quinta-feira, julho 21, 2011

quarta-feira, julho 20, 2011

Portugalito de gravata


Quando vamos ao estrangeiro ou quando o estrangeiro vem até nós, a surpresa e a inveja são, ou parecem ser, unânimes: que eles lá no estrangeiro tratam-se pelo nome próprio e não pelo grau académico ou título de função; que são mais simples, mais informais, menos vaidosos, menos ciosos da ilusão da sua aparência e, já agora, dos seus bens materiais. Os comentários pressupõem, assim se depreendia pelo menos, um desejo de mimetização, de aculturação. Puríssimo engano. O português adora dar o nó ao decoro e pendurá-lo ao pescoço, acredita que o respeito pode ser engomado e apetrechado com botões de punho, que a dignidade é tanto maior quando mais altos forem os saltos. Dos tacões. Que a competência tem cor e pode ser combinada com a tonalidade do cinto e da carteira.

A "orientação" dada pela Universidade Católica portuguesa aos alunos, professores e funcionários sobre o dress code que deverão exibir naquele estabelecimento de ensino - nada de chinelos, de calções, de t-shirts baratas - é o mais embaraçoso sinal da pequenez do Portugalito. "Em Direito, os alunos serão futuros advogados e juízes. Tem de haver decoro na forma como se apresentam para que possam ser respeitados", afirmou o constitucionalista Jorge Miranda, caucionando a medida. Vale a pena, vale mesmo a pena gastar dois minutos a pensar nesta afirmação. Quem não corar, desengane-se - concorda com ela.

terça-feira, julho 19, 2011

Em repeat



Too many late nights, goin' too deeply
Into her reasons for leavin' me here, like I don't know why

Thought those blue eyes could complete me
But I filled them instead with the ghosts in my head
I'm never satisfied

'Til the first tear falls
Spend my days now dodgin' memories,
shufflin' my dreams of what we could've been, in another time

In places we've known, I sit by the payphone,
then I warm to my theme with the burn of the Beam
And build my tower of dimes,

But I still can't call

I hid it all with pride , while time was on my side,
From the echoing alley to the sun-kissed valley,
I made it through somehow
I kept it all inside, never let it slide
And I can't start now

Well I was stand-up, loved a showdown
Kept my eyes on the road, never saw what I owed
'Til the price was high

I heard her sweet lips whisper "slow down"
Then my heart hid inside while my old foolish pride
Made those blue eyes cry

And the rain came down...

I've played it wise too long, to say that I was wrong
From the kisses in the Palais to the sun-kissed valley,
I've broken every vow
I never used three words where two would be enough
And I can't start now

And every new day dawns to beat me
I'm on the ropes, but still I'm hangin' in
But for us to survive, I feel I'd be taking a dive
And I can not win

I hid it all with pride, while time was on my side
From the echoing alley to the sun-kissed valley,
I made it through somehow
But she had made me start to open up my heart
And I can't stop now

segunda-feira, julho 18, 2011

Carta para Josefa, minha avó


Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo – e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte.

Trave da tua casa, lume da tua lareira – sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz. Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo.

És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste a lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-me tu, ou terei sonhado que o contavas?)

Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém. Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo.
Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrijada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos – e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo?

Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti – e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava. Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas – e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!”. É isto que eu não entendo – mas a culpa não é tua.

José Saramago

domingo, julho 17, 2011

O quarto F (IX): Love & Rock'n'Roll


É uma pradaria e o vento tem música, daquela que se cola à pele. Quem quer saber do pó? O som nem sempre esteve bem, muitas vezes esteve mesmo mal. Nos Strokes, voava e perdia-se. Alguns concertos pediam sala fechada, que os Beirut regressem depressa para cumprir o desígnio. A maioria é para guardar no lugar onde se guardam as coisas a que regressamos sempre. "You only live once”, Julian Casablancas dixit. A música é coisa séria. 

sábado, julho 16, 2011

O quarto F (VIII): Overdose


Tigerman avisou logo ao início da noite: “Isto é sobre procurar Deus.”  Foi. Encontrámos o concerto do ano por muitos anos. Portishead é uma experiência espiritual sem porta de saída, uma droga aplicada directamente nas veias, não se sai dali igual nem tão depressa. Não deviam ter-nos dado a dilaceração de Beth Gibbons e o avassalador ritual de comunhão dos Arcade Fire na mesma noite. É muito mais do que se pode pedir. O SBSR ameaçou no ano passado tornar-se oficialmente no nosso festival rock preferido. Está confirmado. 

sexta-feira, julho 15, 2011

O quarto F (VII): From Meco with love

A primeira coisa que nos apetece fazer quando ficamos três entrincheirados no trânsito em direcção ao SBSR, mesmo se dá para fazer amigos, para encontrar amigos e trocar flutes de vinho branco, é mostrar um cartão vermelho à organização e dizer que melhore o que melhorar, a Herdade do Cabeço da Flauta nunca terá condições para receber um festival que arrasta milhares de fiéis. Só não dizemos porque um segundo depois de entrarmos na pradaria do pó, a peregrinação em câmara lenta, os carros ajoelhados e a falta de água benta parecem um pormenor irrelevante. O Meco é uma fábula, é rock e é amor, mesmo, é um parque de diversões para adultos. Dois momentos para guardar: a homilia festiva dos Beirut, essa espécie de fanfarra mundial, esfusiante e melancólica; e a electro romântica sueca Likke Li munida de um mini apocalipse de açucar.

quinta-feira, julho 14, 2011

O quarto F (VI): Mais uma ficha, mais uma volta


Tentar explicar a alguém que não gosta de festivais de verão, ou o que lhes é indiferente, por que razão não ir este ano ao Super Bock Super Rock seria como ganhar uma nódoa negra numa perna -  não mata, mas chateia - é pura perda de tempo. Desistimos de explicar, mas não desistimos de tentar comprar bilhete quando os bilhetes já estavam esgotados. Ao vivo só havia impossíveis; na internet era o país das maravilhas. O facebook é como a farmácia, em 20 minutos comprámos dois passes para três dias. Num caso, sem inflação; no outro, com taxa residual. Em ambos, com entrega ao domicílio. Portugal também é isto: boa vontade e honestidade. A honestidade comove-nos sempre. Obrigada Marina, obrigada Miguel.


17º SBSR - Meco

quarta-feira, julho 13, 2011

No respect II

Qualquer pessoa que um dia tenha perdido alguém que não queria por nada perder, sabe como é passar os meses seguintes, os anos seguintes, à procura de semelhanças nos outros. Pode ser o olhar, a forma de andar, de sorrir, de mexer no cabelo... e como é difícil superar essa perda e essa procura que à partida se sabe insana, mas também incontrolável. Daí que a publicação, hoje, num jornal do destino dado aos órgãos de alguém que faleceu é o anúncio de que o jornalismo bateu no fundo do mais fundo que pode haver. Dá vontade de espancar alguém.

terça-feira, julho 12, 2011

segunda-feira, julho 11, 2011

Jonathan Safran Foer: Extremely loud and incredibly close


Há uma coisa incrivelmente maravilhosa que quero preservar. O pai costumava sempre ir deitar-me, contava-me as histórias mais maravilhosas do mundo, líamos juntos o The New York Times e às vezes ele assobiava "I am the Walrus", porque era a sua canção favorita, embora não soubesse explicar o que significava, o que me deixava frustrado. Uma coisa fantástica era ele conseguir encontrar um erro em cada artigo que líamos. Às vezes eram erros de gramática, outras eram erros de geografia ou relativos a factos e outras, ainda, o artigo não contava a história toda. Adorava ter um pai que era mais esperto que o The New York Times e adorava sentir na cara os pêlos do peito dele através da t-shirt e o perfume agradável da loção para depois da barba a que ele cheirava sempre, mesmo ao fim do dia. Estar com ele acalmava-me o cérebro. Não precisava de inventar nada."

(Por razões várias, decidimos nunca ler nenhum livro nem ver nenhum filme sobre o 11 de Setembro. Abrimos uma vez uma excepção para um documentário e agora outra excepção para este livro. Porque já tínhamos tropeçado nele tantas vezes que não podíamos continuar a evitá-lo. É evidente que tinha de haver uma boa razão.)

domingo, julho 10, 2011

O quarto F (V): Concerto do ano não passou por aqui


Quatro dias são muitos dias para um festival, sobretudo quando os concertos que queríamos mesmo-mesmo ver caberiam todos só num. O cartaz ressente-se; nós também. Há festivais a que vamos para ser atropelados, para nos descobrirmos apaixonados por qualquer coisa que até aí nem sabíamos que existia e que depois fica a ressoar dentro de nós durante semanas ou meses ou para sempre. E festivais a que vamos para andar em segurança, na passadeira, sem risco. O Alive é assim, é urbano, é um ir ali e volto já, tem portos que são seguros, mas não esmagam. Na maioria dos dias, poderíamos ter chegado a casa como a cinderela, antes da meia-noite. E ontem foi o dia. Não foi um desapontamento, foi o caminho que escolhemos. Os Wu Lyf ficaram aquém. Mas valeu a pena ter esperado quatro dias só para ouvir Yannis Philippakis, vocalista dos Foals, cantar repetidamente, em crescendo e até à explosão aquele "I'm the fury in your head" em Spanish Sahara, que passámos dias inteiros a ouvir em repeat e a imaginar como seria ao vivo. Ao vivo é brutal. Mas o concerto do ano não passou pelo Alive.

sábado, julho 09, 2011

O quarto F (IV): The grinderman


É possível ser melhor do que a primeira vez. É sempre. Nick Cave fintou o tempo, não tem 54 anos, tem os anos que tinha em Birthday Party, é Elvis sem nunca ter morrido nem perdido a forma, é um lobo e uiva, é uma descarga eléctrica, é upgrade dos Bad Seeds para os Grinderman e é reivenção pessoal, mas Nick Cave é sempre Nick Cave. Continua a escrever sobre as mesmas coisas, álcool e drogas, maridos e mulheres, sobre demónios e sobre o amor. Já não é só o pregador; é o homem que viveu e diz como é. Não tocou Palaces of Montezuma e não podemos perdoá-lo por isso, mas com uma só canção Cave era capaz de reduzir a cinzas os 30 seconds to Mars, que quase não tocaram e a nós tanto nos faz.

Antes já tínhamos subido à montanha mágica dos Fleet Foxes. E uma parte de nós não precisaria de ter ouvido mais nada. O mais certo é que essa parte de nós ainda lá esteja, naquele território capaz de suspender o tempo, adormecer os sentidos e fazer-nos acreditar que é possível sentir tudo outra vez. 

sexta-feira, julho 08, 2011

O quarto F (III): Momento Nirvana


Se houve um deus foi Dave Grohl, momento Nirvana da noite e da "música que é feita por pessoas", à moda antiga, sem computadores. Estávamos lá por causa deles, dos Foo Fighters. Quente. Tirando isso, não houve heróis, apesar de Zé Pedro ter subido ao palco como se fosse um. É possível não gostar por aí além dos Xutos, mas não é possível não gostar do guitarrista. Morno. Não houve cheiro a imortalidade, apesar de Iggy Pop ter desafiado uns quantos a subirem ao palco e ter feito o que faz sempre: dar tudo o que todos queremos ouvir, a abrir, a rasgar, a queimar. Morno, ainda assim. Não houve revolução, apesar de os Primal Scream terem pedido e cumprido e esgotado o palco Super Bock. Nós, atrasados, claro. Morno, por isso. Não houve tempestade, apesar de os My Chemical Romance terem tentado. Frio. Andámos por todos os palcos, às vezes em contra ciclo, às vezes numa nuvem, tropeçámos nuns intrigantes Goose e quase ficámos, no Kele e percebemos que gostávamos mais dele nos Bloc Party, nuns Buraka para indefectíveis, num Canibal solitário a fechar a noite, fizemos escala em todos, não acabámos em nenhum. Ou a noite foi morna ou estamos mesmo a ficar velhos. 

quinta-feira, julho 07, 2011

O quarto F (II): A utopia de James Blake


Não é uma banda do outro mundo, não figura sequer na galeria daquelas que temos-de-ver-pelo-menos-uma-vez-na-vida. É pop docinha, não engorda, mas também não alimenta. Mesmo se usa todos os truques de Houdini, fogo-de-artifício, confettis, balões, céu virtual, tudo para nos fazer levantar voo. Não levantámos - desculpa Chris Martin, não é nada pessoal -, mas os Coldplay que ontem arrastaram 50 mil para o Optimus Alive já não são os tímidos Coldplay que, no Verão de 2000, arriscaram a estreia em Coura, ainda à luz do dia, diante de um público pouco disponível para conceder-lhes o benefício da dúvida. Hoje são uma banda absolutamente intergeracional. E essa democratização, nos dias que correm neste país, faz falta e faz bem.

De resto, já se sabe, os melhores concertos da noite acontecem sempre de dia. Anna Calvi, uma das revelações do ano, ainda não carburou o suficiente dentro de nós para que a pudéssemos ir ver - talvez possamos vir a arrepender-nos pelo atraso, faz parte da vida. Mas James Blake, sobre quem recaíam todas as nossas expectativas, sim, acelerou-nos o batimento cardíaco. O rapaz de 22 anos, cara de 15, entrou ali, contou-nos os segredos, partilhou as utopias, e sugou-nos o sangue. E, claro, ofereceu-nos "Limit to your love", que pediu emprestado a Feist para a transformar, esta sim, numa canção de fazer levantar voo. Foi o concerto da noite. 

quarta-feira, julho 06, 2011

O quarto F: Sei o que fizeste no Verão passado


No Verão passado ainda não éramos lixo. Ainda não tínhamos a sobrevivência dependente de um Fundo Monetário Internacional, ainda não estávamos na bancarrota - ou estávamos, mas não sabíamos, ainda não nos tinham sobrecarregado com impostos, ainda não nos tinham cortado subsídios e asas. Ainda não tínhamos a cabeça a prémio. Mesmo assim, no fim do Verão passado, mais de dez anos em peregrinação de fé por festivais, decidimos pendurar as botas. Não porque os festivais já não valessem a pena - valem, muito mesmo -, não porque cultivássemos essa superstição de não voltar aos lugares onde fomos felizes, mas porque não queríamos ser espectadores da nossa própria decrepitude. Não queríamos manchar a memória dos tempos em que arranjar lugar na primeira fila de um concerto era mais importante do que arranjar onde dormir, em que ir e voltar do Porto ao Alentejo no mesmo dia nos parecia mais do que razoável, em que engolir pó de dia e apanhar chuva à noite não nos beliscava o entusiasmo. Decidimos pendurar as botas antes que as botas nos pendurassem a nós.

Mas depois começou outro ano, vieram os discos novos, as primeiras bandas, as emergentes, as confirmadas, um frémito, uma contagem decrescente, e não foi preciso chegar a Abril para sabermos que rapidamente daríamos o dito por não dito. No Optimus Alive, onde no Verão passado comungámos do memorabilíssimo concerto dos XX de telemóvel na mão, insistindo em partilhá-lo com quem lá não estava e devia, 40 minutos que pareceram 40 segundos; onde participámos na brutal apoteose dos Pearl Jam, milhares de voz no ar a explodir em Betterman, a espinha a arrepiar-se, Eddie Vedder a despedir-se com o país ajoelhado aos pés e a bandeira de Portugal às costas, nesse mesmo Optimus Alive são esperados este ano 170 mil sujeitos. E ainda dizem que há crise, dirão tantos a fazer contas: 170 mil vezes 50 euros por dia somam 8,5 milhões de euros. Será muito, mas muito longe da soma que salvaria o país. Salva o bocadinho de nós que também é Portugal -  nós que também temos direito a um F, que não é fado nem futebol nem Fátima. Para irmos directos ao assunto, é mesmo uma questão de primeiros socorros. Gostar muito de concertos é um privilégio tão grande como gostar muito de ler: a literatura salva-nos o ano inteiro; a música, ao ar e ao vivo, salva-nos no Verão. Funciona como soro recebido intravenosamente, abrindo potencialmente caminho para um resto de ano mais feliz. Há quem adore odiar festivais de Verão; nós adoramos adorá-los. Soou o tiro de partida. E como dizia Vedder, neste mesmo recinto, "Aproveitem bem a noite, não sabemos quem estará cá amanhã." 

terça-feira, julho 05, 2011

segunda-feira, julho 04, 2011

X

There are some things one remembers even though they may never have happened.
Harold Pinter

domingo, julho 03, 2011

3D. Parte II.

[Foto JMG]

Hoje veio a polícia e levou-te. Já era dia, eram quase oito da manhã. Estavas a gritar pelo menos desde as seis, acordei com os teus pés a esmurrar a porta num desespero digno de internamento. "Abre-me a porta, filho da puta!!!!" E tanto bateste e tanto gritaste que ele abriu. Partiste tudo o que encontraste, atiraste o resto pela janela. Achei que era desta vez que ias morrer ou matar. Deixaste o teu carro, um Wolkswagen Polo azul, estacionado na diagonal, a tapar a entrada do condomínio. Ninguém podia entrar ou sair. Saí para o jardim. Em todas as varandas e janelas havia um vizinho incrédulo. E, cá em baixo, um porteiro atordoado, de telemóvel em riste, a ligar insistentemente para a PSP, a repetir a morada, a dizer o que já tinha dito, a reclamar urgência, a explicar que depois poderia ser tarde. "Um homem que dorme com uma amiga minha é um filho da puta!", gritavas, amplificadores na garganta. "Um filho da puuuta!"

A polícia chegou, sei lá quantas horas depois do primeiro sos. Dois rapazes novos mas corpulentos a realizar sonhos de meninos sugados de filmes americanos, farda e dísticos, óculos de sol sem sol, andar ufano,  sensação de poder. Trazem-te cá para fora e tratam-te por doutora, tal como o porteiro, vírus tão portuguesinho e tão aqui do prédio, somos todos doutores. Pedem-te para tirares o carro da entrada, tu tiras, uma guinada faz chiar os travões ou lá o que é que chia nos carros, eles preparam-se para ir embora, missão cumprida sem perderem a pose. Pergunto-lhes qual é o procedimento mínimo a que estão obrigados, surpreendem-se com a pergunta, respondem-me com uma contra ordenação de trânsito. Surpreendo-me eu, não gostava que alguém, não importa quem, se cruzasse contigo na estrada, explico-lhes. És um perigo. E não é pela gritaria que nos tirou a todos da cama, é pelo que se não vê e se sabe se te fizerem uma despistagem do óbvio. Além disso, és um caso de violência doméstica impossível de ignorar. Nesse caso, dizem, tenho que apresentar queixa. Sou a única pessoa a aceitar dar a cara e o nome. Um condomínio chega bem para imitar o país, penso.

O teu amigo, um cinquentão de pele queimada e puxada como o cabelo com gel, que chegara entretanto num SLK descapotável, para te salvar a ti ou o teu namorado ou os dois, não percebi, fica assustado, diz-me que eu não devia apresentar queixa porque depois não a posso retirar. Não sei se posso ou não, sei que não tenho a mais pequena intenção de a retirar. E sei, soube mal falou, que estava mais preocupado com ele do que contigo, não fosse eu lembrar-me de pedir aos dois rapazes polícias que  lhe fizessem também um teste. Por esta altura, tu e o teu corpo titubeante, voltaram a gritar. Estás decidida a contar tudo, a insultar todos, perturbada, desnorteda. "Não tenho nada, naaaaada, para falar consigo, senhor agente. Nada!" Eles querem levar-te, ameaçam algemar-te se não te acalmares. "O meu namorado, ex-namorado, é um corrupto, um alcoólico, tem uma escola de condução (e dizes o nome da escola) e a carta apreendida e conduz na mesma e dá aulas na mesma!", denuncias numa vingança de amor ou de ódio ou seja lá o que for que te move. Mas dizes que vais voltar a entrar no prédio, que aquela é a tua morada, e que queres apanhar as tuas coisas, e dizes isto tudo aos berros. A janela da casa em frente, do outro lado da rua, abre-se, uma mão afasta a cortina e uma mulher dispara: "Se não te calas, vou aí abaixo foder-te essa cara com dois estalos! Histérica de merda! As betas da Foz são piores que as mulheres do Aleixo!" Tu olhas, não ousas responder. Dizes que vais chamar a tua advogada. A polícia perde a paciência, pega em ti como num tubo, e enfia-te à força dentro do carro. A tua resistência parte os óculos de sol do agente e o protocolo. Lá se foi a deferência do tratamento e o doutora: "Partiste-me os óculos, minha estúpida, vais pagá-los. E cala-te antes que eu perca a paciência", disse ele já depois da paciência perdida.

Tu só tens tempo de olhar para o teu amigo - aterrorizado com o medo de que a polícia o inclua no circo - e dizer: "Tu estás a ver isto e não estás a fazer nada, tu sabes a verdade, nunca te vou perdoar." Ele encolhe os ombros, pega no telemóvel e liga ao teu (ex?) namorado: "Não saias daí, não venhas cá fora."