Mostrar mensagens com a etiqueta Clara Ferreira Alves. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Clara Ferreira Alves. Mostrar todas as mensagens

sábado, agosto 01, 2015

David Grossman: Foi importante regressar à vida*


Um dos maiores escritores israelitas contemporâneos é também um ativista que condena a ocupação da Palestina. Perdeu um filho na segunda guerra do Líbano, e a sua escrita é hoje definida pelo sentimento de perda

David Grossman é descendente de judeus polacos por parte do pai, a mãe nasceu durante o Mandato da Palestina. Ele nasceu em Jerusalém em 1954, seis anos após a criação de Israel e nove anos depois do fim do Shoah, o Holocausto. Numa altura em que, como ele diz, ninguém falava no assunto, “porque era uma dor e uma humilhação e o ar em Israel estava cheio de promessa e esperança”. “O milagre de Israel.” Apesar dos problemas e das críticas que faz ao país, pensa que é um “milagre” o que Israel conseguiu durante estes anos. A luta pela paz deve-se a achar que nada está garantido e que Israel deve proteger esse milagre.

O pai deu-lhe o primeiro livro, do escritor Sholem Aleichem, que lhe devolveu a narrativa do passado judeu no shtetl da Europa. O pequeno David apaixonou-se por aquela narrativa da tradição como se fosse um livro de Harry Potter. “No princípio, pensava que toda a gente era judia, só mais tarde descobri os gentios.” E mais tarde soube dos pogroms, das expulsões e perseguições. E dos “seis milhões”, que parecia um número abstrato, incompreensível. “Os mortos eram o meu povo, a gente de ‘O Violinista no Telhado’, a gente dos livros de Sholem.” Para ele, Israel era forte e militante naquela altura. A literatura levou-o à literatura, depois de trabalhar 25 anos na rádio, donde acabou por ser despedido por razões políticas.Da

O seu primeiro livro, “The Yellow Wind” (“O Vento Amarelo”), um relato de jornalismo, causou polémica por dar a conhecer aos israelitas a realidade da Ocupação e a revolta palestiniana que conduziria à primeira Intifada, em 1987. Começa aí o seu ativismo. É, com Amos Oz e A. B. Yehoshua, um dos intelectuais que defendem a solução negociada dos dois Estados e condenam a Ocupação. Com o romance “Ver: Amor” e depois com “Até ao Fim da Terra” solidificou a sua posição como um dos grandes escritores contemporâneos, premiado e traduzido em mais de 30 línguas. Na segunda guerra do Líbano, a meio deste romance, perdeu o filho Uri, atingido por um míssil antitanque do Hezbollah, a dias do fim da guerra. Esta perda e a escrita dolorosíssima sobre a perda definem David Grossman. Um escritor que tenta compreender o mundo através das palavras e superar a raiva e a frustração, a sua, a de palestinianos, a de israelitas.

Fala árabe, o que o ajudou a compreender a história do outro lado e a escrever “The Yellow Wind”. Nunca ninguém tinha perguntado aos palestinianos como é que se sentiam antes desse livro. Hoje, o escritor sabe que o território mudou e as forças mudaram. David Grossman é um homem suave, com um sorriso que reflete a mágoa de “sair fora do tempo”, como escreveu depois da morte de Uri. Nunca mais parou de escrever até agora, em que concedeu a si mesmo um ano para viajar e falar de literatura pelo mundo fora.

Um escritor é alguém que tenta inscrever a sua narrativa pessoal na narrativa mais vasta do mundo, a paisagem humana. Você escreve particularmente sobre dor, perda, amor, sobre os ingredientes da tragédia. E é israelita. Um povo com uma longa e dolorosa história. Quando é que se dá conta de que a sua história pessoal se transforma numa parte da explicação universal para o que significa ser humano? Como fez Tolstoi, assim faz você.

Não tenho a certeza de conseguir pensar na minha escrita nesses termos grandiosos. Tento escrever a minha vida porque é a única maneira que tenho de explicar a minha vida. Descobri há muito tempo que escrevo para compreender o que me acontece e o que significa ser um ser humano normal numa situação anormal. Uma situação extrema e violenta. O romance “Até ao Fim da Terra” é sobre uma família que tenta desesperadamente manter a privacidade, manter a intimidade da bolha da família no meio de uma realidade que é tão brutal que a brutalidade apodera-se da ternura dentro dessa bolha. Os pais, os filhos, os dois irmãos. E vemos o que acontece quando a unidade familiar é exposta à radiação dessa brutalidade exterior.

Nós, os escritores, não somos historiadores, não escrevemos sobre os grandes processos históricos da Humanidade. Escrevemos sobre o modo como esses processos afetam um indivíduo ou dois. Os momentos mais grandiosos e significativos da Humanidade não ocorreram no campo de batalha. Ou nos corredores dos parlamentos ou dos palácios. Ocorreram em cozinhas e quartos de dormir, em quartos de crianças. Este é o meu modo de compreender a grande realidade, e muitas vezes para a compreender é preciso clarificar a linguagem. Numa realidade dominada pelo medo e a violência, há grande manipulação da linguagem e da história que contamos a nós mesmos ou que somos mandados contar a nós mesmos. Uma manipulação da narrativa nacional. É importante encontrar palavras que não tenham sido manipuladas. Pelo exército, pelo primeiro-ministro, pelo governo, pelo inimigo. Um modo de dizer o que sinto, porque um escritor sente-se claustrofóbico nas palavras alheias. Todos os escritores têm esse sentimento de asfixia quando falam em clichés. Ou numa linguagem imposta.

As origens da escrita literária são a necessidade de sair dessa asfixia através das palavras próprias. Quanto à minha perda, à perda da minha família, perdemos o nosso filho Uri na guerra do Líbano, faz agora nove anos. Lembro-me de quando aconteceu. Recebemos cartas de condolências, de Israel e de fora de Israel, e muitas dessas cartas eram de escritores. Alguns eu conhecia e outros não. O que me chamou a atenção foi que todos os escritores tinham a mesma voz, que dizia: estamos sem palavras, não temos palavras para descrever o que sentimos, não podemos falar sobre isto. E pensei: estes são os mestres da verbalidade dos nossos dias e não têm palavras. E no princípio também eu não tinha palavras.

Quando uma coisa assim acontece, o que queremos é chorar ou correr até ao fim da terra. Fazer algo totalmente físico. Ao fim de algum tempo, percebi que o silêncio não era bom para mim. Era uma negação, um modo de proteção, embora eu precisasse de me proteger a mim mesmo. Não é isso que quero da vida. Em todos os meus livros tentei entender o que me acontecia. Lembro-me de dizer à minha mulher que se fosse tão desafortunado ao ponto de ser enviado para essa ilha de exílio — porque o desgosto é exílio, é estar exilado de tudo o que antes se tinha como adquirido, e nada se toma por adquirido depois desta perda, nem mesmo a vida —, se fosse condenado a essa ilha de exílio, pelo menos queria mapeá-la com as minhas próprias palavras. Primeiro acabei este livro que estava a escrever [“Até ao Fim da Terra”] quando aquilo aconteceu e depois comecei outro a que chamei “Falling Out of Time” [“Cair Fora do Tempo”], no qual descrevo o que acontece nessa ilha de exílio. O que se sente e o que se tem medo de sentir. E como tudo muda.

Falou de exílio, uma condição que associamos estreitamente ao povo judeu. Exílio, deslocação, fuga, movimento... A personagem feminina do livro, Ora, anda até ao fim da terra. Em “Falling Out of Time”, os walkers, os andarilhos, que andam o tempo todo, andam para onde? Para esse lugar de exílio interior, essa ilha? Considerou alguma vez a hipótese de sair, de viver noutro país, nos Estados Unidos, por exemplo? Poderia viver fora de Israel? Ou precisa dessa terra?

Tudo foi posto em questão. Isso também. Se vivêssemos noutro país, isto talvez não tivesse acontecido... Não me vejo a viver fora de Israel. Israel é muito relevante para mim. Posso descodificar os códigos desta sociedade, posso compreender o que as pessoas fazem mesmo que aquilo que fazem me faça perder a cabeça. Sou feito destas matérias, as mesmas de que são feitas as pessoas que são totalmente contra mim, ou eu contra elas. Vejo o que os colonos fazem na Cisjordânia, dão comigo em doido, mas vejo também que eu poderia ser um deles e estar ali. Por uma pequena mudança dos cromossomas, cromossomas biográficos, podia estar ali. Tenho uma família ali, nos colonos. Quero viver num lugar em que tudo o que acontece, ou me enche de alegria, ou me atormenta, é feito de matéria-prima. É relevante. Podia ter uma vida confortável em muitos lugares, recebo convites para viver nesses lugares, mas eles não me pertencem e não me causam alegria ou dor. Tem razão quando fala no exílio dos judeus. Uma das definições básicas do judeu é a de alguém que nunca se sentiu em casa no mundo. E Israel foi feito para ser essa casa, o lugar onde nos sentimos em casa, a nossa casa. É uma questão trágica, a razão pela qual somos incapazes de tornar Israel a nossa casa. Depois de 60, quase 70 anos de soberania e independência.

Na Europa, e em Portugal, a questão da terra não é a essência. A necessidade da terra como lugar de pertença. A permanência. Pelo contrário, quando nos sentimos mal na terra, emigramos, saímos da terra. Não a disputamos. Portugal é um país antigo. E os escritores também costumam emigrar, sair, trocar de terra, quando deixam de se sentir bem nela. Ganhar distância. Coetzee foi para a Austrália, Graham Greene para França e Itália, Joyce para França e Itália, Martin Amis para a América... Partir parece ser a solução para os problemas. Em Israel, parece que é o contrário. Chegar, ficar na terra, é a solução. Muita gente muda-se para Israel vinda de outros lugares. É a nova condição do judeu. Parar a deslocação.

Mesmo se como coletivo, como povo, não se tem o gosto de ficar em casa, de estar em casa, ao cabo de algum tempo ficamos esfomeados desse sentimento. Queremos sentir que estamos em casa. Algures. E sentir o conforto de saber que estamos no nosso lugar. Sentir esse contacto nervoso com as fronteiras do nosso ser. Encher todos os quartos com a nossa presença. Ansiamos por isso, ansiámos por isso durante milénios, em que rezámos, em 70 diásporas, como dissemos, rezámos na direção de Jerusalém, desejámos estar em Jerusalém, e estudámos o Talmude com todos os problemas de saber que frutos e que comidas e a que horas podíamos comer isto e aquilo, sabendo que estávamos noutro lugar, com outro horário, longe de Jerusalém. Sabendo que estávamos na Polónia, em Portugal, no Egito, em Marrocos... E ao mesmo tempo havia qualquer coisa de concreto no nosso ser que estava enraizada em Zion, na terra de Israel. Era uma estranha e dupla existência, difícil de acreditar. E de compreender. E agora, como disse, temos a terra. Eu não sinto a necessidade de ser dono da terra. No conflito que temos com os palestinianos, não sinto que tenha de ser o dono de toda a terra entre o rio Jordão e o mar. Acho que a devíamos dividir com os palestinianos, e eles deviam ter a sua casa e os seus lugares. Nem sinto sequer que tenha de ser dono dos lugares santos, que tenham de ser nossos, dos judeus, desde que os judeus crentes tenham acesso a eles. Ao túmulo de Raquel, por exemplo. As pessoas parecem precisar deste título de propriedade, de serem os donos desta terra, e essa é uma das raízes profundas do conflito entre nós e os palestinianos. Como disse antes, a solução podia ser a divisão do país entre os dois, uma solução muito dolorosa e que nunca seria de justiça absoluta. Mas não procuro justiça absoluta, talvez a justiça absoluta signifique que um dos lados não estaria lá nunca mais, ou deixaria de estar, procuro uma justiça à medida dos homens, uma justiça de compromisso, com toda a espécie de concessões. Sim, de compromisso. Compromisso é a palavra-chave.

A terra. E as guerras da terra. Como é que conseguiu não ficar amargo com a perda do seu filho?

É uma pergunta pessoal a que tento responder. Se bem me lembro, e lembro-me bem, quando estava muito amargo e vingativo, à procura de uma vingança —e tive os meus momentos —, senti que o contacto entre mim e Uri ficava diminuído. Que eu estava inundado por qualquer coisa que impedia o meu acesso a ele. E eu queria conservar esse acesso. Não acho que estivesse imune ou protegido desses sentimentos de vingança, que eram naturais. Mas sinto que se me render a esses sentimentos fico privado do meu filho. Mais tarde veio a racionalização. A vingança não leva a lado nenhum. Olhando dois passos à frente, verifica-se que quando se é vingativo sofre-se no passo seguinte. Alguém se vingará de nós. E quando penso nisso sei que centenas de milhares de pessoas nos dois lados da guerra perderam a vida, inúmeras famílias foram esmagadas, e não saímos do quadrado da partida. Estamos ainda na situação que garante que cada vez mais pessoas perderão a vida. Realmente, qual o ponto disto? Qual o ponto? Não podemos colaborar com esta maquinaria, este círculo vicioso de violência. O ponto maior é autorizar o maior número possível de pessoas a viver uma vida normal e com sentido, porque a vida que temos lá, embora pareça vital — e Israel é famoso pela alta voltagem emocional e pela vitalidade que encontramos quando viajamos para lá —, ainda assim acho que estamos a viver uma vida paralela à que devíamos ter. Não é bem vida, é sobreviver a uma catástrofe a seguir à outra.

Nos últimos quatro anos estivemos envolvidos com os palestinianos em duas guerras em Gaza. Ao cabo de uma hora vemo-nos envolvidos numa guerra que não antecipámos. Foi o caso há nove anos, na segunda guerra do Líbano. De um momento para o outro, de repente, vimo-nos em guerra. Depois de uma provocação de Gaza, retaliámos, eles retaliaram, e entrámos dentro de uma guerra mortal. Se vivermos a nossa vida sabendo que em qualquer momento ela pode mudar, começamos a viver uma vida dentro desta opção. Não a vida que temos ou podíamos ter, mas a vida escolhida, a da reviravolta da realidade. Isto torna-se a normalidade. Existe uma bela frase de Bertolt Brecht: “Aquele que ri é porque não ouviu as últimas notícias.” Esta é a corrente subterrânea a nós, em Israel. A duradoura antecipação da reviravolta da nossa realidade. Tudo de pernas para o ar. E é parte deste paradoxo que sinto em nós: o facto de termos sobrevivido ao longo da História como povo para viver a nossa vida e agora vivermos apenas para sobreviver. Claro que só vivemos para sobreviver quando estamos no campo de extermínio e a vida está por um fio. Mas quando se é, como somos, o exército mais forte na região e o décimo, creio, no mundo, se temos o apoio dos Estados Unidos, da Alemanha, da França e da Grã-Bretanha, se temos isso tudo e aquilo a que aspiramos é apenas sobreviver a uma catástrofe a seguir à outra... isto não é nada. Porque algum dia virá a caminho um inimigo mais corajoso do que nós, mais esperto, mais astucioso, e cairemos na armadilha e veremos concretizados os piores pesadelos. Toda a minha atividade a favor da paz nasce desse pesadelo.

Não tento idealizar os nossos inimigos, nada disso. Os palestinianos cometeram e cometem erros terríveis e colaboram na distorção desta situação e no facto de nem sequer termos um processo de paz neste momento. Não podemos carregar tudo nos ombros de Israel, embora eu desejasse ter um primeiro-ministro e um Governo mais ativo e inovador a reacender o processo de paz. Precisamos de ter um exército forte, porque o Médio Oriente, agora mais do que nunca, digo-o de olhos abertos e sobriamente, é a vizinhança mais violenta e imprevisível. Talvez a vizinhança mais perigosa do mundo. Especialmente para os israelitas. O Médio Oriente nunca interiorizou não a nossa existência mas o nosso direito a estar ali. Temos de ser fortes e possuir um exército que nos proteja de toda e qualquer surpresa. Mas as forças armadas não podem ser a resposta para toda a complexidade de estarmos ali.

Precisamos de um exército forte e temos de ter paz com os nossos vizinhos. Porque a paz mudará a realidade, e até agora só tivemos agentes para a guerra, a violência, o ódio e a suspeita. Quando houver paz — e insisto ainda em dizer quando e não se tivermos paz —, ela começará a gerar os seus agentes. Haverá contactos entre pessoas e organizações e universidades e equipas desportivas e orquestras, que começarão a criar muito lentamente e de um modo frágil uma paz mais duradoura. E muitos tentarão assassinar esta paz bebé. Mas ficará uma hipótese de ao fim de algumas décadas a paz produzir frutos e sugerir às pessoas uma vida vivida normalmente. Uma vida com dignidade, sem a sombra da Ocupação, do terror. Uma pequena hipótese, muito pequena, de começarmos finalmente a Ser, com S maiúsculo. E não apenas a sobreviver no Médio Oriente.

Falemos da escrita como meio de sobrevivência. Li na “New Yorker” uma peça do Lawrence Wright que descrevia a vida e a angústia dos pais que viram os filhos ser raptados na Síria e decapitados pelo ISIS. Estes pais não só tiveram de guardar segredo durante anos como foram expostos à violência brutal e extrema dos vídeos e fotografias na internet. Uma das mães revia obsessivamente as decapitações, à procura de sinais. Isto tocou-me pelo horror, a tragédia, a tortura de tentar comunicar com o filho morto através do filme, cortado, da sua decapitação. Entramos no coração das trevas, aqui. Pergunto-me se a escrita acede a esta dor e se, acedendo a ela, descrevendo-a, acaba por se tornar uma vantagem. Um modo de domesticar o horror. Quando se têm as palavras, será que elas podem ajudar a fazer sentido aos que não as têm? Será que ajudam a sobreviver? Como é que voltou a escrever? O seu caso é incrível. Começou a escrever um livro sobre uma mãe que teme que lhe batam à porta a dizer que o filho morreu na guerra, que foge das notícias, e de repente batem à sua porta para lhe dizer que o seu filho tinha morrido na guerra. Conseguiu regressar ao livro e terminá-lo. O livro foi salvador?

Não sei. Fico hesitante sobre o poder mágico da escrita. Escrevi porque era a única coisa possível.

Qual é o lugar de onde se escreve? Aquele lugar de que falam os walkers, os andarilhos, em “Falling Out of Time”? “Ali”?

Sim, “ali”, como digo, “ali”, o lugar para onde se dirigem todos os pais que perderam os filhos. É um lugar onde eu não procurava redenção. Como poderia? Fiz o que achei que era a única coisa que podia fazer. Tudo o resto à minha volta estava esmagado. E o único lugar sólido era o da história.

Tornou-se uma personagem do livro.

Tornei. Tornei-me uma das personagens, a que é incapaz de escrever e incapaz de não escrever sobre a morte do seu filho, e por causa dessa ambivalência torna-se o Centauro, metade escritor e metade mesa de escrita. A única maneira de me libertar era escrever a história. Lembro-me nitidamente de como nas primeiras semanas e meses tinha a necessidade de continuar a criar personagens. Como se tivesse a obrigação de não as abandonar, de não parar a respiração, a respiração constante da imaginação, as anedotas e os episódios da biografia delas, de lhes dar vida e calor e sensualidade, sexualidade, um sentido de humor... A necessidade da combustão e da injeção destas personagens, todo o tempo, gerou coisas dentro de mim.

Estas personagens são muito visuais. O cabelo branco, a incidência da luz... Eu vejo-as como leitora. Quão reais são para o escritor? Andarilhou com elas?

Muito, muito reais. Caminhei com elas, sim. Tudo o que descrevo no livro eu mesmo fiz. Nunca entendo a personagem se não entender o seu físico. Preciso de saber o que significa estar dentro de outro corpo.

E tudo começa por um corpo ou pelo discurso?

Preciso do físico. Uma vez escrevi um livro, “Someone To Run With”, que penso que sairá aqui no ano que vem. Há uma personagem no livro, com 16 anos, uma miúda... E eu era incapaz de escrever porque não sabia como ela era, que aspeto tinha. Nessas alturas, quando procuro uma personagem, torno-me um caçador. Cada cara que vejo, cada gesto, cada voz, fico lá dentro imediatamente, se me convier. Um dia entrei numa loja de computadores, num centro comercial perto da minha casa, em Jerusalém, ia comprar alguma coisa, e de repente vi aquela rapariga vestida com uns jeans e percebi imediatamente que era ela. Fotografei-a de costas e vi-lhe o maxilar, uma mistura de força e de ternura, e soube logo que a conhecia. Corri para fora da loja antes que ela dissesse alguma coisa ao empregado, porque já não precisava da voz dela.

Isso é curioso para alguém que começou na rádio, foi ator em criança na rádio e trabalhou na rádio muitos anos. A rádio é voz. O seu primeiro contacto com a literatura foi feito através de peças de rádio, recitações, leituras... Tchekhov chegou-lhe de ouvido. E agora...

...Agora preciso do físico. E foi sempre assim. Quando escrevo sobre alguém, é importante saber como caminha, como fala, o toque do seu cabelo, como faz amor e como come. Preciso de saber isso ao começar, e depois ficam sólidos, concretos, conheço-os. E vem o prazer de os juntar, de os justapor, de ver como agem uns com os outros. Mas começa com o físico. Posso desapontar as pessoas ao dizer isto, mas não começo com grandes ideias, as ideia vêm mais tarde.

Bom, todo o universal é local. Mas pensei que a voz, o modo como o texto é ouvido, a textura da frase...
Sim, depois, a voz é importante. No ouvido interno do leitor é muito importante. Quando acabo um livro, leio alto a última versão. Para mim, às vezes para a minha mulher. E sei que grandes escritores fizeram isso. Flaubert reunia os amigos e lia para eles durante horas. Sou mais misericordioso com os meus amigos. E nesta leitura afloram imensos erros e faltas! Vejo as redundância e as repetições, as melodias e coisas que estão a mais e que limpo de modo simples. Fragmentos, partes de que não preciso. Talvez venha dessa minha experiência da rádio, é capaz de ter razão. E amo a voz humana. Em “Até ao Fim da Terra” há três adolescentes de 16 anos, dois rapazes e uma rapariga, que estão num hospital em Jerusalém, sofrem de hepatite, e a Guerra dos Seis Dias começa, e a luz é tapada em todas as janelas, apaga-se a cidade. Foi assim, lembro-me quando a guerra começou. Eles não se veem uns aos outros, mas falam uns com os outros, ouvem as vozes. São vozes na escuridão. E começam a aproximar-se, e até a apaixonar-se, sem se verem. E talvez isto seja a semelhança entre a rádio e o livro. Como leitor, sei quanto respondo à melodia da história.

E disse-me que acaba de escrever um livro com comédia, stand-up. Novamente vozes, vozes que seduzem uma audiência sendo cómicas...
Acaba de sair em Israel e noutros países. O título é “Comes a Horse into a Bar” [“Um Cavalo Entra num Bar”]. É o princípio de uma anedota, de muitas anedotas em hebraico e não só. Um cavalo entra num bar e diz ao barman: “Quero um vodka.” O barman dá-lhe o vodka, e o cavalo pergunta: “Quanto é?” “São 25 dólares.” O cavalo paga, sai do bar, e o barman corre atrás dele. “Peço desculpa, senhor cavalo, é inacreditável, nunca tinha visto uma coisa assim, um cavalo que fala.” Responde o cavalo: “E com estes preços tão cedo não volta a ver!” Há centenas de anedotas que começam assim, e agora que o livro saiu as pessoas mandam-me mais anedotas com o cavalo que entra num bar. E querem que as inclua na próxima edição. É amoroso da parte dos meus leitores.

Em “Até ao Fim da Terra”, põe-se na pele de uma mulher, Ora. Não é ousado enfiar-se assim dentro da pele de uma pessoa de um sexo diferente do seu? E dar-lhe vida sexual, impulsos, emoções, sentimentos, dúvidas femininas? E envolvê-la numa teia com dois homens? Ver como ela se move, como ela faz tudo? Foi difícil entrar em Ora?
Não é comum fazer da protagonista uma mulher e mãe quando se é homem. Eu queria escrevê-la e compreendê-la, e escolhi o ponto de vista da mulher por várias razões. Escrever do ponto de vista do homem, do pai, não é um verdadeiro desafio. Não me intriga. Durante dois longos anos tentei compreendê-la, descodifica-la, atormentei-me. O livro demorou cinco anos e meio a ser escrito. Lembro-me de dizer à minha mulher e a amigos que ela não se rendia a mim. E depois percebi que eu tinha de me render a ela. Deixá-la estar dentro de mim, ser eu. Isto tem a ver com literatura. Depois de chegarmos a uma certa idade, congelamos. Num género, num modo de falar, num sentido de humor, numa ou duas linguagens. Ficamos cada vez mais estreitos. O que a escrita me ensinou foi este movimento livre. Entre um homem e uma mulher, uma criança e um velho, uma pessoa sã e um louco. Um israelita ou um palestiniano, um esquerdista ou um direitista.

A literatura autoriza-nos esta liberdade, e há imensa doçura nisso, porque nunca nos permitimos este movimento. Precisamos de ser unos, de ser protegidos, entre aspas, de outra opções. Dizemos: eu e o meu irmão somos muito diferentes. Ou: eu e os meus pais. Os israelitas dizem que são diferentes dos palestinianos e vice-versa. A definição é negativa. Não sou aquele. Nunca serei. A escrita deu-me o prazer de ser pessoas diferentes de mim e até contrárias a mim. Não abala a minha identidade. Nesta idade, a identidade não pode ser realmente abalada. Mas exalta-a, incentiva-a. Põe-me em contacto com a vida. E precisava de Ora, da mãe, porque o livro é sobre criar filhos. Há qualquer coisa de primitivo no contacto entre mãe e filho, mais primitivo do que no pai. Sei que parece uma generalização terrível, mas é assim, e sou um pai muito maternal. Muito envolvido. Mas é claro para mim que o que uma mulher sente quando carrega a criança no corpo, quando dá à luz e quando amamenta, cria um contacto primitivo que o homem entende com dificuldade.

Eu queria recriar isso com a imaginação, estar lá, nesse lugar de contacto primitivo. E queria uma mulher como locomotiva da história, porque a guerra, exércitos, governos, são coisas de homens. Todas estas religiões — e não me cite — são jogos de rapazes. Não estou a tentar idealizar as mulheres, mas aquela maquinaria é masculina. Claro que há mulheres agressivas, militantes, beligerantes. Tivemos uma primeira-ministra [Golda Meir] mais beligerante do que os homens. E nalgumas mulheres que conheço vejo esse olhar cético perante os jogos dos homens, os jogos da guerra. E elas não colaborarão logo com a maquinaria das armas. Um homem não fugirá dos oficiais que vêm notificar a morte dos filhos, que batem à porta. Talvez uma mulher fuja. Talvez.

A maioria ficará em casa, esperando passivamente a notificação da perda, a notícia da morte. Penso sempre nesse livro do Génesis, quando Deus foi ter com Abraão, o nosso pai, o pai do judaísmo, e lhe disse: dá-me o teu filho muito amado para o sacrificar, para o matar. Deus é inteligente, não foi ter com Sara, a mulher de Abraão. Porque ele sabia que se fosse ter com Sara com este comando ultrajante ela o poria fora da tenda ou mandá-lo-ia pelas escadas abaixo. E Abraão, o pai da nação, que no capítulo seguinte começa a argumentar com Deus como um advogado sofisticado sobre quantas pessoas Deus pode matar na cidade de Sodoma, quando Deus lhe pede o filho único e que lhe corte a garganta, ele leva-lhe Isaac para a matança. Pega no burro e vai. Mas Ora, que pode ser bastante irritante, tem um sentido apurado do que está certo, de fazer a coisa certa, e não está disposta a colaborar com a maquinaria do exército. Ela não estará lá quando os oficiais vierem anunciar a morte do filho.

Acreditando, magicamente, que se não a encontrarem a roda da sorte será revertida. Um minuto de atraso é suficiente nessa situação. E ela foge. Leva com ela Avram, outro Abraão, que foi o amor da juventude e talvez da vida. E começamos a perceber que ele pode ter sido o pai biológico do filho. Posso estragar o suspense, porque o livro saiu há 10 anos... E conta-lhe todos os detalhes da criação do filho. As centenas de pequenos, domésticos, mesquinhos atos de boa vontade, devoção, esforço, desapontamento, fracasso, preocupação, proteção... Tudo o que um ser humano acumula nesta vida. Aos 16 anos, ele tinha sido um vulcão de imaginação, amor, paixão. E ao ser capturado e torturado pelos egípcios na guerra de 73 [Yom Kippur] regressou devastado e quebrado no corpo e na alma. Não tem contacto com ninguém. E ela quer que ele saiba o que significa criar um filho. Ser parte de uma família. E como cada um dentro da família serve de cruzamento dos outros. Como cada criança representa a relação entre mãe e pai. Coisas de que nem eles se apercebem. E Ora diz-lhe isso porque o filho, Ofer, foi-lhe tirado e está na sombra da guerra, e tudo o que ela pode fazer é fundir esses momentos de vida, vitalidade, amor.

É tudo o que lhe resta. E fá-lo com o coração. Não sei se consegue salvar o filho assim, porque deixei o final aberto, era a coisa a fazer. Mas consegue salvar Avram, como se o fizesse nascer, e trazê-lo de volta à vida.

O que este livro e “Falling Out of Time” me ensinaram é que não podemos nunca atravessar para o outro lado da vida. Não sabemos nada sobre a vida além da morte. Mas há uma coisa que podemos fazer. Podemos sentir intensamente a vida e a perda da vida ao mesmo tempo, e fazemo-lo com o coração.

Esta é a maneira da arte. Poesia, cinema, teatro, música... É o único lugar onde vida e perda podem coexistir de um modo em que podemos estar. Pelo menos eu, que sou um não crente, secular. Podemos tocar no fundo e depois regressar à nossa vida. Foi importante para mim arranjar uma maneira de regressar à vida.

* Entrevista de Clara Ferreira Alves, publicada hoje, no Expresso


sábado, maio 23, 2015

Houellebecq: "Querem ver-me morto"


É um dos mais geniais e controversos escritores franceses. “Submissão”, 
o seu último romance, lançado no dia do atentado ao “Charlie Hebdo”, colocou-o na mira dos extremistas. Desde então vive acossado porque sabe que tem a cabeça a prémio

CLARA FERREIRA ALVES

Na vida de Michel Houellebecq, que pode ter 56 ou 58 anos, há coisas que acabaram. A rotina de uma casa modesta num bairro de Paris dos que nunca estiveram na moda. Os jantares pré-cozinhados comprados no supermercado. As saídas e entradas na cidade sem que ninguém note. Uma ida a um restaurante, a uma exposição, a um café, a uma livraria. A liberdade, enfim. Michel Houellebecq é célebre como uma estrela rock, mais célebre ainda que o rocker Iggy Pop, que é um admirador e que fez um álbum baseado nas escritas de Houellebecq depois de lhe dizer que não conseguia ler outra coisa. A admiração é mútua e Michel Houellebecq raramente admira alguém ou alguma coisa. Antes da polémica de “Submissão” era famoso, muito, e perseguido, bastante, mas não viajava com proteção policial constante. Depois do atentado do “Charlie Hebdo”, cometido no mesmo dia em que o romance era lançado (para os que vivem no planeta Marte, aqui se esclarece que o romance trata de uma França onde um candidato muçulmano moderado ganha as eleições e trata de impor uma sharia suave à República, com a colaboração dos socialistas e dos vira-casacas), a proteção tornou-se obrigatória.

Embora a conversa seja em Saint-Germain-des-Prés, na sede da Flammarion no Odéon, ele nunca foi um intelectual de Saint-Germain, como o seu “inimigo público” Bernard Henry-Lévy, ou um prosador de café. Não frequentou o Café de Flore nem foi visto a vaguear nos corredores da La Hune dedilhando livros. Michel Houellebecq é um solitário que gosta de observar os outros sem ser reconhecido. E é uma criatura que se reconhece pela extrema fealdade, que os anos acentuaram por gosto próprio, visto que concede à aparência e aos cuidados com a roupa ou a beleza o mesmo desprezo que concede à comida. Quer isto dizer que come para se alimentar, pouco, com preferência pela charcutaria, e que não compra roupa. Beber é outra coisa. Nos anos verdes aparecia embriagado, mas agora parece ter reduzido os vícios ao tabaco. Fuma cigarros eletrónicos, uma novidade. Dantes fumava quatro maços por dia. Michel Houellebecq foi um mal-amado, rejeitado pelos pais, rejeitado pelos escritores. Não será para ele a solidariedade que rodeou Salman Rushdie depois da fatwa ou a reunião internacional do Pen Club com cartas dos confrades a defender a liberdade e a elogiar-lhe a prosa, a inteligência e sensibilidade. Houellebecq é definido como um anti-humanista, o que quer que isto signifique. Depois de “Submissão” e do “Charlie Hebdo”, só os amigos de Houellebecq apareceram a defendê-lo, e são poucos. Um deles é François Nourrissier, da Academia, que se bateu pelo Goncourt do autor. O outro é Frédéric Beigbeder, um típico parisiense elegante, definido como um dos que só usam caxemiras de triplo fio, e um dos raros que penetram no círculo restrito do escritor ameaçado e retirado de circulação. De resto, choveram as críticas e os ajustes de contas com um homem dotado de um talento raro e que sabe que o tem, o de escrever sem mácula. E pensar ainda melhor. É natural que ele tenha uma corte seleta, como todos os grandes escritores, mas ninguém dirá muitas palavras porque o medo impera. E nunca Houellebecq foi tão manso para com o Islão como neste livro, o que demonstra que ou não o leram ou não o souberam ler, ou aproveitaram o pretexto para lançar o homem às feras.

Gostar de pessoas parece não ser a sua especialidade mas nesta conversa o moralista é equivalente ao humanista. A ideia da Europa unida repele-o e acha que a França se dissolve molemente.


Há uma distância dos primeiros romances, “Extensão do domínio da luta” (95), “As Partículas elementares” (98), “Plataforma” (2001) e “A Possibilidade de uma ilha” (2005) em relação a “O Mapa e o Território” (2010) e “Submissão” (2015). Este Houellebecq, nascido na Ilha da Reunião de um casal de aventureiros que “rapidamente se desinteressou do filho” e o abandonou, viveu a infância na Argélia colonial com a avó materna e na França profunda com a avó paterna, comunista, que o criou. A mãe escreveu um livro aos 80 anos a atacar o filho, acusando-o de tudo e demonstrando um narcisismo e um sentimento antimaternal que valeram simpatias ao “órfão”. Foi a mãe que falsificou a data na certidão de nascimento, pondo dois anos a mais para o filho poder entrar na escola mais cedo e ultrapassar os colegas. Beidbeger diz do amigo: Michel vem de um lugar de extremo sofrimento, ninguém imagina o que ele sofreu. Tornou-se escritor, destino saudável dos infantes infelizes.


Amou a avó paterna, a mãe que nunca teve, e pouco mais. Quando Clément, o cão  dele, morreu, Michel Houellebecq chorou. Tem um filho adulto, Étienne, de que nunca fala, e duas ex-mulheres. Território proibido a jornalistas e críticos. O encontro não foi, ao contrário do que era costume, na casa ou numa brasserie de Paris. Vigiado, o homem está sentado numa sala cheia de livros e papéis, embora não se veja um único guarda. Fui avisada, ele é tímido e não gosta de falar. Um sol enevoado entra pela janela e ilumina metade da cara de Michel Houellebecq. É a cara de um pássaro assustado, que se levanta para apertar a mão, um aperto sem firmeza e distraído. A única coisa que parece interessá-lo é o cigarro eletrónico que parece um adereço despropositado num homem que se está nas tintas para a saúde.


Tenho à minha frente aquele que considero, sem esforço, o maior escritor europeu vivo, e bem vivo, e isto tem o seu efeito. Houellebecq  é gentil, fala baixo e fala pouco, e por vezes fala como se falasse para si, para dentro. Como se pensasse alto. O doido que uma vez disse à jornalista do “New York Times”, há muitos anos, que pusesse uma minissaia transparente e fosse com ele para a cama porque a única coisa que lhe interessava era o sexo, desapareceu. Houellebecq mudou porque a sua idade mudou e a sua vida mudou. Sempre quis ser célebre, porque isso lhe conferia imunidade a tudo. A tudo menos a ser morto por um terrorista.


Já googlou o seu nome? Sobre si escrevem-se milhares de coisas, muitas delas disparatadas, mas muito apaixonadas. Chama-se a isto uma reputação. Dá-se conta desta quase mitologia em torno da sua personagem?
Agora dou. Sim.

Há quem o acuse de ter construído, de ter querido esta mitologia. Mostrou-se no cinema, na música. Faz o seu teatro.
Seria difícil fazer isso, construir. Seria preciso escolher fazer isso. Seria muito difícil para mim fazê-lo, ou conseguir fazer isso. Compreendo a ideia mas não seria capaz. Não seria capaz.

Já googlou o seu nome? Foi ler o que dizem de si?
Neste momento, sim. Quero saber o que se faz quando se quer desaparecer da atualidade. Há coisas completamente nulas. É preciso que isto se reduza um pouco.

É demasiado célebre. Isso perturba a escrita?
Perturba a vida. A vida.

E os guarda-costas e polícias? Num certo ponto Salman Rushdie tinha uns quinze ou vinte a guardá-lo quando se deslocava a um país.
Não estou nesse ponto mas sim, perturba muito a vida.

Se quiser ir ver a cabeça do cão de Velázquez ao Grand Palais, digo isto porque quando o seu cão morreu teve um grande desgosto, ou beber um copo num bar, pode?
Sim, se for com pessoas, se tiver pessoas à minha volta.

Anda sempre com entourage? Pode caminhar na rua sem ser reconhecido?
Não, não posso. E tenho sempre pessoas comigo, sim, o que não é bom. Não é uma coisa que me agrade. Sou demasiado conhecido.

A celebridade pesa? Começou há muito, essa celebridade?
A partir de um certo ponto, pesa. Muito. Sempre houve a celebridade, há muito tempo que vivo com isso, mas só se tornou incómodo depois de “Submissão”.

Leio-o há muito tempo, e li a sua poesia. Acho que sacrificou o poeta ao escritor de romances...
É verdade.

Leio-o há muito tempo e quando publicou “Plataforma” disse coisas verdadeiramente violentas sobre a religião muçulmana. Disse-as em entrevistas e disse-as no livro. Escreveu que o Islão é “uma religião que só podia nascer num deserto estúpido no meio de beduínos sujos que não tinham mais nada do que fazer, perdoai, senão sodomizar camelos”. E isto em 2001, ano do 11 de Setembro. Foi perseguido nos tribunais e acusado de racismo, absolvido. Nunca sentiu perigo físico?
Não.

E agora, com um livro que é tudo menos islamofóbico, porquê a polémica?
Porque penso que este livro é pior do que isso. Huuuuummmmmm... É difícil explicar mas o livro põe o dedo num medo europeu. O medo de que a Europa se torne um continente muçulmano.

Isso é um medo real ou é um medo real em França?
Não somente em França. É real em países onde há presença muçulmana, real na Alemanha, real na Itália, na Espanha... e é real mesmo em países onde não leem o meu livro.


Isso estava na sua cabeça quando o começou a escrever?

Não, veio depois.

Mete-se com a religião, e não apenas o Islão. O catolicismo, o judaísmo. Este Islão parece por vezes simpático, se assim se pode dizer. Suave. Exceto na demografia.
Creio que fiz com que aparecesse como plausível que a sociedade francesa, europeia, se adapte a um chefe muçulmano que aparece como simpático. Fiz medo a muita gente.

E aconteceu “Charlie Hebdo”. Uma violência que não esperava. Perdeu um amigo, Bernard Maris, assassinado. O que é que isto lhe fez?
Foi uma coincidência impiedosa. E fez-me pensar que desta vez as coisas não iam compor-se.

Tem medo? Mesmo com guardas é fácil matar alguém.
Huuuummm... Não, não tenho medo. Não tenho medo porque a minha natureza é assim, despreocupada.

Uma vez disse que queria ser sempre um irresponsável. É assim?
Um pouco, sim.


Tornou-se um dos pilares da cultura francesa, um intelectual comparado a Gide, Camus, Sartre, uma linhagem de ilustres responsáveis. Como é que pode ser irresponsável? Pode continuar a ser uma criança enraivecida? Há quem diga que está demasiado velho para isso, uma coisa que normalmente se diz das mulheres.

Não é verdade. Pode sim, pode ser-se um intelectual agressivo e irritante até à náusea.

Pensa na morte? Nos livros, onde trata sempre dos grandes temas, o sexo, o amor, a morte não aparece tanto.
Não penso muito nisso, na minha morte. E ainda menos na dos outros. Mas a doença é pior do que a morte.

Muitos grandes escritores temem a perda de faculdades, o momento em que comecem a escrever mal. E não saibam que escrevem mal.
Não penso nisso e não posso dizer que isso me pese na consciência. Não penso nisso.

Teve uma infância difícil. O que é que lhe faz mal, na vida?
Muita coisa me fez mal. O sofrimento físico, sim.

E a estupidez humana, a parvoíce?
Não, já estou habituado.

Esse medo do sofrimento físico não é compatível com tantos cigarros. Ou a charcutaria.
Cigarros eletrónicos. Não fazem mal. Não tenho medo das grandes coisas. Não poder escrever não me parece muito grave.

Escrever todos os dias, com disciplina? Quando começa um livro interrompe?
Todos os dias, sim. Ou não. Não interrompo. Interromper é a catástrofe.

Começa com quê? Uma ideia?
Normalmente, é com frases. Não uma mas várias frases, uma série curta.

Um parágrafo? Um verso, como na poesia?
Sim. Um bom parágrafo seria bem bom.


Revê muito? É minucioso?

Muito minucioso. Revejo muito. Corrijo.


E o momento de entregar o livro, declará-lo terminado?

Passo mal. Mal quando entrego o manuscrito e mal quando corrijo as provas. É a última hipótese.


Bonnard ia corrigir o amarelo nos quadros que já estavam expostos. É um perfeccionista?

Isso pode ser feito com os quadros mas não com os exemplares. Sei ser razoável e ter um tempo de correção das provas igual ao de toda a gente. Mas é penoso, penoso.

E depois de publicado?
Sou bastante fatalista. Está feito. Nada a fazer. Não penso muito no que ficou escrito, no que ficou para trás. Raramente tenho ocasião de pensar nisso. Penso nisso quando a ocasião se oferece, quando me pedem para ler uma passagem dos meus livros.

Muitos escritores quando se leem ou ouvem ler em público surpreendem-se com o que escreveram anos atrás, olha isto não é nada mau, não está nada mal escrito.
Sim, sim, pode acontecer aquando se está contente consigo mesmo. Quando se começou a esquecer o que se escreveu e se redescobre, pode ser uma boa surpresa. É-se muito crítico quando se está na fase penosa do acabamento do livro, quando há que terminá-lo. Mas ao fim de alguns anos, habituamo-nos. Ça va.

Responde a gente que lhe escreva, leitores? Tem interação com os seus leitores, atendendo a que é um autor de culto, com clube de fãs?
Sim, fico contente que as pessoas fiquem contentes.

E agressões, teve algumas?
Raramente.

Mistura na ficção os pensamentos de Pascal com pratos pré-cozinhados em microondas. Raro. Os leitores identificam-se com qual destes elementos? As ideias? Ou o quotidiano? A monotonia do quotidiano? O microondas?
Não sei. Penso que as pessoas se identificam com um cenário que reconhecem, elas identificam o seu próprio mundo. Claro que se identificam com uma personagem mas o mundo em que ela se move e que as pessoas reconhecem como seu é importante.

A vida dita normal é irrelevante. É preciso ser dono de um grande estilo para a tornar interessante em ficção. A vida é deprimente. E já agora, esse cigarro que está a acender não é nada eletrónico.
Não é não. Vou fumá-lo. Não sei se é preciso um grande estilo. Uma grande catarse.

Mas você trabalha a prosa como um estilista. Nada é deixado à solta ou está lá por acaso. E existe o trabalho da inteligência.
O estilo é demasiado confuso como tema. O que é necessário é uma grande atenção, a capacidade de atenção. O que falta a muitos autores é essa capacidade de atenção. Não veem nada à frente. Não veem nada do que se passa à volta deles.

Pode ser-se um autor sem nada ver?
Ah, sim, basta ver a quantidade de autores que há por aí. Autores que em vez de escreverem sobre coisas que existem encenam lugares-comuns. Pensam o mundo como um lugar-comum. Atapetar o mundo de atenção é importante.

A atenção extrema é uma qualidade dos infelizes e dos solitários. Quando se está muito entretido não se vê nada em volta.
Isso é muito certo. Quando se observa a vida das pessoas é preciso não estar a pensar na nossa. Não estou certo de que seja uma questão de solidão ou infelicidade. O essencial é não estar demasiado preocupado com as coisas pessoais. E não ter muitas preocupações. Coisas práticas para resolver. Chatices. Para se ser uma espécie de observador neutro não se pode estar enfiado em si mesmo. Não é muito bom ser-se infeliz. Quanto à solidão, há muita gente que me fala dos problemas deles, que me fala da sua vida para se fazerem viver como sujeitos de um romance. Como sujeitos de um autor.

E não é preciso saber pensar? Além da atenção? Você escreve romances de ideias.
Não. Muita gente consegue fazer isso, pensar. Não é o mais difícil. Muita gente desenvolve pensamentos a partir de ideias que foram buscar a outros. Ideias feitas. É fácil, há muitos livros escritos assim. Observar o mundo real é o que mete medo a toda a gente.


Vivemos num mundo mediático, mediatizado, que é um jogo de espelhos de ideias feitas.

Mas além disso fica a vida real das pessoas. E vê-la não é fácil.

Escrever a vida real no mesmo sentido em que Balzac escrevia sobre a vida real das pessoas?
Sim, Balzac fazia isso. Pode-se sempre teorizar, teorizar não é um problema, mas há que ter uma base real.

É um autodidata. Quando é que descobriu que era um escritor? Era adulto? Tinha já um emprego?
Não sei, escrevendo livros, acho. Era adulto, era ainda estudante, antes do emprego. É tudo um pouco vago.

Nos seus livros, vê-se que quando quer tratar um tema, a física de partículas, o turismo sexual, o mercado da arte, a vida académica, etc., que o estuda e investiga metodicamente. Até à exaustão.
Sim, faço-o de propósito. Investigo as coisas, os meios a que não tenho acesso direto. A polícia (em “O Mapa e o Território”) a universidade (em “Submissão”)...

Isso não o maça? Ou fá-lo com prazer?
É problemático. Porque estou a suportar ideias feitas. São zonas de ideias feitas que nada têm a ver com a realidade.

Os autores são atraídos por grandes ideias, não pela construção de sistemas burocráticos, saber como funciona a educação ou a polícia...
Há autores que se documentam muito, eu sou um deles.

Estudou Biologia. A sua inteligência é científica, se posso dizê-lo. Experimenta, usa o método científico para testar e negar a hipótese. E tem uma mente matemática, lógica. Tal como Coetzee, que é um matemático, e que é um escritor que admira.
Isso não sei. Não estou consciente disso.

É um escritor perigoso, que escreve no fio da navalha. O que podia tornar-se insuportável ou asqueroso é redimido pela forma. A forma exalta o conteúdo execrável. “Lolita”, de Nabokov, é um livro escrito assim. Perigoso. À beira do abismo. Disto tem consciência? Deste risco?
Sim, estou consciente do risco, quero o risco. É uma questão de disciplina que consiste em evitar a autocensura.

Lê enquanto escreve? Outros autores?
Sim, não me perturba nada. Ficção, o que quer que seja. Não me incomoda. O meu cérebro não se deixa perturbar. É outra zona. E mesmo que interfira, não me importa. O que é difícil é evitar autocensurar-me. Não se colocar em perigo, evitar recusar a zona de perigo. Este é o esforço.

Como leitora, há momentos em que penso que o livro vai descambar, perder-se. E depois você recupera, e recompõe, e é literatura pura. Podia ser a definição do génio, este efeito literário conseguido contra todas as convenções do género.
Sim, mas não é um esforço positivo. O esforço negativo consiste em não dar importância a tudo o que possa impedir-me.

Em “O Mapa e o Território”, um romance mais literário do que “Submissão”, encena a sua morte de uma forma brutal. Mata-se mas é um assassínio ritualístico. Violentíssimo. Gráfico. Quando li aquilo pensei que jamais conseguiria escrever aquilo sobre mim mesma. Foi difícil? E donde vem a ideia a Michel Houellebecq de matar Michel Houellebecq?
Não, não foi muito difícil. Huuummmm... Posso dizer que não sei de onde vem a ideia. A ideia seduzia-me mas não sei porquê. Não posso gabar-me de sonhar assim tantas vezes com isso, não é um pesadelo familiar. Posso dizer que gosto da ideia de me cortar em bocados. Diz-me qualquer coisa.

Eis uma novidade na história da literatura, um autor que se corta a si mesmo em bocados. Graficamente. Clinicamente.
Talvez. Efetivamente.

Se fosse pintor seria fácil. Um bocado Bacon. Você é um Bacon da literatura.
Talvez. Huuuuummmmm... Bacon...talvez. O ritual obrigava a que as cabeças ficassem intactas. As cabeças do homem e do cão.

Isso era importante?
Acrescenta o horror, deixar as cabeças intactas.

É o que faz o Estado Islâmico, deixa as cabeças das vítimas decapitadas sobre os corpos, graficamente, como prova. A cabeça dos reféns torna-se simbólica. Exceto quando estão em mau estado.
É horrível mas não sei porquê.

O Islão de “Submissão” é diferente. É apaziguador. E diferente do tal Islão dos beduínos no deserto estúpido. Penso que quando se escreveu sobre “Submissão” muitos críticos não reproduziram esta frase antiga, e outras, de propósito, para o protegerem depois de “Charlie Hebdo”. Mesmo os que o detestam.
É verdade, já não ousam. Não penso que seja para me proteger. Muita gente por aí ficaria muito feliz se eu fosse morto.

Tem a certeza? Você tem muita gente que gosta dos seus livros. No caso de Salman Rushdie tive a certeza de que havia muita gente que o queria morto. Assassinado.
Também tive. E no meu caso também querem ver-me morto.

Donde vem esse ódio? Você é apenas um escritor. Inventa palavras, mundos.
É o que eu digo. Mas esse ódio acho que sei donde vem. Sou perigoso. Perigoso para uma visão da sociedade que é defendida todos os quartos de hora por gente dessa sociedade em França.

Quando “Submissão” saiu já havia gente enraivecida com o livro, um tipo do “Le Monde” desfê-lo, acusou-o de tudo. Percebo, você mete-se com os bonzos, os do “Le Monde”, os jornalistas e comentadores de televisão, os políticos... a fauna. É natural que contra-ataquem. Isso é suficiente para odiar alguém?
Sim, sim, claro. Veem-me como um tipo perigoso.

Mas não para o Islão. Perigoso para os franceses.
Sim. A minha morte pode ser uma boa novidade para muita gente.

Estúpido, odiar alguém pelas ideias. Ou livros.
Talvez, mas é assim.


Mas também há muita admiração pelo escritor. Pela prosa.

As duas coisas. Mas há os que também nesse plano me denigrem.

Não será o velho pecado da inveja literária? A mesquinhez da falta de talento?
Pode ser simplesmente isso mas são verdadeiros inimigos. E há os que pensam que não existo e que não escrevo. Ou que seria preferível não existir e não escrever.

Disse numa entrevista que queria ser amado, como toda a gente. É verdade ou é uma daquelas boutades das entrevistas?
É verdade, não obteremos uma coisa se dissermos que não acontecerá.

Os escritores, os grandes escritores, são muito amados. E por isso tudo lhes é perdoado. Têm um ego brutal, idolatria, groupies como as estrelas rock. Não se podem queixar.
Não acho que me perdoem assim tanto. Em França, pelo menos. Não duvide de que sou detestado.

Não será uma consequência do elitismo do meio intelectual parisiense? Das regras desse meio que você infringiu? No resto do mundo não creio que o detestem.
Sim, é no nosso país que somos verdadeiramente detestados.

É uma tradição, quase. Os grandes escritores são detestados no seu país. Os Nobel, sobretudo. Saramago era detestado em Portugal. Coetzee saiu da África do Sul. Martin Amis saiu da Inglaterra. Ser detestado é melhor do que ser unanimemente celebrado. Só os medíocres amáveis são amados por todos.
Concordo. O que quer que seja não há nada que eu possa fazer.

Diz-se que é um anti-humanista. O que quer dizer que o Nobel nunca virá?
É uma consequência. O humanismo é um bocado curto como filosofia.

Neste momento egocêntrico da história do mundo, o que é o humanismo?
Uma lengalenga oca.

É fácil ser-se humanista mas não é fácil amar as pessoas.
É bem visto ser-se humanista.

As suas personagens são sempre homens sós, quase sem família, sem mulher nem filhos. Sente-se confortável com estes atores das suas ficções? São todos um pouco Houellebecq?
Sim, sinto. Mas não sei se é por isso. Creio que são mais personagens metafísicas. Mais dotados para a abstração.

Acha que as mulheres não são capazes disso? Da capacidade metafísica?
Não sei. Sei que lhes é dada uma ausência de história pessoal que os torna mais genéricos.

Mas eles têm uma história pessoal, é por isso que os seguimos.
Queria dizer que eles se envolvem pouco. Servem de modelo geral.

Nenhuma intensidade, é isso? Sobretudo nos sentimentos?
Não muita.

Você é assim? A falta de intensidade é uma arte. É mais fácil ser-se mobilizado, atraído pela intensidade.
Não sei. Eu gosto o suficiente para os imaginar assim, em todo o caso. Sem querer parecer-me muito com essas personagens, revejo-me um pouco nelas.

A personagem de “Submissão”, François, não é simpático. É lúcido, quase detestável. Mas tem qualquer coisa que faz com que nos identifiquemos com o que diz e faz. E pensa. Eu não gosto dele mas ele mobiliza-me, não o largo. Você consegue fazer isto naturalmente ou é trabalhado? Pensa no leitor?
Não penso no leitor.

Que relação tem com as suas personagens, incluindo o Michel Houellebecq de “O Mapa e o Território”?
Elas fazem-me companhia.

Vê-as fisicamente? São como você? François é mais novo.
Sim. Não são necessariamente como eu. Mais jovem. Mais belo do que eu. Não as vejo com precisão mas tenho uma visão.


Falou na beleza. A beleza é um tema literário, como a fealdade. Cyrano, Quasimodo... Quando os realizadores de “Experiência de Quase-Morte” disseram a Catherine Deneuve que iam fazer um filme consigo ela disse que era muito feio. Eles contaram isto à imprensa. E responderam a Deneuve, uma bela mulher, que para eles você não era feio. A fealdade deixou de ser um tema seu? Já foi. Defendeu que havia uma vida sexual para os feios e outra para os bonitos, o que é verdade.

Sim, em mim o tema desapareceu um bocado. Não sei porquê. Cyrano, Quasimodo, vêm de livros não muito conseguidos.

A beleza é um dom raro. A maioria das pessoas não é bela.
Não concordo.

Em Paris, as pessoas arranjam-se muito, cuidam-se, embelezam-se. O que você não faz. Mas a fealdade é a condição humana.
Não acho.

Por se achar feio? Por as outras pessoas dizerem, como Deneuve, que é feio? Os belos veem mais o feio do que os outros.
Quanto mais velho se fica mais feio se fica. Vi isso no meu pai. É por isso que com a idade o tema deixou de me parecer importante. Avancei na idade. A velhice é igual para todos.

E a pornografia também desapareceu? Pela mesma razão?
Sim. E porque há uma ausência de progresso nesse domínio.

Porque é que o sexo continua, apesar da sua condição vulgar e natural em qualquer animal, a ser o grande tabu? Porque é que as pessoas ficam tão chocadas com livros que descrevem sexo?
Huuuuummmm. Não sei, verdadeiramente não sei. Penso porque é que as pessoas pensam aquilo que pensam mas no fundo não sei nada. Absolutamente nada. Ou pior, não se trata de compreender, quando se tenta compreender para descrever acaba-se por não descrever nada. Não se descreve o que se compreende. Deve escrever-se sem compreender porque se tentarmos compreender não se pode escrever. E isto é importante, quando se começa a compreender o mundo para o descrever acaba-se por não escrever coisa nenhuma. É preciso descontar a missão da incompreensão.

Neste momento, a sua preocupação maior, o seu tema, acaba por ser a política, e a Europa, ou a política da Europa. Não era um tema seu e começa com “O Mapa e o Território”. Uma Europa na idade pós-industrial.
É verdade, começa. Neste momento, é o que me interessa. Mais do que uma Europa, uma França pós-industrial. É mais a França do que os outros países que não têm os mesmos recursos.

A França não tem problemas de ricos? Quando se olha para outros países, e basta olhar para o meu, Portugal, vemos problemas bem maiores do que os estados de alma franceses.
Não é verdade, não é nada verdade. Não, não!


Em França vive-se bem. Talvez não sejam felizes, os franceses, mas não vivem mal.

Não vivem nada bem. Pode viver em Paris, mas em França as pessoas empobreceram muito. Significativamente.

Velhos, novos, imigrantes... ou toda a gente?
Sobretudo os velhos. Dizer que a França tem problemas de ricos não é verdade, sobretudo se considerarmos a experiência vivida das pessoas. O que as pessoas vivem não é a quantidade de dinheiro que têm mas a evolução da situação. Estão à beira de serem engolidos, eliminados. Há muita gente no limite da pobreza. De ano para ano. Não é a mesma coisa ter a mesma quantidade de dinheiro quando se sobe ou quando se desce. E os velhos estão na linha descendente, e muita gente com eles.

E atribui isso a quê? À inépcia dos políticos?
Não sei bem, há imposições económicas que levariam muito tempo a explicar.

Não corremos o risco de tratar a política com cinismo? Porque, como dizem os americanos, “it’s a dirty job but somebody’s gotta do it”. Precisamos de políticos e de governantes.
Precisamos.

Acha que a União Europeia, com tudo o que se passa agora com a Grécia ou os países do sul, vai acabar mal?
Vai acabar, isso é certo. Espero bem que este pesadelo acabe.

Porquê pesadelo?
Porque é um pesadelo, uma ideia muito má.

Durante anos, décadas, as pessoas acreditaram que a Europa em União ia dar-lhes uma boa vida. E agora têm medo. O que é que se pode opor à hipótese europeia no futuro?
A França. Este país.

Isso pode confundir-se com nacionalismo.
Sim, eu sou nacionalista.

Como o nacionalismo de Marine Le Pen?
Sim, pode ser igual. Estou-me nas tintas.

O que é a França? Com tantos árabes, africanos, imigrantes, etc. O que é hoje a França?
Esse é o nosso problema mas muito menos importante do que o outro.

Talvez o referendo britânico dê cabo da Europa. Ou alguém alguma vez vai dizer basta?
Talvez acabe aí. Alguém vai dizer basta.

Os gregos estão numa situação horrível.
Francamente, estou-me nas tintas para os gregos. Preocupo-me com a França.

E como é que a Europa pode acabar? Com violência ou democraticamente, com eleições e referendos?
Vai fazer-se molemente, pela dissolução progressiva.

Sempre pensou assim, foi contra a União Europeia? Bruxelas vai fazer os possíveis por manter-se, sobreviver.
Sempre fui contra, uma péssima ideia. Sim, Bruxelas... vai ser duro escavacar o sistema.

Pode dar-se cabo do sistema, nos dias que correm? Veja-se a crise da banca, a crise financeira, o sistema mantém-se inalterado. Não aprendeu, não corrigiu.
Não é impossível dar cabo do sistema.

É estranho ouvir um escritor dizer estas coisas. Pode dizer o que quer. Pode dizer a verdade. Um político não pode nunca dizer o que pensa.
Penso que os políticos pensam muito pouco.

Não há ninguém que admire em política? Nem Mitterrand?
Não, nada. Ninguém. Não me parece que algum deles tenha refletido sobre a História do seu país. Ou lhe tenha dado importância.

A religião. A sua atitude mudou. Acha possível ter uma sociedade coesa e coerente sem religião?
Dificilmente.

Resta o problema da fé, que é uma busca pessoal e não coletiva.
Mas aí precisamos de uma fé ligeira, uma fé que abarque muita gente. É preciso procurar.

Uma fé ritualística, litúrgica?
Sim.

Isso já existe, as pessoas casam-se pela igreja sem fé, pelo ritual. Podemos algum dia ver um Michel Houellebecq convertido?
Vamos ver.

sábado, novembro 22, 2014

Clara Ferreira Alves: A Justiça a que temos direito

A Justiça é antes de mais um código e um processo na sua fase de aplicação. Ou seja, obediência cega, essa sim cega, a um conjunto de regras que protegem os cidadãos da arbitrariedade. Do abuso de poder. Do uso excessivo da força. Essas regras têm, no seu nó central, uma ética. Toda e qualquer violação dessa ética é uma violação da Justiça. E uma negação dos princípios do Direito e da ordem jurídica que nos defendem.

Num caso de tanta gravidade como este, o da suspeita de crimes graves e detenção de um ex-primeiro-ministro do Partido Socialista, verifico imediatamente que o processo foi grosseiramente violado. Praticou-se, já, o linchamento público. Como?  

1) Detendo o suspeito numa operação de coboiada cinemática, parecida com as de Carlos Cruz e Duarte Lima, a uma hora noturna e tardia, num aeroporto, quando não havia suspeita de fuga, pelo contrário. O suspeito chegava a Portugal. Porque não convocá-lo durante o dia para interrogatório ou levá-lo de casa para detenção?  

2) Convidou-se uma cadeia de televisão a filmar o acontecimento. Inacreditável.       

3) Deram-se elementos que, a serem verdadeiros, deviam constar em segredo de Justiça. Deram-se a dois jornais sensacionalistas, o "Correio de Manhã" e o "Sol", que nada fizeram para apurar o que quer que seja. Nem tal trabalho judicial lhes competia. Ou seja, a Justiça cometeu o crime de violação do segredo de Justiça ou pior, de manipulação do caso, que posso legitimamente suspeitar ser manipulação política dadas as simpatias dos ditos jornais pelo regime no poder. Suspeito, apenas. Tenho esse direito. 

4) Leio, pela mão da jornalista Felícia Cabrita, no site do "Sol", pouco passava da hora da detenção, que Sócrates (entre outros crimes graves) acumulou 20 milhões de euros ilícitos enquanto era primeiro-ministro. Alta corrupção no cargo. Milhões colocados numa conta secreta na Suíça. Uma acusação brutal que é dada como certa. Descrita como transitada em julgado. Base factual? Fontes? Cuidado no balanço das fontes, argumentos e contra-argumentos? Enunciado mínimo dos cuidados deontológicos de checking e fact-checking? Nada. Apenas "o Sol apurou junto de investigadores". O "Sol" não tem editores. Tem denúncias. Violações de segredo de Justiça. Certezas. E comenta a notícia chamando "trituradora" de dinheiro aos bolsos de Sócrates. Inacreditável. 

5) Verificamos apenas, num estilo canhestro a que a biógrafa de Passos Coelho nos habituou (caso Casa Pia, entre outros) que a notícia sai como confirmada e sustentada. Se o Watergate tivesse sido assim conduzido, Nixon teria ido preso antes de se saber se era culpado ou inocente. No jornalismo, como na justiça, há um processo e uma ética. Não neste jornalismo. 

6) Neste momento, não sei nem posso saber se Sócrates é inocente ou culpado. Até prova em contrário é inocente. In dubio pro reo. A base de todo o Direito Penal.

7) Espero pelo processo e exijo, como cidadã, que seja cumprido à risca. Não foi, até agora. Nem neste caso nem noutros. Isto assusta-me. Como me assustou no caso Casa Pia. Esta Justiça de terceiro mundo aterroriza-me. Isto não acontece num país civilizado com jornais civilizados. Isto levanta-me suspeitas legítimas sobre o processo e a Justiça, e neste caso, dada a gravidade e ataque ao regime que ele representa, a Justiça ou age perfeitamente ou não é Justiça.

8) Verifico a coincidência temporal com o Congresso do PS. Verifico apenas. Não suspeito. Aponto. E recordo que há pouco tempo um rumor semelhante, detenção no aeroporto à chegada de Paris, correu numa festa de embaixada onde eu estava presente. Uma história igual. Por alturas da suspeita de envolvimento de José Sócrates no caso Monte Branco. Aponto a coincidência. Há um comunicado da Procuradoria a negar a ligação deste caso ao caso Monte Branco. A Justiça desmente as suas violações do segredo de Justiça. Aponto. 

9) E não, repito, não gosto de José Sócrates. Nem desgosto. Sou indiferente à personagem e, penso, a personagem não tem por mim a menor simpatia depois da entrevista que lhe fiz no Expresso há um ano. Não nos cumprimentamos. Não sou amiga nem admiradora. É bizarro ter de fazer este ponto deslocado e sentimental mas sei donde e como partem as acusações de "socratismo" em Portugal. 

10) As minhas dúvidas são as de uma cidadã que leu com atenção os livros de Direito. E que, por isso mesmo, acha que a única coisa que a Justiça tem a fazer é dar uma conferência de imprensa onde todos, jornalistas, possamos estar presentes e fazer as perguntas em vez de deixar escorregar acusações não provadas para o "Correio da Manhã" e o "Sol". E quejandos. Não confio nestes tabloides para me informarem. Exijo uma conferência de imprensa. Tenho esse direito. Vivo num Estado de Direito. 

11) Há em Portugal bom jornalismo. Compete-lhe impedir que, mais uma vez, as nossas liberdades sejam atropeladas pelo mau jornalismo e a manipulação política.  

12) Vou seguir este processo com atenção. Muita. Ou ele é perfeito, repito, ou é a Justiça que se afundará definitivamente no justicialismo. Na vingança. No abuso de poder. Na proteção própria. O teste é maior para a Justiça porque é o teste do regime democrático. E este é mais importante que os crimes atribuídos a quem quer que seja. Não quero que um dia, como no poema falsamente atribuído a Brecht, venham por mim e não haja ninguém para falar por mim. A minha liberdade, a liberdade dos portugueses, é mais importante que o descrédito da Justiça. A Justiça reforma-se. A liberdade perde-se. E com ela a democracia.  

Hoje, no Expresso

sábado, janeiro 11, 2014

Clara Ferreira Alves: Uma carreira J(an)ota


[Hoje, no Expresso]

"É jovem? Ambicioso? Pouco dado aos estudos? Está farto daqueles cursos mixurucas que não dão para mandar cantar um cego? Gosta de marketing e aprecia comunicação? Temos a solução adequada ao seu caso. Somos, nós, consigo, o futuro. O nosso nome é PSD, o partido ideal ao seu perfil. Damos-lhe, sem trabalho e sem esforço, usando o seu talento natural, extraindo os melhores resultados da sua facilidade comunicacional, possibilidades de desenvolver uma carreira política que o poderá conduzir aos mais altos cargos de governo de nação. Temos nas nossas fichas casos de sucesso que o farão decidir num ápice.
(...)
Connosco no poder, que chega pelo menos de quatro em quatro anos, pode até subir a ministro, primeiro-ministroo, comissário ou deputado europeu, o que quiser. Os privados acenar-lhe-ão, motivados pelo seu privilégio, servilismo e acesso ao chefe. Requisitos? Um diploma válido, mesmo de uma universidade para imbecis, por causa das chatices com jornalistas. Não garantimos inscrições na maçonaria mas ajudamos no emprego da família e amigas íntimas. Secretária e motorista incluídos."

sábado, outubro 19, 2013

A história universal da infâmia


É uma espécie de prefácio da entrevista. E é um bálsamo. Pode ser que, a partir de agora, a narrativa seja outra.

sábado, julho 21, 2012

Clara Ferreira Alves


 
"Nós, e quando digo nós digo o jornalismo na sua decadência e euforia suicidária, criámos estas criaturas. Os Relvas, os Seguros, os Passos Coelhos, os amigos deles. O jornalismo, aterrorizado com a ideia de que a cultura é pesada e de que o mundo tem de ser leve, nivelou a inteligência e a memória pelo mais baixo denominador comum, na esteira das televisões generalistas. Nasceu o avatar da cultur...a de massas que dá pelo nome de light culture em oposição à destrinça entre high e low. O artista trabalha para o 'mercado', tal como o jornalista, sujeito ao rating das audiências e dos comentários online. A brigada iletrada, como lhe chama Martin Amis, venceu. Estão admirados?"
Clara Ferreira Alves, hoje, no Expresso

sábado, fevereiro 11, 2012

Clara Ferreira Alves: Miguel Relvas dos Santos



    Nas salas, salinhas e saletas da nossa capital passa-se muito tempo nos últimos tempos a discutir a filiação de Miguel Relvas. O tema não necessita grau académico para a discussão. Basicamente, muito basicamente, como dizem os donos das tascas quando dizem coisas do género “nós aqui trabalhamos basicamente à base de refeições e portanto não pode ocupar uma mesa com um café”, o assunto resume-se a uma pergunta: o tipo (ok, o gajo, esta gente da capital é pouco respeitadora) faz aquilo sozinho ou é o Passos que o autoriza? A outra pergunta, que não segue necessariamente esta, é: até quando vai o Passos deixar o Relvas em rédea solta? Talvez o Relvas caia do cavalo, suspiram lacrimejantes sociais-democratas, muito dados à pieguice que o Passos vitupera.
    (…) Quando o poder acaba, os Relvas deste mundo passam-se para as empresas e enroscam-se nos conselhos de administração. São impunes, amigos de toda a gente e sabedores dos segredos de toda a gente, pelo que ninguém os ousa enfrentar. O que os move não é tanto o ganho pessoal e sim a pequena liturgia do poder, com as espinhas dobradas em volta mais o sorriso serviçal com que são recebidos nas mesas dos almoços de negócios da capital. Facilitadores expeditos e joviais, dão grandes abraços aos inimigos e têm no estrangeiro amigos em lugares importantes, normalmente parecidos com eles. Acabam, se a jogada não correr mal, condecorados pelo senhor Presidente da República Ou mesmo conselheiros de Estado. O Grão-Mestre desta ordem é Dias Loureiro, um controlador geneticamente modificado, dotado de total Impunidade e que por aí continua, a negociar com angolanos, com brasileiros, com quem quiser negociar. De vez em quando é avistado num avião ou num desses restaurantes da capital, porque ele tem mais que fazer. E é tudo menos piegas. Ora o Relvas ainda mal começou, o homem é muito rápido e por isso dá a impressão de que faz muitas coisas mas na verdade só faz uma: campanha eleitoral do Relvas. Dentro do azougado PSD, muitos dizem que a filiação do Relvas não é legítima e que o PSD não é aquilo.
    . Analisemos a filiação. Nestas coisas temos de ser caritativos. O Relvas gosta de negociar com Angola e com angolanos, o Relvas gosta de negociar com brasileiros e também com brasileiros que gostam de Angola e dos angolanos, e que mal tem Isso? Vamos agora ser piegas? O Passos não gosta de gente piegas. Se o Relvas tiver de vender uns bens de família, vulgo bocados de Portugal, a culpa não é do Relvas, é da crise que nos atirou para uma irremediável pelintrice. Temos de ver o Relvas à luz desta bondade, que o faz exaurir-se ao serviço dos contratos de compra e venda da pátria. O Relvas quis fazer um programa de televisão em Angola, e por sinal um bonito programa de televisão onde ele era entrevistado enroscado na bandeira, e caíram-lhe em cima os jornalistas e os ingratos portugueses. Analisemos isto de outro modo: O Relvas, que conhece bem Angola (consta na biografia, que nenhum jornal se deu ao trabalho de investigar, incluindo o período em que a empresa do Relvas “abria portas no estrangeiro” e prestava pequenos serviços ao grande BPN), gosta de Angola e dos angolanos. (…)
    Miguel Relvas torna-se assim uma espécie de filho do Presidente angolano, talvez mesmo o filho português que nunca teve. É, diria o Miguel Relvas dos Santos, a “nossa maneira de estar no mundo”.
    [Hoje, no Expresso]