quinta-feira, abril 10, 2008

Jorge Coelho


Sou fã. Lamento a saída da Quadratura do Círculo.

An end has a start*

Podíamos chorar se soubéssemos ainda chorar. E já não sabemos. Mas também já não sabemos rir. Nem o que fazer ao que somos, que é o somatório do que fomos, mas muito pouco do que queremos ser. E menos ainda do que sonhámos que seríamos quando chegássemos aqui. Eu digo que o fim é um novo recomeço. Tu dizes que o fim é o fim. A desistência. Eu digo que desistir é ficar num território sem acreditar nele, a vida a atravessar-nos e não nós a atravessarmos a vida. Tu dizes que ir embora é fácil. Que se fosse fácil ficar estariam cá outros. Será?
Eu digo que acredito no amor para sempre. Tu dizes que também. Eu digo que o amor não é uma condenação. Tu dizes que o amor é mutante. Eu digo que não pode ser um abismo. Tu dizes que às vezes pode. Não pode ao ponto de ser insuportável, digo. Dizes que sou hiperdramática. Sou hiperdramática. E digo que me levas as certezas quando gritas. Tu dizes que não suportas o silêncio. Eu digo que não suporto o barulho. E digo que ele deixa cicatrizes. Tu dizes que cicatrizes são feridas que já não são. Eu digo que ainda doem. Tu dizes que cicatrizes não doem. E se doerem?
Eu digo que tenho saudades do que fomos. Tu dizes que tens saudades do que seremos. Eu falo-te do desencanto. Tu falas-me de esperança. Eu digo que vejo tudo a derreter. Tu dizes que sou incongruente. Se não fosse não seria amor, digo. Tu dizes que eu tenho que recentrar o olhar. Eu digo que estou cansada de palavras. Tu dizes que sou eu quem as gasta. Eu digo espero por ti. Tu dizes: estou aqui. Estás?

*Editors

terça-feira, abril 08, 2008

Íntima Fracção no Expresso!

aqui tinha escrito, no início deste ano, que lamentava - e realmente lamentava - a ausência de Francisco Amaral e da sua Íntima Fracção num território de maior destaque do que o do seu blogue. Agora, o Expresso lança essa experiência inédita, que é um jornal ter o seu próprio programa de música online. Não podia estar melhor entregue.
Finalmente, feliz. Pelo regresso do programa, mais ainda pelo regresso do autor do programa e, também, porque, ao contrário do que parece, ainda há jornais que conseguem arriscar a novidade.

sexta-feira, abril 04, 2008

Importa-se de repetir?

Nuno Azevedo, administrador-delegado da Casa da Música em entrevista ao Jornal de Notícias:
Ser uma figura mediática é o único requisito para liderar o marketing da CdM? Guta Moura Guedes e Dalila Rodrigues não são propriamente autoridades nesta matéria…
Somos uma instituição cultural e não uma empresa que vende enlatados para pôr na prateleira do supermercado. Por isso, não é líquido que, à frente de um departamento destes, esteja um marketeer. É mais importante construir uma imagem consentânea com o que é hoje a CdM. A mudança de imagem que temos vindo a introduzir provocou efeitos muito positivos. No ano passado, registámos um crescimento de 24%. Este ano, no primeiro trimestre, crescemos 30%. Quantas empresas conseguem apresentar números destes?

Dalila Rodrigues foi um nome consensual?
Completamente.

Apesar de não ter grande experiência na área?
Discordo.

É a própria quem o admite...
A Dalila Rodrigues tem uma grande experiência na gestão de um produto cultural. Ela teve a estratégia, a vontade e a energia para pôr no mapa, em Lisboa, um museu que nem os próprios taxistas sabiam onde ficava.

Quais as prioridades da sua acção?
Tal como já acontecera com a Guta Moura Guedes, o objectivo passa por construir, ao lado da direcção artística, uma parceria criativa para conseguirmos explicar, de uma forma estruturada mas simples, o que são as características da programação e os atributos de cada concerto. Até 2006 e inícios de 2007, não conseguíamos isso. O que temos aqui é um produto volátil, pois, ao contrário de um teatro, os espectáculos mudam todos os dias.

domingo, março 30, 2008

The lovebirds


Está tudo maluco??? O filme de Bruno Almeida foi exibido no Fantasporto - Porto - e não há uma mísera sala desta cidade que tenha o filme???

Porto: A cidade mais pobre da Península Ibérica

Dados revelados recentemente colocam a cidade do Porto como a mais pobre da Península Ibérica e uma das mais pobres da União Europeia (UE). O distrito do Porto já ultrapassou os valores de âmbito nacional e concentra 45% dos beneficiários do Rendimento Social de Inserção.
in jpn@icicom.up.pt

sábado, março 29, 2008

[Foto: João Carvalho Pina]

"As pessoas estão sempre com problemas de perda e não percebem. Não percebem tudo o que perdem por cada coisa que ganham. E, por isso, estão sempre a mudar. Sempre à procura de alguma coisa. É uma técnica comum: agarramos os sonhos, as fábulas, a imaginação, como exercício de sobrevivência".
João Lourenço

sexta-feira, março 28, 2008

Fuga

[Foto: JMG]

Falavam todos os dias. Ou talvez não todos os dias, que todos os dias são muitos dias. Mas quase todos os dias e nesses dias seguramente várias vezes ao dia. São mais vezes do que as vezes que se viram. Viram-se duas ou três vezes. Quatro, com alguma generosidade. Falavam sem se verem. Aparelhos electrónicos que a sociedade tecnológica inventou para reduzir distâncias - ou aumentar, who knows?. Não tinham nada para dizer. Falavam por falar. A horas insuspeitas, improváveis, sem hora marcada. Sem assunto. Jogo de pingue-pongue em que os pontos chegam sob a forma de mensagem.

Falavam sem saber se no dia seguinte ainda falariam - who cares?. Sem saber o que significa falar assim por falar. Mas a saber que de tanto falar por falar podiam nunca mais falar que nunca mais esqueceriam. O tempo em que aquele era o único sítio para onde podiam fugir. Cada um saberá de quê.

Cormac McCarthy: A Estrada

- Posso perguntar-te uma coisa?
- Sim. Claro que podes.
- O que é que fazias se eu morresse?
- Se tu morresses, eu ia querer morrer também.
- Para poderes ir ter comigo?
- Sim. Para poder ir ter contigo.
- Está bem.

A Estrada, Cormac McCarthy

quinta-feira, março 27, 2008

Portishead - Coliseu do Porto


I can't deny what I've become
I'm just emotionally undone
I can't deny, I can't be someone else

when I have tried to find the words
To describe this sense absurd
Try to resist my thoughts
But I can't lie

I've been losing myself
My desire I can't have
No reason am I for

terça-feira, março 25, 2008

Stefanie Schneider



Do you think there is only one perfect match?
and why is it so hard to contain happiness
even though everybody has the best intentions
why do we have to fuck up all the time sad

Of course not just one match
you are too melodramatic
you're the absolute wrong person to be in a relationship
we love and sex cut apart
you are too melodramatic
way too melodramatic
said that it's like you purposefully want to dance on the edge of a knifewell,
it's frightening and unhealthy

Portishead - The rip

As she walks in the room,
Scented and tall,
Hesitating once more.
And as I take on myself,
And the bitterness I felt,
Realise that love lost, while
White horses,
They will take me away,
And the tenderness I feel,
Will send the dark underneath,
Will I follow?

Through the glory of life,
I 'm scattered on the floor,
Disappointed and sore.
And in my thoughts I have bled,
For the riddles I've been fed,
Another lie moves over, while
White horses,
They will take me away,
And the tenderness I feel,
Will send the dark underneath,
Will I follow?

terça-feira, março 18, 2008

Golden Era

Don´t show me your golden smile
'cause i'm trying to forget you
But if you try to hide... my love
I will catch you

Rita Red Shoes

segunda-feira, março 17, 2008

Rita Red Shoes

É a Alison Goldfrapp nacional, a Alison dos tempos áureos da Goldfrapp britânica. A rapariga mais perigosamente sexy, terrivelmente tímida, irresistivelmente cândida da nova música portuguesa. Anteontem, antecâmara do lançamento do trabalho, o promissor primeiro, "Golden Era", Rita Pereira, 26 anos, vulgo Rita Red Shoes e os seus Run Run Boys, estiveram no Plano B, Porto, para um concerto absolutamente memorável... a fazer ter saudades dos concertos de Verão.

sexta-feira, março 07, 2008

"Migalhas"

"Quando não estiveres cá e me sentir sozinho como as migalhas que sobrarem. Vou contar-te um segredo: há alturas em que as migalhas ajudam".

António Lobo Antunes in Visão

sábado, março 01, 2008

"Chovem amores na rua do matador"


Peça de Mia Couto e José Eduardo Agualusa, “Chovem Amores na Rua do Matador”, no Auditório Municipal de Viana do castelo, às 22h00. O texto é um inédito dos dois escritores africanos para o Trigo Limpo Teatro acert e resulta de uma colaboração, que se iniciou em finais de 1992, com a adaptação feita pelo grupo de alguns contos de Mia Couto. A partir desse ano, criou-se um laço entre o grupo de teatro e o escritor, que está também ligado a Agualusa por uma grande amizade.

É desta teia de afectos que nasce “Chovem Amores na Rua do Matador”, história em que Baltazar Fortuna regressa a Xigovia para matar… saudades. Pretende reencontrar os seus ex-amores: Mariana Chubichuba, Judite Malimali e Ermelinda Feitinha, mas, num sonho, as três, dizem-lhe: “Nós não te precisamos matar, nós já te matámos dentro de nós. Há muito tempo que não vives nas nossas vidas…”

A propósito da criação do texto a dois, José Eduardo Agualusa afirma: “A escrita foi muito fácil. O tom estava dado (pelo Mia) e limitei-me a ser aquelas mulheres, seguindo um registro não muito dissonante do do personagem masculino – mas contrariando a sua versão. Trabalhar com o Mia foi como conversar com ele, muitíssimo divertido e gratificante. Nem sei se a isto se pode chamar trabalho.”

Para Mia Couto o texto “mais do que produzido a duas mãos, foi feito a duas almas. Combinámos, logo de início: eu farei de homem, tu farás de mulher. E fomos, sem falar, acertando que a peça falaria de amores e mortes (não são estes os únicos motivos da literatura?)”.

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

(Pedro Sousa Vieira)

Devia ser possível morrer de desgosto. Assim, cada um de nós
teria sempre como certo que, na vida, só se sofre uma vez.

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Festival para Gente Sentada


Amanhã e sábado, no Festival para Gente Sentada, em Santa Maria da Feira:




Bilhetes:
Venda antecipada: dois dias 20€ ; um dia15€
Venda no próprio dia: dois dias: 25€ ; um dia 18€

domingo, fevereiro 17, 2008

Dalila Rodrigues na Casa da Música


Nada contra Dalila Rodrigues. Nada contra Guta Moura Guedes. Nada contra quem aceita o que lhe oferecem. Nada contra quem, no fundo, faz pela vida. Ou pelo currículo. Tudo contra quem não sabe o lugar que ocupa. Tudo contra quem convida não importa quem. Tudo contra quem muda regras antes de conhecer as regras. Tudo contra quem trata equipamentos públicos como quintais familiares. Tudo contra quem não sabe por onde anda nem para onde vai. Tudo contra quem tem estado ao volante da Casa da Música, no Porto.

A Casa da Música (quem consegue esquecer o chavão?) seria a casa de todas as músicas. De todos os portuenses, de todos os portugueses, de todos os europeus, de todos os de todo o lado. A Casa da Música faria parar o trânsito. A Casa da Música seria um íman, um pólo, um catalisador. A Casa da Música seria a Casa. Seria a Música. A que está a dar, a que já deu, a portuguesa, a estrangeira, a clássica, a contemporânea, a experimental, a da orquestra, a dos miúdos, a dos graúdos, a dos que sabem tudo, a dos que não sabem nada. A Casa da Música seria.

Seria mas não é. Seria mas não foi. Seria mas dificilmente será. E não me apetecendo neste momento dissertar sobre a qualidade ou diversidade (ou falta delas) da programação, debato-me com uma única dúvida que não para de me indignar, de me martelar a cabeça: por que raio uma casa de música contrata agora – como já contratou antes – alguém ligado às artes plásticas para divulgar o equipamento? O que raio tinha Guta Moura Guedes da Experimenta Design a ver com o projecto – por muita piada que possam ter tido as suas intervenções e instalações e convites que lançou a alguns artistas da praceta? E o que raio tem agora a ver Dalila Rodrigues, doutorada em História da Arte, com passado nas direcções do Museu Grão Vasco (2001 e 2004), e do Museu Nacional de Arte Antiga (2004 e 2007)?

O que sabiam ambas dessa direcção tão pomposa quanto estéril designada de Comunicação, Marketing e Desenvolvimento? Por que raio se a ideia é efectivamente cumprir um papel – desgraçadamente tão necessário – nesta área não contratam precisamente alguém da área? Que marca deixou Guta (e nada contra a senhora, que é adorável)? Que marca deixará Dalila (e nada contra a senhora, que viu a sua popularidade disparar por força da falta da popularidade de Isabel Pires de Lima)? Duas mulheres - curiosamente? ironicamente? - contratadas quando os seus projectos primeiros falharam? Não caberiam ambas melhor em Serralves, por exemplo?

Não se trata de não aceitar que um projecto possa evoluir, nomeadamente da música para as artes plásticas. Mas de não aceitar que haja aposta no acessório antes de ver cumprido o essencial – e o essencial da Casa da Música não são as artes plásticas!!!! De não aceitar que as duas contratações venham da mesma área, mas na área para a qual foram contratadas nada faça alusão à sua área de intervenção. De não aceitar que se contratem pessoas de outras áreas quando não se contratam – muito mais urgentes – assessores ou consultores para a programação.

A continuar assim, e está visto, a Casa da Música nunca passará de um projecto que nunca chegou a ser. Será um edifício – lindo, lindo, lindo, nunca ninguém se cansará de o elogiar - para turistas. De Lisboa ou de longe. Mas, para isso, se calhar, não teria valido a pena gastar cem milhões de euros. Sobretudo, não teria valido a pena tanto sangue, suor e lágrimas.

valter hugo mãe


"Sou deslumbrado por pessoas e não podia deixar de deslumbrar-me por quem parece andar palmos acima dos outros mortais. Alguns criadores quase tornam desnecessária a existência de Deus. A Billie Holiday, por si só, vale uma religião inteira."
valter hugo mãe, Farpas JN

domingo, fevereiro 03, 2008

António Barreto


"Vendo a desigualdade social, os vencimentos dos gestores públicos e privados, as indemnizações por despedimento que todos querem, as pensões vitalícias no sistema público e privado, posso dizer-lhe que se mandasse faria de Robin dos Bosques. Pegava no sistema fiscal e penalizava duramente os grandes rendimentos e vencimentos.Em capital e trabalho."
António Barreto, Farpas JN

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Heath Ledger

Vou chorar...
"Heath Ledger was found dead in New York in a possible drug-related death. He was 28. Police spokesman Paul Browne said Ledger had an appointment for a massage at the Manhattan flat he was found in, believed to be his home. The housekeeper, who went to let the actor know the masseuse was there, found him dead.
The Australian-born actor was an Oscar nominee for his role in Brokeback Mountain and has numerous other screen credits. He met his wife, actress Michelle Williams, in 2005 while filming Brokeback Mountain. Ledger and Williams lived in Brooklyn and had a daughter, Matilda, but they split up last year.
Ledger played the suicidal son of Billy Bob Thornton in Monster's Ball and had starring roles in A Knight's Tale and The Patriot. He was to appear as the Joker this year in The Dark Knight, a sequel to 2005's Batman Begins."

terça-feira, janeiro 22, 2008

O Bolhão na Assembleia Municipal


Há vacinas contra quase tudo; dificilmente alguém conseguirá inventar uma para evitar o curso que sempre segue a Assembleia Municipal do Porto. Teria que ser inventada uma vacina contra a estupidez e a Ciência, infelizmente, nunca irá tão longe.

Ontem, o tema era o Bolhão. Mas nem importa o assunto; importa quem o discute. Ou quem finge que o discute. Não importa porque os cidadãos são sempre o mais importante (claro, claro, é para isso que eles lá estão, que lá estamos). Mas são os cidadãos quem menos falam. Aguentam ali, estoicamente, três, quatro horas (às vezes mais), a assistir àquele desfile de vaidades, de egos mal amanhados, discursos vazios de deputados que, na sua esmagadora maioria, são incapazes de conjugar dois tempos verbais de forma correcta (que raio, é assim tão difícil?). Aliás, diria que em nenhum outro local a Língua Portuguesa é tão mal tratada. Mas eles, cheios de si e dos seus fatitos adornados com gravata, pedem e pedem e pedem para falar. Para - como disse Rui Rio e bem - discutir o sexo dos anjos. Mas não há quem os pare. Chega a parecer uma sessão de terapia.

Além dos habitués, como Manuel Monteiro (PSD), espécie de Mr. Bean, só que com menos piada e mais paleio (caso digno do Guiness na modalidade: 'Quem acha mais piada a si próprio'), há os novatos, imberbes que da política só conhecem o desejo de ascender através dela. De vez em quando aparecem. Inchados. E é preciso – juro! – colocar o cinto de segurança. Dois exemplos à Direita (da próxima vez, falo da Esquerda): Paulo Dias (PSD), com aquela voz de garganta inflamada (mais ou menos como quando tentamos falar com um caramelo colado ao céu da boca) a fazer pausas acertadas (não assertivas) como se estivesse a fazer stand-up e, por isso, a dar espaço para as reacções do público, e acentuar as frases no final à la Professor Marcelo, é desastroso. Sobra-lhe em pose (pose que, apesar de tudo, não chega a ser suficiente para perder o ar de rapaz da escola) o que lhe falta em conhecimento. Chega a ser embaraçoso (estou a especular, mas especulo com esperança) para quem está na bancada do Executivo. Porque eles querem sublinhar as ideias do seu partido, defendê-las, mas não fazem a mínima ideia, tantas vezes, demasiadas vezes, do que estão a dizer. Perfil onde, aliás, encaixa, também, na perfeição, Miguel Barbosa (PP). Coitado, o rapaz lá tentou duas ou três vezes começar a frase à la Gato Fedorento: “Dizem que temos uma espécie de Oposição…” e tal…. Mas além de não ter tido particular piada, enterrou-se em ignorância até ao pescoço ao dizer que o Bolhão é obsoleto (um rapaz centrista devia ser um bocadinho mais culto, mais viajado, mais informado…) e que o que os comerciantes querem mesmo é dinheiro. Que dessa forma lá se calariam e esqueceriam o que o local tem de emblemático ou lá o que os move. Que para ele tanto faz.

Os três senhores partilham um interessante denominador comum: todos quem ter piada. Terão sido eles a enganar-se no local ou eu? Ou as pessoas que esperam horas a fio para em 30 minutos divididos por meia dúzia, ou mais, poderem expor – não resolver – os seus problemas?

Depois, há Aguiar-Branco. José Pedro Aguiar-Branco (PSD). O homem do cronómetro e do martelo. Que dá e tira o tempo e decide o que é, ou não, insultuoso. Ontem, o presidente da AM decidiu que meandro – sim, eu disse meandro – é um insulto. E que o senhor em questão, comerciante do Bolhão, estava proibido de o repetir. Confesso que ouvi aquilo e pensei: Será que também este quer ter piada? Mas não, queria mesmo dizer o que estava a dizer. Que "meandro", cujo significado é enredo, intriga, é um insulto. E o homem, o outro, ali, inseguro na sua escolaridade, a pedir desculpa a tremer, a suar, a abreviar o protesto. Nada de novo. A política actual - longe de ser só esta, desta autarquia - é isto.


P.S.: Há muito tempo que tenho vontade de revelar os bonecos – literalmente, bonecos - que cada vereador e cada deputado me faz lembrar de cada vez que os vejo ali. Hoje, revelo apenas dois. E nem sequer é porque tenham sido relevantes para a discussão. Não foram. Nunca são. A diferença é que às vezes falam. Nem sequer foi o caso. Mas hoje apetece-me dizer quem vejo quando os vejo.

Matilde Alves, a vereadora da Acção Social, é a Barbie. A única boneca que nunca teve direito a pilhas, a uma evolução tecnológica qualquer que a fizesse ser mais do que um objecto de decoração dela própria. Que nunca teve a direito a mudar de expressão; só de baton.
Gonçalo Gonçalves, vereador da Cultura, é Humpty Dumpty, aquele ovo inventado por Lewis Carroll (a da Alice no País das Maravilhas) que tentava a todo o custo equilibrar-se em cima do muro. Que enrola as palavras, mas não domina os seus significados, tentando com isso enrolar os interlocutores. "Humpty Dumpty argumenta com Alice que as palavras significam exactamente aquilo que ele "quer que elas signifiquem", por isso importa saber quem manda para que se decida qual o significado que as palavras irão ter.

Ontem, durante quatro horas, ambos pareceram dois bonecos numa prateleira da Toys’r’Us, lado a lado, inertes, inúteis, desumanos.

domingo, janeiro 20, 2008

Marcelo Rebelo de Sousa


"Ser Presidente da República em Portugal é sempre um privilégio. Suceder a Cavaco Silva é um duplo privilégio. Ser candidato de uma área, que é a área dele, depois de dez anos de um presidente dessa área, é uma extrema dificuldade."
Marcelo Rebelo de Sousa, Farpas JN

terça-feira, janeiro 08, 2008

30 por noite

"Alegremente inspirado no desprezo autárquico por espectáculos a que assistem “duas ou três dezenas de pessoas”, a mostra 30 por Noite resgata da sombra um conjunto de cinco projectos teatrais desenvolvidos por jovens criadores do Porto, boa parte dos quais com idades inferiores a 30 anos.
A escolha recaiu sobre as companhias Estufa, Primeiro Andar, Teatro do Frio, Teatro Meia Volta e Depois à Esquerda Quando eu Disser e Mau Artista, grupos da cidade que, tendo já nascido no cenário em desagregação do pós-Porto 2001, vêm demonstrando maior (in)consequência artística e uma crescente exigência de profissionalização.
Aos espectáculos somem-se ainda a instalação enigmaticamente intitulada Está Cá Alguém?, debates sobre os objectos artísticos gerados por estas estruturas “alternativas” de produção teatral, e um desopilante concerto de encerramento dos Mimicalkix. Evocando ao longo de uma semana intensiva o doce prazer de se ser minoritário, 30 por Noite traz para o palco do TeCA aqueles que trabalham para 30 espectadores com o mesmíssimo empenho daqueles que o fazem para uma plateia de 300 ou 3000. As minorias crescem com os processos de criação. Juventude em marcha!

domingo, janeiro 06, 2008

Joaquim Vieira no Público


No jornalismo há pessoas assim, profissionais a sério, que foram dispensados, encostados, preteridos, banidos dos seus postos de trabalho sem que ninguém, pelo menos ninguém que não mande ou não tenha interesses económicos ou políticos ou comprometimentos de qualquer outra ordem igualmente suspeita, perceba porquê. Assim, de repente, e só para dar alguns exemplos óbvios, gostava muito de ver regressar Vicente Jorge Silva a qualquer função mais activa que não apenas a de cronista do Sol; gostava muito de ver regressar Joaquim Vieira à chefia de uma revista como a descaradamente assassinada Grande Reportagem. Noutro campo, gostava de ver regressar Francisco Amaral à sua Íntima Fracção na TSF, ou não necessariamente a essa estação mas a outra qualquer, em vez de ficar circunscrito ao blogue homónimo que criou; gostava, apesar de tudo, de ver regressar Francisco Sena Santos.
Na actual conjuntura, nada indica que possam, estes e tantos outros, voltar. Sobretudo agora, em contagem decrescente para a corrida ao novo canal. Há-de ganhá-lo, sem grande surpresa, quem melhor souber seduzir. E a sedução, aqui, terá muito pouco a ver com romantismo. Será preciso calar mais do que informar. A coragem, em 2008 como antes, não deverá ser premiada.
Seja como for, Joaquim Vieira, que passou pelo Expresso, pela Visão, pela RTP, pela GR, e é o actual responsável pelo Observatório da Imprensa, começa hoje um novo capítulo no Público como provedor do leitor. Sempre é melhor do que nada. A ver se desta vez não o calam...

António-Pedro Vasconcelos



António Pedro Vasconcelos, cineasta, 68 anos, não fumador, nas Farpas do JN, a propósito da nova lei do tabaco:

"É uma lei sinistra, um precedente perigoso, um atentado às liberdades, uma porta aberta à intolerância, um incentivo aos denunciantes, um triste sinal dos tempos, que ajuda a perceber a indiferença dos cidadãos à União Europeia e a decadência da Europa. Espero que as consciências despertem e que se entre numa era de “desobediência civil”. E que sobretudo os “não fumadores” ajudem a boicotar os restaurantes e bares onde não se fuma. (Declaração de interesses: não sou fumador e muito menos viciado. Gosto de fumar um charuto depois de uma boa refeição, quando estou com amigos e há tempo para ficar à conversa. Só isso.)

sábado, janeiro 05, 2008

Luiz Pacheco 1925-2008

"Podem contar comigo para dar porrada, mas jamais por incumbência."
Correio da Manhã

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Estação do Calor


Guillaume Pazat, Jordi Burch e Luís Pedro Cabral partilham com os leitores da Visão e com os internautas interessados, o diário de bordo de três meses de viagem pela América do Sul. Aqui: http://www.estacaodocalor.org/ . Começa hoje!
Aviso à navegação:
"Atenção: Isto não é uma viagem. É um encontro. É a forma de tomar o pulso ao nosso planeta, de perceber como sofre esta região, como ela nos afecta inevitavelmente, nós, humanidade. É uma viagem até ao fim do mundo, com início na cidade de Buenos Aires, Argentina, através da Patagónia, rumo a El Calafate até Ushuaia, no fim de qualquer coisa, com saída para a Antárctida, terra de ninguém, de cientistas e pinguins, reduto ecológico à beira de não ser protegido. Serve este caminho para mostrar o que há de errado com o Homem quando se serve dos seus recursos naturais para os esgotar, aniquilando-se lentamente, ou nem por isso...."

sexta-feira, dezembro 28, 2007

Passagem-de-ano no Gato Vadio


Preste atenção. Bem vistas as coisas é um milagre estarmos por cá. Ou um sacrilégio. Tanto faz. O que é certo é que a tragicomédia desta aventura do Gato Vadio está cada vez mais trágica e menos cómica. Ainda assim queremos partilhar a nossa loucura até ao fim. Passagem de ano 2007/2008. Algarve? Madeira? Ryan Air? Tudo Planos B. Olhem-me só pró cardápio: Gostávamos de ter circo, malabaristas, trapezistas, striptease literário, bailarinas da Sibéria com sotaque da Beira, caviar d' aeroporto, os fatos-de-treino da Ikea para os convidados darem uma mão quando a festa acabar, ainda pensámos trazer a mesa que o Woody Allen reserva no casino de Espinho vai para nove anos, falou-se ao Vasco Pulido Valente para animar a malta com as previsões hiper-óptimistas a que nos habituou para 2008, népias, vai passar o reveillon a repor whiskys na Makro de Alfragide, às duas por três ainda nos impingiam com o The Famous Grouse Vadio, a nossa história até já vem no jornal, ao fim ao cabo isto é só paleio por que não temos nada para lhe oferecer, como de costume aliás, quem sabe umas filhozes mal-amanhadas, torresmos gourmet à la garder, rabanadas de vento é fadado como'ó destino, meia-dúzia de passitas vá que não vá, (também temos sultanas e corintos), mas meu amigo para além da nossa grácil miséria temos só o sonho e uma contagem decrescente pela frente!
Entre a Loucura e a Depressão
Passagem de ano 2007/2008
5$ (estes gajos estão loucos ou deprimidos?)
As reservas devem ser feitas na livraria do Gato Vadio,
Rua do Rosário 281, Porto.

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Benazir Bhutto 1953-2007


Todos sabiamos que acabaria por morrer assassinada: só não sabiamos quando...

terça-feira, dezembro 11, 2007

Manoel de Oliveira: 99 anos

Foto: Inês Gonçalves


"Cada um tem a sua sina e o seu destino. A idade é um capricho. Fazer cinema é uma paixão, algo interior. Bem ou mal feitos, os filmes são uma vocação."
Jornal de Notícias

Crónica de um triste espectáculo

Ao fim dos primeiros vinte minutos, estou ao despique com Rui Rio. O desafio é ver quem boceja mais vezes. Não sei quem ganhou - às tantas, empatámos, mas pelo menos não adormecemos. Nem todos os deputados socialistas poderão dizer o mesmo. Rectifico: devo ter ganho eu, que fiquei até ao fim. Sempre me deu a vantagem de uns bocejos extra.
A Oposição da Câmara Municipal do Porto pediu uma sessão extraordinária da Assembleia Municipal - ocorrida ontem à noite - para debater a situação do Rivoli depois de o Tribunal ter-se pronunciado sobre a ilegalidade que terá estado na origem da concessão daquele Teatro a Filipe La Féria. O PSD estava lá todo, inclusivamente munido de directores municipais, não fosse dar-se o caso de ser confrontado com alguma pergunta cuja resposta poderia não estar na ponta da língua. Estranhamente, o PS esqueceu-se de mandar os vereadores, mesmo aquele que assinou a Providência Cautelar à qual a decisão judicial foi favorável. Apareceu apenas Ana Maria Pereira, quase invisível, mais tarde. A CDU, idem aspas. Apareceu Rui Sá, mudo, já o espectáculo ia avançado. A sessão estava marcada para as 21 horas. Começou atrasada. E às 21.30 horas, confrontado com a ausência de inscrições, já o presidente da mesa, José Pedro Aguiar-Branco, ameaçava encerrar o serão.

Feridos no seu orgulho - oco orgulho partidário, e não das convicções firmes - os deputados começaram a pedir a palavra. Não porque tivessem realmente alguma coisa a acrescentar. Queriam só fazer de conta que estavam realmente a debater o assunto. Pior: queriam fazer de conta, embora não tenham conseguido, que sabiam o que estavam a dizer e que sabiam para onde queriam ir. Não sabiam. Nem uma coisa nem outra. Mesmo como espectáculo, não poderia ter sido mais desolador. Se a entrada fosse paga, eu teria pedido devolução do dinheiro no fim.
Artur Ribeiro (CDU) já tinha inaugurado a sessão, roçando muito ao de leve o assunto que motivara a Assembleia. José Castro (BE) seguiu-se-lhe, enunciando o que considera ser uma "desconsideração" pela própria Assembleia, pela Justiça e pela cidade. Divagações, portanto. São os dois incontornáveis naquele palco. E Justino Santos (PS) limitou-se a ler um texto sobre o historial do Rivoli para justificar a posição socialista. Ao primeiro round, o vazio completo. Nada de novo. Pior, nem uma pergunta dirigida a quem quer que fosse.

Segundo round, o tal para o qual eram necessárias inscrições. No caso, feitas a saca rolhas. Gustavo Pimenta (PS) vai dizer o que já havia sido dito. E acrescenta que o problema não é bem La Féria, nem bem os espectáculos dele, nem bem.... hmmm, bem o problema é.... Sérgio Teixeira (CDU) vai ao púlpito dizer apenas que o silêncio da sala afecta a dignidade do órgão e regressa mais tarde, consolado por acreditar que foi o seu desabafo a motivar a súbita, embora paupérrima, participação dos deputados. José Castro (BE) regressa também para - pasme-se! - ler um texto assinado por Marcelo Mendes Pinto (CDS), ex-vereador da Cultura no primeiro mandato de Rui Rio, tecendo-lhe os maiores elogios. (Em nenhuma outra área que não a da política se passa assim de besta a bestial!) E para acrescentar que o problema não é bem La Féria, nem bem os espectáculos dele, nem bem.... hmmm, bem o problema é.... Justino Santos (PS) regressa também para partilhar com a audiência a sua pessoal agenda cultural e para atestar o quanto gostou - pede perdão a Deus para proferir o pecado - do musical laferiano "Jesus Cristo Superstar", para dizer que até vai com os filhos, na próxima quinta-feira, ver a "Música no Coração" e bem, para acrescentar que o problema não é bem La Féria, nem bem os espectáculos dele, nem bem.... hmmm, bem o problema é....

A cereja não coube ao PSD, porque é difícil eleger uma cereja numa cerejeira repleta de frutos. Ainda assim, Gabriela Queirós (PSD) pediu a palavra para, resumidamente, dizer isto: "Ok, a decisão da Câmara é ilegal. E depois? Ajudem-nos a encontrar uma forma para tornar isto legal". Seria desastroso se tivesse sido apenas isto. Mas a deputada, bem ou mal, populista ou não, atirou números para cima da mesa: 2400 pessoas frequentam hoje diariamente o Rivoli, sendo a previsão anual de frequência de 392 mil pessoas contra as 132 mil verificadas no passado.

Como ninguém havia feito o trabalho de casa, não havia como contestar. E como ninguém sabia o que estava ali a dizer, a fazer, a defender, agarraram-se todos aos números e, eis que, de repente, a Oposição esqueceu-se que o motivo da Assembleia não era nem o serviço público, nem a estratégia cultural da Câmara, nem a formação de públicos. Ontem, não era isso. Porque isso já havia sido vastamente discutido. Mas como eles não sabiam o que era, qualquer casca de banana era boa para escorregar. Escorregaram todos.
Rui Rio, estóico, aguentou-se calado. Com toda a justa propriedade. No lugar dele, também não teria aberto a boca. Abriu apenas uma breve excepção para voltar a explicar a teoria dos 5% das receitas líquidas do Rivoli que La Féria temporariamente não terá que pagar à Câmara. E abalou.

Na assistência, estavam os resistentes que se barricaram no Rivoli. Sozinhos, como se não passassem afinal de um bando de loucos que cismou que o Teatro tem outras obrigações. Os únicos que sabiam o que estavam realmente ali a fazer e a dizer; os únicos que fizeram as perguntas certas. Tarde demais. Já não havia quem lhes pudesse responder. E estava também o povo da cidade. Gente que não tem nada a ver com nada, mas que vai ali como quem ia, em tempos idos, ao Coliseu de Roma. Ver um espectáculo selvagem. Não lhes importa o assunto; importa o quanto se divertem com aquele circo. É um circo.

quinta-feira, dezembro 06, 2007

O património são as pessoas... presentes



Facto: há um Porto que se importa. O Porto de sempre, que dá cara e corpo aos manifestos: seja o Coliseu, o Rivoli, os Aliados, o que há-de vir. Não é o Porto antipoder; é o Porto que deseja um poder dinâmico, construtivo. O Porto que até pode ver o Mundo, mas prefere ver o Mundo no Porto. O Porto que anteontem, apesar do frio, do jantar, do futebol, do dia de trabalho, marcou presença no 11.º aniversário do Património Mundial.
Facto: há um Porto que não se importa. Que se cala, que se abstém, que se acomoda. O Porto que porventura não saberá o que significa ser Porto, segunda cidade do país com Centro Histórico inscrito numa parca lista de riquezas mundiais. O Porto que ignora o dever de ter mais e melhor do que já tem. O Porto que anteontem falhou à chamada. Se o Património são, também, as pessoas, a cidade conta as que às 20 horas se ergueram diante do Palácio da Bolsa. Não importa o que vale a música; importa o que vale a cidade. E a forma, literal, como o Bando dos Gambozinos a abraçou. Conta com as que às 22 horas inundaram o Salão Árabe do mesmo Palácio - os porteiros travaram entradas por, pouco depois, já não caber lá dentro "um grão de areia" - para ouvir uma conferência e duas intervenções musicais. Conta com as que, já depois da meia-noite, andavam à deriva pela cidade à espera que a cidade tivesse alguma coisa para lhes dar. E para receber. Mas a cidade, como antecipou Pedro Burmester, não estava toda lá.
O pianista, a quem coube o momento simbólico da noite, executou 4'33 de John Cage, compositor que citou antes de sentar-se ao piano. "Não quero dizer nada e, no entanto, estou a dizê-lo". Para mim, acrescentou, "isto é poesia". Burmester declamou-a assim em silêncio. E para esse silêncio é preciso coragem. Ao lado da partitura, um cronómetro laranja. Talvez os quatro minutos e 33 segundos mais longos de uma actuação. Ajeita a pauta. Pausadamente. Não tira os olhos do piano, mãos no colo, postura hirta. Ouve-se o flash da câmara fotográfica. Pouco mais. Nem sequer a tosse costumeira. Silêncio há-de convidar ao silêncio. Aí, disse tudo. Alguém ouviu?

terça-feira, dezembro 04, 2007

Porto Património Mundial

Pedro Abrunhosa cantará hoje, não por acaso, a "Balada de Gisberta", música que na história trágica de um transexual assassinado há cerca de um ano nas ruas do Porto por crianças que não deveriam sequer saber o que é matar, conta a vida de uma cidade "de pobreza, de prostituição, de miséria, de abandono, de violência, de desintegração social". O Porto também é isto.

Perdi-me do nome,
Hoje podes chamar-me de tua,
Dancei em palácios,
Hoje danço na rua.
Vesti-me de sonhos,
Hoje visto as bermas da estrada,
De que serve voltar
Quando se volta p’ró nada.
Eu não sei se um Anjo me chama,
Eu não sei dos mil homens na cama
E o céu não pode esperar.
Eu não sei se a noite me leva,
Eu não ouço o meu grito na treva,
E o fim vem-me buscar.
Sambei na avenida,
No escuro fui porta-estandarte,
Apagaram-se as luzes,
É o futuro que parte.
Escrevi o desejo,
Corações que já esqueci,
Com sedas matei
E com ferros morri.
Eu não sei se um Anjo me chama,
Eu não sei dos mil homens na cama
E o céu não pode esperar.
Eu não sei se a noite me leva,
Eu não ouço o meu grito na treva,
E o fim vem-me buscar.
Trouxe pouco,
Levo menos,
E a distância até ao fundo é tão pequena,
No fundo, é tão pequena,
A queda.
E o amor é tão longe,
O amor é tão longe… (…)
E a dor é tão perto.

A provocação de Burmester

Aparentemente, qualquer um poderá executar a partitura de John Cage e tocar a sua faixa 4'33. Mas se for Pedro Burmester a tocá-la, soará diferente. Porventura, soará hoje, no Palácio da Bolsa, no Porto, às 22 horas, como deverá soar. Simplesmente, porque não há música contida nessa partitura. Há apenas silêncio. Literalmente, quatro minutos e trinta e três segundos de silêncio.
A peça "composta" em 1952, consiste numa única instrução destinada ao executante: cumpri-la é não a tocar. Tocando-a. Porque, defendeu o pioneiro da "indeterminação", "tudo o que fazemos é música". E se aí reside a genialidade do compositor americano do século XX, falecido em 1992, semelhante genialidade caberá ao pianista Pedro Burmester. Não porque seja capaz de manter-se inerte diante do piano. Mas porque tendo prometido, no rescaldo de todas as controvérsias que envolveram a Casa da Música, de que é actualmente director artístico, não voltar a tocar no Porto enquanto Rui Rio fosse presidente de Câmara, será capaz de o cumprir, não o cumprindo.
Burmester associa-se à cidade, à celebração do Porto Património Mundial, ao evento apartidário, mas não retira veracidade à afirmação proferida em 2004. No entanto, em 4'33 – gesto criativo considerado absolutamente inovador –, não há só silêncio. Originalmente, a peça pretendeu questionar a própria música enquanto conceito, dirigindo a nossa atenção para o contexto em que a música existe e para a forma como a ouvimos. O pianista – num gesto que há-de ser recordado como provocação – não deverá querer questionar a música. Sobra o contexto em que será ouvida. Ouça quem quiser. O que souber.

Eu imPORTOme


sábado, dezembro 01, 2007

Ginginhas de Lisboa

Lisboa - fim de tarde. Lisboa - Hotel do Chiado. Lisboa - poesia. Lisboa - Inverno. Lisboa - conto de fadas. Lisboa - amor. Lisboa - perdida. Lisboa - mãos dadas. Lisboa - Bairro Alto. Lisboa - nostálgica. Lisboa - início de tarde. Lisboa - amigos. Lisboa - outra vez. Lisboa - teatro. Lisboa -restaurante nepalês. Lisboa - Verão. Lisboa - Berardo. Lisboa - beijos roubados. Lisboa - conversas para sempre. Lisboa - Aldina Duarte. Lisboa - lágrimas na estação. Lisboa - vinho tinto. Lisboa - Jardim da Estrela. Lisboa - guardas-me?. Lisboa - Largo da Graça. Lisboa - ceú estrelado. Lisboa - a correr. Lisboa - só por uma vez. Lisboa - só mais esta vez. E de todas as vezes Lisboa - Lisboa com ginginha.
A ASAE fechou a Casa das ginginhas sem saber que estava a fechar a via verde das minhas passagens por Lisboa. Não é justo.

sexta-feira, novembro 30, 2007

RAP no Y

Ele é sexy. Ele é sexy, repete Kathleen Gomes, o máximo de vezes que consegue, hoje, num longo perfil pergunta-resposta no Ípsilon. Ele tem piada, tem pinta, é um caso de estudo. Tem família e tudo; é benfiquista, o que só o humaniza. De tal forma, que as marcas o escolhem para vivificar coisas inanimadas. Ele é produto que as empresas de consultadoria de imagem - LPM's e Cunhas Vazes- não ousariam trabalhar por ser perfeito assim, tal e qual como está. Ele é invejado pelos pares. E não é bem só por ter piada. É mais por ser inteligente, culto, civilizado. Ele ganha milhares de euros, mas não nos atira com isso à cara. É o neto que as avós gostavam de ter. O rapaz que não se deixa deslumbrar com a televisão, embora a televisão esteja deslumbrada com ele. O guionista que sabe dizer não, mesmo que o apelo venha de Luísa Costa Gomes. Ele tem sentido de gratidão, de humildade, de relativização. Ele é sexy. Porque sabe o que diz. Tem 33 anos. Chama-se Ricardo Araújo Pereira. Sou fã.

quinta-feira, novembro 29, 2007

O mau exemplo do Público

Era a peça que faltava para o puzzle ficar completo. A revista Sábado mostra hoje o que, de certa forma, já se sabia. Nas últimas semanas nunca estiveram em questão os profissionais (goste-se mais ou menos deles) Miguel Sousa Tavares (MST) e Vasco Pulido Valente (VPV) - cada um na sua área -, mas os indivíduos na sua esfera mais íntima (que é também a dos ódios) e à qual, insisto, nunca deveríamos ter tido acesso. Esteve sobretudo em destaque o ódio não exactamente - ou não apenas - de um pelo outro, mas de José Manuel Fernandes, director do Público, por MST. É ele quem, no meio desta vergonhosa feira de vaidades e vacuidades, ganha o prémio da prestação mais indigente.
Pessoalmente, já não achei bonito que o Público tivesse dado quatro páginas a VPV para destilar veneno sobre MST. Não acharia nunca, fossem quais fossem os personagens, porque nunca gostei de circo - nem mesmo quando era pequenina. Nem de palhaços, nem nada. Mesmo. Também não achei particularmente bonito que o Público, de todas as opiniões que a blogosfera dedicou ao assunto, tenha, de forma extraordinariamente enviesada, escolhido os excertos que pareciam aniquilar MST. E agora, na Sábado, eis a cereja, nada bonita.
José Manuel Fernandes revela, sem qualquer pudor, o teor de telefonemas pessoais, desce ao pormenor das expressões (imagino-lhe a expressão e sinto náuseas), e revela, orgulhoso, como há tantos anos perseguia VPV, como estava disposto a fazer tudo para o recuperar enquanto cronista, como estava farto dos caprichos de MST, como nunca lhe perdoou ter que ter levado com ele, como encomendou a VPV a crítica com a liberdade sanguinária dos lambe-botas: escreve o que quiseres, quando e quanto te apetecer. Que vampiro recusaria semelhante proposta? E como, no fim, lhe moldou o título com espadas.
O Público foi um jornal de referência. Passado distante. A partir deste episódio, obviamente pouco ou nada importante, será fácil, ou pelo menos será tentador extrapolar para outros. Para aqueles que importam realmente. E a partir daí deduzir a curva descendente daquele que já foi o melhor jornal do país. VPV e MST podem continuar a insultar-se. Por mim, até podem comer-se vivos no Gambrinus em salvas de prata. O que me custa é que José Manuel Fernandes ainda não tenha percebido que já devia ter abandonado há muito tempo a poltrona de director.

quarta-feira, novembro 28, 2007

Migala - The guilt

If I could for a minute,
succumb to the disaster of everyday,
to let me go, let of cling to...
I guess it would be possible
to crash with one of the strangers
that I cross by the street
and have a premonition of happiness.
But now,
it's sure that I can't,
and probably that's why one ghost comes every night
to rock my stupid guilt,
and why its way's a ring of fire.
And when I finally sleep it's always the same dream,
sand falling fast in a glass bell.
The sand very clean,
the glass so weak.

http://www.youtube.com/watch?v=wUwoVScV1QM&NR=1

terça-feira, novembro 27, 2007

MST responde a VPV na Sic Notícias

Já se sabia que Miguel Sousa Tavares (MST) haveria de responder publicamente a Vasco Pulido Valente (VPV). Só não se sabia onde. Nem quando. Respondeu hoje, na Sic Notícias. E mal. Muito mal. Nos três dias que demorou a reagir, teve certamente tempo para pensar em alguma coisa melhor para dizer - senão por respeito a VPV, pelo menos, por respeito a quem o lê. Alguma coisa que não fosse, apenas, continuar a disparar tiros como se estivesse na caça. No caso, uma caça de recreio infatilóide.
Afirmações como: "Eu nem sabia que ele era jornalista."; "Ele quer ter protagonismo à minha custa."; ou "Não reconheço competência para fazer crítica literária a um romacista falhado." colocam MST ao nível vagamente arruaceiro de VPV. Assim sendo, se um não merece desculpa, o outro não merece condescendência. Até porque havia coisas para explicar. E MST não as explicou. Porque não quis ou porque não soube?
VPV pode ser, em determinadas situações, um tonto. Um desbocado que sente genuíno prazer em dizer mal, às vezes, só porque sim. Prazer em contrariar. E neste caso até pode estar unicamente movido por uma birra pessoal que nos ultrapassa. Mas isso não pode servir para que se lhe questione a qualidade intelectual, porque é intelectualmente desonesto fazê-lo. E também não me parece que alguma vez ele tenha desejado ser romancista. É um historiador, sempre foi. E como historiador, as coisas que diz, filtrando naturalmente o veneno, não podem ser ignoradas.
As quatro páginas que escreveu no Público no passado sábado são, obviamente, questionáveis. Por tudo. Para mim, sobretudo pelo que a opção editorial do jornal diz do próprio jornal. Mas levantou questões, mais de conteúdo do que de forma, a que era importante dar resposta. Até porque se em o "Equador" MST afirmou não ter a intenção de ser, do ponto de vista histórico, rigoroso (e mesmo assim emendou os erros), em o "Rio das Flores" assegurou exactamente o contrário. Que não tenha aproveitado a boleia da entrevista para esclarecer os leitores (onde me incluo), é uma tremenda desilusão.
Em meia hora de conversa [a entrevista foi às 23 horas] não tinha tempo para responder a tudo. Talvez nem tivesse resposta para tudo. Mas à frente de Ana Lourenço, jornalista doce, incapaz de o encostar à parede, podia ter escolhido três ou quatro intems em que se sentisse mais confortável para tentar desmontar a teoria de VPV. Não o tendo feito, para quem não sabe de cor e salteado a História de Portugal (como eu) é mais fácil acreditar no historiador. Como pode MST acreditar que isso não o fará perder potenciais leitores?

segunda-feira, novembro 26, 2007

Jornalismo pop

Gosto mais de Rodrigo Guedes de Carvalho escritor do que de Rodrigo Guedes de Carvalho pivot de televisão. Como gosto mais do ar sério, e nem por isso menos bonito de Ana Lourenço, do que do ar "vejam que sexy que eu estou" de Clara de Sousa. Como gosto mais dos jornais a preto-e-branco com reportagens longas e bem escritas (onde estão?) do que dos jornais com artigos light cheios de caixas de números e fichas de rewind que proliferam agora por aí. Gosto sobretudo mais do jornalismo-jornalismo, sério e objectivo, do que do jornalismo conversa-de-mesa-de-café. E estou farta desta mania de ninguém querer cansar os leitores ou os telespectadores. Por isso, tenho dúvidas, mesmo muitas dúvidas em relação a este Jornal da Noite pop que a Sic colocou agora no ar. Aliás, não tenho dúvidas: não gosto.

domingo, novembro 25, 2007

Antes do fim do Bolhão

Dona Amélia tem dedos gretados do frio. Mãos de trabalho, 65 anos a carregar flores e hortaliças. Logo de manhã cedo. Cinquenta quilos à cabeça, desde que era menina e vinha a pé de Serzedelo, em Gaia, para o Bolhão, no Porto. Pagava dez tostões para poder entrar no mercado. Faziam fila os comerciantes. E fila os clientes. Cinco filhos criados ali, numa caixa de papelão, numa alcofa guardada por baixo da balança da padaria, na madeira dos beirais das janelas. Sempre sozinha, destemida. O marido, emigrado em França, como tantos outros, trabalhava para construir a casa.

Hoje, quando lhe perguntam para onde irá quando fecharem para obras o mercado onde se fez mulher, dona Amélia, olhos doces, húmidos da saudade de um tempo em que “o povo era bom”, não sabe dizer. Só sabe que olhar para os filhos, já formados e casados, os filhos todos unidos, que todos os dias telefonam para saber dela e do pai, é mais importante do que “já não apurar para a despesa”. Ou não saber do que irá viver daqui para a frente. Porque não sabe fazer mais nada e porque, para mais, nem sequer tem reforma. “Ou havia de pagar os estudos aos meninos, ou havia de descontar. As duas coisas não conseguia fazer”. Para onde vai agora? Não sabe. E também ninguém lhe diz. Mas sabe que “se não houver alegria e saúdinha o dinheiro não serve para nada”.

Em dia soalheiro, como o atípico Novembro de agora, o Bolhão quase parece um mercado parisiense. Música francesa mistura-se com pregões de venda, pássaros em bando voam em loop sem abandonar o recinto, perfume de flores e peixe fresco, frutas e leguminosas, cheiro a pão quente, turistas, menos. A comprar, ninguém. “Até me arrepio”, desabafa dona Argentina, 68 anos a cuidar das suas plantas de plástico como se tivessem vida. “O que isto era nestes dias, menina! Não se podia aqui entrar com gente. Agora, morreu. Mataram o Bolhão”.
O Bolhão que quase parece um mercado parisiense. Quase. Porque a quem vende falta o incentivo político para continuar e a segurança de que fazem mais falta elas ali, mulheres de avental e língua afiada, meias de lã em cima de meias de vidro, xaile pelas costas a desafiar os fios gelados da brisa, braços cruzados à espera de quem já não vem, do que um qualquer concentrado de lojas topo de gama, incapaz de distinguir o Bolhão de um qualquer centro comercial.
“Obras sim, centro comercial, não”, sublinha dona Mariazinha, que já foi “remediada e hoje, aos 66 anos, é pobre”. Os clientes desapareceram-lhe com as notícias de insegurança da estrutura, a maioria dos restaurantes chineses que lhe compravam “as verduras lá para as comidas saudáveis que eles fazem” fecharam. Os estrangeiros tiram fotografias com ela que depois lhe enviam com dedicatórias numa língua que ela não entende, mas compram, no máximo, apenas, dois tomates.
Mariazinha havia de ter sido actriz. Não fosse a mãe, na altura, dizer que “as actrizes eram umas curtas”. “A menina desculpe, mas entende o que quero dizer. Outros tempos...”Não foi actriz, mas não perdeu o jeito. É rainha no Bolhão. O marido de uma vida sorri-lhe, amparalha-lhe as brincadeiras. Ela troca as voltas ao infortúnio, à má sorte e nunca pára de sorrir. Não há ali quem não goste dela. “A vida é para a frente, minha querida. Há-de correr tudo bem”.

sábado, novembro 24, 2007

O lodo do Público

A zanga de rapazes entre Vasco Pulido Valente (VPV) e Miguel Sousa Tavares (MST), que ambos fazem questão de exibir na praça pública, já não é muito edificante. Agora, que um jornal faça questão de lhes disponibilizar um ringue do combate - ainda por cima, um suposto jornal de referência - não é só deprimente - é deplorável!
VPV já tinha avisado, em entrevista ao Expresso, na semana passada, que ainda não queria comentar o novo romance de MST, "Rio das Flores" e que todos, brevemente, perceberiamos porquê. A resposta chegou hoje, através do Público que, não fosse dar-se o caso de alguém estar mais distraído, destaca o assunto em grandes parangonas na capa. VPV não faz uma crítica ao livro na sua crónica de última página. Usa quatro (quatro!!!!) páginas do suplemento P2 para discorrer sobre todas as falhas e gaffes, não só da obra, mas também do carácter do autor. Terá o jornal noção do precedente que acaba de abrir?
MST não se dá só mal com VPV; dá-de também mal com o Público - ou o Público com ele, desde que deixou de escrever para lá. Por isso, a maior vingança não vem de VPV; vem justamente do jornal que MST passou dez anos a elogiar com total devoção e cegueira. A VPV, o comportamento já não fica muito bem. Ao Público não poderia ficar pior. Para os leitores é, no mínimo, um insulto.

sexta-feira, novembro 23, 2007

Libração, Cunillé

De que se fala quando não há nada para falar? Tanto faz. Encolhe os ombros no escuro e no cachecol. Tanto faz se a mulher que conheceu no parque onde passeia os cães dos outros volta na noite seguinte. Tanto faz se a estranha que de vez em quando a visita ali no meio dos carrosséis de ferro velho quer realmente ler o livro que lhe oferecera ou se realmente roubara o anel para lhe retribuir o livro. Tanto faz se está frio ou vai chover. Tanto faz se essa mulher deseja mesmo a partilha do seu segredo. O que é? Tanto faz. Tanto faz?

"Libração" é uma texto para duas mulheres (Carla Miranda e Maria do Céu Ribeiro). Sobre duas mulheres. Que precisam falar. Que precisam que as ouçam. Dois corpos quase inertes, com as vidas suspensas não se sabe porquê, à procura de qualquer coisa que também não se sabe bem o que é. A felicidade? É irremediavelmente sobre a solidão. Ou sobre a solidão irremediável. Ou será só a mesma mulher ao espelho? É a mesma coisa. "Libração" é a vida toda em três dias que só existem à noite dentro de uma caixa onde quase não se respira. É a necessidade de alguém entregar-se a alguém, temendo (sabendo?) que antes de dar sequer metade de tudo o que tem para dar, já a outra pessoa está cheia. E estando cheia, como poderá voltar?

É quase um jogo de meninas. Não há outra coisa senão a expectativa de voltarem ali, outra vez, noites-após-noite, àquele parque, que parece de repente ser o único local onde tudo é ainda possível. Onde elas, as duas meninas-mulheres-de-ninguém, podem renascer, reiventar-se, passar talvez a pertencer a alguém. Ou não. Se é um jogo, é terrivelmente desarmante. Comovente.

Na encenação de Cristina Carvalhal, a peça de Lluisa Cunillé parece um doce filme francês. Duas actrizes embrulhadas na fazenda dos casacos, a debelarem-se contra o frio de uma qualquer cidade (Paris?) que há-de imitar-lhes o frio que têm dentro. Carla Miranda, a menina-mulher curiosa, deslumbrada, pueril (Amélie Poulan?), a falar mais por silêncios, silêncios que são socos, do que por palavras; Maria do Céu Ribeiro, a menina-mulher-quase-maria-rapaz, que tem tanto medo como a outra, que precisa tanto de alguém como a outra, que é tão insegura e tão frágil como a outra, mas faz de conta que não. Não queres vir amanhã? Tanto faz. Tanto faz?

Às vezes é preciso tão pouco para fazer uma peça boa....


Libração
Teatro da Trindade, Lisboa
De hoje até 2 de Dezembro
TEXTO: Lluïsa Cunillé; ENCENAÇÃO: Cristina Carvalhal

ELENCO: Carla Miranda e Maria do Céu Ribeiro; PRODUÇÃO: As Boas Raparigas

quinta-feira, novembro 22, 2007

Control

Tenho mesmo muita dificuldade em entender por que se transformam em mito todos os rocker-boys que se matam com menos de 30 anos. Seja o imbecil dos Doors, o Kurt Cobain ou o Ian Curtis. No caso do vocalista da Joy Division tenho ainda mais dificuldade em entender todas as teorias que tentam explicar o suicídio, em Maio de 1980. Peso de consciência por alimentar uma bigamia banal? Dificuldade em lidar com a epilepsia? Com a fama? Um final minuciosamente pensado para ganhar a imortalidade?

Acabo de ver o "Control", perspectiva altamente inquinada de mulher despeitada [Deborah Curtis] - não tão inquinada, apesar de tudo, como o livro "Carícias Distantes": medíocre - e não consigo abstrair-me da idade do rapaz: 23 anos!! Um mito?! Mas por que raio?!

Não quer dizer que o filme não seja quase bonito. É. E há sempre a música...

quarta-feira, novembro 21, 2007

Voa comigo esta noite

Coelho mágico salta da toca de veludo esquecida. Voa comigo esta noite. Coelho mágico, quem sabe quando voltarás? Depois de voltares a dançar à luz da lua, a afinar os fios doces da brisa, a encher de risos graves a rua, antes ou depois de voltares a partir o coração do piano? Voa comigo esta noite. Libelinha presa numa teia de aranha húmida a pedir para ser salva. Só para deixar de ter frio. Com o bater das asas a gritar que não haverá castigo. Que desta vez, não haverá. Nuvens negras como garrotes de aço. Libelinha, há caminho de regresso da chuva? Voa comigo esta noite. Voa comigo mesmo que já tenhas voado outras noites e te tenhas perdido. E que isso te tenha doído. Não tenhas medo de te lançar outra vez contra o vento e de rir. Vá lá, voa comigo esta noite. Ninguém vê. Cavalo alado de quem nunca ninguém sabe. De quem é impossível saber a verdade. De quem se conhece de cor o cheiro. E a distância. Cavalo belo e monstruoso. Belo. E monstruoso. Voa comigo esta noite. Estrela cadente antes de apagar. Estrela efervescente à beira da estrada. A tropeçar em todos os pedaços de vida salvos ao acaso. Para o caso de um dia voltares. Voa comigo esta noite. Antes do próximo Inverno. Antes da próxima derrapagem. Antes que te esqueças de nós. Bom gigante, cavaleiro andante. Abre a mão. Deixa cair o sal. A vida não pode ficar mais estranha do que já é. Ou pode? Voa comigo esta noite. Flutua no espaço. Salta as faixas do tempo. Não importa para onde. Voa comigo esta noite. Antes que acorde do sono errante e peça desculpa. Voa comigo esta noite. Mas eu não quero voar esta noite. Contigo.

terça-feira, novembro 20, 2007

Evening


Éramos sete pessoas à meia-noite. Uma desistiu logo no genérico. Sobraram três casais. Um, meia idade, fila da frente, cabeças encostadas em pirâmide; outro, idade mental das pipocas, escolheu sentar-se ao nosso lado quando havia pelo menos 300 lugares livres na sala; e nós: eu e um crítico. A companhia colocava-me imediatamente em clara desvantagem. Ao lado de um crítico até é possível rir sem motivo aparente, mas é estritamente proibido chorar. E eu passei três quartos da sessão a chorar. Copiosamente.

Como sempre, escapam-me as elaboradas considerações sobre interpretação, fotografia ou consistência do argumento. Não sei se "Evening" - do mesmo autor de "As Horas", o escritor norte-americano Michael Cunningham - é bom ou mau; mas sei que não consegui não deixar-me levar na torrente da memória de Ann Grant: no leito alvo da morte interpretada pela divinal Vanessa Redgrave; corpo cobiçado de Claire Danes na juventude.

Evening é uma viagem, quase de redenção, pelo que Ann desejou e não cumpriu: o reconhecimento como cantora, a relação com as duas filhas, a morte do amigo que não evitou e, claro, o amor que se quer para sempre. Mas que só é para sempre quando a imagem que dele se guarda não envelhece. E que só não envelhece se não se ficar com ele, com o amor. "O primeiro erro é como o primeiro beijo: nunca se esquece". Onde é que ela errou? Errou?

The good & the bad guy

Sometimes when I tell the story of you
I make you out to be the bad guy
& though it's true
Sometimes you're the bad guy
You're still mine

Sometimes when I paint the picture
It's easier just to remember
The awful things you said
& what you chose to do with legitimate need
You made like a fool but you're still mine

And I want you
I want you
I do

Why does it hurt more to recall
Your good side
I always went to you for advice
You were a wise one then
When I think about you in that time
It's harder to hate you then

But sometimes I want to hate you as the bad guy
But I want you the good & the bad guy
[The brightest diamond]

segunda-feira, novembro 19, 2007

Vasco Pulido Valente vs Maria Filomena Mónica vs Miguel Sousa Tavares vs Constança Cunha e Sá vs Clara Ferreira Alves

Todos se têm em demasiada boa conta. Estrela douradas num Portugal que obviamente não os merece. Nenhum deles quer a vida nos jornais. Nenhum deles quer o ego na rua à mercê do juízo de um qualquer. Qualquer um deles acha que está acima dos outros e, mais ainda, acima de todos nós. E, no entanto, nenhum resiste a colocar a vida nas páginas a que tem acesso. E a torturar-nos com isso, como se isso realmente nos interessasse. A nós, o país que obviamente não está à altura deles.
O circuito é delicioso. Ei-lo:
Vasco Pulido Valente (VPV) foi casado com Maria Filomena Mónica, Mena Mónica para ele (MM). Depois trocou-a por Constança Cunha e Sá (CCS) com quem está agora "bem casado". Está bem de ver, elas, as mulheres, MM e CCS odeiam-se. E já o escreveram nos jornais.
VPV, a convite de Miguel Esteves Cardoso, escreveu um livro de memórias nos anos 90 ["Retratos e auto-retratos"] . Quando MM decidiu, ela própria, escrever o seu BI [Autobiografia, 2005], ele, homem do seu passado, não achou mal. Até ler a coisa. Não gostou nada de se ver ali retratado e lá se foi uma amizade de 35 anos! Ela contou isto em várias entrevistas. Ele, este sábado, no Expresso, também. Foi-se a amizade, mas não os interesses comuns. Ela publicou um livro sobre a vida de Eça de Queirós [2001]. Ele prepara-se agora, também, para escrever a biografia do autor de "Os Maias". Além disso, ambos, juntamente com o actual marido de MM, António Barreto, partilham um gabinete de investigação na Universidade Nova de Lisboa.
VPV e Miguel Sousa Tavares (MST) não se podem ver, só eles saberão porquê. VPV escreveu que o best-seller "Equador" [2003] era literatura de aeroporto na sua crónica dominical do Público. MST escreveu na sua crónica do Expresso (e também numa entrevista) que VPV só conhecia Oxford e o Gambrinus. Apesar de lavarem roupa suja nos jornais, VPV ficou surpreendido quando MST não o cumprimentou num restaurante (o Gambrinus?!) e apesar de catalogar a escrita de MST como descartável e egocêntrica, garante que já leu o recém publicado "Rio das Flores". Não quer ainda opinar sobre o livro, mas assegura que brevemente iremos perceber porquê.
MST e Clara Ferreira Alves (CFA) são, diz VPV, as únicas pessoas que algum dia ficaram zangadas com ele. Com as suas opiniões demolidoras. MST há-de vingar-se um destes dias; CFA, ofendida por VPV ter insinuado, entre outros mimos, no defunto blogue "Espectro", que ela não seria licenciada, moveu-lhe um processo judicial.
Não é fácil perceber o que os distingue da menoridade do país. Mas a novela há-de continuar e, talvez, um dia, consigamos perceber...
P.S.: Gosto muito do Miguel Sousa Tavares: do personagem, dos livros todos, das crónicas. E das crónicas da Clara Ferreira Alves. Li o BI da Mena Mónica e também não desgostei. Nem da vida dela, nem da do Eça contada por ela. E acho piada ao Vasco Pulido Valente. Talvez seja o que tem maior obra publicada, mas aquele que conheço menos.

domingo, novembro 18, 2007

After party


Sabes uma coisa? És uma menina! E nunca te vi tão feliz! O recado chega-me de viva voz. Por mensagem de telemóvel. Por mail. Por telefone. Com flores. Quase com surpresa. Sou uma menina e não me lembrava de estar tão feliz. As amizades não se recuperam porque nunca se perdem. Recuperam-se as distâncias que às vezes a vida nos impõe. E quando numa noite se encurtam as geografias todas e se percebe que nada falha, ninguém falta, ninguém se perdeu no caminho e ainda houve no coração lugar para sorrisos recentes, é porque afinal valeu (valemos) mesmo a pena. Desde o primeiro dia. É motivo suficiente para falar alto.

sábado, novembro 17, 2007

José Luís Peixoto

“Um dia, quando a ternura for a única regra da manhã, acordarei entre os teus braços, a tua pele será talvez demasiado bela, e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor. Um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada de um velho, estarei contigo e cantarão os pássaros no parapeito da nossa janela. haverá flores, mas nada disso será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi nem uma palavra, para não estragar a perfeição da felicidade”.

sexta-feira, novembro 16, 2007

Lula Pena


“Lula Pena ouve sons e quer expressá-los através do seu corpo, tendo como instrumento uma voz; como som do rio a tremer, da terra a respirar, do céu a crescer. Uma voz, um apelo da memória de alguém que ouve com os sentidos todos e quer revelar, naturalmente, as conversas secretas com o seu próprio coração; esse músculo vermelho e esponjoso, que sobrevive de irrigações constantes e vive de ritmos ora mais lentos ora mais rápidos.
Ela sente a idade da terra e o peso de tão grande dimensão, quer cantar as suas memórias mais antigas, quer cantar as raízes do mundo com a fatalidade de quem sabe que a vida é curta para tão longa viagem. Dar a voz ao canto da fatalidade. Da lonjura. Do destino. Da tragédia. In www.attambur.com
Concerto de Lula Pena
Passos Manuel, Porto
23 horas
10 euros

quarta-feira, novembro 14, 2007

Sete anos depois...

Lembro-me do primeiro dia que fui lá. Atrasada. Fim de tarde escura e chuvosa numa cidade tão próxima, que me era, apesar de tudo, tão estranha. Levava o ego infinitamente menos cheio do que julgou depois a maioria. E umas calças de ganga rasgadas, ingenuamente convencida de que isso bastaria para me proteger dos estereotipos do mundo. Esperei quase meia hora numa sala de óleos apagados. Depois, lá apareceu alguém, folhas brancas na mão e ar de quem luta contra o tempo. Ideias, muitas; projectos, mais; futuro. Conversa boa. Quase bajuladora. Lembro-me perfeitamente de ter pensado nela assim, nesses termos. E de ter pensado que não entendia por que razão me tinham chamado, se eu era apenas mais uma (longe de ser das melhores), como tantos outros, a enviar currículos no fim do curso. Não era suposto sofrer pelo menos uns meses no desemprego? Equacionar alternativas ou gastar o dinheiro que não tinha numa viagem qualquer? Matriculei-me num segundo curso ainda antes de começar a procurar emprego. Fá-lo-ia de qualquer maneira.
Eu queria mudar o mundo. Cresci a ouvir as pessoas dizerem-me que eu ia mesmo mudar o mundo. Mas não poderiam estar a contratar-me por isso. A menos que também quisessem mudar o mundo. Quereriam? Nas grandes empresas não deve raciocinar-se nesses termos, reconsiderei. Por isso, à saída da minha primeira entrevista de emprego, determinada a recusar a proposta caso a minha hipótese se confirmasse, perguntei se alguém tinha metido uma cunha por mim. “Se me conhecesse, não teria feito a pergunta”, responderam-me. Seja.

Lá estava eu, 23 anos acabadíssimos de fazer. Os sonhos todos no peito. E à minha frente uma equipa inteira, com a qual nunca tinha sonhado, à espera que me espatifasse na primeira curva sem que eu percebesse muito bem porquê. Ainda nem sabia o nome deles. Saberiam eles o meu? E como poderia haver logo tantos rótulos e tão má vontade para com alguém que ainda mal tinha chegado? (Deviam ensinar-nos na escola que a timidez é facilmente confundida com arrogância e a arrogância não é bom cartão de visita para ninguém.)
Houve um senhor que se apresentou logo no primeiro dia, não exactamente pelo nome: “Aqui, menina, as pessoas não se sentam em cima das secretárias!” Ops! Levantei-me, vermelhíssima, engasgada com os insultos que, isso sabia, não podia disparar. Lembro-me perfeitamente de um trio masculino, sentado ao lado da janela. Absolutamente sinistra a forma como se impunha pela pose, pelos fatos, pela altivez do olhar, pelo cheiro das cigarrilhas. Sempre tive dificuldade em respeitar hierarquias só porque sim. E percebi que ali o desafio seria esse: aprender a respeitar sem questionar. Seria capaz? Havia ali uma espécie de código de comportamento que me atirava completamente para fora do que até então tinha aprendido a reconhecer como certo. Era demasiado nova para entender. Demasiado nova para quase tudo. Por muito que achasse que não. Era sobretudo demasiado nova para saber jogar. Uma "inábil social" haveria de dizer alguém. E também há preço para isso. Sobretudo quando nunca se aprende.

Aceitei o horário da manhã, consciente de que nunca o haveria de cumprir, porque era aquele em que via menos gente. Não devem ver-se pessoas que não estão dispostas a aceitar os outros. De cada vez que chegava, com uma hora de atraso, lá tinha o recado de sempre: “Quando chegar, ligue-me. Tem isto e isto e isto para fazer”. E depois, os discursos oscilavam entre uma hospitalidade que me soava estranha ("Eu mostro-te como é...; "Eu digo-te como se faz.."; "Ah, filha, se eu tivesse a tua idade!..."), algumas abordagens de comparação académica ("No meu tempo era assim..."; "Agora é assado...") e as clássicas tentativas de sedução sexista. Rezava sempre para que não me convidassem para almoçar. Às vezes, convidavam. Nesses dias só me apetecia fugir! Culpa dos outros? Mais minha, seguramente.

Saía às seis da tarde a jurar que não voltaria no dia seguinte. Recebia telefonemas repetidos. Amigos me queriam brindar-me com uma palavra de consolo. Que nunca consolava... Sentia que me tinha enganado (mas assim, tão depressa? Seria possível?): que me tinha achado melhor do que realmente era. E que era aquele local onde, por mil e um motivos, nunca pensei trabalhar, que mo estava a demonstrar. Não era só o despenhamento do ego. Era também o despenhamento de um futuro que, pela primeira vez, não estava a conseguir controlar. No meu imaginário, aquilo deveria ser uma fábrica de operários transformadores de mundos. E nunca de alpinistas profissionais. Se era isso, como poderia ser feliz ali?

E, no entanto, quando pouco depois surgiu o convite para Lisboa, não tive coragem de ir. Ainda hoje não sei bem porquê. Era o ano da Capital Europeia da Cultura e não queria sair da cidade nesse ano. Deslumbrada por conhecer o Seamus Heaney, o Lobo Antunes (mesmo que ele não tenha achado o mesmo), o Sepúlveda; febril e infantilmente entusiasmada com tudo o que estava a acontecer, achava mesmo que naquele ano não poderia sair. Era um ano fundamental para compensar a minha gritante falta de bagagem cultural e de quase tudo. Havia demasiados nomes (do teatro, da dança, das artes plásticas...) que só conhecia dos livros e dos jornais a fazer escala ali, como poderia não querer ficar? Ainda por cima, diziam que era o início de um novo ciclo. E eu não sabia que não podia acreditar. Como não sabia que não era possível mudar o mundo.
O tempo é como uma picada de abelha. Vem tão depressa que nunca ninguém consegue fugir. Quando se dá conta, já o ferrão está cravado no corpo. Terá valido a pena ter ficado? Terá valido a pena ter ficado quando percebo que, afinal, as impressões que colhi aos 23 anos não são muito diferentes das que tenho agora? Traduzem-se nesta frase (do blogue da Vera): "O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons."

segunda-feira, novembro 12, 2007

To be with you in Paris if only it would never end

Talvez não haja nada mais parolo do que cumprir o trajecto de um filme.
Mas há poucas coisas mais românticas do que aquelas que são parolas.

Paris. Before sunset.

sábado, novembro 10, 2007

10 mentiras sobre a durabilidade do Amor

1. A famigerada crise dos sete anos. A maior e talvez a mais estúpida das mentiras. O amor não é uma bomba-relógio, nem um despertador com alarme sonoro que ao bater do 84º mês avisa: "Trrrim... Trrrim... Você acaba de ser abatido por um chorrilho de dúvidas e impaciências. A partir daqui só pode piorar. Abrevie caminho e separe-se já."
2. Impossibilidade de resistir quando ambos vivem e trabalham juntos. Quem disse que não é possível viver e trabalhar e cumprir o infinito resto do quotidiano todos os dias e ainda assim sentir que se houvesse mais um minuto seria para os dois, mentiu.
3. A amizade sobrepõe-se à paixão. Há amizade sem paixão, mas não há paixão sem amizade. A frase é um cliché; o amor que só sobrevive quando integra a paixão e a amizade, não.

4. A perda de efervescência do sexo. O sexo é como o amor: só não há amor como o primeiro para quem não tem paciência para esperar pelos seguintes.
5. Impossível repetir o alvo da paixão. Deve ser uma dádiva não estar apaixonado por uma pessoa, mas apaixonarmo-nos por ela de todas as rigorosas vezes que a olhamos. Sim, é uma dádiva. Talvez rara, mas possível.
6. A (in)superabilidade de uma traição sem sequelas. Não há traição sem vontade de morrer a seguir. Mas quando não se morre, recupera-se. Mesmo quando não se acredita que a ferida sare, acorda-se um dia de manhã e não há sequer uma cicatriz para testemunhar o episódio.
7. Só há traição quando já não há amor. Outra mentira pegada. A traição tem mais a ver com a tentação (quem nunca teve uma tentação que ponha o dedo no ar!) que representa o terceiro elemento do que com a falta de virtude do primeiro ou o vazio do que faz a ponte entre os dois.
9. Férias, jantares, fins-de-semana, noitadas: só em grupo. Há quem só abra uma excepção de vez em quando para deixar entrar alguém. E nunca é tão bom como quando as mãos são só quatro.
10. Dias contados para quem ainda não pensou casar e ter filhos. Mentira que resume a mentira da sociedade. Demasiado preocupada em viver de acordo com o Livro de Estilo comum esquece-se de ser realmente feliz. À sua maneira.

domingo, novembro 04, 2007

As insondáveis preocupações do PS-Porto

A cidade esboroa-se lentamente embrulhada numa estratégia política segundo a qual não haverá cultura enquanto houver pobres. Há cada vez mais pobres e cada vez menos cultura, sobretudo cívica. O Porto é um barco fantasma à deriva, onde os cidadãos parecem não poder, ou não conseguir ambicionar a mais do que sobreviver discretamente numa espécie de corredor da morte. Condenados, mesmo que sobrevivam, a nunca ser mais do que aquilo são: jogadores num campeonato da segunda divisão, que nunca ninguém há-de lembrar-se de convidar a subir de escalão.
Entretanto, como pobres criaturas desafortunadas, alegram-se com acrobacias de aviões, com árvores de natal patrocinadas pelo Millenium BCP, com musicais importados da capital, com corridas de automóveis com transmissão em directo na Sport TV, com concertos avulso e exposições de congelador. Tudo, desde que lhes prometam recordes internacionais. E invadem as ruas, não com a naturalidade de uma cidade que fervilha o apregoado (ainda que nunca provado) espírito cosmopolita, mas como quem se socorre de pretextos para existir: seja o encerramento de uma rua ou qualquer outro fugaz evento de hora e lugar marcado. Vivem a cidade como o mundo vive a noite de passagem-de-ano: momento em que, vá lá saber-se porquê, toda a gente tem necessidade de mostrar que é imensamente feliz. Sabendo que, no dia a seguir, acordarão como na noite anterior: sem nada.
A proposta apresentada pelo governo de José Sócrates para o PIDDAC de 2008 vaticina uma redução de cerca de 20% de investimento para o Porto. Os bairros sociais, prioridade de Rui Rio, estão como sempre estiveram: mal. Ou talvez pior. Os teatros estão vazios, a cultura é a que se adquire num pacote de pipocas. O desemprego aumenta, a falta de perspectivas também. Os portuenses ganham, em média, quase menos de metade do que as pessoas que vivem em Lisboa. E quando a cidade é notícia nacional, nunca o é pelos melhores motivos. Rui Rio será mau. E a Oposição?
A Oposição, esse núcleo intermitente de vereadores socialistas que nem a vitória no processo Rivoli souberam cobrar e potenciar, aparecem agora, indignados, ferozes, a contestar o quê? O facto de Rui Rio ter oferecido um camião do lixo a Moçambique e Moçambique ter recusado. Diz o PS que é "preciso manter a dignidade da Câmara".
Quase dá vontade de votar em Rui Rio!