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quarta-feira, dezembro 11, 2013

Mesmo!


sábado, março 16, 2013

Verdade, bondade e beleza

[Primeira audiência com jornalistas]

“Caros amigos, estou contente por vos encontrar no início do meu magistério na cadeira de Pedro, a vocês que trabalharam aqui em Roma neste percurso intenso, iniciado com o surpreendente anúncio do meu venerado predecessor Bento XVI, no último 11 de Fevereiro. Saúdo cordialmente a cada um de vocês. (...) O lugar dos mass media foi crescendo sempre nos últimos tempos, tanto que se tornou indispensável para narrar ao mundo os acontecimentos da história contemporânea. Um agradecimento especial a vocês, pelo vosso qualificado serviço nos últimos dias. Vocês trabalharam, eh? Trabalharam...

Quero-vos bem.

Para o vosso trabalho são precisos estudos, sensibilidade, experiência, como em tantas outras profissões, mas é precisa uma grande atenção à verdade, à bondade e à beleza, e nisto estamos próximos porque também a Igreja existe para comunicar a verdade, a bondade a beleza. Deve ficar bem claro que somos todos chamados não a comunicar nós próprios, mas esta tríade existencial que é formada pela verdade, a bondade e a beleza.

(...) Queria tanto ter uma Igreja pobre e para os pobres. A Igreja, mesmo sendo uma instituição histórica, não tem uma natureza política, é essencialmente espiritual: é o povo de Deus. (...) Sem Cristo, Pedro e a Igreja não existiriam. Como repetiu várias vezes Bento XVI, Cristo está presente e guia a sua Igreja. O protagonista, em última análise, é sempre o Espírito Santo. Ele inspirou a decisão de Bento XVI para o bem da Igreja; Ele falou na oração e na eleição aos cardeais.

Na eleição tinha o meu lado o arcebispo emérito de São Paulo e prefeito emérito da Congregação para o Clero, Cláudio Hummes, um grande amigo que quando a coisa se tornava um pouco perigosa me confortava. Aos dois terços houve o aplauso e ele abraçou-me e beijou-me e disse-me ‘não te esqueças dos pobres’. Aquela palavra entrou aqui [na cabeça], os pobres, os pobres. Alguns não sabiam por que tinha escolhido o nome Francisco, e interrogavam-se se seria por Francesco Saverio [jesuíta expulso das colónias espanholas, conhecido como Francisco Xavier], Francisco de Sales [bispo de Génova] ou Francisco de Assis. Foi por causa dos pobres que pensei em Francisco. Depois, enquanto o escrutínio prosseguia, pensei nas guerras, e assim surgiu o homem da paz, o homem que ama e protege a criação, com o qual hoje temos uma relação que não é tão boa. Muitos disseram que me deveria chamar Adriano para ser um verdadeiro reformador, ou Clemente, em vingança contra [o Papa] Clemente XIV, que aboliu a Companhia de Jesus. Francisco de Assis, homem da pobreza e da paz.

Deixo-vos uma bênção não solene, que cada um a receba na consciência. O coração dá este bem a cada um, respeitando a consciência de cada um, mas sabendo que cada um de vocês é filho de Deus.”

quinta-feira, março 14, 2013

Caminhar, edificar, professar

[Primeira homilia do Papa, Capela Sistina]

“(...) Estas três leituras têm uma coisa em comum: o movimento. Na primeira, o movimento no caminho; na segunda, na edificação da Igreja; na terceira, o movimento da confissão. Caminhar, edificar e professar. A nossa vida é um caminho e é errado se pararmos. Devemos caminhar sempre, na presença e na luz do Senhor. Deus pediu a Abraão: Caminha na minha presença e sê irrepreensível."

quarta-feira, março 13, 2013

Jorge Bergolio: uma escolha maravilhosa



O cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio é o sucessor de Bento XVI na cadeira de São Pedro. O novo Papa, o 266º da Igreja Católica e o primeiro sul-americano, é jesuíta e escolheu o nome Francisco.

Um Papa modesto, conservador e preocupado com os mais pobres. São estes alguns dos traços do 266.º Papa, o primeiro latino-americano e jesuíta. Aos 76 anos, o cardeal Jorge Mario Bergoglio é uma surpresa e uma escolha improvável para os que previam que, depois do pontificado curto de Bento XVI, que renunciou devido à idade, o novo Sumo Pontífice seria escolhido entre os mais jovens.

No entanto, o arcebispo de Buenos Aires foi o principal adversário de Joseph Ratzinger na eleição de 2005, tendo chegado a reunir 40 votos dos cardeais eleitores, recorda John Allen no perfil que traçou de Bergoglio para o National Catholic Reporter. Oito anos depois, terá sido o candidato de consenso depois de afastados outros nomes dados como favoritos.

Filho de pai italiano, um ferroviário, oriundo da região de Turim, e de mãe dona de casa, tem quatro irmãos. Bergoglio estudou Teologia na Alemanha e desempenhou vários cargos administrativos na Cúria, o que lhe permite criar pontes entre os dois continentes com mais influência na Igreja Católica.

Bergoglio estudou engenharia química. Mais tarde, quando perdeu um pulmão devido a uma doença respiratória, resolveu seguir o sacerdócio. E agora é o primeiro Papa não europeu desde o ano 752.

Nascido em Buenos Aires, em 1936, só seguiu o sacerdócio aos 32 anos. Após a ordenação dedicou os anos seguintes a ensinar Literatura, Psicologia e Filosofia, antes de assumir, na década de 1970, o cargo de provincial da Companhia de Jesus na Argentina. O país vivia então sob ditadura e, enquanto muitos jesuítas se aproximavam da Teologia da Libertação e viam no movimento progressista uma forma de oposição aos generais, Bergoglio insistiu para que se mantivessem fiéis aos princípios espirituais da companhia e se dedicassem ao trabalho pastoral, escreve Allen.

A ascensão religiosa de Jorge Mario Bergoglio coincidiu com um dos períodos mais obscuros da Argentina: a ditadura militar(1976-1983). Foi acusado de não proteger dois jesuítas que foram sequestrados clandestinamente pelo governo militar por fazerem trabalho social em bairros de extrema pobreza. Ambos os padres sobreviveram a uma prisão de cinco meses. O caso é relatado no livro "Silêncio", do jornalista Horacio Verbitsky, também presidente da entidade privada defensora dos direitos humanos CELS. A publicação leva em conta muitas declarações de Orlando Yorio, um dos jesuítas sequestrados, antes de morrer em 2000.

"A história condena-o: mostra-o como alguém contrário a todas as experiências inovadoras da Igreja e, sobretudo, na época da ditadura, mostra-o muito próximo do poder militar", disse há algum tempo o sociólogo Fortunato Mallimacci, ex-decano da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires.

Os defensores de Bergoglio dizem que não há provas contra ele e que, pelo contrário, o novo Papa ajudou muitos a escapar às Forças Armadas durante os anos de repressão no seu país, tendo mesmo usado um encontro com o general Videla para interceder em defesa das vítimas da ditadura.

Como bispo auxiliar (desde 1992) e depois como arcebispo de Buenos Aires (desde 1998), o cardeal manteve sempre uma posição conservadora em termos teológicos, sendo considerado próximo do movimento Comunhão e Libertação, grupo católico com grande influência junto da política italiana. Será também o primeiro jesuíta a assumir o trono de São Pedro.

No Vaticano, longe de possíveis polémicas dos tempos de ditadura, é esperado que o cardeal sul-americano, silencioso e tímido, conduza a Igreja Católica com firmeza e com uma clara preocupação social.

"Ele é capaz de fazer a necessária renovação sem saltos para o desconhecido. Será uma força de equilíbrio", disse à Reuters Francesca Ambrogetti, co-autora da biografia de Bergoglio, após uma série de entrevistas durante três anos.

"Ele partilha da visão de que a Igreja Católica deve ter um papel missionário, que sai ao encontro das pessoas, que é activa... Uma Igreja que não se preocupa tanto em regular a fé, mas sim em promovê-la e facilitá-la", acrescenta Ambrogetti.

O novo Papa é também destacado pela preocupação com os mais pobres.Guardian escreveu que, em 2001, quando João Paulo II o nomeou cardeal, Bergoglio pediu aos fiéis que, ao invés de se deslocarem a Roma, distribuíssem o dinheiro da viagem entre os mais pobres. Durante a crise económica que atingiu a Argentina, surgiu como uma voz da consciência nacional e, por várias vezes, tem alertado para as consequências da globalização desregrada para os que já sobrevivem com muito pouco. 

É também destas críticas que resultou a sua má relação com o casal Kirchner. O ex-Presidente Nestor Kirchner chegou mesmo a considerar o então arcebispo como "o verdadeiro representante da oposição". Com Cristina Kirchner, que sucedeu ao marido na Presidência da Argentina, a relação também não tem sido fácil, tendo atingido um pico de conflitualidade quando foi aprovado o casamento gay no país. Apesar destas diferenças, a actual Presidente já disse que vai estar em Roma, na terça-feira, na cerimónia de inauguração do pontificado do Papa Francisco.

Ao longo dos anos, Jorge Mario Bergoglio deu prova da sua ortodoxia, manifestando também a sua oposição incondicional ao aborto e à contracepção ou à adopção por casais homossexuais. Em 2010, escreve o Guardian, quando a Argentina se tornou o primeiro país latino-americano a legalizar o casamento gay, o cardeal afirmou que a alteração legislativa representava uma forma de discriminação de crianças que, disse, deveriam ter o direito a ser educadas por um pai e uma mãe. Ainda assim, admite o recurso ao preservativo para impedir doenças infecciosas – ficou famosa a sua visita, durante as cerimónias pascais de 2001, a um hospital para lavar e beijar os pés de 12 doentes com sida.

É conhecido também pela timidez e modéstia – Allen recorda que recusou viver no palácio apostólico, que trocou por um apartamento na capital argentina, dispensou a limusina (prefere viajar de autocarro e metro). "O seu estilo de vida é sóbrio e austero. É a forma como vive. Viaja de metro, de autocarro e quando vai a Roma voa em classe económica", conta Francesca Ambrogetti. "Sempre foi uma pessoa simpática e acessível", contou à Reuters Roberto Crubellier, empregado de uma igreja na Baixa de Buenos Aires, onde Bergoglio costumava ir.

O homem simples que cozinha as suas próprias refeições gosta de tango e literatura, principalmente os autores clássicos. E é também um apaixonado por futebol. É adepto do San Lorenzo de Almagro, de que é inclusivamente sócio. Gosta de ir ver os jogos da sua equipa, algo que agora terá mais dificuldades em fazer.
[Público]