[Oleg Oprisco]
Uma frase de Pedro Ayres Magalhães que li há tempos, escondida numa entrevista de jornal: "As pessoas tratam-se mal e depois dizem que isto é uma merda."
Quando falamos na infelicidade dos portugueses, e agora é uso corrente falar-se na infelicidade dos portugueses como um tema político, devíamos falar mais vezes disto. Quero dizer: devíamos concentrar-nos mais no óbvio e não somente na conversa "científica" que procura justificar o desalento dos portugueses com condições externas, quase sempre socio-económicas, que cada um deles não pode controlar.
Há hoje, por toda a parte, uma indústria cultural e académica em torno da ideia de felicidade. A felicidade começou a ser estudada por psicólogos, economistas, neurocientistas, politólogos. Não estou a pensar em manuais de auto-ajuda mas em estudos, livros, testes que procuram perceber o que conduz e não conduz à felicidade. Vivemos tempos positivistas. Claro que ninguém se entende sobre o que a palavra significa. Há fórmulas que medem a felicidade de povos inteiros e perguntas nos inquéritos de opinião sobre felicidade, bem-estar e satisfação dos cidadãos.
Muitos desses estudos sobre a felicidade, os que conheço, são admiráveis em isolar correlações, efeitos, experiências. Podem convencer-nos. Mas muitos são também, paradoxalmente, um entrave à própria ideia de felicidade entendida como procura. Vulgarizados em livros cada vez mais acessíveis ao grande público, estes estudos oferecem um caminho fácil para justificarmos os nossos medos e incapacidades. Habituamo-nos à infelicidade e às suas causas exteriores. Passamos a conhecê-las, mas não a combatê-las. Com isso vão-nos afastando da convicção de que os obstáculos à felicidade não passam só pelos outros, pelas decisões políticas ou pelo Estado. Passam também por nós mesmos. Ou dito de outra forma: passam pela procura da felicidade.
Esta procura da felicidade, que conhecemos da Declaração de Independência dos Estados Unidos, é no fundo o que sustenta o melhorismo das nossas sociedades. Todos nós, pobres ou ricos, queremos melhorar a nossa condição. Melhorar o que fazemos, o que temos, o que somos. As pessoas tratam-se mal e depois dizem que o país não presta. Os prédios estão sujos, mas os condomínios não funcionam. As escolas são más, mas os pais esquecem-se de lá aparecer. Os jornais são criticados, mas poucos lêem e poucos protestam. As universidades parecem conventos, mas ninguém se lembrou de contribuir para que não fossem. Desistimos de melhorar.
Sim, vamos admitir que a infelicidade crescente dos portugueses é uma questão política. Na origem dessa infelicidade estão causas económicas: baixos salários, desemprego, trabalhos precários, má gestão, empobrecimento, ausência de expectativas, desconfiança e mais desconfiança. Tudo isto depende de aspectos políticos que nenhum de nós controla. Mas não é só por isso que a infelicidade dos portugueses pode ser vista como uma questão política.
As sociedades liberais, ou sociedades de liberdade como nos prezamos de ser, precisam de cidadãos satisfeitos, de cidadãos felizes, porque apostam na sua coragem e desprendimento para procurarem a felicidade e melhorarem a sua condição. São sociedades que sabem usar a infelicidade, sem medo e sem inacção. Precisamente o melhorismo.
[Hoje, no Público]



