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quinta-feira, dezembro 10, 2015

Fernando Sobral: As jóias de Goa


Às vezes penso no que sentirá quem não viveu ao mesmo tempo que Manuel António Pina. No que sentirá quem não sabe o que é esperar pelo dia seguinte para se sentir vingado, redimido ou compreendido na crónica de um inatacável. Quem não sabe o que é esperar pelo poema novo de um homem vivo. Penso no que sentirá quem nunca sentiu a emoção do acaso de cruzar-se com Eugénio de Andrade na marginal, e no despudor de não conseguir retirar dele o olhar. Ah, e os livros de poemas que nunca estão na mochila quando são precisos! Penso no que sentirá quem nunca sentiu as lágrimas irromperem-lhe pela cara quando Manoel de Oliveira sacudia quem tentava ampará-lo, capaz até ao fim de tudo sozinho. No Portinho somos poucos, a cidade tem coração grande mas corpo pequeno, todos tropeçamos em todos, e todos os encontros contam. E nós, os sub-40, geração de transição para pior em tanto, somos também a geração deste infinito privilégio: o de termos sido vizinhos, no tempo e no espaço, de tantos dos nossos endeusados.

A propósito de endeusados. Nunca vi o Fernando Sobral na vida. Quisesse o destino que fosse do Porto e talvez sentisse o mesmo abalo num qualquer tropeçado acaso. Não é. Leio-o quase todos os dias no Jornal de Negócios, deixei de partilhá-lo porque sou egoísta, e não o colecciono. Coleccionei crónicas de jornais para aí até aos vinte anos. Passava tardes inteiras numa espécie de porão da universidade a fotocopiar tudo dos eleitos. Depois, a aparição compilada nas livrarias do que me tinha dado tanto trabalho a fotocopiar sabia-me sempre a facada. Por isso, desisti de compilar crónicas. E cresci, ao que parece. Deixei de ter tempo.

Seguir um cronista é como seguir uma série. Provoca vício e ressaca. Um filme pode ser a destruição de uma série. Um romance o desgosto com um cronista. Tento evitar ambos. Evitei ler "O segredo do hidroavião", não resisti ao "As jóias de Goa". Embora não aprecie especialmente policiais. "As jóias de Goa" é e não é um policial. É sobretudo um livro sobre o imaginário desse império português sempre tão insuflado e um poema sobre o que distingue portugueses e goeses, o fado e o mandó. Sobre o que nos faz e ir e ficar. Um romance sobre aquilo que somos, ainda hoje. E é, ou será, aparentemente, parte de uma trilogia. Sem surpresa, belissimamente escrito. Lê-se num sopro. Já o disse várias vezes, e repito: Fernando Sobral é o melhor cronista de sempre depois do Pina. E agora, também, um dos meus escritores eleitos.

"Quando não discutimos o passado com sinceridade, os fantasmas não desaparecem. (...) - Uma resposta suave é melhor do que uma espada ou uma pistola. - Nunca procurei desculpas. - Achas que me matavas se isso fosse útil para ti? - Claro. Que queres de mim, Yasmin? - E tu, que queres de mim? - Não sei. - Pois eu sei. Eu conheço os portugueses. Já falei com muitos. Têm desejos. Mas não sabem o que é o verdadeiro desejo. Têm saudades. Nascidas do inferno e alimentadas pela esperança. O passado continua a ser a vossa maior prisão. Mas gosto de vocês. São um povo misterioso. Perderam-se no mundo. São como os indianos. São o povo das partidas. Como um pássaro melancólico perdido no mundo. São seres sempre em fuga. Como tu. Passas a vida a fugir. - Fugir? - Sim. Por isso te queria conhecer. Lembras-me os tigres. - Um tigre? Porquê? - É a tua forma de te moveres na vida. De seres silencioso, até ao momento certo em que tens de actuar."

As Jóias de Goa, Fernando Sobral

terça-feira, agosto 11, 2015

Fernando Sobral: Don Draper não vem


Aquele momento em que uma pessoa sozinha mata um assunto, esse que andamos todos a mastigar há duas semanas, com o alto patrocínio do PS.

"É esta a primeira lição desta pré-campanha: já ninguém confia em ninguém. E simboliza a miséria franciscana da campanha eleitoral que se viverá em Setembro, com muito pó e frases empolgadas e poucas ideias."


segunda-feira, março 04, 2013

Fernando Sobral: O ventilador



Durão Barroso descobriu que não é o presidente da Comissão Europeia: é um técnico de ventilação. As suas declarações, há dias, em que colocava as culpas da crise portuguesa num ventilador, esperando que estas se espalhassem à sua volta e não o atingissem, mostram que ele acredita que é possível apagar a história. É óbvio que foram as opções erradas, em termos políticos e económicos, que fizeram com que Portugal se afundasse na crise.


Mas Durão Barroso não é um eremita nos Himalaias: foi chefe de Governo entre 2002 e 2004, assinou por baixo a política do betão que hegemonizou a economia nacional, debandou rapidamente para Bruxelas, não sem antes ter deixado uma bomba-relógio política que criou o período de Sócrates.

O dislate político, como se sabe, sempre foi um inimigo maior da verdade do que a mentira. E as declarações de Durão Barroso parecem uma esponja cheia de um detergente de marca branca para a limpeza da memória. Não o é. Para além da sua passagem pelo Governo, onde não foi o homem invisível, a sua presença na CE é determinante para a crise actual. Não porque mande alguma coisa.

Mas porque Bruxelas é uma caixa de ressonância de Berlim. Depois, Barroso tenta usar o ventilador de uma forma mais sofisticada: quer que os resíduos não atinjam a Europa. Nada mais impossível.

A Europa é parte do problema e não da solução. Foi com Barroso à frente que a UE pediu para que os governos fizessem investimento público. O resultado foi um aumento brutal da dívida pública. Depois, sob a batuta alemã, fez da austeridade cega a única política europeia. É este monte de resíduos que Barroso quer eliminar. Como se a memória se atirasse para o ventilador.


[Hoje, no Jornal de Negócios]

sexta-feira, fevereiro 22, 2013

Viagens ao sofrimento do povo português



Textos dispersos de Raul Brandão são um espelho perfeito da sociedade portuguesa entre finais do século XIX e as primeiras décadas do XX. Fundamental.



Há páginas inesquecíveis na literatura portuguesa. E algumas delas foram escritas por Raul Brandão, a começar por "Húmus", livro sobre as incertezas da existência e sobre os homens que, olhando para o universo, procuram respostas sobre o mal. Lá se escreve, de forma cortante: "A honradez deste homem assenta sobre uma primitiva infâmia. O interesse e a religião, a ganância e o escrúpulo, a honra e o interesse, podem viver na mesma casa, separados por tabiques. Agora é a vez da honra - agora é a vez do dinheiro - agora é a vez da religião. Tudo se acomoda, outras coisas heterogéneas se acomodam ainda. Com um bocado de jeito arranja-se sempre lugar nas almas bem formadas". Raul Brandão tinha uma pena iluminada: as suas frases são sinais de sol e sombra, de dúvidas e algumas certezas. Mas, sobretudo, conseguiu descreveu o país e o seu povo, os seus sonhos e superstições, como poucos outros. Fala da Decadência e por isso consegue ser tão actual."A Pedra ainda espera dar flor", uma compilação de textos dispersos escritos entre 1891 e 1930, com uma sólida organização de Vasco Rosa, ajuda-nos a conhecer melhor o seu mundo. Os seus textos sobre os ciclos do tempo são de uma beleza estonteante (leia-se "Maio", por exemplo), ou sobre a cultura portuguesa revelam a solidez do seu pensamento (fala-nos de António Nobre, de Eça, de Camilo, de Almeida Garrett, de Teixeira de Pascoaes, de Fialho de Almeida, dos Bordallo Pinheiro, com uma elegância e conhecimento únicos), do teatro ou dos pescadores. Fala da vida e da dor, temas sempre tão presentes em toda a sua obra e isso acaba por nos tornar mais ricos. Está aqui a alma, o sangue e o suor do povo português, a viver sempre entre a pobreza e a decadência, com momentos de euforia porque julgou descobrir o destino.


Há uma lógica de derrocada total nestes textos. E eles são uma boa forma de partirmos para os seus livros (não só "Húmus" mas também "Os Pescadores", "As Ilhas desconhecidas" ou "História de um Palhaço". Em "O Diário de K. Maurício", há uma frase que parece escrita para a história de Portugal e dos portugueses: "Habituou-se a sonhar e a ter medo de viver". Às vezes, ao lê-lo, parecemos estar a ler poesia em forma de prosa, tal a riqueza das imagens que desfilam defronte dos nossos olhos. Este livro agora editado, que nos traz textos de diferentes fases da vida de Raul Brandão, mostra-nos a capacidade que tinha para ver o horizonte sem preocupações de fronteiras no seu afã para desvendar o destino dos homens. Depois há a vertigem da dor sempre presente nas suas palavras: "os mais destemidos pescadores portugueses são os poveiros: quase sempre o seu túmulo é o fundo do mar". Que palavras mais fortes servem para descrever o sofrimento do povo português, o trabalho duro para garantir a fuga ao limiar da pobreza.

É isso que sobretudo fascina na escrita de Raul Brandão: mesmo quando fala da dor e do mal, faz isso de forma poética, como se as palavras pudessem aveludar os sentimentos e estes não fossem espinhos de uma rosa. Bonita mas que pica. "A pedra ainda espera dar flor" é uma forma magnífica de procurarmos descobrir a sua obra.

[Fernando Sobral, hoje, no Jornal de Negócios]

quarta-feira, janeiro 30, 2013

Fernando Sobral: A política Dorian Gray



Cada vez que um secretário de Estado é removido, o Governo olha para o espelho e julga que é Dorian Gray. No fundo Passos Coelho tem medo de ver as rugas reais do seu Governo e também a sua verdadeira identidade.


Os secretários de Estado caem, como peras podres, para que os ministros descartáveis como Miguel Relvas se mantenham. Passos Coelho resiste dentro da falácia que é julgar que caminha com segurança para um destino que só ele vê. E continua a construir argumentos a partir de falsas premissas. Cada miniatura de remodelação, é um evento. E isso permite que o Governo não reconheça que está equivocado nas trapalhadas que vai distribuindo, aos molhos, pela sociedade.

A remodelação Dorian Gray permite que o Governo finja mudar enquanto se prepara, no meio do tumulto no PS, para cortar quatro mil milhões sabe-se lá onde e se faça uma pseudo-reforma do Estado à sucapa. E tudo corre melhor porque o PS está preocupado consigo próprio, em vez de se focar nos dislates do Governo. É por isso que António Costa só finge que avança para a liderança: para manter a pressão. Sabe que para resolver certos problemas o melhor é não fazer nada. Para que é que o PS quer ganhar, agora, o poder? Para fazer o que faz Passos Coelho? António Costa e António José Seguro hão-de lutar, porque tudo os separa há muitos anos. Mas Costa sabe que é preciso tempo.

A questão central é a da hegemonia cultural, de que falava António Gramsci. Só quando o vazio arder nos bolsos e na alma dos portugueses será possível mudar o rumo do vento. Até lá, quem quiser o 
poder, terá de gerir o tempo. E esperar que a fonte da juventude de Dorian Gray seque. 

[Hoje, Jornal de Negócios]

segunda-feira, setembro 10, 2012

Fernando Sobral: O truque de Midas

 

O rei Midas desejava que tudo o que tocasse se transformasse em ouro. O desejo realizou-se. Pedro Passos Coelho, incapaz de ter o toque de Midas, criou o truque de Midas: tudo o que toca transforma-se em imposto.

Portugal está a tornar-se o Bangladesh da Europa e Passos Coelho, sem se rir, pede desculpa. Como se não conseguisse dormir por estar a promover uma revolução cultural que só encontra semelhança na que Mao Zedong impôs à China e a tornou miserável durante décadas. Destruindo as classes médias e educadas que são o pilar da democracia de consumo.

Arrasando o valor do trabalho porque as medidas sucessivas impostas começam a fazer nascer a mais terrível das perguntas: vale a pena trabalhar ou é melhor ser indigente e viver do RSI? Pedro Passos Coelho está a destruir o trabalho como valor ético e moral numa sociedade. O aumento da TSU dos trabalhadores, aliada ao afunilamento de escalões do IRS, vai triturar a espinha dorsal da sociedade: a classe média. Esse parece ser o grande objectivo da troika e do Governo. Para depois exportar o modelo para o sul da Europa.

Nada do que foi dito vai criar mais emprego. A generalidade das empresas vai perder em consumidores o que vai poupar em TSU. Passos Coelho tornou-se o coveiro sorridente de Portugal. Lembre-se: Midas acabou por morrer à fome. Até a comida em que tocava se transformava em ouro. Passos Coelho, refugiado na sua alquimia miserabilista, está a transformar Portugal num país onde tudo o que toca se transforma em chumbo. Um dia destes, de tanto tocar, só terá chumbo para comer. Tal como Midas, perecerá à fome. Porque nada restará para comer. Nem restará país para governar.

[Hoje, no Jornal de Negócios]

sexta-feira, março 23, 2012

Fernando Sobral: Salazar, a pobreza, o pó e o ouro



Os portugueses iludiram-se culturalmente: julgaram que o dinheiro fácil que chegou durante três décadas comprava a solidez da educação e o espírito da invenção e inovação. E do risco. É uma tónica portuguesa: prefere-se a renda ao risco. O resultado está à vista.

Em 1962, António Oliveira Salazar sintetizou de forma clara a visão que tinha do seu Portugal: "Um país, um povo que tiverem a coragem de ser pobres são invencíveis". Este mundo pobre, ou remediado, acabou após a entrada na União Europeia. Em cima da nossa pobreza caíram toneladas de dinheiro. O país ficou sulcado por auto-estradas e rotundas. As mercearias de bairro fecharam e nasceram hipermercados. Os portugueses passaram a preferir ir passear para os centros comerciais do que para os jardins. A democracia de consumo chegou como se fosse um milagre redentor.

Todos acharam que faziam parte da classe média, alimentada pelo crédito fácil. O paraíso tinha também construído na sombra o purgatório, feito de cumplicidades: do BPN à Parque Escolar foi um mundo de oportunidades de "negócio" para muitos. Deixando de ter a coragem de ser remediado o povo português tornou-se uma presa fácil de uma crise que não percebesse.

Destruída a base industrial, agrícola e piscatória do país, com fundos comunitários para abater tudo isso e trazer a "modernidade", Portugal ficou indefeso quando chegou a grande crise de 2008. Já antes era visível mas todos se recusavam a ver: o Estado continuava a ser a mãe de todas as batalhas e de todas as rendas. A própria sociedade civil e iniciativa privada viviam de bem com o Estado, fosse ele guiado pelo PS ou pelo PSD. A mais breve nota de suicídio da história portuguesa foi escrita por José Sócrates, o último da linhagem de destruidores de um país que poderia ser remediado mas inteligente.

Todo se desvaneceu no ar. O crédito fácil foi substituído pela amarga austeridade. António de Oliveira Salazar, em 1963, dizia: "Quero este país pobre, se for necessário, mas independente - e não o quero colonizado pelo capital americano". A colonização é hoje exercida pela Comissão Europeia e pela troika, numa Europa que parece cada vez mais dividida cultural e moralmente, entre um norte protestante e um sul católico. A moral calvinista é uma forma demolidora de salvação (salvamo-nos pelo trabalho), face à forma como se perdoam os pecados, no confessionário, a sul.

Tudo nos divide. A forma como os protestantes criaram o capitalismo moderno enquanto nós víamos as naus carregadas de pimenta e ouro irem directas para Amesterdão e Londres para pagar os nossos prazeres ao sol diz muito do que são formas diferentes de olhar para a civilização.

Mas, ainda assim, os portugueses iludiram-se culturalmente: julgaram que o dinheiro fácil que chegou durante três décadas comprava a solidez da educação e o espírito da invenção e inovação. E do risco. É uma tónica portuguesa: prefere-se a renda ao risco. O regime atolou-se e o BPN representa-o perfeitamente nas suas ligações pouco transparentes a tudo e a todos. Se quisermos estudar este regime estudemos o BPN. Antes e depois da nacionalização. Está lá tudo o que se andou a fazer desde a entrada na União Europeia.

Maquilhou-se a pobreza com um falso riquismo que só encheu os bolsos e a estima de alguns. Que hoje vivem acima dos dramas dos comuns portugueses que só acreditaram no cartão de crédito, na casa acima das suas possibilidades, nas férias nos "resorts" mais aprazíveis, no carro do último modelo e no telemóvel 3G. Esse mundo ruiu para a maioria. Mas na sombra da crise há quem continue a viver de rendas, escudado nos invencíveis contratos com que o Estado prometeu dar tudo sem receber nada. Voltamos assim aos anos de 1960, como se tudo não tivesse passado de uma ilusão. Com uma diferença. Em Agosto de 1968, Oliveira Salazar dizia: "no dia em que eu abandonar o poder, quem voltar os meus bolsos do avesso, só encontrará pó". Hoje, nos bolsos de alguns que nasceram, cresceram e singraram com este regime, só se encontrará ouro.

[Hoje, no jornal de Negócios]

sexta-feira, março 16, 2012

Fernando Sobral: "O BPN e o impasse do regime"

[Olivia Bee]

Construir argumentos a partir de premissas falsas é uma das mais velhas tácticas da política. O objectivo é sempre demonstrar que a culpa é do outro. Não basta o catálogo de ficções que nos são oferecidas nas campanhas eleitorais. Em momentos sérios e críticos como o que vivemos percebe-se que nada muda no imutável jogo de ficções em que se entretêm os partidos políticos portugueses.

Os do arco do poder e os outros. O regime entrou em impasse e a crise financeira (que é sobretudo política e cultural - porque nenhum partido apresenta um modelo de futuro para Portugal) é um sintoma dessa falência. Os portugueses vagueiam hoje entre a melancolia e a saudade que Teixeira de Pascoaes nos legou e um Quinto Império que ainda está por cumprir e que o Padre António Vieira, Fernando Pessoa ou Agostinho da Silva delinearam.

Mas o pior é que, passadas tantas décadas depois da derrocada com um sopro do Estado Novo, Portugal volta a entrar no labirinto sem saída. Este país está a tornar-se novamente uma guerra de trincheiras entre quem tem acesso ao poder e quem não tem. Não é já a classe social, a idade ou o sexo que delimitam o futuro. É estar no círculo do poder. E a culpa maior em tudo isto é do arco do poder político que fez do Estado, mesmo quando põe poses liberais, o poder com uma mão visível muito longa. Aquilo que nos últimos dias se viu mostra o esgar anacrónico do regime: PS e PSD (este com o CDS) pedem à vez uma comissão de inquérito parlamentar sobre o caso BPN. Aquele caso, se bem se lembram, do banco que simbolizou este regime, que já custou milhares de milhões de euros dos contribuintes e onde não há um único culpado sobre a catástrofe.

Na sua ânsia de fazer comissões de inquérito de onde nada sairá de relevante, porque a ninguém interessa lavar a roupa suja da máquina BPN, os partidos do arco do poder mostra uma coisa simples. Criam comissões de inquérito para que nada de real seja inquirido. E que tudo não seja mais do que formas de arranjar pedras para arremessar para o outro lado do Parlamento. É assim que um regime se esgota e se esvai. Enquanto os portugueses agoniam com uma crise económica sem limites, com um fisco que lhe saltou para a garganta, e com uma austeridade que tudo está a destruir, PS, PSD e CDS vão-se entretendo a escrever telenovelas. Cheira a fim da Monarquia Constitucional. Cheira a fim da I República. Cheira a fim do Estado Novo.

As comissões de inquérito do PS, do PSD e do CDS ao BPN só merecem uma coisa: uma gargalhada. Porque demonstram que o regime continua a brincar como se a situação de Portugal não fosse séria. Há muitos anos Hannah Arendt, uma autora que deveria ser uma referência para os partidos do arco do poder, escrevia em "A Condição Humana": "O que estamos a ser confrontados é com a perspectiva de uma sociedade de trabalhadores sem trabalho, isto é, sem a única actividade que lhes foi deixada. Seguramente, nada poderia ser pior".

Arendt via o futuro. E este futuro é o nosso presente, real em quase 15% de desempregados e com a perspectiva de a evolução ser galopante este ano e muito provavelmente no próximo. Assistimos assim a uma comédia sem arte por parte do PS, PSD e CDS, em que o jogo político se sobrepõe ao interesse real dos portugueses. Mas é assim que caminhamos alegremente para a insolvência do regime que julgamos democrático e que se está a tornar numa fortaleza onde alguns têm acesso ao poder e aos benefícios daí decorrentes e a maioria fica às portas, indefesa perante as invasões bárbaras.

[Hoje, no JNegócios]