terça-feira, outubro 30, 2007

Saliva

Eu quero casar contigo amanhã
Abre os olhos vem comigo, diz:
Parar
Vamos gastar muita saliva
Mergulhar e ver-te flutuar
Eu quero ver-te a afundar
Para depois te salvar
Eu quero lutar contigo devagar
Dá-me os braços vem comigo
Expirar
Vamos selar com a nossa saliva
Pensar que fosses tu também
Amiga
E vou usar a tua saliva
Poupá-la da má lingua da intriga
Eu quero ver-te a afundar
E vou tentar-te salvar
Vamos gastar muita saliva
Lamber as feridas e limpar o mundo
Quero levar-te a vida
Mergulhar e ver-te ir ao fundo
Vamos gastar muita saliva
Orgulhar-me de ser teu fiel defunto
Quero usar saliva
Selar a carta e mudar de assunto
Ficar a ver-te fumar
Para depois te apagar
RUI REININHO (grande, grande Reininho!)

segunda-feira, outubro 29, 2007

Quantas promessas de Cristina Kirchner poderão cumprir-se?



Promete manter o crescimento económico do país e o equilíbrio da aliança estratégica com a Venezuela de Hugo Chávez e o Brasil de Lula da Silva. Promete melhorar a relação com os Estados Unidos de George Bush e combater a inflação, a pobreza, o desemprego e todas as “tragédias” que daí advieram para os argentinos, sobretudo entre 2001 e 2002, resultado de um governo industrialista. Promete, no fundo, ser melhor e mais ambiciosa do que o marido, Néstor Kirchner, a quem agora sucede.

Cristina Fernandéz Kirchner, senadora peronista social-democrata, advogada, 54 anos, anteontem eleita primeira mulher presidente da Argentina, deverá assumir o poder a 10 de Dezembro. Ganhou, nas urnas, com larga margem de distância (46,3%) em relação à liberal-cristã Elisa Carrió, beneficiando sobretudo da inversão da crise, protagonizada pelo marido. Mas conseguirá cumprir o prometido? Conseguirá, sequer, apesar da vitória à primeira volta, convencer os argentinos de que é capaz de o fazer?

Numa incursão pelos locais de voto, os jornalistas da agência France Press afirmaram ter presenciado “um clima de apatia e desinteresse político”, o que poderá denotar que os argentinos não esperam dela senão “mais do mesmo”, uma espécie de continuidade, no feminino, do mandato de Kirchner. Por outro lado, o futuro governo deverá enfrentar uma inflação real elevada – entre 15% a 20%. E embora o Brasil se tenha apressado a garantir que tenciona aumentar o fluxo de investimentos no país vizinho, a verdade é que a Argentina deverá ser obrigada a conviver com uma queda dos investimentos.
Haverá ainda a difícil batalha com os sindicatos pela obtenção de aumentos salariais. Ela pediu “um pacto social” entre empresários, governo e sindicatos; os sindicatos responderam reclamando um aumento de 30%. Depois, há todos os outros dossiês, como o da insegurança ou da violência, por exemplo, que Cristina Kirchner – cuja campanha esteve quase toda concentrada nas relações internacionais –, consciente ou inconscientemente, nunca abordou em período eleitoral. Nunca foi clara, também, em relação a medidas concretas ou à definição de uma estratégia futura para o país. Limitou-se sempre só a assegurar a continuidade.
Eleita várias vezes deputada e senadora, Cristina Kirchner possui uma carreira política mais longa do que a do marido. E mais impetuosa. Desta vez, a candidata da Frente para a Vitória deixou para trás 13 adversários.

No entanto, a mulher que agora é levada ao colo pela imprensa mundial, que lhe compara a ambição e importância às de Hillary Clinton e a baptizou já de “a nova Evita” – senão pelas ideias, sobre as quais há quem tenha dúvidas, pelo menos, pela indumentária europeia e aparatosa –, poderá não passar de um fogo fátuo.

sábado, outubro 27, 2007

Rodrigo Guedes de Carvalho: Canário

Nunca ninguém tem coragem de matar alguém até matar alguém pela primeira vez. Nunca ninguém julga ter a motivação suficiente para ceifar uma vida até aparecer o primeiro “bacano” disposto a sugar tudo o que, bem ou mal, se construiu. “Já viste como o medo nos dá para querermos magoar? E a tentação de foder um cogumelo destes”. Geraldo está preso por homicídio e fala assim. Directamente para o leitor. ”Tu gostas de mensagens, ó leitor, aposto”. Mas ele, que atirou pela janela o amante da mãe que não parava de a espancar, não tem mensagens para dar. Só a vaga sensação de liberdade que pode sentir quem, estando preso, será mais livre do que todos os outros, porque tem já muito pouco a perder.

“Canário”, título do mais recente romance de Rodrigo Guedes de Carvalho (RGC), é uma armadilha. Não há pássaros, nem asas, nem quase nada que não seja a falta de ar experimentada na escotilha em que vivem todos os que, um dia, recebem um aviso a dizer: a vida não é um conto de fadas. Aquele que é, talvez, o melhor livro do autor, é também o mais mordaz. Sobre os demónios que nos habitam e visitam. E sobre o que eternamente se desconhece das pessoas, por muito próximas que nos sejam. “Há uma cave dentro de nós. Nunca, mas nunca mesmo, saberemos tudo acerca do outro”. É sobre a desilusão. E os estilhaços da dor.

Como em quase todas as obras de RGC é preciso algum tempo para perceber onde quer levar-nos. Aqui, a história é contada numa plataforma tripartida. Geraldo representa só um lado do triângulo. É o rapaz que um padre há-de querer salvar, porque “quer continuar a acreditar que a maldade não está em nós, que é um corvo do escuro que às vezes nos fala ao ouvido”. O padre está tão preso como o presidiário: recluso da necessidade de salvar alguém. Acompanha, na doença e na morte, a mãe de Geraldo, prostituta que ambicionava ser enfermeira, e apresenta-o ao pai, escritor célebre, de casamento sólido, que um dia caiu na cama dela, engravidando-a sem querer. Sem saber.

Alexandre, escritor “que não gosta que lhe falem da palavra competição na literatura”, mas vive – tão preso como o filho, tão preso como o padre – no pânico de esvaziar-se e ser ultrapassado pelas novas gerações de escritores, é o segundo vértice do triângulo. E talvez aquele em que RGC mais se denuncia. Por muito injusto que possa ser querer procurar as angústias de um escritor na vida de um personagem. “Numa altura em que se usava uma prosa de mera observância, Alexandre acenava-nos de dentro das personagens e dos lugares. Um vírus hospedeiro, lancinante de acutilância”. Casado com Maria Antónia, nunca viveu para ela, mas com ela ao lado. Aliás, nunca viveu – mesmo no encontro com o filho que desconhecia - senão aquilo que poderia ser reproduzido em livro. E ela, a mulher que abdicou de ser o que era – e que já nem se lembra o que é – por causa dele, ela – tão presa como o filho do marido, tão presa como o padre, tão presa como o homem que amou – percebe que nunca viveu realmente.

Nem ela, nem a filha de ambos, Camila, o último ângulo do polígono. Veterinária, “bomba-relógio que não rebenta, vai rebentando”, tão apaixonada como a mãe pelo marido, tão presa como todos os outros, vê o casamento desmoronar-se quando o homem que lhe deu um filho não aceita que o filho seja, também ele, um presidiário – recluso no seu autismo.

“Canário” é sobre coisas “que acontecem e não matam, e também não tornam ninguém mais forte”. É sobre o que sobra quando as máscaras caem.

sexta-feira, outubro 26, 2007

Gabriel Garcia Marquez: Memórias das minhas putas tristes


A única memória inequívoca no primeiro dia dos seus 90 anos confrontado no tribunal da sua consciência: nunca se havia apaixonado. O velho jornalista, limitado agora a uma crónica dominical no jornal de uma vida, nunca havia sentido no peito a opressão que provoca o amor. Tivera muitas mulheres, demasiadas, mas nunca nenhuma a quem não tivesse pago. “O sexo é o consolo de uma pessoa quando lhe falta o amor”.

Para o derradeiro consolo, deseja algo novo: uma criatura virgem. Mas o destino troca-lhe as voltas, e o homem que “sempre tinha pensado que morrer de amor não passava de uma liberdade poética”, sente, pela primeira vez, “o prazer inverosímil de contemplar o corpo de uma mulher adormecida sem as pressas do desejo”. E a vontade maior de que a vida pudesse ainda reservar-lhe outros 90 anos para sorver aquela sensação.

Gabriel Garcia Marquez está todo dentro das 114 páginas de “Memória das minhas putas tristes”. Regressou ao romance em 2005, que não publicava há dez anos, desde “Notícias de um sequestro”, e regressou, de certa forma, à autobiografia, iniciada com o primeiro de três volumes de “Viver para contá-la”. Apaixonado, sábio como sempre, nostálgico, melancólico e metafórico, o escritor columbano, Nobel da Literatura em 1992, faz um ajuste de contas público com os anos que já não voltam. A palavra “memória” é mais importante do que tudo o resto, e sobretudo mais importante do que o resto do título sugestivo, porque é dela que agora se ocupa quase em regime de exclusividade. Na ficção e na vida real.

Para cumprir o seu desejo em dia de aniversário, o velho jornalista procura Rosa Cabarcas, dona do bordel do qual foi cliente assíduo desde a adolescência, solicitando-lhe o selo de castidade de uma das suas raparigas. Delgadina será a eleita. E a responsável pela descoberta de tudo o que já não julgava provável na curva descendente da existência. “Foi algo novo para mim. Ignorava as manhas da sedução e tinha sempre escolhido ao acaso as namoradas de uma noite, mais pelo preço do que pelos encantos, e fazíamos amor sem amor, semivestidos a maior parte das vezes e sempre às escuras para nos imaginarmos melhores”. A menina que nunca resiste ao sono quando o homem chega, e o obriga a esperar noite após noite por um sinal de vigília, inicia-o na única experiência que desconhecia em absoluto: o ardor do ciúme e o desespero da nostalgia polvilhado pelo olhar incessante para o telefone como se fosse um jogo em que os pontos chegam sob forma de um toque.

O amor, mesmo que doa, ou o sexo sem obrigações? “Não teria trocado por nada do mundo as delícias do meu pesar. Tinha perdido mais de 15 anos a tentar traduzir os cantos de Leopardi, e só naquela tarde os senti a fundo: “Ai de mim, se é amor, quanto atormenta”.

quinta-feira, outubro 25, 2007

Pilhagem by blogue "Lê-me nos lábios"


Directa ao assunto: estes pés, que poderiam ser de qualquer pessoa, são, por acaso, meus. E não de uma senhora que assina Lady C. no blogue "Lê-me nos lábios" , fazendo acompanhar a imagem de um texto meu. Coloquei-os no blogue a 26 de Fevereiro, em véspera de férias. A criatura que publicou duas fotografias minhas, dizendo ser ela, é a mesma que assina vários textos retirados - alguns ipsis verbis; outros adaptados - do Coriscos.
Não sei quanto tempo permanecerá o dito blogue on-line. Descobri, por mero acaso, a pilhagem ontem à noite quando, à deriva no google, encontrei uma frase sobre a reportagem de Jordi Burch e Ana Sofia Fonseca, em Cuba, que me soou demasiado familiar. Fui confirmar: era plágio! A versão original está aqui, publicada a 29 de Julho; a cópia estava aqui. Mas já não está. Hoje, confrontada, na sua caixa de correio, pelo Ricardo e pelo próprio Jordi (por quem, aliás, também se faz passar nos comentários), a autora apressou-se a retirar o post.
Esqueceu-se, no entanto, de retirar todos os outros - dezenas - que, descaradamente, roubou. Mais descarado por, a acreditar no que sobre ela escreve, tratar-se de uma jornalista. Psicopata, mas jornalista. E esqueceu-se, também, pelo menos, por enquanto, de apagar os diálogos que ela própria depositou na sua caixa de comentários, copiados do blogue Diálogos Pueris que, por acaso, também me pertence.
Aguns exemplos gritantes: A 1 de Abril, decidi terminar o Coriscos. Escrevi este texto. Lady C. dediciu, também, acabar com o seu blogue a 20 de Julho, reproduzindo exactamente o mesmo texto. No intervalo, criei o Partículas Elementares, homenagem a um dos meus escritores de eleição, Michel Houellebeqc. A senhora deu imediatamente o título a um dos seus posts: uma foto de um umbigo, que ela diz ter sido tirada pelo Jordi. Poderia ser só uma coincidência, não fosse o caso de citar todos os autores que cito - Vergílio Ferreira, Eduardo Prado Coelho, Vinícius de Morais -, com os mesmos rigorosos excertos.
Quando retomei o blogue - ela retomou o dela a 26 de Julho; eu a 20 de Junho -, baptizei quase todas as tags com títulos de obras de arte que estão compiladas na Anamnese, manual de artistas contemporâneos com exposições entre 1993 e 2003. A criatura decidiu fazer o mesmo, com destaque para o separador "Can we live twice", de onde pilhou a maioria dos textos, e que lhe serviu de título para um post.
(este post aparece agora como "Uma segunda vida". O título foi alterado há instantes)
Alguns posts plagiados:
original publicado a 12 de Fevereiro - cópia a 1 de Maio;
original publicado a 16 de Março - cópia a 18 de Setembro;
original publicado a 28 de Maio de 2007 - cópia a 4 de Junho;
original publicado a 5 de Março de 2006 - cópia (excerto) a 17 de Maio;
original publicado a 29 de Janeiro de 2007 - cópia a 8 de Maio;
original publicado a 18 de Março - cópia a 26 de Abril;
original publicado a 19 de Novembro de 2005 - cópia a 26 de Abril;
E há muitos mais... (ou havia porque Lady C. está a fazer delete a algumas coisas...)
Não está, obviamente, em causa a qualidade dos posts. Não importa se são bons, maus ou muito maus - são meus. Está em causa a gritante falta de respeito, e de tudo, de Lady C.
[Lady C., depois da publicação deste post, apagou todos os textos e fotografias roubadas. Apagou também a fotografia que o Jordi, supostamente, lhe havia tirado.]

terça-feira, outubro 23, 2007

À noite

Os táxis passam, devagar, luz verde no néon do tejadilho, mas não param. Uma mulher assim, sozinha àquela hora da noite, sozinha em frente ao portão de uma garagem, noite escura, escura e fria, uma mulher assim ali pousada até pode ser santa, mas não é. Nunca é. Mesmo que seja, não pode ser. Mesmo que não seja santa e seja só talvez uma pessoa normal, alguém à espera de alguém ou mesmo só de um táxi. Mas não, sozinha ali, o fumo do cigarro a confundir-se com o da respiração, a sombra do corpo no chão a agigantar o perfil, não pode ser santa, não pode ser nada. Não pode ser boa coisa. Os táxis passam, abrandam, quase param acossados pela curiosidade, pela pulsão do sórdido, não param. Param os carros, os outros, os que não têm taxímetro. Silenciosos, estacionam, vários homens lá dentro. Homens ou rapazes, tanto faz. É tudo a mesma coisa. Casados, mal casados, solteiros, viúvos, divorciados. Sozinhos. Sozinhos em grupo. A maioria nem sequer sabe. Estacionam, descem o vidro da janela do carro que parecem conduzir em 15ª mão e ficam ali com aquele olhar a dizer: fico aqui o tempo que eu quiser, o tempo que me apetecer, se quiser fico aqui até amanhã de manhã e tu, pensam, tu ó minha puta, não tens nada a ver com isso. Ficam ali parados por fora, esgueirados por dentro, como quem suspende a respiração debaixo de água, a ver quanto tempo conseguem aguentar ficar ali sem ordinarizar. O verbo não existe, mas se existisse seria este o verbo a aplicar. A aplicar quando uma mulher está assim à noite sozinha esquecida na rua.

Kierkgaard

"Ousar é perder o equilíbrio momentaneamente. Não ousar é perder".

sexta-feira, outubro 19, 2007

Boneca, Ibsen


"Ninguém encena ninguém a não ser a si próprio", escreveu Nuno Cardoso a propósito de "Boneca", encenação construída a partir de "A casa das bonecas", do dramaturgo e dramático norueguês Henrik Ibsen, que estreou ontem no Centro Cultural de Vila Flor, em Guimarães. E ele não consegue, não sabe encenar-se mal. Intimista, sem as acrobacias do costume, a peça é sobre a morte da inocência. Tão violenta como todas as outras criações do encenador. (Voltarei ao assunto)

Guimarães: 18 a 21 de Outubro 2007
Lisboa: 15 e 16 de Novembro 2007
Braga: 11 2 12 de Janeiro 2008
Porto: 7 a 16 de Fevereiro 2008

quinta-feira, outubro 18, 2007

Les chansons d'amour


Não é um musical, embora seja quase todo cantado (belíssimas canções de Alex Beaupain). Não é um drama, embora doa. Não é uma comédia. Não, definitivamente, não é (quem raio cataloga os filmes?) uma comédia! Não é sobre um triângulo amoroso, embora o triângulo amoroso esteja lá. Não é sobre a morte, embora a perda não se esconda. Não é sobre o género do amor. Parecendo estar lá, não está, porque o amor não tem género. Será, quando muito, sobre a busca da felicidade. E sobre como se tropeça nessa busca e se levanta para voltar a cair. Mas nem isso basta para definir o filme de Christophe Honoré que estreia hoje em Portugal. Os críticos - nada de novo - já o mataram. Eu acho que não poderia ser mais terrivelmente belo.

sexta-feira, outubro 12, 2007

XXX Congresso do PSD IV

José Leite Pereira (director do JN) e Ricardo Jorge Pinto (jornalista do Expresso) são os comentadores convidados da RTP N para analisar o Congresso do PSD. Carlos Magno é o comentador de serviço no palco de Torres Vedras. Estão os três em directo. Escapou-me alguma coisa ou este último decidiu substituir o comentário político pela análise ao jornalismo.

XXX Congresso do PSD III

Marco António Costa, discípulo de Luís Filipe Menezes (ah, a pena que deve ter tido quando o homem anunciou que iria acumular a liderança do partido com a presidência da Câmara de Gaia!...), acaba de ser denunciado na RTP N. Ele terá afirmado em off, Daniela Santiago, a jornalista, citou-o, e ele antes de comentar, em on, o congresso, avisou-a de que não lhe voltaria a dizer mais nada. Hilariante! Eis a frase, tão ilustrativa do cenário: "A nossa função é ajudar a que o líder não se despiste".

XXX Congresso do PSD II

Menezes falou para a Esquerda e para a Direita, para dentro e para fora, para cima e para baixo. Vale tudo para cortar senão as metas todas em 2009, pelo menos uma. E para o novo líder do PSD tudo parece mostrar a vitalidade do partido: criticá-lo e solidarizar-se com ele; estar presente ou ausente, ser contra ou a favor do líder.
Se o discurso funciona e faz criar expectativa - e Manuela Ferreira Leite, apoiante de Marques Mendes, já o elogiou - ainda vamos assistir ao regresso de todas as ovelhas douradas e tresmalhadas do partido. Ah, a sede de poder...

XXX Congresso do PSD I

Enganou-se Marcelo Rebelo de Sousa e quase todos os analistas, enganaram-se militantes elitistas ou pseudo elitistas, enganaram-se os jornalistas. Enganaram-se em relação à vitória de Luís Filipe Menezes nas directas e sobretudo em relação ao surpreendentemente rápido regresso de Pedro Santana Lopes, que hoje chegou a Torres Vedras como o verdadeiro padre da paróquia.
Se um populista incomoda muita gente, dois populistas juntos...

terça-feira, outubro 09, 2007

Ritual de acasalamento das ostras

"Sinto-te a faltar por entre os dedos, sinto-te a escorrer por entre as casas, sumir pelos bueiros das ruas nas primeiras chuvas. Tem chovido muito, de facto, e tu tens-te esgueirado pelos beirais com os primeiros pingos, tenho-te confundido muito com a chuva.
Não sei se fecho a torneira ou se continuo a descrever em branco os salpicos de luz... Tenho-te perdido muito, muitas gotas de ti.
Sinto-te a escorrer pelas montras das lojas, pelas janelas das casas, pelas tocas dos bichos, pelos postes preferidos dos cães.
Sinto-te faltar quando saio à rua e vejo que as crianças continuam a deformar o nariz contra as montras, que a peixeira da esquina continua a ter má pontaria para os caloteiros. Sinto-te longe sobretudo quando o meu nariz gela.
A verdade é que estpu a sentir-te como quem pisa chamas, como quem anda sobre cinzas. Sinto a tua falta como se houvesse um corte profundo numa fímbria qualquer de um corpo por inventar.
Mas continua tudo na mesma, só as crianças parecem esborrachar ainda mais o nariz contra as montras das lojas.
Tenho de cortear as unhas, mas
continua tudo na mesma, tudo na mesma,
continuo a riscar o chão sem querer
continuo a ter dores matinais, vespertinas e nocturnas
Continuo a deixar o leite ir por fora, por puro gozo.
Comprei uma vela de framboesa,
continuo a queimar os dedos
continuo a queimar
tenho tido muito frio
tenho tido os olhos cinzentos
tenho sentido a tua distância como quem acorda
a meio da noite."
Marta Loureiro, Edições Temas, 2001

quinta-feira, setembro 27, 2007

Gota de orvalho

Acabo de trabalhar às seis da tarde em ponto. Se bem que, para ser rigorosa, não possa dizer que nos últimos dias tenha exactamente andado a trabalhar. Com a cabeça perdida em parte incerta, tenho-me limitado a cumprir as horas supostas. Nada de que possa orgulhar-me. Desafio um amigo para um Martini; está em Santo Tirso. Outro; está em Lisboa. Outro ainda; só chega à noite. Desisto da convivência. E eles não sabem que se livraram do meu humor duvidoso. Indecisa entre apanhar o metro e aterrar numa sala de cinema ou entrar num táxi que me ponha em casa, deixo-me embalar como gota de orvalho na berma da parra. Ontem disseram que estou "mais gorda". Perguntaram: "Grávida?" Não! Mas não é por isso, por aparentemente estar mais gorda, gorda ao ponto de parecer grávida, que decido ir a pé para casa. Três horas de viagem.
Caminho pela cidade para me testar. Para perceber o que me prende. Ainda. Ou já não. Há três anos era capaz de jurar que tinha encontrado o meu lugar. Hoje, tenho sérias dúvidas. Desço ruas que desço todos os dias de carro e das quais, sete anos depois de aqui ter chegado, ainda não aprendi os nomes. Encho as sapatilhas de pó nas obras do Bonjardim. Acho que é Bonjardim e continua cheio de prostitutas: gordas, feias, velhas. Quase todas. Finjo que não reparo na tristeza do cenário e elas fingem que não reparam em mim. Atravesso, ao fundo, as grades de segurança e pondero sentar-me na esplanada que alguém montou na Praça D. João I. A praça que antes era do Rivoli e agora está alugada a Jesus Cristo. O Superstar. Lembro-me das vezes, tantas, que entrei no Teatro para namorar as coreografias de Olga Roriz que só havia em VHS. Nunca as comprei porque achava que um dia seriam editadas em DVD. Arrependo-me. A livraria do 3º piso já não existe.
Viro à direita, seduzida pela música que parece vir dos Aliados. Há um grupo qualquer a fazer yoga aos pés de Almeida Garrett e outro a montar uma grua, vá lá saber-se para quê. Os dois têm aparelhagens a competir, a cuspir decibéis. Menos interessante do que parecia. Mas a avenida agora é isto: um palco que se aluga às prestações para o que der e vier. Trepo a rua do Almada. Perco-me nas montras de luz, de ferragens, de chocolates. E no olhar triste das pessoas. Como podem todas ser tão cinzentas? O pó faz-me espirrar. O da rua de Ceuta, a do túnel.
Arrisco uns caminhos de paralelo e vou ter aos Leões. Gosto dos Leões, do Piolho, da mistura de pessoas, de raças, de cultos que se cruzam ali todos os dias. E continuo a gostar dos rituais universitários que começam a florescer nesta altura do ano, embora na minha altura não tivesse tanta certeza disso. Ou coragem para isso, o que é, para todos os efeitos, diferente. O Piolho. Fosse o Porto inteiro assim. Vivo. Mas a Sociedade de Reabilitação Urbana pode renovar prédios, mas não renova espíritos.
Viro outra vez à direita. Atravesso Carlos Alberto, nome da primeira travessa onde morei (obrigada, Pedro, pelo quarto e pelas conversas) e entro em Cedofeita. Os lojistas começam a colocar nas portas cartões a dizer "encerrado". A rua, apesar de pedonal, tem mais grafitis do que gente a esta hora. Corto na primeira à esquerda, para Miguel Bombarda. Assim, a olho nu, um estrangeiro adivinharia que esta é a rua das galerias de arte? Tento vasculhar as exposições inauguradas no sábado passado, mas o horário da arte é igual ao das mercearias: está tudo a encostar a porta. Até o Centro Cultural Bombarda. Por agora, melhor assim. Da última vez, quase perdi a cabeça. Mas como é possível que não se invista na vida para lá das oito da noite? [O telemóvel interrompe-me os pensamentos. Bingo! É o Pedro. Pergunta se vou ao casamento de 20 de Outubro. Como poderia pensar não ir? Guarda-me a fila da frente na igreja e uma cadeira ao teu lado na mesa. "Vais para casa a pé? És doida?", pergunta-me para corrigir logo a seguir. "Bem, sempre é uma maneira de emagreceres". Dois comentários na mesma semana. Devo estar gorda. Ponto final. ]
Fico ali a olhar para o céu só porque sim. Só porque é fim de tarde e gosto desta rua, mesmo velhinha, mesmo feinha, mesmo com tudo a fechar. Gosto do cheiro a morangos. E de ver as pessoas a caminharem para casa, aliviadas talvez por o dia ter chegado ao fim. É possível que diferentes pontos da cidade originem rostos diferentes? Contorno a esquina e sigo para a Rua do Rosário para mergulhar de cabeça no Gatos Vadios, colo quentinho de livros escolhidos a dedo por amigo de outras vidas guardado no peito. Leio edições antigas da Águas Furtadas com um caseiro bolo de canela na mão. E, à saída, tropeço num poema de Helga Moreira que já não posso deixar ali.
Estava dito e combinado
para a manhã seguinte.
No sítio em frente ao último
quarteirão e o meio dia por limite.
Ao que ia não sabia.
Soube depois
que essa presença lhe bastava.
Foi o que senti quando fiquei presa ao senhor com a idade do meu pai. O meu pai casou com a minha mãe faz hoje exactamente 32 anos. O livro, com ilustração de Ângelo de Sousa, e a ternura serão enviados amanhã pelo correio. À moda antiga.
Ando para trás, até ao Largo da Maternidade e descaio-me até à rua Júlio Dinis. É outro território, definitivamente. Já não há casas que parecem de bonecas; só prédios iguais aos prédios de cartão que construía nas aulas de trabalhos manuais. Subo até à Boavista para ver a Casa da Música onde já não me lembro de ir? Aproveito e, mais abaixo, desencaminho o amigo comunista dos cafés que, partilhados, fazem acender luzes em Beirute? Penso nisso, tentada, mas acabo por não me desviar. Calco, pela primeira vez, os cuidados jardins da Galiza, esses onde a Câmara gosta de colocar a sua propaganda. Olho para dentro das cervejarias: a Galiza de um lado, o Gambamar do outro, ambos ainda vazios, que a clientela dali, clientela como eu antes de me habituar a cozinhar, só chega fora de horas.
Não é grande aventura viver a olhar para trás. Mas continua a ser das universidades que me sinto mais estranhamente próxima. Ali, na linha das faculdades do Campo Alegre - onde fiz a prova específica de História no longínquo ano de 1995 -, misturo-me com a catadupa de alunos, alunos com aquela sensação de que o tempo passa devagar e de que o mundo lhes (nos) pertence. Dizem-lhes todos os dias que, quando acabarem os cursos, não terão emprego. E que se o tiverem, o melhor que lhes poderá acontecer é passarem a pertencer à geração "mil euros". Eles talvez pensem nisso, talvez até se preocupem e se assustem com a possibilidade, mas enquanto esse dia não chega, estão felizes. E sabe tão bem ver pessoas felizes. Pessoas com os olhos pendurados no ar em vez de os pregarem ao chão. Entram todos no mesmo café. Tenho saudades do que era, também, o nosso café. Onde entrávamos todos sem termos combinado nada. Onde estamos agora? Onde entramos?
Espio ainda a ementa do restaurante do Campo Alegre. Continua praticamente a mesma desde que o Luís me levou lá. Luís do mar de Moel, das margaridas amarelas, das palavras de açucar, da amizade a sério. [Foi há tanto tempo, lembras-te? Foi antes de trocares o Porto por Londres.] Alguém devia ensinar-nos, em pequenos, que as cidades não podem escolher-se pelas pessoas que as habitam, porque quando chegarmos elas podem estar a partir.
Começo a aproximar-me de casa. Já suada, já com a camisola atada à cinta. Já com a chave na mão. Tenho este vício de tirar da mala a chave muito antes de ver a porta. Rio-me quando passo na escola de condução onde estou inscrita há quase quatro anos e onde não coloquei os pés sequer meia dúzia de vezes. Se os stands vendessem asas em vez de carros, já teria a carta. Ao lado, abriu uma imobiliária. A casa, que só posso ter comprado num momento de insanidade, valeria, atesta uma fotografia colada na montra, mais 75 mil euros se estivesse empoleirada num terceiro andar. Perco a vontade de rir. E não é pelo preço. É por ter achado, cedo demais, que o Porto seria a minha última paragem.
Passo pelo meio das Condominhas, onde também já morei. Um T1 com vista para o rio que não me deixou saudades. A senhora idosa da frente assusta-se com o vulto que a persegue: eu. Não lhe levo a mal. À frente dela - à frente dela e à minha frente - estão cinco junkies, sincronizados, nas escadas do prédio da curva a cozinhar um caldo. Viver nas costas do Aleixo é viver paredes-meias com escombros humanos. Com o que resta de uma vida que talvez nunca tenha chegado a ser. E que perturba, mas nem sempre comove. Tropeço do André, arrumador que mais parece porteiro do prédio. Pergunta-me o que me fez de mal. Pergunta-me sempre isto desde que deixei de lhe dar moedas. "Nada, André. Não fizeste nada."
Acciono o comando do portão. Lanço um olhar panorâmico sobre o jardim que me acolhe de flores ainda abertas e respiro fundo com esperança de que algum sabor a privilégio me diga que isto me basta. A lua está cheia e sentada em cima da minha cabeça. A Chiara Mastroiani já está, outra vez em repeat, graças a um doce presente recebido durante a tarde, a sussurrar Au parc de Alex Beaupain. A sala continua a cheirar a incenso. E o telemóvel volta a tocar. "Última quinta-feira do mês no Batô. Está lá a velha guarda toda. Vens?"
Não vou. Seria perfeito se o Porto fosse a cidade onde quero ficar. E não é. Já não é.

Santana Lopes 1 - SIC 0

Pedro Santana Lopes não é levado a sério. Por ninguém e pelos jornalistas em particular. Às vezes, é pena. Ontem, quando abandonou os estúdios da Sic, estava coberto de razão. Interromper uma entrevista para continuar a alimentar o ridículo circo em torno de José Mourinho - chegou ao aeroporto e depois? - é, no mínimo, de doidos varridos.
Santana Lopes teve a coragem de dizer que não aceitava continuar a responder às perguntas, explicou, e muito bem, as suas razões e abandonou os estúdios. Previsivelmente, hoje todos lhe cairão em cima. A notícia não será a não-notícia que a Sic impôs, mas o feito do ex-primeiro-ministro. E desta vez será injusto apontarem-lhe o dedo.

quarta-feira, setembro 26, 2007

Cometa Halley

[Paulo Pimenta]

Eu não sabia que queria que fosse para sempre. Quando tu chegaste de mansinho, como o gato, eu não sabia. Não sabia quando passeava contigo com a minha mão fria dentro do teu casaco quente que queria que fosse para sempre assim. Passeios de chá de hortelã. Quando via contigo pela primeira vez as coisas que já tinha visto mil vezes e me falavas de tudo o que ainda havia para vermos juntos. O que eu nunca tinha visto sequer uma vez. Não sabia que ia desejar para sempre encontrar-te de vez em quando, qual cometa Halley, e que a vida só ia contar quando essas vezes raras aconteciam. Não sabia que ia desejar-te. E desejar as nossas discussões empolgadas de felinos vadios. Quando as despedidas escorregavam como o pé de criança num baloiço para as promessas. Não sabia que precisaria de as ver cumpridas. E que me castigarias com aquele abraço de lã. Não sabia que queria que fosse para sempre a tua voz. E a voz das vozes dos teus álbuns ouvidas devagarinho. Não sabia que era a sério o que te dizia a brincar. E que a brincar te perderia no caminho. Não sabia que continuaria contigo quando, de mansinho, te esboroasses. E que te seguiria até ao fim do mundo se, como o gato, tivesse sete vidas. Não sabia. E se soubesse, quererias saber?

segunda-feira, setembro 24, 2007

Houellebecq na 9ª Bienal de Lyon


Dizem-me que Michel Houellebecq esteve na 9ª Bienal de Lyon, onde terá apresentado uma instalação "com cenas neurótico-violentas" com a participação do arquitecto holandês Rem Koolhaas (sim, o da Casa da Música), da artista plástica alemã Rosemarie Trockel e do escultor Renaud Marchand. Fui vasculhar, mas encontrei, infelizmente, muito pouco. Em compensação, descobri que ele, escritor francês de eleição, tem um blog, Mourir, onde anúncia textos "mais ou menos inéditos". Preciosa descoberta, apesar de vagamente desactualizada.
A instalação, pelo que apurei, inspira-se no último romance "A possibilidade de uma ilha" (2005), no qual volta a reflectir, de forma invariavelmente cínica, suponho, sobre as crises existênciais e ideológicas do nosso tempo e sobre o qual realizou, também, um filme, rodado em Lanzarote, porto de abrigo de Saramago. Deverá estrear em 2008.