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terça-feira, outubro 08, 2013

valter hugo mãe: A desumanização


"Sobre a beleza o meu pai também explicava: só existe beleza no que se diz. Só existe a beleza se existir interlocutor. A beleza da lagoa é sempre alguém. Porque a beleza da lagoa só existe porque a posso partilhar. Se não houver ninguém, nem a necessidade de encontrar a beleza existe nem a lagoa será bela. A beleza é sempre alguém, no sentido em que ela se concretiza apenas pela expectativa da reunião com o outro. Ele afirmava: o nome da lagoa é Halla, é Sigridur. Ainda que as palavras sejam débeis. As palavras são objectos magros incapazes de conter o mundo. Usamo-las por pura ilusão. Deixámo-nos iludir assim para não perecermos de imediato conscientes da impossibilidade de comunicar e, por isso, a impossibilidade da beleza. Todas as lagoas do mundo dependem de sermos ao menos dois. Para que um veja e o outro ouça. Sem um diálogo não há beleza e não há lagoa. A esperança na humanidade, talvez por ingénua convicção, está na crença de que o indivíduo a quem se pede que ouça o faça por confiança. É o que todos almejamos. Que acreditem em nós. 

(...) Senti-me muito feia por andar ainda atrás da beleza. Era tão diferente de fugir. O meu pai desentristeceu-me. Prometeu que leríamos um livro. Os livros eram ladrões. Roubavam-nos do que nos acontecia. Mas também eram generosos. Ofereciam-nos o que não nos acontecia. (...) Devia ser a poesia do meu pai que me mimava. Os livros. Eram os livros. Diziam-me coisas bonitas e eu sentia que a beleza passava a ser um direito. (...) Quando passam os bandos a voar, o meu pai diz que é um texto. Diz que o podemos ler. 

(...) A poesia é a linguagem segundo a qual deus escreveu o mundo. Disse o meu pai. Terrível ou belo, o poema pensa em nós como palavras ensanguentadas. Somos palavras muito específicas, com a terna capacidade da tragédia. A tragédia, para o poema, é apenas uma possibilidade. Com um humor momentâneo.

(...) Eu disse: nunca vou gostar mais de outra pessoa do que de ti, pai."

[Não sei se é o melhor livro de valter hugo mãe, porque não li todos. Mas sei que depois deste livro só nos resta uma hipótese: declarar-lhe amor para sempre.]

terça-feira, agosto 02, 2011

valter hugo mãe

"A minha utopia é a mais estapafúrdia: que o mundo ainda vai ser composto de boa gente e isto ainda vai levar aqui umas hecatombes, mas mais cedo ou mais tarde a humanidade ainda vai ascender a uma condição muito benigna, e vai ser exactamente aquilo que se espera que um bicho que pensa e sente seja: progredir até ao equilíbrio das suas energias e ao alcance da benignidade."

valter hugo mãe, entrevista de Vanessa Rodrigues, NS de 30 de Julho de 2011

segunda-feira, março 28, 2011

"Ficarei sempre grato aos livros"


Tenho usado as palavras para tudo quanto me falta. Sei que, por muita ilusão, me convenci a vida inteira de que aludir às coisas era já um pouco possuí-las e pertencer-lhes, como um modo de sonhar acordado que, para mim, funcionou e me permitiu sempre alguma felicidade.

Os textos, por isso, foram-me reiteradamente úteis, entre seres capazes de inventar as maiores fantasias como de explicarem também a mais evidente realidade. Em certas alturas, os textos foram tudo, tiveram o ofício de ser tudo, sobretudo exterminando uma solidão para que me remetiam a timidez e um desajeitado modo de ser. Isso, por si só, haverá sempre de fazer de mim o mais grato dos homens a isto que é ler e escrever. Ficarei sempre grato aos livros.

Sou eminentemente outro após um livro, um que escreva ou um que leia. Procuro nas palavras aquilo que me acrescente, por me faltar, que proponha o que nunca lera, a que nunca pensara e assim me elucide melhor, me suscite a questão e incentive à procura de uma resposta. A aventura dos livros é toda essa. A contínua descoberta da infinitude dos assuntos, da infinitude do pensamento, que deve ensinar-nos a aceitação, essa coisa que por outra palavra muitos chamam de tolerância.

A leitura é toda ela um exercício de contacto com o outrora desconhecido e pretende, acima de todas as coisas, a partilha, um reconhecimento de lugar, como um respeito mútuo. A aceitação. Ler é praticar a sociedade. Ler é efectivar a sociedade. É receber o mais depurado dos pensamentos de que alguém foi capaz e ponderar, ainda que tantas vezes ludicamente, como a vida foi, como é, e como poderia ser melhor. Ler é ter passado e fazer futuro.

(...) Que se juntem, pois, os que sabem que a partir dos textos se pensa melhor, se faz melhor, se é melhor. Com o tempo, ler faz amigos. Para que ler signifique verdadeiramente não estar sozinho e ter voz.

[Este texto é do sempre brilhante valter hugo mãe, escrito para um prospecto da Fnac, que agora criou um clube de leitura. Mas é demasiado bom para ficar perdido num dos mil suplementos publicitários que se atropelam e se ignoram no meio dos jornais. Está aqui tudo sobre o que significa essa coisa de ler e escrever.]

quarta-feira, novembro 17, 2010

valter hugo mãe: As mais belas coisas do mundo


Vale sempre a pena, cada vez mais, voltar aos livros de infância. Está lá tudo o que precisamos saber e mais cedo ou mais tarde acabamos por esquecer. "As mais belas coisas do mundo", de valter hugo mãe, provavelmente o melhor escritor português da sua geração, é uma história belíssima, que se lê num sopro. E quando se chega ao fim é impossível não voltar ao princípio. É um livro infantil, acho. É obrigatório, tenho a certeza.

Esta é a história de um menino que, desafiado pelo avô, procura conhecer os mistérios da vida. Avô e neto vivem num jogo sem fim de perguntas e respostas, enigmas e soluções, procurando, adivinhando e aprendendo sempre. Certo dia, o menino fica sem resposta quando o avô lhe pergunta: Quais são para ti as coisas mais belas do mundo? São as coisas de verdade, como tanto quanto se vê e toca, Ou as coisas invisíveis, aquelas que pensamos, sentimos e sonhamos?

quinta-feira, outubro 22, 2009

valter hugo mãe: o apocalipse dos trabalhadores


Ela queria morrer de amor. "Porque o amor não cabia quieto no espaço tão pequeno que era o corpo de mulher." O corpo dela, mulher de Bragança, mulher-a-dias, mulher de marinheiro, roliça Maria da Graça, portuguesa típica, quarenta anos, um bocadinho mais ou um bocadinho menos, que quando não há futuro para sonhar, tanto faz a idade. Maria da Graça queria morrer - já agora, de amor -, porque só morrendo encontraria a felicidade. Ou pelo menos, paz. A felicidade e o senhor Ferreira, patrão de uma vida, "velho a quem idade não tirava o fulgor", homem "maldito" que lhe ensinou o requiem de Mozart e a beleza de Goya, a poesia de Rilke e as teorias de Bergman, "homem sem escrúpulos" que lhe escalava o corpo de cada vez que ela, reles empregada, se colocava de rabo para o ar a esfregar o chão. Parecia maldito; era bendito. Era o mais próximo que conhecia de ser feliz. Mesmo que odiasse. Ao marido, Augusto, colocava "lixívia gourmet" na sopa. Não era para o matar; era só para se vingar da dor.

Maria da Graça e Quitéria são as melhores amigas, as duas de Bragança, as duas carpideiras semi-profissionais, putas de vez em quando. Entretêm-se a falar sobre o nada que é a vida de quem na vida não tem nada para esperar que não seja trabalhar para não ter nada. Quanto mais amor de verdade. As duas vazias de sonhos, as duas ali perdidas, esquecidas por deus. Uma à espera que a morte a salve; a outra a ser salva aos bocadinhos por uma pila qualquer, descartável, esquecível. Até conhecer Andriy, ucraniano belo, 23 anos, imigrante, tão esquecido por deus como elas; como elas, tão abandonado pela vida. Ele à procura em Portugal também de uma salvação qualquer, que num país que faz uma revolução com flores nada de mal pode acontecer. Pensava ele, pensavam os pais. Encontra Quitéria. Insondáveis os caminhos do amor.

"o apocalipse dos trabalhadores", de valter hugo mãe [QuidNovi, 2008], é assim uma espécie de soco no estômago que não passa, que fica ali sempre a bater como um martelo pneumático. Também na cabeça. É uma história de aqui, de agora, a dizer-nos que se calhar mudámos muito pouco, quase nada, apesar de tudo o que mudou. É a história de quem está no purgatório à espera de saber se vai para o céu. O inferno já todos conhecem. Somos nós, e não parece.