walker Brothers, e à evolução das últimas décadas. O filme apresenta imagens exclusivas de Walker durante a gravação do seu mais recente állbum a solo, o aclamado The Drift, assim como entrevistas com o próprio, com fãs famosos e colaboradores como David Bowie, Radiohead, Brian Eno, Jarvis Cocker (Pulp) Damon Albarn (Blur, Gorillaz), Neil Hannon (The Divine Comedy), Marc Almond, Alison Goldfrapp. Um documento obrigatório para os fãs e uma fantástica descoberta para todos os outros.
Secção: Indie Music

9 de Maio
Sessões 19h00 e 21h30
Trindade 1

En Construcción
de José Luis Guerín – Espanha, 2001, 125’
A maior parte dos filmes de Guerin são rodados fora de Espanha. “En Construcción” é a excepção: ao longo de três anos, o realizador catalão registou com um rigor obsessivo a demolição de uma área do Barrio Chino, um bairro operário em desagregação em Barcelona, e a construção de um moderno complexo residencial para a nova classe média catalã. Mas à medida que a construção da cidade futura progride o passado reafirma-se incessantemente: tanto na surpreendente descoberta do antigo cemitério romano debaixo das fundações do novo edifício como na riqueza da sabedoria popular revelada numa conversa casual entre dois vizinhos que testemunha o fim de um mundo. “En Construcción” é um dos momentos mais fortes de toda a história do documentário.
Secção: Herói Independente

Trindade 2
Introspective
de Aram Garriga – Espanha, 2007, 68’
Na segunda metade da década de 1990, a revista The Wire forjou um conceito controverso: o pós-rock. O termo era usado para definir a música de algumas bandas com estilos que não cabiam em nenhum dos outros géneros pré-determinados pela indústria e pelo mercado. Apesar de serem singulares e de se distinguirem, as bandas associadas a este (de facto inexistente) género partilhavam referências e perspectivas sobre a música, a vida e o mundo em que vivemos. “Introspective” conta com bandas como Sonic Youth, Mogwai, Embryo e Mouse On Mars, explora as razões por detrás de algumas destas bandas, as suas palavras e espectáculos ao vivo (designadamente durante o festival Sónar em Barelona), propondo um retrato de música indie ou underground como uma alegoria afectiva das nossas sociedades globais. Uma viagem na companhia de nomes como Jeff Twedy, Jason Pierce, Ira Kaplan, Thurston Moore ou Lee Ranaldo e de bandas como os Tortoise, Yo La Tengo, Piano Magic, Low, e Hood, entre outras.
Secção: Indie Music

10 de Maio
Sessões 16h00, 19h00 e 21h30
Trindade 1
Competição Internacional – Longa Metragem Premiada

Trindade 2

Kuduro - Fogo no Museque
de Jorge António – Portugal, 2008, 52’
Desde a sua independência, nunca Angola tinha assistido a um movimento cultural tão dinâmico e tão polémico como o kuduro. Nenhum outro género musical ultrapassou tão rapidamente as fronteiras e se tornou um fenómeno internacional. Paralelamente à construção vertical desenfreada que agita Angola, continuam a crescer os bairros periféricos – musekes – onde uma nova geração usa a música como arma de intervenção. É deste movimento, da crescente importância da cena musical angolana e da sua proliferação que este documentário nos fala. “Kuduro - Fogo no Museke” é o retrato social e cultural de uma nova geração, que quer acima de tudo ser a voz de uma nova Angola.
A sessão contará com a presença do realizador.
Secção: Indie Music
11 de Maio
Sessões 16h00, 19h00 e 21h30
Trindade 1
Competição Internacional – Curtas Metragens Premiadas
Trindade 2
The Reinactors
de David J. Markey – EUA, 2008, 95’
Freddy Kruegger, o pirata das Caraíbas Jack Sparrow, o Super Homem, ou uma péssima sósia de Marilyn Monroe deambulam pelo passeio da fama em Hollywood na esperança de alguém querer tirar uma fotografia com eles, por um dólar. É a Meca do cinema vista pelos olhos de um bando de sósias. Apesar de parecerem directamente saídos de um filme, as suas vidas são bastante diferentes das verdadeiras estrelas. O documentário de David J. Markey segue a vida destes imitadores ao longo de um ano, mostrando-os no seu dia-a-dia, as suas esperanças e ilusões. Alguns julgam ser estrelas que apenas ainda não foram descobertas. Têm sonhos, mas estes parecem esfumar-se ao dobrar a esquina do passeio da fama por onde se mostram…
Secção: Director’s Cut – Longas Metragens

12 de Maio
Sessões 19h00 e 21h30
Trindade 1

Occident
de Cristian Mungiu - Roménia, 2002, 105´
OCCIDENT, primeira obra do realizador de ”4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, é uma envolvente comédia com laivos trágicos. Luci, engenheiro florestal, e a namorada Sorina, educadora infantil, questionam-se sobre o seu futuro depois de serem desalojados da casa que habitavam. Sem terem a quem recorrer, vão até ao cemitério e ficam junto da campa do pai de Sorina na esperança de lhes surgir um sinal que os ajude a decidir o que fazer. Enquanto Luci promete fazer tudo o que estiver ao seu alcance para arranjar um emprego no ramo da publicidade, Sorina acredita que a única solução é saírem da Roménia e emigrarem para a Europa ocidental. Eis senão quando o desejado sinal surge vindo do além e liga as suas vidas à de outras personagens que enfrentam o mesmo tipo de problemas e que também desejam escapar da insegurança que enfrentam numa sociedade pós-comunismo.
Secção: Herói Independente – Novo Cinema Romeno

Trindade 2
Competição Nacional – Curtas Metragens Premiadas

13 de Maio
Sessões 19h00 e 21h30
Trindade 1

Furia
de Radu Muntean - Roménia, 2004, 80´
Em FURIA, do mesmo realizador (também autor) do multipremiado “The Paper Will Be Blue”, conhecemos dois amigos: Luca e Felie vêem-se confrontados com Gabonu, o líder de um gang cigano, que lhes dá um prazo de 24 horas para pagarem uma dívida vultuosa. Conseguem metade do montante ao venderem um carro ao qual tiraram a quilometragem. Já sem ideia de como conseguir a outra metade, Luca esbarra com Mona, uma antiga colega de liceu. É então que lhe surge a ideia: oferecer Mona a Gabonu, para que este a ofereça ao seu protegido, um cantor que procura a noiva ideal, e assim ficar com a dívida saldada. Mas as coisas não correm como esperado...
Secção: Herói Independente – Novo Cinema Romeno

Trindade 2

Clint Eastwood, a Life in Film
de Michael Henry Wilson – França, 2007, 80’
Clint Eastwood fala de si próprio numa série de conversas para a câmara do crítico e historiador de cinema Michael Henry Wilson. Clint Eastwood acede passar em revista a sua carreira como actor, realizador, produtor, compositor no momento em que utlimava o mais ambicioso dos seus projectos: o díptico “As Bandeiras dos Nossos Pais” e as “Cartas de Iwo Jima”. Homem de muitas facetas, este eterno forasteiro, cujo arrojo perdura aos 75 anos, cultiva a impressão da autenticidade e da ambiguidade. Gosta de brincar com a própria imagem e só cria uma mitologia para a minar. Paradoxalmente protegido pela sua celebridade, continua a ser o mais enigmático dos grandes realizadores. Uma oportunidade única de conhecer melhor o homem por detrás do cineasta e actor.
Secção: Director’s Cut

14 de Maio
Sessões 19h00 e 21h30
Trindade 1

Let the Right One In

de Tomas Alfredson – Sweden, 2008, 106’
Oskar é um jovem frágil e ansioso de 12 anos que está constantemente a ser vítima dos colegas mais velhos e mais fortes. Um dia apaixona-se por uma rapariga que aparenta ser… um vampiro. Eli acabou de se mudar para a vizinhança. É uma miúda da mesma idade, pálida e séria, que só sai à noite. Rapidamente os dois jovens começam a envolver-se e um romance não-declarado começa a florescer. Eli incentiva Oskar a revoltar-se contra os seus agressores. E, coincidindo com a chegada dela à cidade, começam a acontecer uma série de mortes misteriosas… O filme, uma adaptação de um livro de John Ajvide Lindqvist que evoca o universo de Anne Rice e Stephen King, é uma refrescante variação do filme de vampiros. ”Let the Right One In” é o inesperado cruzamento entre as convenções do cinema de terror e um dos temas de eleição (um rapaz a lidar com as suas primeiras dores de crescimento) de algum cinema de autor contemporâneo.
Secção: Observatório

Trindade 2
Gerda 85

de Patricia Gelise e Nicolas Deschuyteneer – Bélgica, 2007, 68’
Filmado em apenas onze dias, "Gerda 85" é a primeira longa metragem de Patricia Gelise e Nicolas. O filme dá-nos a conhecer uma jovem em ruptura, algures numa zona rural da Bélgica. É Verão. Ela tem de estudar para os exames. Gerda está em casa dos tios, que não via há muitos anos, desde a morte da mãe. Estamos em 1985 e cassete que toca transporta-nos até essa altura. Gerda tem de tomar decisões, fazer escolhas que a levarão a ver outros horizontes. Há um tempo que tem de terminar para que outro se inicie. Com uma banda sonora fortemente marcada pelas sonoridades da música dos anos 80 (a lembrar New Order e The Cure, entre outros), o filme é o retrato de uma geração em ruptura, que busca um sentido e um caminho na vida.
Secção: Laboratório

15 de Maio
Sessões 19h00 e 21h30
Trindade 1

PTU: Into the Perilous Night
de Johnnie To - Hong Kong, 2003, 88’
O sargento Lo, director da divisão policial anti-crime, dá-se conta que a sua arma desapareceu durante um confronto com um gang. Ao longo de uma noite, uma equipa de polícias procura freneticamente pela arma que o colega perdeu. O director da unidade, não querendo que Lo, que está quase a ser promovido, se meta em sarilhos, dá-lhe algum tempo para recuperar a arma. Enquanto os dois polícias tentam encontrar a arma, antes que um dos membros do gang mate alguém com ela, os investigadores da polícia suspeitam de corrupção dentro da unidade. Um filme de acção frenético, pontuado por alguns momentos de humor, “PTU” é um dos melhores exemplos do virtuosismo de Johnnie To na realização.
Secção: Herói Independente

Trindade 2

Boxing Day

de Kriv Stenders- Austrália, 2007, 82’
Contado em tempo real e num único plano-sequência, “Boxing Day” documenta minuciosamente os acontecimentos ocorridos ao longo de uma tarde da vida de Chris – alcoólico em recuperação e pai alienado. A viver sozinho em prisão domiciliária, Chris está a preparar o almoço de Natal para a filha adolescente quando um velho amigo aparece e lhe relata a perturbante verdade sobre o novo namorado da sua ex-mulher. A tensão vai-se acumulando até ao ponto de não retorno. O filme documenta em meticulosos detalhes a lancinante jornada de uma família perigosamente à beira da desintegração. Concentrado e poderoso, “Boxing Day“ é um psicodrama que vive muito do carisma e forte presença do actor principal, também ele ex-condenado na vida real.
Secção: Observatório

quarta-feira, maio 07, 2008

Into the wild



"(...) Há tantas pessoas que vivem infelizes e que no entanto não tomam a iniciativa de alterar a sua situação porque ficam condicionadas a uma vida de segurança, conformismo e conservadorismo. Tudo isto pode parecer conferir-lhes paz de espírito. No entanto, na realidade, nada é mais prejudicial para um espírito aventureiro no interior de um homem do que um futuro seguro. O princípio básico do espírito livre de um homem é a sua paixão pela aventura. A alegria de viver provém dos nossos encontros com novas experiências, e por isso não existe maior prazer do que ter um horizonte em eterna mudança, para cada dia ter um sol novo e diferente."
[Carta de Christopher Johnson McCandless a Ronald Franz in "O lado selvagem", de Jon Krakauer]

terça-feira, maio 06, 2008

My Blueberry Nights


Wong Kar-way filma o amor. E a tradução dos títulos dos filmes, pelo menos em Portugal, está sempre a sublinhá-lo. "In the mood for love" (2000) - no original é canção de Bryan Ferry -, é "Amor à flor da pele"; o futurista "2046" (2004) é "Os segredos do amor"; e agora "My blueberry nigths" (2007) é "O sabor do amor". Já antes, "Chungkink Express" foi traduzido algures como "Amores Expressos". E seria possível fazer rewind até ao início, filme-a-filme, encontrando em todos esse denominador comum.
No entanto, o cineasta asiático, que nunca fecha os filmes, que se nos deixa entrar nunca nos deixa sair do seu universo, decidiu desenhar My Blueberry Nights a papel milimétrico. Tudo acontece na hora e lugar exactos. Nada falha. Pela primeira vez, tudo parece fácil, tangível. É o menos melancólico dos filmes que assina. E, apesar disso, mantém a beleza de todos os outros, se não mais. Beleza plástica. A fotografia, as cores, os planos são completamente arrebatadores.
De resto, a ideia de sempre está lá, mas desta vez, só em intenção: a distância, a impossibilidade, as pessoas que viajam sempre até não haver mais para onde viajar, as pessoas que se conhecem assim do nada. E que se perdem antes de se terem. As saudades das pessoas que nunca sabemos se voltaremos a ver. Um dia. O amor, claro.
Mas eu preferia que o beijo abrisse o filme em vez de o fechar. Que fosse realmente roubado e, por isso, sem continuidade. Que resultasse de uma espécie de engano ou de uma espécie de verdade que só existe inteira no momento em que acontece. Que a rapariga do coração partido (Norah Jones, suficientemente rústica) e o rapaz atrás do balcão do café, (Jude Law sempre a fazer dele próprio), também ele abandonado, nunca encetassem a história que até poderia ser de amor, mas não era. Porque o amor não é, como ali parece, o encosto de duas solidões.
Preferia que tivesse havido maior tensão quando a namorada russa de Law reaparece só porque sim. Quando o pai de Natalie Portman (fabulosa, fabulosa!) morre. E quando, naquela que é a melhor história das micro histórias todas, o dilacerado polícia alcoólico (David Strathairn), também ele abandonado pela mulher um par de anos mais nova (Rachel Weisz), sucumbe. Nenhuma das relações é suficientemente densa, realmente convincente, mesmo que todos os personagens, individualmente, funcionem.

Talvez se tudo ficasse mais longe do happy end, ficasse mais perto de Wong Kar-way. Talvez a chave do filme pudesse estar na frase dita por Jude Law: "Mesmo que se possua a chave, isso não significa que o que procuramos esteja dentro da porta que conseguimos abrir".

Pina Bausch week


COMPRO BILHETE PARA CAFÉ MULLER, SEXTA, DIA 9, ÀS 18.30, S.LUIZ, LISBOA!
"Às vezes 'cubro' muito... Acontece querermos exprimir alguma coisa e chegarmos muito perto do que queríamos dizer. Mas compreendemos que é tão importante que parece desajeitado mostrá-lo. Então, é como se quiséssemos vestir isso com outra coisa, porque descobri-lo parece uma operação delicada; tem-se medo. Trata-se de qualquer coisa que é demasiado grande. Não gostaria de causar mal-entendidos nem de parecer pretensiosa, mas penso que é assim. Existe qualquer coisa de muito mais sério do que aquilo que o público, em geral, pode ver. Existe qualquer coisa que não é exibido, porque eu quis escondê-lo. É, de todas as vezes, como se houvesse um grande conflito entre o que queremos tornar claro e essa qualquer coisa atrás de que nos queremos esconder..."
[L. Bentivoglio, Il teatro di Pina Bausch]

segunda-feira, maio 05, 2008

O handicap de Rui Rio

Já nem sou irónica se disser que aprendi a respeitar as políticas de Rui Rio, a quase gostar do presidente da Câmara do Porto. Sobretudo por comparação directa. O PS Porto está para Rui Rio como o PSD nacional para José Sócrates: faz corar de vergonha um calhau. Tivesse Rui Rio maior sensibilidade cultural, logo, mais inteligência, e até eu equacionaria contribuir para o seu terceiro mandato. Mas depois, em entrevista ao Jornal de Notícias, ele diz coisas assim: "A minha política continuará a ser a mesma. Não é seguramente continuar a ter meia dúzia de pessoas na assistência [no Rivoli]. Novos públicos, mensagens sofisticadas... para quem?" E isto, como amostra, não é só desmoralizador; é tão medíocre que é impossível respeitar.

Manuela Ferreira Leite vs Rui Rio

"Rui Rio tinha algumas características que eu considerava mais adequadas do que as minhas."
Manuela Ferreira Leite in Expresso, sábado, 3 de Maio

"A dra. Manuela Ferreira Leite tem o perfil de que o PSD precisa neste momento."
Rui Rio in Jornal de Notícias, domingo, 4 de Maio

quinta-feira, maio 01, 2008

Doc no Gato Vadio


"Os vários espaços da livraria Gato Vadio servirão de tela para a exibição de um conjunto de 16 filmes e 2 instalações. Através da diversidade de espaços de visionamento - três - procura-se recriar a multiplicidade de olhares que o documentário permite. Estamos longe da definição simplista deste género como representação da realidade ou verdade absoluta. Estes pontos de visionamento constituem-se como fragmentos da realidade e são, como afirmou John Grierson, um "tratamento criativo da realidade". A subjectividade é algo palpável e acompanha tanto o realizador como o espectador. Os vários locais de projecção simbolizam a fronteira entre o ficcional e o documental e o espectador escolhe a sua realidade, tal como o realizador nos deu a sua forma de ver o mundo."

Programa completo:
http://projectovideolab.blogspot.com/
http://www.projectovideolab.com/

"DOCUMENTE Videolab"
Sábado, 3 de Maio, 21h30
Entrada 1€
Gato Vadio

terça-feira, abril 29, 2008

Rainer Maria Rilke: cartas a um jovem poeta

(...) Sabemos muito poucas coisas, mas a certeza de que devemos sempre preferir o difícil não nos deve, jamais, abandonar. É bom estar só, porque a solidão é difícil. Se uma coisa é difícil, razão mais forte para a desejar. Amar também é bom porque o amor é difícil. O amor de um ser humano por outro é talvez a experiência mais difícil para cada um de nós, o mais alto testemunho de nós próprios, a obra suprema em face da qual todas as outras são apenas preparações. Na medida em que estamos sós, o amor e a morte tocam-se. As exigências dessa terrível empresa que é o amor através da nossa vida não são à medida dessa vida e jamais estaremos à altura de merecer o amor desde os primeiros passos. Mas se, à força da constância, consentirmos em suportá-lo como dura aprendizagem, em vez de nos dispersarmos em brinquedos fáceis e frívolos que permitem que os homens se furtem à gravidade da existência, talvez um progresso insensível, um certo alívio possa então resultar para aqueles que nos seguirem, muito tempo ainda depois da nossa morte (...) Toda a aprendizagem é um tempo de clausura.

domingo, abril 27, 2008

Ana Drago

"A Beleza não é atributo que possa ser-me consignado".
Importa-se de repetir?
Ana Drago, 32 anos, deputada do BE, Farpas JN

domingo, abril 20, 2008

[Foto: Guillaume Pazat]

"Amamos o que desconhecemos. Mais do que tudo, é o que desconhecemos, e não podemos vir a conhecer, que nos prende. O amor vive dessa ignorância." Pedro Paixão

sábado, abril 19, 2008

Não há príncipe azul no elefante cor-de-rosa by Rute Rosas, na Miguel Bombarda

"(...) Será toda a frase uma afirmação de impossibilidade e incerteza?
Percebemos que é preciso revelar, entender, digerir. Que nada é aquilo que parece.
E com o que é que deparamos na exposição?
Entramos num cenário: verdadeiro ou falso?
Realidade ou ficção?
O que aconteceu aqui, neste lar?
Talvez castelo abandonado. Alegria, prazer, isolamento e solidão, mal-estar, dor, abandono...?Então, porque apesar de ausente o corpo, a sua presença ainda é mais fortemente sentida?
Não está aqui! Como?
Não tem Rute Rosas tida como centro fulcral do seu discurso, o próprio corpo?
O corpo transcende-se quando não existe.
Transforma-se em memória que não pertence à artista mas ao espectador.
Percebemos que podemos estar, estar apenas...."
João Baeta

HOJE: Espaço Ilimitado

HABITAT by Volker Schnüttgen‏, na Miguel Bombarda


"HABITAT une escultura contemporânea, dança e multimédia. Foi concebido como performance e como instalação de escultura. Cada uma das seis esculturas tem um monitor no seu interior. Estes monitores são uma extensão virtual do espaço real das esculturas, formando palcos virtuais para a coreografia. Ao contrário das esculturas materializadas, o espaço virtual permite uma dinâmica distinta e especial, alterando e modelando perspectivas, proporções e pontos de vista. Os bailarinos actuam num ecrã, mas nas esculturas adaptam-se a cada novo habitat, quer estejam sós ou acompanhados de múltiplos clones em diálogo com o seu passado recente mostrado no ecrã. O ambiente arquitectónico, o real e o virtual, torna-se o tema da coreografia."
HOJE: Galeria Arthobler, 16h-20h

sexta-feira, abril 18, 2008

Inês Nadais in Luna Park


Se sexta-feira sem Ípsilon não é sexta-feira, Ípsilon sem Inês Nadais não é Ípsilon. Inês Nadais é tão alucinada, tão cínica, tão retorcida às vezes, como só os muito bons cronistas (e jornalistas, no caso dela) podem ser. Mesmo que escrevesse mal, Inês Nadais seria sempre, pelo menos, original. Mas além de sempre original, Inês Nadais escreve superlativamente bem.

Inês Nadais deve ter, para quem não sabe, e se é que eu sei, 31 anos, mais coisa menos coisa, mas Inês Nadais é as gerações todas. As gerações todas dos livros, dos discos, dos filmes, da geografia mundial. É daquele tipo de cronista que pode escrever apenas sobre o seu próprio universo - e ela usa a possibilidade; que pode preencher a coluna só com private jokes - e ela abusa; que pode usar sempre o plural majestático - registo com o qual costumo embirrar; que pode prolongar a dança de uma frase até fazer com que nos percamos, obrigando-nos a voltar ao início; que pode escrever sobre coisas que só ela sabe o que serão, sobre batatas fritas, sobre nada, que pode escrever como quem escreve numa noite completamente out; que pode escrever no mesmo suplemento onde escreve Alexandra Lucas Coelho - adversária difícil -, que é sempre, sempre invariavelmente irresistível.
Não percebo, por isso, a razão pela qual não existe Luna Park todas as sextas-feiras. Hoje houve. Hoje foi um dia bom. Mas nem sempre é assim. E tinha este protesto para partilhar há já algum tempo.

PSD e os seus putativos primeiros-ministros

Durão Barroso sabia que seria primeiro-ministro, só não sabia quando. Foi primeiro-ministro entre 2002 e 2004, em coligação com o CDS-PP, mas depois encontrou um brinquedo melhor (bem melhor, como o prova o presente) e foi embora. Curiosamente, pouco antes de fugir, tinha assegurado que não o faria. É aí, por ele, que começa a derrocada do PSD. Mas isso o PSD não assume.
Santana Lopes morria se não fosse primeiro-ministro, nem que para isso tivesse que aceitar sê-lo num contexto de ratoeira, nem que fosse só por nove meses. Não deu conta do recado e saiu. Não propriamente pelo próprio pé, mas saiu.
Marques Mendes, credibilidade alcançada ao lado de Cavaco e Durão, se ambicionava ser primeiro-ministro, soube sempre disfarçar até que o escorregão de Santana há-de ter-lhe parecido demasiado apetecível. Açambarcou a liderança do partido, passo sem o qual nunca poderia ser primeiro-ministro. Não chegou a ser.
Luís Filipe Menezes ameaçava há anos liderar o PSD que, nos seus sonhos, serviria de alavanca para ser primeiro-ministro. Achava que era como em Gaia, que o povo é que manda. Enganou-se.
O homem que se segue - ou quer seguir-se, qual salvador da pátria laranja, - é José Pedro Aguiar Branco que afirmou ontem, em entrevista à Visão - talvez não tenha sido, mas aquilo cheira a encomenda por todos os lados - estar disposto a derrotar José Sócrates quando na verdade queria dizer apenas disposto a tudo para derrotar Menezes.
No PSD quem é não é por mim é contra mim. Quem não é base é barão e vice-versa. E os dois lados são inconciliáveis. Com Menezes saltou cá para fora a arraia-miúda inteira, com o execrável bacalhau Ribau Esteves a liderar a ralé (Branquinho, sem surpresa, lá vai dando sempre para os dois lados, o que o torna ainda mais intragável) - e agora parece que vão voltar os barões. Que até podem também perder, mas nunca perderão a pose.
Durão, o cherne, era afinal o rato do porão. Santana, o bobo da corte, não passou afinal de um infeliz usado para uma travessia suicida. Mendes não tinha carisma e concordava muito com o PS. Menezes não tem berço, nem nada que não seja esquizofrenia em estado puro. Os líderes do PSD têm sempre uma desculpa para sair. O PSD tem sempre uma razão para se virar contra si próprio. O partido social democrata só não parece encontrar um bom argumento para governar o país.
Há vários anos que analistas e comentadores políticos andam a dizer que Sócrates rejubila com a mediocridade da Oposição, que assim lhe facilita a vida e o faz parecer menos mau.
Sócrates será mau. Agora, imaginem se fosse bom!


quarta-feira, abril 16, 2008

National em Guimarães

Os norte-americanos National tocam no Centro Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, a 18 de Julho. O concerto está integrado no Festival Manta.

segunda-feira, abril 14, 2008

Young Marble Giants na Casa da Música


Afinal, não são só os novíssimos Vampire Weekend que vão estar na Casa da Música. Os velhinhos Young Marble Giants também vêm, e no mesmo dia: 30 de Maio.
Adivinha-se noite histórica no Clubbing!

Vampire Weekend na Casa da Música


Os nova-iorquinos Vampire Weekend actuam na Casa da Música, no Porto, a 30 de Maio. A data é avançada no site oficial do grupo. O concerto será o primeiro dos Vampire Weekend em Portugal, integrando-se numa extensa digressão europeia de promoção ao homónimo álbum de estreia da banda lançado no início deste ano.

quinta-feira, abril 10, 2008

Aceitam-se apostas


Maria das Dores foi condenada a 23 anos de prisão. Aceitam-se apostas:
a) Cumpre a pena;
b) Suicida-se;
c) Daqui a um ano está a lançar um livro;

Jorge Coelho


Sou fã. Lamento a saída da Quadratura do Círculo.

An end has a start*

Podíamos chorar se soubéssemos ainda chorar. E já não sabemos. Mas também já não sabemos rir. Nem o que fazer ao que somos, que é o somatório do que fomos, mas muito pouco do que queremos ser. E menos ainda do que sonhámos que seríamos quando chegássemos aqui. Eu digo que o fim é um novo recomeço. Tu dizes que o fim é o fim. A desistência. Eu digo que desistir é ficar num território sem acreditar nele, a vida a atravessar-nos e não nós a atravessarmos a vida. Tu dizes que ir embora é fácil. Que se fosse fácil ficar estariam cá outros. Será?
Eu digo que acredito no amor para sempre. Tu dizes que também. Eu digo que o amor não é uma condenação. Tu dizes que o amor é mutante. Eu digo que não pode ser um abismo. Tu dizes que às vezes pode. Não pode ao ponto de ser insuportável, digo. Dizes que sou hiperdramática. Sou hiperdramática. E digo que me levas as certezas quando gritas. Tu dizes que não suportas o silêncio. Eu digo que não suporto o barulho. E digo que ele deixa cicatrizes. Tu dizes que cicatrizes são feridas que já não são. Eu digo que ainda doem. Tu dizes que cicatrizes não doem. E se doerem?
Eu digo que tenho saudades do que fomos. Tu dizes que tens saudades do que seremos. Eu falo-te do desencanto. Tu falas-me de esperança. Eu digo que vejo tudo a derreter. Tu dizes que sou incongruente. Se não fosse não seria amor, digo. Tu dizes que eu tenho que recentrar o olhar. Eu digo que estou cansada de palavras. Tu dizes que sou eu quem as gasta. Eu digo espero por ti. Tu dizes: estou aqui. Estás?

*Editors

terça-feira, abril 08, 2008

Íntima Fracção no Expresso!

aqui tinha escrito, no início deste ano, que lamentava - e realmente lamentava - a ausência de Francisco Amaral e da sua Íntima Fracção num território de maior destaque do que o do seu blogue. Agora, o Expresso lança essa experiência inédita, que é um jornal ter o seu próprio programa de música online. Não podia estar melhor entregue.
Finalmente, feliz. Pelo regresso do programa, mais ainda pelo regresso do autor do programa e, também, porque, ao contrário do que parece, ainda há jornais que conseguem arriscar a novidade.

sexta-feira, abril 04, 2008

Importa-se de repetir?

Nuno Azevedo, administrador-delegado da Casa da Música em entrevista ao Jornal de Notícias:
Ser uma figura mediática é o único requisito para liderar o marketing da CdM? Guta Moura Guedes e Dalila Rodrigues não são propriamente autoridades nesta matéria…
Somos uma instituição cultural e não uma empresa que vende enlatados para pôr na prateleira do supermercado. Por isso, não é líquido que, à frente de um departamento destes, esteja um marketeer. É mais importante construir uma imagem consentânea com o que é hoje a CdM. A mudança de imagem que temos vindo a introduzir provocou efeitos muito positivos. No ano passado, registámos um crescimento de 24%. Este ano, no primeiro trimestre, crescemos 30%. Quantas empresas conseguem apresentar números destes?

Dalila Rodrigues foi um nome consensual?
Completamente.

Apesar de não ter grande experiência na área?
Discordo.

É a própria quem o admite...
A Dalila Rodrigues tem uma grande experiência na gestão de um produto cultural. Ela teve a estratégia, a vontade e a energia para pôr no mapa, em Lisboa, um museu que nem os próprios taxistas sabiam onde ficava.

Quais as prioridades da sua acção?
Tal como já acontecera com a Guta Moura Guedes, o objectivo passa por construir, ao lado da direcção artística, uma parceria criativa para conseguirmos explicar, de uma forma estruturada mas simples, o que são as características da programação e os atributos de cada concerto. Até 2006 e inícios de 2007, não conseguíamos isso. O que temos aqui é um produto volátil, pois, ao contrário de um teatro, os espectáculos mudam todos os dias.