domingo, março 17, 2013

Let the bed sheet soak up my tears



Please put me to bed
And turn down the light
Fold down your hands
Give me a sigh
Put down your lies
Lay down next to me
Don't listen when I scream
Bury your doubts and fall asleep
Find out I was just a bad dream
Let the bed sheet soak up my tears
And watch the only way out disappear
Don't tell me why
Kiss me goodbye
For neither ever, nor never
Goodbye

sábado, março 16, 2013

Oleg Oprisco


Tem 25 anos, é ucraniano e faz isto. E isto é poesia.
Portfolio, aqui: http://www.oprisco.com/

Empresta-me os teus olhos uma vez...



... que os meus não são de gente
apenas rapaz
é só o tempo de me aperceber
da visão que se turva
para ser de mulher

Empresta-me uma chávena de sal
E mostra-me a receita do caldo lacrimal
é só o tempo de te convencer
que nem precipitado consigo chover
Não é um adágio que nos persegue
que um homem só não chora
porque não consegue

Empresta-me esse efeminado luto
Ser masculino é ter-se o lenço enxuto
É só o tempo de me maquilhar
De pranto transparente
A cor de mulher
Não nasci pedra
Nasci rapaz
Que um homem só não chora
porque não ser capaz

Os homens fazem fogo
com dois paus eles fazem fogo
Por troca, ensino-te a queimar

Tu és corrente
e eu finjo mar
que um homem para que chore
não pode chorar

Verdade, bondade e beleza

[Primeira audiência com jornalistas]

“Caros amigos, estou contente por vos encontrar no início do meu magistério na cadeira de Pedro, a vocês que trabalharam aqui em Roma neste percurso intenso, iniciado com o surpreendente anúncio do meu venerado predecessor Bento XVI, no último 11 de Fevereiro. Saúdo cordialmente a cada um de vocês. (...) O lugar dos mass media foi crescendo sempre nos últimos tempos, tanto que se tornou indispensável para narrar ao mundo os acontecimentos da história contemporânea. Um agradecimento especial a vocês, pelo vosso qualificado serviço nos últimos dias. Vocês trabalharam, eh? Trabalharam...

Quero-vos bem.

Para o vosso trabalho são precisos estudos, sensibilidade, experiência, como em tantas outras profissões, mas é precisa uma grande atenção à verdade, à bondade e à beleza, e nisto estamos próximos porque também a Igreja existe para comunicar a verdade, a bondade a beleza. Deve ficar bem claro que somos todos chamados não a comunicar nós próprios, mas esta tríade existencial que é formada pela verdade, a bondade e a beleza.

(...) Queria tanto ter uma Igreja pobre e para os pobres. A Igreja, mesmo sendo uma instituição histórica, não tem uma natureza política, é essencialmente espiritual: é o povo de Deus. (...) Sem Cristo, Pedro e a Igreja não existiriam. Como repetiu várias vezes Bento XVI, Cristo está presente e guia a sua Igreja. O protagonista, em última análise, é sempre o Espírito Santo. Ele inspirou a decisão de Bento XVI para o bem da Igreja; Ele falou na oração e na eleição aos cardeais.

Na eleição tinha o meu lado o arcebispo emérito de São Paulo e prefeito emérito da Congregação para o Clero, Cláudio Hummes, um grande amigo que quando a coisa se tornava um pouco perigosa me confortava. Aos dois terços houve o aplauso e ele abraçou-me e beijou-me e disse-me ‘não te esqueças dos pobres’. Aquela palavra entrou aqui [na cabeça], os pobres, os pobres. Alguns não sabiam por que tinha escolhido o nome Francisco, e interrogavam-se se seria por Francesco Saverio [jesuíta expulso das colónias espanholas, conhecido como Francisco Xavier], Francisco de Sales [bispo de Génova] ou Francisco de Assis. Foi por causa dos pobres que pensei em Francisco. Depois, enquanto o escrutínio prosseguia, pensei nas guerras, e assim surgiu o homem da paz, o homem que ama e protege a criação, com o qual hoje temos uma relação que não é tão boa. Muitos disseram que me deveria chamar Adriano para ser um verdadeiro reformador, ou Clemente, em vingança contra [o Papa] Clemente XIV, que aboliu a Companhia de Jesus. Francisco de Assis, homem da pobreza e da paz.

Deixo-vos uma bênção não solene, que cada um a receba na consciência. O coração dá este bem a cada um, respeitando a consciência de cada um, mas sabendo que cada um de vocês é filho de Deus.”

quinta-feira, março 14, 2013

Caminhar, edificar, professar

[Primeira homilia do Papa, Capela Sistina]

“(...) Estas três leituras têm uma coisa em comum: o movimento. Na primeira, o movimento no caminho; na segunda, na edificação da Igreja; na terceira, o movimento da confissão. Caminhar, edificar e professar. A nossa vida é um caminho e é errado se pararmos. Devemos caminhar sempre, na presença e na luz do Senhor. Deus pediu a Abraão: Caminha na minha presença e sê irrepreensível."

quarta-feira, março 13, 2013

Stand in faith

[Oleg Oprisco]

Stand in faith
Even when you can't see your way
Stand in faith
Even when you feel like you can't face another day
Stand in faith
Even when the tears want to flow from your eyes
Stand in faith
Knowing that our God will always provide
Stand in faith
Even when you feel that all hope is gone
Stand in faith
Knowing that He is always there for you to lean on
Stand in faith
Even when you feel like giving up
Stand in faith
Because He is there... saying, 'Just look up'
Stand in faith
Even in those times you feel so all alone
Stand in faith
Hold on and be strong, for He is still on the throne
Stand in faith
Even when it's hard to believe
Stand in Faith
Knowing that He can change your situation, suddenly
Stand in faith
Even in those times you feel it's hard to pray
Stand in faith
And believe that He has already made the way
Faith is the substance of things hoped for, the evidence of things not seen
So stand in faith
Because you already have the victory! 
Nissa Armstrong

Jorge Bergolio: uma escolha maravilhosa



O cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio é o sucessor de Bento XVI na cadeira de São Pedro. O novo Papa, o 266º da Igreja Católica e o primeiro sul-americano, é jesuíta e escolheu o nome Francisco.

Um Papa modesto, conservador e preocupado com os mais pobres. São estes alguns dos traços do 266.º Papa, o primeiro latino-americano e jesuíta. Aos 76 anos, o cardeal Jorge Mario Bergoglio é uma surpresa e uma escolha improvável para os que previam que, depois do pontificado curto de Bento XVI, que renunciou devido à idade, o novo Sumo Pontífice seria escolhido entre os mais jovens.

No entanto, o arcebispo de Buenos Aires foi o principal adversário de Joseph Ratzinger na eleição de 2005, tendo chegado a reunir 40 votos dos cardeais eleitores, recorda John Allen no perfil que traçou de Bergoglio para o National Catholic Reporter. Oito anos depois, terá sido o candidato de consenso depois de afastados outros nomes dados como favoritos.

Filho de pai italiano, um ferroviário, oriundo da região de Turim, e de mãe dona de casa, tem quatro irmãos. Bergoglio estudou Teologia na Alemanha e desempenhou vários cargos administrativos na Cúria, o que lhe permite criar pontes entre os dois continentes com mais influência na Igreja Católica.

Bergoglio estudou engenharia química. Mais tarde, quando perdeu um pulmão devido a uma doença respiratória, resolveu seguir o sacerdócio. E agora é o primeiro Papa não europeu desde o ano 752.

Nascido em Buenos Aires, em 1936, só seguiu o sacerdócio aos 32 anos. Após a ordenação dedicou os anos seguintes a ensinar Literatura, Psicologia e Filosofia, antes de assumir, na década de 1970, o cargo de provincial da Companhia de Jesus na Argentina. O país vivia então sob ditadura e, enquanto muitos jesuítas se aproximavam da Teologia da Libertação e viam no movimento progressista uma forma de oposição aos generais, Bergoglio insistiu para que se mantivessem fiéis aos princípios espirituais da companhia e se dedicassem ao trabalho pastoral, escreve Allen.

A ascensão religiosa de Jorge Mario Bergoglio coincidiu com um dos períodos mais obscuros da Argentina: a ditadura militar(1976-1983). Foi acusado de não proteger dois jesuítas que foram sequestrados clandestinamente pelo governo militar por fazerem trabalho social em bairros de extrema pobreza. Ambos os padres sobreviveram a uma prisão de cinco meses. O caso é relatado no livro "Silêncio", do jornalista Horacio Verbitsky, também presidente da entidade privada defensora dos direitos humanos CELS. A publicação leva em conta muitas declarações de Orlando Yorio, um dos jesuítas sequestrados, antes de morrer em 2000.

"A história condena-o: mostra-o como alguém contrário a todas as experiências inovadoras da Igreja e, sobretudo, na época da ditadura, mostra-o muito próximo do poder militar", disse há algum tempo o sociólogo Fortunato Mallimacci, ex-decano da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires.

Os defensores de Bergoglio dizem que não há provas contra ele e que, pelo contrário, o novo Papa ajudou muitos a escapar às Forças Armadas durante os anos de repressão no seu país, tendo mesmo usado um encontro com o general Videla para interceder em defesa das vítimas da ditadura.

Como bispo auxiliar (desde 1992) e depois como arcebispo de Buenos Aires (desde 1998), o cardeal manteve sempre uma posição conservadora em termos teológicos, sendo considerado próximo do movimento Comunhão e Libertação, grupo católico com grande influência junto da política italiana. Será também o primeiro jesuíta a assumir o trono de São Pedro.

No Vaticano, longe de possíveis polémicas dos tempos de ditadura, é esperado que o cardeal sul-americano, silencioso e tímido, conduza a Igreja Católica com firmeza e com uma clara preocupação social.

"Ele é capaz de fazer a necessária renovação sem saltos para o desconhecido. Será uma força de equilíbrio", disse à Reuters Francesca Ambrogetti, co-autora da biografia de Bergoglio, após uma série de entrevistas durante três anos.

"Ele partilha da visão de que a Igreja Católica deve ter um papel missionário, que sai ao encontro das pessoas, que é activa... Uma Igreja que não se preocupa tanto em regular a fé, mas sim em promovê-la e facilitá-la", acrescenta Ambrogetti.

O novo Papa é também destacado pela preocupação com os mais pobres.Guardian escreveu que, em 2001, quando João Paulo II o nomeou cardeal, Bergoglio pediu aos fiéis que, ao invés de se deslocarem a Roma, distribuíssem o dinheiro da viagem entre os mais pobres. Durante a crise económica que atingiu a Argentina, surgiu como uma voz da consciência nacional e, por várias vezes, tem alertado para as consequências da globalização desregrada para os que já sobrevivem com muito pouco. 

É também destas críticas que resultou a sua má relação com o casal Kirchner. O ex-Presidente Nestor Kirchner chegou mesmo a considerar o então arcebispo como "o verdadeiro representante da oposição". Com Cristina Kirchner, que sucedeu ao marido na Presidência da Argentina, a relação também não tem sido fácil, tendo atingido um pico de conflitualidade quando foi aprovado o casamento gay no país. Apesar destas diferenças, a actual Presidente já disse que vai estar em Roma, na terça-feira, na cerimónia de inauguração do pontificado do Papa Francisco.

Ao longo dos anos, Jorge Mario Bergoglio deu prova da sua ortodoxia, manifestando também a sua oposição incondicional ao aborto e à contracepção ou à adopção por casais homossexuais. Em 2010, escreve o Guardian, quando a Argentina se tornou o primeiro país latino-americano a legalizar o casamento gay, o cardeal afirmou que a alteração legislativa representava uma forma de discriminação de crianças que, disse, deveriam ter o direito a ser educadas por um pai e uma mãe. Ainda assim, admite o recurso ao preservativo para impedir doenças infecciosas – ficou famosa a sua visita, durante as cerimónias pascais de 2001, a um hospital para lavar e beijar os pés de 12 doentes com sida.

É conhecido também pela timidez e modéstia – Allen recorda que recusou viver no palácio apostólico, que trocou por um apartamento na capital argentina, dispensou a limusina (prefere viajar de autocarro e metro). "O seu estilo de vida é sóbrio e austero. É a forma como vive. Viaja de metro, de autocarro e quando vai a Roma voa em classe económica", conta Francesca Ambrogetti. "Sempre foi uma pessoa simpática e acessível", contou à Reuters Roberto Crubellier, empregado de uma igreja na Baixa de Buenos Aires, onde Bergoglio costumava ir.

O homem simples que cozinha as suas próprias refeições gosta de tango e literatura, principalmente os autores clássicos. E é também um apaixonado por futebol. É adepto do San Lorenzo de Almagro, de que é inclusivamente sócio. Gosta de ir ver os jogos da sua equipa, algo que agora terá mais dificuldades em fazer.
[Público]

terça-feira, março 12, 2013

No dia em que Raul Brandão faria 146 anos



Quando morreu, em 1930, Amâncio Cabral escreveu sobre Raul Brandão na Ilustração (revista que existiu de 1926 a 1939, e que pode ver-se, e vale a pena ver, na Hemeroteca Digital):

"O que Raul Brandão tinha e os demais, raramente, têm não se aprende nem se ensina. (...) O artista de olhos claros que desapareceu era demasiadamente homem para ser estátua; o seu coração pulsava demais pelos que sofrem e choram e gemem doloridos, para poder atingir o sarcasmo e a frieza analítica que caracterizam a maioria dos génios catalogados, gigantes de mão dura que nos amarfanham e plasmam os sentidos sem perder a sua inalterável frieza, a frieza do mármore incomovivel de todos os monumentos. Mas a sua silhueta, aureolada da ternura infinita da sua obra melancólica, mais há-de crescer, cada vez mais, pois quanto mais distante estiver a sua vida terrena, mais a sua arte e a sua espiritualidade hão-de estar connosco."

Um ano depois da sua morte, a mulher, Maria Angelina, partilhava "O pobre de pedir", o último livro de Raul Brandão, pedindo-lhe desculpa pelo "atrevimento", mas dizendo que não sabia se devia "guardar numa gaveta" o livro em que "há páginas mais belas em dor, em humanidade, do que as Dostoievski".

Fica o excerto, tão actual, no dia em que Raul Brandão faria 146 anos.

"Já não posso com estes tipos. A aldeia está a transformar-se numa coisa amarga, numa coisa vasta e amarga, que se não fez para os meus nervos delicados. A verdadeira dor e a verdadeira piedade têm um peso insuportável. Já não posso. Já não posso com esta mulher que passou por mim e olhou para mim - e eu fiquei para sempre ligado à sua figura inexpressiva e gasta -, nem com o cego das Uveiras, que a cegueira tornou mais alto, e que não bole, fixando o céu, como se esperasse do céu um acto extraordinário, nem com todas estas figuras escavoncadas, que passam os dias da vida monótona, repetindo os mesmos gestos, cheios de terra e em contacto permanente com a terra:

- E Jesus que não vem!
Já muitos o viram. É um pobre - é um pobre de pedir -, é um fantasma. Ninguém sabe dizer como é esse vulto que desaparece na volta dos caminhos. Não traz sacola, e não passa talvez duma sombra. O seu silêncio mete medo. Viram-no, e quem o vê fica atónito como o Manco, que anda desvairado pelo alto dos montes, a desafiar o vento com um pau e a pedir lume ao fogo dos relâmpagos. Viu-o o senhor José, espesso como granito, que nunca pôde comunicar comigo. Viu-o e calou-se. Mas sei que viu o pobre, porque se pôs a olhar para mim duma maneira singular... e o Manco teima e diz, com a ponta do cigarro requeimando ao canto da boca:

- Jesus Cristo há-de voltar para nos dar a Terra.
- Voltar?!
- Os pobres hão-de ser sempre pobres."

domingo, março 10, 2013

?!

Belmiro de Azevedo, hoje, em entrevista ao Público.

sexta-feira, março 08, 2013

Pedro Santos Guerreiro: Clara, Clarinha


Esqueça os caracteres chineses, que o mundo pós-Kennedy repete mas não pratica. A crise, a palavra crise, tem origem grega, o que também nada explica. A explicação não está noutros, está em nós. Se nos propusessem resolver a desdita matando alguém já teríamos aniquilado a espécie humana.

Talvez tenha sido na verdade matando que chegámos às portas da crise, desta crise que ainda não tem nome histórico mas já tem história para ter nome. Matando o que comemos quando queremos comer mais, mais que baste, mais que outros, mais que antes, mais que tudo. Matando o depois para ter já. Matando valores para ter preços. Tudo tem um preço. Um homem não tem preço? Uma multidão tem.

Não se tem medo das alturas quando só se olha para cima. Quando, finalmente, olhamos para baixo com terror, perguntamos “quem foi, quem foi que fez isto?”. Culpamos a desregulamentação como se fosse problema de lei. Apontamos aos mercados como a um matadouro. Dizemos que é ganância como se fosse coisa alheia.“Eu bem te disse que eles sempre acabam por ter ambições”, conclui a velha.

A velha é rica e está feia mas, ao contrário da dona Prudência de William Blake, não está solteirona nem é cortejada pela impotência: come carne de marido e bebe sangue de mundo. Por fastio. Por capricho. Por vingança. Por missão. Por consumição? A velha é superpotência, é a mulher mais rica do mundo, e regressa à cidade falida para a salvar, 45 anos depois de de lá ser escorraçada por gravidez não correspondida. Era ruiva. Saiu nova para uma velha profissão. Regressa velha para uma nova procissão. A procissão de um morto. A Clara, a Clarinha, a mais-que-tudo de quem não tem nada, quer um morto no caixão. O morto há-de ser o catita daquela cidade, cabrão que ela amou 45 anos antes e a trocou por mercearia, deixando-a com uma engenhoca nos braços como o engenheiro que sempre não era engenheiro de Alexandre O’Neill. O cabrão virou estimável, mas a mulher amar na palha não podia, menos ainda se por prazer. “Fungar, fungues tu ainda hoje no inferno com o Diabo a cavalo!”, dizia outra velha em Terras do Demo, de Aquilino Ribeiro, ao ouvir o arfar e os gonzos a chiar no quarto ao lado. “Cabra! Grande coira! Não te emprenha o ladrão para saberes o que custam gostinhos!” A Clara, a Clarinha, foi prenha conhecer os gostinhos: vendeu-se a homens e depois comprou-lhes o mundo para dele fazer bordel e os bordéis, dizem os provérbios do Inferno de Blake, constroem-se com os tijolos da Religião.

A Religião benze a fronte, a Economia encolhe os ombros, a Justiça lava as mãos, a Política põe o corpo todo no fogo. O diabo do dinheiro já começou a barganha das almas, é uma questão de tempo. É esperar: o arrobo impulsivo da ética desabará com o que antevêem os olhos, que são mais que a barriga esfomeada. Se já houve mercador que em Veneza cobrasse por juro uma libra de carne, por que não haveria a Clara, a Clarinha, bem-vinda Clarinha!, de pedir corpo inteiro por um bilião?


É o Direito, expressão da Justiça na conveniência do seu tempo, que ensina a diferença entre actos e factos. Cedo a moral cederá e a dúvida já não será se o homem morre mas saber quem o mata. Um facto: um homem morre. Um acto: matá-lo. A multidão, que primeiro é alumiada pela recompensa, cega depois a propiciar a execução. Aqueles que Orwell viu transformarem-se em porcos vivem – e matam. (Já a imprensa, que tem o poder de descobrir, expor e nisso proteger, deslumbra-se com pouco se se acomoda na sala de jantar.) E assim uma multidão tem preço porque dilui a culpa e dissolve a autoria: num pelotão de fuzilamento nenhum soldado sabe que espingardas têm balas. “Um cadáver não vinga as injúrias” (Blake). Negócio fechado.


É claro que “A Visita da Velha Senhora” é uma peça para este tempo. As comparações são irresistíveis num território desocupado de poder como está (e vai sendo) Portugal. Falamos de uma cidade que empobreceu depois de lhe terem comprado “aparelho produtivo” para o desmantelar; a Velha Senhora põe e dispõe e tem até nome angélico; o resgate impõe condições austeras, as instituições torcem-se com a devida vénia. Eis uma cidade empobrecida que inventa uma nova prosperidade a crédito, feita do que se vende e não do que isso rende. “Toda a cidade faz dívidas a torto e a direito. E o bem-estar da colectividade aumenta com as dívidas.” Perdão? “Precisamos de crédito, precisamos de confiança e de encomendas!” Mais nada. Ou mais isto: o teatro como pedagogia não do “funcionamento” da economia mas da demagogia que ela viabiliza. Em “Santa Joana dos Matadouros”, que Bertolt Brecht escreveu durante uma crise que ficou com o nome histórico de Grande Depressão, há uma deslição de humanidade em cima de um explícito funcionamento da “economia de mercado”. Isto é: dos mercados.

Também Friedrich Dürrenmatt viveu a Grande Depressão mas foi depois da Grande Guerra que (também) ela provocou que escreveu sobre a Velha Senhora. Aqui, a economia não é amada, nem amante, nem mulher, é uma gaja sentada para jantar. Tem de estar. E quem faz por comovê-la não quer se não comê-la. Mas sabendo isto: o capitalismo não é amoral, essa desculpa não pode servir a quem lá ande. A quem toma opções morais. O que estamos dispostos a relativizar por dinheiro? Tudo? Nada?

Dürrenmatt apresenta “um mundo e não uma moral” e pede que, ao contrário do que dita o Fausto de Pessoa, nem tudo seja símbolo e analogia. Uma mulher também é uma mulher, um homem também é um homem, um amor também é um amor.

Um amor.

Não é por acaso que a peça de Shakespeare citada não é o Mercador de Veneza, é Romeu e Julieta. Mas Clara, a Clara, a Clarinha, não é uma Julieta de Verona que se mate por não respirar sem Romeu. Não é uma Zefa de Terras do Demo que peça a Alonso que a mate depois de traí-lo, para que nessa súplica de morte acabe recebendo perdão de quem a ama sob um xaile mais rico que o manto de Nossa Senhora. Não é uma Karenina que afinal amou sozinha, não é Eurídice que morra por Orfeu, não é Lucrécia mal casada que se abandone numa cama de mandrágora com o amante ardiloso disfarçado de vagabundo. Em Clara cresceu o negro e não o vermelho. É vingativa. É pusilânime. É boçal. É uma besta. Mas uma besta rica nunca é uma besta, é rica. É mais fácil trair uma ruiva que uma rica. É? Não, não é nada.

“A humanidade gira toda sobre o amor e a fome”, escreveu Anatole France, mas há homens saciados que têm tanta fome de si mesmos que por insuficiência se afastam do destino da corrida, que é a partida e não a meta. Não há nada mais triste que amar esta mulher ruiva que não sabe que, matando, morrerá.

Nota de Pedro Santos Guerreiro: este texto foi escrito a convite do São Luiz Teatro Municipal para o programa da peça “A Visita da Velha Senhora”, de Friedrich Dürrenmatt, numa encenação de Nuno Cardoso que estreou a 7 de Março de 2013. E é uma homenagem a Ricardo Pais, que encenou algumas das peças que cito, que ensinou o meio país onde eu estava a ver, e sentir, teatro.

quarta-feira, março 06, 2013

A banda mais bonita da cidade

José Eduardo Martins: Obrigado Itália?



As eleições em Itália até podem forçar uma mudança de rumo na política europeia mas foram, para já e sobretudo, o sinal mais expressivo do exaspero das pessoas com os partidos políticos tradicionais que, lá como cá, esperavam viver apenas do manso rotativismo da falta de alternativa.

Era bom perceber este aviso e fazer dele alguma coisa antes que as manifestações substituam as eleições.

Parece que a Europa e o euro vão soçobrar porque o povo italiano não "sabe" votar. Não será por termos eleito a casta competente e previdente que nos trouxe aqui. Foi porque os italianos elegeram "palhaços", na elegante expressão do SPD e da capa da Economist...

Sucede, parece-me, que ocorreu só a antecipação de algo que se repetirá bastas vezes, agora que a história não acabou e a democracia liberal ainda nos autoriza a decisão. Afinal, como dizia recentemente o Sr. Kerry, ter o direito à estupidez é melhor que o não ter.

Se a política e os partidos tradicionais não oferecem credibilidade, se cada vez mais os protagonistas nos entusiasmam cada vez menos, se cada vez mais é fácil adivinhar a vacuidade que se segue, se o jargão é cada vez mais igual e cada vez menos o nosso, então os italianos fizeram muito em responder na mesma moeda. E outros se seguirão.Tanto se fala em reformas, uma das primeiras, a essencial, quando já anda gente na rua a dizer que as eleições são "uma das formas" (sic!) de expressar a vontade popular, é da reforma da representação que precisamos antes que isto descambe e a democracia seja, afinal, tão pouco resistente como o bem-estar que nos escapa por entre os dedos.

Para que as grandes ideias não consumam ou adiem objectivos mais fáceis, duas sugestões com o mesmo objectivo: estarmos mais próximos, mais representados, mais tranquilos com os que elegemos.A primeira trata de fazer os partidos escolherem melhor o que nos apresentam, a segunda de nos fazer participar também nas escolhas dos partidos.Há uns anos, imaginámos que podíamos melhorar com um modelo popular de eleições directas de liderança partidária. O resultado está à vista: organizações mais fechadas sobre si próprias, mais desiguais na representação do todo nacional e desinteressantes para uma enorme maioria de pessoas que não se revê, nem consegue participar nesta lógica de aparelho.

O resultado é que para parecer que avaliamos melhor os líderes, deixámos de conhecer o resto, as equipas e as ideias, como se a política não fosse um exercício colectivo que devesse atrair a sociedade à participação. E os líderes ficaram, afinal, cada vez menos diferentes... Se queremos envolver outras pessoas na vida pública, precisamos de partidos permeáveis à sociedade. Que discutem e elegem em assembleia e onde não seja, pelo menos, tão acintoso o divórcio entre os eleitores e os militantes, como acabou de se constatar no PS.Por outro lado, a propósito do sistema eleitoral, discutimos muito a redução do número de deputados e a criação de círculos uninominais como se, depois de tantas maiorias, fosse mesmo a falta de estabilidade o mal de que padecemos.

Novamente, é discussão ao lado: com mais ou menos acerto na dimensão dos círculos eleitorais, temos sistema que assegura representatividade adequada e estabilidade quanto baste. O que talvez pudesse, na mesma linha, fazer a diferença seriam listas em que pudéssemos mexer. A democracia faz-se com os partidos e nada os substitui. Mas a possibilidade de ordenar as listas que decidem seria porventura um bom estímulo à participação. Em breve, ou nos envolvem ou nos perdem. A escolha parece fácil, a vida não o demonstra.

[Hoje, Jornal de Negócios]

terça-feira, março 05, 2013

Hugo Chávez (1954-2013)



(Magnífico dossier no El País)
La primera aparición de Hugo Chávez en televisión ocurrió en la mañana del 4 de febrero de 1992, cuando llamó a la rendición de los oficiales que le acompañaron en la intentona golpista que él comandó, esa misma madrugada, contra el Gobierno de Carlos Andrés Pérez. “Compañeros, lamentablemente, por ahora, los objetivos que nos planteamos no fueron logrados en la ciudad capital. […] Oigan mi palabra, oigan al comandante Chávez, que les lanza este mensaje para que por favor reflexionen y depongan las armas. […] Yo, ante el país y ante ustedes, asumo la responsabilidad de este movimiento militar bolivariano”, les dijo. El comandante Chávez no logró tomar el Palacio de Gobierno de Miraflores, en Caracas, mientras sus compañeros sí controlaban las guarniciones militares más importantes del país. Pero Chávez dijo “por ahora” y esas palabras, transmitidas a través de todas las televisoras del país, convirtieron la derrota militar que daba al traste con décadas de conspiración, en su primera victoria política.
Hugo Rafael Chávez Frías (Sabaneta de Barinas, 28 de julio de 1954) se apuntó a la Academia Militar en agosto de 1971, persuadido por la idea de que así podría dejar su pueblo natal e irse a la capital, Caracas,donde se esforzaría por captar la atención de un cazador de talentos de la liga americana de beisbol. Él quería ser lanzador. Y lo fue: en el anuario su promoción, la primera de Licenciados en Ciencias y Artes Militares de Venezuela, se le recuerda como el zurdo Furia, “el mejor lanzador” del Ejército y “excelente primera base”. A la par de su carrera deportiva y militar, bajo la tutela de su hermano Adán, comenzó a vincularse con movimientos políticos de izquierda y a tejer conspiraciones para desbancar al sistema de bipartidista y hacerse del poder. Dos de sus sueños se habían hecho realidad cuando pudo lanzar la primera bola de un partido en el antiguo Shea Stadium de los Mets de Nueva York, seis meses después de convertirse en Presidente de Venezuela. Ese día lanzó y se quedó en el terreno de juego un rato más de lo pautado, saludando a la multitud.
Chávez ganó sus primeras elecciones el 6 de diciembre de 1998 con 56,44% de los votos y como candidato del Movimiento V República (MVR). Entonces, de acuerdo con las encuestas, dos tercios de los venezolanos no creían en los partidos políticos como institución y a ellos, les propuso refundar el Estado y acabar con las corruptelas. Una vez en la Presidencia, su primer decreto consistió en la convocatoria a una Asamblea Nacional Constituyente. Durante el primer año de su Gobierno contó con el consenso de las clases medias y pobres, de grupos empresariales, de la mayoría de los partidos políticos de izquierda, de los medios de comunicación.
La Constitución redactada por esta asamblea y aprobada en 1999 estableció, en otras reformas, el cambio de nombre de la república, la creación del Poder Moral y del Poder Electoral, la garantía de vivienda y trabajo para todos los venezolanos, la prolongación del periodo presidencial de cinco a seis años y la obligación de que todos los poderes fuesen relegitimados en los meses siguientes. En las elecciones por la relegitimación, el 30 de julio de 2000, Chávez fue electo por segunda vez presidente con el 59,76%. Su partido también obtuvo mayoría en el Parlamento y esta mayoría eligió, a su vez, a los integrantes de los tres poderes restantes: el Judicial, el Moral y el Electoral.
Lo que de antemano molestaba a la oposición del carácter de Chávez y de su forma de gobernar, se hizo intolerable entre los años 2000 y 2002: sus constantes alocuciones en “cadena nacional” de radio y televisión, vestido de uniforme militar; sus decisiones sorpresivas, unilaterales; la descalificación de quienes le adversaban. En diciembre de 2001, el presidente decretó un conjunto de 49 leyes que aumentaban el poder del Estado, investido como estaba con poderes legislativos especiales, a través de una Ley Habilitante que aprobó la mayoría oficialista en el Parlamento. El 7 de abril de 2002, despidió por televisión, en directo, a toda la alta gerencia de la estatal Petróleos de Venezuela, que explota y comercializa el crudo con el que se financia más del 60% del presupuesto del país. Todo esto generó un primer cisma entre las filas del chavismo. El país se dividió entonces en dos polos, hasta ahora irreconciliables, y lo que siguió fue un largo periodo de protestas en las calles.
El 11 de abril de 2002, miles de venezolanos marcharon hacia el Palacio de Miraflores para pedir la renuncia del Presidente. Hubo muertos y heridos. La jornada terminó en un golpe de Estado que derrocó a Chávez por 48 horas, ejecutado por el alto mando militar y la cúpula empresarial del país. El día 13, un grupo de oficiales leales al Gobierno rescataron al presidente de la isla donde fue llevado detenido por los golpistas.
En diciembre de ese mismo año, las federaciones de empresarios y trabajadores del país convocaron a una huelga general, a la que se sumó buena parte de la nómina de Pdsva. El país estuvo paralizado durante varios meses: cerraron las escuelas, había escasez de alimentos y de combustibles, y los buques que transportaban el petróleo venezolano quedaron atracados en altamar.
Poco a poco, el Gobierno logró tomar el control de la situación y a partir de entonces, Chávez quedó persuadido de la necesidad de controlar todos los “sectores estratégicos” de la nación: la industria petrolera, la producción y comercialización de los alimentos, las telecomunicaciones, los servicios públicos. El golpe de Estado de 2002 como la huelga general le otorgaron la oportunidad de vaciar de opositores tanto a la Fuerza Armada Nacional como a Pdvsa, la empresa que mueve la economía local. En 2003, amenazado por la convocatoria de un referendo revocatorio en su contra, creó las “misiones bolivarianas” Barrio Adentro, Robinson, Sucre: un conjunto de programas sociales dedicados a la atención primaria en salud y a la educación de los más pobres, que desde entonces se convirtieron en bandera de su Gobierno. Cuando llegó el día del referendo, en agosto de 2004, Chávez volvió a arrasar, con el 59,10% de los votos.
Al tiempo que Chávez consolidaba su poder político interno, el país experimentó un boom petrolero comparable al de la década de los setenta del siglo XX, un periodo recordado como el de la “Venezuela saudí”, cuando Carlos Andrés Pérez estaba en su primer Gobierno. Entre los años 2005 y 2008, el barril de crudo venezolano llegó a cotizarse en más de 124 dólares. El dinero del petróleo permitió mantener un gasto público sostenido y contribuyó a aceitar el liderazgo personal de Hugo Chávez en América Latina. Desde entonces, independientemente de cómo se cotice el producto en el mercado mundial, Venezuela vende petróleo a los países amigos a un precio fijo de 40 dólares por barril, pagadero a plazos, con un 1% de interés; y a los países de la región hostiles a su política, con excepción de Estados Unidos, ha llegado a cortarles el suministro.
Con el transcurso de los años, Hugo Chávez fue alargando el plazo para abandonar la presidencia de Venezuela. “Ustedes ya saben, yo me voy en el 2021”, dijo cuando fue electo para un primer periodo de cinco años, y luego fue postergando aún más la fecha: “…hasta el 2031”, “…hasta el 2049”, “…hasta que Dios me dé vida”. En febrero de 2009, Chávez promovió una enmienda a la Constitución, que fue aprobada en referendo popular y estableció, entre otras reformas, la reelección presidencial indefinida. Esto le permitió presentarse a las elecciones del 7 de octubre de 2012, que ganó con el 55,07% de los votos, con la expectativa de gobernar hasta el año 2019 y completar un periodo de 20 años consecutivos en el poder.
Solo la enfermedad logró trastocar sus planes. En junio de 2011, el presidente-comandante fue diagnosticado de cáncer y sometido, desde entonces, a cuatro cirugías y a meses de quimio y radioterapias. Mientras duró su convalecencia, se negó a revelar los detalles de su enfermedad y a delegar plenamente su poder. Solo cuando creyó inminente su muerte, encargó temporalmente del Gobierno a su vicepresidente y canciller, Nicolás Maduro, y le pidió “de corazón” a sus seguidores que lo eligieran presidente en caso de que él ya no pudiera llevar las riendas de la revolución.
Hugo Rafael Chávez Frías era el segundo de seis hermanos, hijo de los maestros de escuela Hugo de los Reyes Chávez y Elena Frías y padre de Rosa Virginia, María Gabriela, Hugo Alejandro y Rosinés. Todos le sobreviven.

Ondjaki: Uma escuridão bonita



"O cheiro da cera em início de derretimento chegou até cá fora. Chegou a voz da minha avó também. Eu queria que nada interrompesse aquela nossa escuridão.

Às vezes é bom estarmos numa escuridão sozinha, de gruta e conforto, como se o nosso mundo, por alguns instantes, pudesse ser assim – sem tom de cor nem distração de forma. É bom dividir uma escuridão com outra pessoa, em concha e aconchego, como se dois mundos, nessas gotas de negrume, fossem um só.– Achas que o coração das pessoas é pequeno?– Sim. Pequenino mesmo.Os olhos se habituam ao escuro. O silêncio fica muito nítido na ausência da luz.

Na contraluz de um luar minguante, podia ver os contornos grossos dos lábios dela, o queixo a imitar falésias, e dois brilhos apagados no lugar dos brilhos que um dia foram os olhos dela. Nesse silêncio, eu de olhos quase fechados escutava o respirar dela. Pulmão vai, pulmão vem..."

["uma escuridão bonita", Ondjaki; Caminho 2013 - em breve num livro perto de si...], anuncia o próprio no facebook. E é maravilhoso quando isto acontece.

segunda-feira, março 04, 2013

Fernando Sobral: O ventilador



Durão Barroso descobriu que não é o presidente da Comissão Europeia: é um técnico de ventilação. As suas declarações, há dias, em que colocava as culpas da crise portuguesa num ventilador, esperando que estas se espalhassem à sua volta e não o atingissem, mostram que ele acredita que é possível apagar a história. É óbvio que foram as opções erradas, em termos políticos e económicos, que fizeram com que Portugal se afundasse na crise.


Mas Durão Barroso não é um eremita nos Himalaias: foi chefe de Governo entre 2002 e 2004, assinou por baixo a política do betão que hegemonizou a economia nacional, debandou rapidamente para Bruxelas, não sem antes ter deixado uma bomba-relógio política que criou o período de Sócrates.

O dislate político, como se sabe, sempre foi um inimigo maior da verdade do que a mentira. E as declarações de Durão Barroso parecem uma esponja cheia de um detergente de marca branca para a limpeza da memória. Não o é. Para além da sua passagem pelo Governo, onde não foi o homem invisível, a sua presença na CE é determinante para a crise actual. Não porque mande alguma coisa.

Mas porque Bruxelas é uma caixa de ressonância de Berlim. Depois, Barroso tenta usar o ventilador de uma forma mais sofisticada: quer que os resíduos não atinjam a Europa. Nada mais impossível.

A Europa é parte do problema e não da solução. Foi com Barroso à frente que a UE pediu para que os governos fizessem investimento público. O resultado foi um aumento brutal da dívida pública. Depois, sob a batuta alemã, fez da austeridade cega a única política europeia. É este monte de resíduos que Barroso quer eliminar. Como se a memória se atirasse para o ventilador.


[Hoje, no Jornal de Negócios]

Pietà by Kim Ki-Duk *****

domingo, março 03, 2013

Yo La Tengo



Ontem, na Casa da Música. Maravilhoso.

sábado, março 02, 2013

2 de Março



Se a manifestação de 2 de Março tiver tido mais gente que a de 15 de Setembro é mais importante? E se tiver tido menos? Não vale? Se tiver tido um milhão e meio é grave? E se tiver tido menos de um milhão? Não conta? A partir de que número o sofrimento deve ser levado a sério? Querer aferir a importância da manifestação pela adição de pessoas é ridículo. A conta não é de somar, é de subtrair. Todas as pessoas que estiveram lá, estiveram porque lhes foi tirada alguma coisa. Em alguns casos, demasiadas coisas. Incluindo o direito à alternativa política, que não existe neste país, e que é a maior amputação de que se pode padecer num regime democrático. Temos democracia, temos liberdade, podemos votar, mas não temos em quem votar. Não somos um milhão assim, seremos muitos mais.

E se as elites (?) fossem sujeitas a votos, não estaríamos melhor. Já nos sugeriram que emigrássemos (por que razão nós e não eles?), já nos disseram para aguentarmos, hoje disseram-nos para limparmos matas. Nada contra o trabalho manual, mesmo se aquém das qualificações. Em teoria. Mas espanta-me a forma como se fala dos licenciados neste país. Como se os licenciados, só por serem licenciados, fossem automaticamente uns bandalhos petulantes que não querem trabalhar, só desfilar o canudo. Espanta-me ainda mais que a mesma sugestão, a da limpeza das matas, não seja feita a criaturas como Duarte Lima ou Oliveira e Costa que, sozinhos, custam mais ao país que mil licenciados juntos. 

Foi por isto, também, que fomos à manifestação. Porque não nos subtraíram só o salário, já de si estagnado há oito anos, subtraíram-nos a esperança numa classe política decente e numa elite que, no mínimo, pensa antes de falar. 

sexta-feira, março 01, 2013

Erling Jepsen: A arte de chorar em coro



"A mãe tem muito medo que o pai acorde. Já o fez várias vezes; abre os olhos, olha para nós e começa a chorar. Pouco depois, volta a adormecer. A mãe diz que ele chora porque percebe onde está e o que aconteceu. Treme toda a cama. A mãe vai para o corredor porque não o aguenta. Eu não me impressiono muito e fico com ele. Que há de estranho no seu choro? Acaba de sentir toda a gravidade da vida, é só isso. E quando se sente toda a gravidade da vida no corpo tem-se de chorar, como ele próprio me ensinou. O estranho é que chora sempre que acorda, como se sentisse toda a gravidade da vida no corpo uma e outra vez e não quisesse parar. Dá-me a mão e aperta-ma com toda a força; às vezes, dói muito depois de o fazer. Mas não o repreendo. Quantas vezes lhe terei apertado a mão enquanto discursava nos funerais? Só que agora é ao contrário."