quinta-feira, novembro 13, 2014

Rui Massena na Casa da Música


Conheço muita gente que não gosta do Rui Massena. Conheço muita gente que adora o Rui. E conheço muita gente que não o conhece. Conhecer mesmo. Ou mais, pelo menos. Mais do que o rapaz despenteado, o maestro estouvado, a figura que apadrinha talentos televisivos, comenta a bola e apoiou Menezes. Mais do que só o programador de Guimarães 2012. Conheci-o em 2008, numa entrevista de quatro horas, ele maestro a estrear-se na Casa da Música, casa cheia. E sempre quis conhecer o compositor que tinha a certeza que ele também era. Seis anos depois, eis o disco. E o regresso a casa, à Casa, outra vez cheia. É hoje! E vai ser tão bom.

"We might never fall in love but you can kiss me anyway"

segunda-feira, novembro 10, 2014

sexta-feira, novembro 07, 2014

37


Quando a Ana, a minha melhor amiga, mudou de casa (cinquenta quilómetros aos onze anos é outro continente), decidi que não queria ter mais amigos. Passava só os dias angustiada à espera dos dias de estar com ela. Depois, lá acabei por fazer novos amigos. Dos maiores do mundo. Quando, no décimo ano, mudei de turma, não quis fazer novos amigos. Só me interessava os amigos maiores que já tinha. Acabei por fazer amigos para a vida. Quando entrei na faculdade, não queria conhecer ninguém. Morria só de saudades dos amigos de casa. Acabei por fazer amigos de sangue. Quando comecei a trabalhar, tinha a porta fechada para toda a gente que não fosse a minha gente. Fiz amigos que são a minha vida e sem os quais a minha vida não seria a minha vida. Quando me inscrevi no facebook, sabia que jamais faria amigos virtuais, amigos só os da vida real. Sem o facebook, talvez não tivesse conhecido o Esquilo, um dos amigos que mais absolutamente amo. E, por estes dias, não tivesse reencontrado, ao fim de vinte anos!, o André, o meu milagre de natal antecipado. E sem o passar dos anos, talvez não tivesse aprendido que na vida não tem de ser tudo ou nada.


Passei a vida a construir castelos no coração e grande parte da vida a ouvir dizer que um dia haveria de crescer e de me deixar disso. Talvez ainda não tenha crescido. Sou difícil, tenho um feitio impossível, desapareço muitas vezes, emudeço e, já sei, quase nunca atendo o telefone. Mas olhar para o coração e ver que estão cá os castelos todos, muitos mais do que os que pedi, infinitamente mais do que os que mereço, os amigos todos, os que são a minha casa, a minha vida e o meu sangue, nenhum desmoronamento, que ninguém ficou para trás nem me deixou para trás, que se juntaram pessoas que me tratam com uma ternura que não mereço, é o maior privilégio que poderei alguma vez ter.


Sou a pessoa mais mimada que eu própria conheço. A culpa é inteiramente vossa, o mérito de estarmos juntos também. A gratidão é, para sempre, toda minha. ♥

terça-feira, novembro 04, 2014

segunda-feira, novembro 03, 2014

domingo, outubro 26, 2014

"Future Islands transformam Hard Club num suadouro", por José Miguel Gaspar *


Aconteceu ali qualquer coisa de extraordinário e de perplexo - a sala 1 do Hard Club converte-se num suadouro exaltado, mas as pessoas continuaram vestidas - e há duas explicações, ambas febris. Uma: a ventilação da sala é deficiente na simultaneidade de mil pessoas e música impossível de não dançar, como é o caso do electropop venéreo dos Future Islands.

Duas: fomos vítimas de um fenómeno de transmissão viral, não como o de David Letterman, mas um vírus com sintomas e consequências concretas (vertigem, contrição torácica, escótoma cintilante, aceleração do pulso e do coração, aumento anormal da temperatura do corpo, exudação abundante) e isso começou assim que Samuel T. Herring, o vocalista, começou a suar, que foi mais ou menos assim que ele entrou em palco. Em qualquer dos casos, não foi um acontecimento normal. Ocorreu ontem à noite, sexta-feira 24 de Outubro, entre as 22.25 e as 23.50 horas na primeira vez que os Future Islands vieram de Baltimore, nos EUA, para tocar ao vivo no Porto.

Foi à terceira canção que reparei (eles tocaram 17, com três em encore) na quantidade de suor que nos rodeava e vi que a camisa de Samuel T. Herring já estava de outra cor e só o triângulo das pontas continuava claro, ainda que só por mais uns minutos, até a camisa, uma camisa Mao, ficar empapada e líquida sobre ele. A partir daí não consegui mais desviar o olhar do vocalista e o resto da banda (baixo, bateria e teclas, não há uma guitarra à vista) pareceu ter sempre uma cortina de luz escura em cima e ficou noutro plano mais atrás, com ele à frente a ferver na proa próximo de nós. Foi aí, na "A dream of you and me", uma canção sacarina com baixo ribombante, bateria seca e uma cascata ingénua de três acordes de teclas, e em que ele canta a paz desencontrada e as marés do amor, que se sentiu o primeiro pico emocional que haveria de eclodir em "Seasons (waiting on you)".

A partir daí, com as canções a começaram sempre com as nossas palmas compassadas e delirantes (mais as mulheres que os homens, é verdade), que se mantiveram depois durante quase toda a passada de "Balance", ficamos acorrentados àquela electricidade viciosa e dançante e dissolvemo-nos felizes pelas canções seguintes abaixo, a destilar todos juntos dentro da caixa negra do Hard Club, a ver Samuel T. Herring a bater repetidamente com o punho no peito e a remoinhar e a dizer que nós éramos os maiores e que a nossa cidade era incrível e agora "lets fucking dance". É um performer extraordinário, Samuel T. Herring e ali perto pudemos comprovar que foi adequado o desvario do apresentador americano David Letterman, que desorbitou quando viu o líder dos Future Islands a dançar (e não parou de falar disso nos episódios seguintes do seu programa, foi já em Março mas a transmissão permanece viral).

É uma coisa difícil de descrever e de focar, um homem baixo e ursino (ele não canta só, ele brame e ruge e urra) que parece que dança em rewind gravítico ou que parece que tem uma força a puxá-lo para trás no ar, as pernas flectidas num twist torcido, a desabrochar um braço como se fosse um discóbolo e a travar-se no último momento possível antes do arremesso, como fez na "Seasons", a canção dos crescendos em que todos explodimos e sentimos o tremor de estarmos ali. Apesar de nova, toda aquela música synthpop dos Future Islands é reconhecível pelo público, que parecia ter todo uma idade indefinida entre os 30 e os 50 anos e ter crescido na década de 1980 com os sulfurosos neo-românticos e o "motorik" da new wave e talvez seja isso que explique a sua popularidade.

Ou então é a lírica, também ingénua e rosada, mas que flutua sempre dentro da dicotomia do amor (enxurrada e solidão indómita), e que escorre toda da violência que é a bifurcação desse fogo - e que vimos arder quando ele nos rugiu o "Fall from grace", outra canção sobre o afogamento da perda, em que ele diz que há uma manhã em que acorda e vê o seu reflexo aos pés e percebe que afinal ele vivia dentro de si mesmo, mas agora já é tarde, agora já ele está grave e grisalho. No fim, sem saber como vim parar cá fora, aturdido com o fim, já no vento e no esfriamento repentino do pátio do Mercado Ferreira Borges, ficámos ainda ali muito tempo e sentimos a vasocontrição e a corrida do sangue a fugir-nos dos pés, das mãos e da cara e apreciamos o frio nervoso que se sente sempre no fim dos bons concertos.

Sentíamos que estávamos surdos (e eu abria a boca como um peixe espantado a tentar que os ouvidos voltassem ao normal) e parecia que a paisagem toda à nossa volta flutuava desfasada e excessivamente nítida e falámos de olhos demasiado abertos e com muitas exclamações e sem sabermos que estávamos a falar demasiado alto.

Ainda surdo e electrolítico, saí, desci e percorri o túnel vermelho sujo da Ribeira até ao carro, internado na batida do baixo do "Seasons", a andar e a mexer a cabeça cadenciada como se fosse um boxeur, e foi aí que vi com imediata clareza qual o actor com que Samuel T. Herring é parecido: ele é a cara chapada de Tony Baretta, o detective de Nova Iorque de olhos miúdos e coração de aço da série de TV dos anos 80, que muitos anos depois haveria de matar a sua segunda mulher com um tiro de uma Baretta na cabeça numa noite de lua alienada do Arizona.

*Mais delírio, menos delírio, foi mesmo isto. E ninguém saberia dizer isto melhor que o José Miguel Gaspar. Publicado hoje, no JN

sábado, outubro 25, 2014

Future Islands no Hard Club


Num Outubro em que de dia faz-se praia com 28 graus e à noite Sam Herring provoca arrepios continuados numa sala onde não se respira com calor é um Outono quase perfeito.

sexta-feira, outubro 24, 2014

If tomorrow starts without me


If tomorrow starts without me, and I’m not here to see,
If the sun should rise you find your eyes all filled with tears for me;
I wish so much you wouldn’t cry the way you did today,
While thinking of the many things we didn’t get to say.
I know how much you love me, as much as I love you
And each time that you think of me, I know you’ll miss me too.
But when tomorrow starts without me please try to understand,
That an angel came and called my name and took me by the hand.
He said my place was ready, in heaven far above
And that I’d have to leave behind all those I dearly love.
But as I turned and walked away a tear fell from my eye.
For all my life I’d always thought, I didn’t want to die.
I had so much to live for, so much left yet to do.
It seemed almost impossible that I was leaving you.
I thought of all the yesterdays the good ones and the bad.
I thought of all the love we shared, and all the fun we had.
If I could relive yesterday, just even for a while,
I’d say goodbye and kiss you and maybe see you smile.
But then I fully realized that this could never be,
For emptiness and memories would take the place of me.
When I thought of worldly things I might miss come tomorrow
I thought of you and when I did my heart was filled with sorrow.
When I walked through heavens gates I felt so much at home.
God looked down and smiled at me from his great golden throne
He said, “This is eternity and all I’ve promised you”
Today your life on earth has passed but here life starts anew.
I promise no tomorrow, but today will always last
And since each day is the same there’s no longing for the past.
You have been so faithful so trusting and so true.
Though there were times you did some things you knew you shouldn’t do.
You have been forgiven and now at last you’re free.
So won’t you come and take my hand and share my life with me?
So when tomorrow starts with out me don’t think we’re far apart,
For every time you think of me, I’m right here in your heart.

quinta-feira, outubro 23, 2014

Mario Quintana: Cocktail Party


"Não tenho vergonha de dizer que estou triste,
Não dessa tristeza ignominiosa dos que, em vez de se matarem, fazem poemas.
Estou triste porque vocês são burros e feios
E não morrem nunca...
Minha alma assenta-se no cordão da calçada
E chora,
Olhando as poças barrentas que a chuva deixou.
Eu sigo adiante. Misturo-me a vocês. Acho vocês uns amores.
Na minha cara há um vasto sorriso pintado a vermelhão.
E trocamos brindes,
Acreditamos em tudo o que vem nos jornais.
Somos democratas e escravocratas.
Nossas almas? Sei lá!
Mas como são belos os filmes coloridos!
(Ainda mais os de assuntos bíblicos...)
Desce o crepúsculo
E, quando a primeira estrelinha ia refletir-se em todas as poçasd'água,
Acenderam-se de súbito os postes de iluminação!"


quarta-feira, outubro 22, 2014

terça-feira, outubro 21, 2014

Livro do Desassossego

[Jordi Burch]

"[...]Tenho neste momento tantos pensamentos fundamentais, tantas coisas verdadeiramente metafísicas que dizer, que me canso de repente, e decido não escrever mais, não pensar mais, mas deixar que a febre de dizer me dê sono, e eu faça festas com os olhos fechados, como a um gato, a tudo quanto poderia ter dito.»

segunda-feira, outubro 20, 2014

domingo, outubro 19, 2014

quarta-feira, outubro 15, 2014

sábado, outubro 11, 2014

Teatro de Marionetas do Porto: Agapornis


Tão desilusão....

(Uma estreia absoluta a marcar a abertura de mais uma edição do FIMP, que nos chega pelas mãos do Teatro de Marionetas do Porto, companhia absolutamente central na afirmação e consolidação de um festival que cumpre vinte e cinco anos de existência. Agapornis é uma incursão adulta e para adultos pelo universo literário de Anaïs Nin (1903-1977), desviando para a cena as fantasias eróticas das personagens femininas que habitam a transgressiva obra da autora de Uma Espia na Casa do Amor ou A Casa do Incesto, bem como de um celebrado, e controverso, Diário. Convocando marionetas, objetos e dispositivos cénicos, Agapornis apresenta-se como um lugar fértil e inquieto de cruzamento de linguagens, um dos traços distintivos do Teatro de Marionetas do Porto. Outra maneira de dizer que Isabel Barros – que divide com Edgard Fernandes e Rui Queiroz de Matos a autoria do espetáculo – mantém bem vivo o legado de João Paulo Seara Cardoso.)



quinta-feira, outubro 09, 2014

quarta-feira, outubro 08, 2014

A propósito de uma crónica de Manuel Serrão sobre Rui Moreira...


"A minha liberdade termina onde começa a liberdade do outro" - frase atribuída a quinhentas pessoas diferentes, entre as quais Martin Luther King - deve ser o aforismo mais repetido da História. Infelizmente, ao excesso de repetição nem sempre corresponde um equivalente agir de acordo. Há crónicas que me fazem pensar nisso, na parcimónia com que a liberdade deve ser usada para ser efectiva. Incluindo a liberdade de expressão. E há crónicas que me fazem pensar se sobre uma figura pública, por ser pública e independentemente do quão pública, vale dizer tudo sem demonstrar nada. Crónicas que me fazem pensar até que ponto um juízo de valor é uma opinião com valor. Crónicas que me fazem pensar em qual será a duração e a ordem certa na sucessão de cargos na vida pública (política, empresarial ou outra) para os impermeabilizar à crítica do trampolim. Há ainda crónicas que me fazem lembrar aquele tipo de mulher que nunca tem nada de bom a dizer sobre mulheres bonitas. E há crónicas que me fazem pensar no que ganhará o leitor com elas.

(Declaração de interesses: prefiro ter tido o André Villas Boas uma só época do que ter vivido a vida inteira sem o ter no Portinho.)

quarta-feira, outubro 01, 2014

Pedro Ivo Carvalho: E quando o Porto passar de moda?


Sermos impositivos sem sermos provincianos. Sermos exigentes sem sermos inocentes. Sermos orgulhosos sem sermos preconceituosos. Sermos bairristas sem sermos gauleses. Sermos originais sem sermos ridículos. Sermos do Porto de cabeça em riste, porque ser do Porto é uma condição especial. É uma contínua declaração de amor. Só pode entendê-lo quem quer entender o Porto como casa. Ser do Porto não é ser melhor do que ninguém. Não é preciso. Todas as comparações são injustas. Ser do Porto é deixar a calçada encolhida de embaraço com os estados de alma que nos escapam da boca. Não é asneira, é franqueza. Vem do coração.
Ser do Porto é receber quem nos estima com um abraço caloroso, mas garantir um amasso vigoroso aos saltimbancos do desdém. Ser do Porto é também ser de Gaia, de Matosinhos, da Maia, de Gondomar ou de Valongo. É ser uno e unificador. É ser, mais do que um ponto final no término da palavra, como propala o novo slogan da cidade, um tremendo ponto de exclamação. Do tamanho dos Clérigos.
Há um ano, os portuenses escolheram um presidente da Câmara que, em tese, seria o mais improvável, por não emanar diretamente do aparelho partidário. Que exalava um certo perfume de independência, que fazia pontes com o "establishment" sem o formalismo tradicional, que aproveitava dos partidos apenas a parte benigna. Rui Moreira surpreendeu o país, o seu exemplo encheu páginas de jornais por todo o Mundo. Um ano volvido, os turistas continuam a aterrar em barda, inundando as ruas de cosmopolitismo, a cidade da cultura e do lazer começou a abrir-se a quem dela fugia. A constante tensão entre poder e cidadãos, que Rui Rio geriu tão habilmente em seu benefício eleitoral, parece esvanecer-se. O verde do antigamente deu lugar ao azul, a nova cor do Porto.
Na realidade, a maquilhagem gráfica da cidade melhora a sua aparência pública/publicitária, porque a torna moderna, como ela hoje se mostra ao mercado internacional, mas tem outro alcance. Não haja ilusões. O Porto não é uma marca de refrigerantes. Não é apenas com uma imagética algo vetusta que Rui Moreira pretende cortar. O presidente da Câmara do Porto quer apagar o passado, pelo menos uma parte dele.
A fórmula, não sendo matemática, é simples: é possível manter o rigor e austeridade dos mandatos de Rui Rio tornando a cidade mais amistosa, tornando-a, sobretudo, num protejo coletivo: da tradição à cultura, dos negócios ao desporto, da educação à coesão social. Tornando, no fim da linha, a cidade num espaço habitado - meta ainda por alcançar - e não deixar que ela se cristalize nos escaparates das agências de viagem.
O desafio do Porto, e de Rui Moreira, é este: viver para além do "hype" do momento, não ser só um panfleto da moda, bafejado pela varinha mágica das companhias aéreas low-cost. As modas, as marcas, passam. E o Porto tem de continuar a ser aquilo que sempre foi. Uma estátua viva ao espírito das suas gentes.
Publicado hoje, no JN




terça-feira, setembro 30, 2014

Miguel Esteves Cardoso: Casava-me já contigo


Quando eu era pequenino e vi um cartaz do filme The Seven Year Itch, de Billy Wilder e de 1955, perguntei à minha mãe o que era. Ela respondeu: "Ao fim de sete anos a novidade do casamento começa a passar".
Ao fim de 14 anos, cada vez que eu olho para a minha mulher, cada dia que acordo ao lado dela, o que mais me comove e impressiona é precisamente a novidade de vê-la, poder amá-la, ter a sorte de ser amado por ela.
Cada coisa que fazemos é ao mesmo tempo antiquíssima – como uma cerimónia que construímos juntos só para nós os dois – e novíssima, pelo desejo e pelo entusiasmo de lá estar, naquele lugar que ela abriu para mim e ela no lugar que só é dela, que sou eu.
O casamento é só uma palavra: é verdade. Mas também pode ser a vontade de casarmos e ficarmos casados, todos os dias, com a mesma pessoa que amamos.
Cada vez nos casamos mais. As diferenças dela vão cabendo cada vez melhor nas minhas. Cada vez somos, a Maria João e eu, mais livres de sermos como somos, cada um de nós, e de sermos como somos, nós os dois.
Ela torna-se mais ela; eu torno-me mais eu, ela e eu com menos medo que o outro fuja por causa disso. Mas com medo à mesma. E ganância de viver e curiosidade em saber como é que o décimo quinto ano vai ser melhor do que este.
Mas vai ser.

"Love is a fucking bitch"

segunda-feira, setembro 29, 2014

"Os Interessantes", Meg Wolitzer



"A ironia era uma novidade para si e sabia-lhe inesperadamente bem, como uma fruta de verão até então indisponível. Em breve, ela e os outros seriam irónicos durante grande parte do tempo, incapazes de responderem a uma pergunta inocente sem carregarem as palavras com um pequeno ajuste mordaz. Passado relativamente pouco tempo, a mordacidade haveria de se atenuar, a ironia misturar-se-ia com seriedade e os anos encurtar-se-iam e voariam. Depois não faltaria muito para que todos se sentissem chocados e tristes por terem crescido por completo e chegado às pessoas adultas mais densas e finalizadas que eram, praticamente sem hipótese de se reinventarem. (...) Ninguém nos diz durante quanto tempo devemos manter-nos a fazer uma coisa antes de desistirmos para sempre. E também não queremos esperar até sermos tão velhos que ninguém nos contrate noutra área qualquer. (...) Só se tinha uma oportunidade de criar uma identidade na vida, mas a maior parte das pessoas não deixava qualquer marca. (...) Esta vida estava aqui ao meu dispor, a pulsar, a esperar, e eu não a aproveitei. Mas também sabia que não era obrigatório casar com a alma gémea, nem sequer com um "interessante". Nem sempre se precisava de ser a pessoa estonteante, o centro das atenções, aquela que fazia com que todos rebentassem a rir, ou com quem todos queriam ir para a cama, ou ser aquela que escrevia e interpretava a peça que recebia a ovação de pé. Era possível parar de se obcecar com a ideia de ser interessante. (...) Nunca ninguém prevê que a perda da ociosidade é uma das grandes perdas da vida e uma das que deixa maiores saudades."

Meg Wolitzer, Os Interessantes

[É o décimo romance de Meg Wolitzer e eu nunca tinha ouvido falar dela. Mas este livro é seguramente dos melhores que li este ano. Às vezes, aqui e ali, parece um livro para adolescentes, mas nunca poderá ser lido na adolescência. Embora comece aí, nos melhores anos da vida, o tempo dos pactos eternos, dos amigos para sempre, "intocáveis e incorrosíveis", do amor para sempre, o tempo em que tudo é ainda possível, em que ainda "não se entregou as chaves do mundo a outros", o tempo das expectativas desmedidas, em que se acredita que "o talento, essa coisa fugidia, que nos fará suportar a vida". Wolitzer acompanha seis amigos desde os 15 anos até à idade adulta, uma geração que cresceu nos anos 70, desde o período em que ainda não sabia o que seria, até ao momento em que percebe aquilo que não chegou a ser, confrontando-se com a necessidade de reinvenção, de adaptação à "distância entre a fantasia e a realidade". É um livro cáustico, irónico, muitíssimo divertido, e também triste. O NYT comparou Meg Wolitzer a Jonathan Franzen. Talvez seja excessivo. Ainda assim, é livro que nunca mais se esquece.]

sexta-feira, setembro 19, 2014

Rui Nunes: (ou, transigindo, de que lado passarás a morrer, a clarear)?



"Eis uma história que não sabe continuar. Ou não pode. Porque a dor, mesmo quando acaba, anuncia: o erguer da pedra, da lança, do machado. O dedo no gatilho, pequeno aconchego da morte. E nada rompe esta certeza. Os seus mecanismos primitivos.

O sol de súbito. A cegueira oblíqua atravessa a casa. E tudo fica transparente. Como no mar a morte, os corpos que nunca chegarão.
Morrer e viver. Duas portas.
Abertas ou fechadas não passarão de portas.
E sabe-se: qualquer porta é uma mentira.

(...) Somos todos uma vez na vida o peso das nossas
mãos.
Uma vez. Pelo menos.

(...) Já não se anuncia, nem anuncia: está aqui. Abro os olhos e vejo-o. E estou sempre a abrir os olhos. Fecho-os e abro-os de seguida. Está aqui. Eis a minha paz. Está aqui e espera como alguém que sabe de um encontro. Não consola. Não dói. A cada abrir de olhos há uma casa que não me reconhece."

(250 exemplares, 33 páginas, sete euros, um título emprestado de um poema de Nuno Guimarães, uma relíquia como todas as de Rui Nunes, que já várias vezes anunciou o último livro. E agora outra vez. Esperemos que ainda não.)

domingo, setembro 14, 2014

Anne Teresa De Keersmaeker: "Mozart Concert Arias – Un Moto di Gioia"



Nos últimos anos adicionámos Guimarães à nossa agenda. Foi muito antes de Guimarães ser capital da cultura, mas muito depois de Rui Rio ter amputado o Teatro Rivoli ao Porto (o que dá um intervalo de alguns anos de jejum). Foi quando a cidade berço encetou o Guidance. Saíamos do trabalho a correr, fazíamos cinquenta quilómetros em menos de trinta minutos, agradecíamos os espectáculos marcados para as 22 horas (suspeitando que o horário tinha em consideração os órfãos como nós) e mergulhávamos na filigrana do programa de dança contemporânea do Centro Cultural Vila Flor com indizível orgulho por haver auditório sempre cheio e, ao mesmo tempo, com embaraçosa inveja por aquilo não ser na nossa cidade. 

Das muitas coisas maravilhosas que vimos ali ao lado, surgem logo, sem pestanejar, três nomes inesquecíveis: Peeping Tom, Garry Stewart e Jefta van Dhinter. Não incluiria Anne Teresa De Keersmaeker no melhor do que o Guidance nos deu quando nos acolheu, mas ontem, a apresentação, pela Companhia Nacional de Bailado, de "Mozart Concert Arias – Un Moto di Gioia", num Rivoli lotado pelo segundo dia consecutivo, foi quase comovente. Não sei se pela peça, se pelo regresso a casa, se pela casa cheia, se pelo que me parece a libertação de um refém, se por tudo isso. Isto não se explica, mas é comovente voltar a entrar no Rivoli e é sobretudo uma enorme felicidade.

domingo, setembro 07, 2014

Feira do livro



Desde que Passos Coelho me ensinou a não viver acima das minhas possibilidades, fui aprendendo a controlar a fúria de estar sempre a comprar livros novos e passei a ler os que já tinha. Foi assim que me decidi a ler o tempo perdido de Proust, um daqueles livros que achamos que podemos adiar a vida inteira sem perceber o erro terrível que é adiá-lo. Maravilhoso, maravilhoso livro! Obrigada Passos Coelho.

Mas por estes dias abriu a feira do livro no Porto, ou como bem classificou Paulo Cunha e Silva, o festival literário do Porto, e lá voltei a perder a cabeça outra vez, coisa que era cada vez mais difícil perder naquelas feiras da APEL (que cobrava 75 mil euros por feira à autarquia), em que nem novidades nem raridades nem preços do outro mundo. Esta edição da feira do livro, a primeira organizada pela câmara, está cheia de preciosidades (o que só é possível porque as editoras já não têm de pagar dois mil euros para estarem presentes), tem um programa paralelo notável e, ainda por cima, é nos jardins do palácio de cristal. É tão bom viver numa cidade que num domingo à tarde inunda um jardim para vasculhar livros.

sexta-feira, agosto 29, 2014

quarta-feira, agosto 27, 2014

João Pereira Coutinho: Intervalo de gelo*


No fim, João Pereira Coutinho pede para que esqueçamos este texto. Não é possível, e ele sabe. Eu peço só para que o leiam.

Meu pai morreu com esclerose lateral amiotrófica. Corrijo. Foi morrendo. Tinha 50 anos quando a doença lhe bateu à porta.

"Aos 50 anos a minha vida vai mudar", dizia ele, cansado da advocacia, vezes sem conta. Queria mais tempo para ler, escrever. Viajar. Alguém lá em cima tem um sentido de humor celestial. Mudou mesmo.

Mas o que é a esclerose lateral amiotrófica (ELA)? Deixo explicações científicas para médicos e pesquisadores. Digamos apenas isso: se eu tivesse que escolher uma doença terrível para acabar com a minha carcaça, a ELA estaria no final da lista.

Paradoxal. A ELA não dói. Nem necessita de tratamentos invasivos. Porque só ela é invasiva, imparável, silenciosa, apagando o que somos - a marcha, os gestos, as expressões, a fala - até só restar uma estátua com consciência plena. Quando a respiração se apaga (o fim clássico), a estátua apaga-se também. Finalmente.

Meu pai enfrentou o inferno com um estoicismo obsceno. Sim, ainda hoje me parece obsceno que ele nunca tenha chorado a sua sorte. Como me parece obsceno o tempo que ele viveu como se o tivessem enterrado vivo. Três anos. Uma eternidade.

E, nesses três anos, perguntava muitas vezes que pensamentos lhe habitavam a memória - porque a memória é tudo que resta a um corpo rigorosamente pétreo. Que mundo seria o dele, à noite, no escuro, quando as únicas palavras que poderiam ser proferidas eram mentais?

Pensaria na infância? Nos pais dele? Na vida que teve e, mais importante ainda, na vida que poderia ter tido?

Que orgulhos, que arrependimentos, que segredos o assombravam durante a insónia? Mesmo os condenados têm direito às últimas palavras. Que palavras seriam essas?
Silêncio. Ainda hoje formulo as mesmas perguntas contra a mesma parede de silêncio. Sei que existe um livro, "O Chalé da Memória", que o historiador Tony Judt escreveu sobre o assunto. Com conhecimento de causa: também ele morreu nesse abismo lento e conseguiu comunicar para o papel a solidão medonha que a doença traz.

É um livro que continua sobre a minha mesa de trabalho. Nunca tive a coragem suficiente para o ler. Definitivamente, em matéria de coragem, há uma diferença genética considerável. Espero que não seja a única.

E se relembro a doença é porque ela tem andado nas bocas do mundo. Ou, melhor dizendo, nas cabeças do mundo. Baldes de gelo despejados sobre celebridades, que depois desafiam outras celebridades a fazer o mesmo.

O vírus começou com um desafio de um doente com ELA, o americano Pete Frates: ou as pessoas experimentavam a experiência gélida do balde ou então doavam 100 dólares para ajudar a combater esse demónio ignoto.

Sem surpresas, o balde fez mais sucesso entre as celebridades do que a doação anónima. E talvez esse fosse o momento para que o cronista, brandindo o seu chicote e molhando a pena em ácido sulfúrico, escrevesse um longo texto sobre a vaidade das celebridades e a estupidez que fatalmente as define.

Embalado pelo cinismo e pela indignação, seria igualmente possível defender que o balde de gelo não faz justiça à doença. Emparedar as celebridades em cimento seria uma experiência mais próxima da realidade.

O texto, para além de previsível, seria inútil. E, com honestidade, seria também injusto. A brincadeira narcísica do balde foi enchendo os cofres de todas as associações que ajudam milhares de estátuas vivas.

E, com sorte, talvez a medicina consiga fundos para lidar com a mais desconhecida e brutal das doenças mundanas.

Por outras palavras, esqueça o balde e contribua. E esqueça também este texto, este intervalo, este momento de fraqueza. Gelada.
* Folha de S. Paulo

segunda-feira, agosto 25, 2014

Teremos sempre Coura



Se Coura fosse um lugar, seria um daqueles lugares onde desejaríamos ficar para sempre. Mas Coura não é um lugar, é um território mental. Não é seguro que o que lá se passa não passe apenas na nossa cabeça. Ou nesse canto mais fundo e insondável - e infalível - chamado coração. Não vale a pena experimentar sentir o que lá se sente noutro festival. Não funciona. Coura põe-nos a levitar como naquele momento inicial em que um poderoso medicamento nos tira a dor. E, desta vez, foi como ver um filme num cinetoscópio, em que é quase impossível isolar as posições.

Talvez os Chvrches não tenham dado o melhor concerto do festival, mas deram seguramente um concerto mil furos acima do que qualquer jornalista escreveu. É um dos nossos concertos do ano, também porque uma banda é a bagagem que nos dá, e na nossa tínhamos longos meses de perseguição da digressão europeia destes escoceses em busca de um concerto que não estivesse esgotado (estavam todos) e só deixámos de procurar quando foram confirmados em Coura. Logo em Coura!

Lauren Mayberry, com aquela voz de desenho animado, miníma na estatura, é enorme porque não precisa de freakshow nenhum para nos pôr a dançar freneticamente do início ao fim, a cantar do início ao fim. Era impossível ter sido melhor e eu quase gostava de a ter descoberto só ali, para aquilo tudo ser ainda mais bonito. Que pena que não tenha contaminado a encosta inteira. Mas tudo bem, Coura é uma espécie de mapa da caça ao tesouro e é sempre possível encontrar mais do que um no mesmo palco. Ou no palco do lado. Mas não, não foi o excessivamente juvenil Mac DeMarco, apesar da boa imprensa e de todo o hype criado em torno dele.

Ao contrário, um homem que aparece em palco a parecer o Vincent Gallo em novo só pode ser um caso sério. Se ainda por cima nos atira logo para dentro do Pulp Fiction e nos põe automaticamente a sorrir e a menear as ancas como Uma Thurman naquete twist do Chuck Berry (ou como Manuel Justo dos Sensible Soccers), isso é amor à primeira vista. Foi o que sentimos quando vimos Brooks Nielsen dos Growlers, empatia total e muita temperatura a subir. E ainda agora podíamos lá estar a dançar com ele. Depois, há sempre pelo menos um momento epifânico em Coura, daqueles que ajudam a entender por que razão ficaríamos lá para sempre.

Este ano houve dois: Hamilton Leithauser a cantar I'll never love again, I'll never love again, I'll never love again, toda a gente a cantar I'll never love again, ninguém pode em consciência querer cantar isto, mas toda a gente cantou em coro I'll never love again e foi absolutamente de arrepiar. E Cheatahs, naquele Fall (que mesmo remetendo um bocadinho para Song for Zula dos Phosphorecent, a epifania do ano passado) atirou-nos para um lugar qualquer dentro de nós que só é possível descobrir ali. Há concertos de ir às lágrimas em Coura. Estes foram, e foram dos mais memoráveis desta edição.

Mas também há concertos inesperados, que nos deixam com um Hã?! na cara e nos engolem e contagiam. Goat foi um maravilhoso e total freakout. Coura é descoberta, mas também é memória. Isso explica a rendição-lata-de-sardinhas em Beirut (mesmo se já os tínhamos visto em 2011 no Meco e percebido que o concerto não é bem o que gostaríamos que fosse e desta vez tenha sido igual - igual não é mau, é só menos) e não explica o desapontamento de tantos com James Blake.

Raios, ele deu-nos a case of you que não nos deu no Primavera, deu-nos um concerto para ouvir (sentir?) de olhos fechados e no fim ainda nos estendeu como que uma hóstia mágica para uma comunhão de paz. E nós viemos embora dali só a rezar para que dure. Talvez só mais um inverno. Talvez só até ser Coura outra vez. Coura é amor e o amor é cego, mas não é surdo. Talvez tenha sido a melhor edição de sempre. Muito e muito obrigada.

PS1. Já vimos vários concertos dos Sensible Soccers, já os vimos em Coura, e podíamos vê-los alegremente todos os dias. Mas este ano, às seis da tarde (às seis da tarde?!? Sensible Soccers?!?) foi impossível chegar a tempo. Caso contrário, teria sido um dos nossos concertos. Sensible Soccers é sempre um dos nossos concertos.

PS2. Concertos ao fim da tarde é dureza. Chegámos a duas canções do fim de Seasick Steve e, por razões outras, a igual distância de The oh sees. Duas perdas imperdoáveis, consta.

PS3.: Nunca consegui ver um concerto dos Linda Martini até ao fim. E acho que nunca vou conseguir. O concerto começa, tudo bem, o baterista começa com aquele paleio e eu começo a ter vontade de sair e saio, tem mesmo de ser. Não se aguenta aquilo.)

(Nos últimos 16 anos falhei uma edição de Coura, treze das quinze foram vividas contigo, José Miguel Gaspar. Pode mudar tudo e até pode acabar o mundo, como canta o Herman, mas uma vida inteira juntos já ninguém nos tira. És o melhor companheiro rock do mundo.)

quarta-feira, agosto 20, 2014

As elites, os Governos e o BES

É um belo, completo e obrigatório texto, que explica, entre outras coisas, como funciona a elite em Portugal, por que mente o Governo quando diz que os contribuintes não vão pagar o BES e quem são as pessoas que sempre escudaram Salgado, a começar por Durão Barroso.

"Portugal being a small country, it has a family-based and incestuous ruling elite to which Salgado belongs under the branch of the Espíritos Santos. One of the favorite pastimes of this elite is a form of deadpan humour where they make public declarations blatantly disregarding reality and blaming the Portuguese workers for all the problems of their own making.
(...)
Many figures of national and international politics have close ties to the bank. Durão Barroso, everyone’s favorite former European Commission buffon, was a BES consultant before he became Prime Minister. Other figures include a former Minister of Economy and Innovation; a former Minister of Public Works and current president of EDP, the electricity company; a former Minister of Interior Administration; a former Minister of Economy; parliamentarians, among others. These figures belong mostly to the Socialist and the Social-Democrat parties, the power duopoly that alternates in power, keeping up the farce of capitalist democracy while implementing similar policies. The bank thus has a firm foothold in the “centrão” (big center)."

Aqui:
http://revolution-news.com/banker-said-portuguese-dont-want-work-prefer-subsidies-wrecks-bank-bank-gets-subsidies/

domingo, agosto 17, 2014

Don't come knocking by Wim Wenders


He’s a lonely man who’s lost his only love; It’s hiding in his system like a drug. It’s just around the corner there, It’s hiding from him everywhere; He’s a lonely man who’s lost his love. He’s a lonely man who finds no one to blame. He knows that love’s no war and life’s no game. He has an anger in his soul, That holds to love and won’t let go. He’s a lonely man who finds no blame.

sábado, agosto 09, 2014

A most wanted man by Anton Corbijn


"It's a frustrating, unfair world we live in. At least we had Philip Seymour Hoffman for a bit of time, helping us to illuminate it." 
(http://www.vanityfair.com/vf-hollywood/a-most-wanted-man-review)

sexta-feira, agosto 08, 2014

Terrivelmente nosso e indiscutivelmente bom*



O Porto é o companheiro de uma vida. É charmoso, elegante, delicado e tem a base das relações para a vida: é profundamente acolhedor. Gostar de alguém deposita-nos o peso da incondicionalidade: não dá para admitir o desdém do que, na alma, é terrivelmente nosso e indiscutivelmente bom. Quem é do Porto defende a cidade com unhas e dentes porque nascer tripeiro significa ter orgulho num sotaque que não se quer perder, e isso é só um pedaço visível de tantos sentimentos menos óbvios. Defender o Porto significa levantar a bandeira da simpatia que não há noutros sítios e gostar de chamar as coisas pelos nomes: um fino nunca foi uma imperial, não há cruzeta que venha a ser cabide, nem há estrugido que possa ser tratado por refogado.

O Porto tem a melancolia dos amores que são para sempre: parece desenhado, melancólico e projecta sombras incríveis que — tenho a convicção — o sol só lhe dá a ele.
O amor traz destas cegueiras que nos permitem apreciar defeitos. É por isso que o mar pode vir gelado e ser um puzzle de rochas difíceis de desencaixar, o vento até pode vir de Norte e ser preciso travá-lo, mas não há cheiro a sargaço como aquele.

Ser do Porto e não viver no Porto converge na simbiose que é encontrar alguém que tem a mesma base. Bastam minutos de conversa para saber que o código geográfico é comum e que o ADN não se vinca só no sotaque, já que o mais bonito transborda na maneira de estar.

A saudade é uma palavra tão repetida que até já soa vulgar, por isso, enquanto me contorço de dores por não lhe encontrar sinónimo, a verdade é que a falta que as pessoas nos fazem pode ser traduzida em lugares, se eles nos encherem de sensações.

Ser do Porto é sentir a cidade como uma tatuagem que nunca precisou de estar desenhada. Confesso que não encontro esta necessidade de proteger este pintainho debaixo da asa (sem nunca ninguém nos pedir para isso) nas pessoas que nascem noutros lugares. Confesso que amigos de cidades tão diferentes não as defendem com metade da convicção que carrega esta pronúncia do Norte a que os “tontos chamam de torpe”.

Vão e vêm: são assim os estudos com dados estatísticos sobre a vida, como se ela pudesse ser tratada em gráficos. Esta semana, surgiu mais um: o Porto é a cidade mais amada pelos seus habitantes. Fica no topo da lista, adianta-se a Hamburgo, passa Colónia, finta Munique e ganha a Barcelona. Qualquer sentimento semelhante a este é mais bonito em imagens do que em todas estas palavras. E não é preciso nenhum gráfico para medir.

* Marta Couto, hoje, no P3

quinta-feira, agosto 07, 2014

Paulo José Miranda: Filhas


"O futuro dói-lhe muito. Beber acalma-lhe a dor. (...) A dor de quem não quer que as coisas mudem. Porque têm de mudar os sentimentos e as pessoas, porque não podemos permanecer nas palavras que dissemos. Porque a alegria tem de transformar-se em tristeza, em dor, em palavras do avesso do que já foi dito? Chegou a prometer a Deus que, se voltasse a sentir dentro de si o amor que já tinha sentido, nunca mais ia... nunca mais qualquer coisa... O desespero de quem começa a entender o que é ser humano, e que nada, mas mesmo nada, nos pode fazer andar para trás, no tempo e nos sentimentos. Ser humano é não ter inversão de marcha. Ser humano é ser para a frente, sempre para a frente. E para a frente é para o fim, para a dor, para a decrepitude.

(...) Passou a beber para atrasar a vida. Quando um humano quer ser bom e descobre o medo que a vida encerra no seu interior, é muito raro não querer atrasar ou mesmo boicotar a vida. Querer o bem, e não o conseguir fazer, dói muito.

O maior mal dos nossos tempos é o deserto que construímos para nossas vidas, como se tivéssemos, anos atrás, cortado todas as árvores da nossa humanidade e feito uma replantação só de eucaliptos o que, com o tempo, conduziu à desertificação do humano e aos desertos onde vivemos, desertos que somos. (...) O adubo que alimenta as raízes é o medo, o isolamento e a desconfiança. Olhamos, vemos e cheiramos a deserto. Cheiramos o deserto e cheiramos a deserto."

[Tem a duração de um jogo de futebol, o livro e a leitura do livro. O que fica é muito mais. Absolutamente rendida a Paulo José Miranda.]

terça-feira, agosto 05, 2014

Garrel X2


Louis Garrel é o Ryan Gosling dos franceses, é tão tudo que pode fazer o que quiser. Eu, que nunca pendurei fotografias de actores nas paredes do quarto, nem nos cadernos da escola, nem numa qualquer esquina da cabeça, não sei se teria a mesma lucidez se hoje tivesse 15 anos. Não sei se resistiria à tentação de forrar a vida com frames do Ryan Gosling. Felizmente, já não tenho 15 anos... A idade não serve para grande coisa, mas sempre nos poupa de um certo ridículo. O que não consegue evitar é o fremitozinho de cada vez que Louis Garrel - actor e cantor, com pequenas incursões pela realização, como Gosling -, mas muito mais do que só um guilty pleasure como Gosling, aparece num novo filme. Há quem diga que Garrel faz sempre só de Garrel (como Gosling parece fazer sempre só de Gosling), mas se outra prova de diferença não houvesse é vê-lo num filme de Garrel-pai, dos mais superlativos cineastas europeus, e noutro filme qualquer (talvez com excepção para Honoré). Temo-lo agora em dose dupla, em "Um castelo em Itália" (Valeria Bruni Tedeschi) e em "Ciúme" ( Philippe Garrel). São os ditos dias felizes do cinema. Pena que passem sempre ao lado do Porto. Aceitam-se links para cópias, portanto.

domingo, agosto 03, 2014

Asaf Avidan



My life is like a wound I scratch so I can bleed
Regurgitate my words, I write so I can feed
And Death grows like a tree that's planted in my chest
Its roots are at my feet, I walk so it won't rest

Oh, Baby I am Lost...

I try to push the colors through a prism back to white
To sync our different pulses into a blinding light
And if love is not the key. If love is not a key.
I hope that I can find a place where it could be

I know that in your heart there is an answer to a question 
That I'm not as yet aware that I have asked
And if that tree had not drunk my tears
I would have bled and cried for all the years 
That I alone have let them pass

Oh, Baby I am yours...

sábado, agosto 02, 2014

Pedro Mexia: "Amigo meu"


"E algumas das manifestações de amizade mais consistentes que conheço consistem em deixar alguém em paz, deixá-lo ser quem é, às vezes sozinho, em solidão temporária e benéfica.

Não ter amigos, não ter amigos nunca, leva ao fechamento, à incivilidade, à insanidade. Mas há amizades que são também formas de solidão. Amizades sem empatia, isto é, sem a tentativa de entendermos aquilo que nunca experimentámos. Amizades sem confidencialidade, que são formas de perfídia. Amizades inclementes como julgamentos sumaríssimos. Ou um amigo que diz mal de nós em público, ou fica calado quando nos ofendem. Um amigo que é um inimigo."

sexta-feira, agosto 01, 2014

Paulo José Miranda: Todas as cartas de amor



Meu amor,

Não estranhes que a pele de outro não tenha um cheiro agradável! Nem mesmo esse que agora arrastas pela mão ao longo de um corredor e parece contente porque o levas ao cinema. Não era a minha pele, meu amor, era o meu coração que cheirava bem, quando te encostavas a mim. Não era a minha boca que te beijava bem, meu amor, era o meu coração e o meu hálito fresco de nada ainda se ter partido por dentro. E escrevo-te agora de uma cidade distante, moribundo, gasto e a recuperar-me pelos beijos e pelas palavras de uma outra mulher, porque somos e seremos sempre outros que outros hão-de descobrir.

Ninguém pode saber quem é, depois de tanto tempo a ouvir dizer sempre o mesmo que se é. Eu só era aquilo que conseguias ver, mais nada. Se dizias que eu não prestava, eu não prestava; se dizias que eu prestava, eu prestava; se dizias que eu era alto, eu era alto; se dizias que era baixo, eu era baixo. É por isso que ficar sem ti, foi ficar sem identidade. Não te perdi quando partiste, perdi-me! Agora, aos poucos, de boca em boca vou me descobrindo. A cidade tem um rio que a atravessa, onde os jovens ao fim do dia se sentam em grupos com as suas garrafas e, por vezes, passam uns aos outros as bocas e as mãos. A cidade tem museus que, sem ti, não visito. E, com esse tempo livre, ando pelas ruas, pelas avenidas, pelas pessoas e pelos cafés, perdido como sempre, pelo menos até encontrar uma outra pele que me saiba tão bem quanto a tua e me diga quem sou. 

Porque o amor, meu amor, é esta necessidade que o humano tem de lhe dizerem quem ele é. A necessidade de acreditar no que lhe dizem; a necessidade que o humano tem de acreditar no que uma pessoa lhe diz. Meu amor, sem amor somos apenas tudo aquilo que podemos ser e não aquilo que somos. Não te admires tanto de estranhares a pele do outro que levas pela mão, meu amor, ele não te pode dizer quem és. Perdoa-lhe, assim como eu te perdoo.
O teu.

Paulo José Miranda, Todas as cartas de amor

[Não há cartas de amor a fazer de conta. Pode inventar-se um romance, mas não pode inventar-se uma carta de amor, acho. Por isso, é preciso coragem para publicar esta colecção. Sobretudo, porque não são cartas trocadas como as de Anais Nin e Henry Miller, ou como as de Fernando Pessoa e Ofélia. São cartas sem resposta, o que as torna ainda mais nuas. Escritas por um homem, ainda por cima. Neste tempo.]



sexta-feira, julho 25, 2014

Sensible Soccers no Milhões de Festa

When the sun hits...

sábado, julho 19, 2014

segunda-feira, julho 14, 2014

Paulo José Miranda: A máquina do mundo


"O medo existe. O medo é real; não é um estado de espírito como o amor. Não podemos construir o amor com as nossas próprias mãos, mas podemos construir o medo com as mesmas mãos que nada podem fazer para a construção do amor. (...) Há ainda ingénuos que pensam que o pior que pode acontecer é estar vivo! A tortura é muito pior que estar vivo. O mundo caminha para muito pior que estar vivo. Felizes aqueles que estão tristes! O medo fica para além da tristeza. A tristeza é um medo pequenino, um medo de crianças. O mundo e o medo estão a crescer. O ser humano só é triste antes de ser torturado. A tortura acaba coma tristeza. A tortura é o exercício máximo de poder. Através da tortura mudamos o destino, mudamos a natureza das coisas. 

(...) Os objectos, as coisas são substitutos das faltas que não conseguimos colmatar nem explicar. Sente-se um vazio enorme dentro de nós, como a fome. Um vazio enorme à nossa volta, continuamente à nossa volta, como um cão abandonado a pedir comida. E, perante isto, o que fazemos? Damos-nos coisas, compramos coisas. E o tamanhos das coisas que nos oferecemos não é necessariamente proporcional ao nosso vazio. Neste vazio, e na invenção da sua sublimação, está provavelmente a origem da violência. A violência é o modo mais eficaz de se apagar o vazio dentro de nós, de fazê-lo parar de correr ao nosso redor. (...) Querer negar a violência é querer negar a própria história do homem, negar até o próprio homem. Há entre a humanidade e a violência uma indesmentível e forte ligação.

(...) O mundo não é outra coisa senão uma empresa, a Existe Lda., na qual apenas alguns participam nos lucros, e os outros fazem o que lhes mandam, ainda que julguem que não é assim, que não estão a ser mandados, que têm livre-arbítrio social e político, ao invés de estarem a ser manipulados por quem realmente manda, por quem realmente decide, por quem tem os dados nas mãos."

[É oficial: Paulo José Miranda é a melhor coisa que nos aconteceu este verão. Por razões outras que não a de querer proteger-nos de uma ressaca, o mercado livreiro brindou-nos com três livros do autor ao mesmo tempo, os três completamente diferentes, mas o resultado final é esse: proteger-nos da síndrome de abstinência em que mergulharíamos se não pudéssemos imediatamente saltar para outro livro. "A máquina do mundo", com maravilhosas ilustrações do André Carrilho, é absolutamente genial! Não é sobre a violência, é violento, é para maiores de 18 anos, impõe bola vermelha no canto superior direito, obriga a esgares de terror que geralmente só fazemos no cinema. É sobre mercados, sobre dinheiro, sobre política, sobre poder. Sobre morrer ou matar. Tudo em cima da mais subtil das metáforas: o que faríamos se tivéssemos cinco vidas para desperdiçar antes de perdermos? E se o amor correspondido fosse uma das duas únicas formas de ganharmos uma vida extra? É sobre existir ou viver. Absolutamente magnífico.]

domingo, julho 13, 2014

sexta-feira, julho 11, 2014

Greve

Ninguém quer ser jornalista para enriquecer. Ao contrário, ser jornalista é ter a certeza de que se será sempre pobre (esses que conseguem salários mirabolantes e cláusulas milionárias de rescisão não contam). E, ainda assim, escolhe-se ser jornalista, escolhe-se ser pobre, escolhe-se não ter horários, escolhe-se ser pequeno depois de adulto, porque escolhe-se continuar a acreditar que é possível mudar o mundo. Mesmo que seja só um bocadinho, mesmo que seja só de vez em quando. Mesmo quando o mundo não muda. O jornalismo é um vício e é uma profissão de fé. Insistir, acreditar, insistir, acreditar, insistir contra tudo e contra todos. E é amor destrambelhado, porque continua a fazer parte de nós, do que queremos continuar a ser, mesmo quando nos deixa ficar mal. E deixa tantas vezes. 

Quando corre bem, a felicidade que o jornalismo nos dá não é comparável a nenhuma outra. Quando corre mal, é uma merda. É difícil de superar. Em quase 14 anos de profissão, já tive dias em que me apeteceu insultar pessoas, dias em que me apeteceu bater em pessoas, dias em que me apeteceu partir tudo no jornal. E muitos dias em que me apeteceu desistir. E, no entanto, o pior dia da minha vida no jornal foi, de longe, aquela sexta-feira em que vi o Jorge ir embora. Pior do que esse dia só mesmo o dia seguinte, quando cheguei e o Jorge já não estava aqui, na secretária em frente à minha. E o Paulo já não estava em Lisboa, à distância de um telefonema repetido mil vezes por dia. Os dois para me editarem, para me fazerem rir, para me ensinarem tanto, para me colmatarem uma memória que não posso ter. Os dois, dessa gente rara que não precisa de gritar para ser obedecida, nem de atropelar para ser respeitada. Os dois, enormes, preparados para trabalharem em qualquer jornal deste país. Esses dois que, entre tantas outras coisas impagáveis, devolveram-me a alegria no trabalho. 

Devia estar hoje a fazer greve por eles? E pelo Madaíl e pelo Hélder e pela Joana e pelo Lobo e pela Lisa e pelo Carmo e pelo Mota e por esses tantos e tantos que foram despedidos? Talvez devesse. Mas não consigo. O desconforto que sinto por estar a trabalhar não supera a hipocrisia que sentiria se tivesse faltado. Não identifico na greve, arma anacrónica, qualquer resquício de eficácia. Ainda assim, votei em plenário uma moção em que foi dito que discutiríamos os termos, a data e a duração de uma possível greve. Votei a possibilidade, não a greve. Ter sido essa greve apresentada como acto consumado, sem a prometida discussão, é uma deslealdade do sindicato. 

Mais importante, há meses e meses que sabíamos que o grupo tinha a cabeça a prémio. O assunto foi noticiado inúmeras vezes no último ano. Não sou sindicalizada, posso estar a ser injusta, mas não me parece que o sindicato tenha tratado de antecipar os danos. Criar agora nas pessoas a expectativa de que é possível reverter o processo, parece-me novamente uma deslealdade. E se estiver enganada, ficarei muito feliz por isso. 

Finalmente, a greve não responde a nenhuma das inquietações que creio não serem só minhas, nem responde a nenhuma das perguntas para as quais gostava de ter respostas, nem invalida sequer a continuação da derrocada. Pessoalmente, gostava de saber quanto ganha a direcção do meu jornal e as direcções de todos os outros títulos do grupo. Gostava de saber quantos directores têm direito a carro e a cartão de crédito e porquê. E gostava de saber que percentagem representam no universo salarial do grupo. Não sou aumentada desde 2007, provavelmente estou só a ser mesquinha. Mas recentemente a administração de um jornal da praça ameaçou despedir não sei quantos jornalistas e os directores propuseram uma redução nos seus próprios salários para impedir esses despedimentos. Com sucesso, tanto quanto sei. Também gostava de saber se a direcção do DN ganhou no ano passado, ano em que as vendas do jornal tiveram uma quebra substancial, um prémio de produtividade ou se isso não passa de boato. Também gostava de saber se o director do DN tem uma cláusula de rescisão de contrato de um milhão de euros ou se isso é um mito urbano.

Também gostava de saber que critérios foram usados para despedir os jornalistas e abolir secções. Ou que critérios são usados para manter quem cá ficou. Ou que garantia dá essa poupança para a sustentabilidade do grupo. Ou que estratégia está a ser desenvolvida para crescermos. Ou que critérios editoriais pautarão o futuro. E que valores. E se haverá fusão de títulos. E ancorada em que argumentos. E que direcção, em cada título, cai ou continua. E porquê. E a que preço. E quem é afinal a administração que agora temos? De onde vem e o que pretende? 

Também gostava de saber por que razão qualquer político do burgo, por mais anão que seja, sabe sempre antes de qualquer um de nós o que nos espera. Ou por que razão - mais isto, concedo, já é outro assunto - as autarquias do Porto, Gaia e Matosinhos estiveram, e bem, ao lado do centro de produção da RTP Porto e não se pronunciaram sobre o JN, único diário no Norte? Ou por que razão a Câmara de Gaia anunciou que queria ser accionista da agência Lusa para evitar uma putativa privatização, alegando como interesse a democratização da informação, e nada disse sobre o JN?

Antes de ir embora, o Jorge disse que todos temos culpa do que está a acontecer-nos. E é verdade. E continuaremos a acumular culpa se continuarmos a querer desmascarar os pecados dos outros e a varrer os nossos para debaixo do tapete. Se continuarmos a querer sacar a verdade aos outros para emoldurar belas manchetes e pouparmos os nossos do cumprimento dos mínimos olímpicos da verdade. 

Infelizmente, a greve não repõe esse implacável desejo de verdade pelo qual pauto a minha vida e que me fez querer ser jornalista. Nem me dá a sensação de estar a salvar um colega que seja. Não é uma desculpa cobarde, é um apelo de consequência. Gostava que fôssemos mais longe, muito mais longe, do que uma greve de sindicato.

domingo, julho 06, 2014

sexta-feira, julho 04, 2014

Hugo Torres: Se eu quisesse, enlouquecias *

Revienga no Herberto: se eu quisesse, enlouquecias. Sei uma quantidade de comentários terríveis. (Finta, passa, recebe na linha, cruza, bola na meia-laranja, remata Assírio, golo. Golo!) Hitler Salazar Torquemada, nazi fascista, inquisidor evangelista, ateu funcionário cientista, republicano reviralhista, imperialista colonialista comunista, estalinista maoista castrista, branco preto amarelista, azedo cadáver modernista, imberbe pelintra caciquista, judeu crente islamista, lobo borrego abrilista, isolado pascácio centralista, censor acelerado passadista. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio...

(Está tudo no Herberto, mas não está.) Há poesia suficiente nas caixas de comentários para mil servidões, dez mil ofícios, cem mil mortes, mil milhões de photomatons &. Não há estratégia nenhuma nisso – editorial ou outra. Se houvesse, enlouquecias. Se eu quisesse, se tu quisesses, enlouquecíamos todos. Se o mundo desabasse, os comentários online resistiriam. Contra a entrega da soberania do planeta às poeiras cósmicas, contra o fim, contra o nada. Se o desaparecimento do mundo durasse o suficiente, haveria quem comparasse o fenómeno ao III Reich ao Holocausto aos gulags à ocupação do Tibete ao genocídio do Ruanda ao neoliberalismo estatista ao Sócrates. Qual é o problema do Corinthians? Ninguém se entende. Não sei se, a certa altura, não é bom haver seis meses sem democracia, mete-se tudo na ordem e depois, então, venha o Benfica. Nunca me deu para insultar o árbitro. Nem nos jogos do Varzim. Palhaço! Palhaço! Anda um tipo a segurar as taxas de juro, a agradar aos mercadinhos aos machadinhos, e isto é penálti? 

Tenham calma, tudo se resolve. Não não não: esperem. Tenham calma. Leiam tudo. Leiam até ao fim. Aqui ninguém é pago pela CIA, ninguém é ex-KGB. Que as sardinhas me caiam no lume. Vá, olhem o coração, o aneurisma, as hemorróidas. Ninguém se desgraça. Todos a contar até dez. Inspira, expira. Inspira, expira. O que pensa que vai fazer? Pouse essa palavra no chão – é uma ordem! Vamos jantar ao bom-senso – pronto, está resolvido. Mantemos o Velho Oeste no cinema e ninguém se mexe até o filme acabar. Até o texto acabar. Até acabarmos todos. A vida. Inteira. Acontecimento. Excessivo. Tem de se arrumar muito depressa e felizmente há o estilo, diz o Herberto, mas para ele é fácil e para os outros não é tão simples, não é só acordar às quatro da manhã e rezar pela literacia dos leitores, embalar e mandar para a gráfica, não é assim, às três da manhã estão a assar-nos a carne e às cinco roem-nos os ossos. Moem-nos durante o sono e acordamos com aspas. Jornalistas com as aspas. Gente com aspas.

Ninguém. Participa, filho, participa. Seu vendidozinho mangas-de-alpaca, meu pós-modernistazinho, minha bomboca revolucionária. Senta-te direito! Porta-te como um homem! Finge que és 2.0 e esconde-te nos outros. Evangeliza, filho, evangeliza. Só sobrevivem os irredutíveis. Só dialoga quem nunca se engana. Só tem dúvidas quem não puxa pelo Google. Faço-me entender? Fazer sentido está sobrevalorizado. A política está sobrevalorizada. A cultura, a educação, a saúde, as viagens, os vinhos, a gastronomia, a ciência, a tecnologia. Tudo está sobrevalorizado: segundo os mais recentes estudos, acabaremos todos por morrer. Não sabiam? Isto é um jornal ou um pasquim sem préstimo? Já não é o que nunca foi e eu tenho muito pena. Tanta. Quando foi a última vez que pediu o café e a torrada, e disse ao empregado: o senhor é um ignorante, um cábula, uma besta? Quando foi a última vez que: o senhor anda conluiado com as forças ocupantes da manteiga e com os lacaios do pão às postas. Não tem geleia? Censura!

Estamos tão focados nas falhas dos outros que não damos conta de como as repudiamos e de como as debatemos. As caixas de comentários online são usadas para expelir agressividade e desconfiança. Conversamos ao ataque e, por vezes, debitamos generalidades antes de ler. Mesmo quem lê vocifera. Como se estivesse num processo visceral, como se escrevesse poesia: não aguentamos a desordem estuporada da vida. Toda a democracia digital para isto. Não são os trolls, somos todos. Uns mais do que outros. A maior parte suficientemente contida para passar na moderação. Apontamos muitos dedos. “De facto, se os participantes num debate online deixassem de se envolver em ataques ad hominem, os debates teriam relativamente pouca incivilidade”, diz-nos um estudo publicado no Journal of Communication. Então, por que não? E por que não ouvir, tolerar, respirar? E não misturar: para tudo, o Passos, o Cavaco, o poder, a corrupção. Cada pé em seu sapato. E bola para a frente.

* Hoje, no P3, o melhor texto que lemos nos últimos tempos