domingo, abril 21, 2013

Miguel Esteves Cardoso e Maria João Pinheiro. O meu amor.


Achava que ia chorar. Tinha chorado tantas vezes a ler crónicas do MEC para a Maria João, pela Maria João. Tinha dado comigo tantas vezes, como tantos, a torcer pelo amor deles, pela vida dela. Achava que ia chorar. Só me ri. Porque o amor, quando é, é alegre. Mesmo se depois comove. Acabei de ler a entrevista terrivelmente comovida. O amor, quando é, comove. Tanto.

Casaram-se em 2000 e dizem que se tornaram no casal Schmoopy do Seinfeld, um casal ultra-irritante, em que um termina as frases do outroNo princípio era o verbo e ele escreveu-lhe uma carta "desonesta", a convidá-la para fazer a locução de uma série de peças radiofónicas de Samuel Beckett. Ela viu-o uma vez na televisão e soube que queria casar-se com ele.


MEC já escreveu que O Amor É Fodido. Vivia em Lisboa, em sofrimento, à beira de uma síncope. Tinha graça, juventude, hordas de seguidores. Agora está na fase de achar Como É Linda a Puta da Vida (novo livro que colige crónicas dos últimos anos). Este é o tempo da Maria João, da vida em Colares, de achar que nesta puta (que é a vida) cabem os pássaros e os cães que se ouviram durante a entrevista. E o sol que incomodava os seus olhos claros. Ela sempre foi quem é. Radiosa. Um dia, disse-lhe que ele podia estar calado

A história desta entrevista tem um ano.

Eu queria entrevistar o MEC com a Maria João. Se eles não topassem, podia ser só com o MEC (ele falaria da Maria João). Mas com a Maria João é que era. Porque ela é a vida da vida dele. O retrato seria outro. Então veio o cancro. No cérebro. Depois do da mama. E quando se suspirou de alívio, ele pediu-me que lhes desse tempo para estar. Tempo para estar era uma coisa que o MEC não se permitia antes da Maria João. E cujo sentido aprendeu. Passaram umas aves, umas ervas de cheiro, reflexões sobre a escolha, a liberdade, o tempo (tudo com letra maiúscula), os livros que lê, o neto António, as gémeas Sara e Tristana. Passaram muitos dias de um Inverno danado e já fazia sol quando nos encontrámos em Colares, para a entrevista.

[Miguel Esteves Cardoso (1955) vive "tão feliz da vida" com Maria João Pinheiro (1968) que não parece ser preciso mais nada. Casaram em 2000. Os dois explicam aos cínicos como é que isso é possível. Falam uma fala deles (além de falarem em português, a língua dos dois, e de o Miguel falar em inglês, a língua da mãe). Como se fosse uma música só deles.]

A Maria João é para si dream come true [sonho tornado realidade]...
Miguel Esteves Cardoso - É.
... ou é true come dream [realidade tornada sonho]?
É dream come true. Só que eu nunca sonhei que existisse uma pessoa como ela. Não é uma coisa que se consiga sonhar. Uma pessoa só consegue sonhar com aquilo que mais ou menos conhece, com os elementos de imaginação [de que dispõe]. A Maria João é real. É bom ela ser real.
Por isso perguntei se era true come dream.
MEC - Pois. Essa pergunta é boa. Eu sonho com ela, mas é sempre melhor quando acordo. É verdade.
Elabore sobre isso. Para perceber os movimentos, do sonho e da realidade.
MEC - Muitas vezes, quando uma pessoa sonha, ou tem um pesadelo, acorda e é um alívio estar na nossa cama. Muitas noites, muitas manhãs, acontece-me sonhar..., aqueles sonhos estúpidos ou menos bons. Acordo, e a Maria João está ao meu lado.
Na canção, os The Platters cantam: You"re my dream come true, my one and only you. A variação, o true come dream, faz que se olhe para a realidade com olhos de magia. Mas isso não é imediato.
MEC - Não, não é. Ela tem os olhos mágicos.
Maria João - Tu é que tens os olhos mágicos.
MEC - O amor é isso: é ver que a pessoa que a pessoa quer e gosta é real. É real, é verdadeira, é humana. Passado tanto, tanto tempo... Sempre senti que a conhecia. Mas ela nunca me surpreendeu.

Como assim?
MJ - É porque sou previsível.
MEC - Ela é sempre maravilhosa. Vivia muito desconfiado nos, sei lá, nos primeiros meses e anos. Desconfiava de que ela tivesse uma Maria João verdadeira que não fosse assim mágica. Que fosse prática e muito diferente. Que houvesse - há sempre - uma pessoa escondida dentro dela. Mas não. Não há.
Para si, o Miguel começou por ser um dream come true? E foi sempre este Miguel?
MJ - O Miguel é uma pessoa. Uma pessoa maravilhosa. Um tesouro.
Isto está a ficar conversa cor-de-rosa.
MEC - Os casais que se zangam e as pessoas sozinhas vão achar isto muito irritante.
MJ - Ficam furiosas.
MEC - Tornámo-nos no casal Schmoopy do Seinfeld [na série, os dois elementos do casal estão sempre a chamar Schmoopy um ao outro]. O casal ultra-irritante, em que um termina as frases do outro.

Maria João, conte como foi para si.
MJ - Foi conhecer a pessoa mais generosa, perfeita, bondosa. A alma mais pura.
MEC - Devíamos dar mais entrevistas. Eu nunca ouço isto. Estou inchado. Se achavas isso antes, por que é que não disseste?
MJ - Desculpa! [gargalhada]
MEC - Se eu soubesse que era tido em tão alta conta...

Comecemos do princípio. Quando é que o conheceu? Quando é reparou nele? Quando é que o quis?
MEC - Escrevi-lhe uma carta. Uma carta desonesta.
MJ - Eu já o conhecia.
MEC - Uma carta a convidá-la...
MJ - Já o conhecia, não o conhecendo.
MEC - A convidá-la para fazer a locução de uma série de peças radiofónicas do [Samuel] Beckett. Em português. Ela era terapeuta da fala e tinha uma voz óptima.
Como é que era a carta?
MEC - Fiz muitos rascunhos, muitos rascunhos. E não sei quê. Tudo no computador. Depois revi tudo muito cuidadosamente e escrevi a carta à mão.
MJ - A carta era linda.
MEC - Copiei à mão. E se me enganava ia buscar outra folha. Num papel muito impressionante. Um papel americano que mandei fazer de propósito.
Por que é que quis que ela dissesse os textos de Beckett?
MEC - Não, eu queria era conhecê-la. [riso]
MJ - Era um truque.
Costumava vê-la na televisão (Maria João apresentava a meteorologia na SIC)?
MEC - Só na televisão.
MJ - E viste-me uma vez a dançar, não foi?
MEC - Sim. E fiquei como nunca fiquei antes. Fiquei assim toinggg. Parecia extremamente feliz. E eu: "Ah!!" E luminosa. Risonha. Como se fosse um prémio. Sabe?, um prémio. "Aqui está a tua sorte." Senti uma ausência de dúvida. Eh pá. Só queria que fosse minha.
MJ - Mas não me falou.

Uma ausência de dúvida. Que ela ia ser sua? Que era ela?
MEC - Não. Que era ela que eu queria. Nunca sonhei que pudesse tê-la.
Está a fazer género. Já era "o" MEC. Podia ter todas as mulheres que quisesse.
MJ - Exacto.
MEC - Não. Eu escrevi a carta o melhor que podia escrever. Depois vim a saber que ela também tinha desígnios sobre mim.
MJ - Pois tinha. Uma vez estava a ouvi-lo na televisão e disse: "Eu vou casar-me com ele. Eu tenho de me casar com ele." Não fiz nada para me casar com ele. Mas casámos.
Era casar. Não era namorar ou ter um caso.
MJ - Não. Eu - princesa - vou casar-me com ele.
Coisa definitiva? Princesa que encontra o seu príncipe?
MJ - Foi mesmo assim!
MEC - É assim todos os dias. É disgusting [nojento].
O pretexto do Beckett...
MEC - Foi o mais crível que encontrei (por ela ser terapeuta da fala e ter boa voz). E porque o Beckett tem-me ajudado muito nestes anos. E é o maior escritor de sempre. Gostei muito de traduzi-lo. Ele ajudou-me a traduzi-lo. Era um projecto interessante, de qualquer maneira.
MJ - Podíamos fazer, ainda.
Tinha escrito a Beckett e ele tinha respondido.
MEC - Sobre o trabalho. Entretanto, sei (estou a ler as cartas dele) que respondia a todas as cartas que recebia. Todas, todas, todas.
MJ - Como Freud. Em 24 horas, estavam no correio.
MEC - Já viu? Os grandes, grandes homens, e as grandes, grandes mulheres, a Virginia Woolf, respondiam a todas as cartas.
Vocês respondem a cartas?
MEC - Eu não.
MJ - Infelizmente.
MEC - O Beckett, mesmo quando estava a ficar cego, respondia. A mim respondeu-me muitas vezes. Tenho cartas de todas as moradas para onde ele ia.
Quando respondeu a primeira vez...
MEC - Eu estava na universidade, em Inglaterra. Não estava nada à espera que respondesse.
Como é que era a letra dele?
MEC - Pequenina. Muito incerta. Depois mostro-lhe. Escrevia em cartões onde estava impresso Samuel Beckett, em cima. Muito cordial. A agradecer o interesse no trabalho dele. Atencioso. Muito prático.
A sua letra é como? Como era a letra da carta que mandou à Maria João?
MJ - Bonita. Muito bonita.
MEC - Era uma letra de antes do computador. Nesse tempo escrevia à mão. [mostra a letra num Moleskine]
É uma letra muito bem desenhada. Perceptível.
MJ - Esta é uma letra descontraída.
MEC - Quando eu quero, faço mesmo bem.

Retomando a pergunta: jogava com Beckett, o seu autor mais precioso, como se fosse um amuleto? E ele tinha-lhe respondido, no passado.
MEC - Isso não disse. Não usei isso. Seria um bocado... Também só soube há pouco tempo, há duas ou três horas, que ela tinha guardado a carta.
MJ - Tenho as cartas todas.
À antiga.
MEC - Pensava que ela se tinha esquecido.
MJ - Há muitos bilhetes, muitas coisas que estão espalhadas pela casa. Mas essas cartas estão juntas.

O Miguel tinha um protagonismo social, e sobretudo mediático, diferente do seu (ainda que também aparecesse na televisão). Como é que olhava para ele? Uma coisa é idolatrar uma pessoa, que tem muita graça, que é um génio, que revolucionou o uso da língua portuguesa - todas as coisas que se dizem do MEC. Outra coisa é ser o true de que falávamos no começo da entrevista. Ser uma pessoa de verdade.
MJ - Eu achava-lhe muita graça como escritor. Mas desde o primeiro momento estive com ele como se está com uma pessoa. Nunca como ídolo.
Ele não teve de descer do pedestal?
MEC - Ela nunca teve medo nenhum de mim. Ou respeito ou coisa assim. Nunca pensou: "Se calhar estou a dizer asneiras."
MJ - Nunca. Eu vejo a alma dele.
Nessa altura, o Miguel ainda achava que a inteligência, a graça espirituosa eram os atributos mais atraentes numa pessoa?
MJ - Quando me encontrou? Já tinha desistido [disso].
Tem fama de ser sobredotado. É interessante perceber o que é que uma pessoa tão inteligente procura nos outros.
MJ - O que é que ele viu em mim?
Pode também pôr assim.
MEC - É a mulher mais bonita que alguma vez vi. Era linda de morrer e podia ser uma víbora. Era uma mulher linda, linda, linda e isso já era suficiente.
Era suficiente?
MEC - É suficiente. É uma beleza bem-disposta. Não sei explicar.
Foi o sentido da alegria o que mais aprendeu com a Maria João?
MEC - Não é uma beleza frígida ou distante. Ou fechada. Não é uma beleza indesejada. É vaidosa. É uma beleza que sabe que é bonita.
MJ - Achas?
MEC - Acho. E isso combinado com ser uma giraça. (Já não se usa esta palavra.) Ela enche a vista. Apela a todas as coisas que existem em mim enquanto homem.
Não respondeu à questão da inteligência.
MEC - Fiquei muito surpreendido quando vi que ela era muito inteligente. Não é justo, mas ela tem um sentido de humor fabuloso, terrível, até, mais perverso do que o meu.
Tenho de prestar atenção. Ela gosta de ser cortejada. Se sente que não é... Aí é que vem a fera. Aí é facas.
O que é que achava que ele via em si?
MJ - Amor. Amor. Era a coisa que lhe faltava e que ele encontrou em mim, e eu nele.
MEC - Foi amor desde o princípio. Amor e encantamento. É muito, muito fun [divertido], isto. O tempo era sempre pouco, como é pouco ainda. Não temos tempo, embora estejamos quase sempre juntos.
Como é que não sentem fastio? - perguntam-se certos casais, neste momento de língua de fora.
MEC - Não sei. Há casais que se fartam um do outro. Mas se calhar, esses, nunca gostaram um do outro. Nós mantemos a fasquia... (Eh pá, este termo é horrível. Nunca o usei na minha vida.
MJ - Não uses.)
MEC - Nós, à mínima coisa, ou se ela estiver a olhar para outra coisa, fico cheio de ciúmes. Faço uma cena. Também é preciso ter atenção a qualquer desvio ou decadência. Dizemos muito: "Tu dantes rias-te mais comigo. Tu dantes perguntavas mais o que é que eu pensava. Tu dantes falavas mais de ti." Todos os dias temos isto. Todos os dias há coisas de ciúme, de comparação com o passado, reconciliações (depois de eu quase ter tido um ataque cardíaco).
É um fiteiro, não é?
MEC - Não, não sou.
Isso do ataque cardíaco não é fita?
MEC - Não. Dói-me mesmo.
MJ - Espero que seja fita.
MEC - Há uma componente de fita, claro.
Têm sempre uma vigilância sobre a relação? Vigilância também não é uma boa palavra.
MEC - Mas é vigilância. [riso] As pessoas vão vomitar quando lerem isto.

Antes que as pessoas vomitem, vamos falar de quem eram antes de se encontrarem. Ficou outra pessoa, Maria João? Quase tudo o que sabemos de si, resulta das crónicas do Miguel. Aparece como musa e criatura dele.
MEC - Ela não mudou nada.
MJ - Ele também me inspira.
Dê-me coordenadas. O que é que é preciso saber de si?
MJ - Nunca pensei nisso assim. Era eu. Era uma pessoa que gostava de viver e de divertir-se e de aprender.
O que é que foi importante na sua vida? O sítio onde nasceu?, os pais que teve?
MJ - Os pais, a família, os amigos.
MEC - Ela tem uma coisa de azar. Antes das doenças [o cancro], teve outras doenças. E de cada vez que gosta de uma coisa, essa coisa deixa de ser fabricada.
MJ - Desaparece.
MEC - Está sempre à espera do pior.
MJ - Sou o beijo da morte.

"Sou o beijo da morte" parece um título de Nelson Rodrigues. Que já me ocorreu há pouco. Outro título do escritor brasileiro: "Pouco amor não é amor".
MEC - É mesmo. Quando as coisas acontecem, ela não está surpreendida. E daí vem o sentido de humor. Um humor muito, muito negro. Eu próprio fico chocado. Há nela uma aceitação, um venha lá, pronto.
Dêem um exemplo. Um pouco de negrume, aqui. Senão isto fica muito cor-de-rosa.
MEC - Mas o cor-de-rosa também é uma cor. [Esse humor negro] é sempre uma coisa do momento. Ela não se reprime. É uma pessoa muito liberta, até pelas circunstâncias da sua vida. De ter sido pequenina, mais nova do que as irmãs. Muito criativa. De ter brincado sozinha. Com a autorização dos pais, via os filmes todos que queria. Uma grande liberdade. E por isso diz tudo. É desconcertante.
Sempre teve confiança em si? Falemos das coisas que importam.
MJ - É mais uma liberdade, e depois logo se vê, do que uma grande confiança em mim. Também tenho inseguranças.
MEC - Acho que não. Que não tens muitas inseguranças.
MJ - Achas? Está bem.
MEC - Ela queria ser ainda mais... Não sei. Ainda mais ela. É aquela coisa narcísica.
MJ - Qual?
MEC - Aquela: tu gostavas de ser ainda mais tu.
MJ - Mas eu sou eu.
MEC - Gostavas de ser ainda mais um bocadinho.
Expliquem lá isso.
MJ - Ele está a dizer que eu gosto de quem sou e que queria ser ainda mais eu. Também não temos muita escolha, não é? Temos de ser nós.
MEC - Eu não era eu. Ela ensinou-me isso. Ensinou-me muito bem a estar à vontade. Eu estava sempre a fingir que era outra coisa que não era. Estava sempre muito ansioso. Muito show off. A tentar disfarçar. Sempre muito malà"laise [pouco à vontade, inadequado]. Sempre a querer fazer graças ou a ser o palhaço da turma. Divertir as pessoas à força. Uma coisa desesperada para que gostassem de mim. Era um trabalho. Detestava.
O trabalho era...?
MEC - O trabalho de ser simpático, de divertir as pessoas. Tenho isso desde pequenino. É uma insegurança: não pensar que as pessoas podem gostar de mim só por eu ser eu. Que posso estar calado. Ela disse-me. "Podes estar calado. Não precisas de estar sempre a não sei quantos."
MJ - Disse-lhe: "Podes descansar."
MEC - Descansei muito. Descansei. E as pessoas não deixaram de gostar de mim. Grande lição.

Quando falou do percurso da Maria João, falou do sentido da liberdade. Que nela pareceu fácil. Mas que não é fácil.
MEC - Pois não.
O Miguel, parecendo ter todas as condições para ter essa liberdade, não a tinha.
MEC - Era totalmente reprimido. Muito reprimido. Muito inseguro. E muito falso. É a palavra.
Estava sempre a ser "o MEC"? A ser o boneco.
MJ - Ele exige muito dele próprio. [Divertir os outros], fá-lo mais por bondade, até.
MEC - Agora não faço. Agora é muito melhor. A minha mãe sempre me disse que não me importasse com o que os outros pensavam. "Who cares?" [que importa] Mas nunca aprendi o que a minha mãe dizia.
O que é que dizia o seu pai, que era português?
MEC - O meu pai dizia a mesma coisa. Que não éramos obrigados a gostar uns dos outros. Nem dos irmãos nem dos pais. Tínhamos o direito de formar uma opinião, ou de gostar, ou de não gostar. Podíamos não gostar da nossa mãe ou do nosso pai. Ele também não gostava do pai dele. A minha mãe também não gostava do pai dela. Isso era a liberdade de gostar. Nós só tínhamos de estar com as pessoas de quem gostávamos e conversar com as pessoas com quem queríamos conversar. O meu pai fugia das pessoas de quem não gostava. Fugia mesmo, fisicamente. Saía da sala. Eu, não sei porquê, não sei se foi do colégio inglês ou de qualquer merda, quando comecei a ficar popular, e a fazer desenhos, como era muito bom aluno, compensava sendo desobediente, fazendo troça. Não sei se foi isso que me deu um gosto pelo poder. E uma maneira de os outros miúdos gostarem de mim.
MJ - Para não te marginalizarem por seres tão bom aluno.
MEC - Diziam-me: "Faz lá..." E eu fazia. E imitava os professores. Depois vim a saber que a Maria João também fazia isso.
MJ - Só que o fazia sozinha.
MEC - Faz caricaturas, expressões perfeitas, desenhos. Como eu fazia. Essa necessidade [de agradar, de ter graça] era uma coisa que me incomodava. Ficava cansado.
MJ - Exausto.

Sentiu-se amado quando era pequeno?
MEC - Amado? Sim. Muito amado.
Tinha uma grande ideia de si mesmo?
MEC - Então não? Estava convencidíssimo. Percebi muito cedo. Uma pessoa tem uma grande ideia de si mesmo aos três, quatro anos, quando começa a ver o que se divertem os adultos. "Isto funciona!" Dizer aos quatro anos: "Vou ser isto, vou ser aquilo", e as pessoas ficavam encantadas.
O que é que dizia?
MEC - "Vou ser um grande escritor."
MJ - Com quatro anos, disse à mãe que não ia ter tempo.
MEC - Não foi aos quatro.
MJ - A tua mãe diz que foi. "Nunca vou ter tempo para fazer o que tenho de fazer."
MEC - Também disse: "Jamais serei um membro do público." Nunca. Isso com três ou quatro anos. "A member of the public."
Ou seja, não estar na audiência. Quis estar em cima do palco e não a ver da plateia.
MEC - Sim. Não ver televisão, mas sim aparecer na televisão.
Gostava da sua mãe e do seu pai?
MEC - Hum. O meu pai. O meu pai já morreu. Se gostava muito do meu pai? Muito. Claro.
Muito? Claro? Acabou de dizer que o seu pai e a sua mãe não gostavam dos pais que tinham.
MEC - Amava muito o meu pai. Amava-o. Mas ele mostrava-se inteiro. Não escondia. Conheci o meu pai, conhecemos todos, inteiramente. As coisas más e as coisas boas. Porque ele fazia-as todas à nossa frente. Os exageros. Os ciúmes paranóicos da minha mãe. As grandes melancolias.

Sem ciúme não há amor, dizia o Nelson [Rodrigues].
MEC - E é verdade. Portanto eu amo o meu pai como quem ama uma pessoa que conhece bem. Ele tinha coisas nada boas. A minha mãe também tem coisas nada boas. Eu também. Toda a gente tem coisas nada boas. E isso é que é o amor. Eu não idolatro. O meu pai, se calhar, empurrou-me demasiado, quando eu era pequenino. Conforme as notas. Se não tivéssemos 20, ficava chateado. Já o pai dele tinha feito o mesmo com ele.
O que é que fazia o seu pai?
MEC - Era arquitecto naval, mas trabalhava nas pescas. Ele também foi o melhor aluno e não sei o quê. O irmão dele... Pronto. Não interessa. O que interessa é que são pessoas overachievers [que superam as expectativas]. A minha mãe levava-me livros aos quadradinhos colados debaixo do tabuleiro, quando eu estava a estudar. [riso] Estava sempre a dizer assim: "You"re going to destroy this child" [vais destruir esta criança]. E o meu pai a explicar-me Química. Até às duas da manhã, três da manhã.
E queria lá saber da Química...
MEC - Ficava apaixonado. Ao princípio chorava, porque não percebia.
MJ - Ele interessa-se por tudo. Se de repente pensar que vai estudar o ar condicionado, estuda-o completamente.
MEC - Ou sobre esgotos. Li agora um livro sobre esgotos. Começo a perceber que as cerâmicas são porosas...
Interessa-lhe apreender o funcionamento da máquina, qualquer máquina?
MEC - Tudo é interessante. Toda a gente é interessante. Tudo é interessante saber. Há paixão em tudo.
Sentiu que era educado para ser overachiever?
MEC - Sim. Sempre no over, sim. O meu pai também era muito exagerado. Muito exagerado. A Maria João ensinou-me a pensar sobre mim. Eu nunca pensava sobre mim próprio. Achava que era uma perda de tempo.
Nem uma psicanalisezinha de trazer por casa?
MEC - Eu queria ser psicanalista quando tinha 11 anos. Ela [aponta para Maria João] é da psicanálise. Eu li a Psicopatologia da Vida Quotidiana [de Freud], em português, quando tinha 12 anos. Apanhei uma pancada de Freud aos 13, 14, 15. Depois reprimi o desejo de ser psicanalista.
MJ - Achou que a Filosofia era incompatível.
MEC - A Filosofia é sobre as coisas todas e toda a gente. Eu queria saber coisas que eram verdade para toda a gente. E desinteressei-me do indivíduo.
MJ - Depois voltaste.
MEC - Voltei um bocadinho, agora, quando ela começou a psicanálise e os seminários de psicanálise. Voltei a ler Freud. A maneira efervescente como escreve, o bem que escreve... Reapaixonei-me pelo Freud, pela psicanálise, por casos. Os livros do Adam Phillips, do Stephen Grousz...
MJ - Tenho-os aqui.
MEC - Você também é mais da psicanálise, não é?

O que interessa: partiu do indivíduo para o colectivo para agora afunilar novamente no sujeito individual. Isto depois da Filosofia Política, em que se doutorou. Mesmo quando lia Freud na adolescência, não era para olhar para si próprio. Era para saber. Só agora é uma coisa mais introspectiva?
MEC - Sim. Só agora. Porque quando uma pessoa vive com outra, a outra faz reparos.
MJ - Faz com que tu te ouças.
MEC - Basta a Maria João dizer: "Estás a ouvir-te a ti próprio?" Ajuda muito.
MJ - Fazemos os dois isto.
MEC - Sim, ela também tem umas pancadas.
O amor pode ser ainda mais pancada que a psicanálise. No caso da Maria João, é um dois em um: um amor e uma psicanálise.
MEC - [riso] Um amor e uma psicanálise é bom.

Quer contar um bocadinho da sua história?
MJ - [em surdina] A minha história não tem interesse nenhum.
Todas as histórias têm interesse. E todos os psicólogos recebem pacientes que dizem que as suas histórias não têm interesse nenhum.
MEC - Há um psicanalista português muito bom - não vou dizer o nome -, que diz no livro dele - também não vou dizer qual é - que, quando os pacientes dizem que não têm interesse nenhum, têm sempre razão.
MJ - Normalmente, normalmente, o que os pacientes sentem corresponde à verdade. É mais assim.
A sua história não tem interesse nenhum ou é uma maneira esquiva de dizer que não quer falar dela?
MJ - É que eu já fiz a minha análise. Já disse tudo.
Como foi o seu percurso?
MJ - Primeiro estudei terapia da fala e depois Psicologia.
MEC - Quis estudar Psicologia e foi três vezes rejeitada.
MJ - Por causa dos testes psicométricos.
MEC - Entrou. Sempre trabalhando como terapeuta da fala com crianças com trissomia 21.
MJ - Não. Com várias deficiências.
MEC - A trabalhar muito.
MJ - A ganhar muito mal.
MEC - No ISPA [Instituto Superio de Psicologia Aplicada], o curso era muito bom, com muita estatística...
MJ - Era um curso bom. Aprendia-se bastante.
MEC - Acabou. Sempre com o sonho de seguir psicanálise. Está há dois anos a fazer psicanálise quando aparece o cancro.
O cabrão do cancro, como lhe chama nas crónicas.
MEC - O cabrão do cancro. No cérebro.
MJ - [suspiro] Isto não falando do resto. Da mama. De tudo.
MEC - E aí interrompeu. Foi há um ano. Mas passou o primeiro ano do seminário da APPSI [Associação Portuguesa de Psicoterapia Psicanalítica].
MJ - Consegui voltar, tendo faltado aquele tempo em que [baixa o tom de voz] fui operada.
MEC - É um seminário fabuloso. Foi renovado há dois anos e tem agora um fulgor, um entusiasmo gigante. Ela tanto perseverou que está perto do sonho dela, que é ser psicanalista.
MJ - Psicoterapeuta psicanalista.

O que é nos pode dizer do que diz ao psicanalista?
MJ - Posso dizer quase tudo. Agora, ficar aqui a falar de mim, é que não...
MEC - Ao psicanalista, ela diz tudo. Tem de dizer tudo o que lhe passa pela cabeça.
Tem ciúmes do psicanalista?
MEC - Tenho. Tenho, claro. Por aquilo que ele sabe. Mas tenho muita admiração por ele. É mesmo um herói meu. Uma pessoa sábia e generosa. Está a fazer um esforço gigante pela psicanálise verdadeira, freudiana. É o prof. Frederico Pereira. É da escola francesa; de repente, com 60 anos, começou a ler todos os psicanalistas da escola britânica.
MJ - Tu não sabes o que é que ele leu.
MEC - Está bem. Mas leu. Ele gosta mesmo de ler. Eu já vi livros sublinhados por ele. Uma pessoa vê muito bem quem lê pelos sublinhados que [a outra] deixa. [vira-se para Maria João] Que é que tem? Isto não é uma revelação.
Tem ciúmes de a Maria João ter um interlocutor tão íntimo, é?
MEC - É. Ele faz psicanálise à séria e ela também é uma analisada à séria. Pronto. Uma pessoa tem de lidar com isto. Fez-lhe muito bem, a psicanálise. Não existe isto de estarem duas pessoas sozinhas, uma a ouvir outra, durante 50 minutos. Sem máquinas, sem coisinhas, sem tarefas.
Por que é que não quis fazer?
MEC - Agora, gostava de fazer.
Como é que isso não lhe ocorreu estes anos todos?
MEC - Tinha medo que destruísse a coisa criativa. Aquele medo foleiro. Ou que descobrisse alguma coisa que não queria descobrir.
Achava, por outro lado, que a escrita tinha um lado psicanalítico, catártico?
MEC - Não. Tinha medo. E ter medo é uma forma de ter respeito. Tinha medo, por exemplo, que me pusesse feliz. E que essa felicidade fizesse com que...

Abramos um parêntesis para isto: as pessoas dizem que o velho MEC é que tinha graça.
MEC - Sim, é verdade.
Que esse é que era insubordinado e rebelde. E infeliz (à luz do que está a dizer). Agora fala da abóbora e dos primeiros dias de sol.
MJ - Ele continua a ser rebelde.
MEC - Sou muito, muito menos rebelde. Eu tinha graça porque era muito, muito novo. E há uma altura para ter graça. Também me rio com as coisas que escrevi.
Sentia-se (olhando agora) o ratinho que anda na rodinha, zumba, zumba, zumba, sem parar?
MEC - Nunca senti.
E aí o objectivo era ser competente, ter graça, animar a plateia.
MEC - Animar a plateia, sim.
MJ - Talvez fosse mais um desejo de corresponder às expectativas, não? Com a coisa da infância.
MEC - Não sei. O Vicente Jorge Silva, que me ajudou imenso, que me ensinou imenso, dizia que não me conseguia ler. Porque eu tinha um tom cabotino. Está muito bem apanhado. Eu era cabotino. Muito look at me [olhem para mim].
MJ - Ora aí está. Eu nunca tive qualquer dificuldade em lê-lo.
MEC - Não é preciso uma pessoa esforçar-se tanto. É a lição.
Vicente Jorge Silva estava a falar de outra coisa - dos textos. A Maria João nunca teve dificuldade em ler a alma do Miguel. A alma aparecia nos textos?
MJ - Aparece em tudo o que ele faz.
MEC - Deus queira, não é?
MJ - Em tudo o que diz, pinta, escreve.
Deixou de ser look at me e deixou de ser ansioso?
MEC - Era look at me na [relação com a] língua portuguesa. Não sabia escrever. Tive de aprender a escrever português bem. Agora sinto que consigo escrever bem. E que não é preciso - nem consigo - ter essa graça. Não tenho essa coisa de ahahah, de rir de tudo.
MJ - Mas tens imensa graça.
MEC - Agora reparo na graça das coisas.
Sem drogas e sem álcool. Está mais no seu osso, em quem é. E sem precisar de subterfúgios.
MEC - Sim. Mas o álcool nunca me afectou, nunca teve um efeito deprimente ou eufórico sobre mim. Bebia durante o dia, mas não era um bêbedo. Era mais uma companhia.
MJ - Ele tem paz.

Numa crónica recente falava do Serviço Nacional de Saúde. Falou de como ele lhe valeu. Em Inglaterra, quando nasceram as suas filhas gémeas. E, aqui, quando salvou a Maria João e, antes disso, o salvou a si de morrer.
MEC - Duas vezes. E a segunda vez foi muito caro.
Houve momentos na vossa vida em que o grande demónio esteve à vossa frente. A pergunta que parece banal: o que é que se aprende nessas situações?
MJ - Aprende-se... Diz tu.
MEC - Diz tu.
MJ - Aprende-se a não ficar muito tempo distraído na vida. Distraímo-nos e vivemos como se a vida tivesse um tempo infantil - de não acabar nunca. E não aproveitamos as coisas ao máximo. Às vezes, se não aproveitarmos ao máximo, também não interessa.
MEC - Sabemos que vamos ter saudades destes tempos aqui. De quando estávamos bem, e nos podíamos mexer, e ficar aqui à conversa.
MJ - [Sabemos que] isto acaba sempre mal.
MEC - Sempre. Acaba na velhice e depois na morte.
MJ - Na melhor das hipóteses.
MEC - Isto é o que se aprende. Era escusado aprender isto. As pessoas dizem que o mais importante é a saúde e que tem de se dar valor a não sei quê. É o que os padres dizem. Demos graça... "What? What the fuck...?" [o quê? por que raio?] Demos graça? "Não temos nada. Por que é que havemos de dar graça?"
E também se aprende a confiar nos médicos, nos enfermeiros, nas assistentes, no sistema. O sistema funciona. Está lá para apoiar. E os outros doentes... Não queira saber. É mesmo surpreendente.
Que papel tinham as crónicas/declarações de amor que o Miguel escrevia para si?
MJ - Eram muito importantes.
Tinha o país inteiro a torcer.
MEC - O país inteiro... [tom de troça]
Os leitores do PÚBLICO e não só. Certas crónicas tornaram-se virais nas redes sociais.
MJ - Houve o "Acrescento de Milagre" [corrente pela cura da Maria João do MEC - página no Facebook]. "Nem o amor, nem a sabedoria médica a podem salvar. Só uma conjugação das duas coisas, mais um acrescento de milagre."
MEC - Foi ultra-importante. Animou muito a Maria João. Eu tinha desprezo pelo Facebook e fiquei maravilhado com o efeito daquilo. De pessoas desconhecidas tirarem tempo da vida delas para, sem nada em troca, torcer, torcer. Why?, porquê?
MJ - Ele levava-me o jornal quando eu estava no hospital.
Não lhe lia antes?
MEC - Ela gosta mais de ler antes. Mas eu gosto mais que ela leia no jornal, quando está impresso.
MJ - Ele levava-me o jornal, eu chorava que nem uma Madalena, e pronto.
MEC - Também aprendi que chorar é bom. Quando ela está a chorar...: "Não me interrompas! Estou a chorar." Nos filmes: "Agora que consegui começar a chorar, não me interrompas."
A tendência é dizer: "Não chores mais, já passou."
MJ - Chorar, ou seja o que for que a pessoa precisa de fazer.
MEC - Nos filmes, agora, já choro bem, nas alturas certas.
Já choram de forma sincronizada?
MEC - Quase.
Fale-me mais do pesadelo. Pensa nele? Ou parece que foi há muito tempo?
MJ - Penso nisso, penso.
MEC - Não é só pensar. Tem de se ir lá [IPO].
MJ - Tenho imensas consultas, exames para fazer. Se não pensasse nisso, se não estivesse atenta, estava morta. Há um ano, se não tivesse dado pelos sintomas (quase nada), não tinha ido ao médico. Não percebi que seria uma metástase do cancro no cérebro. Pensei que tinha tido um AVC.
Como é que se aprende a lidar com o medo?
MJ - Não se aprende.
MEC - Com o medo da morte não se aprende nunca a lidar.
Não baixaram os braços. Lutaram.
MEC - Não adianta lutar. Foram os médicos que fizeram tudo, com tecnologia da última década.
Todos os pacientes e médicos dizem que a força psicológica é fundamental.
MEC - Fundamental é a parte médica! Esta semana saiu um estudo gigante, de 20 anos [de pesquisa], que diz que [acreditar] não tem qualquer efeito sobre o desfecho clínico.
MJ - A psicologia importa, importa. Na fase da quimioterapia ajudou-me imenso. Se não fosse tudo o que é positivo na minha vida, se calhar eu não estava aqui. Se não fosses tu...
MEC - Não é verdade.
MJ - É verdade.
MEC - Não é verdade.
MJ - É verdade.
MEC - Isto é uma coisa clínica.
MJ - Não tinha resistido a muita coisa.
MEC - As pessoas tendem a pensar que o cancro é uma consequência do que comerem ou fizeram - tendem a culpabilizar-se. Mas não têm culpa. Às pessoas que morreram com cancro, o que é que vais dizer? Que não tiveram ajuda? Que não tiveram quem as amasse?
MJ - Não cura. Mas ajuda.
MEC - Li o novo livro do Julian Barnes. As pessoas detestam-no, mas eu gosto muito dele. A mulher morreu em 34 dias com um cancro no cérebro. Os capítulos sobre o luto explicam muito bem tudo.

Antes da Maria João, antes de...
MEC - Não há antes da Maria João. Temos uma regra. Não falamos do antes de. Nada! Eu não sei nada sobre o antes de mim.
Significa que não se fala de ex-namorados nem de ex-mulheres?
MEC - Nunca! Nunca. Nunca.
MJ - Qual é a finalidade disso? Temos mais que fazer.
MEC - Nem tenho curiosidade alguma.
MJ - Já sabemos o que há para saber.
MEC - Eu não sei nada. E é assim que quero que continue a ser.
MJ - [riso] Não há nada para saber.
MEC - O que eu souber magoa-me profundamente.
MJ - Mas não há nada para saber.
MEC - Ainda bem. Esta mentira sustém-nos aos dois: não há nada para saber. Acredito nessa mentira. É uma mentira que me convém. Pronto.
O que é que a Maria João acha disto?
MJ - [perdida de riso] Acho que é mentira. Isso que disseste. Tu sabes tudo o que há para saber.
MEC - Eu sei. Não quero é saber mais.
MJ - Não há mais.
MEC - Há os casais que acham que têm de dizer que conheceram não sei quantos. Tive este e tive aquela.
Antes da Maria João, depois da Maria João. O tempo passa a contar de uma maneira diferente. Como na infância conta de uma maneira diferente depois de sentirmos o medo.
MEC e MJ - Sim.
MJ - Há referenciais.
MEC - É muito importante essa coisa do medo.
Mas eu ia perguntar outra coisa. Estávamos a falar de morte e de desistência. Antes da Maria João, alguma vez teve vontade de desistir?
MEC - Sim, tive. Tive uma vontade de morrer, grande. De suicidar-me. Li sobre o assunto.

Pensou suicidar-se e leu sobre o assunto?
MJ - Claro que ele leria sobre o assunto.
MEC - Não queria magoar-me, nem que me descobrissem, nem não sei o quê. Esse é o lado prático da coisa. Mas depois. Isto é absurdo, mas é verdade. As minhas filhas já tinham nascido. E comecei a escrever uma carta de despedida. Pensei: escrevo primeiro o nome da minha mãe ou das minhas filhas? Fiquei chateado. Parecia que dava uma ordem às pessoas mais amadas. Então decidi fazer um círculo. Ficou uma coisa tão hippie... A sério. Eh pá. E caí na..., why not live [por que não viver]?
Era um círculo ridículo e no cúmulo do ridículo pus os nomes todos à volta. Mesmo assim havia uma hierarquia. Umas posições eram melhores do que outras. Norte, sul... "Porra, não há nenhuma maneira..." Quis escrever o nome das pessoas de quem gostava. Vi que eram tantas...
O que é que o estava a fazer desistir? Por que é que estava tão triste?
MEC - Estive dois anos assim. Muito, muito deprimido. Com as janelas todas tapadas de preto. Foi a seguir à morte do meu pai. Não teve nada a ver com a morte do meu pai.
Como é que pôde não ter?
MEC - Uma pessoa aproveita também o luto para sofrer. Uma pessoa começa a sofrer e esse sofrimento abre uma brecha qualquer e vem a depressão que já lá estava. Deve ter sido em 1995. Ainda vivia [no apartamento] das Águas Livres [em Lisboa]. A minha mãe morava ao lado e disse-lhe que só precisava de um garfo, de uma faca, de uma colher. Tirei tudo da casa.
MJ - Quando eu me mudei, ainda havia cortinas pretas.
MEC - Passava os dias a ler. Mas já não era ler normalmente. Era ler a Economist, o Financial Times (de que não gosto), depois de ler todos os outros jornais e revistas. Lia sobre finanças, o nome dos colaboradores, os anúncios. Depois fui ao [Alexandre] Castro Caldas. É sempre ele que me salva. Já o vi funcionar com o meu pai, com a minha mãe. Tem um discernimento muito grande. Disse assim. "O que vamos fazer é perder peso. Com o Prozac, tem a vantagem de perder uns quilos." Eu já sou um bocadinho acelerado. Tomei aquilo. Fiquei brbrbrbrbr, assim eléctrico. E deixei de tomar, ao segundo-dia. Com medo. E depois comecei a ficar bem. E começou a levantar o negrume.

E depois apareceu o anjo Maria João. Estamos a dar, como no título do livro, no Como É Linda a Puta da Vida.
MEC - Foi mesmo isso. Foi nesse ano que conheci a Maria João.
Teve, antes do Miguel, uma depressão funda, um período de pouco amor à vida?
MJ - Não.
MEC - Ela é sobretudo muito bem-disposta. Muito, muito bem-disposta. Muito, muito boa companhia. As pessoas da minha geração, os meus amigos, a matilha, divertíamo-nos muito. Mas não estava habituado a rir-me com uma rapariga.
Tiveram, durante estes anos, momentos de quase ruptura, em que parece que não há dia de amanhã? Momentos em que já não se suportam nem têm paciência para o outro.
MEC - Nunca passámos por isso. Nem perto.
MJ - A coisa mais perto disso foi pensar que não haveria dia de amanhã porque eu não estaria cá.
MEC - Eu tenho é medo de perdê-la. Que um dia acorde e diga: "Olha, isto foi muito bonito, mas..."
MJ - Que lata. Eu alguma vez faria uma coisa dessas? Achas?
MEC - Podes fazer. Sempre que ela muda... Ela gosta muito de um pão. Depois detesta esse pão. Então penso: "Ai, ai" [dito num tom grave]. É muito volúvel nas coisas de que gosta.
MJ - Não sou nada. As coisas perdem a qualidade e desaparecem. Ele não perde a qualidade.
MEC - Mesmo com as pessoas: há pessoas de quem gostas muito e depois deixas de gostar. E pessoas de quem não gostas e de quem passas a gostar.
MJ - Posso ficar enfurecida com alguma coisa, zangada, danada. As pessoas normalmente percebem (quando fico).
MEC - Mostra sempre.

Se isto não fosse uma entrevista e não tivessem de responder às minhas perguntas, gostariam de falar de quê?
MEC - Eh. Hum. Nunca fui a um conselheiro matrimonial, mas é engraçado falar de nós e falar da Maria João através de uma terceira pessoa.
Nelson Rodrigues tinha um consultório sentimental (por falar em falar em conselheiro matrimonial). Usava o pseudónimo Myrna.
MEC - Devia ser por causa da Myrna Loy.
O Vinicius de Moraes também chegou a ter. Mas por pouco tempo. Chamava-se Helenice.
MJ - Temos de fazer um!
MEC - Na entrevista, esteve sempre a separar-nos. Ela e ele. "Pera aí. Para mim é mais: "E vocês?"
MJ - Não é psicótico.
Os conselheiros matrimoniais falam da importância de cada um manter a sua individualidade.
MEC - Ah, mas eu estou dependente. Não tenho a minha individualidade, já.
MJ - Oh, então? Claro que tens.
MEC - Só o bocadinho que é preciso.
Ele é uma espécie de filhinho?
MJ - Não. É uma espécie de marido. [gargalhada]
Às vezes parece um miúdo. E vocês não têm filhos juntos. Olha para ele como uma criança que pede a sua aprovação e amor?
MEC - Não! Era o que faltava. Levava um estalo. [gargalhada]
MJ - Estalo? Violência doméstica?
Voltando à psicanálise. E à infância. E aos papéis que se ocupam.
MJ - Há muitos mimos. Que faltaram. Que não faltaram. Que continuam a fazer falta sempre.
MEC - Achas que me faltaram mimos quando eu era pequenino?
MJ - Não, não.
MEC - Eu era muito mimado. A minha mãe gostava muito de mim. Ainda gosta.
Ela vai ler?
MEC - Vai, de certeza. Ela gosta muito e vai ficar toda contente.
MJ - Ela é muito querida.
Insisto na pergunta. O Miguel responde muitas vezes na vez da Maria João. Não sei se é assim em casa. De que é que lhe apeteceria falar se isto não fosse uma entrevista?
MJ - [silêncio] Não consigo pensar que isto não é uma entrevista.
MEC - Para si, esta é mais uma entrevista. Para nós, é mais um bocadinho. Somos muito fechados. Eu não estou habituado a dar entrevistas. É uma situação estranha, muito curiosa. Uma aventura para nós. Estamos um bocado excitados.
MJ - E eu estou um bocado tímida.
MEC - Com medo de dizer alguma coisa.
MJ - Algum disparate.
Doeu?
MEC - Não.
MJ - [com ironia] Estávamos preparados. Fizemos um treino.
MEC - Não treinámos nada. A verdade vem sempre ao de cima. Fora aquelas duas semanas com os amigos a fazerem de si.
Que perguntas é que esperavam?
MJ - Não esperávamos.
Pronto. Não há cereja em cima do bolo.
MJ - Oh.

Por Anabela Mota Ribeiro, hoje, no Público

sábado, abril 20, 2013

Susana Moreira Marques: Agora e na hora da nossa morte


"Foi mais fácil chegar do que será partir.

A morte começa muito antes de alguma vez adoecermos, sem sofrimento, sem drama, sem um acontecimento memorável.

Quando as pernas deixarem de andar, caminharemos pelas memórias. Quando as pernas deixarem de andar e os olhos deixarem de ver, caminharemos pelas memórias e estas serão nítidas. Quando as pernas deixarem de andar e os olhos deixarem de ver e os ouvidos deixarem de ouvir, caminharemos pelas memórias e estas serão nítidas e vozes esquecidas contarão tudo de novo.

A morte tem pouco de literário.

Todos vivemos em contagem decrescente, e é bom que não esqueçamos esta verdade.

E depois, o amor, grande sobrevivente do desastre."

sexta-feira, abril 19, 2013

quinta-feira, abril 18, 2013

António Mega Ferreira: Amor



"Algum dia eu haveria de entrar na normalidade dos que te amam. Amo-te. E dói escrevê-lo (que é pior, meu amor, do que dizê-lo). Amo-te, absoluta, impossível e fatalmente. E ouço, adolescente, uma música adolescente, para me lembrar de ti, porque lembrar-me de ti é lembrar-me que não consigo esquecer-te. E ouço música porque ouvimos música quando amamos, e tudo, no amor, é música, acústica da alma... que se quer ser devorada, e, neste caso, dor (tão deliciosamente insuportável) de amar sem sequência nem expectativa de contrapartida, amar unicamente o puro objecto que desgraçadamente amamos. Isto é uma carta de amor, e é possivelmente ridícula (prova maior de que é, realmente uma carta de amor), ou porque perdi o hábito de as escrever, ou porque nunca tive a coragem de as enviar.

Não percebes porque é que não te falo? Ainda não percebes que, na personagem que de mim eu enceno, não cabe a ameaça de uma derrota, a antecipação do desencanto, a sombra de um vexame? Não te falo, para não saber que o que eu te digo é apenas a forma contida de te dizer outra coisa, mas que essa coisa não é do teu mundo, nem do mundo que eu construí, nem do precário mundo que a nossa fragilíssima ternura mútua arquitectou. E tudo isto é literário, eu sei, mas – que queres? -, a literatura é o melhor de mim e é o melhor de mim que vive dentro da minha cabeça quando estou contigo.

E depois, afastamo-nos. Beijo-te a correr, não sei se já reparaste, e quase fujo, porque sair do pé de ti é regressar ao que não és tu, o teu olhar e as tuas mãos, a tua alma e a tua voz, e isso, meu amor, transformou-se no insuportável intervalo entre dois encontros.

Esta carta de amor é um excesso (e isso prova superiormente que é uma carta de amor): eu amo não a ideia de amar-te (durante muito tempo, eu julguei que era apenas isso), mas a ideia de perder-me no meu amor por ti. E mesmo amar-te é um excesso, porque tudo aconselharia que eu me limitasse a mitificar-te, que é a melhor forma de evitarmos enfrentar a realidade. Porque a realidade, aqui, é como uma dor difusa, tu sabes como é, um incómodo ainda não localizado, que progressivamente se vai definindo e acertando, até que, insuportavelmente nítida, a sua imagem se nos impõe como uma evidência. A minha dor é que eu comecei a amar-te, sem o saber, durante aquele breve período de tempo em que sair de casa era a promessa reconfortante de ver-te e falar contigo. Eu não sabia, repito, mas o tempo ajudou-me a definir essa pequena dor, tão secretamente pavorosa: cada vez que estou contigo (cada vez mais, meu amor, cada vez mais) é como se a minha vida se virasse do avesso. E é verdade, é cada vez mais verdade, que, quando penso nas coisas que ainda me falta fazer na vida, é em ti que penso. E tenho medo, como um animal que instintivamente foge do que sabe não poder atingir.

Eu penso em ti, ainda mais do que te digo, e tu estás em tudo, mesmo quando não te penso, tu és a grande razão, o horizonte sem nome que constantemente se desenha na minha imaginação de mim.

Há uns anos, este seria o momento de desmontar o discurso desta carta, de te mostrar os subtis mecanismos da alma e da máscara, de desdizer ironicamente o que já disse, de insinuar que, afinal,
as-coisas-talvez-não-sejam-exactamente-assim. Mas as coisas são exactamente assim, e a carta, que poderia transformar-se num confortável exercício paródico, é, inevitavelmente, uma agonia e um embaraço. Esta carta é um acto de puro egoísmo, que eu até talvez nem tivesse o direito de praticar.
É-te incómoda, necessariamente, e isso bastaria para que eu me abstivesse de a enviar, dentro de um envelope azul. Mas o azul fica-te tão bem, e as cores todas ficam em ti como tu ficas no mundo: exactamente.

Mas, repito: esta carta é um acto de puro egoísmo, é como se não tivesse destinatário. E, no entanto,
é preciso enviá-la, para que seja uma carta de amor, para que faça sentido como carta. Para que seja amor. Mas podemos imaginar uma saída elegante: para que possas conservá-la como pura carta de amor, quero eu dizer, sem o embaraço de saberes que ela te foi escrita por alguém que não amas, não a assino. Dou-te tudo: até a hipótese de esta carta não ter sido escrita por mim.

«(E não, esta carta não pode ter sido escrita por mim. És tu – em mim – que me faz escrever o que eu não escrevo. E isso é – de novo – o melhor de mim.)»"

terça-feira, abril 16, 2013

Devagar



Se o vento não mudar
Vou dar até sentir
Que há uma razão
Para crer que é bem melhor existir

Eu sei
Não vejo a luz em mim
Tão pouco em mais alguém
Só quis tocar o céu
Não quero mal a ninguém
Eu sei
Diz-te a canção do medo
Vê-se um dia o tempo não vos traz
Mas perde a noção do tempo
Quando eu amo é sempre devagar

segunda-feira, abril 15, 2013

quarta-feira, abril 10, 2013

Gertrude


Um ator e uma atriz fazendo em italiano e português um texto de Shakespeare. Se isto não é a Europa, o que é a Europa? Numa sala de ensaios do Teatro Carlos Alberto, no Porto, Fiammetta Bellone e Simão Do Vale trabalham cenas de Gertrude – uma peça a partir de Hamlet; um Hamlet pelo ponto de vista da mãe. Mexem-se dentro das palavras, como se o pano negro que lhes serve de chão e a roupa negra que é um chão-de-vestir fossem a própria tinta shakespeariana. Tinta antiga, tanta sombra, sangue novo. Umberto Eco terá dito que a língua oficial da Europa se chamava Tradução. Outra hipótese era chamar-se Shakespeare.

Herberto Helder escreve:

“No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se/ pelo meio dos ossos filiais,
pelos tendões e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte”

 
É uma verdadeira blasfémia pôr este poema entre aspas, deixá-lo atravessado de barras inclinadas no museu das citações, e blasfémia ainda maior é interrompê-lo a seguir. Perdoem-me, por favor. Mas, para falar deste Gertrude, era aqui que eu queria chegar. Do ensaio que vi (era manhã nesse dia portuense mas na minha memória, que estranho, é noite e noite alta), o que mais me impressionou traduz-se exatamente assim: “Pelo meio dos ossos filiais”, “calmas mães intrínsecas”, “enquanto o amor é cada vez mais forte”.

Jacinto Lucas Pires

Teatro Carlos Alberto, Porto
Até14 de Abril
De quarta a sábado: 21h30
Domingo: 16h00

segunda-feira, abril 08, 2013

Margaret Thatcher 1925 - 2013


Entrevista de Margaret Thatcher à Veja em Março de 1994. Vale muito a pena ler a esta distância e sobretudo no actual contexto europeu. A entrevista teve como título: A receita da leoa.


A líder que pilotou a revolução liberal na Inglaterra dá o roteiro da privatização e mostra por que governo não produz riqueza

Da rainha Elizabeth I, que afundou a Invencível Armada espanhola, à rainha Vitória, que conquistou um império onde o Sol nunca se punha, a Inglaterra tem a tradição de mulheres de pulso forte no comando. Nessa lista coroada, a plebéia conservadora Margaret Thatcher passou à História por méritos próprios. Durante quase doze anos como primeira-ministra da Inglaterra, dos quais saiu com o título de baronesa, a Dama de Ferro implantou no país uma revolução conservadora. Sob suas implacáveis ordens, o velho leão inglês surrou a Argentina na Guerra das Malvinas, em 1982. Thatcher reivindica também, com razão, um papel relevante na última pá de cal no comunismo e na arrogância de Saddam Hussein.

Na própria Inglaterra, que governou até 1990, privatizou quase tudo o que era estatal e dava prejuízo. A situação complicada em que se encontra o país - desemprego alto, quebradeira de pequenas e médias empresas - não é culpa de suas reformas neoliberais, diz. Ao contrário, afirma, a Inglaterra está mais moderna e com a economia mais ágil, apesar da herança intervencionista que recebeu do Partido Trabalhista. Milhões de ingleses se tornaram acionistas ou donos da própria casa graças ao seu programa de "capitalismo popular".

Thatcher acaba de publicar suas memórias (Meus Anos em Downing Street) e, no próximo dia 16, chega ao Brasil para um programa em São Paulo e em Brasília, recebendo, por isso, 100.000 dólares - o cachê reservado a poucos e selecionadíssimos conferencistas. A seus interlocutores brasileiros, de qualquer coloração ideológica, será útil ouvir os ensinamentos da Dama de Ferro sobre a responsabilidade do governo no descalabro das nações. Na semana passada, na sede da fundação que leva seu nome, em Londres, Thatcher falou a VEJA.

VEJA - O governo brasileiro acaba de lançar seu sétimo pacote antiinflacionário. Os anteriores não funcionaram. A senhora tem sugestões a dar?
THATCHER - Muitos países debelaram a inflação, e o Brasil a certa altura também irá conseguir. É preciso evitar a inflação e o reverso da medalha, a indexação. A primeira regra é fazer com que a população tenha confiança na moeda. A segunda é evitar controles sobre a economia. Durante o governo trabalhista, na Inglaterra, era preciso obter aprovação das autoridades para aumentar os preços. Os salários também eram fixados pelo governo, assim como os dividendos. Até o comércio exterior obedecia a controles oficiais rígidos. Se um empresário precisasse aumentar seus preços, tinha de se justificar: "Bem, esses são os meus custos, aqui estão os custos adicionais, concordei em dar tanto de aumento salarial, e meus preços precisam subir tanto". O certo é o contrário: livre concorrência com moeda estável, e uma poupança que mantém seu valor. Em resumo, um governo competente.

VEJA - No Brasil, os governantes gostam de fazer apelos à boa vontade dos empresários, pedindo que não elevem os preços. Isso funciona no controle da inflação?
THATCHER - É dever da direção de uma empresa mantê-la saudável, da mesma forma que é obrigação do governo manter as finanças públicas em ordem. Não parece que inflação galopante tenha algo a ver com boa administração. É supérfluo dizer: "Por favor, não aumentem os preços, a menos que seja necessário para manter a rentabilidade da empresa". A livre concorrência é a melhor coisa para segurar os preços. Ela garante eficiência em cada estágio da operação de uma empresa.

VEJA - A senhora conheceu alguns líderes brasileiros, inclusive o ex-presidente Fernando Collor. Que impressão teve deles?
THATCHER - Não faço comentários sobre pessoas. Parece-me bem claro que o Brasil não teve ainda um bom governo, capaz de atuar com base em princípios, na defesa da liberdade, sob o império da lei e com uma administração profissional. Bastaria um período assim, acompanhado da verdadeira liberdade empresarial, para que o país se tornasse realmente próspero.

VEJA - Uma pesquisa recente mostrou que a senhora é a mulher mais admirada pelos brasileiros. O mesmo ocorre em outros países. Qual a razão de sua popularidade?
THATCHER - É simples. Trabalhei seguindo princípios que já defendia antes de iniciar meu governo. Perseverei mesmo quando surgiram dificuldades, porque minha política era justa. Por fim, quando um ditador resolveu ocupar território estrangeiro usando a força bruta, impondo a outro povo sua ditadura, como o Iraque fez no Kuwait, nós e os Estados Unidos alertamos: "Não vamos tolerar isso". Em resumo: é preciso firmeza de propósitos, acompanhada de firmeza na ação.

VEJA - Mas por que a senhora não é igualmente popular na Inglaterra, país que governou de 1979 até o final de 1990?
THATCHER - Com o devido respeito, devo dizer que nunca fui derrotada pelo povo. Ganhei três eleições, com ampla maioria. Quando deixei o governo, muitos eleitores lamentaram não ter podido se expressar através das urnas.

VEJA - O presidente americano, Bill Clinton, defende um papel mais forte para o governo, capaz de ser um mediador entre os protagonistas da economia e a parte menos favorecida da população. Recentemente, foram eleitos presidentes de tendência social-democrata na Venezuela e na Costa Rica. O neoliberalismo que a senhora representou tão bem está em crise?
THATCHER - Não é muito correto fazer analogias entre os Estados Unidos e a Inglaterra. A alternativa a nosso governo na Inglaterra era um governo genuinamente socialista, que queria nacionalizar a produção, a distribuição e os meios de pagamento. Uma alternativa assim nunca houve nos EUA. A liberdade está inscrita na Constituição americana. Os dois partidos americanos acreditam na liberdade do povo e no fato de que é este que dá poder ao governo, e não o contrário. Nunca houve, no pós-guerra, distância tão grande entre os principais partidos americanos como a que havia entre os partidos ingleses. Mas sua pergunta é pertinente. Meu governo teve grande influência sobre a oposição trabalhista. Hoje o Partido Trabalhista não ameaça nacionalizar ou renacionalizar mais nada. Ao contrário, fala em controlar os gastos públicos e está muito mais próximo da posição conservadora.

VEJA - Resta o fato de que o presidente Clinton reverteu a política do liberalismo total da era Ronald Reagan e está colhendo frutos positivos.
THATCHER - A diferença entre os partidos Democrata e Republicano nos Estados Unidos é definida por duas coisas: o tamanho dos gastos públicos e o grau de interferência do governo que cada partido deseja. Mas muita gente nos EUA pensa como eu, que é melhor menos poder central e menos controle, com um governo presente de modo forte só nas áreas em que deve ser forte. É mais fácil ter menos impostos com um governo de centro direita do que com um governo de centro esquerda.

VEJA - Depois de seu reinado neoliberal de doze anos, a Inglaterra passou a fazer parte do grupo dos países mais pobres da Europa, na frente de um pelotão que inclui Grécia, Portugal, Espanha e Irlanda. O que deu errado?
THATCHER - Antes de mais nada, tive de me livrar do socialismo - e consegui. Não se esqueça de que em 1979, quando tomei posse, o país estava abalado por greves, uma atrás da outra, comandadas por sindicatos que usavam todo o seu poder. O governo trabalhista que me precedeu continuara a estatizar, os impostos eram altos e a economia estava cada vez mais sob controle do governo. Tive de me livrar de tudo isso, e no meio dos anos 80, depois de uma reestruturação industrial, a Inglaterra crescia mais rapidamente do que qualquer outro país europeu. Hoje há uma fila de indústrias estrangeiras querendo investir na Inglaterra, porque aqui podem produzir mercadorias com preços mais razoáveis do que em qualquer outra parte.

VEJA - Quando a senhora começou a governar, havia 1 milhão de desempregados. Quando saiu, era mais que o dobro. Não é um custo muito alto para as reformas liberais?
THATCHER - De fato, mas os sindicatos faziam uma política restritiva, garantindo uma quantidade colossal de empregos inúteis, o que equivalia a um desemprego virtual. Uma das primeiras coisas que as empresas privatizadas fazem é reduzir o número de empregados ao estritamente necessário para realizar o trabalho direito. É impossível manter na indústria práticas restritivas, obrigando-a a ter mais empregados do que precisa. A segunda causa do desemprego é que, graças à alta taxa de natalidade dos anos 60, quando iniciei meu governo havia uma massa de jovens procurando emprego muito maior do que o número de pessoas que se aposentavam. Agora, felizmente, essa tendência se reverteu. Mas, se o assunto é desemprego, olhe para a França, que tem um índice maior que o nosso, ou para a Alemanha, onde o desemprego cresce apesar da unificação com a ex-Alemanha Oriental.

VEJA - Às vezes tem-se a impressão de que os objetivos liberais terminam no equilíbrio dos gastos públicos, no controle da inflação, na estabilidade da moeda e nas privatizações. Onde ficam o bem-estar da população, as necessidades básicas dos menos favorecidos e a solidariedade social?
THATCHER - Não posso dar uma resposta breve. Acho que o senhor parte de suposições totalmente erradas. Os objetivos principais da sociedade na qual acredito são a liberdade, a justiça e a livre iniciativa. Nada disso pode ser obtido fora do império da lei e sem um Judiciário independente. A prosperidade de uma nação provém da livre iniciativa de cada um e de uma situação em que a lei é igual para todos. Governos não criam riqueza, quem faz isso são as indústrias e os serviços. É o povo, com sua própria bagagem e sua própria capacidade de iniciativa, que cria empresas.

VEJA - Então, qual é a função do governo?
THATCHER - O governo pode, através de uma política fiscal sensata, procurar os meios para administrar a parte que lhe compete. É dever das autoridades manter a saúde das finanças públicas. Se há inflação, é culpa do governo, que não controlou direito a emissão de moeda. Se há déficit nas contas públicas, é culpa do governo, que não soube equilibrar sua receita fiscal e seus gastos. É sempre possível dizer: o.k., podemos gastar à vontade e depois alguém vai financiar o buraco. Mas o que acontece é que mais gastos do governo significam sempre mais impostos para cobri-los. E, quando a carga fiscal é excessiva, ninguém tem mais incentivo para criar empregos e riquezas.

VEJA - Impostos baixos não são um mito típico do liberalismo econômico?
THATCHER - Uma política fiscal sensata é obrigação do governo. Quando assumi, a alíquota máxima para o imposto de renda chegava a 83%! Para os ganhos de capital, era 98%! Onde ficava nossa capacidade empresarial? Os empresários que tinham iniciativa preferiam investir no exterior. A excessiva regulamentação impedia que novas empresas tivessem sucesso antes mesmo de começar a operar. Se as empresas trabalham bem e têm bons resultados, o governo não tem déficit orçamentário. Nos meus últimos quatro anos, o governo trabalhou com superávit, a ponto de podermos abater parte da dívida pública. Não chegamos a eliminar o desequilíbrio na balança comercial, mas não havia dificuldade em financiá-lo, em vista da confiança na nossa moeda. E a iniciativa individual foi estimulada, com a alíquota máxima de imposto caindo para 40%. A alíquota média é muito inferior.

VEJA - Como o excesso de regulamentação afeta a economia?
THATCHER - Se você tem um governo competente, não há regulamentação atrapalhando a vida das pessoas. O objetivo do governo não deve ser só manter as coisas públicas funcionando. É preciso estimular a capacidade empresarial da população, fazer nascer novos negócios, o agricultor tem de confiar no valor de sua produção, a moeda deve ser vista com confiança. Tudo isso começa com um bom sistema educacional. A criança, rica ou pobre, precisa de escolas adequadas para desenvolver seus talentos e habilidades. A partir daí se pode pensar em outra tarefa do governo: a criação de uma rede de proteção e benefícios para aquela parcela da população que, involuntariamente, não consegue manter-se no mercado de trabalho, por velhice ou doença.

VEJA - Como a senhora descreve sua idéia de um "capitalismo popular"?
THATCHER - É o meu sonho de fazer de cada cidadão um capitalista, o capitalismo das pessoas comuns. Não se esqueça de que na Inglaterra temos uma tradição de cidadania. A instituição do Parlamento começou no século XIII. O voto de poucos passou a ser o voto de todos. Vivemos sob o império da lei e sempre tivemos juízes capazes de dizer ao monarca: "Não há nenhum homem acima do rei, mas este está abaixo de Deus e da lei". Essa é nossa herança e nosso caráter. Mas, no início de meu governo, os ingleses não conseguiam ter uma poupança, não conseguiam acumular capital. Meu objetivo era fazer com que as pessoas, independentemente de sua origem, conseguissem adquirir ao menos a casa própria, acumulando algum capital para deixar aos filhos. Como nessa época 30% das casas e dos apartamentos pertenciam a órgãos públicos, fizemos um plano pelo qual os locatários tinham preferência e outras facilidades para comprar o imóvel onde moravam. Hoje, 68% dos ingleses são proprietários da casa onde moram, e milhões têm ações de empresas privatizadas. Isso é capitalismo popular.

VEJA - O governo da senhora ficou famoso pelas privatizações. Como foi a primeira privatização?
THATCHER - Foi no setor siderúrgico. O aço produzido pela estatal custava ao povo inglês 1,5 bilhão de dólares por ano em subsídios. Pouco depois da privatização, o aço já rendia ao Tesouro - ou seja, ao povo - 330 milhões de dólares anuais. Outro ponto positivo: o dinheiro fruto da venda das estatais vai direto para o Tesouro, o que, mais uma vez, quer dizer para o povo. Mais dinheiro no caixa do Tesouro significa menos necessidade de impostos e até menos dívida pública. Ou seja, não se está dando nada de graça. As pessoas estão comprando o que o governo vende, o Tesouro deixa de ter prejuízo e passa a ter renda. É um ótimo negócio para quem paga imposto.

VEJA - E os estaleiros navais? Não foram dados quase de graça?
THATCHER - Foi o único caso, e justificado. A administração era tão incompetente que ninguém se interessou por eles. Os contribuintes subsidiavam a indústria naval estatal com o equivalente à massa salarial de todos os empregados do setor. Na sua opinião, isso é que é ser empresa pública? O importante é garantir a sobrevivência da empresa através de uma administração eficiente e estancar a hemorragia de dinheiro dos contribuintes. Quando a estatal pode ser vendida por um bom dinheiro, muito bem, são novos recursos para o Tesouro. Mas às vezes o melhor negócio é simplesmente parar de ter prejuízo custeado pelo povo.

VEJA - Quem se opõe à privatização das estatais no Brasil costuma dizer que privatizar é pegar algo que é propriedade de todos e dar de presente para alguns.
THATCHER - Ninguém está dando nada para ninguém. A verdade é o contrário: em geral as estatais têm de ser subsidiadas com o dinheiro dos contribuintes. O governo não sabe administrar empresas, quase sempre o faz de modo inepto. Logo, logo a empresa está perdendo dinheiro, e o contribuinte tem ao mesmo tempo de comprar o que ela produz e pagar o prejuízo do seu bolso, ano a ano.

VEJA - No Brasil os funcionários das estatais têm privilégios invejados pelos demais trabalhadores, como ricos fundos de pensão. Na Inglaterra acontecia o mesmo?
THATCHER - São coisas diferentes os privilégios e os direitos a uma aposentadoria digna. Por lei, todo trabalhador inglês deve ter, além da aposentadoria básica, muito pequena mas garantida pelo governo, uma segunda pensão, fornecida através da empresa na qual trabalha e em geral garantida por uma forma de previdência privada. O que caracteriza realmente o privilégio das estatais é que elas se permitem ter uma administração incompetente e, quando precisam de dinheiro, achacam os cofres públicos, ameaçando com a falência em área em que, na opinião da diretoria, o governo não pode estar ausente.

VEJA - Como deve ser feita uma boa privatização?
THATCHER - É preciso sanear as empresas antes de vendê-las ou dar condições aos compradores de saneá-las. Antes de privatizar o aço, concentramos a produção em cinco siderúrgicas, fechando as mais antiquadas e menos produtivas. Alguns setores tinham um nítido excesso de pessoal, como os portos, as minas de carvão, a empresa aérea estatal. Mas não dá para reduzir o excesso de mão-de-obra sem uma justa indenização. Em média, pagamos 1.500 dólares por ano trabalhado. Desse modo, quem tinha trinta anos de serviço foi para casa com 45.000 dólares na mão. Um montante inédito para um trabalhador comum, ótimo para ajudá-lo a ingressar no setor privado. Em muitos casos, vendemos empresas saneadas, com boas chances de rentabilidade. Em outros, vendemos por um preço simbólico, para parar de bancar prejuízos inúteis.

VEJA - Mesmo entre os defensores da privatização no Brasil há quem acredite que o governo deve manter o monopólio estatal do petróleo, um bem estratégico. O exemplo clássico é a Guerra do Golfo, em que estava em jogo o controle de grandes reservas de petróleo.
THATCHER - Eu diria que a Guerra do Golfo foi provocada por um ato de agressão. Não se pode permitir que a agressão renda frutos. Esse é o ponto essencial. Resta o fato de que Saddam Hussein queria apropriar-se de 60% das reservas mundiais de petróleo. Mas esse é um bom argumento para desejar que nenhum governo tenha o monopólio do petróleo, e não o contrário. Veja o exemplo dos Estados Unidos. O petróleo está todo sob controle de empresas privadas e o setor funciona muito bem.

VEJA - Os funcionários das estatais que a senhora privatizou tiveram alguma preferência ou desconto na compra das ações?
THATCHER - Sim. Mesmo quando a empresa era vendida na bolsa, reservava-se um bloco de ações para os executivos e funcionários, a preço especial. É um estímulo para quem, no fundo, faz a empresa andar. Contribui para fazer de cada pessoa um capitalista. E acelera o processo de privatização.

VEJA - A senhora comprou ações das empresas privatizadas?
THATCHER - Minha carteira de ações é administrada por um corretor. De qualquer modo, enquanto estiverem em sua função, ministros e demais membros do governo não podem comprar ações de empresas privatizadas.

VEJA - A senhora sente falta do poder?
THATCHER - Não. Estive mais de onze anos no poder, era hora de uma mudança. Creio que fiz um bom trabalho, em prol da reputação da Inglaterra, tanto internamente quanto no resto do mundo. Acho também que o presidente Ronald Reagan e eu demos uma grande contribuição à demolição do comunismo. O líder soviético Mikhail Gorbachev também estava no poder naquele período, e fizemos com que compreendesse que seríamos muito duros na defesa de tudo aquilo em que acreditávamos.

VEJA - Pouca gente gosta de Gorbachev na Rússia e poucos se lembram dele fora de lá. A senhora acha que a História está sendo justa com ele?
THATCHER - Precisamos reconhecer que sem Gorbachev a Rússia não teria todas as liberdades que hoje parecem normais - de religião, de opinião, de locomoção etc. Nada disso teria sido possível sem ele. Gorbachev restituiu aos russos liberdades pessoais e políticas. Não conseguiu fazer a livre empresa avançar muito. Setenta anos de comunismo ainda condicionam muito a capacidade de uma população mantida passiva à força. Gorbachev não conseguiu sequer fazer passar no antigo Soviete Supremo a lei sobre a propriedade privada, mas mesmo Boris Ieltsin está tendo dificuldades para fazer tal tipo de reforma. A Rússia ainda não tem um Banco Central digno desse nome. O povo vê a sua poupança estraçalhada pela inflação. Ou seja, Gorbachev deu o passo necessário para acabar com o comunismo e a Guerra Fria, ajudando a derrubar o Muro de Berlim. Reconstruir o país é muito mais difícil.

VEJA - A senhora concorda com a teoria de que a nova linha mundial de confrontação será entre civilizações e culturas diferentes, e não mais entre ideologias e sistemas econômicos?
THATCHER - A fonte fundamental de conflitos é a disputa entre tirania e liberdade, entre quem quer impor sua vontade pela força e os direitos humanos fundamentais e a liberdade dos povos. Creio que há no momento 48 conflitos armados pelo mundo. Houve tiranos em todas as eras, e eles continuam a nascer. O conflito é entre tirania e direito, não se trata de cultura.

VEJA - Se o general Leopoldo Galtieri, o ditador argentino que invadiu as Malvinas - ou Falklands, como se diz na Inglaterra -, em 1982, tivesse telefonado para a senhora antes de consumar o ataque, qual teria sido a sua resposta?
THATCHER - Bem, ele não telefonou, percebe-se que queria jogar com o fator surpresa. Sua pergunta é hipotética. Se alguém pisa em território britânico e procura dominar cidadãos britânicos pela força, minha função é botá-lo para fora. A Inglaterra foi o primeiro país do pós-guerra a proclamar claramente: a agressão não compensa. Esse tipo de comportamento não deveria mais existir na última metade do século XX. As Falklands são território britânico desde 1770. Ninguém pode sentir-se livre para tomar terra dos outros. Se alguém começar a dizer que toda ilha a certa distância do litoral de um determinado país pertence a este último, esteja certo de que teremos muitas guerras. Trata-se de invasão de território alheio.

Austeridad inconstitucional


 [Alex Stoddard]

La periferia de Europa está extenuada: las políticas aplicadas agotan sus posibilidades de recuperación económica al tiempo que violan fundamentos esenciales de los acuerdos sociales en que se basan sus Estados. El empeño de concentrar en poco tiempo ambiciosos recortes de gasto público no solo no aporta los resultados pretendidos de saneamiento de las finanzas públicas, sino que profundizan la recesión y el aumento del desempleo de economías como la española, la italiana o la portuguesa. En esta última, su Tribunal Constitucional ha dictaminado como inconstitucionales algunas decisiones del Gobierno.
Son los recortes en las pensiones y en los salarios de los empleados públicos los que violan el ordenamiento constitucional, obligando al Ejecutivo a buscar otras alternativas de reducción del déficit público. Se ha estimado que podrían ser entre 900 y 1.300 millones de euros los que el Gobierno de centro-derecha tendrá que reducir en nuevos capítulos de gasto o generar como nuevos ingresos públicos, aproximadamente un 20% de los 5.000 millones de euros incorporados en los planes de austeridad para el ejercicio en curso. Con independencia de la difícil ingeniería presupuestaria a que ello obligue, las tensiones políticas y sociales volverán al primer lugar de la escena en un país literalmente diezmado. En mayor medida teniendo en cuenta que los contribuyentes portugueses ya han soportado los mayores incrementos impositivos de la historia con el fin de aumentar los ingresos públicos.
Antes del pronunciamiento constitucional, la evidencia era suficiente acerca de la inadecuación técnica de ese tipo de decisiones y de su inconveniencia social. Ahora queda establecido un precedente que cuestiona la legitimidad política de esos absurdos propósitos. Sanear las finanzas públicas es de todo punto necesario, como condición para garantizar un crecimiento sostenible y una unión monetaria viable, pero tratar de hacerlo en un contexto de profunda recesión y en un plazo excesivamente corto es una manifiesta provocación a la ruptura de la estabilidad social y del apoyo a las propias instituciones europeas.
[Editorial El País]

sábado, abril 06, 2013

Can't wait!





Tantas, tantas, mas tantas saudades deste homem. Disco novo a 20 de Maio, Trouble will find me, reencontro em Lisboa a 21 de Novembro. Aqui, o primeiro concerto da digressão, em Berlim, anteontem. Fuck! Que saudades!

sexta-feira, abril 05, 2013

Daddy's girl II



Quando eu tinha dez anos, tu tinhas já cinquenta (dá para acreditar?). E eras a melhor pessoa que eu conhecia. Mas eu era pequenina, ainda menina de colo, conhecia meia dúzia de pessoas, tinha acabado de acabar a escola primária, nunca tinha saído de casa, não sabia nada da vida. Quando eu tinha vinte anos, tu estavas quase na idade da reforma, caso quisesses ter-te reformado, mas ninguém acreditava que tu tinhas já sessenta anos, tantas eram ainda as tuas lutas, a tua força, os teus sonhos, e ao mesmo tempo a tua candura. Eu vivia a cem quilómetros de distância de ti, numa universidade em que conhecera mais de cem pessoas de todos os feitios e armações, todas pessoas boas que me fizeram tão feliz, mas tu eras ainda a melhor pessoa que eu conhecia. Quando eu fiz trinta anos, tantos caminhos já trilhados, tantas pessoas, tantas paixões, ilusões, a vida parecia ter-me magoado já mais a mim do que a ti, porque eu chorava onde tu eras capaz de sorrir, eu caía e desanimava onde tu te erguias sempre e sempre, como se tu fosses o teu exército inteiro, um exército imbatível, e no entanto as tuas armas eram só bondade, essa palavra tão rara, e essa espécie de alheamento que usas como filtro para te impedir de guardar o que faz doer. E eu zangava-me porque na cegueira de querer ser como tu, sentia que não me tinhas dado ferramentas para defender-me de quem não era como tu. Perdia tempo para ti, porque queria aprender o que tu não podias ensinar-me, queria lições de defesa, queria entender os outros. Tinhas setenta anos, vivíamos longe, porque é sempre longe quando não é perto todos os dias, e eu lá tive de aprender sozinha que não valia a pena continuar a procurar alguém como tu para mim ou querer eu ser como tu, porque não há duas pessoas como tu. Tu não sabes tudo, não estás sempre certo, estás muitas vezes errado, mas completas setenta e cinco anos parecendo que o tempo não passou por ti - por fora mas sobretudo por dentro. Não tens cáries no coração, nunca tiveste. Nem armaduras nas mãos, também nunca tiveste, só calos do trabalho. Parece que na tua vida nunca houve tempestades, traições, pessoas aquém, e nós sabemos os dois, houve tantas, não houve, pai? Mas tu não tens espaço para isso dentro de ti, como se estivesses sempre no ínício da viagem, e nada soubesses dos perigos. És a pessoa menos poluída que conheci, a mais inspiradora de todas as pessoas que existem. E quando dizes, e dizes tantas vezes, "tu não és mais do que os outros", eu sei exactamente o que tu queres dizer. Tens 75 anos, e ainda és a melhor pessoa que eu conheço, provavelmente serás sempre. E és meu pai, dá para a acreditar? Quando tu fizeres 80 anos, eu terei 40, metade da tua idade, nem metade da tua sabedoria. Mas nessa altura havemos de celebrar em conjunto os anos que ainda teremos pela frente, pelo menos mais vinte, para fazermos coisas juntas. Agora, já ninguém nos separa.

quarta-feira, abril 03, 2013

Pior era impossível



Durante muito tempo, pensámos que ser mau também dá trabalho. Porque implica a teimosia de não querer aprender, a insistência voluntária no fracasso, a vontade de persistir no erro, o desenvolvimento apurado de uma qualquer técnica que evita fazer as coisas bem feitas, nem que seja só de vez em quando. Errar sempre dá trabalho, pensávamos. E se não dá, é porque é estupidez. Ora assim aparentemente é Seguro: estúpido! A moção de censura do PS, chumbada à partida, poderia nem ser embaraçosa, dependendo do discurso que a sustentasse. Acontece que o discurso foi uma canção de embalar para atrasados mentais, repleta de rimas ainda por cima. Um país de fantasia, um Governo distanciado da realidade dos portugueses, um primeiro ministro que não se importa com um milhão de desempregados, um PS que não confunde interesses nacionais com cumprir compromissos internacionais, que avisou e não ficará sentado no sofá, uma moção que não é jogo político mas imperativo nacional, que não aceita o caminho de empobrecimento nem será cúmplice da tragédia social. Era extraordinariamente difícil fazer um discurso pior e mais vazio. Mas como se isso não bastasse, descobre-se que a carta de Seguro à troika foi ainda antes de o ser. É preciso ser mesmo muito estúpido. Não pode haver moções de censura para a oposição cair? 
 
 

terça-feira, abril 02, 2013

Lello


Sempre tivemos uma relação de amor-ódio com a Livraria Lello, que ficou resolvida por estes dias. Amor, porque é impossível não amar aquele espaço, não por acaso considerado já várias vezes um dos mais belos guardiões de livros do mundo. Ódio, porque nunca ali encontrámos um livro que procurássemos, nunca ali comprámos nada que não fizesse apenas parte das novidades ou dos clássicos. E a Lello tinha obrigação de investir noutro tipo de literatura. Tão mau como isso é o facto de já termos sido expulsos do espaço ou impedidos de entrar. Basta que sejam sete horas da tarde. Se estamos dentro, somos imediatamente convidados a sair; se estamos fora, mesmo que ainda falte um ou dois minutos para fechar, já não podemos entrar. Aconteceu já mais do que uma vez. E agora, cereja no topo do bolo, os dois euros para aceder à livraria. Hoje, os proprietários vieram dizer que é mentira, que a cobrança é só para escolas e para turistas. Pior a emenda que o soneto. Amar os livros não é cobrar por eles, é partilhá-los com os outros, contaminar os outros com esse amor, exactamente o contrário do que sempre vi na Lello, onde infelizmente só a arquitectura parece contar. 

segunda-feira, abril 01, 2013

A literate passion: Letters of Anais Nin e Henry Miller



August 14, 1932 

Anais:

Don't expect me to be sane anymore. Don't let's be sensible. It was a marriage at Louveciennes—you can't dispute it. I came away with pieces of you sticking to me; I am walking about, swimming, in an ocean of blood, your Andalusian blood, distilled and poisonous. Everything I do and say and think relates back to the marriage. I saw you as the mistress of your home, a Moor with a heavy face, a negress with a white body, eyes all over your skin, woman, woman, woman. I can't see how I can go on living away from you—these intermissions are death. How did it seem to you when Hugo came back? Was I still there? I can't picture you moving about with him as you did with me. Legs closed. Frailty. Sweet, treacherous acquiescence. Bird docility. You became a woman with me. I was almost terrified by it. You are not just thirty years old—you are a thousand years old.

Here I am back and still smouldering with passion, like wine smoking. Not a passion any longer for flesh, but a complete hunger for you, a devouring hunger. I read the paper about suicides and murders and I understand it all thoroughly. I feel murderous, suicidal. I feel somehow that it is a disgrace to do nothing, to just bide one's time, to take it philosophically, to be sensible. Where has gone the time when men fought, killed, died for a glove, a glance, etc? (A victrola is playing that terrible aria from Madama Butterfly—"Some day he'll come!")

I still hear you singing in the kitchen—a sort of inharmonic, monotonous Cuban wail. I know you're happy in the kitchen and the meal you're cooking is the best meal we ever ate together. I know you would scald yourself and not complain. I feel the greatest peace and joy sitting in the dining room listening to you rustling about, your dress like the goddess Indra studded with a thousand eyes.

Anais, I only thought I loved you before; it was nothing like this certainty that's in me now. Was all this so wonderful only because it was brief and stolen? Were we acting for each other, to each other? Was I less I, or more I, and you less or more you? Is it madness to believe that this could go on? When and where would the drab moments begin? I study you so much to discover the possible flaws, the weak points, the danger zones. I don't find them—not any. That means I am in love, blind, blind. To be blind forever! (Now they're singing "Heaven and Ocean" from La Gioconda.)

I picture you playing the records over and over—Hugo's records. "Parlez moi d amour." The double life, double taste, double joy and misery. How you must be furrowed and ploughed by it. I know all that, but I can't do anything to prevent it. I wish indeed it were me who had to endure it. I know now your eyes are wide open. Certain things you will never believe anymore, certain gestures you will never repeat, certain sorrows, misgivings, you will never again experience. A kind of white criminal fervor in your tenderness and cruelty. Neither remorse nor vengeance, neither sorrow nor guilt. A living it out, with nothing to save you from the abysm but a high hope, a faith, a joy that you tasted, that you can repeat when you will. 

All morning I was at my notes, ferreting through my life records, wondering where to begin, how to make a start, seeing not just another book before me but a life of books. But I don't begin. The walls are completely bare—I had taken everything down before going to meet you. It is as though I had made ready to leave for good. The spots on the walls stand out—where our heads rested. While it thunders and lightnings I lie on the bed and go through wild dreams. We're in Seville and then in Fez and then in Capri and then in Havana. We're journeying constantly, but there is always a machine and books, and your body is always close to me and the look in your eyes never changes. People are saying we will be miserable, we will regret, but we are happy, we are laughing always, we are singing. We are talking Spanish and French and Arabic and Turkish. We are admitted everywhere and they strew our path with flowers. 

I say this is a wild dream—but it is this dream I want to realize. Life and literature combined, love the dynamo, you with your chameleon's soul giving me a thousand loves, being anchored always in no matter what storm, home wherever we are. In the mornings, continuing where we left off. Resurrection after resurrection. You asserting yourself, getting the rich varied life you desire; and the more you assert yourself the more you want me, need me. Your voice getting hoarser, deeper, your eyes blacker, your blood thicker, your body fuller. A voluptuous servility and tyrannical necessity. More cruel now than before—consciously, wilfully cruel. The insatiable delight of experience.

HVM