quarta-feira, abril 17, 2013
terça-feira, abril 16, 2013
Devagar
Se o vento não mudar
Vou dar até sentir
Que há uma razão
Para crer que é bem melhor existir
Eu sei
Não vejo a luz em mim
Tão pouco em mais alguém
Só quis tocar o céu
Não quero mal a ninguém
Eu sei
Diz-te a canção do medo
Vê-se um dia o tempo não vos traz
Mas perde a noção do tempo
Quando eu amo é sempre devagar
segunda-feira, abril 15, 2013
quarta-feira, abril 10, 2013
Gertrude
Um ator e uma atriz fazendo em italiano e português um texto de Shakespeare. Se isto não é a Europa, o que é a Europa? Numa sala de ensaios do Teatro Carlos Alberto, no Porto, Fiammetta Bellone e Simão Do Vale trabalham cenas de Gertrude – uma peça a partir de Hamlet; um Hamlet pelo ponto de vista da mãe. Mexem-se dentro das palavras, como se o pano negro que lhes serve de chão e a roupa negra que é um chão-de-vestir fossem a própria tinta shakespeariana. Tinta antiga, tanta sombra, sangue novo. Umberto Eco terá dito que a língua oficial da Europa se chamava Tradução. Outra hipótese era chamar-se Shakespeare.
Herberto Helder escreve:
“No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se/ pelo meio dos ossos filiais,
pelos tendões e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte”
É uma verdadeira blasfémia pôr este poema entre aspas, deixá-lo atravessado de barras inclinadas no museu das citações, e blasfémia ainda maior é interrompê-lo a seguir. Perdoem-me, por favor. Mas, para falar deste Gertrude, era aqui que eu queria chegar. Do ensaio que vi (era manhã nesse dia portuense mas na minha memória, que estranho, é noite e noite alta), o que mais me impressionou traduz-se exatamente assim: “Pelo meio dos ossos filiais”, “calmas mães intrínsecas”, “enquanto o amor é cada vez mais forte”.
Jacinto Lucas Pires
Teatro Carlos Alberto, Porto
Até14 de Abril
De quarta a sábado: 21h30
Domingo: 16h00
segunda-feira, abril 08, 2013
Margaret Thatcher 1925 - 2013
Entrevista de Margaret Thatcher à Veja em Março de 1994. Vale muito a pena ler a esta distância e sobretudo no actual contexto europeu. A entrevista teve como título: A receita da leoa.
A líder que pilotou a revolução liberal na Inglaterra dá o roteiro da privatização e mostra por que governo não produz riqueza
Da rainha Elizabeth I, que afundou a Invencível Armada espanhola, à rainha Vitória, que conquistou um império onde o Sol nunca se punha, a Inglaterra tem a tradição de mulheres de pulso forte no comando. Nessa lista coroada, a plebéia conservadora Margaret Thatcher passou à História por méritos próprios. Durante quase doze anos como primeira-ministra da Inglaterra, dos quais saiu com o título de baronesa, a Dama de Ferro implantou no país uma revolução conservadora. Sob suas implacáveis ordens, o velho leão inglês surrou a Argentina na Guerra das Malvinas, em 1982. Thatcher reivindica também, com razão, um papel relevante na última pá de cal no comunismo e na arrogância de Saddam Hussein.
Na própria Inglaterra, que governou até 1990, privatizou quase tudo o que era estatal e dava prejuízo. A situação complicada em que se encontra o país - desemprego alto, quebradeira de pequenas e médias empresas - não é culpa de suas reformas neoliberais, diz. Ao contrário, afirma, a Inglaterra está mais moderna e com a economia mais ágil, apesar da herança intervencionista que recebeu do Partido Trabalhista. Milhões de ingleses se tornaram acionistas ou donos da própria casa graças ao seu programa de "capitalismo popular".
Thatcher acaba de publicar suas memórias (Meus Anos em Downing Street) e, no próximo dia 16, chega ao Brasil para um programa em São Paulo e em Brasília, recebendo, por isso, 100.000 dólares - o cachê reservado a poucos e selecionadíssimos conferencistas. A seus interlocutores brasileiros, de qualquer coloração ideológica, será útil ouvir os ensinamentos da Dama de Ferro sobre a responsabilidade do governo no descalabro das nações. Na semana passada, na sede da fundação que leva seu nome, em Londres, Thatcher falou a VEJA.
VEJA - O governo brasileiro acaba de lançar seu sétimo pacote antiinflacionário. Os anteriores não funcionaram. A senhora tem sugestões a dar?
THATCHER - Muitos países debelaram a inflação, e o Brasil a certa altura também irá conseguir. É preciso evitar a inflação e o reverso da medalha, a indexação. A primeira regra é fazer com que a população tenha confiança na moeda. A segunda é evitar controles sobre a economia. Durante o governo trabalhista, na Inglaterra, era preciso obter aprovação das autoridades para aumentar os preços. Os salários também eram fixados pelo governo, assim como os dividendos. Até o comércio exterior obedecia a controles oficiais rígidos. Se um empresário precisasse aumentar seus preços, tinha de se justificar: "Bem, esses são os meus custos, aqui estão os custos adicionais, concordei em dar tanto de aumento salarial, e meus preços precisam subir tanto". O certo é o contrário: livre concorrência com moeda estável, e uma poupança que mantém seu valor. Em resumo, um governo competente.
VEJA - No Brasil, os governantes gostam de fazer apelos à boa vontade dos empresários, pedindo que não elevem os preços. Isso funciona no controle da inflação?
THATCHER - É dever da direção de uma empresa mantê-la saudável, da mesma forma que é obrigação do governo manter as finanças públicas em ordem. Não parece que inflação galopante tenha algo a ver com boa administração. É supérfluo dizer: "Por favor, não aumentem os preços, a menos que seja necessário para manter a rentabilidade da empresa". A livre concorrência é a melhor coisa para segurar os preços. Ela garante eficiência em cada estágio da operação de uma empresa.
VEJA - A senhora conheceu alguns líderes brasileiros, inclusive o ex-presidente Fernando Collor. Que impressão teve deles?
THATCHER - Não faço comentários sobre pessoas. Parece-me bem claro que o Brasil não teve ainda um bom governo, capaz de atuar com base em princípios, na defesa da liberdade, sob o império da lei e com uma administração profissional. Bastaria um período assim, acompanhado da verdadeira liberdade empresarial, para que o país se tornasse realmente próspero.
VEJA - Uma pesquisa recente mostrou que a senhora é a mulher mais admirada pelos brasileiros. O mesmo ocorre em outros países. Qual a razão de sua popularidade?
THATCHER - É simples. Trabalhei seguindo princípios que já defendia antes de iniciar meu governo. Perseverei mesmo quando surgiram dificuldades, porque minha política era justa. Por fim, quando um ditador resolveu ocupar território estrangeiro usando a força bruta, impondo a outro povo sua ditadura, como o Iraque fez no Kuwait, nós e os Estados Unidos alertamos: "Não vamos tolerar isso". Em resumo: é preciso firmeza de propósitos, acompanhada de firmeza na ação.
VEJA - Mas por que a senhora não é igualmente popular na Inglaterra, país que governou de 1979 até o final de 1990?
THATCHER - Com o devido respeito, devo dizer que nunca fui derrotada pelo povo. Ganhei três eleições, com ampla maioria. Quando deixei o governo, muitos eleitores lamentaram não ter podido se expressar através das urnas.
VEJA - O presidente americano, Bill Clinton, defende um papel mais forte para o governo, capaz de ser um mediador entre os protagonistas da economia e a parte menos favorecida da população. Recentemente, foram eleitos presidentes de tendência social-democrata na Venezuela e na Costa Rica. O neoliberalismo que a senhora representou tão bem está em crise?
THATCHER - Não é muito correto fazer analogias entre os Estados Unidos e a Inglaterra. A alternativa a nosso governo na Inglaterra era um governo genuinamente socialista, que queria nacionalizar a produção, a distribuição e os meios de pagamento. Uma alternativa assim nunca houve nos EUA. A liberdade está inscrita na Constituição americana. Os dois partidos americanos acreditam na liberdade do povo e no fato de que é este que dá poder ao governo, e não o contrário. Nunca houve, no pós-guerra, distância tão grande entre os principais partidos americanos como a que havia entre os partidos ingleses. Mas sua pergunta é pertinente. Meu governo teve grande influência sobre a oposição trabalhista. Hoje o Partido Trabalhista não ameaça nacionalizar ou renacionalizar mais nada. Ao contrário, fala em controlar os gastos públicos e está muito mais próximo da posição conservadora.
VEJA - Resta o fato de que o presidente Clinton reverteu a política do liberalismo total da era Ronald Reagan e está colhendo frutos positivos.
THATCHER - A diferença entre os partidos Democrata e Republicano nos Estados Unidos é definida por duas coisas: o tamanho dos gastos públicos e o grau de interferência do governo que cada partido deseja. Mas muita gente nos EUA pensa como eu, que é melhor menos poder central e menos controle, com um governo presente de modo forte só nas áreas em que deve ser forte. É mais fácil ter menos impostos com um governo de centro direita do que com um governo de centro esquerda.
VEJA - Depois de seu reinado neoliberal de doze anos, a Inglaterra passou a fazer parte do grupo dos países mais pobres da Europa, na frente de um pelotão que inclui Grécia, Portugal, Espanha e Irlanda. O que deu errado?
THATCHER - Antes de mais nada, tive de me livrar do socialismo - e consegui. Não se esqueça de que em 1979, quando tomei posse, o país estava abalado por greves, uma atrás da outra, comandadas por sindicatos que usavam todo o seu poder. O governo trabalhista que me precedeu continuara a estatizar, os impostos eram altos e a economia estava cada vez mais sob controle do governo. Tive de me livrar de tudo isso, e no meio dos anos 80, depois de uma reestruturação industrial, a Inglaterra crescia mais rapidamente do que qualquer outro país europeu. Hoje há uma fila de indústrias estrangeiras querendo investir na Inglaterra, porque aqui podem produzir mercadorias com preços mais razoáveis do que em qualquer outra parte.
VEJA - Quando a senhora começou a governar, havia 1 milhão de desempregados. Quando saiu, era mais que o dobro. Não é um custo muito alto para as reformas liberais?
THATCHER - De fato, mas os sindicatos faziam uma política restritiva, garantindo uma quantidade colossal de empregos inúteis, o que equivalia a um desemprego virtual. Uma das primeiras coisas que as empresas privatizadas fazem é reduzir o número de empregados ao estritamente necessário para realizar o trabalho direito. É impossível manter na indústria práticas restritivas, obrigando-a a ter mais empregados do que precisa. A segunda causa do desemprego é que, graças à alta taxa de natalidade dos anos 60, quando iniciei meu governo havia uma massa de jovens procurando emprego muito maior do que o número de pessoas que se aposentavam. Agora, felizmente, essa tendência se reverteu. Mas, se o assunto é desemprego, olhe para a França, que tem um índice maior que o nosso, ou para a Alemanha, onde o desemprego cresce apesar da unificação com a ex-Alemanha Oriental.
VEJA - Às vezes tem-se a impressão de que os objetivos liberais terminam no equilíbrio dos gastos públicos, no controle da inflação, na estabilidade da moeda e nas privatizações. Onde ficam o bem-estar da população, as necessidades básicas dos menos favorecidos e a solidariedade social?
THATCHER - Não posso dar uma resposta breve. Acho que o senhor parte de suposições totalmente erradas. Os objetivos principais da sociedade na qual acredito são a liberdade, a justiça e a livre iniciativa. Nada disso pode ser obtido fora do império da lei e sem um Judiciário independente. A prosperidade de uma nação provém da livre iniciativa de cada um e de uma situação em que a lei é igual para todos. Governos não criam riqueza, quem faz isso são as indústrias e os serviços. É o povo, com sua própria bagagem e sua própria capacidade de iniciativa, que cria empresas.
VEJA - Então, qual é a função do governo?
THATCHER - O governo pode, através de uma política fiscal sensata, procurar os meios para administrar a parte que lhe compete. É dever das autoridades manter a saúde das finanças públicas. Se há inflação, é culpa do governo, que não controlou direito a emissão de moeda. Se há déficit nas contas públicas, é culpa do governo, que não soube equilibrar sua receita fiscal e seus gastos. É sempre possível dizer: o.k., podemos gastar à vontade e depois alguém vai financiar o buraco. Mas o que acontece é que mais gastos do governo significam sempre mais impostos para cobri-los. E, quando a carga fiscal é excessiva, ninguém tem mais incentivo para criar empregos e riquezas.
VEJA - Impostos baixos não são um mito típico do liberalismo econômico?
THATCHER - Uma política fiscal sensata é obrigação do governo. Quando assumi, a alíquota máxima para o imposto de renda chegava a 83%! Para os ganhos de capital, era 98%! Onde ficava nossa capacidade empresarial? Os empresários que tinham iniciativa preferiam investir no exterior. A excessiva regulamentação impedia que novas empresas tivessem sucesso antes mesmo de começar a operar. Se as empresas trabalham bem e têm bons resultados, o governo não tem déficit orçamentário. Nos meus últimos quatro anos, o governo trabalhou com superávit, a ponto de podermos abater parte da dívida pública. Não chegamos a eliminar o desequilíbrio na balança comercial, mas não havia dificuldade em financiá-lo, em vista da confiança na nossa moeda. E a iniciativa individual foi estimulada, com a alíquota máxima de imposto caindo para 40%. A alíquota média é muito inferior.
VEJA - Como o excesso de regulamentação afeta a economia?
THATCHER - Se você tem um governo competente, não há regulamentação atrapalhando a vida das pessoas. O objetivo do governo não deve ser só manter as coisas públicas funcionando. É preciso estimular a capacidade empresarial da população, fazer nascer novos negócios, o agricultor tem de confiar no valor de sua produção, a moeda deve ser vista com confiança. Tudo isso começa com um bom sistema educacional. A criança, rica ou pobre, precisa de escolas adequadas para desenvolver seus talentos e habilidades. A partir daí se pode pensar em outra tarefa do governo: a criação de uma rede de proteção e benefícios para aquela parcela da população que, involuntariamente, não consegue manter-se no mercado de trabalho, por velhice ou doença.
VEJA - Como a senhora descreve sua idéia de um "capitalismo popular"?
THATCHER - É o meu sonho de fazer de cada cidadão um capitalista, o capitalismo das pessoas comuns. Não se esqueça de que na Inglaterra temos uma tradição de cidadania. A instituição do Parlamento começou no século XIII. O voto de poucos passou a ser o voto de todos. Vivemos sob o império da lei e sempre tivemos juízes capazes de dizer ao monarca: "Não há nenhum homem acima do rei, mas este está abaixo de Deus e da lei". Essa é nossa herança e nosso caráter. Mas, no início de meu governo, os ingleses não conseguiam ter uma poupança, não conseguiam acumular capital. Meu objetivo era fazer com que as pessoas, independentemente de sua origem, conseguissem adquirir ao menos a casa própria, acumulando algum capital para deixar aos filhos. Como nessa época 30% das casas e dos apartamentos pertenciam a órgãos públicos, fizemos um plano pelo qual os locatários tinham preferência e outras facilidades para comprar o imóvel onde moravam. Hoje, 68% dos ingleses são proprietários da casa onde moram, e milhões têm ações de empresas privatizadas. Isso é capitalismo popular.
VEJA - O governo da senhora ficou famoso pelas privatizações. Como foi a primeira privatização?
THATCHER - Foi no setor siderúrgico. O aço produzido pela estatal custava ao povo inglês 1,5 bilhão de dólares por ano em subsídios. Pouco depois da privatização, o aço já rendia ao Tesouro - ou seja, ao povo - 330 milhões de dólares anuais. Outro ponto positivo: o dinheiro fruto da venda das estatais vai direto para o Tesouro, o que, mais uma vez, quer dizer para o povo. Mais dinheiro no caixa do Tesouro significa menos necessidade de impostos e até menos dívida pública. Ou seja, não se está dando nada de graça. As pessoas estão comprando o que o governo vende, o Tesouro deixa de ter prejuízo e passa a ter renda. É um ótimo negócio para quem paga imposto.
VEJA - E os estaleiros navais? Não foram dados quase de graça?
THATCHER - Foi o único caso, e justificado. A administração era tão incompetente que ninguém se interessou por eles. Os contribuintes subsidiavam a indústria naval estatal com o equivalente à massa salarial de todos os empregados do setor. Na sua opinião, isso é que é ser empresa pública? O importante é garantir a sobrevivência da empresa através de uma administração eficiente e estancar a hemorragia de dinheiro dos contribuintes. Quando a estatal pode ser vendida por um bom dinheiro, muito bem, são novos recursos para o Tesouro. Mas às vezes o melhor negócio é simplesmente parar de ter prejuízo custeado pelo povo.
VEJA - Quem se opõe à privatização das estatais no Brasil costuma dizer que privatizar é pegar algo que é propriedade de todos e dar de presente para alguns.
THATCHER - Ninguém está dando nada para ninguém. A verdade é o contrário: em geral as estatais têm de ser subsidiadas com o dinheiro dos contribuintes. O governo não sabe administrar empresas, quase sempre o faz de modo inepto. Logo, logo a empresa está perdendo dinheiro, e o contribuinte tem ao mesmo tempo de comprar o que ela produz e pagar o prejuízo do seu bolso, ano a ano.
VEJA - No Brasil os funcionários das estatais têm privilégios invejados pelos demais trabalhadores, como ricos fundos de pensão. Na Inglaterra acontecia o mesmo?
THATCHER - São coisas diferentes os privilégios e os direitos a uma aposentadoria digna. Por lei, todo trabalhador inglês deve ter, além da aposentadoria básica, muito pequena mas garantida pelo governo, uma segunda pensão, fornecida através da empresa na qual trabalha e em geral garantida por uma forma de previdência privada. O que caracteriza realmente o privilégio das estatais é que elas se permitem ter uma administração incompetente e, quando precisam de dinheiro, achacam os cofres públicos, ameaçando com a falência em área em que, na opinião da diretoria, o governo não pode estar ausente.
VEJA - Como deve ser feita uma boa privatização?
THATCHER - É preciso sanear as empresas antes de vendê-las ou dar condições aos compradores de saneá-las. Antes de privatizar o aço, concentramos a produção em cinco siderúrgicas, fechando as mais antiquadas e menos produtivas. Alguns setores tinham um nítido excesso de pessoal, como os portos, as minas de carvão, a empresa aérea estatal. Mas não dá para reduzir o excesso de mão-de-obra sem uma justa indenização. Em média, pagamos 1.500 dólares por ano trabalhado. Desse modo, quem tinha trinta anos de serviço foi para casa com 45.000 dólares na mão. Um montante inédito para um trabalhador comum, ótimo para ajudá-lo a ingressar no setor privado. Em muitos casos, vendemos empresas saneadas, com boas chances de rentabilidade. Em outros, vendemos por um preço simbólico, para parar de bancar prejuízos inúteis.
VEJA - Mesmo entre os defensores da privatização no Brasil há quem acredite que o governo deve manter o monopólio estatal do petróleo, um bem estratégico. O exemplo clássico é a Guerra do Golfo, em que estava em jogo o controle de grandes reservas de petróleo.
THATCHER - Eu diria que a Guerra do Golfo foi provocada por um ato de agressão. Não se pode permitir que a agressão renda frutos. Esse é o ponto essencial. Resta o fato de que Saddam Hussein queria apropriar-se de 60% das reservas mundiais de petróleo. Mas esse é um bom argumento para desejar que nenhum governo tenha o monopólio do petróleo, e não o contrário. Veja o exemplo dos Estados Unidos. O petróleo está todo sob controle de empresas privadas e o setor funciona muito bem.
VEJA - Os funcionários das estatais que a senhora privatizou tiveram alguma preferência ou desconto na compra das ações?
THATCHER - Sim. Mesmo quando a empresa era vendida na bolsa, reservava-se um bloco de ações para os executivos e funcionários, a preço especial. É um estímulo para quem, no fundo, faz a empresa andar. Contribui para fazer de cada pessoa um capitalista. E acelera o processo de privatização.
VEJA - A senhora comprou ações das empresas privatizadas?
THATCHER - Minha carteira de ações é administrada por um corretor. De qualquer modo, enquanto estiverem em sua função, ministros e demais membros do governo não podem comprar ações de empresas privatizadas.
VEJA - A senhora sente falta do poder?
THATCHER - Não. Estive mais de onze anos no poder, era hora de uma mudança. Creio que fiz um bom trabalho, em prol da reputação da Inglaterra, tanto internamente quanto no resto do mundo. Acho também que o presidente Ronald Reagan e eu demos uma grande contribuição à demolição do comunismo. O líder soviético Mikhail Gorbachev também estava no poder naquele período, e fizemos com que compreendesse que seríamos muito duros na defesa de tudo aquilo em que acreditávamos.
VEJA - Pouca gente gosta de Gorbachev na Rússia e poucos se lembram dele fora de lá. A senhora acha que a História está sendo justa com ele?
THATCHER - Precisamos reconhecer que sem Gorbachev a Rússia não teria todas as liberdades que hoje parecem normais - de religião, de opinião, de locomoção etc. Nada disso teria sido possível sem ele. Gorbachev restituiu aos russos liberdades pessoais e políticas. Não conseguiu fazer a livre empresa avançar muito. Setenta anos de comunismo ainda condicionam muito a capacidade de uma população mantida passiva à força. Gorbachev não conseguiu sequer fazer passar no antigo Soviete Supremo a lei sobre a propriedade privada, mas mesmo Boris Ieltsin está tendo dificuldades para fazer tal tipo de reforma. A Rússia ainda não tem um Banco Central digno desse nome. O povo vê a sua poupança estraçalhada pela inflação. Ou seja, Gorbachev deu o passo necessário para acabar com o comunismo e a Guerra Fria, ajudando a derrubar o Muro de Berlim. Reconstruir o país é muito mais difícil.
VEJA - A senhora concorda com a teoria de que a nova linha mundial de confrontação será entre civilizações e culturas diferentes, e não mais entre ideologias e sistemas econômicos?
THATCHER - A fonte fundamental de conflitos é a disputa entre tirania e liberdade, entre quem quer impor sua vontade pela força e os direitos humanos fundamentais e a liberdade dos povos. Creio que há no momento 48 conflitos armados pelo mundo. Houve tiranos em todas as eras, e eles continuam a nascer. O conflito é entre tirania e direito, não se trata de cultura.
VEJA - Se o general Leopoldo Galtieri, o ditador argentino que invadiu as Malvinas - ou Falklands, como se diz na Inglaterra -, em 1982, tivesse telefonado para a senhora antes de consumar o ataque, qual teria sido a sua resposta?
THATCHER - Bem, ele não telefonou, percebe-se que queria jogar com o fator surpresa. Sua pergunta é hipotética. Se alguém pisa em território britânico e procura dominar cidadãos britânicos pela força, minha função é botá-lo para fora. A Inglaterra foi o primeiro país do pós-guerra a proclamar claramente: a agressão não compensa. Esse tipo de comportamento não deveria mais existir na última metade do século XX. As Falklands são território britânico desde 1770. Ninguém pode sentir-se livre para tomar terra dos outros. Se alguém começar a dizer que toda ilha a certa distância do litoral de um determinado país pertence a este último, esteja certo de que teremos muitas guerras. Trata-se de invasão de território alheio.
Austeridad inconstitucional
[Alex Stoddard]
La periferia de Europa está extenuada: las políticas aplicadas agotan sus posibilidades de recuperación económica al tiempo que violan fundamentos esenciales de los acuerdos sociales en que se basan sus Estados. El empeño de concentrar en poco tiempo ambiciosos recortes de gasto público no solo no aporta los resultados pretendidos de saneamiento de las finanzas públicas, sino que profundizan la recesión y el aumento del desempleo de economías como la española, la italiana o la portuguesa. En esta última, su Tribunal Constitucional ha dictaminado como inconstitucionales algunas decisiones del Gobierno.
Son los recortes en las pensiones y en los salarios de los empleados públicos los que violan el ordenamiento constitucional, obligando al Ejecutivo a buscar otras alternativas de reducción del déficit público. Se ha estimado que podrían ser entre 900 y 1.300 millones de euros los que el Gobierno de centro-derecha tendrá que reducir en nuevos capítulos de gasto o generar como nuevos ingresos públicos, aproximadamente un 20% de los 5.000 millones de euros incorporados en los planes de austeridad para el ejercicio en curso. Con independencia de la difícil ingeniería presupuestaria a que ello obligue, las tensiones políticas y sociales volverán al primer lugar de la escena en un país literalmente diezmado. En mayor medida teniendo en cuenta que los contribuyentes portugueses ya han soportado los mayores incrementos impositivos de la historia con el fin de aumentar los ingresos públicos.
Antes del pronunciamiento constitucional, la evidencia era suficiente acerca de la inadecuación técnica de ese tipo de decisiones y de su inconveniencia social. Ahora queda establecido un precedente que cuestiona la legitimidad política de esos absurdos propósitos. Sanear las finanzas públicas es de todo punto necesario, como condición para garantizar un crecimiento sostenible y una unión monetaria viable, pero tratar de hacerlo en un contexto de profunda recesión y en un plazo excesivamente corto es una manifiesta provocación a la ruptura de la estabilidad social y del apoyo a las propias instituciones europeas.
[Editorial El País]
sábado, abril 06, 2013
Can't wait!
Tantas, tantas, mas tantas saudades deste homem. Disco novo a 20 de Maio, Trouble will find me, reencontro em Lisboa a 21 de Novembro. Aqui, o primeiro concerto da digressão, em Berlim, anteontem. Fuck! Que saudades!
sexta-feira, abril 05, 2013
Daddy's girl II
Quando eu tinha dez anos, tu tinhas já cinquenta (dá para acreditar?). E eras a melhor pessoa que eu conhecia. Mas eu era pequenina, ainda menina de colo, conhecia meia dúzia de pessoas, tinha acabado de acabar a escola primária, nunca tinha saído de casa, não sabia nada da vida. Quando eu tinha vinte anos, tu estavas quase na idade da reforma, caso quisesses ter-te reformado, mas ninguém acreditava que tu tinhas já sessenta anos, tantas eram ainda as tuas lutas, a tua força, os teus sonhos, e ao mesmo tempo a tua candura. Eu vivia a cem quilómetros de distância de ti, numa universidade em que conhecera mais de cem pessoas de todos os feitios e armações, todas pessoas boas que me fizeram tão feliz, mas tu eras ainda a melhor pessoa que eu conhecia. Quando eu fiz trinta anos, tantos caminhos já trilhados, tantas pessoas, tantas paixões, ilusões, a vida parecia ter-me magoado já mais a mim do que a ti, porque eu chorava onde tu eras capaz de sorrir, eu caía e desanimava onde tu te erguias sempre e sempre, como se tu fosses o teu exército inteiro, um exército imbatível, e no entanto as tuas armas eram só bondade, essa palavra tão rara, e essa espécie de alheamento que usas como filtro para te impedir de guardar o que faz doer. E eu zangava-me porque na cegueira de querer ser como tu, sentia que não me tinhas dado ferramentas para defender-me de quem não era como tu. Perdia tempo para ti, porque queria aprender o que tu não podias ensinar-me, queria lições de defesa, queria entender os outros. Tinhas setenta anos, vivíamos longe, porque é sempre longe quando não é perto todos os dias, e eu lá tive de aprender sozinha que não valia a pena continuar a procurar alguém como tu para mim ou querer eu ser como tu, porque não há duas pessoas como tu. Tu não sabes tudo, não estás sempre certo, estás muitas vezes errado, mas completas setenta e cinco anos parecendo que o tempo não passou por ti - por fora mas sobretudo por dentro. Não tens cáries no coração, nunca tiveste. Nem armaduras nas mãos, também nunca tiveste, só calos do trabalho. Parece que na tua vida nunca houve tempestades, traições, pessoas aquém, e nós sabemos os dois, houve tantas, não houve, pai? Mas tu não tens espaço para isso dentro de ti, como se estivesses sempre no ínício da viagem, e nada soubesses dos perigos. És a pessoa menos poluída que conheci, a mais inspiradora de todas as pessoas que existem. E quando dizes, e dizes tantas vezes, "tu não és mais do que os outros", eu sei exactamente o que tu queres dizer. Tens 75 anos, e ainda és a melhor pessoa que eu conheço, provavelmente serás sempre. E és meu pai, dá para a acreditar? Quando tu fizeres 80 anos, eu terei 40, metade da tua idade, nem metade da tua sabedoria. Mas nessa altura havemos de celebrar em conjunto os anos que ainda teremos pela frente, pelo menos mais vinte, para fazermos coisas juntas. Agora, já ninguém nos separa.
quinta-feira, abril 04, 2013
quarta-feira, abril 03, 2013
Pior era impossível
Durante muito tempo, pensámos que ser mau também dá trabalho. Porque implica a teimosia de não querer aprender, a insistência voluntária no fracasso, a vontade de persistir no erro, o desenvolvimento apurado de uma qualquer técnica que evita fazer as coisas bem feitas, nem que seja só de vez em quando. Errar sempre dá trabalho, pensávamos. E se não dá, é porque é estupidez. Ora assim aparentemente é Seguro: estúpido! A moção de censura do PS, chumbada à partida, poderia nem ser embaraçosa, dependendo do discurso que a sustentasse. Acontece que o discurso foi uma canção de embalar para atrasados mentais, repleta de rimas ainda por cima. Um país de fantasia, um Governo distanciado da realidade dos portugueses, um primeiro ministro que não se importa com um milhão de desempregados, um PS que não confunde interesses nacionais com cumprir compromissos internacionais, que avisou e não ficará sentado no sofá, uma moção que não é jogo político mas imperativo nacional, que não aceita o caminho de empobrecimento nem será cúmplice da tragédia social. Era extraordinariamente difícil fazer um discurso pior e mais vazio. Mas como se isso não bastasse, descobre-se que a carta de Seguro à troika foi ainda antes de o ser. É preciso ser mesmo muito estúpido. Não pode haver moções de censura para a oposição cair?
terça-feira, abril 02, 2013
Lello
Sempre tivemos uma relação de amor-ódio com a Livraria Lello, que ficou resolvida por estes dias. Amor, porque é impossível não amar aquele espaço, não por acaso considerado já várias vezes um dos mais belos guardiões de livros do mundo. Ódio, porque nunca ali encontrámos um livro que procurássemos, nunca ali comprámos nada que não fizesse apenas parte das novidades ou dos clássicos. E a Lello tinha obrigação de investir noutro tipo de literatura. Tão mau como isso é o facto de já termos sido expulsos do espaço ou impedidos de entrar. Basta que sejam sete horas da tarde. Se estamos dentro, somos imediatamente convidados a sair; se estamos fora, mesmo que ainda falte um ou dois minutos para fechar, já não podemos entrar. Aconteceu já mais do que uma vez. E agora, cereja no topo do bolo, os dois euros para aceder à livraria. Hoje, os proprietários vieram dizer que é mentira, que a cobrança é só para escolas e para turistas. Pior a emenda que o soneto. Amar os livros não é cobrar por eles, é partilhá-los com os outros, contaminar os outros com esse amor, exactamente o contrário do que sempre vi na Lello, onde infelizmente só a arquitectura parece contar.
segunda-feira, abril 01, 2013
A literate passion: Letters of Anais Nin e Henry Miller
August 14, 1932
Anais:
Don't expect me to be sane anymore. Don't let's be sensible. It was a marriage at Louveciennes—you can't dispute it. I came away with pieces of you sticking to me; I am walking about, swimming, in an ocean of blood, your Andalusian blood, distilled and poisonous. Everything I do and say and think relates back to the marriage. I saw you as the mistress of your home, a Moor with a heavy face, a negress with a white body, eyes all over your skin, woman, woman, woman. I can't see how I can go on living away from you—these intermissions are death. How did it seem to you when Hugo came back? Was I still there? I can't picture you moving about with him as you did with me. Legs closed. Frailty. Sweet, treacherous acquiescence. Bird docility. You became a woman with me. I was almost terrified by it. You are not just thirty years old—you are a thousand years old.
Here I am back and still smouldering with passion, like wine smoking. Not a passion any longer for flesh, but a complete hunger for you, a devouring hunger. I read the paper about suicides and murders and I understand it all thoroughly. I feel murderous, suicidal. I feel somehow that it is a disgrace to do nothing, to just bide one's time, to take it philosophically, to be sensible. Where has gone the time when men fought, killed, died for a glove, a glance, etc? (A victrola is playing that terrible aria from Madama Butterfly—"Some day he'll come!")
I still hear you singing in the kitchen—a sort of inharmonic, monotonous Cuban wail. I know you're happy in the kitchen and the meal you're cooking is the best meal we ever ate together. I know you would scald yourself and not complain. I feel the greatest peace and joy sitting in the dining room listening to you rustling about, your dress like the goddess Indra studded with a thousand eyes.
Anais, I only thought I loved you before; it was nothing like this certainty that's in me now. Was all this so wonderful only because it was brief and stolen? Were we acting for each other, to each other? Was I less I, or more I, and you less or more you? Is it madness to believe that this could go on? When and where would the drab moments begin? I study you so much to discover the possible flaws, the weak points, the danger zones. I don't find them—not any. That means I am in love, blind, blind. To be blind forever! (Now they're singing "Heaven and Ocean" from La Gioconda.)
I picture you playing the records over and over—Hugo's records. "Parlez moi d amour." The double life, double taste, double joy and misery. How you must be furrowed and ploughed by it. I know all that, but I can't do anything to prevent it. I wish indeed it were me who had to endure it. I know now your eyes are wide open. Certain things you will never believe anymore, certain gestures you will never repeat, certain sorrows, misgivings, you will never again experience. A kind of white criminal fervor in your tenderness and cruelty. Neither remorse nor vengeance, neither sorrow nor guilt. A living it out, with nothing to save you from the abysm but a high hope, a faith, a joy that you tasted, that you can repeat when you will.
All morning I was at my notes, ferreting through my life records, wondering where to begin, how to make a start, seeing not just another book before me but a life of books. But I don't begin. The walls are completely bare—I had taken everything down before going to meet you. It is as though I had made ready to leave for good. The spots on the walls stand out—where our heads rested. While it thunders and lightnings I lie on the bed and go through wild dreams. We're in Seville and then in Fez and then in Capri and then in Havana. We're journeying constantly, but there is always a machine and books, and your body is always close to me and the look in your eyes never changes. People are saying we will be miserable, we will regret, but we are happy, we are laughing always, we are singing. We are talking Spanish and French and Arabic and Turkish. We are admitted everywhere and they strew our path with flowers.
I say this is a wild dream—but it is this dream I want to realize. Life and literature combined, love the dynamo, you with your chameleon's soul giving me a thousand loves, being anchored always in no matter what storm, home wherever we are. In the mornings, continuing where we left off. Resurrection after resurrection. You asserting yourself, getting the rich varied life you desire; and the more you assert yourself the more you want me, need me. Your voice getting hoarser, deeper, your eyes blacker, your blood thicker, your body fuller. A voluptuous servility and tyrannical necessity. More cruel now than before—consciously, wilfully cruel. The insatiable delight of experience.
HVM
domingo, março 31, 2013
sábado, março 30, 2013
Promise land by Gus Van Sant *****
E, no fundo, tudo se resume a isto: ou se descobre o amor, ele inspira, contagia e salva o mundo, ou achamos que a vida é só um emprego e que a vida dos outros tanto faz. Este filme é uma viragem na carreira de Gus Van Sant. Excelente banda sonora, ainda por cima.
sexta-feira, março 29, 2013
quinta-feira, março 28, 2013
"Tomar a palavra"
"Cada povo tem direito à sua música e ao silêncio. Tem direito a decidir de que modo quer interromper o silêncio. Direito a escolher que sons quer: que palavra e que nota musical. Mas, repara: não há silêncios populares. Como isso assusta."
Gonçalo M. Tavares, Um Homem: Klaus Klump
quarta-feira, março 27, 2013
Paul Krugman: Cyprus, Seriously
[Alex Stoddard]
A correspondent whom I respect has (gently) challenged me to say plainly what I think Cyprus should do — leaving aside all questions about political realism. And he’s right: while I think it’s OK to spend most of my time on this blog working within the limits of the politically possible, and relying on a combination of reason and ridicule to push out those limits over time, once in a while I should just flatly state what I would do if given a chance.
So here it is: yes, Cyprus should leave the euro. Now.
The reason is straightforward: staying in the euro means an incredibly severe depression, which will last for many years while Cyprus tries to build a new export sector. Leaving the euro, and letting the new currency fall sharply, would greatly accelerate that rebuilding.
If you look at Cyprus’s trade profile, you see just how much damage the country is about to sustain. This is a highly open economy with just two major exports, banking services and tourism — and one of them just disappeared. This would lead to a severe slump on its own. On top of that, the troika is demanding major new austerity, even though the country supposedly has rough primary (non-interest) budget balance. I wouldn’t be surprised to see a 20 percent fall in real GDP.
What’s the path forward? Cyprus needs to have a tourist boom, plus a rapid growth of other exports — my guess would be agriculture as a driver, although I don’t know much about it. The obvious way to get there is through a large devaluation; yes, in the end this probably does come down to cheap deals that attract lots of British package tours.
Getting to the same point by cutting nominal wages would take much longer and inflict much more human and economic damage.
But is it even possible to leave the euro? The Eichengreen point — that even a hint of exit would cause panicked capital flight and bank runs — is now moot: the banks are closed, and capital is controlled. So if I were dictator, I’d just extend the bank holiday long enough to prepare for the new currency.
OK, what about the bank notes? I’m no kind of expert in such matters, but I’ve heard suggestions to the effect that it might be possible to rush debit cards into circulation, so that business could resume without having to wait for someone to run the printing presses. The government might also be able to issue temporary scrip, IOUs that don’t look like proper bank notes, as a transitional measure.
Yes, it all sounds kind of desperate and improvised. But desperation is appropriate! Otherwise, we’re talking about Greek-level austerity or worse in an economy whose fundamentals, thanks to the implosion of offshore banking, are much worse than Greece’s ever were.
My guess is that none of this will happen, at least not right away, that the country’s leadership will fear the leap into the unknown that would come from euro exit despite the obvious horror of trying to stay in. But as I said, I think euro exit is now the right thing to do.
[Hoje, no espaço The conscience of a liberal, no New York Times]
Sembradores de miedo
[Oleg Oprisco]
Si el formato del rescate de Chipre, con una cuantiosa quita en los depósitos superiores a 100.000 euros, se convierte en modelo general para futuras crisis bancarias en la Unión Europea, es como para inquietarse gravemente por el futuro de la unión monetaria. Que ello está en los planes de los dirigentes comunitarios lo apuntó primero el torpe e incompetente presidente del Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, un individuo que no duda en conculcar las directivas europeas que debe aplicar, por lo que su continuidad supone un peligro para la eurozona. Pero la propia Comisión confirmó que el principio de la inseguridad de los depósitos forma parte de sus borradores para el fondo de resolución bancaria, un organismo clave, junto al de supervisión, para la futura unión bancaria.
La propuesta supone, formulada con carácter general, un error. Es lógico que en caso de quebranto de un banco sus accionistas pierdan todo su capital, y enseguida sus bonistas. Pero incluir sin más a los depósitos en la secuencia de activos responsables carece de sentido jurídico, porque un depósito difiere esencialmente de una inversión. Por eso solo puede someterse al riesgo de pérdida en casos especialísimos, como el de Chipre, pues la cuantía, el tipo de interés con que se remuneraban y otras circunstancias venían a equipararlos entre sí.
También resulta peligroso su impacto económico, pues la expropiación de depósitos, o su sola contemplación, es susceptible de sembrar el pánico y la tormenta financiera en el área del euro. Además, una norma así puede atentar contra la neutralidad debida y distorsiona el mercado, al desviar a los clientes hacia cierto tipo de bancos de determinados países.
El coste de las crisis bancarias debe recaer primero sobre sus responsables y dueños, antes que sobre el contribuyente. Usar la base de pruebas del caso chipriota para colgar ese coste del bolsillo de los depositantes —primero de los modestos y al cabo solo de los más ricos— no solo es imprudente, también es inmoral. Y acudir a este sendero como atajo para diluir la recapitalización directa de bancos, la potencia del fondo europeo de rescate y la ambición de la unión bancaria en ciernes, minimizando la ineludible mutualización de responsabilidades, sería una marcha atrás imperdonable.
Casi como las demás empresas, los bancos han de poder quebrar, desguazarse o recapitalizarse, según convenga en cada caso, y sin predeterminación. De lo contrario, el incentivo a la gestión irregular o disparatada (el riesgo moral) se dispara. De hecho, muchos bancos echan el cierre cada año en muchas partes del mundo, notoriamente en Estados Unidos. Pero a nadie se le ocurre, como al lenguaraz presidente del Eurogrupo, aterrorizar a clientela y mercados. No lo hizo el Gobierno holandés cuando capotaba el ING, ni el alemán cuando inyectó 18.200 millones de euros del contribuyente para salvar al gigantesco Commerzbank.
[Editorial de hoje do El País]
Ricardo Araújo Pereira: Carta aos 19
[Oleg Oprisco]
Caro desempregado,
Em nome de Portugal, gostaria de agradecer o teu contributo para o sucesso económico do nosso país. Portugal tem tido um desempenho exemplar, e o ajustamento está a ser muito bem-sucedido, o que não seria possível sem a tua presença permanente na fila para o centro de emprego. Está a ser feito um enorme esforço para que Portugal recupere a confiança dos mercados e, pelos vistos, os mercados só confiam em Portugal se tu não puderes trabalhar. O teu desemprego, embora possa ser ligeiramente desagradável para ti, é medicinal para a nossa economia. Os investidores não apostam no nosso país se souberem que tu arranjaste emprego. Preferem emprestar dinheiro a pessoas desempregadas.
Antigamente, estávamos todos a viver acima das nossas possibilidades. Agora estamos só a viver, o que aparentemente continua a estar acima das nossas possibilidades. Começamos a perceber que as nossas necessidades estão acima das nossas possibilidades. A tua necessidade de arranjar um emprego está muito acima das tuas possibilidades. É possível que a tua necessidade de comer também esteja. Tens de pagar impostos acima das tuas possibilidades para poderes viver abaixo das tuas necessidades. Viver mal é caríssimo.
Não estás sozinho. O governo prepara-se para propor rescisões amigáveis a milhares de funcionários públicos. Vais ter companhia. Segundo o primeiro-ministro, as rescisões não são despedimentos, são janelas de oportunidade. O melhor é agasalhares-te bem, porque o governo tem aberto tantas janelas de oportunidade que se torna difícil evitar as correntes de ar de oportunidade. Há quem sinta a tentação de se abeirar de uma destas janelas de oportunidade e de se atirar cá para baixo. É mal pensado. Temos uma dívida enorme para pagar, e a melhor maneira de conseguir pagá-la é impedir que um quinto dos trabalhadores possa produzir. Aceita a tua função neste processo e não esperneies.
Tem calma. E não te preocupes. O teu desemprego está dentro das previsões do governo. Que diabo, isso tem de te tranquilizar de algum modo. Felizmente, a tua miséria não apanhou ninguém de surpresa, o que é excelente. A miséria previsível é a preferida de toda a gente. Repara como o governo te preparou para a crise. Se acontecer a Portugal o mesmo que ao Chipre, é deixá-los ir à tua conta bancária confiscar uma parcela dos teus depósitos. Já não tens lá nada para ser confiscado. Podes ficar tranquilo. E não tens nada que agradecer.
[Hoje, na Visão]
terça-feira, março 26, 2013
O mundo ao contrário
Este homem, Jorge Silva Carvalho, ex-espião, futuro técnico superior da presidência do Conselho de Ministros, é a prova de que neste Governo nenhum amigo se perde, tudo num amigo se recria, e se for preciso até a lei se transforma. Este homem, com mais páginas de histórias mal contadas do que de vida, acaba de ganhar um emprego para a vida num país onde mal há empregos a prazo. E terá direito, ao que parece, a ser ressarcido (de quê?!) retroactivamente desde 2010. Salário pago por nós. E anda meio país a discutir o direito de Sócrates a voltar ao activo ou o salário que a RTP lhe pagará (ou não). Está certo.
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