sábado, abril 28, 2007

A promessa


Diz que não precisa atravessar oceanos até ao outro canto do mundo para fotografar. E não precisa. Também não precisou da caução de uma qualquer licenciatura em fotografia. A fotografia aconteceu por acaso. E resgatou-o do resto. Nelson d'Aires, que acaba de ganhar o grande prémio BES, na categoria de reportagem, com um trabalho sobre a transladação da urna da Irmã Lúcia, em Fátima, é a melhor revelação dos últimos anos. A prova de que é possível ver pela primeira vez tudo o que já se havia visto antes. E com a impressionante certeza de que não se irá esquecer o que ele cristalizou.

"Se tão pouco não fotografei os rostos dos peregrinos que choravam ao verem a urna a passar por eles, que fotografei eu então? a resposta acho que está nos peregrinos que durante o dia resistiram no santuário de Fátima ao frio, à chuva, à espera de chorarem por eles enquanto rezavam a missa, para no regresso, poderem então celebrar, libertos das amarras do clero, fazendo aquilo que melhor sabem: comer, beber e dançar, ainda que, seja numa estação de serviço da auto-estrada". Nelson D'Aires

A vida por outra vida

Soube sempre que queria salvar vidas. Órfã de pai, mãe em parte incerta, foi adoptada por um casal do Porto que a ajudou a encobrir o problema da asma para que pudesse integrar o corpo da Guarda Nacional Republicana. “Podia ter sido outra coisa qualquer; o que quisesse ser. Mas só queria ser agente da GNR”. Carla Alexandra, “menina cheia de coragem e boa disposição”, tinha 21 anos quando saiu de Gaia para começar a patrulhar as ruas de Lisboa. O sonho parecia cumprido.

Há três anos, numa tarde de Agosto, sentada numa esplanada da Ribeira, anunciava ao pai que a criou a intenção de casar quando sofreu novo ataque de asma. Esquecera-se da imprescindível bomba de oxigénio em casa. Ligaram para o INEM; ninguém atendeu. A ambulância haveria de aparecer nove minutos depois. Mas o cérebro só aguenta quatro minutos sem receber ar. Entrou em paragem cardio-respiratória, tombando para um estado de coma vegetativo do qual nunca mais saiu. Tem 26 anos.

Sem irmãos, sem pais biológicos, sem mãe adoptiva – que, entretanto, faleceu –, com o tutor de sempre à beira dos 80 anos, Carla ficou entregue ao Hospital Militar até a tia Manuela, mulher de coragem e abnegação superior, ter decidido trocar a sua vida pela vida da sobrinha.

“Era encarregada geral dos CTT, ganhava 850 euros”. Despediu-se. Os cuidados de que Carla necessita não se compadecem com horários de trabalho. “Pedi à Câmara uma casa maior – tinha um T2 –; deram-me um apartamento, no Bairro da Boa Nova, em Gaia, que havia sido habitado por uma família de etnia cigana. Estava todo destruído. Mas a autarquia não aceitou pagar as obras de remodelação”.

Manuela, 44 anos, gastou os 15 mil euros que juntou ao longo de uma vida inteira – ela e o marido, varredor de ruas –, a adaptar a habitação. Ficou sem verba para casar a filha, única, que agora vai adiando o matrimónio. Mas ficou, sobretudo, sem dinheiro para comprar o aparelho respiratório de que Carla necessita para viver. O que tem não cobre sequer o que gasta com a medicação da sobrinha, que absorve mais de 400 euros por mês. O marido “tenta fazer cada vez mais horas extraordinárias, mas o dinheiro não estica”.

O aparelho custa 1500 euros; o que têm alugado custa-lhes 200 euros todos os meses. Fraldas, resguardos e pomadas têm sido oferecidos pela Associação de Solidariedade “Ponto de Ajuda”. Os médicos dizem que Carla pode viver mais 50 anos, inerte, na cama. A Manuela vaticinam, desde 1995, apenas, 15 dias de vida. Doente crónica renal, foi-lhe diagnosticado um tumor no fígado; outro no intestino. Recusa tratamentos. Diz que não pode ausentar-se de casa. Vai assinando termos de responsabilidade, uns a seguir aos outros, para sair do hospital de cada vez que tem uma crise. Não quer largar a sobrinha.

Chama-lhe princesa, enceta batalhas de narizes, brinca com ela, liga a aparelhagem durante o dia, enche-lhe o quarto de cor. Dorme ali, no chão, todos os dias, em vigília permanente. Depois de amanhã, Carla será submetida a uma cirurgia ao estômago. Manuela aproveitará a ocasião para retirar a vesícula. “Não vou morrer. Quem tomaria conta da Carla?”

sexta-feira, abril 27, 2007

Alemanha

[AFP]

Alunos do liceu Gutemberg, em Erfurt, na Alemanha, choram as vítimas do tiroteio ocorrido na escola há cinco anos. Na cerimónia foram lembradas as 16 pessoas assassinadas por um antigo aluno que a dia 26 de Abril de 2002 executou a matança, suicidando-se de seguida.

Posição: 2007


O IX volume da Colecção Público/Serralves, intitulado "Propostas da arte portuguesa. Posição 2007" é apresentado, hoje, às 18.30 horas, no Museu de Serralves, no Porto. Estará disponível nas bancas, depois de amanhã, juntamente com o jornal Público. O livro " traça um percurso através da obra de um conjunto de artistas que utilizam meios como a pintura, a escultura, o vídeo, o desenho, a instalação, a fotografia ou a performance para demarcarem territórios de uma singularidade absoluta". Propõe "uma reflexão sobre os modos de produção e partilha da arte contemporânea, a afirmação dos artistas enquanto criadores de plataformas de visibilidade própria e o impacto da utilização da imagem em movimento na produção e recepção da arte actual".

O lançamento da obra, editada por Miguel von Hafe Pérez, crítico de arte e comissário de exposições, actualmente responsável pelo projecto http://www.anamnese.pt/ da Fundação Ilídio Pinho, será acompanhado de um debate, que deverá questionar o que significa, hoje, ser artista em Portugal. Carla Cruz, Daniel Barroca, Eduardo Matos, Isabel Carvalho, Manuel Santos Maia, Mafalda Santos e Pedro Barateiro darão respostas sobre modos de produção, canais de difusão e plataformas de recepção.

quinta-feira, abril 26, 2007

IA vazio. Outra vez.


Foi o segundo homem do Porto a tentar dirigir o Instituto das Artes (IA); o segundo a não conseguir. Paulo Cunha e Silva fartou-se, há quatro anos, de dissertar sobre as potencialidades da sigla IA, mas acabou por sair antes do fim do mandato, numa história, até hoje, muito mal explicada. Jorge Vaz de Carvalho afirma, agora, em entrevista ao Primeiro de Janeiro, que sai porque não era feliz no que fazia; porque o Instituto "é muito burocrático e pouco criativo", e porque nunca imaginou que as suas funções pudessem resumir-se a "a fazer concursos e a dar apoios".

Mesmo que seja nomeado, já amanhã, novo sucessor, Isabel Pires de Lima tem mais um problema, e grave, para resolver. Se já não são só os artistas que se queixam; se dois directores seguidos não conseguem responder às necessidades do panorama cultural, não será altura de repensar o sistema?

quarta-feira, abril 25, 2007

Freedom

"Sendo fenómenos atómicos discretos, as permutas de electrões, no interior do cérebro, entre os neurórios e as sinapses, estão em princípio dependentes da imprevisibilidade quântica. Mas o número elevado de neurónios faz com que, por anulação estatística das diferenças elementares, o comportamento humano seja - tanto nas suas linhas de força como nos pormenores - tão perfeitamente previsível como o de qualquer sistema natural. No entanto, em algumas circunstâncias extremamente raras, que os cristãos caracterizam como intervenção da graça - uma onda de coerência nova surge e propaga-se no interior do cérebro. Aparece então um novo comportamento, temporário ou definitivo, regido por um sistema inteiramente diferente de osciladores harmónicos, e pode então observar-se aquilo a que se chama um acto livre".
Michel Houellebecq in Partículas Elementares

segunda-feira, abril 23, 2007

Rainbow

A capela é fria e sombria como são sempre as capelas todas. O ar pesa sobre a cabeça. Há humidade acumulada do cansaço, da chuva interior e de um vai-e-vém de estranhos e menos estranhos que nunca se inibem de, invisivelmente, esticar o dedo indicador para gritar "presente". Antecâmara de uma tempestade. É sempre assim.

Entro decidida a não cumprir mais do que o mínimo estritamente imposto pelo protocolo da amizade incumprida. Não porque o coração me fale de regras sociais, de condutas e parcimónia; mas porque não quero que penses que só estou aqui por causa da tragédia. Que se a tragédia não tivesse acontecido, nunca iria aparecer. A verdade é que só estou aqui por causa disso. Se isso não tivesse acontecido, talvez nunca caminhasse em direcção a ti. Nunca caminhei. E podia tê-lo feito. Isso, neste preciso instante, envergonha-me. Mais, dói-me.

Entro na capela pela primeira vez desde a vez do avô. Percebo imediatamente que nunca chega a haver tempo para recuperar o prazer de cheirar as flores. As flores trazem sempre perdas agarradas ao cheiro. Não tenciono sequer dar-te os dois beijos com a etiqueta das condolências. Talvez, apenas, piscar-te um olho, soprar-te um sorriso; quando muito, pousar apressadamente a mão no teu ombro. Sim, achava que para quem se perdeu há tanto tempo, isso seria suficiente. Ou, pelo menos, menos embaraçoso. O pudor, às vezes, tem em nós efeitos contraditórios. É difícil saber o que é mais acertado.

Procuro com o olhar alguém em quem possa depositar a dor, funda e genuína, mas infinitamente inferior à tua. Quando o olhar estaciona, já estou a tropeçar nos teus pés como tropeçava, aflita, quando éramos pequenos e, ao domingo à noite, atiravas pedras para a janela do meu quarto para nos despedirmos antes de ires para o seminário. Não sei quem caiu no colo de quem. Mas, às tantas, estamos ali, outra vez, nos braços um do outro. Um abraço apertado, demorado, do coração. A vida inteira dentro desse abraço. Volto a tratar-te pelo diminutivo. Tu, também. Os nomes com diminutivo só são permitidos aos amigos de infância. São os únicos que conhecem a chave de um tesouro a que nunca mais ninguém terá acesso.

domingo, abril 22, 2007

Creep

Ele vai casar num dia qualquer do Verão. Ela vai continuar a espalhar a poeira da desordem em corações masculinos que, ainda não sabem, mas não hão-de recuperar. Ele vai casar com alguém que tem o nome dela, mas que não é ela. Diz a rir que assim que nunca se engana. Ela não se perdoa, mas também não se arrepende de ter traído com ele o namorado que, por causa disso, perdeu. Disse que tinha que ser, que sabia que haveria de ser, nem que fosse com o único homem que não merecia. Ele acredita que ela ainda treme quando ele chega. Ela responde que ele nunca andará com ninguém à chuva como anda com ela. Ele confessa que ainda tem ciúmes. Ela recorda-lhe que ele vai casar.

Ele é do Norte. Ela é do Sul. Conheceram-se no mês do Verão que ele escolheu para casar. Há dez anos que falam todas as semanas ao telefone. Nem que seja para dizerem que não têm nada para dizer. Contam os dias para se encontrarem, três, quatro vezes por ano, não mais. E nunca de propósito. É imperativo que haja acontecimentos sociais de ordem colectiva: funerais, casamentos ou celebrações de espécie aproximada. E quando se encontram não se largam. Não é sequer um acordo tácito - é assim, são parte um do outro. Ele vai casar com a namorada que já traiu com ela. Ela limpa os óculos, ri, diz que está tudo bem. Lembra que têm uma canção só deles, como os namorados. Ele diz que não tem uma canção com mais ninguém. "I wish i was special; you're so fuckin' special..."

quinta-feira, abril 19, 2007

Michel Houellebecq: As partículas elementares


"Conhecemos as pessoas durante anos, até mesmo dezenas de anos, habituamo-nos a evitar os problemas pessoais e os assuntos verdadeiramente importantes, mas guardamos a esperança de que, mais tarde, em circunstâncias mais favoráveis, se possam justamente abordar esses assuntos e esses problemas. A esperança, sempre adiada, de um relacionamento mais humano e mais completo nunca desaparece completamente, porque nenhuma relação humana se contenta com limites definitivos, restritos e rígidos, Permanece, portanto, a esperança, de que haja um dia uma relação «autêntica e profunda». E permanece durante anos, até mesmo décadas, até que um acontecimento definitivo, brutal (em geral, uma coisa como a morte) vem dizer-nos que é demasiado tarde, que essa relação «autêntica e profunda», cuja imagem tínhamos amado, também não existirá; não existirá, tal como as outras".

domingo, abril 01, 2007

The End


Sem ilusões não há desilusões. Sem metas traçadas não há caminhos fracassados. Sem ilusões e sem metas o Coriscos chegou ao fim. Ao fim de quase 500 posts e mais de 15 mil visitantes - a maior parte por engano, obviamente. Houve dias que superaram as cem visitas - preciosas para massajar a fragilidade do ego - e nunca dias de visita nenhuma. Mesmo quando a vida estava em pause. E o que existia era tão inócuo que não merecia sequer a abertura da janela. Os números, apesar de tudo, revelam pouco, quase nada deste ano e meio.
Os blogues são como as histórias de amor - quase sempre acabam, quase sempre quando há juras de eternidade. E como no amor, é bom enquanto dura. No início, a dependência intelectual encontra prazer no corpo inteiro. Depois, vai esmorecendo, obedecendo a intermitências. Por fim, a liberdade que antes se sentira transforma-se numa prisão. A liberdade de tudo poder dizer, sem condições e sem condicionantes, a vida que se sabe ou que julga saber-se, as opiniões que dispensam sustentabilidade, que podem só atirar-se para uma plataforma sem juíz como quem atira o coração do topo de um precipício. A liberdade de ceder à tentação, que só se percebe irresistível quando se experimenta, de escrever sobre o que antes se criticara: as declarações de amor, de amizade, os episódios que não interessam a ninguém senão a quem os protagoniza, os momentos de fraqueza, os nossos, os dos outros, a vampirização da vida alheia que se reconstrói com bacoco pretensiosismo literário, as saudades do passado e de quase tudo, os medos, os fracassos, as paixões efémeras, as obsessões, as dúvidas, as inquiteções, as férias, as boas, as menos boas. As viagens, o país. O mundo. A política da paróquia; a política da nação. As embirrações. A efervescência. E a partilha do que se , do que se ouve, em casa, em concertos memoráveis, em festivais, do que se no cinema, no teatro - os dramaturgos que nos enchem, os encenadores que nos desarmam -, nas galerias de arte, na rua, do que nos rende, dói, comove, exalta, exaspera, desespera, prende, o que achamos que podemos antecipar ou salvar, sempre com a secreta de esperança de inspirar alguém ou alguma coisa que não se sabe muito bem quem ou o que é. Nem sequer se sabe se o motor da motivação é o outro ou simplesmente o umbigo.
O Coriscos foi essa plataforma alternativa, livre, apaixonada para uma dessas muitas criaturas que não imagina a vida sem escrever. Foi laboratório de escrita, espécie de work in progress numa tentativa desesperada de escrever mais, de escrever melhor, de testar registos, de acelerar a escrita. De perpetuar o momento que não volta. Mas sempre ao sabor do vento. Um espaço de anarquia. Onde era possível nascer e morrer todos os dias. Até ser tão alternativo e livre e apaixonado que o prazer do corpo deixou de acompanhar o desejo intelectual. Transformou-se num espaço irreal, autista, num repositório de verdades dúbias, de vida que não existia senão para ser debitada. E da liberdade ficou só essa dependência vagamente insana. Como se fosse possível cumprir aqui o que não se cumpre, e devia, noutras paragens.
"Somos todos pretensiosos porque todos fingimos ser aquilo que tentamos cumprir". Não é axioma, mas vale a pensar nisto. O Coriscos nasceu em segredo e cresceu à vista de toda a gente. Ganhou amigos, insuspeitos e improváveis. E foi bom enquanto durou. Mas agora o vento sopra para parte incerta. E exige silêncio. Obrigada pela viagem.

quarta-feira, março 28, 2007

Kameraphoto


(Foto: Rui Xavier)
Para comemorar o seu segundo aniversário a Kgaleria apresenta TXT, um novo projecto do colectivo Kameraphoto. TXT convida o público a confrontar o seu imaginário visual com a realidade das imagens. E permite a aquisição de imagens dos fotógrafos da Kameraphoto - Alexandre Almeida, António Júlio Duarte, Augusto Brázio, Céu Guarda, Guillaume Pazat, João Carvalho Pina, Jordi Burch, Martim Ramos, Nélson D´Aires, Pauliana Valente Pimentel, Pedro Letria, Rui Xavier, Sandra Rocha, Valter Vinagre - a um preço simbólico de 10 euros.
A exposição inaugura hoje às 18.30 horas, na Rua da Vinha, 43A, no Bairro Alto, em Lisboa.

terça-feira, março 27, 2007

Dia Mundial do Teatro

(Foto: Jordi Burch)

"O teatro é apenas uma grande lição de estranheza."

Exercício de cidadania II

Os pontos em discussão não eram extensos nem propriamente palpitantes - não ofereciam muita margem para discórdia ou, pelo menos, para grandes elocubrações verborreicas. Mas, mesmo quando assim é, costuma sobrar espaço para a redundante piada de pacotilha.
Hoje foi diferente. Sem Rui Rio na audiência, a reunião da Assembleia Municipal do Porto pareceu, finalmente, uma câmara de adultos. Decorreu de forma pacífica, educada, correcta. Não foi só a ironia do autarca que faltou, ou os seus comentários laterais de gosto duvidoso; foi também a falta de vontade dos seus parceiros de bancada - Lino Ferreira, postura inatacável em qualquer cenário, invariavelmente excluído desta interpretação -, para mostrar habilidades em tentativas sucessivas de impressionar o mestre. Álvaro Castello-Branco, habitualmente disperso nessas manobras circenses, (a)pareceu reinventado. Pareceu um adulto civilizado em vez de um menino de escola carente.
Escorregou Manuel Monteiro, deputado do PSD, de lição estudada, mas demonstrando imperdoável falta de respeito pelos congéneres mais novos. A referência perjorativa à idade do socialista Pedro Couto, na sequência - ainda por cima - de uma intervenção consistente, não podia ter-lhe ficado pior.
Excepcionalmente, a expectativa esteve concentrada nas alegações do público: a comunidade de ciganos que irá ser despejada das barracas do Freixo. Houve quem reclamasse igualdade de direitos. Lino Ferreira, outra vez superior, respondeu com a igualdade de deveres. E os lesados não contestaram.

segunda-feira, março 26, 2007

The Good Girl`s Stories


"Enredadas na memória, as telas expostas constituem uma viagem da pintora na sua própria vida, sabendo nós que as soluções forjadas na infância e os expedientes criativos podem regressar mais tarde em momentos imprevistos. Há uma marca que fica inscrita no modo como encaramos o mundo e a vida; e a matriz de Evelina Oliveira na criação plástica é certamente tributária desse tempo em que as bonecas de papel protagonizavam histórias entre o mais aventuroso ou o mais recatado.
As figuras, ou a figura feminina, porque se trata quase sempre de uma figura feminina, evocam, naturalmente, a infância de filha única, o tempo de solidão povoada por histórias inventadas, de brincadeiras improvisadas, de esperas intermináveis e férias muito longas que faziam funcionar a imaginação e a criatividade". (Laura Castro)
Evelina Oliveira - pintura
«The Good Girl`s Stories»
Ao Quadrado Galeria de Arte Contemporânea
Santa Maria da Feira
De 31 de Março a 30 de Abril

Porto


O Porto, magnificamente fotografado, para ver aqui.

sábado, março 24, 2007

Direito à felicidade


“Pergunta-se hoje se ser feliz é imoral e proclama-se o direito à felicidade a qualquer preço, ainda que isso signifique a rasura da ética, a substituição da racionalidade pela sedução, a incapacidade de convívio produtivo com a dor, sempre excluída ou anestesiada”.

João Barrento in “A espiral vertiginosa”

sexta-feira, março 23, 2007

Lição número cem

Na Primavera começava a contagem decrescente. Os cadernos pretos encadernados com a arte que à altura admirávamos já quase não tinham páginas brancas, mas sabíamos que não tínhamos que comprar cadernos novos. Juntavam-se umas folhas A4 emprestadas e serviam perfeitamente para apontar uns sumários aos quais já não daríamos grande importância. Como se o sol fosse a fronteira que ditava a matéria que já não sairia nos testes. Os livros, já todos amarrotados, serviam-nos de almofadas nos intervalos. E os intervalos eram cada vez maiores porque descobríamos o prazer de chegar depois do segundo toque, de sentar na última fila, de não esticar o dedo para responder às perguntas só porque não - o sabor de quem sabe que está no fim da linha. De quem tem os pés na sala e a cabeça onde a voz do professor não chega.

Experimentávamos, com a excitação dos rituais clandestinos, os primeiros cigarros atrás dos pavilhões; alguns trocavam os primeiros beijos. Os contínuos, com os olhos dentro dos bolsos das batas, fingiam não ver. Sorriam discretamente, não como guardiães daquele segredo; mas como se só eles soubessem que nenhum amor sobreviveria às férias grandes. Havia sempre só um rapaz desejado - o mais marginal e tendencialmente o mais velho; sempre só uma rapariga - a mais bonita. Ninguém ficava triste com isso. Era assim. No ano seguinte, talvez os eleitos fossem outros. Eram outros. Trocavam-se bilhetes, promessas enigmáticas escritas a giz nos postes pretos dos corredores. E sonhos, que não eram de Verão, mas do próximo campeonato lectivo. E tudo batia sempre certo. Como nos filmes. Nenhuma história capotava.

Um dia, saíamos de casa para a escola sabendo que não teríamos escola. A lição número cem de cada disciplina era comemorada com pic-nic e gazeta. E euforia. Não era só o ano lectivo que estava quase a acabar. Eram esses amores, protelados durante três períodos, que floresciam, finalmente. Eram as frases silenciadas que ganhavam forma. Era a súbita confiança com os professores e a argumentação que os convencia a esticar um quatro para um cinco - ou um dois para um três. E eles cediam, certamente convictos de que inflacionar notas na aldeia não haveria de corromper o mundo. Era o contraditório desejo de que não acabasse já ali a maratona das aulas. Embora se faltasse cada vez mais às aulas. Embora ser expulso delas se tornasse num improvável momento de glória. Os inquilinos das cadeiras dispostas atrás das mesas em forma de U mudavam nas últimas semanas: as equipas sexistas eram substituídas por casais.

Íamos para o rio na recta final do percurso. E ninguém se sepultava primeiro dentro de um solário por temer exibir a brancura epidérmica. Ser mais ou menos gordo também não era obstáculo para vestir os biquinis da época anterior. Não era relevante. Não se falava disso. Falava-se de tudo o que se calou durante um programa curricular inteiro. Partilhavam-se ideais, caminhos de futuro. E antecipava-se a viagem anual, onde mais paixões haveriam de surgir. Viagens ali, ao virar da esquina, que nos deslumbravam como cruzeiros. Havia sempre alguém, geralmente o rapaz marginal cobiçado, que saltava da ponte mais alta. E sempre alguém que levava um rádio de pilhas com os hits do momento.

Depois, os viciados como eu, iam jogar Tetris até não haver mais moedas no raio de cinquenta metros. Nem os empregados do café eram poupados ao peditório. Tudo em nome de um novo recorde. Bebia-se café com natas. Aguardava-se o baile de fim de tarde, derradeiro momento para angariação de fundos e slows suados dançados às escuras. O concerto nocturno das bandas de garagem da terra encerraria um capítulo que todos sabiam que haveriam de contar vezes e vezes sem conta pela vida fora.

Voltávamos no ano seguinte. E nunca voltávamos iguais. Voltavam os enérgicos debates para a eleição da associação de estudantes. Vitórias emolduradas. Devagar, talvez com maior vagar do que nos sítios onde viviam as pessoas que conhecíamos Verão-após-Verão, crescíamos mais um bocadinho. Mas continuávamos a acreditar, tão cândidos como no início, que nunca haveríamos de nos separar. No fim dos anos lectivos todos, doze seguidos, candidatámo-nos, os seis do núcleo duro, à mesma cidade. Lisboa era a mais conveniente para um, para o que queria Comunicação Social; logo, a mais conveniente para todos. Donos do nosso pequeno pódio transmontano, não estávamos habituados a ser driblados pela ideia de que há mais mundo além do nosso. Ficámos todos separados.
["Amizade fresca, assim, aos 30 anos, é coisa rara!", disse-me poucas semanas depois de o ter conhecido. Eu senti que foi amor à primeira vista. À primeira vista, o amor dispensa universos comuns. Mas nós até temos alguma identidade nos universos. E, ainda assim, não é isso que é relevante. Redescobri o Porto com ele, que é de Lisboa. Fui feliz durante uma semana como já não me lembrava de ser. E quase adoeci de saudade quando foi embora - ele e o parceiro com nome de whisky. Se houvesse desejos garantidos dentro de lâmpadas mágicas, pedia para morarmos na mesma rua. Como não há, vou respeitando os acasos. Pediu-me um post para pendurar na janela do Arranha-Céus onde vive; partilhei este, insegura. Eu escrevo como calha; ele escreve de forma inatacável: directo, certeiro, ao fundo. E não só na América. Um dia, ouvi alguém dizer que é a alegria que distingue as pessoas que vivem no céu das que vivem na terra. Ele, claro, está no céu. "Amizade fresca, assim, aos 30 anos, é coisa rara", concordo, certa de que o que ainda não partilhámos será maior do que o que já vivemos. O Ricky é amizade sem carapaça.]

quinta-feira, março 22, 2007

Diálogos pueris XX


Ele: Gostava de ter estado mais tempo contigo. Sozinho contigo, digo.
Ela: Pois...
Ele: Aliás, tenho pensado numa carta para ti, mas não sei se alguma vez a vou escrever...
Ela: Então?
Ele: São apenas ideias sobre o que vou pensando de ti...
Ela: Que tens pensado?
Ele: No que conheço de ti... Gostei de estar contigo, apesar de tudo.
Ela: Mas não falaste muito...
Ele: Não. Mas achei graça... vives num mundo tão distante...
Ela: Do teu?
Ele: Sim. As histórias, os assuntos, os personagens, que não são os meus...
Ela: Nada será assim tão diferente...
Ele: A sério que é... Estava a provar o teu mundo e a achar um piadão. Aliás, foi essa perspectiva que me deixou a pensar. A ideia que construí de ti é mesmo contrastante...
Ela: Contrastante?!
Ele: Sim. É difícil explicar e até pode ser que seja fruto da minha imaginação "améliana", mas fiquei com a sensação de que eras um personagem demasiado sensível...
Ela: No meio dos outros?
Ele: Sim. Do tipo: como se sente uma rosa entre os espinhos que a embrulham?
Ela: Essa foi a ideia que ganhaste ou que perdeste?
Ele: Não, não... foi com essa ideia que saí de lá... Não te faz sentido nenhum, pois não?
Ela: Não sei bem...
Ele: Reparei em pequenas coisas que podem não fazer sentido nenhum...
Ela: Por exemplo?
Ele: Lembrei-me daquela vez em que tomámos café no meio de um trabalho teu. Já foi há algum tempo e também não é importante. Mas nesse dia reparei que enquanto falavas o teu maxilar ganhava tensão. E acho que foi a primeira vez que reparei nisso...
Ela: Sim, lembro-me dessa tarde...
Ele: Na semana passada pareceu-me que essa tensão estava lá outra vez.
Ela: É possível.
Ele: Curiosamente, senti o maxilar livre quando falavas do que tinhas sentido...
Ela: É verdade, essa tensão existe volta e meia. E deve realmente notar-se, porque não és a primeira pessoa a dizer isso...
Ele: A minha imaginação disse-me automaticamente que és mais livre quando falas dos sentimentos... Mas os espinhos logo mostraram que existem e tu recolheste-te... Foi aí que surgiu a tensão. Mas achei-te muito bonita.
Ela: Para ti, as outras pessoas são espinhos?
Ele: Não sou eu que as vejo assim. Para ti, algumas pessoas é que parecem funcionar como espinhos. Não digo que o sejam sempre. Aliás, talvez não sejam elas os espinhos. Apenas, talvez, sejas tu a flor: delicada, perfumada, atraente. E bonita, como estava a dizer.
Ela: Isso é muita imaginação. Mas sim, às vezes sinto-me dessintonizada... Como se me tivesse enganado no apeadeiro... Tinha escolhido um feito de coisas mais simples... achava eu, pelo menos.
Ele: Percebo bem o que estás a dizer. Nem sempre o hábito faz o monge. Mas não te sinto escrava do que não queres. Precisamente, por seres mais do que isso.
Ela: Queres que me sente no divã?
Ele: Quero saber o que te apetece...

[Diálogos Pueris]

Young@heart





"This is from a documentary shown on Channel 4 in the UK called 'Young@Heart'; the name of the New England octogenarian chorus line. The performer here is Fred Knittle, who suffers from congestive heart failure. This song was intended to be a duet between Fred and another chorus member, Bob Salvini.
Sadly, Bob died of a heart attack and it was left to Fred to carry the song on his own. If I'm correct, the people you see crying at 01:13 are Bob's family. The lady you occasionally see mouthing the lyrics in the audience is Fred's wife".

Fix You, by Coldplay

When you try your best but you don't succeed
When you get what you want but not what you need
When you feel so tired but you can't sleep
Stuck in reverse

When the tears come streaming down your face
When you lose something you can't replace
When you love someone but it goes to waste
Could it be worse?

Lights will guide you home
And ignite your bones
And I will try to fix you

And high up above or down below
When you're too in love to let it go
If you never try then you'll never know
Just what you're worth

Lights will guide you home
And ignite you bones
And I will try to fix you

Tears stream down your face
When you lose something you cannot replace
Tears stream down your face
And I...

Tears stream down your face
I promise you that I'll learn from my mistakes
Tears stream down your face
And I...

Lights will guide to home
And ignite to bones
And I will try to fix you

quarta-feira, março 21, 2007

Factory girl


Edie Sedgwick, pobre menina rica, queria ser famosa. Andy Warhol, maníaco artista pop, concedeu-lhe 15 minutos. Um dia, todos teriam os seus, apregoava. Edie apaixonou-se inelutavelmente por ele. Andy sugou-lhe impiedosamente a alma. Viveram juntos durante um ano. Enquanto ela teve capital para esbanjar. Depois, ele trocou-a por outra. Por outra parecida com ela. Ela chorou nos braços da heroína. Sem Bob Dylan, por quem se apaixonara, mas de forma carnal. E com o sonho destruído. Suicidou-se aos 28 anos, três meses depois de ter rodado uma espécie de autobiografia da decadência: "Ciao, Manhatthan", realizado por John Palmer e David Weisman, em 1972.
Factory Girl, de George Hickenlooper (com desempenhos absolutamente notáveis de Sienna Miller e Guy Pierce), que deverá chegar a Portugal em Maio, é o impressionante retrato desses 12 meses de 1965, de devaneio semi-conjugal dentro de uma fábrica - dentro da Fábrica. E é o fim do mito Warhol - criatura oportunista, interesseira, insensível, egocêntrica, mesquinha, obstinada, ridícula, no limiar do patético. E de cuja obra, pessoalmente, nunca gostei.
Bob Dylan tentou incompreensivelmente impedir a estreia do filme, no início deste ano, nos Estados Unidos. Mas, se fosse vivo, seria seguramente Andy Warhol a mover uma providência cautelar. Depois de espiar o seu laboratório, como quem inspecciona o seu interior decrépito, é impossível continuar a considerá-lo. Um artista não despreza a sua musa. Não a assassina.
Sem ele, talvez ela, rapidamente reconhecida como rainha do cinema underground, nunca tivesse cumprido o desejo de ser famosa. Foi protagonista de “Poor Little Rich Girl”, “Kitchen”, "Vynil" e “Beauty No. 2” e recrutada para inúmeros editoriais de moda. E talvez até tenha sido feliz. Na vertigem das festas e da transgressão. Pela primeira vez, graças à sua irreverência, a alta sociedade descia à rua, expunha-se, frequentava a Factory.
Mas sem ela, teria Warhol conseguido sobreviver à falência?