terça-feira, fevereiro 20, 2007

Oscar para melhor actor


Personagem assíduo do carnaval madeirense, Alberto João Jardim decidiu, este ano, prolongar as festividades, pelo menos, até Junho. Demitiu-se ontem do Governo Regional da Madeira, em sinal de protesto contra a aprovação da Lei das Finanças Regionais, mas anunciou no mesmo exacto momento que vai voltar a recandidatar-se, seguro de que os seus conterrâneos não conseguem viver sem a sua demência.
Só pela possibilidade de arredar definitivamente o homem do poder ao fim de 30 anos, José Sócrates já merecia um Oscar. Mas o Oscar irá inevitavelmente para o próprio Jardim: é dramático, cómico, hilariante, ridículo, patético, manipulador, opressivo, anacrónico, repugnante. E, mesmo assim, há quem se deixe atropelar por ele. Se Bush ganhou nos EUA porque não há-de ele voltar a ganhar?
Há três ou quatro anos estive na Madeira e não resisti a soltar perguntas, aqui e ali, sobre a gestão de Alberto João. Não obtive uma única - uma única!!! - resposta. No Funchal, as pessoas vivem fascinadas com a ideia de viverem numa cidade cosmopolita, fashion, turística e solarenga. Aparentemente, isso basta-lhes. Na Calheta, maior concelho do arquipélago com cerca de 12 mil habitantes, a pobreza é indisfarçável. O atraso, a todos os níveis, também. Quando confrontadas com qualquer questão, as pessoas fogem, imploram para que se não lhes fale em Jardim e recusam dar opinião. Não dizem que está tudo bem - não podem, não está e isso vê-se -, mas rejeitam qualquer possiblidade de mudança, vá lá saber-se porquê.
Todos sabemos como isto vai acabar.

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Da amizade. Para sempre.

Ele: So, have we lost the human touch?
Ela: Diz-me tu.
Ele: Hmmm...
Ela: Já não posso entrar?
Ele: Pergunta malvada essa, que me coloca na posição de carrasco...
Ela: Não é malvada.
Ele: Da última vez que falámos disseste que fui agressivo contigo. Percebi porquê. Mas não sei se ainda podes entrar. Tem acontecido tanta coisa...
Ela:Coisas boas, espero.
Ele: Não, não foram nada boas. Foi uma época muito complicada, mas acho que até a Lei de Murphy tem um fim de jurisdição. Agora quero valorizar e discriminar os amigos. Os amigos daquela verdade sempre presente e que preenchem tudo.
Ela: Aceito isso (bem... mais ou menos...), ser penalizada pela ausência...
Ele: Espero que não aceites. Porque não tem nada a ver contigo; talvez só comigo. Daí que, provavelmente, tenha sido agressivo e injusto contigo...
Ela: Consegues distinguir a ausência física da ausência de gostar? E perdoar a diferença entre uma coisa e a outra?
Ele: Não há nada para perdoar. Queria que percebesses que não fui precipitado em tudo o que te disse. Pensei muito na nossa relação, fui até ao passado para ver de onde vinha. A verdade é que a nossa relação é muito diferente da relação que tens com a minha namorada.
Ela: Claro, eu sei.
Ele: Ela ensinou-me que tu eras uma fada, um elemento mágico...
Ela: E tu percebeste que não sou...
Ele: Não, não é isso. Acho que o desagravo começou pelo lado dela, por todas as expectativas que ela sempre criou contigo. És como um pai natal, de quem sempre se fala, e por quem eternamente se espera...
Ela: Uma fada que não faz magia... um pai natal que nunca chega...
Ele: Se às vezes nos chateaste ou nos sentimos tristes foi por, inevitavelmente, estarmos apaixonados por ti. E sim, por seres um elemento mágico, uma fada. Encantadora e sedutora.
Ela: E em que momento descobriram que não eram correspondidos? Que eu sentia coisas diferentes daquelas que vocês sentem?
Ele: Não se trata disso. Trata-se de jardinagem. Toda a gente gosta de flores, mas poucos cuidam efectivamente delas.
Ela: Sim, eu sei...
Ele: Depois, não pode haver surpresas por murcharem.
Ela: Gostava que me deixasses contar a minha versão...
Ele: Mas é óbvio que quero ouvir a tua versão. Ouvir-te só. Isso significa estares presente.
Ela: Acreditas que é possível deixar murchar uma flor que se ama? Só porque, às vezes, a vida atropela-nos e deixa-nos sem saber muito bem como cuidar dela? Deixá-la murchar só por absoluta incompetência?
Ele: Sei, mas nada pode ser mais paradoxalmente absurdo, não achas? Porque se não nutrirmos o amor vamos cultivar o quê? O mundo não está a ficar um sítio mais agradável. Só as pessoas podem fazer e criar uma realidade mais suportável. Porquê abdicar?
Ela: Mas achas que deves matar o jardineiro só porque ele falhou? Não é humano falhar?
Ele: Não sou radical. Nunca mataria. É humano falhar, mas mais humano é recuperar das falhas. E concretizando, deixa-te de merdas, não falhaste. A única coisa que magoou e confundiu foi a dissonância entre esse sentimento que trazes em ti e a realidade. Moramos num sítio tão pequeno e já mudámos tantas vezes! Tanta coisa acontece numa distância tão curta...
Ela: Porra, deixa-me entrar! Mas não estejas à porta com uma espada! Dessa forma, não vou conseguir entrar... e acredita, ficarei infinitamente mais infeliz com a perda do que tu...
Ele: Pois, mas ainda não percebeste que ninguém está à porta? Que nada está armadilhado? Que não sou capaz de te convidar para entrar e depois pregar-te uma rasteira? E que sou tão sincero hoje como quando te convidava para fazermos um intervalo e irmos descansar num prado? Neste momento, não sei se estamos a entender-nos...
Ela: Acho que sim, que estamos... A única diferença é que ainda não contei a minha versão. E sinto que, diga o que disser, tu vais sempre achar absurdo, contraditório, inaceitável... talvez seja, não sei. Eu sei que os amigos não se deixam propriamente numa lista de espera...
Ele: Mostra-me o teu lado...

[Ela mostra-lhe o lado dela]

Ele: Pois, mas quase sempre me dá a sensação que tu não percebes bem a nossa posição, a nossa expectativa e postura. Fiquei sempre, aliás, surpreendido e quase ofendido com algumas coisas que dizias...
Ela: Por exemplo?
Ele: Percebo que as digas mas, na nossa realidade, não fazem sentido nenhum. Uma das coisas que mais nos deixava tristes e saudosos era suspeitar que, de facto, podias não estar bem. Não sei qual é a tua perspectiva sobre o que deve um amigo fazer quando vê o outro mal, mas sempre me deu a sensação de que nos entendias mal, como se fossemos um elemento de pressão sobre ti...
Ela: É verdade. Às vezes senti isso, essa pressão...
Ele: Sempre quisemos estar perto para te apoiar incondicionalmente. É quase ofensivo quando dizes que posso estar à porta com uma espada.
Ela: Sei, de coração, que vocês quiseram sempre só que eu ficasse bem. Mas sou assim, desapareço quando estou mal. Não sei fazer da fragilidade um palco.
Ele: Às vezes, penso que a distância já é muita, e que todos confabulámos personagens que foram aos poucos, e conforme as circunstâncias da vida, e os imprevistos da interpretação, dando origem a caricaturas das pessoas reais.
Ela: Achas que nos transformámos em caricaturas? Que temos imagens uns dos outros que não correspondem àquilo que realmente somos?
Ele: Talvez. Por isso sempre rejeitei que te considerasses culpada, quase como se nós te estivéssemos a considerar culpada...
Ela: Mas é isso que parece. E isso também que me trava.
Ele: Não sei. Acho que não sou quem tu me transmites que pensas que sou. Porque jamais fiz alguém sentir o que tu me dizes que eu te faço sentir, o que nao invalida! E, vasculhando a minha memória, tenho dificuldade em saber o que possa ter feito ou dito para que pensasses dessa forma. E isso incomoda-me, como sei que te incomodam algumas coisas que te disse. Daí achar estas percepções tão distintas, intrigantes...
Ela: Mas não há nada de intrigante. O que me fazes sentir existe. A maneira como te via é a maneira como te vejo.
Ele: Continua a ser intrigante.
Ela: Mas o que há de intrigante?
Ele: Não sei.
Ela: Deixaste de acreditar em mim? No que digo? No que sinto?
Ele: Não é isso, e não te sei dizer o que é. Quase me apetece voltar ao início e perguntar-te novamente: have we lost the human touch?
Ela: Continuo a devolver a pergunta.
Ele: Sintetizando, acho que te percebo bem.
Ela:Finalmente, fazes-me sorrir.
Ele: Dou-me melhor com sorrisos.
Ela: Gosto muito de ti. Não será isto o mais importante?
Ele: É importante, sim. E quero que decores, que tatues ou coloques num post-it que não sou um monstrinho a reclamar a tua atenção, o teu carinho. Vivo a amizade de outra forma: quando tenho uma amiga quero dar-lhe tudo o que sou. Estou lá. Nunca me tinha acontecido ouvir de uma amiga o que ouvi de ti. Houve vezes em que achei que eras uma exagerada, que não podias gostar tanto assim de mim...
Ela: Mas gosto. E gosto de forma exagerada - é a única forma que existe para gostar dos amigos.
Ele: É obvio que é importante o amor, o carinho, o gostarmos uns dos outros. Mas também não será igualmente importante que as relações existam? Que funcionem?
Ela: Claro. E quero que a nossa relação volte a existir fora do coração. Estou só a dizer-te que a distância não mudou nada do que sinto. E mais: não há nada mais bonito do que alguém a reclamar a nossa presença. O teu protesto comove-me até às lágrimas.
Ele: Era bom que agora estivessemos a ouvir a mesma música. Conheces bem: "Fistfull of love", do Antony.
Ela: "We live together in a photograph of time/I look into your eyes/And the seas open up to me/I tell you I love you/And I always will." Estou sempre a ouvir o Antony.
Ele: É inevitável continuar a gostar de ti. Apaixonado e irritado por todo o tempo que não estamos juntos.
Ela: Tens noção de há quanto tempo espero ouvir isso de ti?
Ele: Repara que nenhum idoso gosta de recordar os tempos em que namorar era apenas uma longa conversa, uma cantiga do bandido, à janela. Só quero um abraço, um beijo, um roçar de olhares e um sorriso teu.
Ela: Tens isso tudo de mim. E tens mais.
Ele: Não quero pressionar-te.
Ela: Não estás a pressionar-me.
Ele: A única pressão que faria era no teu peito durante um abraço. E assusta-me que tenhas percebido como forma de pressão a minha postura...
Ela: Vou provar-te que tudo faz ainda sentido.
Ele: Mas não tens nada para provar. Nada. Nada. Nada se prova. Eu também não tenho como te provar que não sou quem tu pensas que sou.
Ela: Mas tu és. Eu sei.
Ele: Só quero estar contigo. É só isso. Senão tudo isto será uma história de amor separada, distante, cartas de namorados que se enviam e que, algures no mundo, sabemos que é correspondida. Mas também o Jude Law fartou-se de andar no Cold Mountain só para mostrar que vale a pena estar próximo.
Ela: Obrigada. Pela espera e por tudo.
Ele: Não quero que venhas agora a correr para cá. E não penses que vou agora a correr para aí. Mas gostava que nos encontrassemos com suavidade para disfrutarmos disto. Gosto de ti, porra!
Ela: "Gosto de ti, porra!" sabe melhor do que um gelado de chocolate!
Ele: Eu já podia ter morrido e tu podias não me ter visto a ficar careca...
Ela: Não estás a ficar careca e não havemos de morrer tão cedo.
Ele: Gostar é a melhor coisa que conheço, que alguma vez vou conhecer. Gosto de gostar. Gosto muito de gostar de ti. E isso já me irritou no passado, mas conformo-me no teu charme.
Ela: Também eu. Também eu. Também eu. Não somos assim tão diferentes. Eu só um bocadinho mais atada.
Ele: Caramba, queria tanto poder fazer contigo coisas como as que fiz esta noite. Espero que uma conjugação cósmica proporcione um encontro.
Ela: Se pudesses ver como estou a rir...
Ele: Ficas muito mais bonita assim, lembro-me disso...
Ela: Estás no meu coração. Vais estar sempre. E o coração, quando está cheio, faz-nos rir.
Ele: E tu vens comigo agora. A porta está aberta para entrares.
Ela: Já entrei.
Ele: É óptimo ter-te ressintonizada.

Ressaca

Descobri no sábado à noite que ia passar o domingo inteiro sem internet. Óbvia e estupidamente por não ter pago a factura. Não se faz isto, não se corta a internet ao fim-de-semana, resmunguei. Primeiro com a operadora, depois comigo, depois com quem calhou. Antes tivesse sido a TV Cabo! Antes tivesse sido o gás! Não jantei, queimei duas vezes os collants a acender a lareira (à primeira ainda resistiram; à segunda foi fatal), e fiquei muda a noite toda. Logo naquele dia, pensei, em que tinha tanto para fazer! Superada a telha, percebi que "logo, aquele dia" é todos os dias. Que não há um único dia em que consiga estar onde quer que seja, a fazer seja o que for, sem ter o computador ligado. E, com ele, o outlook, o hotmail, o gmail, o messenger, 150 blogs, a pandora, a última hora deste e daquele site. E que o "tanto para fazer" não passa de um zapping automático, doentio e inútil por todas essas janelas de comunicação que são, afinal, comunicação nenhuma.
Decidi encarar o domingo como um desafio. E a experiência não podia ter sido mais reveladora: o dia cresceu, também em qualidade. O tempo quase sobrou. Consegui fazer coisas que, habitualmente, não tenho paciência nenhuma para fazer. Como, exemplo dos exemplos inéditos, ir ao ginásio. Como voltar a pintar e costurar à moda antiga. Como ler jornais sem estar a pesquisar coisas ou a fazer downloads ao mesmo tempo, como ver noticiários sem o computador no colo, como pegar em livros de carne e osso. Como estar com alguém sem estar sempre a pedir "espera aí, espera aí..."
Consegui, finalmente, depois de incontáveis promessas incumpridas, não estar ligada à ficha. Parece ridículo, mas foi uma sensação única de liberdade. Atrás do fim de um vício, a abolição de outros vícios são possíveis. O próximo será, seguramente, o telemóvel.

sábado, fevereiro 17, 2007

O Douro é amor


Nada lhes rouba a alegria de existirem ali, em Almendra, desabitada freguesia de Foz Côa. Nem a operação ao braço que impede Luís Maia, 78 anos, de limpar as oliveiras, nem a ausência do comboio que antes o levava, a ele e à sua Cândida Furtado, um ano mais nova, a visitar mais vezes os filhos, um na Guarda, dois em Lisboa. Vivem assim, um para o outro, há 54 anos. “Já casámos segunda vez”, vertem orgulho pelas bodas de ouro. Ainda parecem namorados. Ela trata da lavoura; ele conduz a burra. “Tem volante e tudo e não é preciso carta de condução”, ri Luís. Demoram três horas a percorrer 12 quilómetros. É a distância que os separa de casa aos campos, todos os dias. Todos os dias sozinhos. “Mesmo a pagar não há quem queira trabalhar".

O Douro é desolação


Nem Mário Soares lhes valeu. Em meados de 1988, quando o então presidente da República, no rescaldo de uma vitória suada, visitava Barca D’Alva, terra de socialistas e de funcionários ferroviários, “o povo pediu-lhe que não acabasse a linha do Douro. Ele prometeu que não fechava, mas fechou”. A primeira dama, Maria Barroso, terá sido uma das últimas pessoas a fazer a viagem. O troço entre Pocinho e Barca D’Alva foi desactivado a 19 de Outubro desse ano. A data é dita de cor pelos funcionários.

“Foi um assalto. O inspector ligou-me a dizer que se a comunicação social viesse cá e me perguntasse alguma coisa, que eu não sabia de nada. Nesse dia, o comboio foi embora e já não voltou”, recorda Luís Patrício, homem de 72 anos, ex-revisor de material, que haveria de esperar longos anos pela reforma. Mais de 30 famílias, como a dele, saíram dali, destacadas para outras localidades. Cerca de 42 funcionários – maquinistas, revisores, condutores, guardas fiscais –, abandonaram a estação, que agora é habitada por ciganos.

O tempo em que dezenas de vagões enchiam a ponte internacional – tractores, electrodomésticos e toda a maquinaria da indústria têxtil do Minho –, é recordado como o tempo em que foram felizes. “Havia aqui um movimento que ninguém imagina. Tínhamos a melhor estação do país, com polícia internacional e tudo. E o país inteiro vinha aqui só para comprar laranja, amêndoa, azeite”.“O que nos fizeram foi um crime”, acentua António Messias que, desmotivado, pediu a reforma mais cedo. Chefiava a equipa de factores quando tudo acabou. “Já fomos felizes aqui. Barca D’Alva já foi uma grande terra, mas quiseram dar cabo de tudo e conseguiram. Hoje, vivemos sem pernas”.

Recentemente, no arranque das obras do Museu do Côa, Isabel Pires de Lima defendeu a reactivação da linha-férrea entre Pocinho e Barca D’Alva. Mas a intenção da ministra da Cultura, além de não suscitar “confiança” em terra de quem precisa “ver para crer”, chega já demasiado tarde. “Até podem deitar fogo à linha; agora, tanto faz”, diz a voz magoada de Messias.

“O comboio faz-nos tanta falta como o pão para a boca. Vivemos aqui enfiados sem ter onde ir distrair”, juntam-se à conversa os 72 anos de Carlos Salgado. “Mas se querem que a linha seja só para os turistas, então bem podem ficar quietos. É como os barcos: só anda neles quem dinheiro. E só andam no Verão. Nós vamos continuar aqui esquecidos”, insiste. “Tão esquecidos que daqui a dez ou quinze anos a terra deixará de existir”, reforça Patrício. “Ou alguém acredita que a CP vai aqui investir os milhões necessários? O problema não são as linhas; são as pontes”. Serão as duas coisas: as linhas estão todas desdentadas e os pilares das pontes já não oferecem segurança.

Foi o encerramento da linha que provocou a desertificação do Douro ou a imigração da região que levou à anulação da rede ferroviária?

Em Figueira de Castelo Rodrigo, num café onde a única pessoa com menos de 25 anos é o proprietário, Nicolas Lage, não há dúvidas. “A culpa é do poder político que deixou ir tudo abaixo. No Verão, a população dobra. Mas os turistas vão dormir a Vegaterron, em Espanha, porque aqui não há hotéis”. O país vizinho terá percebido o sinal e já começou a fazer obras na sua parte da rede. “Estão a recuperar 80 quilómetros de linha; nós temos 28 e não fazemos nada”.

Revolta-se, mas não desiste. Em 1976 residiam ali três mil habitantes; hoje resistem 600. Nicolas diz que existem na freguesia cerca de 50 pessoas da idade dele. Se existem, não se vêem. Ele já foi embora várias vezes, mas voltou sempre. “Gosto disto e acredito que pode haver aqui futuro. O que puder fazer, farei”, promete. Já faz: num sítio onde “os horários de comboio não coincidem com nada”, ele recolhe as receitas médicas da população inteira. Ali, os medicamentos são pagos no bacão do café.

O Douro é um milagre

(Foto: Artur Machado)

Não é um milagre, mas é igualmente esmagador. A viagem pela linha do Douro, do Porto até ao Pocinho, parece uma passagem bíblica com o comboio a circular tranquilamente sobre a água. Mas a visão indescritível de uma paisagem que a mão humana mal tocou, poderá ter os dias contados. A possibilidade de a rede férrea ficar interrompida na Régua está longe de ser só um boato. E, de resto, foi de um boato que nasceu o início do fim da linha que prolongava a experiência até Barca D’Alva. Enquanto existe, a única garantia é a de um passeio inesquecível.

7.26 Campanhã
O dia, como a maioria das pessoas, ainda não acordou totalmente. Emite, a custo, os primeiros raios de luz ainda baça. O comboio com destino ao Pocinho é feito de três carruagens azuis de chapa grafitada. Parece desconfortável, mas não é. Os bancos de madeira há muito que foram substituídos por cadeiras almofadadas. A lotação não está esgotada, mas há muita gente e sacos gordos de viagem. É sexta-feira e o bilhete custa 10.90 euros. Os toques polifónicos a esta hora são ainda mais insuportáveis. As crianças são o único repositório de boa-disposição.

7.34 Ermesinde
O comboio está cheio. Duas mulheres juntas são as únicas adversárias capaz de competir com a euforia infantil. Trocam piadas com o funcionário, contestam as políticas do Governo, recapitulam o resultado do referendo sobre a despenalização voluntária da gravidez e reprovam-no com argumentos que passam pelo sistema nacional de saúde e pela lista de espera a que dizem ser votados os velhos. Lêem o jornal e a notícia do acidente no Tua em voz alta. Lamentam as perdas e que a tragédia possa retirar-lhes o meio de transporte. São professoras do ensino básico. Hão-de sair quatro estações depois de terem entrado, na Livração. Como é que alguém consegue maquilhar-se com o comboio em plena trepidação?

8h Paredes
Metade dos passageiros aproveita a viagem para completar as horas de sono que ainda faltam. A funcionária que vende batatas fritas e Super Bock não tem, por isso, clientes. Fica estacionada ao lado de Catarina, menina de sete anos que não quis ir à festa de Carnaval da escola, mas que se entusiasma a mostrar as máscaras que desenhou. Lanço o primeiro olhar irritado ao vizinho de trás, homem de computador portátil, que não pára de dar joelhadas no banco enquanto tenta descortinar uma posição para dormir. Não a encontra e sai logo a seguir, em Penafiel.

8.33 Marco de Canaveses
A paisagem começa a retirar protagonismo aos passageiros e nunca mais desprenderá da janela o olhar. A viagem parece uma passagem bíblica com o comboio no lugar de Cristo a caminhar sobre as águas. Não é um milagre, mas é igualmente esmagador. Tem de irresistivelmente belo o que contém de perigo. Do lado direito não há chão, não há nada: só o imenso rio Douro, os desfiladeiros, as gargantas. E do lado de lá da margem, as primeiras flores de amendoeira, em rosa-rosa, em rosa-branco, os socalcos desenhados como obras-de-arte e um cenário inteiro que a mão humana, para o bem e para o mal, parece ainda não ter tocado.

8.45 Mosteirô
Sucumbo ao cansaço de uma noite pouco dormida. Acordo como uma ilha, rodeada de água por todos os lados. Não cabe em palavras aquela beleza. Não é um milagre? Só pode ser.
9.01 Ermida
O ruído leve e continuado da viagem, um sol que raramente experimento de manhã e a paisagem como motor de libertação expulsam a cabeça do comboio. Só o corpo está limitado às fronteiras do meio de transporte.

09h15 Régua
“O caminho de ferro foi uma revolução. Se todas fossem assim…” lê-se numa placa da estação. O comboio, que cruza as primeiras quintas e casas senhoriais, começa a perder utentes.

10h06 Tua
Ermelinda Castro é a única resistente. Já todos os passageiros encontraram o seu apeadeiro. Só ela continua ali, a caminho do “convento”. É assim que as amigas do Porto catalogam as suas idas para Alfândega da Fé. Vai para lá desde menina, desde os tempos em que o pai vendia cortiça "aos Amorins" - os tempos em que a viagem era partilhada com as primas e demorava um dia inteiro. Mas o seu olhar, fixo no exterior, denuncia um encanto que nunca se perdeu. “É uma viagem maravilhosa, lindíssima”, repete, com o dedo indicador esticado a acompanhar legendas e memórias. Da infância e de quando ainda não era viúva. O comboio não a leva ao destino. No Pocinho terá que apanhar um autocarro. Depois, já sabe, “são 15 dias em que os únicos passeios são para ir burcar água à fonte e levar o lixo ao depósito”. E o silêncio “essencial para a saúde”.

10h33 Vesúvio
O rio já atravessou a ponte de ferro para o lado esquerdo. É desse lado que agora o olhar se lança sobre os precipícios, os túneis e a Quinta da Ferreirinha, cenário de filme recente.

11h42 Pocinho
A viagem chega ao fim, pontualíssima, numa terra onde o tempo parou. Não há nada além de uma estação renovada. Só dois autocarros e um taxi aguardam quem precise continuar. São mais de quatro horas de percurso para chegar a um sítio que parece sítio nenhum. O senhor Poppe costuma dizer que "a viagem é o viajante" e é verdade.

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Falso referendo

Afinal, não era um referendo. Era só uma brincadeirinha de meninos que parecem não ter muito que fazer. Alguém duvida que o sentido de humor impera na Câmara do Porto?

"Por penosa falha técnico-informática esteve ontem visível no novo espaço Consulta deste site, durante mais de meia hora, a desagradável pergunta “Concorda com a política de oposição do JN à Câmara do Porto, se realizada por opção do director, desde os primeiros dias do mandato e sujeita a desmentidos legalmente consagrados?”
Tratava-se apenas de uma questão-teste que, durante os necessários ensaios técnicos que antecedem a troca de tema no espaço em causa, por lapso, ficou indevidamente visível no écran, em lugar da pergunta: “Considera que o JN é isento e rigoroso no tratamento que dá à informação sobre a Câmara do Porto?” Do facto pedimos desculpa aos nossos visitantes e, em particular, ao Senhor Director do JN, José de Leite Pereira".

Novo referendo

A Câmara Municipal do Porto acaba de lançar um referendo à escala municipal.

Concorda com a política de oposição do JN à Câmara do Porto, se realizada por opção do director, desde os primeiros dias do mandato e sujeita a desmentidos legalmente consagrados?

Pocket Symphony


Os Air lançam o novo trabalho, "Pocket Symphony", no dia 5 de Março. O álbum já está disponível na internet e é absolutamente obrigatório.

Exercício de cidadania

É sempre o mesmo nojo que me invade em cada reunião de Câmara, em cada Assembleia Municipal do Porto. E sempre, sempre a mesma tristeza. Saio invariavelmente muda; hoje saí pior, embora o panorama não tenha sido diferente ou agravado por qualquer circunstância nova. É só a continuada falta de respeito, a persistência na ironia bacoca, a arrogância sem critério, a total ausência de pensamentos ou posturas nobres que me atropela e impede de continuar a acreditar que é inevitavelmente por ali, pelo poder político, por aquele poder político, que alguma coisa pode ainda mudar, melhorar.
Hoje discutia-se exclusivamente a política cultural da cidade. A Oposição queria respostas; a Maioria PSD/PP (não) respondeu com um entediante powerpoint retirado da internet, elencando as inúmeras estruturas da cidade. Tal e qual um filho questiona os pais sobre a ausência de uma alimentação equilibrada e os pais respondem com os quadros e os bibelots que existem lá em casa. "É isso que poderemos deixar às gerações vindouras".
No fim, o contraste. O aterrador paradoxo capaz de arrancar arrepios ao mais empedernido coração. Pessoas que da cultura só conhecem o nome, mas dos filhos, vários e doentes, conhecem a pobreza. Vivem todos num quarto ou numa cave ou em qualquer outro sítio desumano. Mesmo assim pedem para não serem despejadas. A resposta do Executivo, para quem a coesão social é a prioridade, sai com a mesma secura, a mesma insensibilidade, o mesmo riso despropositado nos lábios. "Já tínhamos avisado. Não pode ter ali a barraca. Há uma via nova para abrir".
O povo encolhe-se, trata-os por "vossas excelências", treme a ler os bilhetes escritos à mão que leva para apresentar as suas angústias sem se enganar, mortifica-se quando se engasga pressionado pelos três minutos que tem de antena. Sai como entrou: a pedir desculpa por existir.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Quem disse que não é possível começar outra vez?


Da paixão

(Foto: JMG)

Já ninguém se apaixona como antes. De forma arrebatada e bloqueadora. Já ninguém quer morrer de amor, até porque depois não se morre realmente e ressuscitar do estado temporário de sonambulismo dá muito mais trabalho. Já ninguém escreve cartas dramáticas, terminais, com selos colados com sal das lágrimas num envelope de papel, nem fica em casa fechado, aturdido, a ouvir músicas de fazer chorar as pedrinhas da calçada. Já ninguém perde a fome quando o coração acelera, nem falta à escola ou ao emprego alegando uma inusitada dor de barriga, que é afinal do peito. Já ninguém fica às escuras a jurar que nunca mais vai sentir isto outra vez. Já ninguém acredita que há coisas que só acontecem - quando acontecem - uma vez na vida e que há uma única pessoa para sempre, porque há sempre demasiadas pessoas a gravitar à nossa volta - todas únicas, todas especiais. Já ninguém se apaixona como os adolescentes - nem sequer os adolescentes. A paixão imberbe, inocente, total, ansiosa e em carne viva acabou.
Antes, quando alguém julgava apaixonar-se a sério, lutava incansavel e pacientemente pelo objecto da paixão. Mesmo que isso implicasse vergonhas, meter cunhas aos amigos, fazer cenas e figuras tristes. Hoje, quando alguém tem a vaga impressão de estar apaixonado, fica à espera que passe. E que não atordoe muito enquanto não passar. Sem perder a pose. Antes, quando alguém estava apaixonado a sério e não era correspondido, cortava relações. Era o tudo ou nada. Hoje, quando a paixão não é correspondida, as partes ficam amigas e partilham o mesmo café. A vida pela metade é hoje mais do que razoável. Antes, a impossibilidade da paixão desejada impossibilitava outras paixões. Hoje, a paixão incumprida é o motor essencial para abertura a novos relacionamentos. Antes a paixão era confessada e assumida; hoje é disfarçada e recalcada.
As histórias todas têm um fim. Mas na vida, o fim de cada história significa sempre o início de uma nova. E, às vezes, as que que terminam nunca chegaram realmente a começar. Poderia ser mais triste?

Little Children

(Realização: Todd Field)

Em que momento param os adultos de crescer? No momento em que decidem casar e ter filhos? Ou no momento em que os progenitores deixam de lhes colocar na mesa a comida? No momento em que interrompem a carreira? Ou no momento em que desistem de conseguir ter uma? Quando encontram um brinquedo novo? Ou quando não prescindem de um vício antigo?

Little children, nomeado nas categorias para melhor actriz principal (Kate Winslet), melhor actor secundário (Jackie Earle Haley) e melhor argumento adaptado (de Tom Perrotta) é sobre pecados inconfessáveis. Há pecados maiores do que outros?

domingo, fevereiro 11, 2007

Referendo - resultado

2007

Seis em cada dez portugueses votaram Sim.

Sim: 59.25%
Não: 40.75%
Abstenção: 56.4%

1998

Sim: 48.70%
Não: 51.30%

Aguiar Branco

"Vamos ter um código penal e dois sistemas: como vamos combater o aborto clandestino a partir das dez semanas e um dia?

José Sócrates

"O resultado do referendo representa a dignificação da democracia portuguesa. O povo falou de forma clara; o resultado é inequívoco. A tarefa agora é respeitar a vontade do povo português. A lei que iremos discutir e aprovar na Assembleia da República significa que o aborto até às dez semanas deixará de ser crime no nosso país. A lei deve obedecer a um período de reflexão para que a decisão seja ponderada e não fruto de um qualquer desespero".

Gentil Martins

"O serviço nacional de saúde não pode colocar, nas listas de espera, o aborto à frente do cancro. Do cancro ninguém tem culpa; do aborto já não é assim".

Paulo Portas

"A sociedade está mais laicizada hoje do que há dez anos".

Constança Cunha e Sá

"Houve um campeonato entre Marcelo Rebelo de Sousa e Marques Mendes para ver quem era mais pelo não, o que demonstra bem a desorientação de um partido que não quis assumir posição oficial".

Jerónimo de Sousa

"O PCP apela à rápida concretização do processo legislativo, respeitando os conteúdos e resultados do referendo. A vitória do sim serve para por fim a um demorado período dilatório".

Marques Mendes

"A votação mostrou um país dividido. A nova lei deve conciliar os portugueses evitando clivagens e conflitos. A nova lei deve ser baseada na prudência e no equilíbrio".

Francisco Louçã

"Mais de um milhão de pessoas acrescentou o seu voto ao referendo de 98 e vinculou o país".

Problema de expressão

Independentemente da posição que ganhar daqui a um minuto, o país continua a não querer ser ouvido. Será porque não sabe?

Pelo sim


"Para Platão, a contemplação era a forma mais elevada da actividade humana. Uma visão semelhante existia na Índia Antiga. O objectivo da vida não era a alteração do mundo. Era dele possuir uma visão correcta".
John Gray in "Sobre Humanos e outros animais"

sábado, fevereiro 10, 2007

No Aleixo II

É um "solitário na selva" porque diz não ter com quem conversar. Herdeiro da "loucura dos anos 70" e de um ideal de liberdade, que continua a perseguir, e que passa por não ter horários a cumprir, Júlio é, aos 43 anos, pai de dois filhos exemplares: um tem 22 anos e é finalista de engenharia mecânica; o outro tem 16 e é campeão nacional de natação. Vivem com a avó materna. Quase nunca os vê "para não os traumatizar". Mas lembra-se do tempo em que o dinheiro que ganhava como chefe superior da alfândega dava para consumir - ele e a mulher que entretanto perdeu - e para lhes pagar os melhores colégios, sempre particulares. "Tenho muito orgulho por eles não serem como eu e umas saudades que às vezes me tiram o ar. Mas não quero que me vejam assim", insiste. Se o vissem, veriam um homem extraordinariamente bonito, aparentemente apaziguado, de voz doce e culto. "Tenho o 11º ano completo e o gosto pela leitura. Leio o Público todos os dias. Não sou burro. Por isso, sou solitário".
Não quer ver os filhos. E também não quer ver a mulher com quem esteve casado 12 anos e por quem continua "terrivelmente apaixonado". Diz que sabe que ela sente o mesmo, que não o esqueceu. "Sei porque sei, sei porque sinto". Se se juntarem arruínam-se. "Não é possível manter uma relação saudável entre duas pessoas que consomem. Fica muito caro. Caro ao ponto de não ser possível sustentar". É possível quando uma das duas não consome? "É pior. Implica muito sofrimento e privação. Tudo gira em torno de quem precisa. Por isso continuo sozinho. Não quero magoar ninguém".
Não pede dinheiro para a droga, não rouba, não arruma carros. Faz os "canecos" - espécie de cachimbo em miniatura - necessários para o consumo da heroína com restos de alumínio e com varetas de guarda-chuvas que encontra na rua e vende-os a cinco euros. "Faço uma coisa e pagam-me por isso. É honesto, não é?". Há dez anos consumia cem contos por dia; hoje, dez euros bastam-lhe. "Acalmei, é verdade, mas continuo a querer ver as luzes todas que vi quando experimentei drogas duras pela primeira vez. O Porto todo com milhares de luzes e o lado de lá da marginal. Não nego: continuo a querer sentir isso. Mas também ainda não morri, não é?"
Não morreu e sente-se "abençoado por não ter sida". Quando ouviu falar do vírus, algures em Espanha dos anos 80, já tinha trocado demasiadas seringas, já tinha penetrado demasiados corpos que nunca mais voltou a ter. "Fiz as análises de olhos fechados. Quando soube o resultado senti que a vida tinha recomeçado, que nunca mais nada voltaria a ser como antes".
Quando avisou o patrão que ia despedir-se, o homem abraçou-se a ele a chorar. "Contei-lhe que estava de tal maneira desorientado que podia começar a fazer asneiras. E não queria. Ele chorou por nunca ter percebido". Por nunca ter percebido que não havia uma única hora do dia em que "o funcionário em quem mais confiava" vivia preso. Que se fechava na casa de banho para se injectar. E que o salário já não acompanhava o ritmo das ressacas. Deixou de se injectar depois de ter passado cinco anos na prisão. "Mas não posso dizer que não gostei. Era diferente". Aliás, acrescenta, "tão diferente como a droga do estabelecimento: melhor, mais fácil de comprar e mais barata".
Tem dúvidas em relação à instalação de uma sala de consumo assistido no bairro que agora frequenta. "Não gostava que os meus filhos me vissem a entrar para lá. Não gostava que as pessoas começassem a encarar o consumo com naturalidade. Não é natural. E não gostava que um dia os meus próprios filhos entrassem numa dessas salas". Por bem menos repreendeu o mais novo. "Tive uma conversa séria com ele quando soube que fumava tabaco. Não há sensação pior do que falar com alguém quando não se tem moral para falar". Mas tem certezas em relação ao futuro. "Sei que vou sair daqui. E que vou deixar de ter que viver sozinho para não magoar as pessoas". Recorda a última conversa que teve com o pai no último dos nove dias em que esteve internado no sanatório com tuberculose. "Sei que não cumpri a 100% o que esperavas de mim. Desculpa-me", pediu-lhe, com a mão na mão de quem não lhe respondeu.

Um dos dois telemóveis que traz presos na cintura começa a vibrar. "Os telemóveis são tão importantes para mim como um braço. Sem eles não vivo". Do lado de lá do telefone alguém o chama. Júlio perde a serenidade, diz que tem que ir embora. Um dia diz que vai montar um projecto nas escolas "para explicar aos jovens que a droga não é o caminho". Mas hoje ainda é demasiado cedo para isso.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

No Aleixo I

Tem um pé calçado com vários pares de meias, mas sem sapato. O outro pé não existe. Nem a perna. Perdeu-a juntamente com dois amigos num acidente de automóvel. “O carro ia em excesso de velocidade e foi contra uma árvore. O condutor e a rapariga que ia ao lado morreram. Eu fiquei assim". Não diz há quanto tempo foi. Mas foi há tempo suficiente para aprender a manusear a cadeira-de-rodas com perícia. O cabelo-avelã está todo desgrunhado e nem assim perde o brilho. Usa dois totós, apesar de já ter 24 anos. E, no colo, não dispensa uma boneca e um saco de rebuçados.
Sobre a pele morena, os olhos azuis, grandes, luminosos, desviam a atenção dos olhares dos outros da cadeira sem a qual não existe, ali, no meio da estrada, quase sempre em frente ao Hotel Ipanema Park, a caminho da Foz. Os carros passam, desviam-se. Às vezes, param. Ela rodopia, raramente sorri, estende a mão e regressa à linha que divide as duas faixas de rodagem. "Sim, sei que sou bonita. Como posso não saber? Estão sempre a dizer-me isso".
Quando há jogos de futebol e a cidade fica vazia, ela continua lá. Quando chove, como agora, e os trovões caem do céu para se estatelarem no chão como caixas de sapatos com lâmpadas, também. Quando o cansaço a atormenta, desce a rua até ao Aleixo. Não tem casa. Dorme no hall de entrada da segunda torre. E come o que lhe dão. Quando lhe dão.

Bruna tem cara de boneca como a boneca que traz pousada no regaço. “Gosto de bonecas e de ursos de peluche”, conta como se tivesse parado de crescer no momento em que deixou S. Miguel, nos Açores, para ir para o Porto com a mãe e os dois irmãos mais novos. Tinha nove anos. O pai nunca soube muito bem quem era. Estudou num colégio de freiras até ao 7º ano. Depois foi trabalhar para Aveiro. “Era empregada numa loja de roupa”. Nessa altura, conheceu o amor que seria de uma vida inteira se agora não o odiasse. “Vivi com ele sete anos. Ele tinha problemas de droga. Tentei ajudá-lo, mas não consegui. Estragou-me a vida. Tirou-me tudo o que tinha”. E também a filha, Catarina, que agora tem sete anos e vive com os avós paternos. “Eles deixam-me vê-la, mas eu não quero que ela me veja assim. Já é grande, já percebe as coisas. E, um dia, quando isto acabar, não quero que ninguém saiba que passei por isto”.

Não diz o que é isto. Os amigos (?) dizem que isto é a heroína. Dizem que vê cobras quando alucina. Ela diz que tem fobia a cobras. E que não tem amigos.

No dia 1 de Abril faz 25 anos. “Já estamos em Fevereiro?”, pergunta. O presente de aniversário é incontornável: regressar aos Açores. “Não estou farta do Porto; mas estou farta da vida que tenho aqui”. E farta que todos digam que a vão ajudar e que depois nunca façam nada. “Todos dão conselhos, principalmente as mulheres: que eu não precisava de andar assim, que me podiam ajudar… mas eu é que sei. Sei que não me lembro da última vez que fiz fisioterapia, sei nem para uma instituição consigo ir e sei que as pessoas falam sempre demais…”

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Pillowman vota Sim

O Pillowman, criação soberba do soberbo dramaturgo irlandês Martin McDonagh's, é a favor da despenalização voluntária da gravidez. O Pillowman, que Paula Rego transformou numa extraordinária obra de arte, defende a possibilidade de abortar como forma de evitar o sofrimento das crianças quando crescerem. O Pillowman, que Tiago Guedes encenou naquela que foi talvez a melhor peça de teatro do ano passado, já faz disso a sua vida: o visionário personagem de almofadas procura crianças a meio da noite, enquanto dormem, e encoraja-as a suicidarem-se para que não tenham de sofrer depois.

E se o Pillowman existisse?

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Repeat

I was lying in my bed last night staring
At a ceiling full of stars
When it suddenly hit me
I just have to let you know how I feel
We live together in a photograph of time

I look into your eyes
And the seas open up to me
I tell you I love you
And I always will
And I know you can't tell me
I know you can't tell me

So I'm left to pick up
The hints, the little symbols of your devotion

And I feel your fists
And I know it's out of love
And I feel the whip
And I know it's out of love
And I feel your burning eyes burning holes
Straight through my heart
It's out of love

I accept and I collect upon my body
The memories of your devotion

Give me a little bit serious love
Give me a little full love
Be full of love
Fists, fists, fists full of love...

'Fistful of Love' by Antony and the Johnsons
( Featuring Lou Reed )

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Rui Rio - Um livro de estilo

Numa semana em que o país parece estar exclusivamente concentrado na discussão sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, só Rui Rio consegue resgatar-me do tédio noticioso e envolver-me na deliciosa bruma das coisas que ainda conseguem surpreender-me.
O autarca portuense prepara-se para lançar um Livro de Estilo de jornalismo, à semelhança dos que foram, há já vários anos, editados pela TSF e pelo Público. E partilhou, no início desta semana, a pré-publicação da obra - espécie de tese de mestrado, que usa como objecto e amostra de estudo as edições dos dias 1 e 2 de Fevereiro do Jornal de Notícias, para tentar provar o "jornalismo de péssima qualidade" seguido por aquele matutino - no habitual site da autarquia. O texto, imodestamente, intitula-se: "Análise: Jornalismo de péssima qualidade para denegrir a Câmara". (Há semióticos na Câmara e ninguém nos disse nada...)
1. Os jornalistas não devem usar "verbos que simbolizam desagrado, hostilidade, manipulação de factos". A saber: revoltar, sobretudo se em causa estiver o que a edilidade supõe ser meia dúzia de pessoas "a trocar impressões" - hoje, às 16 horas, veremos quantas são as pessoas e quais as impressões que efectivamente as mobilizam; ignorar, contestar, retirar, protestar... A lista de verbos vem adicionar-se a uma lista de adjectivos já anteriormente divulgada e onde figura o famigerado "energúmeno", que levou Augusto M. Seabra a sentar-se num tribunal, acusado de abuso de liberdade de expressão.
2. Os jornalistas não podem ser factuais. Alguns exemplos: se existir um lavadouro que parece uma espécie de esgoto a céu aberto, os jornalistas não devem denunciá-lo; menos ainda ilustrá-lo com a fotografia do local sob pena de transmitir da cidade a ideia "de um cenário tipicamente rural"; se a Câmara não renovar, pela primeira vez em cinco anos, um acordo que garante a aferição da qualidade da água pública, o jornal não deve dizê-lo para não parecer que "a Câmara não tem projectos, nem cuida da cidade"; se a Câmara pedir um empréstimo (2,5 milhões de euros), os munícipes não devem sabê-lo.
3. As notícias devem ser equitativamente distribuídas pela região. Se um jornal tiver, por exemplo, um caderno local dedicado à Área Metropolitana do Porto, não deve privilegiar o noticiário daquela que é, por enquanto, e supostamente, a sua principal cidade. Ou seja, em seis páginas de suplemento dedicar-lhe metade é absolutamente inaceitável. O que acontece em Santa Maria da Feira ou na Trofa é tão importante como o que acontece no Porto. Não o encarar desta forma é uma fórmula traiçoeira para "dar uma imagem geral de contestação e revolta na cidade", sobretudo quando "todas as notícias apresentam um título negativo sobre a Câmara do Porto ou mesmo sobre o seu Presidente".
4. Títulos negativos são, obviamente, punidos com retirada de carteira profissional. Rui Rio não é insensível a nada, não ignora nada, não é culpado de nada. Quem disser o contrário, esse sim, é um energúmeno.
5. As citações que até aqui eram usadas para atestar a veracidade das notícias, deverão passar a ser usadas com parcimónia caso não sejam vantajosas para a autarquia. “Vou pagar o dobro e nem vidros tenho” ou “É o mesmo que me dizerem para não comer”; e ainda “A minha reforma só foi aumentada seis euros” serão claramente censuradas.
6. As fotografias deverão ser substituídas por pinturas de... vá lá, Monet. Sim, paisagens. Porque os repórteres fotográficos, contaminados pelo espírito malévolo dos jornalistas, tenderão a construir imagens que coloquem o leitor a ver, literalmente, o contexto da notícia. Por exemplo, o Bairro do Aleixo - um dos maiores centros de tráfico de droga do Porto - não pode fotografar-se a partir de um dos muitos vidros partidos que por lá existem. Isso é querer "montar um efeito de caos" que obviamente não existe ali.
Nas notas finais, Rui Rio conclui que "a polémica linha editorial" do JN é, como esclarece no título da obra, "de péssima qualidade", mas salvaguarda que o estilo usado para noticiar a cidade "contrasta claramente com as restantes páginas do jornal onde os assuntos positivos e negativos são noticiados com aceitável factualidade".
O Livro de Estilo ainda não tem data de publicação, mas é provável que os próximos capítulos continuem a aparecer no site da Câmara.

domingo, fevereiro 04, 2007

Clubbing na Casa da Música

São recorrentes as críticas. E a Casa da Música, enquanto projecto, às vezes, parece estar sempre à beira de se afundar. Ontem esteve toda cheia outra vez. É nessas alturas que é bom sentir que tudo continua a fazer sentido.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Portugal dos pequeninos

No início de Janeiro, quando a maioria ainda não tinha despertado da noite de passagem-de-ano, um bebé era abandonado num centro comercial do Porto. Ninguém o reclamou; ninguém, no seio da família ou do círculo de amigos, suspeitou de alguém que pudesse ter estado, e subitamente deixado de estar, grávida. Nem sequer o putativo pai. O bebé será agora entregue para adopção num processo que, como todos os processos dessa índole, poderá durar 36 meses. Se no último dia desse período surgir algum parente relacionado com a criança, o processo voltará à estaca zero. Nessa altura, o bebé já não será bebé. Terá, pelo menos, três anos. E um ponto de interrogação no caminho.

Em Novembro do ano passado, um bebé foi encontrado ao lado de um contentor do lixo, depositado num banco de jardim de uma qualquer cidade, embrulhado num saco térmico. Resistiu ao frio de Natal por ter sido abandonado como uma sopa. Os médicos ficaram comovidos. Poderá a criança comover-se com a sua resistência quando crescer?

Alguns bebés têm nomes, têm rostos. E têm coisas que nunca ninguém saberá. Mas não tiveram futuro. Porque alguém o abortou. A sangue frio.

Em Maio de 2005, Vanessa, depois de cinco anos de pingue-pongue entre a avó, a mãe e a vizinha a quem chamava madrinha, foi encontrada a boiar no rio Douro. Alguém jurava que ela tinha fugido. Ao contrário, os factos provariam que a criança tinha as pernas queimadas, os braços torrados pela serpentina eléctrica de tostar o leite-creme, o corpo inteiro com marcas de mergulhos involuntários e demorados em água a escaldar. As feridas do coração não eram visíveis a olho nu. Nem no raio X de qualquer especialista.
Na recta final de 2004, Joana desapareceu para sempre. A parede da casa onde foi morta pela mãe e pelo tio denuncia que as suas mãos escorregaram, com suor incrédulo, sobre ela. A parede diz ainda que ouviu a sua dor: “Por favor, por favor”. Mas uma parede não tem vida; não a podia salvar. Quando, um dia, a criança – ou o que sobrou dela -, reaparecer a boiar no rio, numa pocilga, ou numa lixeira será tarde demais. É sempre tarde demais.
Os bebés não podem ser privados da sua vida, mesmo se ainda têm, apenas, dez semanas dentro de um útero. Aprovar a interrupção voluntária da gravidez é quase pecado. Mas podem se ser tratados como sacos descartáveis; podem sofrer até onde as palavras não chegam para o descrever; e podem, quando sobrevivem, crescer ao sabor da imprevisibilidade neurótica de quem os gerou.

No Portugal dos pequeninos valores é assim: podemos ser todos felizes se todos fecharmos os olhos e fizermos de conta. De conta que o Portugal dos pequeninos é o país da Alice-maravilha.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Jay-Jay Johanson


Assistir à falta de competência de alguém que tem para comunicar alguma coisa manifestamente má e não tem capacidade para a transformar numa coisa boa, relevando o que haverá de melhor no que não presta, é frustrante. Num departamento de comunicação ou de relações públicas ou de assessoria, este desempenho nunca poderá ser visto como honesto, porque obviamente ninguém de qualquer um desses departamentos é pago para ser honesto. É pago e educado para fazer brilhar o que poderá ser baço.
Mas quando se assite ao desempenho de alguém que tem nas mãos uma coisa verdadeiramente genial e revela igual incapacidade para a comunicar, a frustração transforma-se numa gritante irritação!
A Casa da Música - quantos assessores e consultores de assessoria tem o raio do equipamento? Cinco? Mais?... - vai ter, no próximo sábado, o imperdível Jay Jay Johanson do magnífico Whiskey de estreia, em 1996 - álbum seguido a espaços mais ou menos longos de Tatto, Poison e Antenna (trabalho mais electrónico) e agora The long term physical effects are not yet know. O sueco esteve no Porto, há dois anos, para um concerto no Teatro Sá da Bandeira. Mas o precioso bónus foi oferecido na discoteca Act, onde o nórdico fez literalmente o que quis com a pista - improvável pista, é certo, de quem claramente desconhecia a luz daquele altar, mas ainda assim, receptiva -, com um DJ set absolutamente efervescente. Único. Com um travo a inacabado. Confesso: há dois anos que espero o regresso do homem. Ele volta daqui a três dias e ninguém disse nada! Devia ser crime. "So tell the girls that I am back in town".
O concerto de Jay Jay (aliás, concerto ou DJ set? Ninguém diz...) insere-se na segunda maratona do Clubbing, potencialíssimo formato que a Casa da Música inaugurou o mês passado... mas em segredo. Vá lá saber-se porquê. Será como o resto da programação que, no curso deste ano, é toda dedicada a Espanha, embora eu desconfie seriamente que o país vizinho desconhece a ilustre dedicatória.
O Clubbing de 3 de Fevereiro começa às 22 horas, é dedicado aos eighties e terá ainda @c+Lia (projecto de Pedro Tudela e Miguel Carvalhais), Phantom Ghost, WhoMadeWho, Rui Pregal da Cunha (ex-vocalista dos Heróis do Mar) e Hang The DJ. A noite custa 20 euros.

terça-feira, janeiro 30, 2007

Raul Brandão


Não é novo: é verdade que não me conformo com a falta de popularidade de Raul Brandão, espécie de Dostoievsky português. Por estes dias, a Relógio D'Água fez de mim uma pessoa mais feliz ao reeditar, na colecção "Obras Clássicas da Literatura Portuguesa - Séc. XX", um dos meus livros de eleição, que nunca consegui ter senão por fotocópias: "A morte do palhaço e o mistério da árvore". Com um bónus precioso: "História dum palhaço (A vida e o diário de K. Maurício). A edição, na verdade, é de Novembro de 2005. Por alguma estranha razão, só a descobri agora.
História dum palhaço
"Vi que a multidão é má e se ri e se despedaça, indiferente, criaturas; vi que há homens tão desgraçados que, se têm dores, são ridículas. As suas amarguras fazem rir a multidão. Nascem para sofrer, eternamente perseguidos, encolhidos, habituados até á desgraça... Outros têm na vida um método e vão por aí fora e tudo subordinam às suas ideias, torcendo a vida para que ela caiba dentro de regras. Riem, choram, atropelam-se. Sofrem e fazem sofrer".
A morte do palhaço
"Encontro a dor no fim de tudo. Não vou para um prazer sem pensar no fim, na desgraça em que tudo se aninha, no tédio de ter realizado... E na minha alma se fez pouco a pouco um grande vácuo, um amargo tédio por a vida ser só isto, por o sol brilhar de uma só forma e por já ter imaginado todas as coisas... E no entanto eu não vivi senão por imaginação... Deixa-me explicar-te isto melhor: é como se eu fosse composto de diferentes seres, cada um com as suas ideias, os seus sonhos e as suas ilusões, e por cada tarde que finda, na luz que cerra os olhos, um desaparecesse para sempre, levando-me uma parte de ventura e de tristeza... Eu nunca estou só. Quando me isolo é que estou mais acompanhado."

"O que é que tu sabes?"

(Foto:JMG)

Sei que vais casar. Sei que é daqui a quatro meses. Sei que ainda não me disseste. Mas não sei porquê. Sei que prometemos casar um com o outro se aos 30 anos ainda não tivéssemos casado com alguém. Sei que dizíamos isso para irritar as pessoas. E sei que gostávamos de as irritar. Sei que ainda não casei. E sei que tu vais casar no mês em que completas 30 anos. Não sei o dia.
Sei que falamos de tudo. Sei que tu, sendo homem, és a minha melhor amiga. E sei que não precisamos falar para nos entendermos. Sei que preferias viver seis meses, talvez mais, sozinho antes de casares. Porque nunca viveste sozinho e gostavas de experimentar. E sei que isso não vai acontecer porque achas que os argumentos do outro lado são mais válidos que os teus. Não sei se serão; mas tu sabes e eu confio em ti.
Sei que gostávamos de trabalhar juntos. Sei que o meu mau feitio anula-se no teu e vice-versa. Sei que talvez isso nunca venha a acontecer porque optámos por carreiras diferentes. Outra vez porque achaste que os argumentos do outro lado eram mais válidos que os teus. Não eram. Isso, eu sei. Sei que gostavas de ter ido por onde fui. E sei que se tivesses ido serias melhor do que eu - és melhor do que eu de qualquer maneira. Mas sei que não achas mesmo que sou burra e gorda e feia quando dizes que sou burra e gorda e feia. Sei que quando estamos juntos somos insuportáveis. Sobretudo em grupo. Sei que fazemos de propósito.
Sei que me ligaste hoje. E sei que hoje não me apetecia nada falar (desculpa!). Sei que não disseste nada do que querias dizer. E sei que o meu silêncio abreviou a conversa. Mas sei que entendeste o que quis dizer quando disse que hoje me sentia com 15 anos.
Sei que vais casar. E sei que tu sabes que eu sei. Era isso que querias saber?

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Importa-se de repetir?

"Se os outros esqueceram porque hei-de eu lembrar-me?"

Teresa Costa Macedo, ouvida no processo Casa Pia, jurando não reconhecer o homem da fotografia depois de anteriormente ter afirmado o contrário.

Passos Manuel


- Até quando vamos andar aqui a beber cervejas?
- Até sempre!
- Até sempre?
- Até já.

Quiz VII

Porque é que há gurosan para a ingestão excessiva de álcool e não há gurosan para a ingestão desmedida de afecto? Porque é que é possível solicitar de urgência uma lavagem ao estômago e não é possível fazer uma lavagem ao coração? Porque é que uma noite de sono cura tudo e ainda não curou isto?

"It's about time"

Assim, de repente, nada contra as instalações que têm sido apresentadas na Casa da Música, no Porto. Primeiro, a de Nuno Grande; na sexta, a de Ricardo Jacinto; até ao fim do ano, serão apresentadas outras nove. Mas o empenho de Guta Moura Guedes em apresentar no edifício de Rem Koolhaas uma espécie de extensão da sua Experimenta Design sempre me pareceu, no mínimo, deslocado. Sobretudo se se considerar que no âmbito específico dos objectivos que o equipamento visa cumprir - a música -, ainda há muitas prioridades por materializar.
O mistério foi entretanto desvendado: a quinta edição da bienal, cujo tema já estava definido - "It's about time" -, foi cancelada "por motivos profundos", explicou a responsável. Suponho que tão profundos como aqueles que ameaçam transformar a Casa da Música numa casa de acolhimento de quem não poderá expor o seu trabalho em Lisboa. We'll see.

sábado, janeiro 27, 2007

Grandes Portugueses

Quem ainda não está farto da eleição do alegado melhor português de sempre que ponha o dedo no ar!

sexta-feira, janeiro 26, 2007

A voz. E o clone.

Falas-me sempre da voz. Sempre, desde o primeiro dia. É a primeira coisa que dizes quando digo olá, sou eu. E és o único a falar dela, da voz. Da voz sem ser para referir a má dicção ou a pronúncia daqui ou dali. Falas da voz com adjectivos insuflados. E lês-me uma crónica de Eduardo Prado Coelho, ao telefone: "Se alguma coisa se incorpora na matéria das vozes que as torna recalcitrantes a quase todas as palavras com que as tentamos definir, essa resistência tem por contraponto o estranho mistério de elas parecerem inesquecíveis - e por vezes, ao atender um telefonema, ao ouvir um programa de rádio, ao encontrar alguém na esquina de uma rua,é uma antiquíssima voz que vem segredar-me ao ouvido que a memória tem mais voltas, estragos e volutas do que possamos imaginar". Falas da voz primeiro e da gargalhada depois. É a segunda coisa que fazemos depois de dizermos olá, sou eu. Invariavelmente. Da gargalhada da saudade. Da saudade de sempre. Sempre incumprida. Parecemos tontos!...
Criámos um ritual de pretextos: tu ligas-me quando tropeças em qualquer coisa escrita sobre o poder da voz ou, mas menos, quando vês um cabelo "a arder". Eu ligo-te quando ouço uma música que descobrimos os dois ou, cada vez mais, quando encontro aquele que me parece ser um clone teu. E voltamos a rir. Dos pretextos. Sempre iguais. Devolvo-te o Prado Coelho por correio: "Há um dia em que sentes que o essencial ficou para trás, que a partir de agora tudo pode ser igual ao anterior mas nada terá a tonalidade que o distinguia, porque nenhum desejo investe o que acontece, porque ultrapassámos uma linha invisível, e aí experimentámos essa forma de morrer que é o puro derrame do sentido, a desolação sem resgate, o declive sereno mas inexorável, a impiedosa expansão de um depois". Seremos tontos?...
Nem a minha voz é como dizes ser, nem o clone é como tu. E também não há caminhos que nos conduzam ao passado, mas "um dia, vamos juntos a Nova Iorque". Promessas para o futuro. Somos tontos.

Beckett


"O ar está cheio dos nossos gritos, mas o hábito é um grande amortecedor".

terça-feira, janeiro 23, 2007

Triplex

Saio de casa como um homem para um encontro de homens que vejo, no máximo, duas vezes por ano. Quando chego, os homens estão a ter uma discussão de mulheres. Usurpo-lhes o tempo de antena. Despejo em catadupa dois ou três assuntos pendentes como quem deposita casacos e carteiras em cima de uma mesa anoréctica, roubando espaço para copos e tabaco. Os interlocutores sorriem, fingem agradecer a aparição súbita. No momento certo para abortar a discussão, disfarçam. Mas quando termino, voltam ferozmente a ela. E já não conseguem sair dali. Não é futebol, nem política, nem a profissão, nem propriamente gajas. É só a versão de uma história que não encaixa. Uma história com bolor ressuscitada numa sala sem aquecimento do Triplex, vá lá saber-se porquê. "Tu sabes que querias que eu contasse"; "Tu sabes que não era para contar"; "Afinal não te conheço como julgava"; "É melhor ficarmos por aqui"; "Mais uma cerveja? Não, estou cansado, quero dormir"; "Fica tu"; "Não, ok, vamos todos".
E fomos. Eu, muda, também. Eu, que nem sequer paguei bilhete para assistir à peça, aceitei desligar os Band of Horses com a St Augustine em repit [we're dancing on the poison in their graves, at the end of the night, we'd all seen better days] e abandonar o calor cansado da lareira só para, por eles, mergulhar no nevoeiro orvalhado da cidade. Encomendei uma daquelas conversas de pessoas que nunca se vêem; serviram-me uma discussão por-pouco-mais-do-que-quase-nada. Ter-me-ía enganado no sítio? Não consegui evitar sentir-me uma criança na cama de um casal, com o olhar em incessante e incrédulo pingue-pongue. Impôs-se o clássico silêncio, sim, matrimonial. Entrecortado a espaços. "Está frio, não está?".
Foi mais comovente do que parece. São amigos de verdade. O telemóvel não precisava tocar. Não passaram dez minutos desde que entrei no táxi. "É só para te dizer que já fizemos as pazes. Vai um copo?"

domingo, janeiro 21, 2007

Otelo

(Foto: Estela Silva)

Otelo, a tragédia de William Shakespeare, é Iago, o personagem. Se a interpretação do inóspito cão-de-guarda do general negro não convencer, a peça fica irremediavelmente manca; se é boa basta para arrastar consigo a ansiedade de uma história que deposita na consciência do espectador uma estranha empatia com o vilão, que o faz quase desejar que ele se salve. Otelo da visão assumidamente pessoal de Nuno M. Cardoso, e centrada no intervalo de tempo em que a opção entre dizer ou calar poderia mudar o desfecho da vida, é irrepreensível.

Os papeis inverteram-se e Nuno Cardoso (sem M) volta ao palco pelas mãos de um dos actores que mais vezes dirigiu nos últimos anos: Nuno M. Cardoso, agora, também, no lugar -conseguido - de encenador. A última vez havia sido em Gretchen, a partir de «Fausto», de Goethe (2003), numa interpretação morna. Desta vez, Nuno Cardoso/Iago mostra que não é só o melhor encenador que Portugal descobriu nos últimos anos ["Parasitas", de Marius von Mayenburg; "Woyzeck", de Georg Büchner; "O Despertar da Primavera", de Frank Wedekind; "Plasticina", de Vassili Sigarev...]; é também um dos actores mais consistentes, versáteis e absolutamente inatacáveis. É ele que conduz a peça, que a faz avançar e travar, suster a respiração e rodopiar até à apoteose final.

Iago tem tantas caras quantos os personagens com quem se cruza; talvez mais. É ríspido e frio com Emília (Sara Barbosa), sua mulher e única a saber que ele não é o que parece ser; é solícito e (des)leal com Otelo (Ângelo Torres), o ingénuo general de quem consegue uma ansiada promoção; é ombro amigo de Desdémona (Rita Loureiro), cândida companheira de Otelo que renuncia a tudo, a Veneza, à nobreza, e também à vida, por amor; é o parceiro de sempre de Cássio (Daniel Pinto), supostamente, seu melhor amigo; e força instigadora das ambiçoes amorosas de Rodrigo (Carlos António). Iago é isto tudo. E não é nada disto. É manipulador, cínico, traidor, cruel até à morte.
Otelo, inspirado na novela “Mouro de Veneza” de Giraldo Cinthi, é uma síntese do pior e do melhor que existe em cada um de nós. Do que somos cegamente capazes quando confrontados com o ciúme e a hipótese de infidelidade. E, inversamente, da abnegação quando imbuídos de uma consciência nítida e de amor verdadeiro. Também, e sobretudo, do que o desmedido desejo de poder nos faz fazer. Otelo joga com todas as contradições, todos os desejos, todas as crises, todas as armas. Quem sobreviverá à culpa?
A peça está em cena, hoje, pela última vez, no Teatro Nacional S. João, no Porto.

sábado, janeiro 20, 2007

Paulo Pimenta

(Bloc Party no Festival de Paredes de Coura, em 2006)

Imperdível exposição de Paulo Pimenta, um dos melhores fotojornalistas do panorama nacional, na Galeria da Fnac, em Santa Catarina, no Porto. "As três primeiras músicas" é um álbum de memórias pelos concertos indizíveis de Caetano Veloso, Moonspell, Bloc Party, etc, etc, etc... Até 15 de Março.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Troféu para a analogia mais ridícula

Depois de Sua Santidade o Papa ter comparado o aborto a um "acto terrorista" e D. António Montes Moreira, bispo de Bragança, ter afirmado que o aborto é "uma variante da pena de morte", chegou a vez do economista João César das Neves, segundo o qual a despenalização tornará o aborto "tão banal como um telemóvel".

Deveria haver um prémio para a comparação mais ridícula sobre o tema. Daqui até 11 de Fevereiro hão-de aparecer mais. Pessoalmente, a questão continua a parecer-me tão elementar quanto isto: que direito tenho de decidir a vida da vizinha do lado?

domingo, janeiro 14, 2007

O Porto visto de Lisboa

"Quem espera quatro horas, ao frio, noite dentro, para ver uma exposição de pintura?", pergunta José Manuel Fernandes (JMF), hoje, no editorial do Público. "Os portugueses", responde. À última hora, deveria ter acrescentado. Há quem só tenha acordado para a retrospectiva de Amadeo de Souza-Cardoso, patente na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, desde 14 de Novembro, no último dia e depois de os media terem sucessivas vezes alertado para o acontecimento. Inclusive com aberturas de telejornal. Ainda assim, é um facto: mais de cem mil pessoas em dois meses é, no mínimo, motivador.

"Quem esgota os espectáculos de qualidade, da ópera à dança, que passam pelas nossas grandes cidades? Os portugueses. Quem transformava um longo fim-de-semana numa maratona familiar em que se saltitava de sala de concerto em sala de concerto no Centro Cultural de Belém para não perder pitada da defunta Festa da Música? Ainda os portugueses. Quem torna num sucesso, esgotando sessões, um festival de documentários? De novo os portugueses".

Tal dose de optimismo é quase contagiante! No entanto, é toda relativa à agenda cultural da capital. É lá que se realizam todos os acontecimentos citados por JMF. Agora, atente-se na perigosa diferença quando o olhar do director do Público se inclina sobre o Porto (com excepção da sempre elogiada Serralves).
Depois de afirmar que "o nosso problema não é "criar públicos para a cultura" (...); o nosso problema é responder à solicitação dos públicos que existem e que só não aparecem porque muito do que lhes é oferecido pura e simplesmente não tem qualidade", atira esta pérola: "Protestamos menos pelo desaparecimento de uma Festa da Música (quantos miúdos tiveram naqueles dias, nestes últimos, o seu baptismo da grande música? quantos se começaram a interessar pelo que desprezavam?) do que por um teatro municipal do Porto deixar de acolher espectáculos para 30 pessoas quando tem lugar para centenas.
Pergunto-me quantas vezes JMF esteve no Rivoli e se tem noção de que nos últimos anos (não exactamente nos últimos-últimos) também lá houve meninos "a interessar-se pelo que antes desprezavam". Pela convicção com que escreveu, sou levada a crer que sim, que JMF era um assíduo espectador do Rivoli (apesar de também me considerar e, curiosamente, nunca me ter cruzado com ele). Gostava de saber em que se baseia a afirmação da lotação para 30 pessoas: observação directa? Duvido. Para um líder de um jornal que preza acima de tudo a confirmação e cruzamento de fontes parece-me, no mínimo, um mau exemplo.
Pergunto-me ainda se JMF tenciona vir ao Porto quando Filipe La Féria começar a programar o Teatro Municipal. E finalmente, muito gostava que esclarecesse em que lugar do Porto encontra festivais de documentários, festas da música, arias de ópera e espectáculos de dança... de qualidade.

Fico com a impressão que JMF perdeu uma excelente oportunidade de estar calado.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Preview La Féria

Peles verdadeiras, falsas, às cores - castanhas, pretas, matizadas, brancas; luvas curtas, compridas, sem dedos, de cetim, de pêlo; xailes, echarpes, estolas; tacões-agulha, tacões-régua, todos altos; carteiras e cintos da colecção; sobretudos caxemira e lencinhos-ao-tom no bolso superior direito; madeixas das modalidades todas, extensões, cabelos brancos, muitos, louros também, platinados; uma palete inteira de odores. E Carlos Castro, importado da capital. Passadeira vermelha, claro. E castiçais esguios com velas acesas nas laterais. Casa cheia!
Eis o preview Filipe La Féria exibido hoje na ante-estreia (no Porto; em Lisboa já saiu de cena) de Miss Daisy, peça encenada por Celso Cleto, no Teatro Rivoli, no Porto. Lá dentro, Eunice Muñoz é a estrela da companhia. Atrás dela, na parte que não se vê, uma equipa inteira de pessoas despedidas de fresco. Talvez alguém, no fim, as possa aplaudir. A cada uma das que ajudou a montar o espectáculo. Ou talvez não. Talvez o público seja impedido de o fazer pela dúzia de polícias disfarçada de ninguém. Sim, esses que com ar de lobo-mau e punho fechado afugentavam os arrumadores que pediam à porta do edifício.

Descansa, as estrelas estão lá



"Uma espécie de blog a partir de imagens", de Renato Roque. Vale a pena visitar.

"Vanitas"


Paula Rego está na moda em Portugal. Desta vez, foi a Gulbenkian a encomendar-lhe uma obra. O tríptico "vanitas" celebra o 50º aniversário da Fundação. Teve como ponto de partida um conto de Almeida Faria, agora reeditado, e vai ficar em exposição no Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão.

O tríptico de Paula Rego é uma “reflexão visual acerca do próprio conceito de vanitas enquanto precariedade da nossa frágil existência humana”, disse o autor da história. Eduardo Lourenço, administrador da Fundação, escreve na introdução do conto agora reeditado: “É nas nossas mãos que está a folclórica foice, sem a sombra temerosa de Goya, rodeada de todos os brinquedos do nosso divertimento, indiferente ao tempo e à sua música mortal”.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Rui Rio: obsessões, fobias, traumas

Há qualquer coisa de perverso (deveria dizer sórdido?) e quase masoquista na cabeça de Rui Rio, que o leva a actuar quase sempre da forma errada. Não são só os fins - obviamente discutíveis -; são os meios para os atingir. Se a Cultura parece ser uma fobia, a forma de a suprir é tanto mais insólita quanto o facto de nunca a conseguir concretizar sem o recurso a um circo que nunca prescinde de um batalhão da polícia municipal. Foi assim na substituição da Associação de Gabinete de Desporto do Porto pela Porto Lazer; foi assim quando decretou a privatização do Teatro Rivoli; foi assim hoje com a alegada extinção da Culturporto.
Pergunto-me: para lá da esfera estritamente legal, não encontrará Rui Rio, na sua concha ética, uma forma decente de concretizar as suas medidas? Sem atropelar funcionários ou sem encontrar, posteriormente, na comunicação social a causa do mal da sua desventura?
A esta altura, reler o capítulo do seu programa eleitoral dedicado à Cultura assemelha-se à leitura de uma manual de anedotas. O presidente da Câmara do Porto afirmou, há menos de meio ano, que "o futuro da cidade passa por uma aposta na cultura e por um esforço do sentimento de cidadania e da integração na comunidade". Nota-se.
Acrescentava ainda, para justificar a importância na aposta, que "o Porto 2001 foi uma oportunidade perdida, cujos efeitos se esgotaram no momento, não tendo conseguido criar novos públicos que ajudassem a construir mais facilmente o futuro". Curiosa afirmação quando a ele se deve a falta de continuidade do projecto. E de todos os projectos filhos desse projecto maior. Assim, de repente, em que estado estão os caminhos do romântico? Que foi feito dos ateliers da lada?
Rui Rio comprometia-se também a "ouvir as necessidades sentidas pelas instituições culturais e pelas associações/fundações e participar numa reflexão sobre a importância da cultura para a cidade, pedindo uma programação, com projectos de qualidade, estimulando a inovação". Alguém foi ouvido?
Dizia querer "reafirmar a importância da cultura na cidade, aproximá-la das pessoas, divulgando bem o conceito de cultura que está subjacente a este novo projecto (melhoria das competências, condição para melhor obtenção de emprego, factor de melhoria de vida e de ascenção social) (...), restabelecer uma relação orgulhosa e civilizada dos portuenses com a sua cidade, equilibrar as produções efémeras com o desenvolvimento de projectos estruturantes, remodelar toda a estrutura de divulgação, a começar pela Culturporto, que tem que ser restruturada".
Se isto não é mentir descaradamente, o que é?

terça-feira, janeiro 09, 2007

Importa-se de explicar?

"O Nuno Cardoso foi o jovem encenador mais privilegiado em Portugal nos últimos 30 anos".

Ricardo Pais, hoje, em entrevista ao Diário de Notícias

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Do aborto. E da hipocrisia.

Um problema de saúde obriga-me há alguns anos a visitar o ginecologista com apurada assiduidade. Aliás, os ginecologistas, no plural - quando um está de férias em qualquer lugar exótico tenho sempre o outro. Não é um capricho; é o que tem que ser. Dois homens, amigos de longa data, a trabalhar em cidades diferentes. Médicos irrepreensíveis cuja longevidade do acompanhamento acarreta já algum afecto e muitas, muitas histórias. Uma-consulta-uma-história. Que nunca escrevi. Porque não.
Mas no encalce do segundo referendo sobre a despenalização do aborto é-me inevitável a partilha de uma história que ouvi numa dessas visitas, e que me leva a não ter grandes dúvidas sobre a vitória do "não" a 11 de Fevereiro próximo e sobre a perpetuação da hipocrisia reinante neste país. Faço este preâmbulo para que fique bem claro que a história é real, que estará longe de ser inédita, e que pulula, impune, aqui e ali, mascarada do melhor verniz.
Um dos ginecologistas mantinha uma qualquer tertúlia semanal e de café com companheiros da classe, mas de especialidades diferentes. Conta-me que eram conversas animadas pelas questões da ordem do dia e das convicções de cada um. Numa tarde de 1998, em plena contagem decrescente para o primeiro referendo sobre o aborto em Portugal, discutia-se inevitavelmente a questão. Um dos parceiros defendia as vantagens de o assunto continuar como está, ou seja, com mulheres a irem parar ao banco do Tribunal quando a interrupação da gravidez é descoberta. Ou a rumarem clandestinamente a Espanha. Ou à mesa de um boteco mais ou menos grotesco de uma rua escondida onde uma anacrónica parteira ou enfermeira lhes trata literalmente da saúde.
A argumentação, conta o médico, estava mais centrada no princípio moral do que propriamente na ciência ou em saber quando é que o feto é ou não um efectivo ser humano. Dizia o colega que esse tipo de utentes - as mulheres - seriam na sua grande maioria pessoas mal formadas de classes desafavorecidas ou adolescentes incautas. E que não seria possível, na era do preservativo e do não-tabu sexual, ser conivente com esse tipo de comportamento imprudente. Seria necessário educá-las, mas nunca à custa de uma morte. O fervor da discussão terá levado o homem a abandonar a tertúlia. Não só essa como as que se seguiram. Até um dia.
Até ao dia em que entrou no consultório do ginecologista, julgando este que seria para se desculpar e eventualmente fazerem as pazes. Não era. Era para lhe pedir que fizesse um aborto à mulher. Uma adolescente? Não, obviamente! Uma mulher mal formada de classe baixa? Também não. Uma mulher de 40 anos, no auge da carreira, com dois filhos, e a quem não convinha um terceiro. Não tocaram na conversa que motivou a discórdia entre ambos. Mas o ginecologista confessa que aguardou durante vários dias um cartão ou um telefonema que emitisse um sinal de redenção.
O sinal chegou no dia em que fumava um cigarro à janela. Lá em baixo, no meio de uma manifestação contra a despenalização do aborto, alguém empunhava um cartaz com um braço e erguia o outro na sua direcção, acenando-lhe. Era o homem, sem qualquer laivo de vergonha ou arrependimento, que semanas antes havia pago um aborto à mulher.

domingo, janeiro 07, 2007

FCP 0 - Atlético 1

Fico com a estranha impressão de que para o Atlético foi mais importante ganhar ao FC Porto do que poder vir a ganhar a Taça de Portugal. Em relação aos comentadores da TSF não há dúvidas: ganharam o euromilhões!

Coisas que não disse nos últimos dias...

Demissão de Fernando Almeida: Não há pachorra para os colunistas, vereadores da Oposição, actores e encenadores da praça que agora vêm elogiar as inequívocas qualidades do ex-vereador da Cultura do Porto no seu percurso profissional extra-camarário. Não há pachorra porque nunca isso esteve em causa. No contexto, qualidade seria reconhecer os seus limites e ter capacidade de não aceitar um cargo para o qual não tem manifestamente competência ou margem de manobra. Qualidade seria ainda assumir imediatamente a ruptura quando atinge, seja por que razão for, um ponto de saturação. De preferência, através de outro veículo que não o do silêncio. Aceitar o timming de Rui Rio para anunciar uma demissão que já era conhecida pelo menos há duas semanas nos corredores, e ainda por cima disfarçá-la de incompatíveis compromissos profissionais, tentando aparecer como um infeliz sacrificado, em nada o dignifica. Nem a ele nem a essa cada vez mais misteriosa actividade chamada política.
Passagem-de-ano nos Aliados: Passei pela Baixa do Porto no último dia de 2006 a meio da tarde. E vi a parafernália de palcos e tendinhas patrocinada pela Sport Zone a ser montada nos Aliados. Não resisti a procurar um cartaz para saber o que reservava o programa nocturno. Sem surpresa: Quim Barreiros. O povo dança e Rio Rio agradece. O que distingue o Porto de uma aldeia?
Cabaret Molotov: Fui assistir ao segundo round da peça encenada por João Paulo Seara Cardoso para o Teatro de Marionetas do Porto, no Convento de S. Bento da Vitória. As cadeiras instaladas num salão improvisado (e o mais inadequado possível para aquele tipo de espectáculo) estavam todas ocupadas e o desempenho dos actores é inatacável. Mas no fim, quando vieram receber os aplausos, imensos e justos, foram incapazes de esboçar o mais ténue sorriso. Pareciam quase desconfortáveis. Fiquei a pensar no que aquela súbita timidez representa. Fiquei a pensar no que sentem actores que insistem em actuar numa cidade que rejeita a esmagadora maioria das manifestações culturais. Pensei que se Rui Rio por uma vez assistisse a uma peça de teatro talvez pudesse mudar a sua estratégia. E fiquei a pensar onde estarão as salas alternativas que diz ter para o teatro; essas que ele diz que vai lá “pega e paga”.
Casa da Música: 2007 é o ano de Pedro Burmester – o primeiro em que apresentará a sua programação na instituição e em que será possível confirmar, ou não, a razão de tanta gente ter defendido o seu lugar no equipamento como director artístico. Espero que a entrada de Guta Moura Guedes, posterior ao regresso do pianista, não confunda os mais distraídos na atribuição do mérito, se o houver, a quem é devido.

Execução de Saddam Hussain: Sou contra a pena de morte. E não é pelo nobre elogio da vida ou porque sou incapaz de reconhecer a alguém a autoridade para ceifar a vida de outrem. Sou contra a pena de morte sobretudo pelo que ela, no seu fim, contém de libertação. Um ditador morto por uma ínfima parte dos seus crimes incomoda-me. Incomoda-me a ausência de sofrimento prolongado. E incomoda-me que a sua morte, longe de resolver a guerra do Iraque, sirva apenas para a incendiar. Incomoda-me quase tanto como as aliviadas declarações de George Bush. Que pena não ser possível assistir também ao seu julgamento. Sem pena de morte.

Balanço televisivo Eduardo Cintra Torres: Um crítico a servir-se de um jornal de referência para exercer uma vigança em duas páginas inteirinhas contra a decisão do Conselho Regulador da ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social). De acordo com ECT, a condenação do Conselho relativa ao texto onde escreveu que o Governo teria pressionado a RTP para não dar relevo aos incêndios florestais desse dia, protagoniza um dos piores momentos do ano. Diz ele sobre ele próprio. Lamentável. Para ele e para o Público.

Aulas de compensação: Nas férias de Natal reencontrei a mais temida professora que tive em todo o secundário: nunca faltou, nunca se atrasou, nunca admitiu barulho nas aulas ou desconhecimento sobre a matéria dada. Jantámos e conversámos até perdermos a noção das horas. Aproveitei a oportunidade para a questionar sobre as medidas da Ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, que sempre me pareceram absolutamente dignas de distinção. E a resposta chegou certeira: “É a melhor ministra que a Educação alguma vez teve. Passei anos e anos a ver colegas cansados na sala de professores sem darem uma única aula, sem prepararem um único assunto; a chegarem ao fim do ano lectivo sem saberem o nome dos alunos; a fazer intervalos em aulas de uma hora…” Era a reacção que esperava. Será que um professor de Matemática só sabe matemática? Será assim tão limitado? Limitado ao ponto de não conseguir dar uma aula sobre cultura geral? E os alunos, esses que apareceram nas mais ridículas manifestações de rua a não saber sequer conjugar correctamente os tempos verbais das frases que cuspiam, serão tão pobres ao ponto de se deixarem manipular pelos professores?
Atentado da ETA: Os espanhóis são demasiado dados a manifestações de rua. Ao mínimo sinal de contrariedade juntam-se aos largos magotes em desfiles solenes. Nada contra. Mas pedir a demissão de Zapatero por ter tentado tréguas com o grupo separatista é, no mínimo, rídiculo.

2007

Gosto de anos ímpares. E do dia que chega a seguir ao anterior, como todos os outros, todos os dias, mas que parece mudar tudo. Gosto da sensação de poder começar tudo outra vez. Como se não houvesse memória. E do tempo limitado que essa esperança dura. Quando passa há sempre já alguma coisa que mudou.