Mostrar mensagens com a etiqueta Pedro Santos Guerreiro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pedro Santos Guerreiro. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, julho 16, 2015

O Syriza já está destruído, podemos agora salvar a Grécia?*


Chegará o momento em que tiraremos as mãos das carteiras e as poremos na consciência. Chegará o momento em que já não veremos os ricos que roubaram mas os pobres que ficaram. Em que não quereremos ressarcimento mas reparação. Em que perceberemos que não se pede sequer solidariedade, mas piedade. Em que nem os sádicos se divertirão com o espetáculo degradante dos políticos gregos. A União Europeia foi longe de mais na violência estéril e vingativa. Para destruir o Syriza está a ceifar-se um povo. Já não é indignação, é súplica: SOS Grécia. E se tudo o resto falhar, apele-se à inteligência, que não é de esquerda nem de direita, pois é preciso mudar aquele plano que, além de horrível, é burro, é mau, é pior para todos.

Nos palácios de Bruxelas, nos sofás de Berlim ou mesmo nos bancos de jardim de Lisboa permanece apetecível distribuir culpas e medir ideologicamente o debate. Mas nas ruas de Atenas já passámos essa fase. Sobra o desespero de saber que nada vai valer a pena porque pagar ou não pagar parece indiferente, o tudo ou nada resultará sempre no pouco, no de menos, no insuficiente, porque o plano não funciona. Repito: a Grécia vai ter uma recessão pior do que a que os Estados Unidos viveram na Grande Depressão de 1929. Repito: o plano económico vai falhar porque foi concebido para falhar. Repito: desistimos dos gregos e resistimos a ver o desastre encomendado.

O bloco liderado pela Alemanha ficou tão furioso com o desplante do senhor Alexis Tsipras na marcação do referendo que quis devolver-lhe em dobro a lição de superioridade. Até se percebe a fúria, que segundo os relatos da reunião de domingo do Eurogrupo fez com que o senhor Wolfgang Schäuble berrasse. Alexis Tsipras foi arrogante, marcou um referendo pérfido e achou-se nimbado de invencibilidade com os resultados, como se fosse dar uma tareia moral aos demais Estados-membros. Mas a Alemanha quis tanto destruir o Syriza, por vingança e por dissuasão a que outros países elejam partidos radicais, que perdeu a noção da força. Mais um pacote recessivo vai destruir mais economia e mais emprego numa economia já exangue.

A vitória sobre Tsipras foi retumbante. Até o perdão da dívida, que o Syriza sempre reivindicou, é agora formalmente admitido pelo FMI, mas de forma a culpar o partido, que não mais tem nada para mostrar. É ridículo ouvir Alexis Tsipras dizer que assinou um acordo em que descrê. É degradante vê-lo tripudiar o próprio Syriza e ancorar-se nos deputados dos partidos que detesta e que o detestam a ele. É assustador ouvir a presidente do Parlamento (que pertence ao Syriza e se junta aos 40 deputados que se afastaram de Tsipras) falar em genocídio social. Mas a humilhação suprema talvez seja ver Tsipras dizer que não há alternativa. Tsipras, o temível mastim indomável, está amestrado como um caniche. Dá dó. A direita europeia rejubila. Também dá dó. Porque ninguém para, escuta e olha para perceber na loucura que estamos a patrocinar.

A loucura de ver um povo desesperado que, depois de cinco anos de austeridade duríssima, tem prometida nova dose de austeridade duríssima. A loucura de tornar o pagamento da dívida mais insustentável do que nunca, pela destruição económica provocada – se a Grécia sai do euro, os credores podem esquecer, vão receber raspas. A loucura de segregar dentro da União Europeia, cavando um fosso que nos vai apartar sabe-se lá até que lonjuras.

A Grécia só se livra desta sarna se, além do perdão de dívida que de qualquer forma terá, tiver um programa de estímulo económico. O mundo, aliás, só recuperou da Grande Depressão dessa maneira. Percebe-se a pulsão de obrigar o país a adotar as reformas estruturais nunca adotadas, incluindo a de ter um Estado que funcione e que cobre impostos. Mas não é destruindo o espaço político e aniquilando a economia que tal vai ser conseguido. A violência na Praça Syntagma é desenrolada por grupos anarcas ruidosos mas pouco representativos. A miséria que se alastra, não: é de todos.

É preciso mudar o plano. Somar à austeridade um programa de investimento que estimule a economia e que apoie casos sociais de pobreza. Isso é ser inteligente, até porque é a única forma de tentar recuperar parte da dívida. Talvez a linha dura dos alemães queira apenas humilhar o Syriza e tenha feito um plano para que, depois da capitulação de Tsipras, mude o plano para melhor. Até seria bom que isso fosse verdade. Seria maquiavélico mas, ao menos, saberíamos que a loucura iria mudar. E que, portanto, a Grécia haveria de ter uma saída da crise em vez de uma saída do euro. Para já, o que vemos é o que temos, um país inteiro a afundar-se na desgraça.

Os gregos estão desesperados porque a situação é desesperante. Coloquemo-nos no lugar deles por um minuto: um governo de extrema-esquerda ajoelhado depois de cinco anos de tareia, de desemprego e de austeridade, depois de décadas de corrupção e roubo institucionalizado com os governos de centro. E o que lhes dizem que se segue? Pobreza. Talvez a esta hora também estivéssemos na rua.

* Pedro Santos Guerreiro, hoje, no Expresso

sábado, março 28, 2015

Pedro Santos Guerreiro: Crónica H


Estou acordado. Fala-me de ti.
Hoje não há espadas trespassando os cometas da semana, Herberto Helder morreu e eu vou escrever uma crónica. Não é um texto de opinião, não é um editorial, não é sequer uma coluna, são apenas quatro quartos de coluna, é uma crónica, é fogo daqui em diante, a saída de emergência é já aqui. Saia. 
Fique. 
Não peço desculpa pela interrupção: ou escrevo sobre Herberto ou escrevo sobre um doido voador que barrica 149 pessoas do lado de fora de um cockpit e deixa de epitáfio à insânia a sua respiração pavorosamente normal, compasso trágico cravado numa caixa negra (negra, negra) do silêncio impassível impossível de um 'suicidomicida'.
Vê? Um neologismo, coisa de crónica. Crónica não é o entendimento do mundo, é uma visualização pessoal dele. "Ver é a pura loucura do corpo" e a loucura não é falar de Herberto, é falar de nós ao lê-lo, para fugir "às arenas do puro intolerável". Nesta crónica a primeira pessoa é ele, a terceira pessoa sou eu - e eu agora vou tratar-te, Herberto, como se ele fosses tu. Tu, Herberto, para mim não morreste pela mesma razão que para mim não viveste. Li-te sem precisar de te conhecer de parte nenhuma, sem ter curiosidades sobre ti, se eras feliz, se eras pobre, se fumavas Gauloises ou comias peixe frito, se eras como nós, se eras de cá - se eras vivo. 
Herberto fará muita falta à sua família, aos seus amigos, aos que tinham a sua vida na vida dele - e a esses prestamos respeito. A mim, Herberto Helder não fará falta. Para mim, ele não é vida e obra, é obra, obra toda, e a obra está comigo, connosco, envelopada em livros a que falta juntar um, sai daqui a meses. Não sinto pois saudades, mas gratidão, e nem sequer é a ele, é à dádiva. Nós sabemos que Herberto não queria ser falado (as frases oficiais desta semana... credo... país que dá ao poeta morto o que não dá ao poeta vivo...). Como escreveu o outro do século XX, de que se fala sempre que se fala de Herberto (parece estar em debate se eles dividem o século ao meio ou se ficam os dois com o século inteiro): "Assim, como sou, tenham paciência!/ Vão para o diabo sem mim,/ Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!" 
Crónica, dizia. Herberto Helder em nós. Um clamor. Um frémito. Um estremecimento. Um adoecimento. Desejo, ensejo. Palavra. Dedos molhados, pedras ásperas, sal, praias de labaredas. O que somos quando somos amantes? Quando tudo em nós é ela? Sexo. Morte. Solidão - um a falar de outra quando queria ser dois. Servidão. Certeza. Entra-se e a gruta subitamente não é escura. Obscuro, Herberto? "Como brilham violentamente as cicatrizes." 
Este texto é meu e não vim cá hoje para ver nem para ler, vim para estar. E ir. Afinal, isto é uma crónica e é a minha forma de expressar não o amor por ele mas o amor pelo amor que ele nos revelou. Herberto, o que quero eu? É apenas uma crónica, não preciso de vencer. Só quero dizer: Herberto é para ler todo e serve para ler tudo. É para nos vermos a nós depois dele, no nosso mundo depois daquele, que são o mesmo, mas nós diferentes. 
Sim, estou acordado. Fala-me outra vez.
P.S. - Esta crónica tem quatro citações. Elas são, por ordem, de Clarice, Sophia, Pessoa e Herberto: os quatro quartos da coluna.
[Hoje, no Expresso]

terça-feira, abril 15, 2014

Cortes com cortes

"Comparar os cortes deste Governo com os cortes do Governo de José Sócrates é uma mentira tão grosseira que não pode ser mentira - só pode ser erro".
Pedro Santos Guerreiro (análise à entrevista de Pedro Passos Coelho, Sic N)

sexta-feira, novembro 22, 2013

Pedro Santos Guerreiro: 50 maneiras de deixar o seu amor

Juergen Teller

Um jornal não se faz por quem o escreve, mas por quem o lê. Um jornal não é uma colagem de factos, mas um chaveiro para o entendimento. Um jornal tem poder - o poder que o leitor lhe endossa. Para que o jornalismo seja a celebração diária da liberdade. Para que o jornalismo garanta a liberdade do dia seguinte. Quase sete anos depois do primeiro, escrevo hoje o último editorial como director do Negócios. Nós passamos, o Jornal fica. É assim que está certo.

Imparcialidade não é neutralidade. Caos não é muito. Informação não é um vidro fosco entre realidade e verdade. Por isso, no canto desta página três, a direcção escreve todos os dias sobre o extraordinário mundo em que vivemos. Muitas vezes para simplificar o que é complexo. Muitas vezes para dar referências para que o leitor forme a sua própria opinião. Muitas vezes para enfrentar o poder, a situação, o que manda. Não é intrepidez, é função. Não é por exibicionismo, mas por serviço. Como disse Noam Chomsky, a questão não é dizer a verdade ao poder - o poder provavelmente já conhece a verdade e está sobretudo interessado em suprimir, limitar ou distorcer a verdade. Se te questionas se já foste longe demais, dizia Christopher Hitchens, é porque ainda não foste. Informe-se e que desabem os céus. 

Mas este canto de página é apenas um canto de página. Um jornal é a sua redacção e a redacção do Negócios é a mais excepcional equipa que já conheci. Pela dedicação. Paixão. Pela coragem. Discutimos milhões de vezes uns com os outros. Temos dúvidas sobre tudo o que nos rodeia. Nunca tivemos um conflito sobre o jornalismo que perseguimos e praticamos. Nunca tivemos dúvidas uns sobre os outros. E na lista infindável de agradecimentos que terei de fazer, aos editores e redactores, aos chefes e chefiados, expresso a gratidão à minha direcção, pela superação das mais indizíveis guerras e dificuldades. E em especial aos dois maravilhosos jornalistas que escreveram comigo este canto de página três, e que convidei para me porem sempre em causa e por serem melhores do que eu: a Helena Garrido, a quem entrego com orgulho e certeza a direcção do Negócios; e o João Cândido da Silva, homem da cepa dos que têm a generosidade persistente de fazer bem e de dizer não. 

Ensinaram-me que é mais importante sair bem do que entrar bem. Saio do Grupo Cofina com a mais franca confissão: fui feliz. Serei sempre testemunha abonatória de uma administração que pratica a independência editorial e respeita a liberdade dos jornalistas. Assim foi sempre no Negócios. Devo-o ao meu director-geral, Luís Santana, a alma da Cofina. Devo-o a Paulo Fernandes, que se firmou como industrial obcecado em criar valor, e que acreditou em mim, quando herdei a direcção do Sérgio Figueiredo. 

Estes anos não foram quaisquer. Foram anos de ruína na economia, de desgraça na política, de devastação na sociedade. Conto hoje o que me foi sempre mais difícil: assistir à inconsequência da denúncia antes do início da intervenção externa; e continuar a transmitir esperança depois dela. A destruição dos sonhos dos mais novos, a pobreza entre os mais velhos, os cortes, os impostos, os resultados falhados, as políticas sem comando, a austeridade desembestada, a regeneração fracassada, a sucessão arrogante e desatinada de medidas tortas e a direito, a preservação dos instalados, a supremacia dos mais fortes sobre os mais fracos foram – são – testes diários à capacidade de não desistir, de não perecer à derrota, de encontrar dentro de nós mesmos força e amor para continuar a lutar - contra eles se necessário; por nós, por sobrevivência . Para não perder a esperança. Para não espalhar miséria. Perdemos quando sucumbimos ao cinismo, doença que ensombra a luz e come os sonhos por dentro. Ganhamos quando vivemos cada dia ingénuos como se fosse o primeiro e desprendidos como se fosse o último.

O Negócios é um jornal com vida, com esta alegria, esta inconformação, esta liberdade de pensamento, esta esperança em Portugal, esta dedicação aos leitores. Eu serei doravante um deles. Um de vós. Um de nós. E é uma alegria. E é uma alegria!
Por tudo, por todas as vezes, obrigado. 

"Just slip out the back, Jack

Make a new plan, Stan

You don’t need to be coy, Roy

Just listen to me

Hop on the bus, Gus

You don’t need to discuss much

Just drop off the key, Lee

And get yourself free"

"50 ways to leave your lover",

Paul Simon 
Eu sei que já aqui o disse, mas vou voltar a dizer. Comecei a ler o Jornal de Negócios por causa dos editoriais do Pedro Santos Guerreiro. Depois, comecei a colecioná-los (não vá ele nunca querer publicá-los em livro). Entretanto, fiquei completamente rendida ao Fernando Sobral. E, de repente, estava viciada no jornal inteiro. Não conseguia esperar pela manhã, queria lê-lo à noite, acabado de fechar. Assinei-o. Nunca me tinha passado pela cabeça assinar um jornal de economia. Mas o Negócios é muito mais do que só um jornal de economia. E o tanto que aprendi e cresci a lê-lo é impagável.

Um dia, conheci o homem daqueles editoriais que me levavam às lágrimas, que me devolviam a esperança, que me faziam voltar a acreditar no jornalismo. Podia ser só um imbecil que escreve e pensa bem. Não é. É um tipo extraordinário, como sempre acreditei que os bons jornalistas devem ser. Quando há umas semanas devorei a Newsroom, foi logo no Pedro que pensei. É o maior elogio que poderia fazer-lhe. Há quem diga que é só uma série ingénua. Pois, será. Mas como ele escreve hoje: "Perdemos quando sucumbimos ao cinismo, doença que ensombra a luz e come os sonhos por dentro. Ganhamos quando vivemos cada dia ingénuos como se fosse o primeiro e desprendidos como se fosse o último."

Muito obrigada, Pedro.

sexta-feira, setembro 20, 2013

Pedro Santos Guerreiro: O que é que você acha?

Anka Zhuravleva

Pedro Santos Guerreiro lança 40 perguntas no editorial de hoje.
Se responder afirmativamente a pelo menos dez é porque anda distraído.
Se responder afirmativamente a metade é oficialmente ingénuo.
Se responder afirmativamente a trinta ou
 mais, tem um problema, mas como não tem consciência dele é de certeza feliz.
Se tiver respondido negativamente a quase todas as perguntas, concentre-se só nesta: "Acha mesmo que o seu papel, a sua opinião ou o seu trabalho são irrelevantes?"


"Acha mesmo que mais 0,5% de défice é o que vai fazer a economia crescer em 2014?

Acha mesmo que estarmos com taxas de juro de 7,2% nas obrigações a dez anos é estar no caminho certo?

Acha mesmo que o PSD chama hipócrita ao FMI por outra razão que não sejam as eleições autárquicas?

Acha mesmo que Passos e Portas confiam um no outro? Acha mesmo que sabe qual deles é que manda no Governo?

Acha mesmo que o Estado mudou muito?

Acha mesmo que a competitividade da economia portuguesa melhorou muito?

Acha mesmo que Portugal não vai precisar de outro programa de ajuda externa, se os mercados financeiros estão hoje tão fechados como em 2011, quando estavam abertos em Maio?

Acha mesmo que a crise política do Verão foi inócua?

Acha mesmo que não foi precisamente por causa da crise política que as obrigações portuguesas dispararam, quando as espanholas e as italianas caíram?

Acha mesmo que os mercados não são estúpidos, que não se comportam como animais numa manada, que os investidores conhecem os pormenores da vida política portuguesa, em vez de se limitarem a apreciações binárias, e portanto terem mudado Portugal da caixa "país com estabilidade política" para a caixa "país com instabilidade política"?

Acha mesmo que Paulo Portas foi responsável?

Acha mesmo que um programa cautelar é o mesmo que um segundo resgate?

Acha mesmo que o Governo não está a entrar no mesmo processo de negação em que Sócrates andou em 2010 e início de 2011 quando dizia que o Estado tinha dinheiro à vontade?

Acha mesmo que é uma boa decisão aplicar todo o fundo de estabilização de segurança social em dívida pública portuguesa?

Acha mesmo que, além dos 20 mil milhões que precisamos de empréstimos de longo prazo no próximo ano, vai ser fácil renovar outros 20 milhões de euros em Bilhetes de Tesouro?

Acha mesmo que o Tribunal Constitucional é o factor de bloqueio da reforma do Estado?

Acha mesmo que o Governo não está encostado à crença de que a Europa nos ajudará porque quer um sucesso em Portugal?

Acha mesmo que as eleições alemãs vão mudar a política de austeridade?

Acha mesmo que o Estado já assumiu toda a dívida pública que está nas empresas públicas e nas PPP?

Acha mesmo que conseguiremos pagar toda a dívida pública, numa economia de baixo crescimento?

Acha mesmo que vamos ter um crescimento económico espectacular, se mesmo as previsões optimistas do FMI dizem que só em 2018 voltaremos ao nível de PIB per capita que tínhamos em 2007?

Acha mesmo que o consumo não voltou a subir porque os portugueses estoiraram poupança que (bem) acumularam nos últimos dois anos?

Acha mesmo que os bancos não têm mais crédito malparado por reconhecer?

Acha mesmo que o Governo tem medidas alternativas à TSU das pensões, à mobilidade dos funcionários públicos e ao corte das pensões do Estado para apresentar daqui a três semanas?

Acha mesmo que o Governo não está a contar com flexibilização da troika no défice, mas também nas previsões do PIB e do desemprego, com pressupostos optimistas para que o Orçamento bata certo?

Acha mesmo que se a troika não facilitar não será preciso mais impostos?

Acha mesmo que o Governo não cai se houver aumento de impostos?

Acha mesmo que a culpa é só da troika?

Achas mesmo que o FMI fez "mea culpa"?

Acha mesmo que se cortaram gorduras no Estado, nas fundações, nos institutos, nas empresas públicas?

Acha mesmo que não foram as famílias que mais se ajustaram neste processo?

Acha mesmo que os excelentes resultados das empresas exportadoras não são deslocação de produção que era para o mercado interno e passou para o mercado externo, o que sendo óptimo não envolveu investimento nem novo emprego?

Acha mesmo que a reforma do IRC é suficiente para atrair investimento?

Acha mesmo que tudo é bom?

Acha mesmo que tudo é mau?

Acha mesmo que o seu papel, a sua opinião ou o seu trabalho são irrelevantes?

Acha mesmo que não há alternativa?

Acha mesmo que sabe qual é a alternativa?

Acha mesmo que Portugal, que se endividou e não conseguiu crescer durante dez anos, durante os quais furou sempre o défice, vai crescer agora que se endividou ainda mais e quer continuar a furar o défice?

Acha mesmo que os políticos lhe estão a dizer a verdade?"


[Hoje, Jornal de Negócios]

quarta-feira, agosto 07, 2013

Pedro Santos Guerreiro: A inconsistência problemática das pensões

[Paulo Nozolino]

[Afinal, acabou mesmo o Verão]

Pronto, acabou o Verão. Acabou a festinha do "novo Governo" e o fogo-de-artifício do fim da austeridade em que, talvez um dia saibamos porquê, Portas decidiu banhar-se. Voltámos ao ponto de onde na verdade nunca saímos sem que alguma vez tenhamos entrado de forma permanente: aos cortes na despesa do Estado. Os pensionistas do Estado vão receber até menos 10%; a idade de reforma sobe para os 66 anos.

Esta é talvez a única reforma no Estado que não é ideológica. Mas não é só matemática. Porque há decisões que aumentam ou diminuem a injustiça das medidas; porque se rasgam direitos adquiridos; porque estão em jogo transferências entre gerações.

O problema começa por ser matemático. Mas o depauperamento do Estado apenas agrava a questão de fundo, a demografia. A Segurança Social portuguesa é um sistema de distribuição, não um sistema de capitalização. Ou seja, não há uma "conta individual" e virtualmente ninguém descontou para a reforma que recebe ou receberá. Dos 34,75% sobre salários que trabalhadores e empresas descontam mensalmente de taxa social única, 13,9% financiam pensões, o resto é consignado a apoios contributivos como o subsídio de desemprego ou de doença. Grosso modo, segundo dados da OCDE, quem desconte 40 anos entregou assim ao Estado menos de seis anos das suas pensões. Isto não é em si um problema - excepto quando o número de trabalhadores que desconta cai vertiginosamente.

A necessidade de reduzir o custo do sistema de pensões é inultrapassável. A questão é como. Trabalhar mais anos parece uma forma tranquila, que primeiro o PS (opcionalmente) e agora o PSD/CDS (legalmente) impõem. Não chega. Quando se fala em cortes de 4,7 mil milhões, é preciso mais. O Governo diz agora, começando pelas pensões do Estado.

É justo que as pensões do Estado sejam mais prejudicadas? Nas pensões anteriores a 2005, é. Até então os funcionários públicos reformavam-se tendo como referência o último salário (no privado era a média dos melhores 10 anos dos últimos 15), o que levava a promoções fictícias no fim de carreira. É também por isso que, hoje, as reformas do Estado são em média o triplo das do privado.

O problema é que este corte nas pensões do Estado é retroactivo e é cego. Justo seria detectar as reformas artificialmente empoladas no fim de carreira. Injusto é dizer a alguém que recebe 700 euros que receberá doravante 630 sem mais explicações. (Na verdade os cortes não são tão simples, dependem do valor da reforma, da idade do reformado e do ano em que se reformou. Está tudo explicado nesta edição.)

A retroactvidade (ou retrospectividade, como preferem chamar-lhe os juristas) pode vir a ser uma questão constitucional, mas é antes de mais uma questão social - e individual. São centenas de milhares de pessoas (supomos, pois o Governo não esclareceu ainda) que vão perder pensão e já não estão em idade activa para compensar. Complicado é também o tema geracional: quem hoje desconta não vai receber a mesma pensão do que quem hoje a recebe.

Actualmente, um reformado recebe de pensão líquida 110% do último salário líquido, mas em quarenta anos esta percentagem vai descer para 70%. Eis a "conspiração grisalha": a geração futura vai receber menos que e por causa da geração actual.

Ou a economia desata a crescer, a criar empregos e a contratar imigrantes para esses postos de trabalho, ou o corte com as pensões e o aumento da idade de reforma é impossível de contornar. Em 2013, segundo o Governo, os sistemas públicos de pensões têm um défice de 5,6 mil milhões de euros. A questão ideológica mais difícil de responder é se esse corte deve ser apenas futuro (dividindo por menos) ou também sobre o passado (traindo o contrato com os actuais pensionistas, que já não têm como encontrar novas formas de rendimento e poupança). 

Intoleráveis são as excepções. É chocante assistir às excepções para os juízes (e diplomatas), que só acontecem porque os próprios juízes julgaram em causa própria e consideraram o corte ilegal (argumentando que as suas pensões seguem a evolução dos salários no activo). É inacreditável que quem decide justiça crie excepções para si que agravam a injustiça para todos. Será para agradar aos juízes do Constitucional?

Este corte das pensões no Estado recoloca a questão que a crise política doida de Julho ludibriou. Na tormenta da austeridade virá ainda o corte de todas as pensões (públicas e privadas) da TSU aceite "excepcionalmente" pelo "irrevogável" Portas, bem como as "inconsistências problemáticas" do cúmulo de tudo isto, dos impostos e do aumento da idade de reforma. E depois virão também os despedimentos na função pública e a harmonização das tabelas salariais, eufemismo para corte de salários. Em suma, aquilo que devia ser a reforma pensada do Estado e que é, apenas, a reforma apressada do Orçamento do Estado.

[Hoje, Jornal de Negócios]

terça-feira, agosto 06, 2013

Pedro Santos Guerreiro: Diálogos entre mudos e surdos


[Editorial com potencial para estragar o Verão. Ou só um banho de realidade.]

Ainda estávamos a aprender a dizer Subir Lall quando anunciaram nova mudança na troika, pela Comissão Europeia. Ainda ninguém terá decorado o seu nome, mas já sabemos mais do que pensa John Berrigan antes de entrar do que de Jürgen Kröger depois de sair. E o que Berrigan diz é tão surpreendente quanto esclarecedor: a política europeia tornou-se a arte de manipular a opinião pública.

Jürgen Kröger não deixa saudades. Não deixa ódios. Não deixa alegrias. Não deixa nada. O alemão não tinha força na Comissão. Nem na troika, que sempre foi comandada pelo FMI e teve uma só pessoa poderosa: Poul Thomsen. De resto, a troika executou assessoria técnica e negociações delegadas pelos seus chefes da Comissão, FMI e BCE. Não é crítica, é constatação. Mas agora as coisas estão a mudar.

O FMI está de "saída" da Europa, o que os europeus perceberiam bem se fossem não europeus. O FMI não é eleito por povos, mas tem países como accionistas. Aí se joga também o poder entre emergentes e decadentes, entre hemisférios Norte e Sul, entre pobres e ricos - e mesmo entre os ricos da América e os ricos da Europa. Como disse António Borges, a mera sucessão de Strauss-Kahn por Lagarde prejudicou a influência europeia. E países de África e da América Latina nunca perceberam por que razão o dinheiro estava a ir para o continente mais rico do mundo, a Europa. Esse tempo acabou.

A Comissão Europeia não parece maçada. A chamada do FMI nos resgates não foi consensual e a tese que domina é de que agora a UE já aprendeu o que precisava com o FMI sobre resgates, pelo que já não precisa de gente de fora. Na verdade, o que a Europa parece estar a dizer é de que quer fazer as coisas à sua maneira sem o FMI a fazer perguntas.

O FMI não sai coberto glória. O célebre relatório interno sobre a Grécia mostrou que a troika mentiu ao povo grego. Os modelos não se adaptaram a uma moeda única, onde a desvalorização cambial foi substituída por desvalorização interna, sobretudo salarial. Mas o FMI também mandou em Portugal por falta de comparência. A Comissão Europeia mandou a receita das reformas e ficou à espera. Depois, como uma conversa inadvertidamente escutada entre os ministros das Finanças português e alemão revelou, o importante era Portugal cumprir ou fingir que cumpria, para que os alemães não questionassem. A ajuda viria pela calada. Como veio. Como virá.

John Berrigan (um irlandês que em rigor se chama Sean Berrigan) pensa assim. O Negócios ouviu uma aula do novo membro da troika há três meses em Oxford com afirmações claras. O vídeo e declarações estão no blogue da nossa redacção, o "Massa Monetária". Vale a pena ler e ouvir. Afinal, é este o pensamento que domina em Portugal, mesmo se pensando mais por nós do que em nós.

A parte mais interessante respeita a um tema que soa técnico, a União Bancária, mas é muito menos técnico que político. Como diz Berrigan, a União Bancária "será provavelmente a maior transferência de soberania para o centro, até diria que superior à criação união monetária", em que "estamos a tentar transformar autoridades nacionais em denunciantes." Não é coisa pouca. Aliás, "sejamos claros: se não revertermos esta fragmentação nos mercados [de crédito], o mercado único está ameaçado, assim como a recuperação da periferia".

A aula de 50 minutos de Berrigan não é um excitante concerto de rock and roll, mas é uma exposição arrepiante pela simplicidade sobre como é que a "coisa" funciona. A "coisa" é a política europeia. É aliás surpreendente ver que muitos preconceitos são mesmo verdadeiros. Incluindo sobre alemães, holandeses ou finlandeses. Há a percepção "em alguns Estados de que os empréstimos a outros Estados-membros não são empréstimos, mas bolsas que não voltam. (…) Apesar de termos tentado explicar às pessoas nestes países que estão a ganhar dinheiro com estes empréstimos, isso não está a funcionar". De facto, diz, "há um ajustamento doloroso a acontecer que nem sempre é reconhecido nos países do Centro, onde há uma percepção de que nada está a acontecer, e de que os empréstimos estão a sair sem que os países façam o que devem".

Outro preconceito confirmado é o do amadorismo das soluções europeias: "Muitas vezes temos de tomar decisões depressa, por vezes muito depressa, e depois temos de reparar essas decisões com o tempo. Um bom exemplo é o FEEF [primeiro fundo da Zona Euro que financiou Portugal] que inventámos quatro horas antes de Tóquio abrir e depois passámos seis meses a tentar substituí-lo com o que queríamos desde o início, que é o MEE [o actual fundo]".

Disto se percebem muitas coisas, da estupidez do "bom aluno" ter sido acrítico ao mito do "bom professor" ser sempre crítico. Mas sobretudo percebe-se que a Europa não sabia o que andava a fazer e não há a certeza de que o saiba agora. Não estranhamente, o BCE tem sido a instituição mais aplaudida pelos mercados - talvez porque pareça mais distante aos povos. E no entanto, entra-nos pela vida adentro.


Bem-vindo, senhor John Berrigan. Como se diz no seu país, a Irlanda, "nós não somos a Grécia". Somos europeus - eles também e, afinal, vós também. Ou resolvemos isto juntos ou não resolvemos, só revolvemos.  

[Hoje, Jornal de Negócios]

domingo, julho 07, 2013

Pedro Santos Guerreiro: Por mares nunca dantes navegados


O pior foi evitado: se o Presidente apoiar, não vamos para eleições. Mas o pior foi evitado da pior forma, enfiando quadrados no lugar de triângulos e garantindo que são redondos. Há um lacrau no Governo. É o lacrau da traição. É o lacrau que faz temer pela próxima crise, daqui a dois meses e meio. Acha mesmo que o problema é a troika?

Ainda não sabemos se os ajuizados enlouqueceram ou se os loucos vão simulando juízo, mas dá medo ser governado por gente assim. Gente que mente, se desmente, gente da inconstância e da incontinência. Uma máscara caiu-lhes e já arranjaram outra. O Governo é o mesmo mas mudou radicalmente. Há uma semana perguntámos: depois de Gaspar, quem mandará num Governo em que Passos nunca mandou? Sabemos agora: manda Portas, que se engoliu a si mesmo, aos seus chiliques, à sua palavra e à sua honra. O líder do PP é hoje dono da maior cara de pau do país. Dizem que "ganhou". Ganhou poder. Vale isso mais que o respeito? Portas mudou a geografia da seriedade, navegou por mares nunca dantes revogados. 

Comecemos pela boa notícia: o acordo, que apascenta os lobos dos mercados. Há perdas irreparáveis na economia, mas o segundo resgate voltou a não ser uma fatalidade. Foi a única vantagem desta crise: mostrar que o segundo resgate não é um papão usado para impor austeridade. O risco é real e é medonho, pode significar uma pobreza ainda maior e mais prolongada. É aliás curioso ver que muitas das pessoas que diziam que o segundo resgate é uma ficção disseram agora que ele é inevitável, haja ou não eleições. Não é verdade. O segundo resgate não está afastado mas ainda é evitável. O programa cautelar que há-de manter-nos apoiados não tem nada a ver com o segundo resgate. É um apoio na mesma, mas um supõe financiamento nos mercados. Andar de muletas não é o mesmo que de cadeira de rodas.
As taxas de juro poderão voltar a descer, as Bolsas poderão aliviar. E se o Governo fizer o que ainda não fez - reduzir a despesa permanente do Estado para poder descer impostos e inventar politicas para reactivar a economia -, encaminhamo-nos para os últimos doze meses da troika em Portugal.

No mundo ideal, este ano não teria tido 52 semanas, apenas 51. Se tivéssemos saltado de domingo 30 de Junho para segunda 8 de Julho, tudo se teria resumido a uma remodelação no Governo com reequilíbrio de poderes, perdendo Gaspar e Passos para Portas. (Era isto aliás que se exigia a estadistas, que resolvessem o problema em privado e tornassem público apenas a solução). O Governo quer fazer crer que assim foi: que Portas não recuou (o que é a gargalhada do ano) e que o Governo é melhor do que era. A desfaçatez com que ninguém pede desculpa e se assume que não é necessário prestar contas por esta vergonhosa semana é (mais) uma armadilha na democracia deixada por quem a diz cumpri-la. 

Talvez quando todos percam todos se considerem vencedores. Gaspar perdeu e deixou veneno na carta de despedida. Cavaco fez tudo, porque nada fez, pelo apodrecimento da coligação. Passos desprezou tanto Portas que acabou refém dele. Portas perdeu a vergonha.

O novo Governo vai mostrar que Gaspar era menos forte e que Álvaro era menos fraco do que se pensava. Não se está contra a troika sem apresentar alternativas. Portas nunca teve alternativas. Como é politicamente mais hábil, criará a sensação de que nos vão tirar um milhão para ficarmos felizes quando nos tirarem meio milhão. Mas isso não são alternativas, são percepções. Alternativa não é ter mais tempo, é saber o que se faz com ele. Se não se sabe, mais tempo é apenas mais dívida. Que política traz Portas? Somos todos ouvidos.

A troika funciona com uma restrição: o envelope de 78 mil milhões. Se o défice é maior, é preciso mais financiamento. E ou o FMI e a UE enviam mais dinheiro (o que não deveríamos querer) ou ele tem de ser garantido nos mercados. Ora as últimas emissões são positivas mas foram caríssimas. E queremos mesmo continuar a aumentar a dívida pública? Não.

Se Portas quer baixar impostos, tem de cortar mais despesa pública ou dançar a dança da chuva do crescimento económico. O crescimento ficou mais distante depois da insanidade desta semana (você investiria num país onde o Governo dá o espectáculo que o nosso deu?). E cortar a despesa do Estado é o odioso a que Portas se furtou. Significa despedir funcionários públicos, cortar-lhes salários, reduzir pensões - e reformar o Estado.

A melhor solução teria sido manter a coligação sem Paulo Portas, que se enforcara com as suas próprias mãos. Mas o relativismo moral venceu. E o Governo transmite tanta confiança como um pirómano com um cinturão de bombas a fazer malabarismo com frascos de nitrogelicerina num paiol de pólvora. Portas é o melhor dos políticos mas revelou que os problemas de carácter não são um assunto da vida privada quando se tornam problema da vida pública. Portas é um talento sem coragem. Passos é um corajoso sem talento. E é isto.

No final de Setembro há eleições e três semanas depois é apresentado o Orçamento. Uma derrota dos partidos da coligação nas autárquicas terá consequências políticas; a austeridade no Orçamento testará o apoio social. Portas e Passos vão ter de aguentar-se ou não merecem esta segunda oportunidade.

O que se passou ainda não passou nem vai passar depressa. Pensar que a "crise irrevogável" não existiu é como supor que a TSU de há um ano foi irrelevante, só porque nela se recuou - e ela mudou tudo. As coisas não voltarão a ser iguais. Mas este Governo tem de aguentar-se até ao Verão do próximo ano. Se for para cair depois do Orçamento, mais valia ter caído agora. Tudo menos um segundo resgate. Tudo, inclusive um Governo que, por ser feito de bonecos sempre-em-pé, pensa que não está com a cara no chão. 
 
[Hoje, Jornal de Negócios]

quinta-feira, junho 27, 2013

Pedro Santos Guerreiro: Que há-de ser de nós?



[Não é coisa de que se está à espera, que um jornal económico entre de mansinho na nossa vida e depois vá toma tomando conta dela até não podermos viver sem ele.

E começou tudo por aqui, pelos incríveis editoriais de Pedro Santos Guerreiro, que viciam, e às vezes fazem mais por nós do que um dia inteiro de notícias.

Talvez pudéssemos viver sem o Jornal de Negócios, mas não seria a mesma coisa.
Obrigada.]

Há dez anos já íamos todos morrer. Há dez anos já tínhamos pântano político e tanga no Estado. Há dez anos as reformas já eram todas para já e acabavam sendo nunca. Há dez anos as mesmas pessoas de hoje enchiam a boca de feitos e esvaziavam a mão de defeitos. Há dez anos já havia todas as mentiras, todos os mentirosos e todos a quem mentiam. Há dez anos já havia interesses, lóbis, corrupção, desigualdades, pobreza, proteccionismo, impunidade, compadrio, desesperança, défice, dívida, partidos políticos e políticos partidos.

Há dez anos Portugal já era o que ainda era. E já havia génio. Inquietação. Vontade contra a moinha. Insatisfação com a insatisfação. E já havia zanga, fúria, urros, hurras. A sensação frequente de que estamos sempre a escrever o mesmo editorial porque nada muda. A alegria rara de que a esperança pode mesmo ser inventada. A constatação final de que dez anos não é nada e foi tanto. 


Em cinco Governos, apenas um cumpriu a legislatura. Houve maioria absolutas, relativas, coligações, dissoluções, escolhas sem eleições. As retomas nunca chegaram, o défice foi sempre manipulado, a dívida foi sempre escondida, a competitividade foi fraca, a economia foi fraca, a carne foi fraca. Os negócios foram fortes. Privatizações da PT, EDP, Galp, REN, Portucel, ANA. O maior negócio de sempre, a impensável oferta da Sonae para comprar a PT, num ano em que o país pensava que era rico, quando também o BCP quis comprar o BPI, duas OPA hostis falhadas com consequências tão diferentes. A "golden share". A ruína do BCP, assistida por uma CGD infamemente politizada, no caso empresarial mais sujo de que há memória, em que até fotografias íntimas comprometedoras de pessoas envolvidas nos foram propostas (e por nós recusadas).

Os assassinatos de carácter com fugas de informação selectivas em violação do segredo de justiça. A vergonha manipuladora das escutas. Espionagem. Os casos de promiscuidade entre empresas e política: o Furacão, o Mensalão, o Face Oculta, o Polvo, o Monte Branco. O escândalo do BPN. Do BPP. As PPP, os swaps, os estádios, as estradas, o aeroporto, o TGV. Mas também a salvação de impérios, como a Jerónimo Martins. O sucesso da Renova, da Bial, da Frulact, do banco Big, da Portucel, da Mota-Engil, da Sovena, da Autoeuropa, de milhares de filiais, de fornecedores de multinacionais, de grandes pequenas empresas desconhecidas. E a intervenção externa. A austeridade. O protectorado. A crise financeira. A crise económica. A crise social. O desemprego. A geração sem respostas, sem propostas, sem apostas, a geração sem nada. A Europa afunda-se em resgates, o euro claudica. Durão mudou de nome para Barroso. Aparece Obama. Esmaece Mandela. O mundo sacode-se, com a revolta de uma larga região do hemisfério sul pobre mas emergente contra outra larga região do hemisfério norte rico mas decadente. O mundo ocidental atolado em dívidas. O mundo oriental a tornar-se potência. Uma demografia explosiva e desequilibrada. Centenas de milhões de seres humanos a sair da pobreza. A exigirem mais do seu sistema político. A circularem livremente em redes sociais. Primavera Árabe. África em crescimento astral. 


Nestes dez primeiros anos do Negócios como jornal diário os dias foram mais que notícia. Foram um pentagrama de uma era em mudança, com as democracias, o capitalismo, o liberalismo, o sistema
financeiro, os equilíbrios mundiais, a Europa em solavanco. É a frustração de ver um país a afundar-se na carência do futuro. É a paixão de noticiar um tempo histórico. Há dez anos Portugal já era Portugal. Há dez anos já íamos todos viver. Já queríamos partir tudo, já queríamos construir tudo, já queríamos desistir, insistir, resistir, amar, desesperar, esperar, não esperar.

Perdemos muito. Mas também ganhámos muito na década perdida. Às vezes parece que a história nos desfaz. Mas somos nós quem faz a história. Jornalistas, leitores, incluídos, excluídos, temerários, amotinados, nós somos os escritores da História. "Que há-de ser de nós?", perguntava Sérgio Godinho. A resposta é nossa. Porque mesmo quando a notícia é sobre outras gentes, políticos, empresários, polícias, ladrões, sucessos, fracassos, geografias e povos distantes, a notícia somos sempre nós. 

[Hoje, no Jornal de Negócios]

quarta-feira, junho 05, 2013

Baptista Bastos: As mãos celestes



Mesmo tal como estava, havia nele uma aura luminosa a querer dizer-nos que a sua vida fora cumulativa: um enriquecimento caldeado na dor, no sofrimento e numa infinita esperança. Tinham-nos ensinado a esperar por outros amanhãs, e existíamos entre a semiologia e a revolução. Quem não viveu essas épocas não entenderá nunca o feitiço exercido pela História sobre nós. Mas a voragem dos tempos açoita as convicções. Uns bifurcaram-se, outros ajuizaram que o destino é um arcanjo cego. Carlos Paredes pertencia a outra estirpe: não desistiu, não abdicou, não traiu, não abjurou. Carlos Paredes morreu sem nunca perder a latitude do seu tempo, nimbado dessa natureza criadora e plural, decisiva e incitante que lapidou os melhores da sua geração. Ele, porém, era um génio. Sirvo-me do adjectivo atendendo ao rigor do seu exacto significado. Um génio que conhecia muito bem o peso do seu talento, sem nunca saber ou querer usar o poder daí decorrente.

Os persas antigos diziam que os abençoados dos deuses possuíam mãos celestes: em tudo quanto tocavam permanecia uma luz emanada do firmamento. E esses abençoados eram gigantes solitários, poderosos e pacíficos, decisivos e íntegros. Carlos Paredes emoldurava-se nessa lindíssima fábula. Quando tocava, os dedos percorriam as cordas com a volúpia de um demiurgo, com a sensualidade de quem afaga um corpo de mulher, com a delicadeza do respeito e a grandeza de uma palpitação infinita que lhe ficara da infância. A guitarra do Paredes. A guitarra do Paredes foi, amiúde, a voz dos homens a subir ao céu, e o encontro dos deuses distraídos com a tristeza do chão português. “Verdes Anos” é um dos mais plangentes poemas sobre as nossas emoções antigas: a derrota, a dor, o espanto de sermos jovens e não sabermos se estaríamos, em adultos, à altura dos nossos malogros. E também a ternura, a partilha, o gregarismo que une os homens na adversidade, e aquela voz ciciada a dizer-nos que resistir é outra forma soberana de combater.

A guitarra do Paredes foi o Portugal que jamais se calou, mesmo na opressão, mesmo nas masmorras, mesmo no opróbrio e na violência do fascismo. Ainda que não estivesse com as mãos na guitarra, Carlos Paredes tocava sempre, num constante confronto experimental que punha em causa a verdade estabelecida, os padrões impostos, o conhecimento definitivo e dogmático. O País não mereceu o seu imenso génio, a sua inabalável integridade. O País matou-o várias vezes com a omissão, a ignorância, o ostracismo deliberado. Luís Cília lapidou uma frase terrível: “Dizem que o Paredes morreu de insuficiência renal. O Paredes morreu da insuficiência mental portuguesa.”Há muitos anos, em Frankfurt, num festival onde a Europa “desenvolvida” apresentava os seus trunfos maiores: a França, a liberdade; a Alemanha, a organização; o Luxemburgo, o aço; eis que o cantor Vitorino, em palco, passou da experiência dos outros para a consciência momentânea de quem éramos: “Senhoras e senhores: Portugal. Carlos Paredes!” Ao lado de Fernando Alvim, parceiro e cúmplice, entrou quase nos bicos dos pés, ligeiramente curvo, sorrindo um sorriso embaraçado. Depois, pegou na guitarra e começou a fazer aquilo que fazia melhor do que qualquer outra criatura na Terra.

A audiência, a princípio surpreendida, mergulhou, estupefacta, em denso silêncio, envolvida na bruxaria daqueles sons, o homem como império dos sentimentos dentro do império das emoções, os sons como rezas, súplicas, hosanas, júbilos, aleluias, nunca por aquela gente escutados, e a voz do Vitorino: “Portugal! Isto é Portugal!”Este artista incomum foi miseravelmente perseguido, antes e depois de Abril, por ser comunista, e por nunca ter abdicado das convicções que lhe moldaram a argila moral desde a adolescência. Foi Maldonado Gonelha, quando ministro da Saúde de um governo do PS, quem o tirou do buraco onde trabalhava, como arquivista de radiografias, no Hospital de São José. Gonelha não dissimulou a indignação: “Como é possível fazerem isto a um artista desta grandeza?” Modesto, discreto, Carlos Paredes disse: “As coisas são assim. E eu preciso de ganhar a vida.”Esteve em todas, o Paredes. Era só pedir-lhe, e lá ia ele, sem pedir remuneração, sem demandar a glória, esbanjando o formidável talento em festas nas quais se soletrava a solidariedade e se exigia a presença como uma obrigação.

Creio que nunca teve retrato na primeira página de jornal. Vai ter agora, com o hipócrita desvelo de quem jamais por ele terçou armas, de muitos dos que sequer escreveram o seu nome com admiração e respeito.Lá ia ele, guitarra nas mãos, uma lírica muito pessoal, um cancioneiro de liberdade, um cântico profano e elegíaco saídos daquelas mãos incomparáveis. Daquelas mãos celestes.


[Por Baptista-Bastos, publicado no Jornal de Negócios a 27 de Julho de 2004, na morte de Carlos Paredes (1925-2004). Recordação roubada a Pedro Santos Guerreiro.]

segunda-feira, maio 27, 2013

Pedro Santos Guerreiro: As Instituições


País, Estado e Nação não são sinónimos. República, democracia e política não são sinónimos. Habituados à estrutura, julgamo-la eterna. Mas todas as histórias acabam – e a História acaba nunca. Para servir o Estado não basta o melhor possível – em épocas como esta, tem de ser o necessário impossível. Não é fácil nem é leve – é o Estado. Temos instituições fracas por conveniência do sistema que nelas se auto-preserva. Eis o drama.

A qualidade das instituições é o que determina ou aniquila a prosperidade perene de um país. Essa é a conclusão do livro “Porque Falham as Nações”, já aqui citado. Instituições fortes protegem um Estado dos vícios e capturas de quem o lidera. Instituições fracas jazem aos pés de quem fica e excluem quem passa. A força dos poderosos que mandam contra as forças poderosas dos que desafiam. As nossas instituições vivem num situacionismo de conservação que tem projectado Portugal para o declínio. Económico. E social.

Portugal vive num sistema de poderes penetrável mas irredutível. Não é uma pirâmide, é, como lhe chamou uma vez Paulo Morgado, um mikado, em que as peças se amontoam, sendo impossível mexer numas sem tocar as outras – e assim se mantêm.


A Operação Furacão foi o primeiro ataque a este mikado económico. Um grupo de bancos vendia serviços de “optimização fiscal” a empresas, que terão lesado o Estado em milhões de euros em impostos. Centenas de arguidos, dezenas de notáveis, as maiores empresas do país, buscas, escutas, escândalo. O que aconteceu? As empresas pagaram os impostos e, nisso, o bilhete para a imunidade. O que há de pensar o país do seu Parlamento, quando foi esta instituição que, alterando o Código do Processo Penal, permitiu a escapatória ao Furacão? 

Que há de pensar o país do Banco de Portugal quando há um BPP e dos partidos políticos quando há um BPN? Que há de pensar o país se os seus tribunais não prendem por corrupção?
Que há de pensar um país de um Governo que vende por 7,5% amnistias aos seus homens mais ricos, para que legalizem o dinheiro que irregularmente tinham fora de Portugal?


É frustrante observar a incapacidade de combater este compadrio que muitas vezes não é corrupto, apenas complacente. Por isso é importante ter novas instituições como o Conselho de Finanças Públicas, que questiona o Governo antes de o mal estar feito. O INE e o Tribunal de Contas são respeitados, mas actuam a posteriori. Mas o Conselho de Finanças Públicas é importante porque tem Teodora Cardoso à frente, e são já notórias as forças políticas que tentam descredibilizá-la. Assim é com o Banco de Fomento, que o sistema instalado contesta, porque vai mudar a forma de distribuição dos fundos comunitários. O Banco de Desenvolvimento será tão importante quanto o primeiro presidente que tiver. Assim foi com Abel Mateus na Autoridade da Concorrência: as empresas tinham medo dele. Hoje não têm medo da Autoridade.

As pessoas importam porque fazem as instituições fortes e desfazem as fracas. E quem quebra o verniz, e às vezes os dentes, no fim perde sempre, é excluído. Paulo Morais, que saiu da Câmara do Porto, parece um maluco a falar de corrupção, ninguém o ouve. Teixeira dos Santos pode ter feito tudo errado mas quando apressou o pedido de resgate foi um homem de Estado. Como não baliu com o rebanho do PS, está proscrito.


A Presidência da República é o pináculo do sistema. É uma instituição respeitada mas, hoje, o Presidente tem a popularidade mais baixa de sempre. Não foi o insulto que arrasou a reputação de Cavaco, foi a reputação do Presidente que tornou possível o insulto. Não é preciso recuar ao que disse Soares, Galamba ou Sousa Pinto há semanas. Como escreveu Vasco Pulido Valente no mesmo dia em que Sousa Tavares comparou Cavaco a Beppe Grillo, “sozinho, completamente sozinho, o Dr. Cavaco Silva conseguiu arruinar a Presidência da República. A Presidência da República não tem hoje autoridade, influência ou prestígio”. O insulto não é o debate político aceitável, nem das elites nem contra elas, ele tem de ser civilizado. Ao mesmo tempo, foi vestindo de cores garridas um Presidente que se percebeu que o rei vai nu.

Comparar Cavaco com Soares é demasiado radical. Mas Eanes foi um Presidente essencial e corajoso. Sampaio teve coragem quando ela foi necessária, na mudança de Governo, e encheu os portugueses de orgulho na entrega do Nobel da Paz a Ramos-Horta e Ximenes Belo. Cavaco Silva não esteve sempre mal, ainda há dias foi aqui elogiado pelo papel na crise da coligação, mas neste segundo mandato, quando já não tinha nada a perder, perdeu o respeito de muitos.


Começou com o BPN. Na tomada de posse, fez um discurso arrasador a Sócrates, e esta coluna foi das únicas que o apoiou. Mal sabíamos que esse discurso precedia a apresentação do PEC 4, que o Presidente desconhecia – mas sabia que desconhecia. Como conta o livro “Resgatados”, de David Dinis, Carlos Costa ligou para Belém pensando que o assunto era lá conhecido, assim revelando-o. O Presidente, traído, fez um discurso dois dias antes vingando-se não só do passado (o uso do BPN nas eleições) mas do futuro (o PEC 4). Nesse Março de 2011 aqui se escreveu que o chumbo do PEC 4 era um erro que gerava “a crise política mais estúpida de sempre”. Assim foi.

Cavaco é um homem eleito pelo povo, líder de um povo mas súbdito da Nação que esse povo é. Está longe desse povo. Banalizou o Conselho de Estado. Fazer cordão policial ao Governo não é a melhor maneira de defender as instituições, é colocar-se entre o povo e elas.


As instituições estão inutilizadas pela tibieza de uns e capturadas por um  sistema que assim se preserva. O sistema de justiça permanece enredado e o sistema politico é intocável. O povo descrê. Quem lidera as instituições depressa alinha, desiste ou é mudado. O Estado é o seu estrado. Uma tábua. Um trampolim. Um pódio. Mas às vezes as circunstâncias mudam, fazem da tábua uma prancha num navio em alto mar e é então que os homens se revelam ou não competentes e corajosos. Portugal não é um lugar nem um grupo de pessoas. É uma Nação. Uma República. Uma democracia. Um país. Ainda é um Estado. E merece passar do declínio para a regeneração. Ainda que para isso seja necessário pôr pessoas em causa. É sempre.

[Hoje, no Jornal de Negócios]



sexta-feira, março 08, 2013

Pedro Santos Guerreiro: Clara, Clarinha


Esqueça os caracteres chineses, que o mundo pós-Kennedy repete mas não pratica. A crise, a palavra crise, tem origem grega, o que também nada explica. A explicação não está noutros, está em nós. Se nos propusessem resolver a desdita matando alguém já teríamos aniquilado a espécie humana.

Talvez tenha sido na verdade matando que chegámos às portas da crise, desta crise que ainda não tem nome histórico mas já tem história para ter nome. Matando o que comemos quando queremos comer mais, mais que baste, mais que outros, mais que antes, mais que tudo. Matando o depois para ter já. Matando valores para ter preços. Tudo tem um preço. Um homem não tem preço? Uma multidão tem.

Não se tem medo das alturas quando só se olha para cima. Quando, finalmente, olhamos para baixo com terror, perguntamos “quem foi, quem foi que fez isto?”. Culpamos a desregulamentação como se fosse problema de lei. Apontamos aos mercados como a um matadouro. Dizemos que é ganância como se fosse coisa alheia.“Eu bem te disse que eles sempre acabam por ter ambições”, conclui a velha.

A velha é rica e está feia mas, ao contrário da dona Prudência de William Blake, não está solteirona nem é cortejada pela impotência: come carne de marido e bebe sangue de mundo. Por fastio. Por capricho. Por vingança. Por missão. Por consumição? A velha é superpotência, é a mulher mais rica do mundo, e regressa à cidade falida para a salvar, 45 anos depois de de lá ser escorraçada por gravidez não correspondida. Era ruiva. Saiu nova para uma velha profissão. Regressa velha para uma nova procissão. A procissão de um morto. A Clara, a Clarinha, a mais-que-tudo de quem não tem nada, quer um morto no caixão. O morto há-de ser o catita daquela cidade, cabrão que ela amou 45 anos antes e a trocou por mercearia, deixando-a com uma engenhoca nos braços como o engenheiro que sempre não era engenheiro de Alexandre O’Neill. O cabrão virou estimável, mas a mulher amar na palha não podia, menos ainda se por prazer. “Fungar, fungues tu ainda hoje no inferno com o Diabo a cavalo!”, dizia outra velha em Terras do Demo, de Aquilino Ribeiro, ao ouvir o arfar e os gonzos a chiar no quarto ao lado. “Cabra! Grande coira! Não te emprenha o ladrão para saberes o que custam gostinhos!” A Clara, a Clarinha, foi prenha conhecer os gostinhos: vendeu-se a homens e depois comprou-lhes o mundo para dele fazer bordel e os bordéis, dizem os provérbios do Inferno de Blake, constroem-se com os tijolos da Religião.

A Religião benze a fronte, a Economia encolhe os ombros, a Justiça lava as mãos, a Política põe o corpo todo no fogo. O diabo do dinheiro já começou a barganha das almas, é uma questão de tempo. É esperar: o arrobo impulsivo da ética desabará com o que antevêem os olhos, que são mais que a barriga esfomeada. Se já houve mercador que em Veneza cobrasse por juro uma libra de carne, por que não haveria a Clara, a Clarinha, bem-vinda Clarinha!, de pedir corpo inteiro por um bilião?


É o Direito, expressão da Justiça na conveniência do seu tempo, que ensina a diferença entre actos e factos. Cedo a moral cederá e a dúvida já não será se o homem morre mas saber quem o mata. Um facto: um homem morre. Um acto: matá-lo. A multidão, que primeiro é alumiada pela recompensa, cega depois a propiciar a execução. Aqueles que Orwell viu transformarem-se em porcos vivem – e matam. (Já a imprensa, que tem o poder de descobrir, expor e nisso proteger, deslumbra-se com pouco se se acomoda na sala de jantar.) E assim uma multidão tem preço porque dilui a culpa e dissolve a autoria: num pelotão de fuzilamento nenhum soldado sabe que espingardas têm balas. “Um cadáver não vinga as injúrias” (Blake). Negócio fechado.


É claro que “A Visita da Velha Senhora” é uma peça para este tempo. As comparações são irresistíveis num território desocupado de poder como está (e vai sendo) Portugal. Falamos de uma cidade que empobreceu depois de lhe terem comprado “aparelho produtivo” para o desmantelar; a Velha Senhora põe e dispõe e tem até nome angélico; o resgate impõe condições austeras, as instituições torcem-se com a devida vénia. Eis uma cidade empobrecida que inventa uma nova prosperidade a crédito, feita do que se vende e não do que isso rende. “Toda a cidade faz dívidas a torto e a direito. E o bem-estar da colectividade aumenta com as dívidas.” Perdão? “Precisamos de crédito, precisamos de confiança e de encomendas!” Mais nada. Ou mais isto: o teatro como pedagogia não do “funcionamento” da economia mas da demagogia que ela viabiliza. Em “Santa Joana dos Matadouros”, que Bertolt Brecht escreveu durante uma crise que ficou com o nome histórico de Grande Depressão, há uma deslição de humanidade em cima de um explícito funcionamento da “economia de mercado”. Isto é: dos mercados.

Também Friedrich Dürrenmatt viveu a Grande Depressão mas foi depois da Grande Guerra que (também) ela provocou que escreveu sobre a Velha Senhora. Aqui, a economia não é amada, nem amante, nem mulher, é uma gaja sentada para jantar. Tem de estar. E quem faz por comovê-la não quer se não comê-la. Mas sabendo isto: o capitalismo não é amoral, essa desculpa não pode servir a quem lá ande. A quem toma opções morais. O que estamos dispostos a relativizar por dinheiro? Tudo? Nada?

Dürrenmatt apresenta “um mundo e não uma moral” e pede que, ao contrário do que dita o Fausto de Pessoa, nem tudo seja símbolo e analogia. Uma mulher também é uma mulher, um homem também é um homem, um amor também é um amor.

Um amor.

Não é por acaso que a peça de Shakespeare citada não é o Mercador de Veneza, é Romeu e Julieta. Mas Clara, a Clara, a Clarinha, não é uma Julieta de Verona que se mate por não respirar sem Romeu. Não é uma Zefa de Terras do Demo que peça a Alonso que a mate depois de traí-lo, para que nessa súplica de morte acabe recebendo perdão de quem a ama sob um xaile mais rico que o manto de Nossa Senhora. Não é uma Karenina que afinal amou sozinha, não é Eurídice que morra por Orfeu, não é Lucrécia mal casada que se abandone numa cama de mandrágora com o amante ardiloso disfarçado de vagabundo. Em Clara cresceu o negro e não o vermelho. É vingativa. É pusilânime. É boçal. É uma besta. Mas uma besta rica nunca é uma besta, é rica. É mais fácil trair uma ruiva que uma rica. É? Não, não é nada.

“A humanidade gira toda sobre o amor e a fome”, escreveu Anatole France, mas há homens saciados que têm tanta fome de si mesmos que por insuficiência se afastam do destino da corrida, que é a partida e não a meta. Não há nada mais triste que amar esta mulher ruiva que não sabe que, matando, morrerá.

Nota de Pedro Santos Guerreiro: este texto foi escrito a convite do São Luiz Teatro Municipal para o programa da peça “A Visita da Velha Senhora”, de Friedrich Dürrenmatt, numa encenação de Nuno Cardoso que estreou a 7 de Março de 2013. E é uma homenagem a Ricardo Pais, que encenou algumas das peças que cito, que ensinou o meio país onde eu estava a ver, e sentir, teatro.