sexta-feira, março 08, 2013

Pedro Santos Guerreiro: Clara, Clarinha


Esqueça os caracteres chineses, que o mundo pós-Kennedy repete mas não pratica. A crise, a palavra crise, tem origem grega, o que também nada explica. A explicação não está noutros, está em nós. Se nos propusessem resolver a desdita matando alguém já teríamos aniquilado a espécie humana.

Talvez tenha sido na verdade matando que chegámos às portas da crise, desta crise que ainda não tem nome histórico mas já tem história para ter nome. Matando o que comemos quando queremos comer mais, mais que baste, mais que outros, mais que antes, mais que tudo. Matando o depois para ter já. Matando valores para ter preços. Tudo tem um preço. Um homem não tem preço? Uma multidão tem.

Não se tem medo das alturas quando só se olha para cima. Quando, finalmente, olhamos para baixo com terror, perguntamos “quem foi, quem foi que fez isto?”. Culpamos a desregulamentação como se fosse problema de lei. Apontamos aos mercados como a um matadouro. Dizemos que é ganância como se fosse coisa alheia.“Eu bem te disse que eles sempre acabam por ter ambições”, conclui a velha.

A velha é rica e está feia mas, ao contrário da dona Prudência de William Blake, não está solteirona nem é cortejada pela impotência: come carne de marido e bebe sangue de mundo. Por fastio. Por capricho. Por vingança. Por missão. Por consumição? A velha é superpotência, é a mulher mais rica do mundo, e regressa à cidade falida para a salvar, 45 anos depois de de lá ser escorraçada por gravidez não correspondida. Era ruiva. Saiu nova para uma velha profissão. Regressa velha para uma nova procissão. A procissão de um morto. A Clara, a Clarinha, a mais-que-tudo de quem não tem nada, quer um morto no caixão. O morto há-de ser o catita daquela cidade, cabrão que ela amou 45 anos antes e a trocou por mercearia, deixando-a com uma engenhoca nos braços como o engenheiro que sempre não era engenheiro de Alexandre O’Neill. O cabrão virou estimável, mas a mulher amar na palha não podia, menos ainda se por prazer. “Fungar, fungues tu ainda hoje no inferno com o Diabo a cavalo!”, dizia outra velha em Terras do Demo, de Aquilino Ribeiro, ao ouvir o arfar e os gonzos a chiar no quarto ao lado. “Cabra! Grande coira! Não te emprenha o ladrão para saberes o que custam gostinhos!” A Clara, a Clarinha, foi prenha conhecer os gostinhos: vendeu-se a homens e depois comprou-lhes o mundo para dele fazer bordel e os bordéis, dizem os provérbios do Inferno de Blake, constroem-se com os tijolos da Religião.

A Religião benze a fronte, a Economia encolhe os ombros, a Justiça lava as mãos, a Política põe o corpo todo no fogo. O diabo do dinheiro já começou a barganha das almas, é uma questão de tempo. É esperar: o arrobo impulsivo da ética desabará com o que antevêem os olhos, que são mais que a barriga esfomeada. Se já houve mercador que em Veneza cobrasse por juro uma libra de carne, por que não haveria a Clara, a Clarinha, bem-vinda Clarinha!, de pedir corpo inteiro por um bilião?


É o Direito, expressão da Justiça na conveniência do seu tempo, que ensina a diferença entre actos e factos. Cedo a moral cederá e a dúvida já não será se o homem morre mas saber quem o mata. Um facto: um homem morre. Um acto: matá-lo. A multidão, que primeiro é alumiada pela recompensa, cega depois a propiciar a execução. Aqueles que Orwell viu transformarem-se em porcos vivem – e matam. (Já a imprensa, que tem o poder de descobrir, expor e nisso proteger, deslumbra-se com pouco se se acomoda na sala de jantar.) E assim uma multidão tem preço porque dilui a culpa e dissolve a autoria: num pelotão de fuzilamento nenhum soldado sabe que espingardas têm balas. “Um cadáver não vinga as injúrias” (Blake). Negócio fechado.


É claro que “A Visita da Velha Senhora” é uma peça para este tempo. As comparações são irresistíveis num território desocupado de poder como está (e vai sendo) Portugal. Falamos de uma cidade que empobreceu depois de lhe terem comprado “aparelho produtivo” para o desmantelar; a Velha Senhora põe e dispõe e tem até nome angélico; o resgate impõe condições austeras, as instituições torcem-se com a devida vénia. Eis uma cidade empobrecida que inventa uma nova prosperidade a crédito, feita do que se vende e não do que isso rende. “Toda a cidade faz dívidas a torto e a direito. E o bem-estar da colectividade aumenta com as dívidas.” Perdão? “Precisamos de crédito, precisamos de confiança e de encomendas!” Mais nada. Ou mais isto: o teatro como pedagogia não do “funcionamento” da economia mas da demagogia que ela viabiliza. Em “Santa Joana dos Matadouros”, que Bertolt Brecht escreveu durante uma crise que ficou com o nome histórico de Grande Depressão, há uma deslição de humanidade em cima de um explícito funcionamento da “economia de mercado”. Isto é: dos mercados.

Também Friedrich Dürrenmatt viveu a Grande Depressão mas foi depois da Grande Guerra que (também) ela provocou que escreveu sobre a Velha Senhora. Aqui, a economia não é amada, nem amante, nem mulher, é uma gaja sentada para jantar. Tem de estar. E quem faz por comovê-la não quer se não comê-la. Mas sabendo isto: o capitalismo não é amoral, essa desculpa não pode servir a quem lá ande. A quem toma opções morais. O que estamos dispostos a relativizar por dinheiro? Tudo? Nada?

Dürrenmatt apresenta “um mundo e não uma moral” e pede que, ao contrário do que dita o Fausto de Pessoa, nem tudo seja símbolo e analogia. Uma mulher também é uma mulher, um homem também é um homem, um amor também é um amor.

Um amor.

Não é por acaso que a peça de Shakespeare citada não é o Mercador de Veneza, é Romeu e Julieta. Mas Clara, a Clara, a Clarinha, não é uma Julieta de Verona que se mate por não respirar sem Romeu. Não é uma Zefa de Terras do Demo que peça a Alonso que a mate depois de traí-lo, para que nessa súplica de morte acabe recebendo perdão de quem a ama sob um xaile mais rico que o manto de Nossa Senhora. Não é uma Karenina que afinal amou sozinha, não é Eurídice que morra por Orfeu, não é Lucrécia mal casada que se abandone numa cama de mandrágora com o amante ardiloso disfarçado de vagabundo. Em Clara cresceu o negro e não o vermelho. É vingativa. É pusilânime. É boçal. É uma besta. Mas uma besta rica nunca é uma besta, é rica. É mais fácil trair uma ruiva que uma rica. É? Não, não é nada.

“A humanidade gira toda sobre o amor e a fome”, escreveu Anatole France, mas há homens saciados que têm tanta fome de si mesmos que por insuficiência se afastam do destino da corrida, que é a partida e não a meta. Não há nada mais triste que amar esta mulher ruiva que não sabe que, matando, morrerá.

Nota de Pedro Santos Guerreiro: este texto foi escrito a convite do São Luiz Teatro Municipal para o programa da peça “A Visita da Velha Senhora”, de Friedrich Dürrenmatt, numa encenação de Nuno Cardoso que estreou a 7 de Março de 2013. E é uma homenagem a Ricardo Pais, que encenou algumas das peças que cito, que ensinou o meio país onde eu estava a ver, e sentir, teatro.

quarta-feira, março 06, 2013

A banda mais bonita da cidade

José Eduardo Martins: Obrigado Itália?



As eleições em Itália até podem forçar uma mudança de rumo na política europeia mas foram, para já e sobretudo, o sinal mais expressivo do exaspero das pessoas com os partidos políticos tradicionais que, lá como cá, esperavam viver apenas do manso rotativismo da falta de alternativa.

Era bom perceber este aviso e fazer dele alguma coisa antes que as manifestações substituam as eleições.

Parece que a Europa e o euro vão soçobrar porque o povo italiano não "sabe" votar. Não será por termos eleito a casta competente e previdente que nos trouxe aqui. Foi porque os italianos elegeram "palhaços", na elegante expressão do SPD e da capa da Economist...

Sucede, parece-me, que ocorreu só a antecipação de algo que se repetirá bastas vezes, agora que a história não acabou e a democracia liberal ainda nos autoriza a decisão. Afinal, como dizia recentemente o Sr. Kerry, ter o direito à estupidez é melhor que o não ter.

Se a política e os partidos tradicionais não oferecem credibilidade, se cada vez mais os protagonistas nos entusiasmam cada vez menos, se cada vez mais é fácil adivinhar a vacuidade que se segue, se o jargão é cada vez mais igual e cada vez menos o nosso, então os italianos fizeram muito em responder na mesma moeda. E outros se seguirão.Tanto se fala em reformas, uma das primeiras, a essencial, quando já anda gente na rua a dizer que as eleições são "uma das formas" (sic!) de expressar a vontade popular, é da reforma da representação que precisamos antes que isto descambe e a democracia seja, afinal, tão pouco resistente como o bem-estar que nos escapa por entre os dedos.

Para que as grandes ideias não consumam ou adiem objectivos mais fáceis, duas sugestões com o mesmo objectivo: estarmos mais próximos, mais representados, mais tranquilos com os que elegemos.A primeira trata de fazer os partidos escolherem melhor o que nos apresentam, a segunda de nos fazer participar também nas escolhas dos partidos.Há uns anos, imaginámos que podíamos melhorar com um modelo popular de eleições directas de liderança partidária. O resultado está à vista: organizações mais fechadas sobre si próprias, mais desiguais na representação do todo nacional e desinteressantes para uma enorme maioria de pessoas que não se revê, nem consegue participar nesta lógica de aparelho.

O resultado é que para parecer que avaliamos melhor os líderes, deixámos de conhecer o resto, as equipas e as ideias, como se a política não fosse um exercício colectivo que devesse atrair a sociedade à participação. E os líderes ficaram, afinal, cada vez menos diferentes... Se queremos envolver outras pessoas na vida pública, precisamos de partidos permeáveis à sociedade. Que discutem e elegem em assembleia e onde não seja, pelo menos, tão acintoso o divórcio entre os eleitores e os militantes, como acabou de se constatar no PS.Por outro lado, a propósito do sistema eleitoral, discutimos muito a redução do número de deputados e a criação de círculos uninominais como se, depois de tantas maiorias, fosse mesmo a falta de estabilidade o mal de que padecemos.

Novamente, é discussão ao lado: com mais ou menos acerto na dimensão dos círculos eleitorais, temos sistema que assegura representatividade adequada e estabilidade quanto baste. O que talvez pudesse, na mesma linha, fazer a diferença seriam listas em que pudéssemos mexer. A democracia faz-se com os partidos e nada os substitui. Mas a possibilidade de ordenar as listas que decidem seria porventura um bom estímulo à participação. Em breve, ou nos envolvem ou nos perdem. A escolha parece fácil, a vida não o demonstra.

[Hoje, Jornal de Negócios]

terça-feira, março 05, 2013

Hugo Chávez (1954-2013)



(Magnífico dossier no El País)
La primera aparición de Hugo Chávez en televisión ocurrió en la mañana del 4 de febrero de 1992, cuando llamó a la rendición de los oficiales que le acompañaron en la intentona golpista que él comandó, esa misma madrugada, contra el Gobierno de Carlos Andrés Pérez. “Compañeros, lamentablemente, por ahora, los objetivos que nos planteamos no fueron logrados en la ciudad capital. […] Oigan mi palabra, oigan al comandante Chávez, que les lanza este mensaje para que por favor reflexionen y depongan las armas. […] Yo, ante el país y ante ustedes, asumo la responsabilidad de este movimiento militar bolivariano”, les dijo. El comandante Chávez no logró tomar el Palacio de Gobierno de Miraflores, en Caracas, mientras sus compañeros sí controlaban las guarniciones militares más importantes del país. Pero Chávez dijo “por ahora” y esas palabras, transmitidas a través de todas las televisoras del país, convirtieron la derrota militar que daba al traste con décadas de conspiración, en su primera victoria política.
Hugo Rafael Chávez Frías (Sabaneta de Barinas, 28 de julio de 1954) se apuntó a la Academia Militar en agosto de 1971, persuadido por la idea de que así podría dejar su pueblo natal e irse a la capital, Caracas,donde se esforzaría por captar la atención de un cazador de talentos de la liga americana de beisbol. Él quería ser lanzador. Y lo fue: en el anuario su promoción, la primera de Licenciados en Ciencias y Artes Militares de Venezuela, se le recuerda como el zurdo Furia, “el mejor lanzador” del Ejército y “excelente primera base”. A la par de su carrera deportiva y militar, bajo la tutela de su hermano Adán, comenzó a vincularse con movimientos políticos de izquierda y a tejer conspiraciones para desbancar al sistema de bipartidista y hacerse del poder. Dos de sus sueños se habían hecho realidad cuando pudo lanzar la primera bola de un partido en el antiguo Shea Stadium de los Mets de Nueva York, seis meses después de convertirse en Presidente de Venezuela. Ese día lanzó y se quedó en el terreno de juego un rato más de lo pautado, saludando a la multitud.
Chávez ganó sus primeras elecciones el 6 de diciembre de 1998 con 56,44% de los votos y como candidato del Movimiento V República (MVR). Entonces, de acuerdo con las encuestas, dos tercios de los venezolanos no creían en los partidos políticos como institución y a ellos, les propuso refundar el Estado y acabar con las corruptelas. Una vez en la Presidencia, su primer decreto consistió en la convocatoria a una Asamblea Nacional Constituyente. Durante el primer año de su Gobierno contó con el consenso de las clases medias y pobres, de grupos empresariales, de la mayoría de los partidos políticos de izquierda, de los medios de comunicación.
La Constitución redactada por esta asamblea y aprobada en 1999 estableció, en otras reformas, el cambio de nombre de la república, la creación del Poder Moral y del Poder Electoral, la garantía de vivienda y trabajo para todos los venezolanos, la prolongación del periodo presidencial de cinco a seis años y la obligación de que todos los poderes fuesen relegitimados en los meses siguientes. En las elecciones por la relegitimación, el 30 de julio de 2000, Chávez fue electo por segunda vez presidente con el 59,76%. Su partido también obtuvo mayoría en el Parlamento y esta mayoría eligió, a su vez, a los integrantes de los tres poderes restantes: el Judicial, el Moral y el Electoral.
Lo que de antemano molestaba a la oposición del carácter de Chávez y de su forma de gobernar, se hizo intolerable entre los años 2000 y 2002: sus constantes alocuciones en “cadena nacional” de radio y televisión, vestido de uniforme militar; sus decisiones sorpresivas, unilaterales; la descalificación de quienes le adversaban. En diciembre de 2001, el presidente decretó un conjunto de 49 leyes que aumentaban el poder del Estado, investido como estaba con poderes legislativos especiales, a través de una Ley Habilitante que aprobó la mayoría oficialista en el Parlamento. El 7 de abril de 2002, despidió por televisión, en directo, a toda la alta gerencia de la estatal Petróleos de Venezuela, que explota y comercializa el crudo con el que se financia más del 60% del presupuesto del país. Todo esto generó un primer cisma entre las filas del chavismo. El país se dividió entonces en dos polos, hasta ahora irreconciliables, y lo que siguió fue un largo periodo de protestas en las calles.
El 11 de abril de 2002, miles de venezolanos marcharon hacia el Palacio de Miraflores para pedir la renuncia del Presidente. Hubo muertos y heridos. La jornada terminó en un golpe de Estado que derrocó a Chávez por 48 horas, ejecutado por el alto mando militar y la cúpula empresarial del país. El día 13, un grupo de oficiales leales al Gobierno rescataron al presidente de la isla donde fue llevado detenido por los golpistas.
En diciembre de ese mismo año, las federaciones de empresarios y trabajadores del país convocaron a una huelga general, a la que se sumó buena parte de la nómina de Pdsva. El país estuvo paralizado durante varios meses: cerraron las escuelas, había escasez de alimentos y de combustibles, y los buques que transportaban el petróleo venezolano quedaron atracados en altamar.
Poco a poco, el Gobierno logró tomar el control de la situación y a partir de entonces, Chávez quedó persuadido de la necesidad de controlar todos los “sectores estratégicos” de la nación: la industria petrolera, la producción y comercialización de los alimentos, las telecomunicaciones, los servicios públicos. El golpe de Estado de 2002 como la huelga general le otorgaron la oportunidad de vaciar de opositores tanto a la Fuerza Armada Nacional como a Pdvsa, la empresa que mueve la economía local. En 2003, amenazado por la convocatoria de un referendo revocatorio en su contra, creó las “misiones bolivarianas” Barrio Adentro, Robinson, Sucre: un conjunto de programas sociales dedicados a la atención primaria en salud y a la educación de los más pobres, que desde entonces se convirtieron en bandera de su Gobierno. Cuando llegó el día del referendo, en agosto de 2004, Chávez volvió a arrasar, con el 59,10% de los votos.
Al tiempo que Chávez consolidaba su poder político interno, el país experimentó un boom petrolero comparable al de la década de los setenta del siglo XX, un periodo recordado como el de la “Venezuela saudí”, cuando Carlos Andrés Pérez estaba en su primer Gobierno. Entre los años 2005 y 2008, el barril de crudo venezolano llegó a cotizarse en más de 124 dólares. El dinero del petróleo permitió mantener un gasto público sostenido y contribuyó a aceitar el liderazgo personal de Hugo Chávez en América Latina. Desde entonces, independientemente de cómo se cotice el producto en el mercado mundial, Venezuela vende petróleo a los países amigos a un precio fijo de 40 dólares por barril, pagadero a plazos, con un 1% de interés; y a los países de la región hostiles a su política, con excepción de Estados Unidos, ha llegado a cortarles el suministro.
Con el transcurso de los años, Hugo Chávez fue alargando el plazo para abandonar la presidencia de Venezuela. “Ustedes ya saben, yo me voy en el 2021”, dijo cuando fue electo para un primer periodo de cinco años, y luego fue postergando aún más la fecha: “…hasta el 2031”, “…hasta el 2049”, “…hasta que Dios me dé vida”. En febrero de 2009, Chávez promovió una enmienda a la Constitución, que fue aprobada en referendo popular y estableció, entre otras reformas, la reelección presidencial indefinida. Esto le permitió presentarse a las elecciones del 7 de octubre de 2012, que ganó con el 55,07% de los votos, con la expectativa de gobernar hasta el año 2019 y completar un periodo de 20 años consecutivos en el poder.
Solo la enfermedad logró trastocar sus planes. En junio de 2011, el presidente-comandante fue diagnosticado de cáncer y sometido, desde entonces, a cuatro cirugías y a meses de quimio y radioterapias. Mientras duró su convalecencia, se negó a revelar los detalles de su enfermedad y a delegar plenamente su poder. Solo cuando creyó inminente su muerte, encargó temporalmente del Gobierno a su vicepresidente y canciller, Nicolás Maduro, y le pidió “de corazón” a sus seguidores que lo eligieran presidente en caso de que él ya no pudiera llevar las riendas de la revolución.
Hugo Rafael Chávez Frías era el segundo de seis hermanos, hijo de los maestros de escuela Hugo de los Reyes Chávez y Elena Frías y padre de Rosa Virginia, María Gabriela, Hugo Alejandro y Rosinés. Todos le sobreviven.

Ondjaki: Uma escuridão bonita



"O cheiro da cera em início de derretimento chegou até cá fora. Chegou a voz da minha avó também. Eu queria que nada interrompesse aquela nossa escuridão.

Às vezes é bom estarmos numa escuridão sozinha, de gruta e conforto, como se o nosso mundo, por alguns instantes, pudesse ser assim – sem tom de cor nem distração de forma. É bom dividir uma escuridão com outra pessoa, em concha e aconchego, como se dois mundos, nessas gotas de negrume, fossem um só.– Achas que o coração das pessoas é pequeno?– Sim. Pequenino mesmo.Os olhos se habituam ao escuro. O silêncio fica muito nítido na ausência da luz.

Na contraluz de um luar minguante, podia ver os contornos grossos dos lábios dela, o queixo a imitar falésias, e dois brilhos apagados no lugar dos brilhos que um dia foram os olhos dela. Nesse silêncio, eu de olhos quase fechados escutava o respirar dela. Pulmão vai, pulmão vem..."

["uma escuridão bonita", Ondjaki; Caminho 2013 - em breve num livro perto de si...], anuncia o próprio no facebook. E é maravilhoso quando isto acontece.

segunda-feira, março 04, 2013

Fernando Sobral: O ventilador



Durão Barroso descobriu que não é o presidente da Comissão Europeia: é um técnico de ventilação. As suas declarações, há dias, em que colocava as culpas da crise portuguesa num ventilador, esperando que estas se espalhassem à sua volta e não o atingissem, mostram que ele acredita que é possível apagar a história. É óbvio que foram as opções erradas, em termos políticos e económicos, que fizeram com que Portugal se afundasse na crise.


Mas Durão Barroso não é um eremita nos Himalaias: foi chefe de Governo entre 2002 e 2004, assinou por baixo a política do betão que hegemonizou a economia nacional, debandou rapidamente para Bruxelas, não sem antes ter deixado uma bomba-relógio política que criou o período de Sócrates.

O dislate político, como se sabe, sempre foi um inimigo maior da verdade do que a mentira. E as declarações de Durão Barroso parecem uma esponja cheia de um detergente de marca branca para a limpeza da memória. Não o é. Para além da sua passagem pelo Governo, onde não foi o homem invisível, a sua presença na CE é determinante para a crise actual. Não porque mande alguma coisa.

Mas porque Bruxelas é uma caixa de ressonância de Berlim. Depois, Barroso tenta usar o ventilador de uma forma mais sofisticada: quer que os resíduos não atinjam a Europa. Nada mais impossível.

A Europa é parte do problema e não da solução. Foi com Barroso à frente que a UE pediu para que os governos fizessem investimento público. O resultado foi um aumento brutal da dívida pública. Depois, sob a batuta alemã, fez da austeridade cega a única política europeia. É este monte de resíduos que Barroso quer eliminar. Como se a memória se atirasse para o ventilador.


[Hoje, no Jornal de Negócios]

Pietà by Kim Ki-Duk *****

domingo, março 03, 2013

Yo La Tengo



Ontem, na Casa da Música. Maravilhoso.

sábado, março 02, 2013

2 de Março



Se a manifestação de 2 de Março tiver tido mais gente que a de 15 de Setembro é mais importante? E se tiver tido menos? Não vale? Se tiver tido um milhão e meio é grave? E se tiver tido menos de um milhão? Não conta? A partir de que número o sofrimento deve ser levado a sério? Querer aferir a importância da manifestação pela adição de pessoas é ridículo. A conta não é de somar, é de subtrair. Todas as pessoas que estiveram lá, estiveram porque lhes foi tirada alguma coisa. Em alguns casos, demasiadas coisas. Incluindo o direito à alternativa política, que não existe neste país, e que é a maior amputação de que se pode padecer num regime democrático. Temos democracia, temos liberdade, podemos votar, mas não temos em quem votar. Não somos um milhão assim, seremos muitos mais.

E se as elites (?) fossem sujeitas a votos, não estaríamos melhor. Já nos sugeriram que emigrássemos (por que razão nós e não eles?), já nos disseram para aguentarmos, hoje disseram-nos para limparmos matas. Nada contra o trabalho manual, mesmo se aquém das qualificações. Em teoria. Mas espanta-me a forma como se fala dos licenciados neste país. Como se os licenciados, só por serem licenciados, fossem automaticamente uns bandalhos petulantes que não querem trabalhar, só desfilar o canudo. Espanta-me ainda mais que a mesma sugestão, a da limpeza das matas, não seja feita a criaturas como Duarte Lima ou Oliveira e Costa que, sozinhos, custam mais ao país que mil licenciados juntos. 

Foi por isto, também, que fomos à manifestação. Porque não nos subtraíram só o salário, já de si estagnado há oito anos, subtraíram-nos a esperança numa classe política decente e numa elite que, no mínimo, pensa antes de falar. 

sexta-feira, março 01, 2013

Erling Jepsen: A arte de chorar em coro



"A mãe tem muito medo que o pai acorde. Já o fez várias vezes; abre os olhos, olha para nós e começa a chorar. Pouco depois, volta a adormecer. A mãe diz que ele chora porque percebe onde está e o que aconteceu. Treme toda a cama. A mãe vai para o corredor porque não o aguenta. Eu não me impressiono muito e fico com ele. Que há de estranho no seu choro? Acaba de sentir toda a gravidade da vida, é só isso. E quando se sente toda a gravidade da vida no corpo tem-se de chorar, como ele próprio me ensinou. O estranho é que chora sempre que acorda, como se sentisse toda a gravidade da vida no corpo uma e outra vez e não quisesse parar. Dá-me a mão e aperta-ma com toda a força; às vezes, dói muito depois de o fazer. Mas não o repreendo. Quantas vezes lhe terei apertado a mão enquanto discursava nos funerais? Só que agora é ao contrário."

quarta-feira, fevereiro 27, 2013

Speechless



“Nos anos 70, Marina Abramovic viveu intensa história de amor com Ulay. Durante 5 anos viveram num furgão realizando performances. Quando sentiram que a relação já não valia, decidiram percorrer a Grande Muralha da China, dar um último grande abraço e nunca mais se ver. 23 anos depois o MoMa de NY dedicou retrospectiva a sua obra. Nela Marina compartilhava 1 minuto de silêncio com cada estranho que sentasse a sua frente. Ullay chegou sem ela saber, e foi assim.”
Maeve Jinkings

Mestre Cruz sempre.



(Nova vénia ao Pedro Lomba)

Paulo Mendes Campos: O amor acaba


[Vórtice, Drácula]

Com a devida vénia ao Pedro Lomba, a quem roubei o texto.

"O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova York; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba."

"O amor acaba", Editora Civilização Brasileira – Rio de Janeiro, 1999, pág. 21

domingo, fevereiro 24, 2013

Raul Brandão: A pedra ainda espera dar flor



Há pelo menos três ou quatro coisas que se sentem quando se consegue responder com facilidade à pergunta difícil: Qual é o teu escritor preferido? 1) Sentir que seria capaz de dizer de cor páginas inteiras de vários livros, à força de tantas vezes os ter lido (presunção imbecil); 2) que o escritor e a sua obra não são suficientemente reconhecidos e bem tratados, o que se reflecte logo numa procura que passa muito mais por alfarrabistas e bibliotecas do que por livrarias; 3) a angústia de, achando que já se leu tudo, não ter mais nada para ler desse autor; 4) uma alegria gigantesca quando alguém se dedica a vasculhar o baú do dito escritor e publica inéditos.

Raul Brandão (1867-1930) é o meu escritor preferido de sempre. E nunca me conformei com a falta de popularidade dele. Nem sequer a entendo. Por estes dias, Vasco Rato ofereceu-nos, mais uma vez, um presente maravilhoso: "A pedra ainda espera dar flor", uma compilação de textos extraída de quase quarenta publicações de todo o tipo, com cinquenta inéditos. Um milagre.

"E tudo isto cabe dentro de um caixão de pássaro! Cabem os dias e as noites, os monólogos infindáveis; cabe a ternura e a dor, cabem todas as construções imaginárias que nos sustentam. A vida, que é tão grande, não tem peso, o sonho sem limites não tem peso... Cabe ali tudo o que maquinou e remoeu e que é infinito ao pé desse farrapo inútil.

Agora que me vou despedir dela para sempre, tenho de confessar a mim mesmo que sob essa agitação perpétua, sob esse desespero perpétuo, só havia sonho e ternura.  Isto durou um momento, mas durante esse momento, que é a eternidade, arcou com a vida, atreveu-se a disputar à desgraça os últimos restos de ilusão, não se conformou com a desgraça num debate que só terminou quando foi ao fundo, talvez melhor fosse a gente deixar-se ir logo ao fundo... Mas ela não pôde: tinha de defender a vida dos seus e defendeu-a até cair amachucada por aquelas mão de ferro que não perdoam nem quebram. Tinha de defender o seu sonho, e defendeu-o até tombar exausta, combatendo pela vida viva que nos acompanha até ao túmulo.

Talvez o seu sonho fosse inútil. O sonho dos humildes é quase sempre inútil. Talvez. Mas nela entram, como nos sonhos grandiosos, como em todos os dramas da existência, as estrelas, o céu e o inferno. Entra Deus. E isto pesa toneladas. No desta figura que nunca sucumbiu estava também uma ternura extraordinária. Até o seu desespero era ternura. E isto tudo, que exige um tablado desmedido e que liga cada ser ao vasto universo, cabe agora entre quatro tábuas de forro."

(A Morta, Maio de 1924)

sábado, fevereiro 23, 2013

A ballet story by Victor Hugo Pontes



Estranha-se na primeira metade, entranha-se na segunda. Rendição total no fim.

sexta-feira, fevereiro 22, 2013

Viagens ao sofrimento do povo português



Textos dispersos de Raul Brandão são um espelho perfeito da sociedade portuguesa entre finais do século XIX e as primeiras décadas do XX. Fundamental.



Há páginas inesquecíveis na literatura portuguesa. E algumas delas foram escritas por Raul Brandão, a começar por "Húmus", livro sobre as incertezas da existência e sobre os homens que, olhando para o universo, procuram respostas sobre o mal. Lá se escreve, de forma cortante: "A honradez deste homem assenta sobre uma primitiva infâmia. O interesse e a religião, a ganância e o escrúpulo, a honra e o interesse, podem viver na mesma casa, separados por tabiques. Agora é a vez da honra - agora é a vez do dinheiro - agora é a vez da religião. Tudo se acomoda, outras coisas heterogéneas se acomodam ainda. Com um bocado de jeito arranja-se sempre lugar nas almas bem formadas". Raul Brandão tinha uma pena iluminada: as suas frases são sinais de sol e sombra, de dúvidas e algumas certezas. Mas, sobretudo, conseguiu descreveu o país e o seu povo, os seus sonhos e superstições, como poucos outros. Fala da Decadência e por isso consegue ser tão actual."A Pedra ainda espera dar flor", uma compilação de textos dispersos escritos entre 1891 e 1930, com uma sólida organização de Vasco Rosa, ajuda-nos a conhecer melhor o seu mundo. Os seus textos sobre os ciclos do tempo são de uma beleza estonteante (leia-se "Maio", por exemplo), ou sobre a cultura portuguesa revelam a solidez do seu pensamento (fala-nos de António Nobre, de Eça, de Camilo, de Almeida Garrett, de Teixeira de Pascoaes, de Fialho de Almeida, dos Bordallo Pinheiro, com uma elegância e conhecimento únicos), do teatro ou dos pescadores. Fala da vida e da dor, temas sempre tão presentes em toda a sua obra e isso acaba por nos tornar mais ricos. Está aqui a alma, o sangue e o suor do povo português, a viver sempre entre a pobreza e a decadência, com momentos de euforia porque julgou descobrir o destino.


Há uma lógica de derrocada total nestes textos. E eles são uma boa forma de partirmos para os seus livros (não só "Húmus" mas também "Os Pescadores", "As Ilhas desconhecidas" ou "História de um Palhaço". Em "O Diário de K. Maurício", há uma frase que parece escrita para a história de Portugal e dos portugueses: "Habituou-se a sonhar e a ter medo de viver". Às vezes, ao lê-lo, parecemos estar a ler poesia em forma de prosa, tal a riqueza das imagens que desfilam defronte dos nossos olhos. Este livro agora editado, que nos traz textos de diferentes fases da vida de Raul Brandão, mostra-nos a capacidade que tinha para ver o horizonte sem preocupações de fronteiras no seu afã para desvendar o destino dos homens. Depois há a vertigem da dor sempre presente nas suas palavras: "os mais destemidos pescadores portugueses são os poveiros: quase sempre o seu túmulo é o fundo do mar". Que palavras mais fortes servem para descrever o sofrimento do povo português, o trabalho duro para garantir a fuga ao limiar da pobreza.

É isso que sobretudo fascina na escrita de Raul Brandão: mesmo quando fala da dor e do mal, faz isso de forma poética, como se as palavras pudessem aveludar os sentimentos e estes não fossem espinhos de uma rosa. Bonita mas que pica. "A pedra ainda espera dar flor" é uma forma magnífica de procurarmos descobrir a sua obra.

[Fernando Sobral, hoje, no Jornal de Negócios]

quinta-feira, fevereiro 21, 2013

Afonso Cruz




Obrigada, Afonso Cruz, por este livro, que não é bem só um livro. Não sei o que é, nem a que idade se dirige, mas é maravilhoso. "Estas são as páginas do diário de uma menina que carrega um jardim na cabeça, atira palavras aos pombos e sabe quanto tempo demora uma sombra a ficar madura." Absolutamente irresistível. 

segunda-feira, fevereiro 18, 2013

Justiça possível


Cinco anos após sucessivos adiamentos, estreei-me hoje como arguida num tribunal perto de mim. Bastou para perceber por que razão a justiça, a existir neste país, é tão perra. Gostei muito do exercício retórico. Tirando isso, fiquei apenas com a certeza de que é mais fácil um pulha ficar impune do que um inocente provar a inocência.

sábado, fevereiro 16, 2013

Crystal Castles, Hard Club


Alice Glass, daquela casta de mulheres a que pertence Alison Mosshart.

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

Afectivamente


No dia em que um meteoro se desintegrou na Rússia e um asteróide fez um voo rasante na Terra, os GNR esgotaram o Coliseu do Porto para um concerto acústico, incursão pelos trinta anos da banda de Rui Reininho. A coincidência astronómica fez sentido: Reininho também é um cometa, voa a grande velocidade, deixa um rasto de luz por onde passa, mas não faz feridos, cura feridas. Popless, de 2000, ainda mal tinha dado o tiro de partida para "afectivamente, quando do público alguém gritou: "Porque estás aí a falar de amor comigo?" Reininho não falou só de amor, mas os concertos dos GNR são sempre também uma declaração de amor às pessoas. "Obrigada por vos pertencer", agradeceu o vocalista, depois da maratona de duas horas em que tornou quase irreconhecíveis os clássicos. A banda desligou a ficha, trocou o baixo eléctrico pelo acústico, a guitarra eléctrica pelas cordas do violino da majestosa russa Ianina Khmelika, os teclados pelo piano. A voz de Reininho é sempre a voz de Reininho, seja em que rotação for. Mas o público, se não estranhou, conteve-se. Quase desde o início a pedir "Dunas", recebeu o troféu só no fim da viagem partilhada em palco com Mitó, d'A Naifa, Márcia, Beatbombers (num inesquecível rearranjo de Sangue Oculto) e com Camané, a maior ovação da noite. Em "Dunas", a sala ergueu-se. A vénia devida.

sábado, fevereiro 09, 2013

Gula


Nunca a portugalidade esteve tão na moda, o que não deixa de ser intrigante, não pela moda em si mas por significar que um país pode de facto abandonar-se, abdicar de si próprio, rejeitar-se. Superada a moda do minimalismo, do clean, do design sueco democrático e da cuisine française, eis o país a reencontrar-se. Para o bem e para o mal. Bela tasquinha na capitalista, bela viagem ao passado.

sexta-feira, fevereiro 08, 2013

Fortunately, you're not dead, Mark!


Roubar é feio, mas às vezes a tentação não resiste à moral. Setlist da memorável passagem de Mark Eitzel pelo Lux. 

terça-feira, fevereiro 05, 2013

segunda-feira, fevereiro 04, 2013

Philip Roth: Engano


- Eu escrevo as respostas. Começa tu.
- Como se chama?
- Não sei. Como vamos chamar-lhe?
- Questionário sobre o sonho de fugirmos juntos.
- Questionário sobre o sonho dos amantes de fugirem juntos.
- Questionário sobre o sonho dos amantes de meia-idade de fugirem juntos.
- Tu não és de meia-idade.
- Ai isso é que sou.
- A mim pareces-me jovem.
- Ai sim? Bem, isso vai ter certamente de ressaltar do questionário. Os dois candidatos têm de responder a todas as perguntas.
- Começa.
- Qual é a primeira coisa a meu respeito que te mexeria com os nervos?
- Quando estás no teu pior, o que é o teu pior?
- Tens mesmo essa vivacidade toda? Os nossos níveis de energia equivalem-se?
- És extrovertida, encantadora e equilibrada, ou és solitária e neurótica?
- Quanto tempo levarias a sentir atracção por outra mulher?
- Ou homem?
Não podes envelhecer nunca. Pensas o mesmo a meu respeito? Costumas pensar no assunto?
- Quantos homens ou mulheres tens de ter em cada momento?
- Quantos filhos queres ter a interferir na tua vida?
- És uma pessoa organizada?
- És completamente heterossexual?
- Tens ideias concretas sobre o que me interessa em ti? Responde com precisão.
- Dizes mentiras? Já alguma vez me mentiste? Achas que mentir é uma coisa normal, ou és contra a mentira?
- Esperarias que te dissessem a verdade se a exigisses?
- Exigirias a verdade?
- Pensas que a generosidade é um sinal de fraqueza?
- Os sinais de força são importantes para ti?
- Quanto dinheiro posso gastar sem tu te zangares? Entregavas-me o teu cartão Visa sem fazer perguntas? Deixavas-me ter poder sobre o teu dinheiro?
- Em que aspectos já sou uma desilusão?
- O que é que te embaraça? Diz-me. Ao menos sabes?
- Quais são os teus verdadeiros sentimentos em relação aos judeus?
- Vais morrer? És mental e fisicamente saudável? Responde com precisão.
- Preferias alguém mais rico?
- Até que ponto iria o teu embaraço de fôssemos descobertos? Que dirias se entrasse alguém por aquela porta? Quem sou eu e por que razão está tudo bem?
- Quantas coisas escondes de mim? Vinte e cinco. Mais alguma?
- Não me ocorre nenhuma.
- Aguardo com ansiedade as tuas respostas.
- E eu as tuas. Tenho uma pergunta.
- Sim.
- Gostas do que eu visto?
- Estás a exagerar.
- Não estou nada. Quanto mais banal é o defeito, mais raiva inspira. É o que me diz a experiência.
- Está bem. Última pergunta.
- Eu faço. Eu faço. A última pergunta. Continuas de algum modo, em algum recanto do teu coração, a alimentar a ilusão de que o casamento é um caso de amor? Se sim, isso pode ser a causa de muitos problemas.

domingo, fevereiro 03, 2013

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

Je changerais d'avis



La vie n'est pas un seul garçon
Un seul visage à aimer
La vie n'est pas une seule passion
Pour toujours, allumée

Il faut de tout pour faire un coeur
Et bien peu, pour le défaire
Mais pourtant devant toi, j'ai peur
J'oublie les leçons d'hier

Je changerais d'avis
Ce qu'il faut penser
Au fond je sais, que le l'oublierais

Je changerais de vie
Si tu le voulais
Au fond je sais, que je te suivrais

Je changerais d'amis
Si tu y tenais
Tout mon passé, je le quitterais

Si tu m'aimais aussi
Je sais que je pourrais tout laisser
Et tout recommencer

Je changerais d'avis
Et je me dirais que jusqu'à toi
Je m'étais trompée

Je changerais de vie
Sans me demander où je m'en vais
Si tu m'emmenais

S'il n'y avait qu'une chance
Une sur des milliers pour te garder
Moi je la prendrais

Et tant pis si c'est fou
J'aurais envie de tout avec toi
Si tu pouvais m'aimer.