terça-feira, outubro 30, 2007
Saliva
Abre os olhos vem comigo, diz:
Parar
Vamos gastar muita saliva
Mergulhar e ver-te flutuar
Eu quero ver-te a afundar
Para depois te salvar
Eu quero lutar contigo devagar
Dá-me os braços vem comigo
Expirar
Vamos selar com a nossa saliva
Pensar que fosses tu também
Amiga
E vou usar a tua saliva
Poupá-la da má lingua da intriga
Eu quero ver-te a afundar
E vou tentar-te salvar
Vamos gastar muita saliva
Lamber as feridas e limpar o mundo
Quero levar-te a vida
Mergulhar e ver-te ir ao fundo
Vamos gastar muita saliva
Orgulhar-me de ser teu fiel defunto
Quero usar saliva
Selar a carta e mudar de assunto
Ficar a ver-te fumar
Para depois te apagar
RUI REININHO (grande, grande Reininho!)
segunda-feira, outubro 29, 2007
Quantas promessas de Cristina Kirchner poderão cumprir-se?

sábado, outubro 27, 2007
Rodrigo Guedes de Carvalho: Canário
Nunca ninguém tem coragem de matar alguém até matar alguém pela primeira vez. Nunca ninguém julga ter a motivação suficiente para ceifar uma vida até aparecer o primeiro “bacano” disposto a sugar tudo o que, bem ou mal, se construiu. “Já viste como o medo nos dá para querermos magoar? E a tentação de foder um cogumelo destes”. Geraldo está preso por homicídio e fala assim. Directamente para o leitor. ”Tu gostas de mensagens, ó leitor, aposto”. Mas ele, que atirou pela janela o amante da mãe que não parava de a espancar, não tem mensagens para dar. Só a vaga sensação de liberdade que pode sentir quem, estando preso, será mais livre do que todos os outros, porque tem já muito pouco a perder.“Canário”, título do mais recente romance de Rodrigo Guedes de Carvalho (RGC), é uma armadilha. Não há pássaros, nem asas, nem quase nada que não seja a falta de ar experimentada na escotilha em que vivem todos os que, um dia, recebem um aviso a dizer: a vida não é um conto de fadas. Aquele que é, talvez, o melhor livro do autor, é também o mais mordaz. Sobre os demónios que nos habitam e visitam. E sobre o que eternamente se desconhece das pessoas, por muito próximas que nos sejam. “Há uma cave dentro de nós. Nunca, mas nunca mesmo, saberemos tudo acerca do outro”. É sobre a desilusão. E os estilhaços da dor.
Como em quase todas as obras de RGC é preciso algum tempo para perceber onde quer levar-nos. Aqui, a história é contada numa plataforma tripartida. Geraldo representa só um lado do triângulo. É o rapaz que um padre há-de querer salvar, porque “quer continuar a acreditar que a maldade não está em nós, que é um corvo do escuro que às vezes nos fala ao ouvido”. O padre está tão preso como o presidiário: recluso da necessidade de salvar alguém. Acompanha, na doença e na morte, a mãe de Geraldo, prostituta que ambicionava ser enfermeira, e apresenta-o ao pai, escritor célebre, de casamento sólido, que um dia caiu na cama dela, engravidando-a sem querer. Sem saber.
Alexandre, escritor “que não gosta que lhe falem da palavra competição na literatura”, mas vive – tão preso como o filho, tão preso como o padre – no pânico de esvaziar-se e ser ultrapassado pelas novas gerações de escritores, é o segundo vértice do triângulo. E talvez aquele em que RGC mais se denuncia. Por muito injusto que possa ser querer procurar as angústias de um escritor na vida de um personagem. “Numa altura em que se usava uma prosa de mera observância, Alexandre acenava-nos de dentro das personagens e dos lugares. Um vírus hospedeiro, lancinante de acutilância”. Casado com Maria Antónia, nunca viveu para ela, mas com ela ao lado. Aliás, nunca viveu – mesmo no encontro com o filho que desconhecia - senão aquilo que poderia ser reproduzido em livro. E ela, a mulher que abdicou de ser o que era – e que já nem se lembra o que é – por causa dele, ela – tão presa como o filho do marido, tão presa como o padre, tão presa como o homem que amou – percebe que nunca viveu realmente.
Nem ela, nem a filha de ambos, Camila, o último ângulo do polígono. Veterinária, “bomba-relógio que não rebenta, vai rebentando”, tão apaixonada como a mãe pelo marido, tão presa como todos os outros, vê o casamento desmoronar-se quando o homem que lhe deu um filho não aceita que o filho seja, também ele, um presidiário – recluso no seu autismo.
“Canário” é sobre coisas “que acontecem e não matam, e também não tornam ninguém mais forte”. É sobre o que sobra quando as máscaras caem.
sexta-feira, outubro 26, 2007
Gabriel Garcia Marquez: Memórias das minhas putas tristes

Para o derradeiro consolo, deseja algo novo: uma criatura virgem. Mas o destino troca-lhe as voltas, e o homem que “sempre tinha pensado que morrer de amor não passava de uma liberdade poética”, sente, pela primeira vez, “o prazer inverosímil de contemplar o corpo de uma mulher adormecida sem as pressas do desejo”. E a vontade maior de que a vida pudesse ainda reservar-lhe outros 90 anos para sorver aquela sensação.
Gabriel Garcia Marquez está todo dentro das 114 páginas de “Memória das minhas putas tristes”. Regressou ao romance em 2005, que não publicava há dez anos, desde “Notícias de um sequestro”, e regressou, de certa forma, à autobiografia, iniciada com o primeiro de três volumes de “Viver para contá-la”. Apaixonado, sábio como sempre, nostálgico, melancólico e metafórico, o escritor columbano, Nobel da Literatura em 1992, faz um ajuste de contas público com os anos que já não voltam. A palavra “memória” é mais importante do que tudo o resto, e sobretudo mais importante do que o resto do título sugestivo, porque é dela que agora se ocupa quase em regime de exclusividade. Na ficção e na vida real.
Para cumprir o seu desejo em dia de aniversário, o velho jornalista procura Rosa Cabarcas, dona do bordel do qual foi cliente assíduo desde a adolescência, solicitando-lhe o selo de castidade de uma das suas raparigas. Delgadina será a eleita. E a responsável pela descoberta de tudo o que já não julgava provável na curva descendente da existência. “Foi algo novo para mim. Ignorava as manhas da sedução e tinha sempre escolhido ao acaso as namoradas de uma noite, mais pelo preço do que pelos encantos, e fazíamos amor sem amor, semivestidos a maior parte das vezes e sempre às escuras para nos imaginarmos melhores”. A menina que nunca resiste ao sono quando o homem chega, e o obriga a esperar noite após noite por um sinal de vigília, inicia-o na única experiência que desconhecia em absoluto: o ardor do ciúme e o desespero da nostalgia polvilhado pelo olhar incessante para o telefone como se fosse um jogo em que os pontos chegam sob forma de um toque.
O amor, mesmo que doa, ou o sexo sem obrigações? “Não teria trocado por nada do mundo as delícias do meu pesar. Tinha perdido mais de 15 anos a tentar traduzir os cantos de Leopardi, e só naquela tarde os senti a fundo: “Ai de mim, se é amor, quanto atormenta”.
quinta-feira, outubro 25, 2007
Pilhagem by blogue "Lê-me nos lábios"
terça-feira, outubro 23, 2007
À noite
sexta-feira, outubro 19, 2007
Boneca, Ibsen
Guimarães: 18 a 21 de Outubro 2007
Lisboa: 15 e 16 de Novembro 2007
Braga: 11 2 12 de Janeiro 2008
Porto: 7 a 16 de Fevereiro 2008
quinta-feira, outubro 18, 2007
Les chansons d'amour

sexta-feira, outubro 12, 2007
XXX Congresso do PSD IV
XXX Congresso do PSD III
XXX Congresso do PSD II
XXX Congresso do PSD I
terça-feira, outubro 09, 2007
Ritual de acasalamento das ostras
sábado, setembro 29, 2007
quinta-feira, setembro 27, 2007
Gota de orvalho
Santana Lopes 1 - SIC 0
quarta-feira, setembro 26, 2007
Cometa Halley
Eu não sabia que queria que fosse para sempre. Quando tu chegaste de mansinho, como o gato, eu não sabia. Não sabia quando passeava contigo com a minha mão fria dentro do teu casaco quente que queria que fosse para sempre assim. Passeios de chá de hortelã. Quando via contigo pela primeira vez as coisas que já tinha visto mil vezes e me falavas de tudo o que ainda havia para vermos juntos. O que eu nunca tinha visto sequer uma vez. Não sabia que ia desejar para sempre encontrar-te de vez em quando, qual cometa Halley, e que a vida só ia contar quando essas vezes raras aconteciam. Não sabia que ia desejar-te. E desejar as nossas discussões empolgadas de felinos vadios. Quando as despedidas escorregavam como o pé de criança num baloiço para as promessas. Não sabia que precisaria de as ver cumpridas. E que me castigarias com aquele abraço de lã. Não sabia que queria que fosse para sempre a tua voz. E a voz das vozes dos teus álbuns ouvidas devagarinho. Não sabia que era a sério o que te dizia a brincar. E que a brincar te perderia no caminho. Não sabia que continuaria contigo quando, de mansinho, te esboroasses. E que te seguiria até ao fim do mundo se, como o gato, tivesse sete vidas. Não sabia. E se soubesse, quererias saber?
segunda-feira, setembro 24, 2007
Houellebecq na 9ª Bienal de Lyon




