sexta-feira, dezembro 31, 2010

Borda fora

[Gustav Klimt, Mada Primavesi]

No início do ano novo, talvez sejamos despedidos, fruto de uma doença contagiosa que obriga a podar custos. Ou talvez nos despeçamos, cansados de tanto autismo empresarial. E político. E de tão pouca liberdade. Ou, para usar uns termos catitas que entraram no léxico comum pela porta das traseiras, cansados de pouca estabilidade e nenhum crescimento. Seguramente, ser-nos-á reduzido o salário. Depois disso, talvez vendamos a casa, comprada a pensar nos herdeiros que não chegaram, e aluguemos outra, mais pequena, mas provavelmente pelo mesmo preço, que o mercado de arrendamento tem muito que se lhe diga, mas libertando-nos do IMI anual, essa galinha dos ovos de ouro das autarquias, e do condomínio mensal.

Depois de uma verdadeira caça ao tesouro para encontrarmos uma nova empregada, a sexta ou sétima tentativa!, já perdemos a conta (as anteriores renderam-se quase todas ao RSI e nunca perceberam o conceito do brio profissional), talvez a dispensemos e voltemos a passar as folgas agarrados à limpeza e as noites agrafados ao ferro de engomar. Talvez voltemos a adiar a matrícula na universidade, que as propinas são caras, e estudar só pelo prazer de continuar a estudar é um prazer que o actual contexto não permite ter. Talvez deixemos cair para sempre o workshop milionário do senhor Storm. A tese de mestrado, segundo round de mais umas centenas de euros, ficará também provavelmente para as calendas. Talvez deixemos de pensar em engravidar por tempo indeterminado e de pensar em adoptar pelo dobro da indeterminação do tempo.

No próximo ano, talvez deixemos de comprar livros todas as semanas. E jornais. E revistas. E cremes a torto e a direito. Talvez deixemos de ser visita assídua do dentista, do ginecologista e do dermatologista, três companheiros de pelo menos uma década e, num caso, de muitas lutas, mas que no futuro próximo nos desequilibrariam um orçamento que ainda nem sabemos qual vai ser, mas que seguramente não irá engordar. Cinema no cinema já não vemos há muito tempo; teatro e concertos será luxo para dosear. Carro não temos, nem carro nem carta: a mota não tem preço. Vamos, claro, deixar de andar de táxi. Alentejo emagrecido de três vezes por ano para de vez em quando, quando calhar; viagens pelo mundo só a fazer de conta.

Está decretado o nosso plano de austeridade. Mas não podemos deixar de nos questionar se era a isto, a esta vida, que chamam viver acima das possibilidades. Era?! Uma pessoa estuda quase 20 anos com afinco, doze de ensino secundário, mais cinco de superior, mais um de pós-graduação - dá 18. Fora as formações avulsas, os cursos e os cursinhos disto e daquilo, aqui e acolá. Duas décadas para pouco mais do que nada. Não dá direito a expectativas, a ambições, muito menos a liberdade. Só ao dever de manter as pequenas prisões do quotidiano que inelutavelmente se criam. É fraquinho. É pobrezinho, e nem sequer dá direito ao apoio de uma qualquer legião da boa vontade. Não é carência alimentar, não é realmente. Deveríamos sentir-nos felizes?!

Se há dez anos nos perguntassem, a nós, provenientes desse jackpot que é ser do campo, do interior e do norte do país, onde estaríamos com dez anos de trabalho acumulado, teríamos dito qualquer coisa menos a coisa que aconteceu: a estagnação no início do jogo sem qualquer perspectiva de passar para o round seguinte. No imaginário de uma vida em linha recta, estaríamos hoje a devolver a quem tem menos o tanto que teríamos recebido. Um sonho infantil. Ingénuo. Irrealizado.

Em 2011, o lema é portanto saltar borda fora! Em nome da liberdade, de uma vida sem medo de falar, de respirar. De perder. De voltar a erguer. De dar a mão. Dizem-nos a cada passo que devíamos ir para a Austrália, para o el dorado angolano, para Moçambique. Equacionámos as três durante este ano. Ficámos. Porque o maior privilégio da vida é também o maior travão: as três melhores pessoas que conhecemos vivem as três na mesma casa. Não é coisa para se ignorar. Ficar tem um preço, profissionalmente altíssimo; partir teria um preço muito maior para quem acha que a vida inteira será sempre muito curta para viver tão perto quanto possível de um clã cuja generosidade não cabe em palavras.

Pensamos no que nos sobra ficando; no que não é susceptível de inflação nem de cortes. O essencial da vida é de graça. É o lado espantoso disto tudo. 

quinta-feira, dezembro 30, 2010

Livros sublinhados em 2010

Stendhal, O vermelho e o negro
Sophia e Sena, Correspondência 1959/1978
Cormac McCarthy, A Estrada
Eduardo Galeano, Mirrors: Stories of almost everyone
Laurence Durrell, Justine
Laurence Durrell, Baltazar
Apostolos Dixiadis & Christos H. Papadimitriou, Logicomix
Alex Robinson, Box office poison
Lobo Antunes, Sôbolos rios que vão
John Updike, Pecados e Seduções
Yasunary Kawabata, A beleza e a tristeza
Sylvia Plath, The Bell Jar
Roberto Bolaño, Putas Assassinas
Ana Teresa Pereira, Se nos encontrarmos de novo
Philip Roth, O complexo de Portnoy
Jean Baudrillard, Maiorias silenciosas
Gilles Lipovetsky, A Cultura-Mundo
Naomi Klein, The shock doctrine
(jumping)
Maximo Gorki, Os Vagabundos
August Strindberg, Inferno
William Faulkner, O som e a fúria
Halldór Laxness, Gente Independente
(reading)
Desilusão: Shirley Jackson, Sempre vivemos no castelo

Da plateia em 2010

Alain Platel, Out of Context - For Pina
Nuno Cardoso, T3 + 1
Nuno Cardoso, A Gaivota
Nuno Cardoso, "Jardim zoológico de cristal"
(nos finalzinho de 2009)
Stefan Kaegi, Radio Muezzin
Peeping Tom, 32, rue Vandenbranden
Tiago Guedes, Blackbird
Bruno Beltrão, H3
Rui Horta, Local Geographic
Desilusão: Vera Mantero, Vamos sentir falta de tudo aquilo de que não precisamos

Fitas em pause em 2010

How green was my valley, John Ford
(com 69 anos de atraso!)
A Estrada, John Hillcoat
4 Months, 3 Weeks and 2 Days, Cristian Mungiu
Io sono l'amore, Luca Guadagnino
Synecdoche, Charlie Kaufman
Le Refuge, François Ozon
Enjoy Poverty, Renzo Marteens
A Single man, Tom Ford
Somewhere, Sofia Coppola
La Belle Personne, Christophe Honoré
(com dois anos de atraso)
Young Mr. Lincoln, John Ford
(com 71!!! anos de atraso)
The Social Network, David Fincher
Anti Christ, Lars von Trier

Discos riscados em 2010

The Antlers, Hospice
The National, High Violet
Arcade Fire, The Suburbs
Best Coast, Crazy for you
Beach House, Teen Dream
The Temper Trap, Conditions
The XX, XX
Wild Beasts, Two dancers
Foals, Total Life Forever
Crystal Castles, Crystal Castles
Grinderman, Grinderman II
Blind Zero, Luna Park
Yeah, yeah, yeahs, It's Blitz
(importado de 2009)
Birds are Indie, Life is long
Desilusão: Antony and the Johnsons: Swanlights

Afonso de Melo: "Quantas mortes há em mim"

[Pedro Zamith]

Quantas despedidas calculas que em mim existam?
Mil? Mil milhões?
Eu digo-te: mil milhões por cada dia, todas elas repetidas, recriadas, revividas.
A porta que bate és tu que sais de manhãzinha para o trabalho deixando-me uma dor fininha por dentro como se não fosses voltar nunca mais, o ranger do elevador no poço em estertores de esforços do seu coração de máquina, o teu cabelo molhado e o teu rosto firme
(- quando voltas?)
um pavor de solidões que me consome por dentro, uma saudade amargurada da tua imagem nervosa na palataforma da estação,
(Atenção, senhores passageiros! Vai dar entrada na linha número um o comboio-alfa proveniente de Lisboa Sta. Apolónia...)
a camisola de lã cinzenta com riscas vermelhas no cós e nas mangas
(- quando voltares, qual de ti serás?)
as tuas mãos de unhas roídas e dedos fortes,
(- às vezes, preciso tanto de falar das tuas mãos!)
o milagre de tocar-te com cuidado para que não desaparecesses do meu sonho real como uma verdade.
Quantas despedidas cabem na vida de cada um de nós?,
pergunto-te sem precisares de me responder.
Tanta gente que morreu e tanta gente que não morreu de morrer mesmo mas que foi morrendo em mim,
- percebes?
e lugares como pessoas, e momentos como pessoas,
e lugares, porque,
- não sei se sabes...,
os lugares e o momentos também podem morrer de forma absoluta sem haver algo que os devolva.
Nunca somos aquilo que os outros julgam de nós.

[in Magnética Magazine]

quarta-feira, dezembro 29, 2010

Não queiras saber de mim

[Olivia Bee]

Não queiras saber de mim
Esta noite não estou cá
Quando a tristeza bate
Pior do que eu não há
Fico fora de combate
Como se chegasse ao fim
Fico abaixo do tapete
Afundado no serrim

Não queiras saber de mim
Porque eu estou que não me entendo
Dança tu que eu fico assim
Hoje não me recomendo

Mas tu pões esse vestido
E voas até ao topo
E fumas do meu cigarro
E bebes do meu copo
Mas nem isso faz sentido
Só agrava o meu estado
Quanto mais brilha a tua luz
Mais eu fico apagado

Amanhã eu sei já passa
Mas agora estou assim
Hoje perdi toda a graça
Não queiras saber de mim

"... eu fiz o que era possível,

no momento em que

o que precisávamos

era o impossível...”

terça-feira, dezembro 28, 2010

Pedro Lomba: Conhece-te a ti mesmo

De vez em quando imagino como era a vida quando a vida era simples. Não me lembro que para nós, portugueses, alguma vez tivesse sido simples. Mas deixem-me agora idealizar um passado remoto, um passado que não volta, em que a vida era simples porque sabíamos mais o que fazer do que sabemos hoje; e dependíamos menos do que hoje dependemos. Uma vida em que seríamos mais nós próprios daquilo em que nos tornámos.

É impossível pensar nas últimas décadas no Ocidente sem contarmos como a vida se complicou, como cada um de nós ficou sujeito a formas cada vez mais impessoais e poderosas de disciplina: do Estado, das empresas ou mesmo dos partidos. As sociedades modernas, mesmo as sociedades ditas liberais, não expandiram o indivíduo. O que elas criaram foi organizações crescentemente complexas e impermeáveis, dentro das quais esse indivíduo foi arrumado. A vida, de facto, complicou-se.

Como os (bons) sociólogos tiveram oportunidade de explicar, o homem que passou a viver sob o domínio das burocracias do Estado, mas também das empresas ou dos partidos, é um ser organizado e distribuído por múltiplos  papéis, todos eles dependentes de regras, convenções, conhecimentos técnicos, de uma cultura predominantemente objectiva e especializada.

A circunstância de esse homem não dominar essa cultura provocou mudanças consideráveis. Metidos em toda a espécie de organizações e deveres, cidadãos da República, votantes, trabalhadores, consumidores e contribuintes, tornámo-nos indecisos e manipuláveis. Muitas vezes não sabemos o que fazer, nem o que decidir. Quem percebe todos os subterfúgios do sistema legal, dos impostos, dos empréstimos bancários, das regras de publicidade, dos mercados cada vez mais diferenciados, de campanhas políticas mais sofisticadas?

Num passado já muito distante, os astrónomos podiam aconselhar os príncipes sobre o movimento dos astros; os generais sobre o movimento das tropas; e os primeiros "políticos" sobre a arte do governo. Foram eles os primeiros conselheiros quando ninguém, além dos reis, precisava de aconselhamento para o que quer que fosse. Mas a profissão que melhor caracteriza este período é o consultor profissional. É incrível como a sociedade em que temos vivido dependeu dele. Aconselhar transformou-se numa actividade cada vez mais próspera e cobiçada, porque vem associada a informação e conhecimento que a maioria de nós não domina.

Surgiram "conselheiros" de toda a parte e feitio que nos prometeram um mundo mais apreensível, um mundo em que a própria noção de risco e incerteza estivessem ausentes. O conselheiro fiscal, financeiro, comercial ou político ajuda-nos a decifrar os labirintos dessas organizações a que não podemos escapar. Se ele falhasse, era todo um edifício que se desmoronava.

Se pudéssemos imaginar uma vida mais simples, como seria? Seria uma vida em que pudéssemos recapturar a nossa liberdade contra todas as formas de arrogância, venham elas do Estado ou de mercados certificados pela mítica presença do consultor profissional.

Há uma lição que a crise económica nos tem deixado. Não é a de que o capitalismo produz crises mortíferas (sempre produziu), nem de que os mercados devem ser regulados (a regulação não traz forçosamente melhor capitalismo), nem de que o Estado é eticamente superior aos mercados (sabemos que não é). O que podemos aprender com a crise é o velho peso da prudência, do realismo e da desconfiança. Uma vida mais simples seria aquela em que, antes de confiarmos no nosso banco ou no nosso Estado, pudéssemos reaprender o velho peso da responsabilidade, do que somos e não somos capazes de fazer.
(Hoje, no Público)

Sofia Coppola: Somewhere



Não se percebe bem para onde vai. Mas a viagem, para onde quer que seja o destino, é maravilhosa.

domingo, dezembro 26, 2010

Song for my father

If there was ever a man
Who was generous, gracious and good
That was my dad
The man
A human being so true
He could live like a king
'Cause he knew
The real pleasure in life

To be devoted to
And always stand by me
So I’d be unafraid and free

sábado, dezembro 25, 2010

A parábola dos talentos


"Eu sou um homem extremamente privilegiado. Faço seguramente parte dos dois por cento de pessoas com rendimentos mais altos no mundo. Tenho imenso que agradecer a Deus, ao mundo, às pessoas e o mu dever é a Parábola dos Talentos, que sempre foi a questão central da minha vida. O meu dever é, tendo recebido esses "talentos", e nisso não tive nenhum mérito, pôr isso a render a favor dos que não tiveram as mesmas oportunidades na vida. É isso que traz justificação para uma acção política e humanitária e o critério fundamental é saber se somos coerentes com essa visão ou se, porque há sempre um exercício de poder em tudo o que fazemos, nos deixamos corromper por esse mesmo poder e se perdemos a motivação inicial. Penso que no essencial, com falhas aqui e ali, me mantive fiel a esse princípio e que mantive a Parábola dos Talentos como o elemento motor das minhas acções.

Hoje vejo Deus de uma forma que não é compatível com a ideia de um Deus interventor, a quem se rezam dois pais-nossos a ver se temos um exame melhor, mas como um criador e um inspirador. E, depois, como uma mensagem evangélica, que continuo a considerar uma mensagem de verdade, fundamental para a vida. Esta ideia de que Deus pode estar por detrás das desgraças a que eu assisto não seria compatível com eu acreditar em Deus."

[António Guterres em entrevista à revista Única, do Expresso, de 23 de Dezembro de 2010]

sexta-feira, dezembro 24, 2010

Lobotomia IX

[Olivia Bee]
O que mais gostava nela? A forma como ela gostava dele.

quinta-feira, dezembro 23, 2010

2010: O ano político entre aspas


"Podemos estar a caminhar para uma situação explosiva."
Cavaco Silva, na mensagem de Ano Novo, 1 de Janeiro
"Cavaco Silva é um ditador. Mandou quatro amigos meus, dos melhores ministros, para a rua, assim de mão directa."
Belmiro de Azevedo, Visão, 28 de Janeiro
"Acho absolutamente lamentável esse jornalismo, que pode classificar-se como jornalismo de buraco de fechadura, baseado em escutas telefónicas e em conversas telefónicas que, não tendo relevância criminal, devem ser privadas."
José Sócrates, 6 de Fevereiro
"Preferia uma dona de casa nas Finanças."
Medina Carreira
Correio da Manhã, 7 de Fevereiro
"Não sabia nem desconfiava [do envolvimento da PT no alegado plano do Governo para controlar a Comunicação Social]. Pode ter acontecido, à minha revelia. [Sinto-me] encornado."
Henrique Granadeiro
Visão online, 12 de Fevereiro
"É muito difícil manter um mentiroso como primeiro-ministro."
Marcelo Rebelo de Sousa
RTP1, 14 de Fevereiro
"Novos líderes políticos demoram tempo a aparecer. Não se arranjam já feitos na antiga fábrica de cerâmica do Bordalo, nas Caldas da Rainha."
Mário Soares, Diário de Notícias, 16 de Fevereiro
"O que é a Ongoing? É um grupo de media? (...) Ainda ontem alguém dizia que se vai ao site e se vê uma série de coisas, mas que não se consegue perceber o que é a Ongoing."
Agostinho Branquinho. Assembleia da República, 18 de Fevereiro
"A continuar assim não há orçamento que resista e acabaremos por ser fabricantes de criadas e criados para a Europa e para o mundo."
Ilídio Pinho, Expresso, 27 de Fevereiro
"Ofereci não só robalos como também pescada, chicharros e até sardinhas."
Manuel Godinho, (comentando o facto de ter oferecido uma caixa de robalos a Armando Vara)
Diário de Notícias, 6 de Março
"Cada vez que Cavaco Silva fala sentimos um mau hálito político do lado de cá da televisão."
Nuno Morais Sarmento
Diário Económico, 8 de Março
"Sabia que a história nos iria dar razão e também sabia dos enormes custos de ter razão antes do tempo."
Manuela Ferreira Leite, (no discurso de despedido no Congresso)
14 de Março
"Como se pode explicar que um homem que fracassou no seu país seja responsável pela supervisão na Europa? Seria como dar barras de dinamite a um pirómano."
Astrid Lulling, eurodeputada do PPE, na audição de Vítor Constâncio, uma senhora que claramente não foi aoresentada a Durão Barroso)
23 de Março
"Não há relação entre celibato e pedofilia. Mas há relação entre homossexualidade e pedofilia. Este é o problema."
Tarcisio Bertone, Número dois do Vaticano, AFP, 13 de Abril
"Não haverá aumento de impostos. (...) E não aumentamos os impostos pela simples razão de que isso teria um efeito recessivo na nossa economia."
José Sócrates, 16 de Abril
"Quero, em primeiro lugar, começar por pedir desculpa aos portugueses por ter dado o meu acordo ao primeiro ministro para este conjunto de medidas."
Pedro Passos Coelho, 13 de Maio
"Tornar obrigatório o ensino da educação sexual resume-se a dizer. Forniquem à vontade, divirtam-se, façam o que quiserem mas com higiene."
D. Duarte de Bragança, Notícias Sábado, 15 de Maio
"Este homem [Pedro Passos Coelho] vive em Massamá, não vive em condomínio fechado. ... Este homem compreende o povo porque vem do povo."
Mendes Bota, líder do PSD do Algarve, na Festa do Pontal, 17 de Agosto
"O modelo cubano não serve, nem para nós."
Fidel Castro, The Atlantic, 9 de Setembro
"Dormi muito mal para tomar estas medidas [de austeridade]. Mas se não as tomasse não sei se conseguiria dormir."
Teixeira dos Santos, 30 de Setembro
"Cavaco Silva fez-nos o favor de não ir ao funeral. E Saramago agradece."
Pilar del Rio, I, 16 de Outubro
"Se se tornar inevitável a ajuda externa, ela será bem-vinda."
Pedro Passos Coelho, 20 de Outubro
"Em que situação se encontraria o país sem a ação intensa e ponderada que desenvolvi ao longo do mandato? (...) Os portugueses sabem distinguir quem fala verdade e quem semeia ilusões e utopias."
Cavaco Silva, na apresentação da sua recandidatura, 26 de Outubro
"Sou uma pessoa que trabalho muito, que trabalha como mais ninguém (...) De vez em quando, apetece-me relaxar uma noite ou outra, e ninguém pode impedir-me. Amo a vida e amo as mulheres, não devo explicações a ninguém."
Sílvio Berlusconi, 29 de Outubro
"Agostinho Branquinho não foi contratado [pela Ongoing]. Vendeu a alma."
Nicolau Santos, o único jornalista a escrever sobre o assunto!!!!
Expresso, 30 de Outubro
"Gostaria de ter tirado uma foto com Eduardo Catroga aqui. Não foi possível, ficaram nos telemóveis, mas é pena que os portugueses não possam ter essa fotografia."
Teixeira dos Santos, 30 de Outubro
"Mandei tropas americanas para a guerra [no Iraque] com base em informações falsas."
George W. Bush, The Times, 9 de Novembro
"Se o euro falhar, então a Europa falhará."
Angela Merkel, 15 de Novembro
"A utilização do preservativo pode ser um primeiro passo para a moralização, uma primeira parcela de responsabilidade para voltar a desenvolver a consciência de que nem tudo é permito."
Bento XVI, 20 de Novembro
"Este Governo vai chegar ao fim da legislatura."
José Sócrates
Diário de Notícias, 12 de Dezembro

quarta-feira, dezembro 22, 2010

Rui Tavares: De onde vem o poder?

Volta e meia, vem-me esta imagem à cabeça: um primeiro-ministro, jovem, bem-falante, elegante e poderoso, fazendo um discurso no parlamento do seu país. Os gestos são estudados, mas adquiriram com o tempo uma certa naturalidade - o que significa que estamos perante um político muito profissional, que sabe distinguir-se da massa dos políticos meramente profissionais. As palavras saem bem articuladas, as frases aparecem moduladas, os parágrafos terminam enfáticos - e tudo isto aparece como se fosse convicção. Ele é um político de sucesso e sabe que o é. Tem o partido e o país na mão, graças a uma fórmula que foi afinando ao longo da vida, combinando carisma, oratória e sobretudo lealdades disciplinadas.

Ele termina o seu discurso elevando a voz e sincopando as últimas palavras e, depois - silêncio. Acontece nada. Na plateia ninguém aplaude. Não apenas a oposição, que não aplaude, mas também não apupa, não vaia, não protesta - nada. Mas acima de tudo a maioria, o partido de governo, com os fiéis correligionários do chefe, não levanta as mãos para o aplaudir. A única coisa que se segue ao discurso do chefe é silêncio, e a seguir a esse silêncio, mais silêncio.

No meu sonho não ficam claras as razões para este fenómeno. Talvez se tenham distraído todos. Talvez se tenham aborrecido. Talvez cada um dos seguidores do chefe tenha achado que, naquele dia, se poderia dar ao luxo de não aplaudir porque certamente todos os seus colegas o fariam. Talvez, sem sequer considerar o fundo e a forma do discurso, tenham sentido que aplaudir era apenas uma obrigação de trabalho, como picar o ponto, ou de cortesia - e, de repente, não lhes tenha apetecido fazê-lo, como quem decide ligar para o emprego e inventar uma doença para ficar o dia de pijama. E agora já é tarde. Ninguém bateu palmas e o silêncio durou já uma semibreve a mais, e agora ninguém se atreve a ser o primeiro, nem consegue aliás levantar os braços, porque estão todos hipnotizados pelo sucedido.

O que acontece de imediato não sei. A imagem seguinte que tenho é somente a do chefe de governo chegando a casa, tirando os sapatos, e ficando pensativo sentado no sofá. Ele sabe que está acabado. Todos sabem que ele está acabado. Mas - se é que alguém falou desde que aconteceu o que não aconteceu - não sabem dizer com precisão porquê.

Não tendo aqui o meu Plutarco, não sei onde ele - se é que foi ele - inventa um diálogo com um homem importante. Pergunta-lhe: mas afinal porque és tu importante? E o homem importante diz-lhe: porque todos me prestam atenção. E Plutarco - ou o perguntador - responde: mas não prestamos todos atenção a um cão raivoso? E o homem importante retorque: não é isso; a mim, toda a gente tem de ouvir o que digo. E Plutarco - ou a outra personagem do diálogo - responde: mas não acontece isso com os loucos nos mercados, e com aquelas pessoas que nos agarram no braço até acabarem de contar a sua estória?

E o homem importante: mas não quererás tu entender, ó impertinente? Eu sou importante porque aquilo que eu faço tem consequências. Sim, responde Plutarco: e não terá também consequências um púcaro com leite que está prestes a ferver? Implicitamente, o que o homem importante pretende é dizer o seguinte: eu sou importante porque tenho poder. E a pergunta de Plutarco é: e esse tal poder, de onde vem?

(Enquanto eu te responder com uma pergunta, nunca o receberás.)

[Hoje, no Público]

Sylvia Plath: The Bell Jar


"Come on, give us a smile."
 I had tried concealing myself in the powder room, but it didn't work. I didn't want my picture taken because i was going to cry. I didn't know why i was going to cry, but i knew that if anybody spoke to me or looked at me too closely the tears would fly out of my eyes and the sobs would fly out of my throat and i'd cry for a week. I could feel the tears brimming and sloshing in me like water in a glass that is unsteady and too full. (...) We were supposed to be photographed with props to show what we wanted to be. When they asked me what i wanted to be, i said i didn't know.
"Oh, sure you know", the photographer said.
"She wants", said Jay Cee wittily, "to be everything."
I said i want to be a poet. 

"Give us a smile."
At last, obediently, like the mouth of a ventriloquist's dummy, my own mouth started to quirk up.
"Hey", the photographer protested, with sudden foreboding, "you look like you're going to cry."
I couldn't stop.

Carta (Esboço)

Lembro-me agora que tenho de marcar um encontro contigo,
num sítio em que ambos nos possamos falar, de facto,
sem que nenhuma das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação ;
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.

Nuno Júdice, in “Poesia Reunida”

terça-feira, dezembro 21, 2010

Lobotomia VIII

[Olivia Bee]
Sobreviveu a tudo menos ao mais simples: o teste do algodão.

Love condoms

[Olivia Bee]

Usava um preservativo no coração. Ia a todas, mas nunca se apaixonava. E quando o preservativo rompia, deixando indefesa a muralha que assegurava a impossibilidade do amor, tomava rapidamente a pílula do dia seguinte. E se o contraceptivo de emergência também falhava, não descansava enquanto não estragasse tudo. Era um aleijado emocional. Orgulhosamente só.